Lírio purpúreo

A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Sintra, Portugal.
1713

A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína. As cortinas de veludo púrpura pendiam pesadas sobre as janelas cerradas, impedindo que qualquer vestígio do mundo exterior penetrasse meus aposentos. Restavam apenas a luz vacilante de três velas sobre a penteadeira e o perfume adocicado dos lírios que eu mantinha em um vaso de prata ao lado da cama. Ou talvez já não fossem lírios.

Desde que ingerira o fungo, suas pétalas haviam escurecido nas extremidades. A antiga brancura transformara-se em manchas violáceas, semelhantes a hematomas florescendo sobre carne pútrida. Enquanto escrevo estas linhas, os lírios ainda repousam ao meu lado, tão vivos quanto no dia em que os colhi. Talvez este diário seja tudo o que restará de mim quando a história chegar ao fim.

Naquela manhã, quando adentrei o bosque que circundava a propriedade de minha família para realizar minha habitual caminhada, não poderia imaginar a descoberta nefasta que me aguardava. Entre os lírios que colhia para adornar meus aposentos, havia algo que meus olhos não reconheceram como pertencente à natureza comum. Parecia uma relíquia caída dos céus ou um artefato oriundo das histórias que minha ama contava para assustar-me durante a infância.

Ali, entre raízes retorcidas e pétalas alvas, brotava um fungo de coloração púrpura tão intensa que parecia concentrar em si toda a luz de uma lua refulgente. Suas lamelas imitavam as pétalas dos lírios ao redor, abertas como dedos infames emergindo das profundezas da terra. Gotículas viscosas brotavam de sua superfície, brilhando sob o amanhecer como lágrimas de vidro ou secreções de alguma criatura adormecida sob o solo. Sua presença destoava de tudo ao redor. Não havia beleza naquela forma, tampouco havia repulsa. Existia apenas uma estranha sensação de reconhecimento, como se eu finalmente houvesse encontrado algo que me aguardava havia muito tempo.

 Aproximei-me. Sua superfície pulsava sob os raios do amanhecer, como se respirasse. Como se estivesse vivo. Uma sensação inexplicável tomou conta de mim. Eu precisava possuí-lo, como se o fungo púrpuro sussurrasse meu nome através do silêncio do bosque. Como se desejasse que nos tornássemos uma única coisa. Em um rompante desprovido de toda lucidez, arranquei-o da terra e o levei aos lábios. O gosto assemelhava-se ao de sangue envelhecido. Havia também algo de ferro oxidado, de moedas esquecidas sob a chuva e de água estagnada em criptas antigas. A textura era macia e úmida, desagradável à língua; ainda assim, engoli cada fragmento.

Por um instante, nada aconteceu. O vento cessou. Os pássaros silenciaram. Até mesmo o farfalhar das folhas pareceu abandonar o bosque. Então senti uma pulsação. Não em meu peito, mas atrás de meus olhos.

Uma vibração lenta e profunda percorreu meu corpo como dedos invisíveis deslizando sob minha pele. Cambaleei por um instante, e o mundo tornou-se mais vívido. Os verdes adquiriram tonalidades impossíveis, provenientes de algum lugar além das estrelas. As sombras pareceram ganhar profundidade, e os lírios à minha volta inclinaram-se suavemente em minha direção, como se observassem minha transformação.

Minutos transformaram-se em horas e, quando retornei à propriedade, trazia comigo um buquê de flores e uma estranha sensação de companhia. Não era uma presença definida. Era apenas a impressão persistente de que eu já não estava sozinha dentro de mim.

Naquela noite, ao passar diante do espelho de minha penteadeira, tive a impressão de que havia alguém parado atrás de mim. Virei-me imediatamente, mas encontrei apenas o vazio. Ri de minha própria imaginação e tentei afastar o desconforto. Ainda assim, ao deitar-me, senti que algo observava meu sono.

Os dias seguintes transcorreram envoltos em uma névoa de inquietação. Minha ama comentava frequentemente sobre minha palidez crescente e insistia para que eu saísse dos aposentos e respirasse o ar da manhã. Eu pouco respondia. A verdade era que algo mudara dentro de mim desde o dia em que encontrara o fungo no bosque. Eu apenas ainda não compreendia o quê.

O sono abandonou-me pouco a pouco. As noites tornaram-se longas vigílias diante das janelas fechadas. Eu observava os quadros pendurados nas paredes e tinha a impressão de que seus olhos me acompanhavam pela penumbra. Os lírios permaneciam sobre a mesa de cabeceira. A essa altura já deveriam estar secos, embora suas pétalas estivessem tingidas por um púrpura cada vez mais profundo.

Um mês havia se passado, e nada, exceto os lírios e este diário, lembrava o que ocorrera naquela manhã. Por vezes, eu me convencia de que tudo não passara de um devaneio provocado pelo calor do verão. Outras vezes, porém, despertava durante a madrugada com a sensação de que alguém me observava da escuridão.

Até aquela noite, quando a vi diante do espelho.

A princípio, pensei tratar-se de um reflexo tardio, uma ilusão causada pelo cansaço. Havia dormido pouco nas últimas semanas. O fungo roubara-me a capacidade de repousar. Minhas noites haviam se tornado longas vigílias preenchidas por pensamentos mórbidos e pela sensação constante de que algo me aguardava além da superfície das coisas.

A mulher surgiu diante de mim gradualmente. Primeiro um vulto indistinto, depois um contorno delicado emergindo da penumbra e, por fim, um rosto. O meu rosto, mas não exatamente o meu. Ela possuía a mesma curva delicada do nariz e os mesmos cabelos escuros derramados sobre os ombros. Os olhos, contudo, eram diferentes. Violetas. Brilhavam na escuridão com uma intensidade inquietante, semelhantes aos olhos de uma coruja espreitando a noite. Pareciam absorver toda a penumbra ao redor e devolvê-la transformada em algo vivo.

Havia nela uma perfeição impossível, como se eu contemplasse uma lembrança idealizada de mim mesma. Parecia mais jovem, mais bela e mais viva.

Ela sorriu, e naquele instante senti o odor. Não vinha dos lírios. Era o cheiro dela. O cheiro do fungo. Sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida após a chuva. Algo doce e pútrido ao mesmo tempo, algo que despertou em meu peito uma repulsa tão intensa quanto a necessidade de continuar olhando.

Piscar tornou-se difícil. Desviar o olhar, impossível. Senti meus dedos enrijecerem sobre a madeira da penteadeira enquanto meu coração martelava o peito em descompasso. Ainda assim, uma parte de mim desejava que ela permanecesse ali. Desejava observá-la por mais alguns instantes, por mais alguns minutos, por toda a noite. Quando finalmente reuni coragem para sair daquele transe febril, o quarto estava vazio. Restava apenas o espelho da penteadeira e meu reflexo, sorrindo um segundo depois de mim.

Permaneci imóvel durante vários minutos. Meus olhos percorriam cada centímetro do espelho, procurando qualquer vestígio daquela aparição. Nada. Apenas meu próprio reflexo me encarava do outro lado do vidro, tão comum e imperfeito quanto sempre fora. Ainda assim, não consegui abandonar a penteadeira naquela noite.

As velas consumiram-se lentamente enquanto eu permanecia sentada diante do espelho. Por vezes, julgava perceber um movimento no canto da superfície prateada, uma sombra ou o esboço de um sorriso. Contudo, sempre que me aproximava, encontrava apenas minha própria imagem. Quando a luz do amanhecer infiltrou-se pelas frestas das cortinas, uma tristeza profunda apoderou-se de mim. Não era alívio o que sentia pela partida da criatura. Era melancolia.

Os dias seguintes transformaram-se em um suplício silencioso. Eu mal conseguia concentrar-me nas leituras, nas refeições ou nas conversas com os criados. Minha atenção retornava constantemente ao espelho de minha penteadeira e à lembrança daquele rosto impossível. Por mais que tentasse ocupar-me com tarefas cotidianas, acabava retornando aos meus aposentos antes do anoitecer, aguardando ansiosamente a chegada da escuridão.

Passei a evitar a luz do sol. Mantinha as cortinas fechadas durante grande parte do dia e aguardava com impaciência a chegada da noite. Os lírios continuavam sobre a mesa de cabeceira, estranhamente vivos, enquanto eu me tornava cada vez mais abatida.

À medida que os dias passavam, minha obsessão crescia. Eu examinava meu rosto por longos períodos, comparando-o à lembrança daquela mulher. Observava a curva de meus lábios, a palidez de minha pele e a forma de meus olhos. Havia algo nela que me escapava, algo que a tornava infinitamente superior. Mais bela, mais graciosa, mais digna de ser amada. Quanto mais tentava identificar a diferença entre nós, mais me convencia de que ela era tudo aquilo que eu jamais conseguiria ser.

Por vezes, surpreendia-me perguntando se aquela criatura ainda habitava o espelho ou se tudo não passara de uma alucinação provocada pelo fungo. Mas, em meu íntimo, eu sabia a verdade. Nenhuma alucinação poderia fazer alguém sentir tanta falta.

Desde o dia em que encontrara o fungo no bosque, passei a registrar cada acontecimento neste diário. A escrita tornara-se meu único consolo diante da crescente sensação de que algo escapava à minha compreensão. Se minha sanidade me abandonasse, ao menos estas páginas permaneceriam como testemunhas do que vivi.

Certa tarde, enquanto as criadas preparavam o chá, ouvi-as comentar sobre rumores inquietantes que haviam chegado à Feira de Agualva. Entre bancas e carroças, viajantes narravam uma chuva de meteoros que iluminara os céus semanas antes, exatamente na mesma época em que eu encontrara o fungo entre os lírios do bosque. Diziam que as estrelas haviam rasgado a noite como lanças incandescentes e que fragmentos luminosos foram vistos caindo além das colinas.

Os relatos tornavam-se ainda mais inquietantes conforme se espalhavam entre os viajantes. Alguns afirmavam que animais foram encontrados mortos sem qualquer sinal de ferimentos. Havia até quem jurasse ter visto uma luminosidade púrpura persistir durante dias sobre as colinas, como se parte do firmamento houvesse permanecido presa ao solo.

As criadas riam dessas histórias e atribuíam tudo à imaginação dos camponeses. Eu não consegui rir. Pela primeira vez, considerei a possibilidade de que o fungo não pertencesse verdadeiramente àquela terra.

As aparições tornaram-se mais frequentes. A mulher já não surgia apenas por breves instantes. Permanecia diante de mim durante horas, observando-me através do espelho. Nunca pronunciava uma palavra. Limitava-se a sorrir. Com o passar das semanas, seus movimentos tornaram-se estranhamente independentes dos meus. Por vezes eu permanecia imóvel enquanto ela inclinava a cabeça. Em outras ocasiões, percebia seu sorriso surgir antes do meu.

Numa noite, ela ergueu lentamente a mão. Eu não havia me movido. O terror que senti durou apenas um instante. Logo foi substituído por fascínio.

Meu estado piorava a cada dia. As refeições permaneciam intocadas. Correspondências acumulavam-se sobre minha escrivaninha, sem resposta. Livros que outrora me encantavam passaram a reunir poeira. Nada parecia possuir importância diante da perspectiva de revê-la.

Minha ama tornou-se a única pessoa a notar minha lenta transformação. Comentava frequentemente sobre minha palidez, insistia para que eu abrisse as cortinas e censurava os longos períodos que eu passava trancada em meus aposentos. Eu respondia pouco. Como poderia explicar-lhe que a luz do dia tornara-se insuportável diante da promessa da noite? Como poderia confessar que ansiava pela escuridão da mesma forma que outros aguardam a chegada de um amante?

Certa manhã despertei com a estranha sensação de estar sendo observada. Ao aproximar-me da penteadeira, encontrei um pequeno fungo púrpura repousando sobre sua superfície. Permaneci imóvel durante longos minutos. Eu não o havia colhido. Não na noite anterior. Não conscientemente. Ainda assim, ali estava ele, pulsando suavemente à luz do amanhecer.

