Capítulo 3: Tratamento onírico
Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem de algum filme passado no século XIX. Ainda tenho sentimentos conflitantes com relação a isso, pois sempre fui uma criatura que apreciava o novo e moderno (ah, como sinto falta da internet), mas sabia contemplar a beleza das construções e mobílias clássicas.
Há quatro janelas esguias, adornadas com cortinas de veludo vermelho, com os famosos penduricalhos dourados nas extremidades. A poltrona fora confeccionada com o mesmo tecido e estilo, e por vezes, ria-me imaginando ver algum aristocrata impotente sentado ali.
A cama é de madeira robusta, com entalhes perfeitos e possui quatro pilares, que sustentam o voil branco. Acho desnecessário todo esse luxo exacerbado, mas reconheço que é extremamente belo. Ao deitar-me na cama, o colchão parece dar um terno abraço materno, e sinto esvair toda a sensação de desconforto, se é que ainda restava alguma.
***
Acordei com a Lisa miando com uma urgência que me preocupou. Levantei-me para pegá-la, e ela correu em direção à porta e parou, como se esperasse que eu a abrisse. Abri. Continuou miando, andando e parando, exigindo de mim uma agilidade impossível.
Transparecia uma feição diferente, densa, como se não tivesse tempo para mais nada e somente precisasse me conduzir a algum lugar.
A escuridão impregnava as superfícies e conferia ao Castelo um aspecto ainda mais sombrio e enigmático, e em dado momento, quando ela virou-se para mim, avistei duas luzes violetas no lugar onde seriam seus olhos. "Ah Lisa, vamos voltar para cama, estou tão exausta que já estou vendo coisas", mas ela continuava irredutível em sua missão autoimposta.
Ainda não conhecia (e não conheço) os pormenores do Castelo. Existem várias portas, corredores e ambientes, e eu, que nunca tive boa percepção espacial, via-me cada vez mais perdida. Mas ela sabia exatamente onde estávamos e para onde íamos. Parou em frente a uma porta, e entendi que era o nosso destino. Bati, perguntando se havia alguém ali dentro e recebi o silêncio como resposta.
Girei lentamente a maçaneta, ainda preocupada de estar invadindo a privacidade de alguém. Era um banheiro. Amplo e claro demais, não combinava com os demais locais que havíamos percorrido até chegarmos ali. Contudo, entrei.
— Você quer fazer suas necessidades, não é?! — Falei em tom de brincadeira e para minha surpresa ela respondeu.
Estremeci. Estava delirando ou minha gata falou comigo?
Olhei espantada para ela, que sorriu estranhamente em retribuição. Soltei um grito, mas devido às proporções exageradas daquele lugar, creio que ninguém me ouviu. Seus olhos brilhavam em intenso neon arroxeado. Sim, os olhos dela estavam roxos!
Tentei afastar-me, mas ela cresceu até que ficou do tamanho de uma pantera negra, com seus olhos lilás ofuscando minha visão e impedindo-me de sair daquela situação.
— Lisa, o que está acontecendo?
— Não sou Lisa, meu nome é Meia-noite. Venho oferecer-lhe uma chance para recobrar fatos passados, os quais reprimiu para sua segurança. Permita-me conduzi-la para os braços de Uor, será fisicamente indolor, mas precisas confiar em meus métodos, só assim ficarás plenamente curada.
— Isso só pode ser brincadeira, esse lugar é estranho, deve estar mexendo com os meus sentidos... Obrigada, mas não!
E Meia-noite não proferiu mais nenhuma palavra. A intensidade com que as luzes-olhos brilharam foi o suficiente para hipnotizar-me. Calei. A comunicação entre nós, a partir daquele momento, tornou-se telepática. Recebi a sugestão para que eu adentrasse nas águas cor de lavanda da banheira. Ao mergulhar, pude recuperar as memórias perdidas nos recônditos do meu interior. Chorei. Recuperei memórias dos traumas, perdas e dores responsáveis pela dilaceração da minha alma, a sublimação estava em curso. Mesmo inconsciente, resistia, e Meia-noite fazia um esforço hercúleo para manter-me dentro da banheira.
Da cura vem a cicatriz. Com tanta força envolvida, outra criatura surgiu, farejando o meu medo e a minha autodepreciação. Meia-noite não conseguiu impedi-lo de me sufocar, estava sendo pressionada para dentro das águas por uma entidade feroz, envolta em névoa negra e perturbadora. Sua mandíbula, constituída de dentes protuberantes e afiados, era assustadora. Suas garras apertavam meu pescoço e eu quase sucumbi. As águas ficaram cada vez mais escuras, o que era inicialmente cor de lavanda tornava-se púrpura. Gritar não era possível, visto que estava dentro daquelas águas, sufocando. Sentia-me perdendo as forças... Finalmente algo me puxou para fora. Pensei que fosse o Meia-noite.
Quando recobrei a consciência, percebi que ele, Lisa e uma outra gata, estilo persa, com olhos e pelos lilases, olhavam-me assustados:
— Bem-vinda de volta, Alana. Meu nome é Sinen. Trazes muita tristeza dentro de ti. Ainda há recordações que te ferem, mas seria perigoso continuar. — A gata lilás falou e sua voz parecia uma canção antiga, um alívio após o caos que acabara de experienciar.
Meia-noite meneava a cabeça, em sinal de concordância. Com o corpo dolorido e a mente a mil, por algum motivo, estava feliz, mesmo após àquela experiência de quase morte. Lisa aproximou-se gentilmente e disse:
— Acorda!
Acordei com os miados urgentes de Lisa ecoando pelo quarto. Meu corpo doía e latejava, a mente confusa no limiar do sonho e da realidade. No entanto, ainda carrego as marcas no meu pescoço — vestígios daquele tratamento onírico —, e sempre me pergunto quando Meia-noite irá retornar...
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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Ecos de um Jardim Sepulcral
Adentro o campo como quem adentra um sonho, | lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo, | elas flutuam suaves ao toque de leves brisas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Adentro o campo como quem adentra um sonho,
lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo,
elas flutuam suaves ao toque de leves brisas,
parecendo guardar uma paz que jamais acaba.
Mas há algo aqui, algo invisível que rasteja,
um segredo escondido no doce perfume e na cor,
uma inquietude perdida no meio do silêncio
tal qual um coração que bate lentamente.
Caminho, e as flores parecem murmurar,
o som parece uma prece feita no começo da noite,
uma estranha melodia, palavras mal-ditas,
sussurrando meu nome em uma voz que nunca ouvi.
O que diz o campo que fere a minha mente?
Por que o horror se veste de algo tão belo, tão sereno?
É como se escondesse as garras sob suas pétalas.
Há algo ancestral, um toque gelado que toca minha pele.
Não é um jardim, é um túmulo em flor,
uma prisão aveludada que me convida a ficar,
e, no entanto, ao me virar, as lavandas me cercam,
o murmúrio cresce, toma conta do ar,
um canto fúnebre que desencanta a beleza.
Sinto o pavor apertar minha garganta,
e as vozes falam de dor e de sombras,
de destinos que ninguém ousa lembrar,
é como se o campo guardasse os segredos dos mortos
e a alma de que o adentra fosse um preço.
Eu corro, mas os murmúrios me seguem,
as flores balançam como dedos que apontam,
e toda a paz se dissolve em uma neblina,
me deixando só entre sussurros sombrios,
perguntando se algum dia eu estive desperto.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
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Iter
Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido para o seu trabalho: o hospital. As ruas, antes cheias de vida e barulho, agora eram corredores vazios, como se a cidade estivesse presa em um pesadelo interminável. Todos aqueles que não precisavam sair de casa estavam dentro delas. As janelas fechadas e as portas trancadas pareciam observar Dario com um silêncio pesado, como se o isolamento tivesse tornado o próprio ambiente um vigia silencioso. Algumas casas, às cinco da manhã, ainda estavam com as luzes acesas. Ou será que seus moradores tinham acabado de acendê-las?
Dario tinha a impressão de que nunca saberia isso, pois passava exatamente no mesmo horário por ali, e a luz já estava acesa. O vazio ao redor o fazia sentir como se estivesse sendo sugado para dentro da própria monotonia da rotina. Isso ele conseguia aceitar. O que realmente gostaria de saber era por que raios sempre se perguntava a mesma coisa toda manhã? Por quê? Nunca obteria a resposta, a não ser que acordasse antes ou se atrasasse, tendo a imensa sorte de passar por ali no exato momento em que os donos da casa estivessem apagando ou acendendo a luz. Mas, mesmo se descobrisse, isso realmente mudaria alguma coisa? A cidade parecia suspensa no tempo, sem espaço para surpresas, apenas a repetição constante de sua própria solidão.
Gostaria de ter um amigo matemático só para calcular as probabilidades de isso acontecer. Santo Deus! A tática de pensar bobagens para não pensar no caos e no horror que o hospital estava — com vítimas de COVID que não paravam de chegar, gente morrendo nas filas de espera, a nulidade de leitos disponíveis, e ele arriscando a própria vida todos os dias na linha de frente — estava funcionando bem demais. Que tipo de médico sem coração eu sou? Pensar essas idiotices enquanto tantas pessoas morrem todos os dias, a cada momento... Que babaca eu sou.
Ele já havia dobrado o plantão, ido para casa, dormido por quatro horas, e ali estava, passando pela curva atrás do mercado. Hoje, a luz da casa rosa não estava acesa. Sentiu-se estranhamente motivado a olhar para as janelas, reparando que eram amplas. Não havia cortinas. Parecia que os moradores tinham se mudado.
Ou talvez estivessem mortos. Outro dia, ele pensou ter visto um vulto com máscara observando-o lá de dentro. Na ocasião, achou que era coisa de sua cabeça. Ao olhar melhor, viu que as cortinas estavam fechadas, e era apenas o padrão da estampa delas que parecia uma pessoa parada, de máscara, em pé. Sorriu ao perceber que chegava novamente ao impasse de não obter respostas sobre a casa rosa, nem sobre os moradores ou as luzes.
Na volta do hospital, ele nunca passava pela casa rosa, mas desta vez decidiu passar. Lera certa vez em uma revista de neurologia que mudar os caminhos que percorremos habitualmente pode prevenir ou retardar o aparecimento do Alzheimer. Quando passou em frente à casa rosa, desta vez no lado da pista que ficava ao lado dela, viu que havia alguém sentado nos degraus da varanda. Usava um chapéu de abas largas, roupas pretas e uma máscara de tecido branca.
Era sua chance! Decidiu frear e parar em frente à casa. Seu intuito era falar com o morador. Se identificaria como médico, essa era a desculpa perfeita. Perguntaria se ele estava bem, puxaria papo e aproveitaria para perguntar sobre a casa. Sim, sim, era o plano perfeito. Foi isso que pensou enquanto apertava o botão para desprender o cinto. Abriu a porta do carro olhando para a maçaneta — sempre evitava contato visual quando pensava no que iria dizer. Porém, ao dar o primeiro passo em direção à varanda, notou que a figura com o chapéu de abas largas já não estava mais lá. Devo estar me esforçando além dos limites do meu próprio corpo, pensou, nem sequer ouvi a figura se levantar, caminhar, abrir a porta e fechá-la. As luzes da casa rosa estavam apagadas. Dario pensou que não haveria mal nenhum em espiar lá dentro, quem sabe descobrisse algo. Dessa forma, ficaria satisfeito e esqueceria o assunto.
Aproximou-se pé ante pé. Chegou a pensar em parar e retornar para o carro, ir para casa, telefonar para a recepção e avisar que tiraria o dia de folga. O julgamento de Hipócrates o impedia de trabalhar mais. Estava tão estafado que, com certeza, mataria alguém se continuasse a trabalhar. Mesmo querendo ajudar, ele não poderia ultrapassar os limites do próprio corpo. Além disso, aquilo baixaria sua imunidade e ia contra o juramento de Hipócrates.
Mas só faltava um passo para alcançar alguma visão da janela, e ele continuou. A curiosidade sobre a casa rosa — uma casa que, a princípio, era muito parecida com todas as outras — precisava ser sanada. Ela era como uma coceira em seu cérebro, muito mais torturante que o cansaço que estava sentindo.
Foi então que ele viu: uma cadeira e uma corda enrolada sobre ela. Somente isso. Não havia mais nada no cômodo, só isso. A porta que dava para o interior da casa estava fechada. Ele sentiu um aperto no peito. Aqueles objetos o levavam a uma conclusão óbvia: a figura de chapéu era alguém que planejava se matar.
Novamente, Hipócrates o obrigou a bisbilhotar mais. Olhou em direção às casas vizinhas. Já passava da meia-noite, e era época de lockdown. A casa à direita ficava muito distante, e pela janela ele podia ver luzes que pareciam ser de uma TV piscando. A casa à esquerda era amarela, com muitas margaridas plantadas ao redor. Também havia girassóis. Mas, naquele horário, estava tudo desligado e fechado. Parecia ser a casa de algum casal de idosos, que não teria a mínima chance de ouvir nada. Será que algum vizinho sabia o que acontecera com os moradores da casa rosa? Será que havia moradores ou era apenas aquela figura? Porra, eu nem sei se é homem ou mulher.
Decidiu parar de pensar e agir. Se aquilo que ele presumia fosse verdade — e ele tinha quase certeza de que era —, por que mais alguém disporia aqueles objetos daquela forma? Dirigiu-se até a porta principal e girou a maçaneta. A porta estava destrancada. Um pedido de socorro silencioso? Um grito do subconsciente daquela pessoa implorando por ajuda? Talvez... Seus instintos de médico estavam emergindo. Sentia que, pouco a pouco, estava ativo, desperto e atento. Por isso, ouviu alguém derrubar algo muito pequeno na sala. Talvez, sob outras condições — aquelas de antes do lockdown, quando ele ainda não era o médico fatigado e ansioso de agora —, talvez ele não desse atenção ao pequeno barulho. Começou a suar frio e a se arrepender daquela decisão. Quem quer que estivesse ali poderia ser perigoso e ter a mente perturbada...
Alguém acertou sua cabeça com toda a força. Dario despertou no carro, fazendo novamente a curva atrás do mercado. Quando seus olhos pousaram sobre a casa rosa, notou que as luzes estavam apagadas. Foi tudo um pesadelo então? A casa, a cadeira, a corda... Ele se perguntava como tinha ido parar ali de novo. O desconforto crescia, e ele decidiu estacionar para verificar. Precisava ver se a cadeira e a corda ainda estavam lá. Seu corpo estava tenso enquanto caminhava. Ao se aproximar da janela, seu coração acelerou: a cadeira e a corda permaneciam no mesmo lugar, dispostas exatamente como antes.
