Arte de Henry Fuseli, edição de Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da arquitetura vitoriana. Despedi-me de meus pais com o remorso corroendo meu peito, mas sabendo que eles tentaram de tudo, e no final acabei compreendendo a decisão deles. Fui recebido por uma equipe formada por dois médicos, três enfermeiros e um auxiliar; eles me levaram para conhecer as instalações (que, aliás, não eram lá essas coisas), mas isso não me importava, contanto que eu melhorasse dessa terrível condição. O prédio, por dentro, parecia ter parado no tempo; o forte odor de desinfetante com pano sujo pairava pelo ar, presente em cada cômodo.

Subimos um grande lance de escadas — não sei explicar, mas senti-me observado. No fim dos degraus, vi um grande portão de ferro com severas marcas de corrosão; após atravessá-lo, deparei-me com um colossal e alto corredor, mal iluminado por luzes amareladas oscilantes. O piso de ladrilhos azuis perdera a cor, assim como a meia parede de azulejos verdes. Conforme caminhava, vi outros pacientes em seus leitos; gritos e risadas se misturavam, causando calafrios — outras portas permaneciam fechadas — até que paramos. Vi então a maciça porta de madeira onde resquícios de tinta branca resistiam ao inexorável tempo; olhei mais acima e vi o número 106, em ferro, no centro dela. Uma minúscula janela de vidro, impregnada com décadas de sujeira — algumas manchas eram marrons escuras, semelhantes a sangue —, esse pensamento me assombrou.

A porta rangeu; meus olhos passearam pelo cômodo. À esquerda, próximo à porta, encontrava-se uma mesa com duas cadeiras, ambas brancas. À minha frente havia uma claustrofóbica janela gradeada e, abaixo dela, uma cama robusta de ferro decorada com faixas de contenção fixas na lateral. Caminhei até a janela, onde contemplei um belo jardim com árvores frutíferas, gramas podadas e alguns bancos dispostos. Desejei respirar o ar puro…

Por mais que aqui houvesse pessoas transitando o tempo todo, este lugar exalava desesperança — semelhante ao umbral onde incontáveis almas padecem em eterna agonia, esperando para serem salvas. Esse pensamento trouxe uma sensação perturbadora: será que um dia sairei daqui?

Uma leve vertigem apoderou-se de mim; do alto da minha testa surgiram tímidas gotículas que logo formariam uma nascente. Conseguia ouvir os batimentos em descompasso. Antes do inevitável desmaio, os enfermeiros me puseram na cama; devido à minha agitação, deram-me um calmante via oral e disseram que havia guardas lá fora para uma possível necessidade. Assim que eles saíram, acenei para os guardas — mas as amarras me causaram calafrios. Esperava adormecer o quanto antes; não demorou para o sono vir.

Em algum momento daquela noite, acordei agitado. Não vi ninguém lá fora; gritei por socorro, mas minha voz se perdia no vazio. Continuei tentando. Minha respiração falhava como se houvesse um peso em meu peito — como na pintura Pesadelo, de Henry Fuseli. Fechei os olhos e fiz o exercício de respiração; no passado, funcionava.

Respirei novamente e gritei do fundo das minhas entranhas. Para minha sorte, os guardas retornaram e, com agilidade, seguraram meu corpo que se debatia com violência; em poucos minutos, o restante da equipe havia chegado. Durante os primeiros socorros, presenciei algo medonho: uma sombra disforme surgia por trás da porta, espalhando uma horrífica luz arroxeada. Não poderia ser… seria a mesma figura que tanto me assombrara na infância? Neste momento, uma certa frase ecoou em minha mente: "Está tudo bem, Pedro — foi apenas um pesadelo. Vamos rezar para que tudo fique bem, certo, filho?"

Desta vez, o horror era verossímil demais para ser um pesadelo. O nefasto brilho ocupou todo o cômodo até que a figura adentrou o recinto: era esguia, corcovada, cinzenta, quase translúcida, mas também opaca. No rosto, dois enormes e enegrecidos olhos que pareciam devorar minha alma, e um sorriso medonho repleto de dentes afiados. O medo ancestral abraçou meu trêmulo corpo. Rapidamente os enfermeiros colocaram as amarras para conter os espasmos; os gritos tornaram-se guturais. Relatei o que estava vendo e eles se entreolharam, balançando a cabeça em negação. Lá fora, uma sirene tocava constantemente.

Percebi mãos em meu pescoço — havia a chance de alguma lesão. A cama gemia; os gritos se misturavam com frases desconexas; pupilas dilatadas em frenesi.

— Ele está perdendo a consciência — inicie a massagem cardíaca. Vamos, rápido, não podemos perdê-lo — um dos enfermeiros falou.

A massagem pareceu funcionar. Pela visão periférica, vi-a se aproximar e pousar os olhos nos meus; a agulha perfurou minha pálida pele — o líquido ardeu em minhas veias. Rapidamente o medicamento fez efeito; minhas pálpebras pesaram. Entretanto, a maldita figura permanecia ali, assim como aquela tenebrosa cor.


Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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