Aproximei a mão, mas hesitei antes de tocá-lo. Algo em sua presença despertava uma memória desagradável, como um sonho esquecido que insiste em retornar. Chamei uma criada para confirmar que não se tratava de imaginação. Contudo, quando ela entrou no aposento, o fungo já não estava mais lá. A mulher limitou-se a olhar-me com preocupação, perguntando se eu estava me sentindo bem. Menti. Disse que fora apenas cansaço. Ela pareceu não acreditar inteiramente, mas nada respondeu. Durante o restante do dia, não consegui afastar a sensação de que algo se movia dentro de mim.

À noite, quando voltei a encarar o espelho, a mulher aguardava do outro lado do vidro e sorria como se conhecesse um segredo que eu ainda não era capaz de compreender.
Dormia cada vez menos e, quando finalmente o sono me vencia, era acometida por sonhos inquietantes. Caminhava por florestas cobertas de neblina púrpura, guiada por uma figura feminina cuja silhueta desaparecia sempre que eu tentava alcançá-la. Havia algo profundamente familiar nela, algo que despertava em mim uma mistura dolorosa de fascínio e melancolia.

Ao despertar, encontrava terra sob minhas unhas, folhas presas aos cabelos e manchas de lama na barra de minha camisola. Inicialmente atribuí esses sinais ao cansaço ou aos efeitos persistentes do fungo. Contudo, conforme as semanas avançavam, tornou-se impossível ignorar a frequência com que tais acontecimentos se repetiam.

Certa manhã, minha ama encontrou pegadas de pés descalços na escadaria dos fundos da propriedade. A princípio acreditamos tratar-se de algum invasor ou de um criado imprudente. Apenas eu percebi que as marcas possuíam exatamente o tamanho dos meus pés. Não disse nada. Limitei-me a observá-las até que apagassem os vestígios.

Na noite seguinte, tranquei a porta de meu aposento e escondi a chave sob o travesseiro. Estava determinada a provar a mim mesma que os estranhos acontecimentos eram fruto de minha imaginação. Entretanto, quando despertei na manhã seguinte, encontrei a chave repousando sobre a penteadeira, ao lado de um lírio púrpura recém-colhido. Não havia qualquer explicação possível para aquilo e, pela primeira vez, percebi que já não conseguia ignorar a verdade.

Decidi permanecer acordada naquela noite. Sentei-me diante do espelho e esperei. As velas consumiram-se lentamente enquanto a mulher me observava do outro lado do vidro. Pela primeira vez, tive a impressão de que ela parecia satisfeita. Quando o relógio anunciou a meia-noite, seus lábios curvaram-se em um sorriso sereno, quase afetuoso. Havia reconhecimento naquele gesto, como se ela soubesse algo que eu ainda desconhecia. Então tudo escureceu.

Despertei no bosque. A lua pairava alta sobre as árvores, iluminando fracamente o solo coberto de folhas úmidas. Meus pés estavam descalços e cobertos de lama. Em minhas mãos repousava um cesto repleto de fungos púrpura. Ao meu redor, dezenas deles brotavam da terra como flores malignas. Alguns cresciam junto às raízes das árvores, enquanto outros espalhavam-se entre os lírios silvestres. Havia tantos que o solo parecia pulsar sob sua presença.

Permaneci imóvel durante vários minutos, incapaz de compreender como chegara até ali. O silêncio era absoluto. Nem mesmo os insetos ousavam interromper aquela estranha quietude. Foi então que vi meu reflexo em uma poça formada pela chuva recente. Os olhos violetas que me observavam eram os mesmos da mulher do espelho.

Um arrepio percorreu minha espinha. Levei as mãos ao rosto numa tentativa desesperada de recuperar a razão. Foi nesse instante que senti novamente o odor: sangue envelhecido, ferrugem e terra úmida. O cheiro acompanhava-me. Impregnava meus cabelos, minhas roupas e minha pele. Pela primeira vez compreendi uma verdade que me encheu de horror. O cheiro jamais viera do espelho, jamais viera da mulher e jamais viera do fungo. Vinha de mim.

Meu olhar retornou à superfície da água. Não havia ninguém ao meu lado. Nenhuma criatura oculta entre as árvores. Nenhuma figura observando-me da escuridão. Apenas eu, meu reflexo e aquele sorriso impossível. Foi então que compreendi. A mulher do espelho nunca estivera presa atrás do vidro. Nunca habitara a superfície prateada da penteadeira. Nunca existira separada de mim. Habitava-me.

O horror da descoberta quase me levou à loucura. Cambaleei para trás e deixei o cesto cair. Os fungos espalharam-se pelo chão da floresta como órgãos arrancados de um corpo. Ao observá-los, compreendi algo ainda mais terrível: aquela não era a primeira vez que eu estivera ali.

Ao retornar para casa, encontrei outro cesto que havia sido levado para a cozinha. Fungos secavam próximos ao fogão. Em vários deles reconheci marcas de terra idênticas às que cobriam minhas mãos. A criatura não desejava apenas a mim. Desejava minha família. Desejava espalhar-se. E eu havia me tornado seu instrumento.

Compreendi que não me restava muito tempo. A mulher do espelho não precisava mais aparecer. Eu sentia sua presença em cada pensamento, em cada impulso e em cada respiração. Pela primeira vez desde que tudo começara, tive medo de adormecer. Passei aquela madrugada vasculhando a propriedade. Recordei-me das histórias sobre os meteoros e dos animais encontrados mortos próximos aos locais de impacto. Pela primeira vez, tudo pareceu encaixar-se numa única e terrível verdade. O fungo não era uma criatura do bosque. Não era uma maldição. Não era sequer uma entidade sobrenatural. Era uma semente. Uma semente caída dos céus. E eu havia permitido que ela germinasse dentro de mim.

Tomada pelo desespero, reuni todos os fungos que consegui encontrar no bosque e na propriedade. Carreguei cestos cheio deles até a sala principal da propriedade. Minhas mãos tremiam. Meus músculos doíam. Ainda assim, continuei. A cada novo cesto depositado na lareira sentia a presença da criatura tornar-se mais agitada dentro de minha mente, como se ela finalmente compreendesse minhas intenções.

Quando a última cesta foi despejada diante da lareira, risquei o fósforo. As chamas espalharam-se lentamente. Então os fungos começaram a arder. O fogo adquiriu uma coloração púrpura profunda. As sombras dançaram pelas paredes como figuras distorcidas. O odor espalhou-se pela casa com violência: sangue envelhecido, ferrugem, terra úmida e algo mais, algo que lembrava carne esquecida em um túmulo recém-aberto. Por um instante, tive a impressão de ouvir um som. Não exatamente um grito, mas algo próximo disso, como se milhares de vozes muito distantes lamentassem a própria destruição. Observei as chamas até que o último fragmento fosse reduzido a cinzas negras. Minha família estava salva. Quanto a mim, já não possuía a mesma certeza.

Agora escrevo estas linhas à luz de uma única vela. Minha ama dorme no aposento ao lado. Percebo o quanto fui egoísta e imprudente. Durante semanas afastei-me dela. Ignorei sua preocupação. Recusei seus conselhos. Ainda assim, foi a única pessoa que permaneceu ao meu lado quando minha própria razão começou a abandonar-me.

Dentro de algumas horas, quando terminar este relato, irei acordá-la. Entregar-lhe-ei este diário. Pedirei que o esconda. Pedirei também que faça aquilo que eu mesma já não possuo forças para realizar. Há algo crescendo dentro de mim. Posso senti-lo mover-se sob minha pele. Posso senti-lo pulsar atrás dos meus olhos. Enquanto escrevo estas palavras, meus dedos tremem involuntariamente. Por vezes, as letras parecem mover-se sobre a página. Por vezes, vejo raízes púrpuras surgirem nos cantos de minha visão apenas para desaparecer quando tento focá-las.

Se estas páginas sobreviverem ao tempo, que sirvam ao menos como advertência. Algumas flores não pertencem à Terra. Algumas sementes jamais deveriam encontrar solo fértil. E alguns amores, por mais belos que pareçam, não desejam ser correspondidos. Desejam apenas consumir.

Quando o sol nascer, se ainda existir algo de humano em mim, talvez Deus tenha misericórdia. Caso contrário, espero que minha ama tenha coragem e melhor pontaria do que eu.


Escrito por:
Lilium Batista

Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Hereditariedade

Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“O Senhor é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.” (Números 14:18)

Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas em decorrência do estresse. Outros disseram que, por não saber de fato minha origem (era filha adotiva), não saberiam dizer se era uma condição hereditária — e até irreversível. Fato era que os males noturnos pioravam à medida que os meses se arrastavam perante mim.

Vertigem. Falta de ar. Suores repentinos. Não, eu não estava entrando na menopausa, nem precoce e nem nada, pois só tinha 27 anos na época e aqueles palermas afirmavam que não se tratava disso. Estresse? Quase todo mundo tinha, me sentia até pertencente à essa geração de descontrolados varridos. E, baseados nessas desculpas, me entupiram de drogas para “aliviar a tensão”.

E tudo continuava a se agravar.

Não conseguia mais dormir. O descanso irregular piorava o suposto quadro de estresse. Aquele maldito ciclo era surreal. Não conseguia dormir por causa do estresse, ficava ainda mais estressada porque não conseguia dormir.

Pensei em procurar meus pais biológicos, com a estrita intenção de tentar entender qual condição maléfica poderiam ter passado para mim, mas isso não era possível, já que minha mãe — a adotiva e minha mãe de fato —, nunca soube quem eram.

Mas eu não conseguia mais viver daquela forma e, ignorando meu ceticismo, fui visitar uma médium (essa atitude também agravou meu quadro, pois tive que passar por cima das minhas crenças, ou melhor, da falta delas).

Mas o que era mais uma cavada para quem já está no fundo do poço?

***

Devia ter seguido minha intuição. Aquela mulher falou tanta baboseira que mal consegui terminar de ouvi-la até o fim — alguma coisa sobre maldição hereditária e pecados atravessando gerações. Já ouviu falar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”? Então, não devia ter visto essa história de perto.

Segundo a charlatã, meu bisavô era proprietário de uma companhia muito próspera que fazia papeis de parede. O problema é que um dos elementos usados para produzir a cor púrpura era arsênico. Sim, o veneno.

Fui pesquisar depois e, para meu absoluto desprazer, isso realmente aconteceu na história humana. Papel de parede envenenando gente. O século XIX parecia um grande experimento suicida coletivo.

Mas, continuando a história absurda, em decorrência disso, várias pessoas faleceram intoxicadas. Uma dessas famílias era composta por religiosos fervorosos que, por influência de algo obscuro, flertavam com práticas incomuns (não me pergunte quais, como eu disse, mal prestei atenção nela).

Dos cinco membros que viviam na casa recém reformada com aqueles belíssimos papeis violetas, quatro morreram de forma trágica. A matriarca da família, e única sobrevivente, rogou uma maldição contra meu bisavô:

“Assim como quatro tombaram sob teu pecado, quatro gerações pagarão.”

Se aquilo fosse verdade, seriam quatro gerações condenadas à morte de formas terríveis: meu bisavô, meu avô, meus pais… e eu.

A mulher ainda afirmou que, quando meus pais descobriram sobre a maldição, decidiram me colocar para adoção. Talvez acreditassem que a distância bastasse para enganar a dona morte.

É obvio que não acreditei em nenhuma palavra da médium naquele momento, e continuei minha vida, rotina de insônia, médicos e trabalho. Até que tudo ruiu.