Desta vez, o medo o corroía de forma diferente. Sua mente gritava para se afastar, para ir para casa. Pensou imediatamente na sua família — e se aquela figura me atacar de novo? Ele imaginou Alícia e sua esposa sozinhas, esperando por ele. Fazia três meses que o lockdown havia começado, e ele mal as via, exceto nas breves horas de descanso. Ainda assim, sentia que sabia mais sobre Mari, a enfermeira do hospital, do que sobre sua própria filha Alícia. Afinal, por que diabos eu não consigo parar?
Mesmo sabendo o que provavelmente iria acontecer, ele girou a maçaneta da porta com o máximo de cuidado, o coração batendo forte. Sentiu o formigamento nas extremidades, a ansiedade apertando-lhe o peito. Ele respirou fundo e entrou, os olhos escaneando o cômodo vazio. Então, um clarão. E, de repente... estava de volta ao carro, mãos no volante, como se nunca tivesse saído de lá.
O carro estava em movimento, a caminho do hospital. As ruas estavam desertas, imóveis, como se a vida tivesse sido drenada de cada esquina. Um medo crescente continuava a corroer sua alma. Suas mãos estavam firmemente presas ao volante, mas ele as sentia molhadas, bem como seu peito por debaixo da camisa. As vitrines dos comércios, uma vez cheias de movimento e cores, agora eram apenas silhuetas vazias e opacas, lembranças do que já fora uma cidade viva. Sabia que era por causa do isolamento, devido à pandemia, mas sentia que algo estava errado.
Olhava para as janelas das casas e, de repente, via diversas silhuetas, todas com máscaras, mesmo dentro de casa. As sombras nos prédios pareciam observá-lo de dentro dos apartamentos escuros, como se o vazio da cidade o julgasse silenciosamente. O medo imperava em cada olhar; as ruas, sem alma, pareciam conspirar contra ele, como se a própria cidade quisesse expurgá-lo. Por que todos estavam observando o seu carro? Eram olhares de julgamento. Mas eu sou médico, caralho! Estou fazendo a minha parte. Olhou para o timer do painel do carro; eram 13:36 da tarde. A essa altura, Alícia e Rebeca já teriam almoçado? 13:36! Ele já deveria ter batido o ponto há horas! Pisou no acelerador e, de repente, na próxima curva, lá estava ela: a casa rosa. Desta vez, com as luzes acesas.
Lá dentro, Alícia, Rebeca e um homem, que ele não soube dizer quem era, almoçavam. As duas sorriam e conversavam animadamente. À medida que se aproximava, notou que o homem vestia suas roupas, tinha a mesma cor de cabelo que ele, os mesmos trejeitos. Quando o estranho se levantou, antes que ele fechasse a persiana, notou, com horror, que era um cara igual a ele — só que muito mais feliz! Por Deus! O que estava acontecendo? Quem era aquele? Sou eu que tenho de estar lá, e não esse cara. Mas o hospital o aguardava. Apesar de estar acelerando, fechou os olhos por alguns segundos, enquanto uma solitária lágrima de desespero e culpa escorria. Quando abriu novamente, a casa rosa estava como antes, luzes apagadas; não quis parar dessa vez e seguiu para o seu trabalho, já que estava atrasado. Por que será que Rebeca não o acordara esta manhã para ele ir trabalhar? Será que ela já não se importava? Depois que a pandemia começara, ele não tivera tempo de conversar com ela. Mas o hospital o aguardava; o juramento de Hipócrates cobrava o seu preço. Ele devia salvar vidas, sua esposa e filha poderiam entender. Elas entendiam?
Ao chegar no hospital, um pouco de normalidade se fez presente; a realidade batia à porta! Muita gente se acotovelava na recepção do hospital, dezenas de pacientes aguardando para dar entrada, acompanhados de parentes desesperados. Dor, miséria e desespero por todo lado. Ele pegou o jaleco no banco do carona e desejou, mais do que nunca, estar com sua família. Será que, enquanto ele trabalhava, havia outro no lugar dele? Buscava, sem sucesso, tentar entender o que estava acontecendo, mas o que ele acabara de experienciar ia além dos limites da sua razão. Quando pisou no saguão do hospital, uma mulher magra e desesperada agarrou o seu braço:
— Doutor! Doutor! Por favor, leva o meu esposo pra dentro com o senhor, senão ele vai morrer; ele não tá conseguindo respirar.
Dario olhou para a mulher apontando para o paciente, um homem que estava com as mãos no peito, cambaleando. Gritou, e algumas enfermeiras acudiram rapidamente, enquanto uma pressionava o ambu, ele realizava a manobra de ressuscitação. Quando olhou para o rosto do paciente, viu seu próprio, mas desacordado, pálido... Chorando, ajoelhada ao lado dele, não mais era a senhora, e sim Rebeca, desesperada e chorando. Não estavam mais no hospital; estavam em casa, ou melhor, na casa rosa. Um clarão tomou conta da sua visão; não quis parar, não queria parar a manobra. Rebeca não iria perdê-lo! Mas novamente não teve força e nem vontade própria para lutar contra a perda de consciência. Acordou novamente atrás do volante do seu carro. Novamente na curva atrás do mercado e em movimento.
Decidiu não olhar para a casa rosa; passou reto. Quando chegou até a esquina, ligou o pisca alerta para a esquerda. A decisão estava tomada; voltaria para casa para verificar a sua família. Apesar de gostar do seu emprego, da sua profissão, entendia que só trabalhava por elas, e se elas não existissem em sua vida, não havia motivo para continuar fazendo o que ele fazia. Iria para casa, abraçaria a sua esposa. Conversaria mais com Alícia. Mais tarde, ligaria para o hospital, dando uma desculpa, e reajustaria o seu horário; sua família também precisava dele.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Entidade
Na fria balada da noite, sob o manto da neblina | Surge figura soturna, felina. | Com sorriso aberto, nova vítima procura. | Caçada furiosa empreende…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na fria balada da noite, sob o manto da neblina
Surge figura soturna, felina.
Com sorriso aberto, nova vítima procura.
Caçada furiosa empreende, mediante animalesca busca
Sem uma única palavra causa pânico e terror
Sangue-frio, entidade de puro horror
Sorriso amarelo, doentio e inebriante
Que rasga tecidos, causador de dor excruciante
Ameaça misteriosa torna a desaparecer
Assim que a mãe noite começa ao horizonte perecer
Assim, poderoso astro-rei desponta
Riso macabro, por fim, encerra sua afronta.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Lymendra Em Desarmonia
A névoa espessa se agarrava às copas das árvores, envoltas em uma luz verde espectral. Em Lymendra, o verde não era apenas uma cor, mas uma força viva...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A névoa espessa se agarrava às copas das árvores, envoltas em uma luz verde espectral. Em Lymendra, o verde não era apenas uma cor, mas uma força viva, uma entidade antiga que sussurrava segredos através das folhas e raízes. A floresta respirava, e cada planta parecia observar atentamente o avanço de Naara, uma alquimista determinada a dominar o poder ancestral escondido naquele solo fértil e enigmático.
Desde jovem, Naara fora instruída nas artes místicas da bruxaria, mas sempre sentira uma atração especial pela natureza. As lendas falavam de um verde capaz de transcender a vida e a morte, de segredos escondidos na profundidade das florestas, onde a vitalidade se entrelaçava com a decadência. Naara sabia que as respostas para a verdadeira transformação, tanto da matéria quanto de si mesma, residiam ali.
À medida que ela avançava, o ambiente ao redor pulsava com uma energia quase consciente. As folhas, embora viçosas, revelavam veias escuras que indicavam o início de uma decomposição lenta, como se a própria natureza compreendesse o ciclo inevitável de morte. Naara sentia em seus ossos o peso da decisão que deveria tomar: avançar em sua busca pelos conhecimentos de Lymendra, e aceitar que o verde que tanto fascinava também trazia consigo a sombra da destruição.
Naara não era a primeira a tentar dominar os segredos de Lymendra. A floresta estava repleta de ecos de outras mulheres que buscavam poder, sabedoria e transcendência. No entanto, o que a diferenciava das outras era sua compreensão da dualidade feminina – a vida e a morte, o nutrir e o destruir. O poder que ela buscava não era apenas sobre a criação de algo novo, mas sobre aceitar que para nascer algo, algo mais deve perecer.
O vento trouxe consigo murmúrios, como vozes femininas entrelaçadas. As folhas dançavam em sincronia, como se reconhecessem a presença de Naara. Ela se aproximou de uma clareira, onde uma fonte de água verde-esmeralda jorrava lentamente. A luz ao redor parecia mais densa, e o ar se enchia de fragrâncias estranhas: aromas doces e pútridos, evocando tanto a primavera quanto o outono de uma única vez.
No centro da fonte havia uma figura esculpida em pedra, uma mulher de formas arredondadas, símbolo da fertilidade e da destruição. Naara reconheceu a representação da Mãe Verde, a entidade guardiã de Lymendra. Os olhos da estátua pareciam segui-la, transmitindo uma sabedoria antiga e silenciosa. Ela sabia que aquele era o teste final. A água brilhante prometia o poder de regeneração, de renascimento, mas também sussurrava sobre a corrupção que viria com tal dádiva.
Ao tocar a superfície da água, Naara sentiu o calor percorrer seus dedos, como se a fonte estivesse viva. Ali, o ciclo de criação e decadência se revelava em sua plenitude. As raízes ao redor se moveram levemente, como se estivessem prestes a enredá-la. A natureza parecia estender seus braços, oferecendo tanto acolhimento quanto a possibilidade de aprisionamento.
Naara compreendeu que o verdadeiro poder feminino residia na aceitação dessa dualidade. Ela não precisava escolher entre florescer ou apodrecer – ela seria ambos. Com essa compreensão, ela mergulhou suas mãos na fonte, deixando o verde se infiltrar em seu ser. As folhas ao redor pareceram responder, vibrando em um uníssono sussurrante. Naquele momento, ela se tornou parte de Lymendra, tanto sua senhora quanto sua serva.
O verde era vida e morte, cura e veneno. Naara não apenas dominou o segredo da alquimia, mas transcendeu a própria natureza humana tornando-se uma bruxa da natureza. Seu corpo pulsava com uma energia nova, porém, por baixo da superfície, a corrupção já começava a se enraizar. Ela sabia que pagaria o preço com o tempo, mas também sabia que agora possuía o poder de moldar o ciclo ao seu favor – de gerar e destruir conforme sua vontade.
Lymendra florescia com a presença de sua nova guardiã. O verde profundo se intensificava, transbordando pelas raízes, folhas e flores. Naara se tornara a expressão máxima da força feminina: criadora e destruidora, vital e corrupta. Sob o olhar atento da Mãe Verde, ela caminhava com a certeza de que, para dominar o ciclo da vida, é preciso abraçar tanto a luz quanto a escuridão.
Na escuridão das florestas de Lymendra, não era apenas a vida e a decadência que se enredavam em uma dança eterna, mas também forças antagônicas. Entre os segredos sombrios da floresta, um antigo alquimista chamado Varkas mantinha seus planos em segredo. Ao contrário de Naara, que buscava a simbiose com a natureza e o equilíbrio alquímico, Varkas via no poder verde de Lymendra uma ferramenta para o caos e a destruição e a transformação por meio do seu poder e de sua vontade.
Varkas era um alquimista de habilidades excepcionais, mas sua ambição havia corrompido sua percepção da natureza. Em vez de harmonia, ele buscava usar os segredos da floresta para desmantelar a ordem natural. Seu objetivo era simples: dominar as forças de Lymendra para espalhar o domínio e posse. Ele acreditava que a natureza, em sua essência, não deveria ser controlada, mas sim desencadeada como uma força bruta, que consumiria tudo à sua volta.
Varkas não agia sozinho. Em seus laboratórios escondidos nas profundezas da floresta, ele criava seres híbridos, misturas de plantas, carne e metal, que serviam como seus espiões e soldados. Essas criaturas, chamadas de espectros verdes, eram uma representação grotesca do potencial destrutivo da natureza corrompida pela ambição humana. Suas presenças eram notadas pela vegetação morta e pelo ar pesado e tóxico que se espalhava por onde passavam.
Entre os espectros verdes, havia uma comandante: Soraya, uma bruxa alquimista traída pelo destino, cuja lealdade a Varkas vinha da promessa de vingança contra aqueles que haviam destruído sua família. Sua habilidade em controlar raízes e plantas era temida até pelos seguidores de Naara. Soraya trazia consigo uma dor profunda que alimentava seu desejo por vingança, tornando-a uma adversária perigosa e implacável.
Enquanto Naara buscava a integração com Lymendra, Varkas pretendia corromper a natureza, destruindo tudo que fosse vivo. Para isso, ele estava determinado a tomar o poder que Naara havia conseguido ao se conectar com a Mãe Verde. Ele acreditava que, ao absorver a energia vital de Naara, seria capaz de libertar um ciclo interminável de destruição e recriação das suas vontades, onde a natureza e a humanidade se submeteriam à sua tirania.
O confronto entre Naara e Varkas, então, seria inevitável. Naara precisaria buscar aliados entre as criaturas da floresta: espíritos antigos, guardiões vegetais e seres etéreos que vagavam entre os limites da vida e da morte. Entre eles, destacava-se Lira, um espírito da floresta, meio planta, meio mulher, que habitava os pântanos de Lymendra. Lira era conhecida por suas habilidades curativas e por seu profundo conhecimento das raízes da floresta. Embora desconfiada dos humanos, Lira estava ciente do perigo que Varkas representava e poderia ser convencida a ajudar Naara.
Outro personagem importante seria Iro, um caçador de sombras que se movimentava entre os limites da floresta e as aldeias circunvizinhas. Ele tinha um passado sombrio com Varkas, que havia destruído sua tribo e o deixado marcado por cicatrizes tanto físicas quanto espirituais. Iro possuía conhecimentos táticos valiosos e uma conexão misteriosa com a fauna local, podendo se comunicar com animais e direcioná-los em combate.
Naara mantinha a postura firme enquanto encarava Varkas, mas por dentro, sentia o desconforto crescer. Ele não havia se movido, mas algo no ar mudou; era como se a natureza ao redor se curvasse levemente, como que respondendo ao comando de um mestre sombrio. Varkas sorriu, percebendo a tensão.
— Você realmente acredita que pode me impedir? — Ele disse com um tom suave, quase sedutor. — Eu poderia acabar com esta floresta agora, se quisesse. Veria o verde que tanto ama apodrecer em segundos.
