Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo.

Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?

Essas perguntas remoíam seus pensamentos.

Já caminhava há horas, e não conseguia sair da margem. A areia da praia já começava a incomodar sua pele fina e fria como cinzas.

Foi então que ele avistou uma esperança.

Um rastro dela.

Um sapato parcialmente soterrado pela areia.

Ele correu, esquecendo que estava sem forças, esquecendo onde estava. Só pensava que havia encontrado algo, algo que o levaria até sua alma gêmea. Era a única coisa que importava. Era a única coisa que ele queria.

Pegou o sapato como se fosse a flor mais delicada, e o analisou como se olhasse uma obra de arte.

E, então, Menel não estava mais na praia.

 

Sua visão escureceu por um segundo — apenas um segundo — e ele se viu em um lugar escuro.

Uma escrivaninha sanguinolenta.

Manchas secas. Manchas frescas. Algo brilhava sobre a madeira escura, algo que ele não queria identificar. O cheiro era metálico, doce, insuportável.

Menel correu para longe, mas não conseguia se afastar. Não conseguia se aproximar. Quando se virava e corria em outra direção, a escrivaninha estava lá, à sua frente. Como se o perseguisse. Como se o chamasse.

O sangue na mesa parecia se mover. Lentamente. Escorrendo para as bordas, pingando no chão com um som úmido e aterrorizante.

— Não... — sussurrou Menel, a voz falhando. — Pare!

Mas o lugar não perguntava o que ele queria.

 

Então ele piscou novamente.

E voltou à praia.

Suas mãos agora estavam manchadas com o rubro do sangue. Manchas frias, pegajosas, que se espalhavam pelos dedos e sujavam o sapato que ele segurava com tanto cuidado.

Menel não se aguentou.

Caiu de joelhos. O sapato rolou para o lado, parcialmente enterrado na areia molhada, agora também manchado.

Ele olhou para as próprias mãos. Para o sangue que não era dele. Para o horror que aquele mundo lhe trouxera sem aviso.

— O que é isso? — perguntou em voz alta, para ninguém. — O que vocês querem de mim?

O vento respondeu com silêncio.

Ele ficou ali por muito tempo. Ou talvez apenas alguns segundos. O tempo naquele lugar não obedecia às regras que ele conhecia.

Aos poucos, a respiração voltou ao normal. O coração ainda batia forte, mas já não parecia que explodiria. Menel limpou as mãos nas roupas, o sangue saiu, mas a sensação ficou. Uma ardência invisível. Uma memória na pele.

Ele olhou para o horizonte. Para o mar escuro. Para o céu de cor incerta.

Iria buscar sua amada. Iria salvá-la.

Mas será que sobreviveria ao horror que encontraria em cada beco? Em cada visão? Em cada escrivaninha sangrenta que o chamasse?

Menel pegou o sapato novamente. Limpou na areia. Guardou-o junto ao peito como uma promessa.

E continuou caminhando.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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