 *** 

Quem poderia imaginar que o fundo do poço não era o pior lugar que eu poderia estar? Achava que só mais uma escavação não faria ruir as estruturas, mas tudo cedeu e me soterrou em ressentimentos e maldições. Sim, era tudo verdade, mas, mesmo se eu tivesse acreditado antes, não poderia mudar meu destino. Pagar pelos erros dos antepassados era cruel e injusto, mas a minha revolta não mudaria nada disso.

Perdi meu trabalho, porque não conseguia me concentrar em nada.

Não fui mais aos médicos, porque já não tinha dinheiro para os exames.

E, sem dormir, minha mente me pregou peças.

Um dia, quando estava deitada tentando dormir — ah, como eu era insistente — olhei para o espelho que havia ao lado da minha cama e avistei — até então tinha certeza de que imaginava — em cima do meu peito uma criatura cadavérica, de olhos tão escuros que sugavam a atenção, o olhar e a vontade de viver. E, quando ela sorriu, todos os males que sentia foram agravados. Ela era a culpada!

 Mas eu não permitiria que a maldição me atingisse de forma direta. O último elo dessa corrente iria resistir bravamente, nos meus termos, do meu modo.

E, com uma apunhalada, quebrei o maldito portal-espelho, sentia os pedacinhos de vidros me convidando, atraindo, clamando para terminar de uma vez por todas com aquele sofrimento.

Agarrei um dos cacos mais pontudos e enfiei primeiro nos meus olhos, mas isso não foi suficiente e, apesar da dor, ainda havia vida em mim. Ouvi uma voz sussurrar que havia chegado o momento de, finalmente, ter o descanso eterno, e sem hesitar cravei o objeto na garganta e a rasguei...

...Continuo não sabendo o que sou, quem sou, mas enfim obtive o merecido sono eterno.


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Onírico

Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da…

Arte de Henry Fuseli, edição de Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da arquitetura vitoriana. Despedi-me de meus pais com o remorso corroendo meu peito, mas sabendo que eles tentaram de tudo, e no final acabei compreendendo a decisão deles. Fui recebido por uma equipe formada por dois médicos, três enfermeiros e um auxiliar; eles me levaram para conhecer as instalações (que, aliás, não eram lá essas coisas), mas isso não me importava, contanto que eu melhorasse dessa terrível condição. O prédio, por dentro, parecia ter parado no tempo; o forte odor de desinfetante com pano sujo pairava pelo ar, presente em cada cômodo.

Subimos um grande lance de escadas — não sei explicar, mas senti-me observado. No fim dos degraus, vi um grande portão de ferro com severas marcas de corrosão; após atravessá-lo, deparei-me com um colossal e alto corredor, mal iluminado por luzes amareladas oscilantes. O piso de ladrilhos azuis perdera a cor, assim como a meia parede de azulejos verdes. Conforme caminhava, vi outros pacientes em seus leitos; gritos e risadas se misturavam, causando calafrios — outras portas permaneciam fechadas — até que paramos. Vi então a maciça porta de madeira onde resquícios de tinta branca resistiam ao inexorável tempo; olhei mais acima e vi o número 106, em ferro, no centro dela. Uma minúscula janela de vidro, impregnada com décadas de sujeira — algumas manchas eram marrons escuras, semelhantes a sangue —, esse pensamento me assombrou.

A porta rangeu; meus olhos passearam pelo cômodo. À esquerda, próximo à porta, encontrava-se uma mesa com duas cadeiras, ambas brancas. À minha frente havia uma claustrofóbica janela gradeada e, abaixo dela, uma cama robusta de ferro decorada com faixas de contenção fixas na lateral. Caminhei até a janela, onde contemplei um belo jardim com árvores frutíferas, gramas podadas e alguns bancos dispostos. Desejei respirar o ar puro…

Por mais que aqui houvesse pessoas transitando o tempo todo, este lugar exalava desesperança — semelhante ao umbral onde incontáveis almas padecem em eterna agonia, esperando para serem salvas. Esse pensamento trouxe uma sensação perturbadora: será que um dia sairei daqui?

Uma leve vertigem apoderou-se de mim; do alto da minha testa surgiram tímidas gotículas que logo formariam uma nascente. Conseguia ouvir os batimentos em descompasso. Antes do inevitável desmaio, os enfermeiros me puseram na cama; devido à minha agitação, deram-me um calmante via oral e disseram que havia guardas lá fora para uma possível necessidade. Assim que eles saíram, acenei para os guardas — mas as amarras me causaram calafrios. Esperava adormecer o quanto antes; não demorou para o sono vir.

Em algum momento daquela noite, acordei agitado. Não vi ninguém lá fora; gritei por socorro, mas minha voz se perdia no vazio. Continuei tentando. Minha respiração falhava como se houvesse um peso em meu peito — como na pintura Pesadelo, de Henry Fuseli. Fechei os olhos e fiz o exercício de respiração; no passado, funcionava.

Respirei novamente e gritei do fundo das minhas entranhas. Para minha sorte, os guardas retornaram e, com agilidade, seguraram meu corpo que se debatia com violência; em poucos minutos, o restante da equipe havia chegado. Durante os primeiros socorros, presenciei algo medonho: uma sombra disforme surgia por trás da porta, espalhando uma horrífica luz arroxeada. Não poderia ser… seria a mesma figura que tanto me assombrara na infância? Neste momento, uma certa frase ecoou em minha mente: "Está tudo bem, Pedro — foi apenas um pesadelo. Vamos rezar para que tudo fique bem, certo, filho?"

Desta vez, o horror era verossímil demais para ser um pesadelo. O nefasto brilho ocupou todo o cômodo até que a figura adentrou o recinto: era esguia, corcovada, cinzenta, quase translúcida, mas também opaca. No rosto, dois enormes e enegrecidos olhos que pareciam devorar minha alma, e um sorriso medonho repleto de dentes afiados. O medo ancestral abraçou meu trêmulo corpo. Rapidamente os enfermeiros colocaram as amarras para conter os espasmos; os gritos tornaram-se guturais. Relatei o que estava vendo e eles se entreolharam, balançando a cabeça em negação. Lá fora, uma sirene tocava constantemente.

Percebi mãos em meu pescoço — havia a chance de alguma lesão. A cama gemia; os gritos se misturavam com frases desconexas; pupilas dilatadas em frenesi.

— Ele está perdendo a consciência — inicie a massagem cardíaca. Vamos, rápido, não podemos perdê-lo — um dos enfermeiros falou.

A massagem pareceu funcionar. Pela visão periférica, vi-a se aproximar e pousar os olhos nos meus; a agulha perfurou minha pálida pele — o líquido ardeu em minhas veias. Rapidamente o medicamento fez efeito; minhas pálpebras pesaram. Entretanto, a maldita figura permanecia ali, assim como aquela tenebrosa cor.


Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Velian em Agonihria: Os Dentes do Abandono

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas. O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas.

O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no cômodo escuro. As estantes repletas de livros antigos e modernos. As cortinas pesadas impedindo a entrada do sol nordestino. Nada havia mudado.

E, ainda assim, algo nele estava diferente.

Nas noites que se seguiram ao retorno, vagou pelas ruas da cidade sem propósito definido. Caminhava pela Beira-Mar observando as barracas que encerravam suas atividades, os pescadores preparando embarcações para a madrugada, os vendedores desmontando estruturas sob o vento constante que vinha do Atlântico. Fortaleza nunca dormia completamente; apenas diminuía o ritmo. Havia sempre alguém acordado, alguém amando, alguém brigando, alguém chorando.

Os humanos insistiam em existir com uma intensidade que o fascinava.

Séculos atrás, aquilo lhe parecera ridículo.

Décadas atrás, invejável.

Agora lhe parecia belo.

Talvez porque finalmente compreendesse que a fragilidade era parte daquilo que tornava cada momento significativo.

Ou talvez estivesse apenas envelhecendo.

Sorriu diante da própria conclusão.

— Um vampiro envelhecendo. Que piada de mau gosto.

Continuou caminhando.

O vento espalhava o cheiro da maresia pelas avenidas. Ao longe, um pequeno bar ainda mantinha música acesa na madrugada. Vozes embriagadas misturavam-se ao som distante do mar. Velian observava tudo como quem contempla uma peça teatral conhecida.

Desde o encontro com Cassandra, algo permanecia inquieto em sua mente.

Não era saudade.

Jamais utilizaria uma palavra tão humana.

Mas a lembrança dela surgia ocasionalmente.

O sorriso irônico.

Os olhos vermelhos.

A maneira como debochava de suas perguntas.

A forma como parecia compreender a escuridão sem precisar interrogá-la constantemente.

Talvez fosse isso que mais o irritava.

Ou admirava.

Ainda não decidira.

Também pensava em Nix.

A Senhora da Noite não lhe concedera respostas. Pelo contrário. Desde aquele encontro, as perguntas haviam se multiplicado. Contudo, agora possuíam outra textura. Já não eram apenas feridas abertas buscando explicações. Tornaram-se caminhos.

Velian continuava sem compreender a existência.

Continuava sem compreender a eternidade.

Continuava sem compreender a si mesmo.

Mas passara a gostar da busca.

Aquilo era novo.

Durante muito tempo procurara respostas para preencher um vazio.

Agora buscava porque desejava conhecer.

Talvez houvesse diferença.

Talvez não.

As dúvidas permaneciam.

Como sempre.

A madrugada avançava lentamente quando o frio chegou.

Um frio impossível.

Não era o vento do oceano.

Nem uma mudança climática comum.

Era um frio antigo.

Sobrenatural.

O tipo de frio que atravessava carne, osso e memória.

Velian parou imediatamente.

Uma cinza negra caiu sobre seu ombro.

Depois outra.

E outra.

Levantou a mão.

Os fragmentos escuros pareciam pequenos pedaços de carvão reduzidos a pó. Possuíam um odor estranho. Não o cheiro comum da fumaça, mas algo semelhante a flores apodrecidas, madeira úmida e tecido guardado durante séculos.

Conhecia aquele sinal.

O Castelo Drácula estava chamando.

Porém havia algo diferente.

Normalmente o chamado possuía um aspecto quase curioso, como uma porta se abrindo para mais um mistério.

Desta vez parecia um pedido de socorro.

Ou um aviso.

As sombras começaram a reunir-se diante dele.

As luzes da avenida tornaram-se distantes.

Os sons da cidade enfraqueceram.

Até mesmo o mar pareceu recuar.

Velian suspirou.

— Espero sinceramente que desta vez ninguém tente me ensinar outra metáfora sobre a existência.

As sombras abriram-se.

E ele atravessou.

O impacto foi imediato.

Agonihria.

O nome surgiu em sua mente como uma lembrança esquecida.

Cinzas negras caíam continuamente do céu.

Uma névoa púrpura espalhava-se entre as torres do Castelo Drácula como um organismo vivo.

O ar possuía cheiro de decomposição.

Não a decomposição comum da carne.

Mas algo mais antigo.

O odor de memórias esquecidas.

De sonhos abandonados.

De promessas que jamais foram cumpridas.

O Castelo parecia diferente.

Mais alto.

Mais vasto.

Como se tivesse envelhecido milhares de anos desde a última visita.

As muralhas estavam parcialmente cobertas por musgos escuros. Rochas pontiagudas emergiam dos jardins. Pinheiros negros curvavam-se sob o peso das cinzas.

E havia silêncio.

Um silêncio tão profundo que parecia observar.

Velian avançou pelos corredores.

As sombras pareciam mais densas.

As paredes suadas pela umidade refletiam discretamente a luz violeta que filtrava-se pelas janelas.

A cada passo sentia uma estranha sensação de abandono.

Como se estivesse caminhando através das ruínas emocionais de alguém.

Ou de alguma coisa.

Os corredores pareciam maiores do que deveriam.

As distâncias alteravam-se.

Portas surgiam onde antes não existiam.

Escadas conduziam a lugares impossíveis.

O próprio Castelo parecia sonhar.

E o sonho não era agradável.

Então ouviu uma voz familiar.

— Continuas com a péssima mania de chegar atrasado.