Com um gesto discreto, Varkas ergueu uma mão e sussurrou palavras em uma língua antiga. As raízes das árvores ao redor começaram a tremer, e uma onda de energia negra percorreu o solo. Um pequeno trecho da vegetação diante deles se retorceu e murchou, transformando-se em uma mistura de cinzas e veneno. O cheiro acre se espalhou pelo ar, sufocando.
Naara recuou um passo, mas controlou a expressão para não revelar o medo que brotava em seu peito.
— Você quer me intimidar? Isso só reforça o quão desesperado você está. — Varkas abaixou a mão, mas o estrago já estava feito. Ele se aproximou lentamente, seus olhos ardendo de malícia.
— Isso foi apenas um vislumbre. Ainda há tempo para evitar uma catástrofe. Junte-se a mim, Naara. Ou será consumida pelo próprio amor que tem por essa terra.
Ao dizer isso, ele se virou e desapareceu nas sombras da floresta com Soraya ao seu lado. Naara permaneceu imóvel, tentando processar o que acabara de presenciar. O que ele mostrou foi pouco, mas o suficiente para plantar o medo de que toda a beleza e harmonia de Lymendra poderiam ser destruídas.
Nos dias seguintes, o peso das palavras de Varkas parecia se enraizar na mente de Naara. Caminhando sozinha pelos bosques, ela refletia sobre seu propósito. O verde ao seu redor representava mais que poder; era a vida em sua plenitude, o ciclo de crescimento, morte e renascimento. Ser uma bruxa e uma mulher significava não apenas proteger esse ciclo, mas também se afirmar como a guardiã da essência da criação e da destruição equilibradas.
Certa noite, enquanto Naara se concentrava em um ritual, sentiu a presença de Lira. A guardiã das raízes se aproximou com seu andar gracioso e sereno, trazendo consigo a fragrância úmida da floresta e o som sutil das folhas sussurrantes.
— Você está perturbada, Naara — disse Lira com sua voz que parecia emanar das profundezas da terra. — Mas o que Varkas mostrou não é o verdadeiro poder. O verde não se curva à vontade de um tirano. Ele pode tentar corromper a natureza, mas nunca terá o controle total.
Naara respirou fundo, olhando para a companheira.
— E se ele conseguir destruir o que eu amo? Se o caos que ele deseja realmente acontecer? Tudo pelo que lutei, o equilíbrio, a harmonia... tudo isso pode ser devorado.
Lira se aproximou mais, pousando uma mão suave no ombro de Naara.
— Lembre-se, o verde não é só o florescer, mas também a decadência. Ambos são faces da mesma moeda. Você, como mulher e bruxa, entende o ciclo como ninguém. Nós, os espíritos da floresta, estamos com você. Sentimos seu amor pela natureza e sabemos que você é mais do que capaz de enfrentar o que está por vir.
Os olhos de Naara se encheram de determinação renovada.
— Você tem razão, Lira. O que Varkas vê como fraqueza é, na verdade, o meu maior poder. Se ele quer guerra, a natureza irá se erguer com toda a sua força.
Lira sorriu com leveza.
— Estamos todos prontos. Quando a hora chegar, você não estará sozinha. O verde lutará ao seu lado.
As palavras de Lira trouxeram um conforto inesperado para Naara. Sentiu a energia da floresta se alinhar com sua própria, como se cada folha, raiz e espírito estivesse se preparando para o confronto. Ela sabia que a guerra viria, mas estava decidida a lutar não com o medo que Varkas tentou plantar, mas com o amor profundo que nutria pelo ciclo natural de Lymendra e pela força que, como mulher, se afirmava em cada feitiço, em cada decisão.
Varkas observava as estrelas através das copas das árvores, uma serenidade gélida em seu olhar. Sua mente vagava por lembranças de quando, séculos atrás, ele se apaixonara pela natureza. Naquela época, ele via na harmonia da vida e na delicadeza dos ciclos naturais um reflexo do que poderia ser a beleza suprema. Dedicou-se a compreender cada segredo, cada nuance da vida que pulsava ao seu redor. No entanto, com o tempo, a perfeição desse equilíbrio começou a lhe parecer entediante, previsível demais. A natureza seguia seus ciclos, mas onde estava a verdadeira força? A vontade que deveria guiar o caos?
O problema, concluiu Varkas, era o próprio equilíbrio. Uma natureza em que tudo se ajustava, em que tudo se regenerava, não era uma expressão de poder, mas de passividade. Ele se cansou dessa visão limitada. Percebeu que a beleza verdadeira não residia na repetição cíclica, mas em algo mais ousado, algo que só poderia ser alcançado com uma força superior — uma força que ele mesmo moldaria.
— Natureza necessita de vontade. — Sussurrou ele para si mesmo. — Um poder que a transcenda, que a conduza para uma forma mais elevada, única. Não basta que ela siga seus ritmos; ela deve ser forjada, dobrada àquilo que é grandioso e sublime.
Nos séculos que se seguiram, Varkas dedicou-se a dominar a alquimia não para preservar a vida, mas para modificá-la. Ele desejava criar algo que fosse uma extensão de sua própria visão, onde cada ser, cada planta, cada fibra do mundo fosse uma manifestação de sua vontade. Em sua mente, a natureza era uma criação bruta que necessitava de refinamento. Se ela não pudesse ser moldada para atingir essa beleza única, então que perecesse no caos que já existia em suas profundezas.
Para Varkas, o caos era uma força latente que sempre esteve presente na natureza. Destruição e criação se alternavam, mas sempre dentro de limites, dentro de um ciclo que ele desprezava. Por que aceitar esse ciclo quando a vontade de um ser superior poderia romper com essa limitação? Ele já havia decidido: ou a natureza se submeteria a ele e se transformaria em algo grandioso e eterno, ou ele a aniquilaria.
Enquanto Naara se preparava, ele também se concentrava. Sabia que seu poder ainda não havia sido revelado por completo. O que ela viu foi apenas uma demonstração. Mas o verdadeiro teste estava por vir. Se ela ousasse desafiá-lo, ele destruiria não apenas as formas de vida que ela amava, mas corromperia o próprio conceito de beleza natural. Porque, para Varkas, ou o mundo existiria sob sua ordem ou ele cairia no caos eterno.
Essa era a convicção que o movia, e não havia retorno. A decisão já fora tomada há muito tempo: a natureza se dobraria à sua vontade, ou tudo pereceria.
Varkas não era um estrategista envolvido em intrigas ou segredos. Sua motivação era clara como a luz do dia: lutar por suas convicções e pelo poder que ele dominava há séculos. Como um dos seres mais antigos e poderosos de Lymendra, ele via a luta como uma questão de princípios. Não havia planos ocultos ou artimanhas; o que movia Varkas era a sua crença inabalável de que a natureza deveria se submeter à sua vontade, ou então perecer.
Embora desprezasse a maneira como Naara entendia o ciclo natural — como algo sagrado, guiado pela sabedoria e pelo equilíbrio — ele não subestimava o poder de sua oponente. O respeito que sentia por Naara residia no fato de que, apesar de sua juventude em comparação a ele, ela era uma verdadeira força da natureza. Para Varkas, isso tornava o embate ainda mais digno, um confronto entre duas visões opostas do mundo, em que apenas uma poderia prevalecer.
Ele escolheu o dia do confronto com propósito. A data marcava a passagem entre o verão e o inverno, um instante raro em que essas duas potências naturais coexistiam, refletindo o equilíbrio dinâmico que ele tanto desprezava, mas que Naara valorizava. O campo de batalha seria a árvore mais antiga e venerada de Lymendra, conhecida como a Árvore de Contenção. Essa árvore, que abrigava em suas raízes e galhos a sabedoria acumulada de eras, era o ponto de conexão entre a força vital e o conhecimento ancestral da natureza.
Naara, por sua vez, sabia do encontro iminente. Os espíritos da floresta já haviam lhe revelado a data e o local. Ela também compreendia que, em termos de idade e experiência, estava em desvantagem. No entanto, a escolha dos espíritos por ela como guardiã da natureza não fora em vão. Naara possuía um poder oculto, profundo e selvagem, que ainda não havia se manifestado em sua totalidade. Era uma força bruta, mas sábia, que refletia o ciclo eterno da criação, destruição e renascimento. Para ela, essa luta não era sobre vencer um oponente, mas sobre proteger a harmonia intrínseca que permeava todas as coisas.
Enquanto o dia se aproximava, tanto Varkas quanto Naara se preparavam à sua maneira. Ele, reforçando sua determinação de moldar a natureza ou destruí-la; ela, consolidando suas convicções de que os ciclos da natureza não poderiam ser forçados ou distorcidos. Ambos sabiam que o confronto na Árvore de Contenção não seria apenas um embate de poderes, mas um duelo entre duas filosofias, duas forças elementares em busca de supremacia.
O encontro seria uma batalha não só de força, mas de vontade. Varkas, com sua visão implacável de domínio absoluto, e Naara, com sua crença na sabedoria do ciclo natural, estavam prontos para lutar até o fim pelo que acreditavam ser o verdadeiro destino da natureza.
No centro da floresta, sob o dossel das folhas que sussurravam segredos milenares, o encontro tão aguardado aconteceu. A Árvore de Contenção se ergueu como um monumento de eras passadas, testemunha silenciosa da guerra que estava prestes a começar. Varkas e Naara se encararam, a tensão no ar vibrando como uma corda prestes a se partir.
Antes que os poderes fossem liberados, Varkas fez um último apelo:
— Naara, junte-se a mim. Não percebe que a natureza é mais do que um ciclo eterno? A verdadeira essência dela é a vontade de se expressar, de moldar o mundo com poder e intenção. A natureza não deve ser prisioneira de seus próprios ritmos; deve se libertar, transcender os limites impostos por esse equilíbrio que você tanto defende. Juntos, poderíamos recriar este mundo, elevar sua beleza a níveis jamais imaginados.
Naara, com uma serenidade profunda, respondeu:
- Varkas, você se perdeu em seu desejo de domínio. A potência da natureza já reside na sabedoria dos seus ciclos. Há espaço para vontade, para expressão e mudanças, mas isso deve ocorrer dentro da harmonia dos ciclos naturais. A natureza se recria através desses ciclos; eles não são correntes, mas uma dança complexa onde tudo encontra seu lugar. O que você propõe é destruição, pois ao romper essa harmonia, nada além do caos prevalecerá. Você cega-se ao achar que pode subjugá-la sem consequências.
Varkas não respondeu com palavras; a raiva e a convicção se refletiram em seus olhos enquanto a energia ao seu redor começava a pulsar. Ele levantou os braços e conjurou um vento tempestuoso que arrancou árvores pelas raízes, transformando-as em lanças mortais que voavam em direção a Naara. Ela se defendeu erguendo uma barreira verdejante de vinhas e galhos, mas as lanças de Varkas perfuraram sua defesa com facilidade. Naquele instante, a guerra começou.
Varkas lançou as forças da natureza em fúria: trovões, tempestades, e o próprio solo rugindo enquanto abismos se abriam sob os pés de Naara. Ela, em resposta, convocou os espíritos da floresta, que assumiram formas tangíveis — lobos de sombras, raízes que se moviam como serpentes, e árvores que se animavam como guardiões vivos. A batalha se espalhou por toda Lymendra; seres secundários e aliados de ambos os lados se enfrentavam em combates ferozes. De um lado, as criaturas distorcidas por Varkas, moldadas para servir seus propósitos; do outro, os protetores da natureza que lutavam para preservar o equilíbrio.
No meio da intensa batalha entre Naara e Varkas, havia Soraya, a poderosa alquimista ao lado de Varkas, cuja presença sombria era tão devastadora quanto a de seu mestre. Soraya era uma mulher implacável, cuja obsessão pela destruição e pela transformação caótica da natureza se manifestava em suas artes sombrias. Juntos, Varkas e Soraya moldaram aberrações grotescas — criaturas que combinavam partes de plantas, animais e minerais em formas distorcidas e violentas.
Lira, por sua vez, enfrentou essas monstruosidades com determinação e sabedoria. Usando a pureza dos espíritos da floresta e sua conexão com a harmonia natural, ela conseguiu desfazer muitas das criações de Soraya. Os monstros se fragmentavam em poeira e folhas secas quando atingidos pela força restauradora de Lira, retornando ao ciclo natural de vida e morte. Lira lutou com graça e precisão, mostrando que o poder da natureza, quando guiado pelo equilíbrio, era capaz de superar até mesmo as corrupções mais profundas.
Porém, quando o confronto direto entre Lira e Soraya se iniciou, o equilíbrio foi rompido. Soraya era uma mestre da alquimia destrutiva, manipulando não apenas a matéria, mas também as emoções sombrias e as energias caóticas que regiam o universo. Ela conjurava tempestades de cinzas e redemoinhos de vento gélido, que cortavam o ar como lâminas. Lira tentou conter esses ataques com as forças da luz e da vida, mas Soraya se mostrou um desafio além do que Lira havia enfrentado até então.
Soraya atacava não só com força bruta, mas com uma precisão calculada. Ela identificou os pontos fracos nas defesas de Lira e explorou cada um deles. Enquanto Lira tentava purificar as energias malignas que Soraya lançava, a alquimista das sombras usava o poder da decomposição, corrompendo os próprios espíritos que Lira convocava. A cada troca de feitiços e ataques, Lira percebia que sua energia estava sendo drenada, enquanto Soraya parecia se fortalecer com cada onda de destruição.
No momento crucial do confronto, Soraya aprisionou Lira em uma teia de energia densa e tóxica, feita de vinhas espinhosas e pedras enegrecidas, que se apertavam ao redor de sua oponente. Lira, lutando com todas as suas forças, não conseguiu se libertar. Com um sorriso frio, Soraya lançou um golpe final, envolvendo Lira em uma espiral de escuridão que cortava sua conexão com os espíritos da floresta. Naquele instante, Lira foi subjugada e afastada da batalha, enfraquecida e incapaz de continuar lutando.
Apesar de derrotar Lira, Soraya ainda não conseguira romper a força dos laços espirituais que Naara mantinha com a natureza, e sua vitória parecia incompleta. Enquanto Naara se reerguia, invocando o poder oculto que repousava em seu interior, Soraya percebeu que, mesmo com a vantagem momentânea, o verdadeiro confronto estava longe de terminar. O duelo entre Naara e Varkas, com Soraya ao lado de seu mestre, estava prestes a alcançar o clímax.
Mas quando Naara finalmente desbloqueou todo o seu poder, a maré da batalha mudou. Soraya, que tanto confiava na destruição como caminho para a supremacia, viu sua força ser engolida pela pureza avassaladora das forças naturais comandadas por Naara.