Velian sorriu antes mesmo de vê-la.

Cassandra estava encostada numa coluna próxima a uma janela quebrada. Os longos cabelos escuros caíam pelos ombros. O vestido negro contrastava com a pele pálida. Seus olhos vermelhos observavam a tempestade de cinzas que caía além do vidro.

Por um instante, a opressão de Agonihria pareceu diminuir.

Apenas um instante.

— Pensei que estivesses no Rio.

— Eu estava.

— E agora estás aqui.

— Excelente dedução.

— Séculos de prática.

O sorriso dela surgiu discreto.

— Vejo que ainda não encontraste respostas.

— Vejo que ainda finges não fazer perguntas.

Cassandra soltou uma breve gargalhada.

— Talvez eu apenas seja mais inteligente.

— Ou mais teimosa.

— Também.

Por alguns segundos permaneceram observando a paisagem espectral.

As cinzas continuavam caindo.

A névoa ondulava entre as torres.

O Castelo parecia respirar.

Então Cassandra tornou-se séria.

Algo raro.

— Este lugar está errado.

Velian voltou o olhar para ela.

— O Castelo costuma estar errado.

— Não desta forma.

O tom de sua voz bastou.

Cassandra raramente demonstrava preocupação.

Quando o fazia, havia motivo.

— O que encontraste?

— Nada.

— Isso parece ruim.

— É pior.

Ela afastou-se da coluna.

— O Castelo está vazio.

Velian sentiu um leve arrepio.

Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.

O Castelo Drácula jamais estava vazio.

Sempre havia vozes.

Presenças.

Monstros.

Ecos.

Memórias.

Alguma coisa.

Mas agora existia apenas silêncio.

E o silêncio parecia faminto.

O silêncio parecia faminto.

Velian e Cassandra avançaram pelos corredores do Castelo Drácula sem dizer mais nada durante alguns minutos. Em circunstâncias normais, ambos trocariam provocações incessantes. Era quase um hábito antigo. Contudo, Agonihria possuía uma maneira peculiar de tornar o humor mais difícil.

As cinzas negras continuavam caindo do lado de fora.

Em determinados momentos, Velian teve a impressão de ouvir vozes misturadas ao som do vento.

Sussurros.

Lamentos.

Palavras incompreensíveis.

Quando tentava escutá-las melhor, desapareciam.

O corredor começou a estreitar-se.

Ou talvez estivesse apenas parecendo mais estreito.

Em Agonihria era difícil distinguir realidade de percepção.

As paredes de pedra deram lugar a superfícies cobertas por papel decorativo antigo. Arabescos púrpura espalhavam-se por desenhos florais quase apagados pela umidade. Fungos escuros consumiam os cantos. Em alguns trechos, o papel descascava lentamente como pele morta desprendendo-se de um cadáver.

O cheiro tornou-se mais intenso.

Mofo.

Ferrugem.

Terra molhada.

E algo mais.

Algo químico.

Doentio.

Cassandra aproximou os dedos de uma das paredes.

— Arsênio.

Velian arqueou uma sobrancelha.

— Claro que você sabe reconhecer arsênio pelo cheiro.

— E você não?

— Não costumo cheirar venenos por diversão.

— Falha de caráter.

Continuaram caminhando.

A arquitetura mudava à medida que avançavam. O aspecto medieval do Castelo desaparecia gradualmente. Corredores vitorianos surgiam diante deles. Lustres enferrujados pendiam do teto. Tapetes antigos apodreciam sob os próprios fios.

Tudo parecia abandonado havia séculos.

E, ainda assim, existia uma estranha sensação de presença.

Como se alguém observasse através das paredes.

Como se alguma coisa aguardasse.

Velian percebeu primeiro.

— Estamos sendo seguidos.

Cassandra não demonstrou surpresa.

— Eu sei.

— Há quanto tempo?

— Desde que chegamos.

— E não pretendias comentar?

— Estava curiosa.

— Evidentemente.

Uma sombra moveu-se no final do corredor.

Depois desapareceu.

Outra surgiu atrás deles.

Em seguida uma terceira.

Velian estreitou os olhos.

As formas eram humanoides.

Mas algo estava errado.

Os movimentos pareciam quebrados.

Como marionetes manipuladas por mãos invisíveis.

Nenhum som acompanhava seus passos.

Nenhuma respiração.

Nenhum coração.

Nada.

Apenas presença.

Continuaram avançando.

Os vultos também.

Sem atacar.

Sem se aproximar demais.

Apenas observando.

Como animais avaliando uma presa.

Ou talvez convidados.

A mansão revelou-se subitamente.

Nenhum dos dois percebeu exatamente quando chegaram.

Ela simplesmente estava ali.

Uma enorme construção vitoriana erguida no interior do Castelo.

Janelas altas.

Paredes cobertas de fungos.

Varandas corroídas pelo tempo.

O lugar parecia existir fora da lógica.

Como se tivesse sido sonhado por alguém que nunca conhecera arquitetura.

Velian observou a construção durante alguns segundos.

— Tenho uma péssima sensação sobre isso.

— Então estamos no caminho certo.

— Eu realmente detesto tua lógica.

Subiram os degraus.

A porta abriu-se sozinha.

O interior mergulhava numa penumbra violeta.

Velas apagadas ocupavam castiçais enferrujados.

Quadros cobertos por tecido acumulavam poeira.

Relógios antigos permaneciam imóveis.

Nenhum marcava a mesma hora.

Nenhum parecia marcar hora alguma.

Então ouviram.

Um som.

Baixo.

Distante.

Como alguém mastigando.

Velian parou.

O som repetiu-se.

Mastigação.

Lenta.

Úmida.

Persistente.

— Diga que ouviu isso.

— Infelizmente.

O ruído aumentou.

Veio do andar superior.

Depois de outro cômodo.

Depois de vários lugares ao mesmo tempo.

Como se dezenas de bocas trabalhassem simultaneamente.

Mastigando.

Roendo.

Triturando.

A mansão inteira parecia alimentar-se de alguma coisa.

O desconforto espalhou-se pelo ambiente.

Pela primeira vez desde que chegara, Velian sentiu uma antiga sensação emergir.

Medo.

Não o medo comum dos mortais.

Mas aquele raro desconforto que apenas os verdadeiros mistérios provocavam.

Continuaram avançando.

O som tornou-se mais próximo.

Mais intenso.

Mais orgânico.

Até encontrarem o quarto.

A porta estava entreaberta.

O cheiro era insuportável.

Mofo.

Ferrugem.

Carne deteriorada.

Sangue antigo.

E aquele estranho odor químico vindo dos papéis de parede.

No centro do aposento havia uma cama vitoriana.

Os lençóis estavam rasgados.

Escurecidos.

Como se décadas de poeira houvessem se acumulado sobre eles.

Diante da cama erguia-se um espelho gigantesco.

A moldura era ornamentada com flores esculpidas.

Mas as flores pareciam apodrecidas.

Distorcidas.

Quase vivas.

Velian aproximou-se.

O próprio reflexo surgiu.

Algo impossível.

Vampiros não possuíam reflexos.

Mas Agonihria não parecia interessar-se por regras.

Cassandra apareceu ao lado dele.

Ela também estava refletida.

Por alguns instantes nada aconteceu.

Então os reflexos sorriram.

Nenhum dos dois sorrira.

O silêncio tornou-se absoluto.

As versões refletidas permaneceram observando-os.

Imóveis.

Então o reflexo de Cassandra inclinou a cabeça.

— Ainda finges que não sentes falta deles?

A verdadeira Cassandra permaneceu imóvel.

Velian percebeu imediatamente.

A pergunta atingira algum lugar profundo.

O reflexo continuou.

— De todos os amantes.

De todos os discípulos.

De todos os amigos.

De todos os mortos.

A figura refletida sorriu.

— Quantos nomes ainda consegues lembrar?

Cassandra fechou os olhos por um instante.

Apenas um instante.

Mas foi suficiente.

Velian nunca a vira hesitar daquela maneira.

Então o espelho voltou-se para ele.

Seu reflexo observou-o com olhos completamente negros.

— E tu?

A voz era sua.

Mas não era.

— Quantas respostas procuraste apenas para não admitir que tens medo?

Velian sustentou o olhar.

— Medo de quê?

O reflexo sorriu.

— De continuar existindo.

O quarto pareceu escurecer.

As sombras tornaram-se mais densas.

— De continuar desejando.

De continuar perdendo.

De continuar sobrevivendo enquanto tudo desaparece.

As palavras ecoaram pelo aposento.

Velian sentiu algo apertar seu peito.

Porque não eram mentiras.

O espelho compreendia.

E isso era pior.

Muito pior.

Uma rachadura surgiu na superfície refletora.

Depois outra.

E outra.

O som espalhou-se pelo quarto.

Lento.

Cruel.

Como ossos partindo-se sob pressão.

As rachaduras multiplicaram-se.

Até que algo começou a emergir.

Primeiro uma mão.

Depois um braço.

Em seguida um rosto.

Ou aquilo que um dia fora um rosto.

A criatura arrastou-se para fora do espelho.

Sua pele era cinzenta.

Os olhos completamente ocos.

E dentes.

Dentes por toda parte.

Nas faces.

Nos ombros.

Nos braços.

No pescoço.

Nas costelas.

Centenas deles.

Talvez milhares.

A criatura arrancou um dos próprios dentes.

Sorriu.

Então o mastigou.

Outro nasceu imediatamente.

Mais criaturas começaram a surgir.

Uma após outra.

Arrastando-se para fora dos espelhos rachados.

Todas cobertas por dentes.

Todas sorrindo.

Todas sofrendo.

Todas parecendo sentir prazer na própria dor.

O quarto inteiro foi preenchido pelo som.

Mastigação.

Estalos.

Dentes quebrando.

Dentes crescendo.

Dentes sendo arrancados.

As criaturas observavam os dois vampiros.

E então falaram.

Não individualmente.

Mas como uma única voz.

Uma voz composta por centenas de gargantas.

— O abandono nos criou.

— A perda nos alimenta.

— O esquecimento nos fortalece.

Uma delas aproximou-se de Velian.

Seus olhos vazios refletiam apenas escuridão.

— Quantos partiram?

Outra surgiu ao lado.

— Quantos ainda partirão?

Mais uma.

— Quantos nomes esqueceste?

As criaturas começaram a cercá-los lentamente.

Sorrindo.

Mastigando.

Esperando.

E, pela primeira vez desde a chegada ao Castelo, Cassandra abandonou completamente a expressão irônica.

Porque compreendeu a mesma coisa que Velian.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

As criaturas continuaram cercando-os lentamente. O som dos dentes partindo-se entre suas mandíbulas preenchia o quarto. Era um ruído quase hipnótico. Monótono. Persistente. Como um relógio macabro medindo o tempo através da dor.

Velian observou uma delas mais atentamente.

Os dentes não cresciam ao acaso.

Cada um parecia diferente.

Alguns eram humanos.

Outros lembravam presas de animais.

Outros ainda possuíam formatos impossíveis.

Como se cada dente fosse uma memória petrificada.

Uma perda.

Uma ferida.

Uma ausência.

A criatura mais próxima abriu a boca.

Lá dentro não havia língua.

Nem garganta.

Apenas mais dentes.

Infinitos dentes.

Velian sentiu a escuridão de Nix mover-se em algum lugar profundo de sua consciência.

Não como uma arma.

Mas como uma presença.

Uma vastidão silenciosa observando tudo.

A Noite primordial.

Antiga demais para temer monstros.

Antiga demais para temer abandono.

A criatura avançou.

E Cassandra foi a primeira a agir.

Símbolos negros incendiaram-se ao redor de seus braços. Runas antigas surgiram sobre a própria pele como serpentes feitas de sombra. O ar vibrou.

Então a vampira ergueu uma das mãos.

Uma explosão de energia atravessou o aposento.