À medida que a batalha se intensificava, Naara e Varkas se enfrentavam em um duelo épico, cada um utilizando suas habilidades e poderes ao máximo. A Árvore de Contenção, o cenário escolhido para esse confronto, parecia pulsar com a tensão dos dois lados. As forças de Varkas, encorajadas por Soraya e suas monstruosidades, eram uma tempestade de caos e destruição. Os monstros criados por Varkas avançavam ferozmente, enquanto Soraya manipulava as energias de decomposição para desgastar e enfraquecer as defesas de Naara.
Naara, com sua conexão profunda com a natureza, conjurava feitiços de proteção e ataque, sua magia envolvendo o ambiente com uma aura de vitalidade e força. Cada golpe que ela desferia era uma tentativa de restaurar o equilíbrio, enquanto Varkas buscava moldar a natureza de acordo com sua própria visão distorcida.
O confronto entre Varkas e Naara começou com uma troca de magias devastadoras. Varkas utilizava seu conhecimento ancestral para manipular as energias da natureza de forma destrutiva, criando fissuras na terra e tempestades de energia corrosiva. Naara contra-atacava com feitiços de restauração e força vital, tentando conter os ataques e restaurar o equilíbrio ao ambiente.
Durante a batalha, Naara começou a sentir o peso das forças que Varkas estava empregando. Varkas, com seu conhecimento profundo da natureza e sua capacidade de moldá-la de maneiras caóticas, foi mostrando a ela o que ele havia realmente planejado. Ele convocou uma série de forças destrutivas que quase romperam as defesas de Naara. A cada ataque, ela via o que amava sendo destruído: árvores antigas se despedaçando, criaturas da floresta sendo corrompidas e o solo sendo transformado em uma paisagem desolada.
Com sua magia em risco de ser superada, Naara usou todo o seu poder oculto em um último esforço. O seu grito de batalha ressoou por toda a floresta, convocando uma onda de energia pura e vital que inundou o campo de batalha. O poder de Naara, agora totalmente liberado, envolveu Varkas em um turbilhão de energia que desfez suas magias e o enfraqueceu severamente.
Varkas, percebendo que a derrota era inevitável, tentou um último ataque desesperado, mas foi interrompido pela força avassaladora de Naara. Com uma explosão de luz verde e ouro, Naara selou o destino de Varkas, anulando seu poder e causando sua derrota final. O vilão, que havia buscado a aniquilação e o caos, foi consumido por sua própria destruição.
Com a batalha vencida e a ameaça de Varkas e Soraya eliminada, Naara se voltou para a floresta devastada. O desfecho trouxe uma mistura de vitória e reflexão profunda. Ela se aproximou da Árvore de Contenção, agora danificada, mas ainda imponente, e começou a refletir sobre tudo o que havia acontecido.
Lira, embora enfraquecida pela luta, conseguiu se erguer e se aproximar de Naara. Ela falou com sabedoria e carinho, lembrando-a da importância do equilíbrio na natureza. - O equilíbrio foi restaurado, Naara, mas a natureza é uma força que nunca para. O que aprendemos hoje é que a transformação não exclui o respeito pelos ciclos naturais. A vontade de moldar e mudar deve sempre dialogar com a sabedoria da natureza.
Naara ouviu atentamente, absorvendo cada palavra. Ela percebeu que, apesar da vitória, havia uma lição importante a ser aprendida. O desejo de Varkas por controle absoluto e a destruição total eram extremos que não respeitavam a essência da natureza. No entanto, também reconheceu que sua própria abordagem precisava de evolução. Era necessário que sua vontade de transformar e proteger a natureza fosse guiada por uma compreensão mais profunda dos ciclos naturais.
Enquanto os espíritos da floresta, que haviam estado ao seu lado durante a batalha, surgiam ao seu redor, Naara sentiu um profundo sentido de conexão e responsabilidade. Ela sabia que a luta não havia sido apenas contra Varkas e Soraya, mas também uma prova de suas próprias capacidades e limites.
Naara concluiu que, para proteger a floresta e seus ciclos sábios de força, poder, criação, destruição e recriação, ela precisaria continuar crescendo em sabedoria e força. A natureza ainda escondia segredos que ela precisava descobrir, e perigos maiores poderiam surgir. Sua jornada estava longe de terminar. Ela havia vencido uma batalha importante, mas a compreensão e o respeito pelos aspectos ocultos da natureza seriam essenciais para seu papel como guardiã.
Com uma determinação renovada, Naara se preparou para o futuro, ciente de que a verdadeira força reside na capacidade de transformar e respeitar a natureza em seus múltiplos aspectos, sempre ouvindo e aprendendo com os seus ensinamentos profundos.
A floresta ficou em silêncio. Os espíritos se reuniram ao redor de Naara, reconhecendo-a como a nova guardiã sem contestação. Mas enquanto o ar se acalmava e a paz voltava a reinar, Naara se permitiu uma reflexão.
Varkas não estava de todo errado. A natureza realmente precisava de vontade e intenção para moldar certos traços, para responder às mudanças e desafios que surgem ao longo do tempo. Ser um guardião da natureza não era apenas preservar o que existia; era também abraçar a capacidade de transformar, de criar novas possibilidades. No entanto, essa transformação só poderia ocorrer dentro do diálogo com os vários aspectos da natureza, respeitando seu ritmo e ouvindo sua sabedoria. A chave estava no equilíbrio entre vontade e ciclo, onde a mudança e a preservação se entrelaçavam, resultando em uma evolução harmoniosa.
Naara sabia que, apesar de sua vitória, ainda havia muito a aprender. A natureza guardava muitos segredos, algumas partes dela ainda inexploradas, poderes desconhecidos que poderiam representar novos perigos. Ela sentia que espíritos mais antigos e poderosos aguardavam nas sombras, observando, esperando o momento certo para se revelarem. Para enfrentar o que estava por vir, Naara teria que se tornar ainda mais sábia, fortalecendo não apenas sua conexão com a natureza, mas também a compreensão das forças e intenções que permeiam o mundo ao seu redor.
E assim, como a nova protetora de Lymendra, Naara seguiu em frente, sabendo que sua jornada estava longe de acabar, pois o verdadeiro poder residia na união da natureza e da vontade consciente, uma dança eterna entre criação e transformação.
FIM!
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Até um breve encontro
durante minha jornada pela | doce tortuosa estrada da vida | conheci alguns amores que fizeram verão | outros que nem sei mais onde estão...
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durante minha jornada pela
doce tortuosa estrada da vida
conheci alguns amores que fizeram verão
outros que nem sei mais onde estão
mas existe uma em especial
que docemente marcou meu coração
conheci em um momento de solidão
sem pensar que o amor se tornaria ilusão
foram passeios e juras de amor
cartas apaixonadas e poemas escritos
o destino nem sempre é um bom amigo
às vezes ele nos prega peças sorrindo
em uma sinuosa curva na estrada
meu amor seguiu e não voltou
um anjo belo tocou sua harpa
e para longe de mim a levou
ó meu Deus porque deixastes
éramos apenas dois amantes
a desbravar por um oceano tranquilo
como dois ingênuos navegantes
sonharei com minha amada
sei que em breve a encontrarei
por ela tenho o tempo que for
um dia em meus braços novamente a terei.
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Lírios do Campo
... – Era para ser apenas uma tranquila viagem entre amigos. Um pitoresco passeio em busca de uma paz que somente o campo poderia nos oferecer…
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“Observem como crescem os lírios do campo...”. — Mateus 6,28
... – Era para ser apenas uma tranquila viagem entre amigos. Um pitoresco passeio em busca de uma paz que somente o campo poderia nos oferecer, onde nos divertiríamos como pessoas normais – ou ao menos tentaríamos fazê-lo. Fugindo do estressante caos da cidade grande, nos dirigimos para o pequeno vilarejo onde Amélia nascera. Uma localidade que sequer constava no mapa. Na opinião da maioria, um lugar ideal para a paz e o sossego. Na verdade, o que todos nós buscávamos era justamente tentar nos afastar ao máximo da loucura do dia a dia da cidade grande. Estávamos em busca de momentos de paz. Levando em consideração os problemas emocionais e as crises existenciais de cada um, nada mais nos interessava naquele momento.
Como todos sabem, quando partimos – sem saber que o pior aconteceria – estavam naquele carro apenas cinco pessoas – todos nós, amigos de longa data. Além de mim, havia: a própria Amélia – nossa anfitriã – Marcos, Esther e, por último, o filosófico Luís. O veículo em que estávamos pertencia ao pai de Luís. Era uma Kombi velha, mas em ótimo estado de conservação, com uma mecânica invejável. Os pneus eram novos e, antes de partirmos, Luís havia feito – a pedido do pai – uma revisão completa no veículo, para que nenhum incidente viesse a nos incomodar pelo caminho. A maioria de nós era habilitada. No entanto, durante todo o trajeto, Luís fez questão de estar sempre ao volante. A viagem duraria em torno de cinco a seis horas – isso se não chovesse pelo caminho. Quando saímos, ainda pela manhã bem cedo, o céu estava limpo e o clima bastante agradável. Nada poderia dar errado...
Daniel se calou de forma bastante repentina, seu olhar ficou distante e vazio – talvez tentando ver algo ao longe ou se lembrar de algum detalhe esquecido. Houve um momento de reflexão e um silêncio que durou quase cinco minutos. Contudo, logo ele retornou à realidade e, sem mais demora, continuou seu relato.
... – Durante quatro ou cinco horas, rodamos por quase quatrocentos quilômetros sem fazer nenhuma parada. A estrada estava em ótimas condições e, como Luís era um exímio motorista, a viagem rendeu bastante nesse primeiro trecho. Da forma como as coisas estavam se desenrolando, tínhamos a intenção de chegar à casa da avó de Amélia antes do anoitecer. Se isso tivesse realmente acontecido, teria sido excelente, pois nenhum de nós estava nem um pouco interessado em rodar durante a noite por caminhos desconhecidos, muito menos dormir em pensões na beira da estrada. A verdade é que nem mesmo Amélia se lembrava ao certo de como estavam as estradas pelo caminho. Afinal, ela havia saído de sua terra natal quando ainda era uma criança de colo. E isso fora há muitos anos.
Amélia era uma jovem alegre, descontraída e com um sentimento de liberdade estampado no rosto, mas trazia nos olhos algo de muito obscuro. Até as vésperas de nossa viagem, jamais havia falado sobre sua infância, qual era sua origem ou muito menos sobre sua família. No entanto, quando propusemos fazer uma viagem para bem distante da cidade e de nossa vida no campus, ela logo sugeriu que visitássemos sua avó em um distante lugarejo no interior. Mesmo havendo certa desconfiança com aquela repentina euforia por parte dela, Amélia acabou por nos convencer de que seria uma viagem inesquecível para todos nós...
Passava um pouco do meio-dia quando paramos em um posto para abastecer o veículo e fazer uma breve refeição, e percebemos ao longe que uma forte tempestade se anunciava no horizonte. Assim que terminamos de nos alimentar e o veículo estava devidamente abastecido, decidimos que deveríamos continuar seguindo viagem. Não conseguimos rodar nem mesmo cem quilômetros e logo nos deparamos com uma obra de recuperação de uma ponte que havia caído e tivemos que nos desviar da estrada. As placas diziam que o desvio era de apenas três quilômetros, através de uma nada pitoresca estrada de terra. Mal tínhamos começado a rodar por aquele poeirento e esburacado caminho quando o céu, que já estava se fechando, escureceu por completo e uma pesada chuva começou a cair.
Logo, a estrada tornou-se um verdadeiro mar de lama. Luís não tinha nenhuma perícia para dirigir em estradas de terra, ainda mais com aquela terrível tempestade desabando sobre nós. Aquela não era uma chuva comum; mais parecia um segundo dilúvio. O céu era constantemente riscado por faiscantes relâmpagos que culminavam em retumbantes trovões que balançavam todo o firmamento. A chuva era tão intensa que dava a impressão de não apenas cair, mas ser despejada por um céu bastante furioso. Após apenas algumas curvas um tanto quanto perigosas demais para um condutor inexperiente com aquele tipo de terreno, Luís logo decidiu que o melhor a se fazer era encontrar um lugar seguro, parar e esperar que a chuva desse uma trégua para podermos seguir viagem em segurança.
Após contornarmos uma curva bastante fechada, depois de um pequeno bosque de enormes árvores que cobriam a estrada com seus frondosos galhos, nos deparamos com um pequeno descampado com uma vegetação rasteira carregada de flores, principalmente lírios, que naquele momento eram jogados de um lado para o outro pelas rajadas de vento que os açoitavam de forma impiedosa. No centro desse descampado havia uma pequena casa às margens da estrada que, à primeira vista, parecia estar abandonada. Era uma humilde construção em estilo simples, mas com traços de uma arquitetura bastante aconchegante. Suas feições – mesmo em ruínas, aparentando estar há bastante tempo abandonada – demonstravam que, em seus tempos áureos, havia sido uma bela morada. Na frente da construção havia uma grande varanda, e mesmo que não conseguíssemos adentrar na casa, poderíamos nos abrigar da chuva ali mesmo.
Assim que o veículo foi estacionado em frente à casa, rapidamente nos dirigimos rumo à varanda e, para nossa surpresa, assim que pisamos no velho assoalho já em frente ao umbral da porta de entrada, esta se abriu por completo e uma bela jovem veio nos receber, como se já fôssemos esperados naquele lugar. Essa jovem de pele clara e belíssimos olhos azuis aparentava ter uns quinze anos – talvez até um pouco menos, pois tinha um semblante bastante juvenil – estava com um castiçal em uma das mãos, cuja luz de uma vela iluminava o obscuro interior da casa na qual ela nos convidava a entrar, para nos abrigar da chuva e do vento. Desde criança aprendi que jamais deveríamos falar com estranhos e muito menos entrar em lugares desconhecidos. Contudo, aquela jovem parecia ser a criatura mais doce e inofensiva de toda a Terra. Como do lado de fora o frio e a umidade estavam bastante intimidadores e o interior da casa parecia ser quente e muito aconchegante, sem pestanejar decidimos que o melhor a se fazer era aceitar o convite e aguardar até que a chuva passasse.
Assim que entramos, logo, com um forte estrondo, a porta foi fechada às nossas costas, e quando Esther quis questionar, nossa anfitriã respondeu de forma meiga e bastante convincente:
– Se não fecharmos a porta barrando o vento frio, de nada adianta nos abrigar aqui dentro!
Logo fomos direcionados a nos aproximar de uma crepitante lareira. Havia um enorme estofado em formato de semicírculo em frente ao aconchegante calor do fogo, de onde vinha um convidativo odor de folhas de erva-cidreira sendo fervidas. Sentada de frente a essa lareira, numa poltrona à parte, havia uma peculiar senhora, de aparência bondosa e confiante índole, que logo nos foi apresentada como sendo a avó da jovem que nos recebera. Essa senhora se servia de um fumegante chá que logo nos foi oferecido. A maioria de nós achou por bem recusar, mas Esther, a mais mística dentre nosso grupo, sempre receptiva a velas, incensos e todo tipo de beberagem natural, logo quis experimentar o sabor daquela bebida, até porque o cheiro estava bastante convidativo. Como Esther o tomara e não tivera nenhuma reação imediata, nem mesmo demonstrara nenhum tipo de comportamento estranho, logo todos nós fomos servidos. O chá estava quente, doce e com um sabor que trazia certa paz de espírito, proporcionando um lento relaxamento do corpo e da mente. Após tomar aquele chá, tudo se tornou escuro e vazio.
Quando acordei, a impressão que tive é que haviam passado várias horas. Tentei me levantar, mas logo percebi que não estava deitado, mas sim sentado em uma cadeira e amarrado a esta. Ao meu redor tudo era silêncio e quietude. Pelas frestas no alto das paredes e no teto, pude perceber que estava em uma espécie de porão e que lá fora o sol brilhava forte. Pelo barulho dos pássaros e pelo frescor ao meu redor, tive a impressão de que era uma bela manhã. Durante quase uma hora, após chamar por meus amigos sem obter resposta e clamar desesperadamente por socorro sem sucesso, me esforcei de todas as formas até que consegui me desvencilhar das amarras que me prendiam. Com muita dificuldade, consegui encontrar a saída daquela espécie de porão, que mais parecia ser um covil de uma terrível criatura que, se realmente existisse, naquele momento estaria dormindo ou escondida em algum lugar se refugiando da luz do dia.
Logo, sem muito esforço, já estava do lado de fora daquela estranha casa. A Kombi estava parada no mesmo lugar em que fora deixada. No entanto, não havia nem vestígio do paradeiro dos meus amigos. Por quase uma hora rodeei em volta da casa, gritando por cada um deles sem sucesso. Por fim, decidi pegar a Kombi e ir em busca de ajuda. As chaves principais haviam ficado com Luís, mas no quebra-sol do veículo havia uma chave reserva. Saí com a Kombi e retornei pelo caminho que havíamos chegado ali, voltando até o posto de combustíveis onde havíamos almoçado e, de lá, pedi que a atendente chamasse a polícia. Foi quando vi que havia vários panfletos – alguns, até mesmo bem antigos – com pessoas desaparecidas...
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Alguém verá esta noite, que estrelada, | A sós vislumbro em toda a imensidão? | E mesmo que a perceba agraciada | Compreende seu sabor de solidão? …
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Alguém verá esta noite, que estrelada,
A sós vislumbro em toda a imensidão?
E mesmo que a perceba agraciada
Compreende seu sabor de solidão?
Alguém, sentindo a aragem tão sutil,
Enquanto a escuridão é mui soturna,
Talvez encontre lá, sentidos mil,
Os quais estão, p’ra mim, na fé sonurna...
Ó, quanta vastidão, do firmamento,
Assombra, pois, infinitesimal,
Mui faz do meu haver — triste relento;
Soterro-me em vazio adagial...
— O sopro d’uma vida passadiça —
Andar errante à sombra fronteiriça
Das horas no relógio arterial.
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A noite estava fria, mas o frio do amanhecer é maior e me desperta de um sono longo. Ao abrir os olhos, percebo que tudo é cinzento, vazio, morto. Logo, meu globo ocular arde…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A noite estava fria, mas o frio do amanhecer é maior e me desperta de um sono longo. Ao abrir os olhos, percebo que tudo é cinzento, vazio, morto. Logo, meu globo ocular arde levemente, trazendo lágrimas quentes que começam a verter. Por que a monotonia me toma, por quê? Por que o dia amanhece tão estranho? Na verdade, onde estou? Estaria eu ainda sonhando? Talvez. Seco as lágrimas de saudade de algo que não sei decifrar.
Levanto-me da cama, lavo meu corpo e sinto a água gelada. Saio rapidamente do banho e me visto com roupas confortáveis e aquecidas. Decido explorar melhor o lugar, mas antes de sair, avisto uma placa gigantesca na saída do castelo onde estou hospedada, que diz: “Vila Séttimor” — percebo da minha janela. Então, o nome deste lugar é Vila Séttimor? Muitas interrogações me tomam.
Lembro-me de Olga Nivïttz, da sua inteligência, altivez e coragem para viver neste lugar, que agora me encanta grandiosamente. A cada orientação sua, me sinto mais segura, ainda assim, sinto-me nostálgica, como se algo dentro de mim faltasse. A busca por esse algo parece distante, dolorosa.
Ao longe, vejo pessoas caminhando vagarosamente, como se estivessem enfermas ou com preguiça. Mas todas? Decido sair do quarto para conhecer melhor o ambiente lá fora. Desço as escadas e a atmosfera é gélida, logo, penso que fiz bem em me cobrir bastante.
A porta do castelo se abre lentamente e range alto. Nunca sei o que me espera por aqui, e realmente, o que vejo é estranho. Ao me afastar do grande recinto, vejo as pessoas lentas, da mesma maneira que vi pela janela. Seus rostos são estranhos e elas não me olham fixamente.
— Olá... — digo, mas ninguém responde. Os seres andarilhos apenas me olham. Realmente, este lugar é um destino que jamais imaginaria estar. Essas pessoas não me fazem mal, mas me transmitem estranheza, como se eu estivesse em outro mundo, um mundo além do meu. Meus líderes conversaram bastante comigo sobre portais que podem ser abertos e nos levar a locais inexplicáveis, e penso se isso poderia estar acontecendo comigo.
As pessoas que vejo são frias, em todos os sentidos possíveis. Logo, elas me fazem lembrar de tantas pessoas que amo e que se foram, não sei por que penso nisso. A morte parece estar tão próxima de mim, uma atmosfera cinzenta, uma aura funesta e dolorida...
Continuo caminhando e não apenas sinto cheiro de sangue, mas o vejo por entre os cristais de gelo ao chão. Sim, nevou, e a neve ainda cai, improfícua. De quem seria esse sangue? A vila parece grande, misteriosa e assustadora.
Decido retornar, ou essas pessoas me deixariam ainda mais tonta de tanto rondarem próximas a mim, como se fossem cair e me derrubar ao chão.
Não acredito que zumbis possam existir neste espaço-tempo em que me encontro. São pessoas, pessoas estranhas, mas ainda são seres humanos. Isso parece ser um pouco mais profundo do que imaginei.
Ao retornar para o castelo, lembro-me do meu avô. Ele me doutrinou tanto, me ensinou tantas coisas, e agora não tenho seus conselhos sábios em tempo real. Tudo ficou na minha mente, apenas. Lembro-me e choro. Meu choro é a única coisa que aquece um pouco o meu rosto, pois a frieza que toma minha pele, ainda que aquecida, é inegociável.
De tanto pensar, esbarro em uma pessoa que parece não estar olhando por onde anda.
— Você consegue olhar por onde anda? — Quase brado, impacientemente, e a pessoa passa por mim e para, de costas. Quando se vira para mim, vejo que seu rosto não existe, está cinzento, pálido, vazio, com uma cor inexistente... me assusto desta vez. Antes que a figura abra a boca para dizer algo, corro para o castelo, e antes mesmo que eu possa me aproximar, a grande porta se abre, parecendo me reconhecer enquanto residente.
Adentro a porta e subo as escadas correndo, até chegar ao meu quarto. Preciso urgentemente relatar tudo para meus líderes xamânicos que deixei em meu país. Eles precisam saber o que anda acontecendo desde que aqui cheguei.
Fico imaginando: se uma daquelas criaturas adentrar o castelo, não sei o que poderá acontecer. Pela primeira vez não tive medo ao ver figuras masculinas rodando a Vila Séttimor. Talvez, por ter figuras femininas por perto. Ou talvez por serem lentos, indefesos. Mas por que não tive medo? Por que sei que não me fariam mal? Por que são tão diferentes dos outros seres vivos?
Pego meus pergaminhos, caneta e tinteiro, e surgem as primeiras palavras, ainda em minha mente. Acalmo-me e sento-me à escrivaninha disponível em meu quarto. Através dela, é possível ver a janela, que me dá a possibilidade de ver as pessoas estranhas lá fora. Eis o momento de respirar fundo e iniciar meu primeiro relato a ser enviado para minha aldeia.
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Névoa viva
Próximo ao castelo, a lua desponta no alto da colina iluminando a floresta com sua luz avermelhada e cintilante. O vento frio, percorre os espaços sombrios…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Próximo ao castelo, a lua desponta no alto da colina iluminando a floresta com sua luz avermelhada e cintilante. O vento frio, percorre os espaços sombrios entre as copas das árvores centenárias, estremecendo levemente sua solidez. Tomado por uma fúria imensurável, cavalgo ferozmente pela trilha tortuosa à procura de algo ou alguém que sacie meu desejo de vingança. O percurso é longo e meu cavalo demonstra nitidamente sinais de fadiga. Invisto mais um pouco e noto sua fraqueza em minhas mãos, minha imortalidade não acompanha a vida breve dos animais. Com rapidez, puxo as rédeas e esfrego o pescoço longo de Augustin que relincha alto indicando o alívio por minha decisão. Retorno vagarosamente para o castelo, mas minha inquietude continua alimentando meu ódio. Ao longo daquela noite letárgica, sombria e dolorosa, minha mente borbulha deixando-me nostálgico e amargurado. Caminho pelo corredor levemente iluminado por velas e observo as fotos que parecem sorrir para mim em meio ao caos de sentimentos. Tento repousar a mente próximo à imensa janela enquanto observo a formação de uma névoa tênue que espreita os arredores do castelo. Minhas mãos apertam com força a madeira envelhecida que reverte às paredes daquele velho castelo e minha fúria torna-se palpável ao enxergar o motivo da minha ira. Espalmo minhas mãos no vidro deixando marcas no vitral escurecido, desço às escadas apressadamente e no caminho vou até o quarto, retirando do antigo guarda-roupa minha capa preta. Selo novamente meu cavalo e adentro nas profundezas daquela floresta inóspita. A névoa contínua e fria espalha-se por todos os lados, perseguindo-me. Desvio de troncos caídos ao chão, a floresta sangra e meu coração compartilha de tal sofrimento arrancando gota a gota o resto de minha insanidade brutal. Ao longe, o velho chalé continua intacto e sem sinais do tempo, convidando-me para um abraço mortal. Deixo Augustin próximo a uma árvore centenária e sigo em direção ao chalé, paro junto aos primeiros degraus e pela janela consigo enxergar um sinuoso movimento. Seguro a maçaneta fria e com cautela empurro a porta devagar, meus passos me direcionam a uma sala gélida e úmida, os móveis antigos cobertos por um fino lençol branco continuam trazendo as lembranças escondidas por baixo de seus tecidos empoeirados. Um barulho no quarto retira-me do transe das memórias indesejadas e sigo apressadamente para o cômodo. Parado à porta, meu coração dispara rapidamente com a silhueta formada próximo à cama.
— O que faz aqui?! — Pergunto, incrédulo. — Não está satisfeita com o que faz comigo? — Questiono, aproximando-me lentamente.
Sem respostas, toco levemente sua cintura e sinto minhas mãos congelarem, algo em nós não é mais como antes. Minhas lembranças me atormentam e por impulso viro rapidamente seu corpo de encontro ao meu. Ela me olha com ternura e paixão, enquanto tento desvendar os meus sentimentos. Aproximo minhas mãos em seu rosto e acaricio sua face pálida enquanto a proximidade nos conecta. Nossos corpos necessitados se entrelaçam com fúria e desejo. Noto que seu coração bate descompassado e sua respiração torna-se cada vez mais acelerada. Minha fúria dá lugar à saudade e, calmamente, beijo seus lábios rosados que devolvem vida aos meus dias. Lá fora, a névoa começa a dissipar-se e já é possível ver os pinheiros e toda a extensão do lugar. Olho novamente em seus olhos e a beijo com força deixando nossos corpos sucumbirem ao amor. Ela me empurra devagar e com um sorriso tímido se afasta. Sigo-a por todo o chalé e me espanto ao ver os móveis descobertos, o lugar agora parece mais limpo e arejado, a luminosidade sombria deu espaço a um ambiente acolhedor.
— Estou aqui!
Ouço sua voz próxima à entrada e sigo em sua direção. Procuro ao redor, mas minha visão cansada não enxerga mais sua presença, a névoa aos poucos dissipa-se e a floresta já não é mais tão sombria. Caminho até Augustin que me aguarda com impaciência, esfrego sua crina delicadamente acalmando-o com meu toque. Subo em seu corpo longilíneo e olho uma última vez para o chalé, ele ainda mantém sua luminosidade e ela ainda está lá. Aceno levemente com a cabeça e retorno para a minha tumba, meu lugar sagrado, minha sentença. Enquanto aguardo ansiosamente a vinda da névoa para que novamente possa encontrar com ela.
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O Caçador
A criatura fugia pelas montanhas e Miguel estava exausto. Nunca, em suas décadas de caçada, tinha tido tão pouco tempo para si, para descansar…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
A criatura fugia pelas montanhas e Miguel estava exausto. Nunca, em suas décadas de caçada, tinha tido tão pouco tempo para si, para descansar, e para comer. Nunca tinha sentido tanto frio. A gigante lua prateada pairava sob o céu há dias, imutável. Não se movia, crescia ou diminuía. Apenas ficava lá, o tempo todo naquele mesmo ponto fixo, impossivelmente grande, ofuscando as estrelas. O sol não nascera desde que a maldita lua surgira. Ao menos não era vermelha. Suas montanhas estavam tomadas pela nevasca cujo gélido vento açoitava sua pele sem dar trégua. A noite sem fim ainda durava, já havia perdido a conta de quanto tempo. Não mais que um mês, ele dizia a si mesmo, não mais que um mês.
Não sabia o porquê dessa noite eterna, o porquê dessa lua imutável, quando isso acabaria, ou nem mesmo se acabaria. Mas sabia que precisava continuar caçando. Caçava não porque queria, muito menos porque gostava. Miguel o fazia porque era seu dever patrulhar e proteger as montanhas onde nasceu – tinha feito essa barganha de livre vontade, era verdade – mas o fardo de sua vida havia ficado pesado. Como que para calar suas dúvidas, instintivamente, tocou o medalhão do sol em seu peito, reconfortando-se com sua presença. Inspirou profundamente, expandindo seus sentidos, e buscou certificar-se de que ainda se mantinha no rastro. Estava, e, portanto, continuou.