Três criaturas foram arremessadas contra a parede.

Os corpos despedaçaram-se.

Dentes espalharam-se pelo chão.

Por um instante, o silêncio retornou.

Então os dentes começaram a mover-se.

Velian observou-os reorganizarem-se.

Unindo-se.

Reconstruindo carne.

Tecendo ossos.

Poucos segundos depois, as criaturas estavam novamente de pé.

Sorrindo.

Sempre sorrindo.

— Eu odeio lugares simbólicos — resmungou Velian.

— Eu avisei que algo estava errado.

— Você avisou que o Castelo estava vazio.

— E estava.

Uma gargalhada ecoou pelo aposento.

Não partira de Cassandra.

Nem de Velian.

Partira das próprias criaturas.

Centenas de vozes misturadas.

Centenas de gargantas.

Centenas de abandonos.

As paredes começaram a pulsar.

O papel decorativo desprendia-se lentamente.

Sob ele surgiam inscrições.

Nomes.

Milhares deles.

Nomes riscados.

Esquecidos.

Apagados.

Alguns escritos em idiomas mortos.

Outros em línguas que Velian jamais vira.

As criaturas continuavam aproximando-se.

— O que achas que são? — perguntou ele.

Cassandra não desviou os olhos dos monstros.

— Pessoas.

— Isso é reconfortante.

— Pessoas esquecidas.

— Ah. Menos reconfortante.

Uma das criaturas saltou.

Velian moveu-se imediatamente.

As garras atravessaram o peito do monstro.

O corpo abriu-se.

E algo caiu no chão.

Não sangue.

Não vísceras.

Mas fotografias.

Cartas.

Flores secas.

Objetos pessoais.

Pequenos fragmentos de vidas perdidas.

A criatura desfez-se em cinzas.

Outra ocupou seu lugar.

Depois outra.

Depois mais três.

A mansão inteira pareceu despertar.

Passos ecoaram pelos corredores.

Portas abriram-se sozinhas.

Espelhos racharam.

O som da mastigação tornou-se ensurdecedor.

E então Agonihria revelou algo ainda pior.

As criaturas começaram a mudar.

Seus rostos tornaram-se familiares.

Velian reconheceu alguns.

Um antigo amante da França medieval.

Uma mulher que conhecera durante o século XVIII.

Um jovem poeta que o acompanhara durante alguns anos em Lisboa.

Todos mortos.

Todos desaparecidos.

Todos transformados em algo grotesco.

As criaturas sorriram.

— Ainda lembras.

— Ainda dói.

— Ainda desejas.

Velian sentiu o golpe.

Não físico.

Mas emocional.

Porque lembrava.

Lembrava de todos.

Não dos rostos apenas.

Dos gestos.

Das vozes.

Dos momentos.

Das despedidas.

A eternidade possuía uma crueldade peculiar.

Tudo se transformava em fantasma.

Mesmo as memórias felizes.

Do outro lado do aposento, Cassandra permanecia imóvel.

As criaturas cercavam-na.

E também haviam mudado.

Velian observou sua expressão endurecer.

Os monstros assumiam formas que ele não reconhecia.

Mas Cassandra reconhecia.

Isso bastava.

Por um momento, a vampira desviou o olhar.

Por um único instante.

E aquilo era mais assustador do que qualquer monstro.

Porque Cassandra raramente olhava para trás.

Raramente permitia-se recordar.

As criaturas aproximaram-se dela.

— Ainda sentes falta deles.

— Ainda carregas seus nomes.

— Ainda finges que não te importas.

A magia ao redor da vampira explodiu violentamente.

As janelas estilhaçaram-se.

As paredes tremeram.

Diversas criaturas foram destruídas instantaneamente.

Mas nenhuma desapareceu.

Continuavam retornando.

Sempre retornando.

Velian compreendeu.

Não importava quantas fossem destruídas.

Não estavam lutando contra corpos.

Estavam lutando contra uma ideia.

Contra um sentimento.

Contra algo muito mais antigo que carne e osso.

O Castelo inteiro estremeceu.

As cinzas negras começaram a cair dentro da mansão.

A névoa púrpura infiltrou-se pelas rachaduras.

Os corredores pareciam alongar-se.

As portas desapareciam.

As paredes moviam-se.

Como se Agonihria estivesse fechando suas mãos ao redor deles.

Então uma voz surgiu.

Profunda.

Distante.

Maior que todas as outras.

Uma voz que parecia vir do próprio Castelo.

Ou talvez do próprio vazio.

— Tudo será esquecido.

As criaturas silenciaram imediatamente.

A mansão inteira silenciou.

Até mesmo a mastigação cessou.

A voz continuou.

— Toda paixão.

Toda memória.

Toda conquista.

Todo amor.

Todo conhecimento.

Tudo.

Velian sentiu a temperatura cair ainda mais.

As sombras tornaram-se densas.

Espessas.

Quase líquidas.

E algo começou a surgir do espelho destruído.

Algo enorme.

Muito maior do que as criaturas.

Uma massa de escuridão coberta por milhares de olhos vazios e bocas repletas de dentes.

Os dentes moviam-se sozinhos.

Como insetos.

Como parasitas.

Como pensamentos doentes.

A entidade ergueu-se lentamente.

Sua cabeça quase tocava o teto.

Os olhos observavam Velian.

Observavam Cassandra.

Observavam tudo.

— Eu sou o abandono.

A voz fez a mansão inteira tremer.

— Eu sou aquilo que permanece quando tudo parte.

Uma das bocas abriu-se.

Depois outra.

Depois centenas.

— Eu sou o silêncio após o último adeus.

Velian percebeu que até Cassandra havia ficado imóvel.

Não por medo.

Mas por reconhecimento.

Aquilo não era uma criatura.

Não era um fantasma.

Não era um demônio.

Era um conceito.

Uma manifestação.

Uma ferida transformada em existência.

E Agonihria era seu reino.

A entidade voltou-se para Velian.

Milhares de olhos vazios observando-o simultaneamente.

— Tu conheces meu nome.

Velian sustentou o olhar.

— Conheço.

— Caminhas comigo há séculos.

— Sim.

— Então por que continuas procurando?

O silêncio espalhou-se.

Mesmo Cassandra voltou-se para ele.

A pergunta parecia destinada apenas a Velian.

Mas talvez fosse destinada a todos.

Ao Castelo.

À humanidade.

À própria eternidade.

A entidade aproximou-se.

As sombras tornaram-se ainda mais profundas.

— Por que continuas desejando?

— Por que continuas amando?

— Por que continuas buscando?

A voz tornou-se mais suave.

Mais perigosa.

— Não aprendeste nada?

Durante alguns segundos Velian não respondeu.

Porque aquela era exatamente a pergunta que o perseguira durante séculos.

E talvez fosse a pergunta que definia sua existência.

Então sentiu novamente a presença de Nix.

Não uma resposta.

Jamais uma resposta.

Apenas a vastidão da noite.

A escuridão infinita onde estrelas nasciam e morriam sem alterar sua essência.

A noite não prometia sentido.

Apenas existência.

E, estranhamente, aquilo bastava.

Velian sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas genuíno.

E então respondeu.

— Aprendi exatamente o contrário.

— Aprendi exatamente o contrário.

A entidade permaneceu imóvel.

Os milhares de olhos vazios observavam Velian.

As centenas de bocas repletas de dentes permaneciam abertas.

Esperando.

O silêncio tornou-se quase absoluto.

Então Velian deu um passo à frente.

A névoa púrpura girava ao redor de seus pés. As cinzas negras continuavam caindo através das janelas destruídas da mansão. Ao longe, o Castelo Drácula parecia respirar como um organismo colossal adormecido.

— Passei séculos acreditando que precisava encontrar respostas — disse ele. — Depois passei séculos acreditando que precisava encontrar prazeres. Depois poder. Depois conhecimento. Depois esquecimento.

A criatura permaneceu imóvel.

— E encontraste?

Velian sorriu.

— Às vezes.

A resposta pareceu irritar a manifestação.

As sombras ao redor dela estremeceram.

— Às vezes?

— Sim. Às vezes encontrei prazer. Às vezes encontrei amor. Às vezes encontrei conhecimento. Às vezes encontrei companhia.

A entidade inclinou lentamente a cabeça.

— E perdeste tudo.

— Sim.

— Todos morreram.

— Sim.

— Todos partiram.

— Sim.

A criatura pareceu crescer.

As paredes da mansão rangeram.

Os espelhos restantes começaram a rachar.

— Então eu venci.

Velian ficou em silêncio por alguns instantes.

Então riu.

Uma gargalhada breve.

Sincera.

Quase humana.

Até Cassandra pareceu surpresa.

— Não. — respondeu ele. — É justamente aí que está o erro.

Os olhos da entidade estreitaram-se.

— Explica.

— Eles partiram.

Mas existiram.

A resposta espalhou-se pelo aposento como uma pedra lançada em águas imóveis.

A manifestação permaneceu imóvel.

Velian continuou.

— Vivi tempo suficiente para esquecer rostos.

Esquecer nomes.

Esquecer cidades inteiras.

Vi impérios nascerem e desaparecerem.

Vi religiões mudarem.

Vi pessoas morrerem.

Vi amores acabarem.

Mas o fato de algo terminar não significa que nunca tenha existido.

As criaturas dos dentes começaram a recuar lentamente.

Como se alguma força invisível as incomodasse.

— O abandono não apaga aquilo que foi vivido.

Ele apenas vem depois.

A entidade permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez parecia não possuir resposta imediata.

Velian sentiu algo mover-se dentro de si.

Não era fome.

Não era violência.

Não era desejo.

Era a presença de Nix.

A noite.

A verdadeira noite.

Não a escuridão do medo.

Não a ausência de luz.

Mas a vastidão primordial que existia antes dos homens nomearem as coisas.

A escuridão que não julgava.

Que não exigia respostas.

Que apenas era.

Sombras começaram a reunir-se ao redor dele.

Não eram agressivas.

Não eram monstruosas.

Eram profundas.

Infinitas.

Belas.

As cinzas negras tocaram seu corpo e desapareceram.

A névoa púrpura começou a dissolver-se.

A entidade recuou pela primeira vez.

— O que és agora?

A pergunta veio quase como um sussurro.

Velian pensou por alguns segundos.

— Não faço ideia.

A resposta arrancou um sorriso de Cassandra.

— Essa é a coisa mais honesta que já disseste em décadas.

— Eu estava tentando impressionar uma manifestação metafísica.

— Está funcionando.

A entidade rugiu.

As paredes da mansão estremeceram.

Centenas de criaturas avançaram simultaneamente.

Desta vez não havia intenção de dialogar.

Apenas destruir.

Apenas consumir.

Apenas transformar tudo em silêncio.

Então Cassandra avançou.

A vampira ergueu ambas as mãos.

Runas negras incendiaram-se ao redor de seu corpo. Símbolos antigos surgiram sobre sua pele como serpentes de sombra líquida.

Velian sentiu o impacto do poder imediatamente.

Mesmo após todos aqueles séculos, Cassandra continuava sendo uma das criaturas mais perigosas que conhecera.

Talvez a mais perigosa.

O ar tornou-se pesado.

As janelas explodiram.

As sombras da própria mansão começaram a obedecê-la.

— Sempre odiei coisas que tentam me dizer o que sentir.

A magia expandiu-se.

Dezenas de criaturas foram arremessadas contra paredes e colunas.

Outras simplesmente desintegraram-se.

Mas não retornaram.

Porque agora não estavam sendo destruídas apenas fisicamente.

Algo mais profundo acontecia.

A presença de Nix espalhava-se.

A manifestação do abandono começou a enfraquecer.

As criaturas hesitavam.

Os dentes quebravam-se.

As formas tornavam-se instáveis.

Velian compreendeu.

Agonihria alimentava-se de uma única certeza:

Que tudo era vazio.

Que toda conexão era inútil.

Que toda existência terminava em abandono.

Mas ele já não acreditava nisso.

Nem Cassandra.

E aquela convicção possuía poder.

Mais poder do que imaginara.

A entidade rugiu novamente.

Milhares de bocas abriram-se simultaneamente.

O som foi tão intenso que parte da mansão desabou.

Colunas partiram-se.

O teto rachou.

Cinzas negras caíram como chuva.

Então Velian avançou.

A velocidade foi quase invisível.

As sombras reuniram-se ao redor de suas mãos.

Não como lâminas.

Não como armas.

Mas como fragmentos da própria noite.

Ele atravessou a tempestade de dentes.

Atravessou os gritos.

Atravessou as sombras.

E alcançou o coração da manifestação.

Por um instante viu algo.

Não uma criatura.

Não um monstro.

Mas uma criança esquecida.

Um amante abandonado.

Um velho morrendo sozinho.

Uma mãe chorando.

Um amigo perdido.

Milhares de solidões acumuladas.

Milhares de dores.

Milhares de despedidas.

Agonihria era feita delas.

Velian fechou os olhos.

E compreendeu.

Nem mesmo aquele horror desejava existir.

A entidade nasceu porque alguém sofrera.

Porque muitos sofreram.

Porque o abandono existe.

Sempre existirá.

Então tocou a criatura.

Apenas tocou.

E a noite respondeu.

A escuridão de Nix espalhou-se através da manifestação.

Não para destruí-la.

Mas para envolvê-la.

Como o céu envolve as estrelas.

Como o oceano envolve os rios.

Como a noite envolve os sonhos.

A criatura parou de lutar.

As bocas silenciaram.

Os dentes deixaram de crescer.

Os olhos vazios fecharam-se lentamente.

E então Agonihria começou a ruir.

A mansão inteira tremeu.

Os corredores partiram-se.

Os espelhos explodiram.

As paredes cobertas por arsênio e mofo desmancharam-se.

O Castelo Drácula inteiro estremeceu.

Como se despertasse de um pesadelo.

As criaturas desapareceram.

As cinzas negras tornaram-se poeira comum.

A névoa púrpura dissipou-se.

O silêncio retornou.

Mas agora era diferente.

Não era um silêncio faminto.

Era apenas silêncio.

E, pela primeira vez desde que chegaram, Velian sentiu paz.

Uma paz estranha.

Breve.

Mas real.

Ao seu lado, Cassandra observava os destroços.

— Então era isso.

— Era.

— Continua irritantemente filosófico.

— Continua irritantemente poderosa.

— Justo.

Ao redor deles, Agonihria desaparecia.

E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu necessidade de procurar respostas.

Bastava caminhar para fora daquele pesadelo.

Pelo menos por enquanto.

Pelo menos por enquanto.

Os corredores do Castelo Drácula reapareciam lentamente ao redor deles.

A mansão vitoriana desaparecera.

Os espelhos.

Os papéis de parede apodrecidos.

As criaturas dos dentes.

Tudo parecia dissolver-se como um sonho que já não conseguia sustentar a própria existência.

Restavam apenas os antigos corredores de pedra.

As colunas monumentais.

As janelas arqueadas que revelavam a noite eterna além dos limites do castelo.

Por algum tempo, Velian e Cassandra caminharam sem dizer nada.

Não havia urgência.

Talvez porque ambos compreendessem que certos silêncios possuem mais significado que muitas conversas.

As cinzas negras haviam desaparecido.

A névoa púrpura também.

No alto, estrelas impossíveis brilhavam sobre Soramithia.

O eclipse perpétuo pairava sobre o horizonte como um olho adormecido.

O Castelo parecia tranquilo.

Não alegre.

Jamais alegre.

Mas tranquilo.

Como um animal antigo que finalmente voltara a repousar.

Velian observava as janelas enquanto caminhavam.

O tempo.

Sempre o tempo.

Séculos atrás acreditara que a eternidade era um prêmio.

Depois pensara que fosse uma maldição.

Agora já não tinha certeza de nenhuma das duas coisas.

Talvez fosse apenas uma condição.

Uma estrada longa demais para ser compreendida de uma só vez.

— Estás pensando demais de novo.

A voz de Cassandra surgiu ao seu lado.

Velian sorriu.

— É uma acusação injusta.

— Não é.

— Talvez um pouco.

Ela soltou uma breve gargalhada.

O som ecoou pelos corredores vazios.

Por um instante, pareceu afastar séculos de escuridão.

— Sabes — disse Cassandra — quando te conheci, imaginei que acabarias enlouquecendo.

— Ainda há tempo.

— Não. Agora não.

Velian voltou-se para ela.

A vampira mantinha os olhos voltados para frente.

Como se observasse algo distante.

Algo que apenas ela conseguia enxergar.

— Mudaste.

— Isso costuma acontecer ao longo de alguns séculos.

— Não dessa forma.

O silêncio retornou.

Velian percebeu que ela estava sendo sincera.

Algo raro.

Muito raro.

— Antes procuravas respostas porque estavas desesperado.

Agora procuras porque estás curioso.

— Há diferença?

— Toda diferença do mundo.

Continuaram caminhando.

As palavras permaneceram entre eles.

Velian não respondeu imediatamente.

Porque Cassandra estava certa.

Durante muito tempo suas perguntas haviam sido uma tentativa de escapar.

Do vazio.

Da solidão.

Da própria eternidade.

Agora eram apenas perguntas.

E isso as tornava mais leves.

Mais honestas.

Mais humanas.

Atravessaram uma enorme galeria onde estátuas antigas observavam os visitantes com olhos de pedra.

Algumas representavam reis esquecidos.

Outras criaturas que jamais existiram.

Outras ainda pareciam deuses tão antigos que nem mesmo seus nomes sobreviveram.

Velian parou diante de uma delas.

Uma figura feminina envolta por sombras esculpidas.

O rosto parcialmente oculto.

Os olhos voltados para o céu.

Nix.

Ou ao menos uma interpretação dela.

A Senhora da Noite.

A deusa que jamais lhe concedera respostas.

Apenas perspectivas.

Sorriu.

Talvez aquele tivesse sido o maior presente.

— Ainda pensas nela? — perguntou Cassandra.

— Às vezes.

— Encontraste o que procuravas?

Velian observou a estátua.

— Não.

— Eu sabia.

— Mas encontrei algo melhor.

Cassandra ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

— Mais perguntas.

Ela revirou os olhos.

— Definitivamente continuas sendo tu.

Saíram da galeria.

Os corredores começaram a mudar.

As sombras tornaram-se mais finas.

O ar mais leve.

O Castelo estava liberando-os.

A despedida aproximava-se.

Ambos sabiam.

Nenhum comentou.

Até que alcançaram um dos grandes salões de transição entre mundos.

Ali, as realidades misturavam-se.

Portas conduziam a lugares impossíveis.

Séculos diferentes.

Dimensões distintas.

Sonhos.

Pesadelos.

Memórias.

O Rio de Janeiro aguardava Cassandra atrás de uma das passagens.

Fortaleza aguardava Velian atrás de outra.

Permaneceram alguns instantes em silêncio.

Estranhamente, aquela parecia a parte mais difícil da noite.

Não enfrentar monstros.

Não enfrentar conceitos transformados em horror.

Mas despedir-se.

Talvez porque os adeuses sempre carregassem uma pequena morte.

Mesmo para imortais.

Cassandra cruzou os braços.

— Então é isso.

— É.

— Continuarás procurando sentido para a existência?

— Provavelmente.

— Que atividade ridícula.

— Concordo.

Ela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Quase imperceptível.

Mas verdadeiro.

— Toma cuidado, Velian.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi preocupação?

— Não exageremos.

— Claro.

— Apenas seria inconveniente perder alguém capaz de me proporcionar discussões tão irritantes.

Velian riu.

Uma risada sincera.

Daquelas que surgiam cada vez mais raramente.

— Sentirei falta dos teus insultos.

— Mentira.

— Um pouco.

— Melhor assim.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

Os séculos compartilhados passaram silenciosamente entre eles.

Guerras.

Viagens.

Discussões.

Desejos.

Separações.

Reencontros.

Nenhum dos dois precisava mencioná-los.

Existiam.

E isso bastava.

Finalmente Cassandra aproximou-se.

Tocou brevemente seu rosto.

Um gesto simples.

Mas raro.

Talvez mais íntimo do que qualquer demonstração grandiosa.

— Continua vivo, Velian.

— Pretendo tentar.

— Ótimo.

Então ela atravessou a passagem.

E desapareceu.

Sem cerimônias.

Sem lágrimas.

Exatamente como Cassandra faria.

Velian permaneceu sozinho no salão.

Observando o espaço vazio onde ela estivera.

Por alguns instantes apenas respirou.

Ou algo próximo daquilo.

Sentiu a ausência.

Mas não como dor.

Apenas como consequência natural da existência.

Todos os encontros terminam.

Todos os caminhos se separam.

E ainda assim continuam valendo a pena.

Sorriu diante do próprio pensamento.

Estava se tornando perigosamente otimista.

Atravessou sua própria passagem.

E o mundo mudou.

Quando voltou a Fortaleza, a madrugada aproximava-se do fim.

A cidade permanecia desperta.

Como sempre.

As primeiras embarcações começavam a surgir no horizonte.

O vento espalhava o cheiro de maresia pelas ruas.

Ao longe, algumas luzes ainda permaneciam acesas.

Velian caminhou até a varanda do apartamento.

O céu começava lentamente a clarear.

Azul profundo.

Depois violeta.

Depois dourado.

O nascimento de mais um dia.

Durante séculos observara amanheceres.

Milhares deles.

Talvez milhões.

Ainda assim, continuavam diferentes.

Porque nenhum amanhecer era exatamente igual ao anterior.

Assim como nenhuma noite.

Assim como nenhuma pessoa.

Assim como nenhuma pergunta.

Encostou-se à grade da varanda.

Pensou em Cassandra.

Pensou em Nix.

Pensou nos monstros de Agonihria.

Pensou nos mortos.

Nos vivos.

Nos esquecidos.

Nos amados.

Pensou em si mesmo.

E percebeu algo simples.

O vazio continuava ali.

Sempre continuaria.

A eternidade continuava ali.

Sempre continuaria.

As dúvidas também.

Talvez jamais desaparecessem.

Mas já não eram inimigas.

Eram companheiras.

Parte da estrada.

Parte daquilo que o mantinha caminhando.

Ao longe, o sol finalmente surgiu sobre o Atlântico.

A luz espalhou-se pelo horizonte.

Velian observou-a durante alguns segundos antes de recolher-se para o interior do apartamento.

A noite terminara.

Outra viria.

Como sempre.

E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia dos séculos que ainda o aguardavam não lhe pareceu um peso.

Pareceu uma possibilidade.

Uma pergunta ainda sem resposta.

E, estranhamente, isso era suficiente.

 

Fim.

As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Chamas Da Inocência

Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

"Deixem vir a mim as criançinhas e não as impeçam;

pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas"

Mateus 19,14

 

Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio e jamais podem usufruir por completo das benesses que a roda da fortuna possa lhes oferecer. No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Para tais indivíduos a alegria e a bonança são dadas em pequenas partes intercaladas de tristezas e decepções.

Maria de Lourdes – que pela sua compleição franzina, desde que nascera era denominada Lourdinha – se encaixava perfeitamente dentre tais desafortunados. Sua vida fora um completo conjunto de absurdas decepções e infortúnios. Depois de uma infância de grandes privações e carregada da mais completa falta de perspectivas, antes mesmo de completar seus quinze anos, – ela que, apesar dos pesares, era dotada de uma beleza ímpar, uma verdadeira flor em desabroche – fora acometida pela varíola e por dias afins, caminhou no vale da sombra da morte. Essa pestilência não recolheu seu corpo para a cidade do silêncio, onde todos são inocentes, mas lhe deixara profundas marcas que levaria consigo por toda sua insignificante existência.