A verdade é que as montanhas lhe eram conhecidas. Sabia muito bem onde estava, mas a gélida noite branca havia instigado toda a sorte de monstruosidades a saírem de seus covis. Há seis refeições – era assim que podia contar o tempo – passara por um acampamento alvejado. Lá, encontrou uma família inteira assassinada, seus corpos parcialmente mastigados ainda frescos e o sangue quente, espalhado por todo lado, derretera um pouco de neve onde tinha empoçado, formando uma viscosa lama carmesim. Sangue, neve, e terra. Ao menos com isso já estava acostumado. Desde o acampamento, caçava a assassina criatura pelas montanhas. Ainda sem sucesso, mas seguia em seu rastro.
Horas de caminhada montanha acima se passaram e seu corpo já não aguentava mais. O frio, a fome, a neve, a falta do sol, a interminável caçada, tudo isso minava sua força e sua vontade. Não aguentava mais, caiu de joelhos no chão. Olhou para o céu, a lua impossivelmente grande, impossivelmente clara, a nevasca que não dava trégua, e, pior de tudo, a falta do sol. Pela primeira vez na vida considerou desistir e se envergonhou por sua fraqueza. Se enfureceu com sua vergonha. Fora acolhido pelos caçadores do sol ainda órfão, treinado, alimentado, educado. Sim, tudo isso era verdade. Deram a ele uma casa, um nome, um propósito, mas também tomaram sua vida em troca. Jurou abster-se de uma família, de amigos, de filhos, de viver. Jurou caçar. Desde que aceitou se tornar um dos sóis essa fora sua vida: sangue, morte, e vingança. Já sem ver o venerado sol há dias, frustrado, questionando sua vida e sua vocação, Miguel, rompendo a corrente prateada com suas próprias mãos, arrancou o medalhão de seu peito, atirou-o à neve e chorou. Sem saber quanto tempo ficou ali prostrado, desmaiou.
Acordou ainda no mesmo local, seu medalhão já levemente encoberto por uma nova camada de neve que continuava a cair. O céu ainda era o mesmo, mas o vento parecia ter piorado. A visibilidade havia diminuído. Se levantou com alguma dificuldade, esfregando seus olhos e sentindo a pele arder com o sal de suas lágrimas congeladas. Precisava comer. Precisava se aquecer. Juntou o pouco de gravetos que conseguiu encontrar e tentou fazer fogo. Conseguiu uma parca chama, um lampejo de luz e calor, de esperança. Lampejo que logo foi ceifado pela nevasca que não cessava. Tentou de novo, e de novo, e de novo, todas as vezes com o mesmo resultado. Um breve calor reconfortante, logo extinguido. Por fim, se rendeu a comer o pouco de carne salgada que ainda tinha e levantou-se, olhando para o medalhão ainda largado ao seu lado.
Titubeou, sua mente tomada por dúvidas. O sol o havia abandonado, o branco gélido tomava conta do que antes era luz, calor, e verde. Por outro lado – mas pelos mesmos motivos – as montanhas nunca precisaram tanto de um caçador. Lembrou-se dos corpos mutilados, da carne devorada, e do sangue empoçado. Terminaria essa caçada e então decidiria seu futuro. Questionar-se era um luxo para o qual não tinha tempo agora. Recolheu seu medalhão, colocou-o no bolso do casaco e seguiu montanha acima o rastro da criatura de cheiro inconfundível que precisava ser parada.
Já próximo ao topo, Miguel notou seu corpo entrar em alerta. Havia chegado ao seu destino, a criatura estava próxima. A batalha era iminente. Como já fizera muitas outras vezes antes, Miguel desembainhou a espada e deu os últimos passos em direção ao cume, em direção a muito mais do que apenas uma criatura.
Ao chegar, deparou-se com uma estrutura de rocha negra e formas geométricas impossíveis. O contraste entre a nevasca branca, o luar prateado, e a rocha era como olhar para um abismo que desafiava a razão e a própria sanidade. O cheiro da criatura vinha lá de dentro e, sem escolha, Miguel prosseguiu. Cruzar o arco e entrar na estrutura foi como entrar em outro mundo. Se lá fora o vento uivava e o branco cegava, ali dentro o silêncio ensurdecia e a escuridão era indecifrável. Deu mais alguns passos adiante e aos poucos seus olhos começaram a distinguir paredes de espaços vazios, e a cada passo mais profundamente entrava naquele santuário no cume da montanha, com o cheiro do monstro que caçava como seu único guia.
Virou à direita e chegou em uma grande sala aberta. O teto impossivelmente alto, as colunas grotescamente retorcidas, como vinhas negras que cresceram se contorcendo em si mesmas e então viraram pedra. Nada mais escutava do vento lá fora. Um par de olhos prateados surgiu em meio a escuridão. Era a criatura. Avançou em sua direção, mas ela, surpresa, fugiu. Miguel a perseguiu. Seus instintos tomando conta de seu corpo, a espada empunhada pronta para matar quando, de repente, os olhos de Miguel foram açoitados pela luz. A perseguição o levara até uma sala na qual as paredes de rocha eram translúcidas, deixavam passar a luz da lua diretamente em um altar da mesma rocha negra da qual era feita todo o restante da construção. O prateado da lua, o branco da neve, e o abismo da rocha se juntavam para permear o ambiente com um surreal brilho anil. Era como um lembrete do mundo hostil que o aguardava lá fora. Em meio à confusão pela impossibilidade do que via, Miguel sentiu dor. A criatura aproveitara o momento de desatenção para arrancar, com os dentes, um pedaço de seu ombro esquerdo.
Tomado pelos seus instintos, lutou. Por um breve momento tudo ao seu redor não mais importava, esqueceu da neve, do frio, da falta de sol. Esqueceu da insanidade do local onde estava, das suas dúvidas, de seu medo, e lutou. Defendeu-se de garras e dentes com sua espada e, encontrando uma oportunidade, feriu a criatura – decepando um de seus membros de onde jorrou o tóxico sangue rubro já conhecido de Miguel. O monstro, ferido, cessou seus golpes furiosos e fugiu. O primeiro instinto do caçador foi perseguir e terminar o que tinha começado, afinal não tinha ainda infligido um ferimento mortal. As monstruosidades podem se recuperar de coisas muito piores. Ao mesmo tempo, o altar lhe chamava, ele queria responder. Titubeou.
Perseguir a criatura significaria não mais encontrar essa sala, esse local sagrado de um deus desconhecido. Significaria voltar à sua vida de caçador. Ao frio, à fome, à nevasca. As paredes do santuário – sentindo sua dúvida – deixaram adentrar o vento gélido que rugia lá fora, açoitando a pele de Miguel e invadindo seus ouvidos. Estremeceu e institivamente levou a mão ao peito, almejando tocar seu medalhão do sol que não estava mais lá. Havia-o colocado no bolso. Nesse momento de angústia e dúvida, deixou a criatura fugir. Como que por uma demonstração de boa vontade, o altar restaurou a calmaria, novamente cobrindo o ambiente naquele curioso anil e silenciando o vento. Ainda exausto, drenado pelo recém combate, sentou-se no chão rochoso, de frente ao altar, disposto a ouvir o que a pedra tinha a dizer.
Miguel Alaric Sigel, caçador do sol, protetor das montanhas, aniquilador de monstros. Essa era sua identidade até aqui, essa fora a sua vida. Seu nome resumia bem quem era. Havia sido treinado para isso desde criança. Mas o altar lhe mostrou que poderia ter sido diferente. Infinitas outras possibilidades invadiram sua mente e ele viu que poderia ser o que quisesse, poderia ser feliz. Poderia abandonar o frio, a neve, os monstros. Poderia abraçar essa escuridão, fazer desse santuário seu lar. Bastava que renegasse o sol. Já não tinha o sol o renegado? Já não tinha o sol sumido dos céus, abandonando-o à neve? A dúvida dilacerava o caçador. Ele temia saber mais, mesmo assim o queria. Precisava saber mais. Rogou ao altar que lhe revelasse seus segredos. Queria compreender o que significaria abdicar de sua fé e aceitar outro deus. Mas também queria a paz, o silêncio, e o acolhimento daquele ambiente. Não ansiava voltar à nevasca, ao frio, e à fome. Desejava, mais que tudo, momentos de conforto e percebeu que já não os tinha há muito.
E o altar não mentiu. Não escondeu. Aquele era o santuário dos monstros e da noite. Era o santuário daqueles que Miguel passara sua vida combatendo. Mas a noite precisava dele, de alguém para brandir seu estandarte, e o receberia de braços abertos. Conceder-lhe-ia essa honra. Ele poderia ser o senhor de um novo mundo se assim desejasse. Isso o chocou. Era ao mesmo tempo inimaginável, inconcebível, e inaceitável, mas também completamente tentador. Poderia abdicar de tudo que acreditava, de sua vida, dos seus juramentos, em troca do conforto desse lar? Deixar os habitantes das montanhas à mercê das criaturas que os dilaceravam?
O altar, em sua infinita sabedoria, contra-argumentou. Disse-lhe que precisava de um campeão para coordenar as criaturas da noite. Poderia ser Miguel. Não era melhor que fosse ele? Melhor ele do que qualquer outro? O antigo caçador poderia conter as criaturas, diminuir o número de ataques, mantê-las sob seu controle, se portar como um carcereiro dos condenados. Estava a seu alcance. Era só tomar a oportunidade e o poder para si, bastava aceitar. Titubeou.
A oferta era doce, sensata, razoável. Sentia-se abandonado pelo sol, estava exausto, perdido, em uma terra que já não mais reconhecia como sua. E quem poderia culpá-lo? Se o fizessem, estaria ao seu alcance se vingar. Com o comando das criaturas, poderia direcioná-las como bem entender. Poderia subjugar seus inimigos. A noite já o tomara, já pensava como um deles. Ainda nem tinha a coroa e já havia sido corrompido. A alternativa era voltar à neve, ao vento, à fome. Não aguentava mais aquele branco sem fim, aquele frio interminável. Chorou, e aceitou. Resignou-se a aceitar a oferta. E assim levantou Miguel Ragnar Nott, o traidor.
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Sono atormentado
Prefiro aquele sono atormentado | por ogros e por bestas, pelo cão | sinistro e escuro, pela aparição | de tudo que é perverso e desolado | do que sonhar d’Arcádia o…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Prefiro aquele sono atormentado
por ogros e por bestas, pelo cão
sinistro e escuro, pela aparição
de tudo que é perverso e desolado
do que sonhar d’Arcádia o campo amado
das ninfas e dos faunos, da canção
de Febo, deus do som e do clarão
imenso, deus vidente-iluminado.
O sono de terror, quando termina,
dilui-se no raio que ilumina
a mente quando morre a madrugada.
Mas quando do prazer desperta o sono
e o peito enfim percebe este abandono,
levanta-se a viver um grande Nada!
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O Poeta das Mil Noites
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela, minha mãe era filha de um cavaleiro nobre que morreu na cruzada de reconquista. Estas poucas noções é tudo que sei da minha origem. Meu pai não sei quem foi, mas tenho feições mouriscas, por isso já levantei muitas suspeitas sobre quem sou, algumas um pouco assombrosas, talvez.
Quase não tenho lembranças de minha mãe e de onde eu nasci, também não sei descrever o lugar, fui levado de lá muito cedo, ainda criança e por isso tenho dificuldades com a língua castelhana. Fui tirado dos braços de minha mãe pelos invasores em uma noite sangrenta, raptado e levado para Córdoba, vendido como escravo para uma família de mercadores aristocratas do califado. Aprendi outros costumes e outras línguas, maneiras as quais eu não era familiarizado, mas hoje é como se tivesse sempre vivido entre os maometanos.
Quando cresci e comecei aprender as línguas estrangeiras, tive facilidade com o modo de falar dos mercadores que chegavam de toda parte do mundo. Talvez por isso me deram uma ótima educação, apesar da minha condição de prisioneiro, era de grande valor o servo que pudesse facilitar as comunicações com os negociantes, até boas vestes me foram concedidas.
Tive aulas com os melhores mestres andaluzes, com o tempo notaram minha vocação para o letramento, me ensinaram gramática, religião, história e também as artes do canto. Nesta arte encontrei minha primeira e mais duradoura paixão, junto dela também aprendi a correr os dedos pelo alaúde, aprendi a tocar muito bem este instrumento, dominei as cordas e os dedilhados melhor do que qualquer um dos menestréis de Córdoba. Permitiam-me algum tempo para praticar estes dons que eu descobri ainda jovem e sempre pediam que eu alegrasse o salão durante o jantar ou as visitas durante as conversas de negócios do meu senhor.
Mas um outro amor que eu encontrei junto com meu dom teve uma passagem mais breve e mais trágica na minha vida. A bela filha de meu senhor, Ester gostava de me ouvir cantar. Fiz bonitas canções para ela e foi exatamente esse o início da ruína deste grande amor. Nos descobriram enquanto eu cantava à noite nos terraços para que ela ouvisse, nunca estive junto dela, mas isso já era algo suspeito demais para manter minhas poucas liberdades. Fui aprisionado, privado de água e comida, e depois de alguns meses vendido para um traficante que me levou para Argel numa tortuosa viagem no porão de um zambuco. Quando cheguei naquele lugar fiquei aliviado de pôr os pés na areia, depois vi tanta areia naquela noite e mal sabia quanta areia ainda veria em toda minha vida.
Tantos anos se passaram em Argel, os anos mais difíceis. Deixei de ser jovem naquele lugar. Não sei quantos anos eu tenho agora, mas talvez tivesse chegado lá com quinze ou por volta disso. Servi o palácio como criado particular de uma das concubinas do Sultão. Uma mulher esguia que tramava inúmeras conspirações e intrigas no palácio. Notei como ela influenciava com língua de cobra as políticas do sultão e daquela corte. Também descobri um de seus muitos segredos, ela escondia nos seus aposentos livros de magia proibidos, dos antigos Dins, também conversava com estes espíritos no deserto. Na madrugada fria da imensidão de areia, saía de noite por uma passagem secreta e voltava manchada de sangue. Certa vez ela me trouxe um alaúde, disse que os Dins mandaram que ela comprasse um bom instrumento no bazar e desse para um de seus escravos. Por coincidência ela me escolheu, mesmo não sabendo que eu dominava aquele instrumento. Talvez este meu segredo tenha sido contado pelos espíritos do deserto que tinham algum tipo de propósito no meu destino. Peguei a concha de madeira bem trabalhada em minhas mãos, era o mais belo alaúde que eu pudera colocar os olhos, uma peça de carpintaria finíssima, não sei de quem ela obteve, não era do tipo que vendem os mercadores.
Temi não me lembrar de nenhuma canção, mas assim que o tomei nos braços e empunhei a escala e as cordas, foi como rever um velho amigo que não mudou nada com o passar dos anos, toquei com destreza e exímia habilidade. A feiticeira ficou muito impressionada e me exigiu que eu tocasse para todo seu séquito. Assim fiz durante algumas noites sem saber que, na verdade, aquela mulher tinha me amaldiçoado. Enquanto eu dormia, entrou pela janela um espírito muito antigo e me revelou nos meus sonhos que, quando eu aceitei o presente da minha senhora, firmou-se um contrato com os Dins. Eu empunharia o instrumento como ninguém jamais fez, cantaria tão lindamente como ninguém jamais pôde e criaria as mais belas canções que já foram criadas, no entanto a fama não alcançaria o meu nome, eu teria que provar a cada trova que eu era o grande bardo das noites argelinas, esta porém não era a condição mais cruel, eu só poderia exercer minha arte por mil noites e quando se esgotasse esta conta, nunca mais poderia cantar, pois ficaria mudo e cego até o fim da vida, condenado a vagar sozinho pelo deserto.
Incrível como foram as noites depois deste sonho assombroso, embora tivesse acordado assustado na manhã seguinte, eu não acreditei que aquilo era verdade, mas meu talento ficou muito mais aguçado e foi se desenvolvendo cada vez mais, de um modo que quase atingia a perfeição. Tocava pelas noites de Argel, no palácio e nas casas mais nobres, sempre cercado de boa comida, bajulações e mulheres jovens e bonitas. Tornei-me o maior amante dos prazeres, vivi empenhado em esbaldar das benesses que este dom me proporcionou, me embriaguei nas maiores abundâncias da riquíssima cidade de Argel, quase me esqueci que eu era um escravo.
Então que um novo sonho aconteceu, depois de uma noite das mais festivas e agitadas, um novo espírito entrou pela janela dos meus aposentos e me mostrou uma ampulheta que era o contador das noites que eu usufruí e das que ainda me faltavam. Não sei dizer ao certo o número que ainda restava, mas a areia já tinha escorrido a maior parte para o bulbo do vidro de baixo. Acordei desesperado ainda na madrugada, entrava um vento frio pela janela por onde eu via as estrelas e as dunas do deserto. Tive uma nova epifania acordado, pensei em toda a minha vida, na minha mãe e em Ester. Onde poderiam estar? Chorei pela primeira vez desde que eu era criança, pedi que algum espírito ou qualquer força maior me escutasse, pedi que quando minha maldição se concretizasse, eu vagando cego e mudo pelo deserto ainda pudesse ver com clareza as figuras de minha mãe e de Ester.
Decidi fugir daquela cidade, decidi ir embora de Argel. Arrumei algumas poucas coisas, água e tâmaras, embrulhei meu alaúde e segui pela passagem secreta que levava fora dos muros da cidade entre o mar e o deserto. Cheguei na praia e continuei para o leste sem saber o que esperar ou o que eu poderia encontrar, andando entre as quatro maiores imensidões que existem, a imensidão arenosa do deserto à minha direita, a imensidão salgada do mar à minha esquerda, a imensidão brilhante das estrelas no céu e, por último, a imensidão da alma dentro de mim.
Andei por tanto tempo, não sei estimar, mas algo estranho acontecia, aquela noite parecia eterna, como se passasse muito mais de doze horas e o dia não dava sequer sinais de alvorecer. Andei pela areia até Argel sumir à distância atrás de mim. Eu estava só caminhando sem ter um rumo ao certo, consumi todas as tâmaras e toda a água, tive certeza de que caminhei por muitos dias embora a noite jamais deixasse o céu.
Quando já estava exausto, sentindo a falta de água e de comida, minha mente turva sem saber se minha atitude foi sensata, avistei uma luz ao longe. Caminhei até me aproximar, quando chegava perto reconheci a forma de uma ampulheta espectral, uma névoa brilhante pendente no ar, parecia ser feita de estrelas. Tive vontade de tocá-la, estendi a mão e quando o fiz, um raio de luz me ofuscou num instante e percebi que estava em um lugar diferente. Eu pisava sobre um gramado, rodeado de jardins verdejantes e diante de mim havia um suntuoso castelo europeu. No ambiente pairava um murmúrio alegre e notei que chegavam convidados para uma festa, todos trajados com muita elegância e usavam máscaras cravejadas de brilhante, entendi que haveria um baile e me animei em participar.
Um cavalheiro vinha em minha direção, não o percebi chegar, tinha cabelos na altura do pescoço, bigode fino e cavanhaque pontudo, conversou comigo durante alguns minutos, tinha gestos delicados e uma postura muito gentil. Acho que ele é o dono deste lugar, um conde talvez. Por certo é muito rico e me passa ares de ser muito culto. Ele notou meu estado decadente e mandou que trouxessem um copo de água para matar minha sede. Aquela água estava deliciosa, parecia um elixir revigorante. No instante seguinte já pensava eu: “Que mal tem um pequeno grãozinho de areia a menos na parte de cima da minha ampulheta?”.
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O Que Importa
A vida é curta, disse-lhe a ciência. | Curta demais para dizer um não... | Tão curta que só de pensar na ausência | sente Isabel pesar o coração…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Em homenagem a Isabel Veloso.
A vida é curta, disse-lhe a ciência.
Curta demais para dizer um não...
Tão curta que só de pensar na ausência
sente Isabel pesar o coração.
Porém, percebe que o Amor lhe traz
nesta fatalidade algum alento:
em todo abraço goza de uma paz
que não achou no seu medicamento.
Que importa se o pesar da alma lhe agita,
se qualquer primavera que lhe fita
a dor quer transformar em duro inverno...
Que mais importa? Importa-lhe viver
o milagre de amar e de fazer
que cada curto dia seja eterno.
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A Lenda de Ohropo e Sepulcro
Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Ohropo desperta ao entardecer e enquanto seus olhos se tumulam no precipício, um corvo de olhos pútridos crocita infeliz; a alma de Ohropo, em partes, obliterada, retorna ao seu corpo sob um manto negro e pesado — vertendo abismo. Deste modo, quando Ohropo olha em direção ao som violento, a noite está ofuscada e, murmurando, ela ascende em seu coração um temor inominável que, de súbito, outorga-lhe nítidas memórias hediondas. Instável, caminha pelas sombras, e lamuria. Compreende que seu destino inconcusso, na tarefa imorredoura de irrigar o mundo humano com seu aspecto soturno, é o sentido primevo da sua criação — e desta fatalidade ele não pode esgueirar-se, mesmo que resida, no seu mais íntimo ser, um pequeno esplendor de desejo cuja emersão advém em uma indagação longínqua, uma dúvida ínfima, um tão-somente “por quê?”.
— Qual horizonte teus pronos olhos à maldição perscrutam? — A voz que indaga possui um sibilo indistinto, de entonação lôbrega como o canto gregoriano. É Sepulcro. Ohropo volta-se devagar a Sepulcro que se orvalha na cinesia do frígido vento crepuscular; é bela como anjos lapidados pelas covas que a compõe. Ohropo nunca vira Sepulcro.
— Quem és tu? — Sonda Ohropo cuja voz é franzina em angústia.
— “Quem sois?” é o que consultas, pois que não me restrinjo a uma. — Responde Sepulcro, altiva.
Há custosa aflição à fronte de Ohropo cuja verve falecera no primeiro despertar ao entardecer, quando em seu cerne ainda habitava a si mesmo e quando suas mãos eram retratos pulcros de desgraça e sangue. Naqueles tempos, Ohropo vociferava, plangia, e nada mais.
— Vejo... És as mortes todas... — conclui, pelo que vê, através de seus olhos ainda semicerrados em ranzinza tragédia.
— Ora, que proseio contigo do além? Nada disso. Estou à vida como tu estás ao teu caminho, sempre fiel — ufana Sepulcro, elegantemente.
— Sempre fiel... — Ohropo repete, pois está confuso, algo no âmago da sua tétrica constituição oscila.
— Leva-me contigo, — implora Sepulcro — posso deixar menear teu fardo no interior de meu cálice que há de envolvê-lo em sua seiva sepulcral.
— Não posso... — Ohropo responde e suspira — Este fardo é horrendo, há de desolar todo o vosso encanto.
— Há nada que me ascenda o temor — teima Sepulcro.
— Impossível... — insiste Ohropo — Pavores são o soprar da aragem fria, e são o agora, o amanhã, o tudo o que é e há de ser.
Sepulcro sorri em revide.
Sua beleza revela uma reminiscência a Ohropo, símil ao que o oscila no cerne, o esplendor lúgubre de seu outrora tão cruel. A lágrima que vertera pela última vez há tanto tempo, renasce tímida, intolerável. Contudo um som execrável impede o alívio etéreo do broto da emoção, é a estrondosa sonância da foice de Exício. O corpo esquálido de Ohropo se consome ao desespero lutuoso, sua sentença ressurge do abismo entre ele e a inalcançável Sepulcro que, naquele átimo de tempo, fechou seus olhos santos e ideou um enlevo ao lado de Ohropo.
— Sepulcro! — Ouvem ambos, e tremulam, a voz é grave e trevosa, Exício a chama, feroz e austero; por isso Sepulcro vai ao seu encontro, pois a ele pertence, então desvanece. Ohropo senta-se sob a sua perdurável dor em solitude, frente d’onde outrora vira Sepulcro; e, sob um semblante medonho, ele espera até poder vê-la outra vez.
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LXXVI
Na noite de sombras imprescritíveis | Onde os pesares ali regem | O vazio do tempo, a dor sem cura | Na alma perdida entre estrelas, a busca pela expiação de sua agonia…
Criado para o Castelo Drácula com Midjourney
Na noite de sombras imprescritíveis
Onde os pesares ali regem
O vazio do tempo, a dor sem cura
Na alma perdida entre estrelas, a busca pela expiação de sua agonia
Entre paredes de pedra, ecos do distante passado
O suspiro daqueles corações inocentes
Indo para além da solidão, o sutil encontro com a vil lâmina
Na angústia existencial, as lembranças de profunda aflição
No abismo do ser, o anseio pela absolvição dos pecados
O sentido da vida se esvai como a neblina na manhã
Após emergir a luz, se desfaz a escuridão dos teus pensamentos.
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Violenta
Qual luz de um céu distante, inalcançável, | Sonhando formas de abraçá-la um dia… | A essa altura os pensamentos vagam...
MidjourneyAI
Qual luz de um céu distante, inalcançável,
Sonhando formas de abraçá-la um dia…
A essa altura os pensamentos vagam
Envoltos pelo azul-melancolia…
A raiva a qual se chega, malfadados
Os planos dessa antiga travessia,
Resultam veios sobrecarregados
De cor vermelho-sangue-rebeldia…
Vestígios do querer cicatrizados…
Agora em só lembranças transformados:
A fúria-melancólica por dentro…
Sinal daquele orgulho, reprimido…
Contudo, irá viver, subsistindo
Na púrpura-heráldica do peito…
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Descuido da morte
Eu o vi afastado entre as aberturas de meus dedos afastados. As mãos sobre minha face ferida, apertadas com designo…
MidjourneyAI
Eu o vi afastado entre as aberturas de meus dedos afastados. As mãos sobre minha face ferida, apertadas com designo de proteger-me do terror que me acometia decorrente a circunstância de morte presente, já não me auxiliava.
A escuridão havia tomado todo o cômodo, aos prantos prostei sobre a esteira aguardando em silêncio, contendo os murmúrios e apelos preservados em minha garganta. Eu o matara, e como haveria de fazer o contrário diante da violência a qual vinha sofrendo anos a fio? Não fora intencional, muito menos arquitetado, embora aceitei veemente a oportunidade de apunhalá-lo segundos antes do ato.
Nossos filhos jamais perdoariam meu ato desesperador, pois em suas cabeças pueris somos o mais puro e simplório retrato familiar genérico introduzida em nosso contexto social, embora, eu creio que a desumanidade esteja presente em todas as classes, no fim, somos todos idênticos.
‘‘Desumanidade’’
Marquei com o plasma sangrento em minha própria carne como lembrança. No decorrer de minha consciência, pousei as mãos sobre a chemise em descanso, e ressentida decidi dar um fim a figura masculina finada diante de meus olhos. Era bonito, senti pena, a beleza pouco é igualada dentro e fora da carcaça humana, tomo meu pai como exemplo, foi bonito e sabido, porém agressivo e infiel, receio que minha filha sinta necessidade de encontrar um par como o meu, assim como fiz, espelhando-me em minha mãe.
No presente momento em que olhei para meu finado companheiro, e tomei em minhas mãos algo que pudesse limpá-lo e também minha casa, compreendi meu infeliz roteiro, sei que diferente de minha mãe reagi por instinto, instinto esse desconhecido, uma vez que não enxergava dentro de mim impulso algum responsável por este desfecho dramático.
Pois bem, tão logo o limpei vi o defunto voltar a corar, os lábios empalidecidos voltaram a dar-lhe a beleza e vitalidade, porém a costumeira expressão odiosa, a qual pesava-lhe na inclinação das sobrancelhas mesmo na morte, fora atenuada, dormia sereno, longe de pesadelos, e o cheiro da decomposição, a qual vinha deixando-me de certa forma satisfeita por comprovar meu livramento, havia desaparecido por completo.
Aproximei o rosto de seus lábios, os lábios que outrora despejaram provocações e beijaram-me com uma ferocidade atroz. Não tencionava beijá-lo, esse anseio já não me provocava há anos, tencionava apenas comprovar por meio de sua respiração a morte efetiva, porém o maldito voltou a respirar, embora suave, e as pálpebras tremeluziram em um sonho agitado.
Levei a mão aos lábios contendo o grito, pois percebia minha insanidade e refleti sobre a possibilidade de a morte não passar de uma idealização projetada em minha mente como consequência de sérias complicações em minhas faculdades mentais. Logo o choro e o desespero regressaram urgentes junto ao despertar de meu marido e a fixação de seus olhos aflitos.
O não mais falecido permaneceu sentado onde havia desencarnado, apertando os lábios como em um choro reprimido, mas não se atreveu a questionar os últimos acontecimentos, somente refletiu ao tomar ciência de sua localização. Quis apagá-lo outra vez, apanhar meus filhos na moradia vizinha e fugir da capital, todavia não o fiz, aguardei assombrada. Ele não tornou a agredir-me, embora demonstrasse agressividade na forma como ergueu o tronco e deixou a casa apressado.