Proveniente de uma família simples e humilde onde a necessidade sempre se fazia presente, seu tratamento constara apenas de ervas e benzimentos.  Com muita persistência e força de vontade, por fim a varíola se fora, mas levara consigo toda a beleza que Lourdinha possuíra até então. Sua pele antes macia e sedosa como uma pétala da mais fina rosa, ficara manchada e cheia de horrendas cicatrizes. Depois de sofrer mais esse terrível golpe do destino, essa frustrada criatura, que não conhecera a felicidade em sua plenitude, adquirira em seus olhos uma expressão tristonha e distante, que demonstrava uma profunda sensação de escárnio pelas vicissitudes da vida. Sempre que se olhava no espelho – fato que ela tentava evitar ao máximo – sentia-se como a mais desafortunada das criaturas.

Pela sua origem pobre e com uma aparência não tão agradável aos olhos de um possível pretendente, seu primeiro e único relacionamento fora com um desconhecido de olhos claros e cabelos na cor do entardecer, que por uma única vez, numa noite de bebedeira, onde ambos estavam completamente tomados pelos misteriosos fetiches da ebriedade se perderam nos braços um do outro. O desconhecido – a qual nem mesmo seu nome verdadeiro, Lourdinha soubera ao certo – da mesma maneira que surgira também se fora, sem deixar rastro nem vestígio, deixando para Lourdinha não somente as lembranças de voluptuosos momentos, que por mais que pudessem ter sido de uma frustrante efemeridade, ainda assim trazia em si uma profunda intensidade. Noite que proporcionara a ela, a oportunidade única, de conhecer nos braços de um desconhecido os misteriosos caminhos do inexplicável deleite da mais ensandecida paixão.

Essa única noite de prazer daria a Maria de Lourdes motivos para que jamais se esquecesse de tão voluptuosa passagem em sua existência. Pois o fruto de seu inconsequente deleite se materializara numa bela criança de olhos primaveris e cabelos na cor de ardentes labaredas. Essa graciosa criatura de sorriso fácil e olhar inocente recebera o nome de Lorena e a todos encantava. Para Lourdinha era seu porto seguro, onde depois de um dia de tenebrosas tempestades no árduo trabalho diário – limpando lares alheios – ao fim do dia, ela aportava para uma noite de deleitoso descanso. Para seus avós – já velhos e doentes, que cuidavam dela, durante o dia, enquanto Lourdinha trazia o sofrido sustento para o lar – era ela uma verdadeira dádiva. Lorena era uma criança criada a pão de ló, sempre bajulada por todos. Sempre carregada de muito amor e zelosa atenção. Por mais que lhe viesse a faltar luxo e o conforto, ainda assim tinha todo afeto e carinho que um ser poderia desejar.

Numa família onde a sorte jamais fizera morada, e nem mesmo a roda da fortuna dera um único giro sequer, aquelas duas senis e gentis criaturas dependiam totalmente do suado esforço da pobre Lourdinha para sobreviverem. Verdade seja dita, que eles cuidavam muito bem da graciosa Lorena, enquanto a mãe passava o dia no trabalho. No entanto, o parco ordenado de uma única pessoa para sustentar uma casa, onde havia uma criança dependente de cuidados dos mais diversos e duas outras pessoas em idade já bastante avançada, desprovidas de qualquer outra renda que fosse, era uma tarefa bastante hercúlea. Se o sustento básico já era difícil, uma moradia decente era apenas um sonho distante.

Os pais de Lourdinha, que além de velhos e doentes, também não eram detentores de nenhum tipo de posse de maior valor, que pudessem lhe valer num momento de extrema necessidade, sobrevivendo apenas do trabalho da filha e da providência divina. Sendo assim, viviam aquelas quatro desafortunadas criaturas numa improvisada casa – se por acaso, aquele estranho pardieiro pudesse ser denominado casa – feita de restos de tapumes de construção e um carcomido pedaço de lona de caminhão. Era um tipo de construção tão sinistra que mais parecia uma armadilha, pronta a tolher a vida de seus humildes moradores a qualquer momento.

O piso de terra batida, por mais que recebesse todo asseio possível, insistia em manter-se sujo todo o tempo. Como havia apenas um único espaço sem separação entre cômodos, a privacidade era praticamente inexistente. Ambiente quente e abafado sem nenhuma janela, praticamente sem ventilação alguma. Durante as chuvas – devido ao improvisado telhado – molhava mais dentro de casa do que pelo lado de fora. Se por acaso fosse uma tempestade violenta com relâmpagos e grande ventania era um verdadeiro “Deus nos acuda”. No período de extremo calor a casa se tornava um verdadeiro forno, devido a sua baixa e desajustada estrutura, tornando a permanência em seu interior algo quase que impossível. O saneamento básico era inexistente e a iluminação elétrica era um objetivo ainda não alcançado, fato que tornava o uso de velas ou candeeiros uma necessidade constante, quando a noite chegava.

Devido a uma vida de sofrimentos diversos e incontáveis frustrações, sem nenhuma perspectiva de dias melhores – ou talvez até mesmo, por não terem outra coisa com que ocuparem o tempo ocioso – os pais de Lourdinha encontraram determinado conforto numa comunidade pentecostal que frequentavam fielmente quase todas as noites. Sendo assíduos tanto na fervorosa fé, bem como na constante presença sempre que havia celebrações. Lorena já com cinco anos, dotada de saúde e disposição na mesma proporção que dispunha de energia e inquietude, sendo uma criança que nas palavras do avô – o bondoso Senhor Eusébio – “era fogo na roupa”, e devido a essa sua incrível qualidade de não conseguir manter-se em pleno sossego por muito tempo, nem sempre acompanhava os avós aos cultos na pequenina e improvisada igreja, que não distava muito longe de sua casa.

Em várias ocasiões em que Lourdinha demorava a chegar do trabalho – sendo essas ocasiões quase uma constante – Lorena ficava aos cuidados de uma vizinha que tinha uma filha da mesma idade que ela. Sendo ambas inseparáveis amigas. Essa vizinha que tal qual a própria Lourdinha, também não tinha marido se chamava Claudete – por todos conhecida como Detinha – mesmo sendo uma competente costureira era tão pobre e necessitada quanto eles mesmos e justamente por estarem no mesmo patamar de contínuo sofrimento se dava muito bem, tanto com aquele casal de idosos bem como com a própria Lourdinha que na maneira do possível tentava a todo o custo ser-lhe bastante prestativa, arranjando-lhe trabalho de costura pelas casas onde ela prestava serviços como faxineira.

Por mais difícil que a vida possa parecer, há certa peculiaridade nesse tipo de pessoas que deve ser louvada acima de tudo. Mesmo passando por todos os tipos de necessidades possíveis, ainda assim são pessoas fraternas e bastante generosas. Ainda que não tenha nada ou quase nada, o pouco que possuem dividem entre si. Mesmo vivendo em casebres dignos da mais profunda piedade, ainda assim, fazem de suas humildes moradas, lares calorosamente acolhedores, recebendo debaixo de seu teto, qualquer um que precise de um seio familiar em momentos de profundo abandono.

Há um velho provérbio que diz: “... não há nada de tão ruim que não possa piorar...” Certo dia, depois de um estafante dia de trabalho, sabendo que seus pais estariam na igreja e Lorena estando aos cuidados de Detinha, decidiu Lourdinha que ao chegar do trabalho tomaria um refrescante banho e logo se deitaria para um merecido descanso. Naquela época em questão o trabalho se tornava cada dia mais pesado e cansativo. Ela que estava tendo crises de insônia, após se queixar no trabalho de tal situação, havia conseguido através de uma de suas empregadoras alguns comprimidos que lhe proporcionariam noites mais tranquilas. Esse medicamento fora lhe entregue com a séria recomendação que deveria ser utilizado comedidamente e jamais misturado com qualquer tipo de bebida alcoólica que fosse.

Lourdinha – uma filha muito obediente e mãe bastante exemplar – muito raramente se dava ao luxo de tomar algum tipo de bebida alcoólica. Quando o fazia era na companhia de Detinha em algum evento especial; como algum aniversário de algum deles, nas festas de fim de ano ou coisa que o valha. Naquele dia em si, como o tempo estava bastante quente e abafado, estando ela faxinando a casa de uma velha cigana – cartomante conhecida e muito eficiente em sua mística arte – a convite de sua empregadora que era uma constante amante do copo, acabara por ingerir um gole ou outro de uma refrescante cerveja, que lhe fora muito insistentemente oferecida. Ao chegar em casa, assim que tomou seu demorado banho, devido ao cansaço do dia e os efeitos da bebida decidiu tomar pela primeira vez, dois dos relaxantes comprimidos que tanto conforto lhe trazia para suas insones noites de cansaço e profunda crise existencial. Assim que se deitou logo caiu em sono profundo e dormiu sossegadamente o sono dos justos.

Enquanto seus avós estavam numa acalorada celebração, onde o pregador ponderava sobre as benesses de uma vida de fiel servidão a Deus e obediência aos ensinamentos das Escrituras Sagradas, Lorena brincava sossegadamente com sua inseparável companheira de aventuras. Assim que o dia já cedera lugar a uma quente e abafada noite, Detinha logo preparara o parco e simples jantar, e em seguida decidira dar por encerrado alguns ajustes no vestido de uma de suas clientes, que exigia pressa no trabalho. Estando as meninas brincando de casinha no único e pequeno quarto da casa, perceberam que aquela brincadeira estava um tanto quanto sem graça, pois lhes faltavam alguns objetos considerados essenciais, para completarem aquela diversão. Tomada pela euforia e senso de aventuras, Lorena conseguira convencer sua amiga a irem até sua casa para buscarem alguns itens para continuarem com a brincadeira.

Detinha estando por demais ocupada, nem mesmo percebera que as meninas haviam saído e voltado logo em seguida. Acompanhada de sua amiga, Lorena entrara em sua casa e muito rapidamente após acender o toco de uma vela, logo recolhera todas as coisas que foram buscar e de forma bastante afoita logo retornaram a fim de continuarem com sua diversão. Uma vez que, estando a casa tomada pelas trevas, a luz da pequena vela não fora suficiente para perceberem que Lourdinha dormia sossegadamente em sua cama num dos cantos escuros da casa. Talvez devido a inocência, ou até mesmo por mero esquecimento a vela fora deixada acesa sobre uma pequena mesa encostada numa das paredes da casa. Em menos de meia hora, após essa negligente e despretensiosa façanha, Detinha sentira que o calor havia aumentado bastante e logo pôde perceber que seu quintal, fronteiriço a casa de sua inocente e infeliz amiga estava tão claro como o dia. Havia também um curioso barulho de fortes estalos preenchendo o silêncio da noite, ao olhar pela janela, finalmente deu por si que aquilo era incêndio.

A casa de Lourdinha ardia em tenebrosas chamas. Vizinhos logo se aglomeraram ao redor, mas muito pouco poderia ser feito além de evitar que o fogo se espalhasse pelos demais barracos. Lorena acompanhada da inseparável amiga e do filho mais velho de Detinha foram correndo até a igreja em busca de seus avós. Ao chegarem na porta do humilde templo, coincidentemente o pregador falava do fogo consolador que queima os pecados do mundo, Lorena que era conhecida por todos e fora a primeira a adentrar a pequena igreja fora logo gritando:

– Fogo! Foooogo...

– Justamente minha filha, é o fogo do Senhor que nos consola! Respondeu o pregador bastante afoito com sua mensagem.

Lorena desesperada ao extremo com a face banhada em lágrimas, não podendo controlar as emoções gritou bem alto:

– Não, pastor, é fogo mesmo e está queimando nossa casa.