Aguardei seu retorno acuada por detrás das cortinas, repetindo o procedimento habitual de quando nos deixava a fim de se aventurar entre tavernas e residências de messalinas portuguesas desfavorecidas. Antes do anoitecer do terceiro dia, Mario atravessou a porta abatido, questionou-me cauteloso a respeito de nossa família e emprego, o qual evidente não existia, uma vez que há tempos eu vinha sustentando a casa e seus vícios através da costura.
Confuso, respondeu de forma branda, quase não ouvi sua voz, o que me deu coragem para exaltar a minha, proferindo todo tipo de injuria, devolvendo a agressão verbal e corporal sofrida por anos, aguardando que revidasse e enfim findasse minha vida, visto que a sua não poderia ser tomada apesar de todo meu esforço.
Mario tornara-se impassível, mostrando-se eficiente em cuidar dos meninos e de nossa moradia. Por semanas fui testemunha de sua loucura, antes fora a encrenca encarnada, porém agora o equilíbrio tomava sua personalidade, transformando a leviandade em uma amarga lembrança. Mario e nossos filhos formaram uma amizade jamais cogitada por mim, diminuindo minha guarda em relação o pavor de dias remotos.
Certa manhã, eu o vi levantar discreto, e crendo na proeza de sua prudência vestiu-se e deixou a casa sorrateiro. Eu o segui em desconfiança, por pouco desacreditei na cena a qual se desenrolou a frente de meus olhos; Mário observava uma família através das janelas com um profundo ar melancólico. A dor em seu semblante desprendeu em mim uma afeição jamais sentida, embora houvesse chances de estar diante da residência onde se passara mais uma de suas infidelidades. Mário tornou a voltar para casa ao fim do dia, e como de costume aprontou parte do serviço no campo e acariciou os filhos com o mais profundo carinho de seu coração.
Os dias correram, e com o correr meu coração abriu-se outra vez para o amor, embora enfrentasse um dilema moral, afinal, como retornar a relacionar-me com um sujeito cujo desrespeito e agressividade uma vez operaram em cada um de seus atos? Como doeu, e dói refletir sobre o passado, leitor. Pouco ponderei minhas tomadas de decisões, não controlava os pensamentos involuntários sobre como proceder, havia somente duas opções: encobrir, e dessa forma alcançar a felicidade tão idealizada, ou o diagnosticar como louco e esgueirando-me como havia planejado há tempos. O que farias em meu lugar?
Eu permaneci ao seu lado, tornando a enxergar beleza em seus olhos e lábios, desprendida do medo e cativada como em nossa juventude. Acredito que esta história findará repleta de contrariedades e desagradará grande parte dos leitores, por este motivo relato minha experiência, para que saibam o quanto ainda me ressinto dos dias de horror experimentados outrora.
Mario conservava sua rotina ligada ao trabalho braçal, olhar as crianças e amar-me com ardor, porém, pela manhã, sorrateiramente partia em direção a casa desconhecida e a observava tristonho. Imaginei que o preço de ter uma vida feliz era aceitar este estranho passei matutino, no entanto, sentindo-me dona da coragem o confrontei, e meu confronto atraiu a família observada a qual esboçou dúvida sobre os protestos desenfreados próximos a sua residência.
Mário, sentiu necessidade de apaziguar apenas a preocupação da mulher recém-chegada, a penosa mulher de belos trajes e modos de uma verdadeira dama de elevada classe, causando em mim grande ressentimento. Em casa, a sós, meu esposo contornou a cozinha taciturno, quieto em busca de sossego, porém via-me no direito de ouvir a verdade e calcular por mim mesma os riscos de conhecer o preço da felicidade. Eu o confrontei, e a verdade pareceu-me dolorida e inverossímil, jamais compreenderei a eventualidade sucedida após o desencarnar do corpo de Mário meses atrás.
O homem ao lado vivia no íntimo de meu esposo, usava de seu corpo, articulava com sua voz e corria com seus pés, porém não era ele. O que ocorreu fora que após o desencarnar de Mário outra alma ocupara seu corpo de forma inesperada, a passagem não fora concluída e dessa forma o pobre homem, impossibilitado de retornar ao próprio corpo e aproveitar os carinhos de sua boa esposa e filhos privilegiados, obrigou-se a aceitar a nova vida, mantendo-se saudoso, dia após dias.
Após dialogarmos, decidimos aceitar sua nova chance, nossa nova chance, afinal, o descuido da morte presenteou a mim e minha família com o que jamais dispusemos, revogando nossa crença na bondade masculina e salvando minha filha da possibilidade de adentrar em um matrimônio como o meu, e passar adiante a desgraça das mulheres de nossa linhagem.
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A Escultura
Carlos sempre flertava com a ideia de viver uma vida simples, sem muitas preocupações, de preferência numa…
MidjourneyAI
Carlos sempre flertava com a ideia de viver uma vida simples, sem muitas preocupações, de preferência numa cidade pequena. Como de costume, ele acordou cedo para comprar jornal na banca próxima a sua casa e, ao folheá-lo, se deparou com um anúncio na parte dos classificados, era o convite que ele estava esperando. Tratava-se de um incrível chalé em frente à praia, numa pequena e charmosa vila pesqueira. Um singelo sorriso surgiu de seus lábios enquanto guardava o jornal.
Certo dia, ele resolveu conhecer o lugar, reservou o chalé por um final de semana e se apaixonou imediatamente, tudo era encantador, a sala ampla, um sofá aconchegante, uma cozinha bem planejada e bastante arejada, a poltrona de balaço feita de palha na varada, o quarto com uma janela linda de madeira, e abaixo da janela, uma confortável cama feita de madeira. Tivera uma estadia fantástica, deixou a vila com saudades.
Anos se passaram e Carlos desejara voltar à vila, mas, desta vez ele queria se mudar, todos diziam que era uma loucura, preocupados em como ele iria se sustentar. Mesmo assim, contra todos os conselhos, ele planejou tudo escondido, estava cansado daquela vida caótica da cidade. Programou-se, economizou e estava decidido a se mudar, não foi fácil, mas ele conseguiu, com muita paciência e dedicação ele finalmente foi morar na vila, foram tantos fins de tarde contemplando o belíssimo pôr do sol, ouvindo o som das calmas ondas beijarem os grãos quentes de areia, os siris buscando abrigo subterrâneo para proteger-se das ondas, porém nada se compara com a grandiosa e misteriosa falésia que, estendia-se por toda praia.
A principal fonte de renda da vila era a pesca, eram conhecidos por terem os mais belos exemplares de peixes, exportavam para todo o Brasil, ampliando, também, para mercado exterior. Foi justamente nesta peixeira que Carlos conseguiu um emprego, era um ambiente leve e tranquilo de se trabalhar. Não se importava com cheiro, ele estava feliz. Acordava animado, gastava por volta de dez minutos da sua casa ao trabalho. Às vezes ele acompanhava as embarcações que ancoravam no cais, trazendo a mercadoria, catalogava quantos peixes foram trazidos e quantos foram vendidos, as vezes ele fazia a limpeza dos peixes.
Por volta das 4 horas da tarde, ele retornava para sua casa, tomava banho acomodava-se em sua poltrona de palha, sempre na companhia de seu café, sentindo a brisa refrescante do mar tocar seu rosto, enquanto admirava o mar e sua imensidão. Estava gostando muito daquele lugar, o clima era agradável mesmo com o imponente sol, a noite era mais fresca e nos finais de semana, as crianças dominavam a pracinha e as ruas, podia-se ouvir as traquinagens e os chinelos batendo contra os paralelepípedos; milho assado, algodão doce e cachorro-quente eram vendidos ao lado da igreja, na praça.
Já nos dias da semana, era menos movimentado. Assim, Carlos vivera momentos felizes. Tinha um ótimo trabalho, ganhava bem e possuía o que ele mais buscava: qualidade de vida. Acordar, e dormir com aquele som das ondas quebrando à beira-mar, não tinha preço, mas aquela serena vila pesqueira escondia um segredo terrível.
Fora em uma noite, na taverna do local, que histórias horrendas atravessaram a mente de Carlos, levando a uma profunda impregnação em seu subconsciente. Aquela noite terrível naquela taverna fizera com que a visão poética que Carlos tinha sobre a vila, fosse fragmentada em micro pedacinhos, tal qual um cristal quebrado. Desde então, quando se encontrava apoiado com os cotovelos na moldura da janela, observando com olhar sereno a despedida das arrastadas noites, assistindo o firmamento receber gentis pinceladas em tons flamejantes e ouvindo ao longe o cantar dos pássaros que anunciam o início do dia, pois cruzam o céu de ponta a ponta, repousando seus corpos nas folhas dos inúmeros coqueiros dispostos por toda extensão da vila pesqueira, tudo não era mais como antes, mesmo com o mesmo cenário.
Sem demora, a inevitável luz matinal começara a surgir no horizonte trazendo o aprazível calor, ainda na janela, com aquele cenário. Carlos, então, bocejou. — “Essa insônia ainda vai acabar comigo!” — pensou enquanto esfregava seus olhos cansados, seguindo em direção ao banheiro. A passos vacilantes, desviou de algumas garrafas de bebidas, porém acabou tropeçando no lençol, o qual fora lançado ao chão. Finalmente chegou ao seu destino, viu-se no espelho, apático. Enxaguou seu rosto ornamentado pelas rugas, enquanto seus olhos castanhos desejavam deixar essa mísera existência. Penteou os poucos cabelos que lhe restavam, trocou de roupa, comeu metade de um pão adormecido, e foi trabalhar.
A silenciosa praia escutava os passos de Carlos, ele seguia caminhando em alerta, sob os grãos fumegantes de areia. A mão esquerda elevada à altura dos olhos, o protegiam debilmente do impiedoso sol. Ao chegar no trabalho, seus colegas se espantaram com sua fisionomia, seu rosto denunciava as noites de insônia. O vigor que outrora trazia, sumira do seu corpo, dando lugar a uma fadiga constante. Joaquim, preocupado com seu amigo, questionou o que estava acontecendo, Carlos explicou tudo o que sucedera, sobre as histórias assombrosas que ouvira na taverna, bem como os terríveis pesadelos constantes e, ao ouvir tudo aquilo, Joaquim paralisou por segundos e disse que era melhor que Carlos esquecesse tudo o que ouvira, pois, as histórias, por mais bizarras que fossem, tinham um fundo de verdade. E, de fato, por um tempo, e com esforço, Carlos conseguiu esquecê-las, no entanto, elas sempre rastejavam até a superfície, assombrando-o. Sua alma havia sido corrompida pelo desconhecido.
Novamente ele assistiu o doce amanhecer aquecer o dia e, mesmo exausto, foi trabalhar, pois, assim esquecia, por algumas horas, as lembranças. Ao chegar no trabalho, foi designado para receber uma grande carga e fazer as devidas anotações. O dia passara tão rápido que ele nem percebeu que a noite havia chegado, todos foram para suas casas, menos Carlos, pois o patrão confiava muito nele para aquele serviço. Ele, então, respirou fundo e pegou a caixa, foi recebido com uma baforada de odor pútrido, sentiu o gosto azedo do suco gástrico subir até a garganta, vislumbrou um peixe enorme, nunca visto antes, seus olhos esbugalhados eram vazios, exibiram um terror ancestral.
De suas escamas fluía uma secreção escorregadia ao toque e sua boca estava costurada com náilon, como se protegesse um terrível segredo. Era a exata cena das histórias que ouvira. Tonto, Carlos lutava para se manter de pé. As escamas brilhavam, estranhamente, em tons de azul fluorescente. Apesar de todo o horror, ele foi até o fim, queria descobrir a verdade. Após amolar sua faca, cortou o náilon, a criatura emitiu um gemido repugnante enquanto ele prosseguia, com as mãos tremulas, na incisão na criatura. O som da pele sendo dilacerada ecoava no silêncio. Carlos contemplou as escamas bailando no ar, com olhos perplexos ele finalizou o corte e fitou as vísceras espalhando-se sob a mesa.
Desta vez ele desmaiou. Quando pôde retomar a consciência, minutos depois, a cena grotesca permanecia ali. Ele apoiou suas mãos na mesa e notou algo nas entranhas da criatura, era uma estátua esverdeada, com mais ou menos 40 centímetros, ela era disforme, coberta por escama, ostentava inúmeras patas longas e arqueadas que ocupavam toda a extensão do corpo, por fim, múltiplos olhos complementam a escultura medonha. Carlos ergueu o nefasto objeto à altura dos olhos, os contornos pareciam ganhar vida, pensou ele ao admirar a escultura: — “Essa é justamente a representação da criatura que algumas pessoas desta vila maldita prestam culto”.
Antes de desmaiar pela segunda vez, ele a ergueu aos céus, suas mãos cobertas por vísceras, e suplicou por alguma intervenção divina, desabando em seguida naquele chão coberto por escamas e entranhas, desta vez, ele teve uma visão de eras remotas, onde o mundo era governado por seres multidimensionais, eles habitavam no espaço-tempo, e um desses seres era a temível escultura que acabara de ver, ela se locomovia com rapidez devido suas enormes patas, gerando gigantescos vórtices. Esse ser era de tamanho imensurável, seu corpo era repulsivo, gelatinoso e amorfo; seu brilho era assombroso. Aquela verdade era muito espetaculosa para a ínfima mente humana.
Carlos abriu seus olhos inertes após a súbita visão, seu corpo tremia compulsivamente e, enquanto ele balançava a cabeça em negação, gritou de forma gutural, chegando a ficar sem voz. Em seguida levantou-se ainda nauseante, enxergou a carnificina, viu, também, a maldita estátua e, tomado pela insanidade, ele ergueu a faca e extirpou seus olhos, ao mesmo tempo que gritos obscenos e risos histéricos eram ouvidos por toda vila. Seu corpo entrou em choque e despencou em meio às tripas.
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Foto da Web
De papéis, livros, tinteiros e canetas
Do verso, à minha aorta e cava eternas
Antes, acreditando pertencer a uma natureza findável,
Agora, tendo certeza da minha infinitude,
Quero viver a imensidão da eternidade
E em minha plenitude hei de espalhar minha maldição
Revés de quem tem amor a Vida;
Sorte de quem se fortalece na escuridão
E assim enquanto escrevo, me imortalizo
Porque a Morte é a solidão de quem não versa,
E a Não vida o acaso de quem se submete às presas
Eu possa me dizer do abraço sombrio:
Brindo à Morte, a continuação da Vida;
Brindo à Não Vida, dissolução da Morte.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…