Menos de dez minutos depois, todos os membros daquela pequena igreja – que naquela noite assistiam à celebração – estavam perante a imensa fogueira que outrora fora a casa onde Lorena vivia com sua mãe e seus avós. Seu Eusébio – velho e doente – tivera que ser amparado pelos vizinhos. Sua esposa – Dona Olinda – era um pranto só, entre lágrimas e soluços, dissera:

– Já não tínhamos nada! E o nada que possuíamos agora se foi entre as chamas...

Em menos de uma hora a pequena casa se tornou um monte de cinzas ainda fumegantes. O desespero fora tão grande que ninguém dera por fé que Lourdinha ainda não havia chegado do trabalho. Somente algum tempo depois, após os ânimos se acalmarem um pouco, que Detinha percebera que havia passado muito da hora que a amiga comumente chegava. Aquela noite fora triste e desoladora, a casa havia sido reduzida a cinzas, as horas passavam e Lourdinha nada de chegar. Depois de um tempo que parecera durar quase uma eternidade, a noite fora esvanecendo e dando lugar às primeiras luzes da manhã. Assim que a claridade se fizera presente, Detinha fora avisada por um dos vizinhos – daqueles tais, que se levantam antes do amanhecer e são dotados de curiosidade plena – que, chamando-a de lado, lhe dissera quase em surdina que havia os restos de um corpo carbonizado entre as cinzas...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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26 de maio de 2097. Tudo começou na década de 20.O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim…

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26 de maio de 2097

Tudo começou na década de 20.

O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim do mundo sutil. Não houve explosões, guerras nucleares ou cadáveres espalhados pelas ruas. Pelo contrário — as pessoas riam, faziam piadas e seguiam vivendo sem perceber para onde estavam indo.

Todos pareciam felizes demais para notar o fim do mundo chegando.

Lembro das histórias dos meus avós sobre algo que chamavam de Internet. Sobre como aqueles pequenos aparelhos em suas mãos arrastavam a humanidade, pouco a pouco, para um abismo confortável de dopamina.

E aquilo se tornou um vício.

Rolavam feeds infinitos no Instagram. Passavam horas no TikTok. Consumiam vídeos rápidos até perderem completamente a noção do tempo. E as grandes companhias perceberam cedo que atenção valia mais do que ouro.

Então começaram a moldar gostos.

Tudo era minuciosamente calculado.

O tempo que vocês passavam olhando um anúncio.
O segundo exato em que sorriam para um vídeo.
A música que fazia vocês pararem para cantar.
O rosto que prendia atenção por tempo demais.

Os celulares observavam tudo. Ouviam tudo. Espionavam tudo.

Cada termo de uso aceito sem leitura.
Cada cookie salvo nos computadores.
Cada clique.
Cada passo.
Cada informação entregue voluntariamente em milhares de sites.

Tudo registrado, analisado e vendido para corporações gigantescas.

Se alguém gostava de filmes de terror, logo era cercado por teorias, jogos, roupas, músicas sombrias e colecionáveis. Não importava se precisava daquilo.

Importava continuar desejando.
Continuar consumindo.
Continuar comprando.

Continuar acreditando que os próprios desejos pertenciam a si mesmos, quando, na verdade, haviam sido plantados ali.

Uma série sobre alienígenas estreava em um streaming. No mês seguinte, refrigerantes, brinquedos e propagandas utilizavam os mesmos personagens. Um filme de super-heróis chegava aos cinemas e, naquela mesma semana, milhares de crianças imploravam aos pais por bonecos produzidos em massa.

Tudo se conectava.

Tudo era publicidade.
Tudo era manipulação.

E o pior é que ninguém se importava.

Porque parecia conforto.
Parecia entretenimento.
Parecia felicidade.

Aos poucos, a humanidade começou a abandonar a realidade para viver no mundo digital.

Não havia mais CDs nas casas.
Nem VHS.
Nem DVDs.
Nem fotografias impressas.

Tudo se tornou digital.

Filmes.
Músicas.
Lembranças.
Relacionamentos.
Personalidades.

Até a própria vida passou a existir atrás de telas.

E então a humanidade começou a desaparecer.

Consumida pelo mesmo capitalismo que prometia conforto enquanto lentamente a levava à decadência. O mundo não acabou em guerra.

Acabou em consumo.

No lugar de cada pessoa surgiu um doppelgänger digital.

Um duplo.

Mais bonito.
Mais engraçado.
Mais interessante.
Mais fácil de amar.

E esses duplos começaram a se relacionar entre si enquanto os humanos reais apodreciam lentamente atrás das telas.

Ninguém mais saía de casa. Comida e suprimentos eram entregues por drones controlados por inteligências artificiais. Toda comunicação acontecia através de celulares, e os relacionamentos deixaram de existir entre pessoas reais.

As pessoas passaram a amar versões editadas umas das outras.

Perfis digitais.

Personagens inventados.

Duplos

É nessa realidade que você vive agora.

Uma realidade onde ninguém mais ama pessoas.
Apenas versões idealizadas delas.
Apenas os duplos digitais que consomem, compram e fingem ser melhores do que realmente são.

E eu?

Eu sou apenas a consequência daquilo que vocês criaram.

Eu sou você, daqui a alguns anos.

Escrevendo uma carta para meu próprio passado, implorando para que alguém me salve desse futuro.

Porque esse futuro…

Não é bonito.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.

Quase nada. Apenas você.

A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.

Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.

Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.

Foi quando eu o vi.

Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.

Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.

Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.

Ele acelerou o passo.

Eu também.

Não vou descrever o que fiz com ele.

Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.

Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.

Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.

Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.

— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.

Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.

Eu o matei.

Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.

Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.

Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.

Matei por você.

Já nem sei quanto tempo passou.

Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.

Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.

Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.

Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.

A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.

A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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PIGMEUS

Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Devemos temer unicamente o que pode de fato nos causar dano, e o simples temor não pode fazer mal”. — Dante Alighieri

Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava eu tinha crises de pânico que me tiravam até mesmo o apetite, independente de qual fosse o cardápio do jantar. As nuances das cores do amarelo e do vermelho dos raios de sol que se intercalavam entre si formando vários tons de alaranjado que hoje em dia eu vejo como uma prova inquestionável da existência de um Ser superior, que a cada entardecer nos presenteia com uma cena cada dia mais esplêndida, na minha inocência de criança era o prelúdio para mais um período de profundo sofrimento. O final de um dia e início de mais uma noite de profundo terror noturno.

Até hoje não sei explicar, – talvez nunca o saiba – o porquê eu tinha tanto pavor da noite. Às vezes imagino – em momentos de profunda reflexão – que esse incontrolável terror, pode ter sido causado pelas coisas que só eu conseguia ver, vagando pelas sombras da noite. Por mais que tentasse mostrar aos meus pais onde estavam e como tais criaturas eram, eles jamais acreditavam em mim. Sabendo que tentar convencê-los era algo inútil, decidi que deveria convencer a mim mesmo, que minha mãe – exemplo de doçura e sabedoria – estava certa, quando ela sempre me dizia que: monstros, assombrações, entidades e todas essas coisas do tipo, não existiam no mundo real. Que tudo era fruto de uma mente fértil que chegava a criar tais criaturas.

Mamãe, para tentar aplacar minhas crises de pânico, quando eu acordava toda a casa com meus gritos de terror, – e certamente, se minha voz tivesse a força igual ao medo que eu sentia meus gritos também acordariam toda a vizinhança – ela muito carinhosamente me dizia: – Seus olhos vêem aquilo que sua mente quer ver. Sabendo do amor que minha querida mãe nutria por mim, eu tentava de todas as formas me acalmar e me convencer que tudo o que via era fruto de minha imaginação. Contudo, eu sabia que todas aquelas criaturas eram reais, mas como ninguém mais as via, eu temendo me passar por uma pessoa mentalmente perturbada, decidi que eu deveria me silenciar quanto às minhas visões, e não tocar mais no assunto.

Certa vez, visitamos uma conhecida família, que perdera o pai para uma doença desconhecida. Um homem saudável ao extremo e forte como uma rocha, que da noite para o dia, contraiu uma infecção misteriosa que em questão de dias o levou à morte. Segundo essa jovem, a doença que matara seu pai, fora tão terrível que muitos de seus amigos e conhecidos, – até mesmo parentes mais próximos – não ousavam nem mesmo se aproximar dele em seus últimos momentos, pois os vermes já o estavam devorando, mesmo estando ele, ainda vivo. Dissera ela que, em suas últimas horas de vida, seu pai, sofrendo extraordinários ataques de pânico, aos gritos, implorava a todo o momento para que iluminassem o quarto – mesmo estando dia claro – pois, segundo ele havia terríveis criaturas o espreitando nas sombras.

Na volta para casa, minha mãe me questionou se eu havia prestado atenção no que nossa anfitriã havia nos contado. Quando eu dissera que sim, ela me alertou sobre o perigo daquilo que achamos que vemos escondidas pelos cantos sombrios. Suas palavras jamais foram esquecidas:

– Filho, não duvido de nada do que me dizes, mas não é porque eu acredito em você que os outros também deverão fazê-lo. Além de ser sua mãe, eu mesma também acredito que entre o Céu e a Terra existam muitas coisas estranhas e ainda incompreendidas pela mente humana, mas evite na medida do possível comentar com qualquer outra pessoa essas visões, para que não o tenham como um louco. Ver o que os outros não vêem o torna perigoso.

Depois da estória que ouvi, sobre um homem já experimentado em anos e que prezava do respeito de toda uma cidade, ter terminado seus dias tributado como louco, e pelos incansáveis conselhos de minha mãe decidi, que deveria silenciar as vozes e afastar aquilo que me atormentava nas trevas da noite. A última visão que tive, foi na vida adulta, quando eu já estava namorando. Foi algo assustadoramente constrangedor.

De visita a casa dos pais de minha namorada, – a primeira e última – assim que chegamos, estando todos sentados na varanda, fui educadamente cumprimentar a todos os seus parentes presentes no momento. Sem exceção de idade, um por um eu fiz questão de me apresentar e apertar a mão em um fino gesto de galhardia. Fui gentil com todos, inclusive com uma sorridente senhora que estava sentada numa confortável cadeira de balanço. Quando a cumprimentei com todo respeito e atenção que se deve ter a uma pessoa idosa, logo percebi que todos me olharam de forma assustada. Minha namorada, muito constrangida, logo me chamou num canto em particular e demonstrando estar um tanto quanto irritada, disse:

 – O que pensa que está fazendo? Quer que meus pais pensem que o namorado da filha deles é um louco, um maníaco pervertido que fala com cadeiras vazias. Saiba, que quando eu disse para minha mãe qual era sua profissão – Professor de Filosofia – ela de imediato me questionou, se você não era daquele tipo de pessoa perturbada, que passa o tempo todo sob o efeito de substâncias entorpecentes...

Pedi sinceras desculpas, e disse que eu estava um pouco cansado, e que talvez eu pudesse estar confundindo a realidade, devido ao estresse causado pelo meu trabalho. Mas, assim que entramos na sala de estar, logo na parede de frente à porta de entrada, havia um enorme retrato da senhora a quem eu havia cumprimentado há pouco. Quando questionei minha namorada de quem se tratava a imagem do retrato, ela suspirando profundamente, me disse que era sua querida avó, a quem ela tanto estimava, mas que havia falecido há mais de cinco anos...

Na velha sabedoria de botequim, há um antigo provérbio que diz que os semelhantes se reconhecem apenas pelo olhar. Numa quente e abafada noite de meados de dezembro, após um estafante dia de trabalho, estava eu sentado numa velha banqueta, encostado num polido e gordurento balcão de um sossegado bar no centro da cidade, saboreando uma cerveja estupidamente gelada ao som de Belchior, quando um senhor se aproximou de onde eu estava e logo foi puxando assunto. Sem nenhuma cerimônia foi se apresentando e iniciou uma conversa por conta própria, – sem saber se eu gostaria de ouvi-lo, ou não – primeiro; falando do calor, da falta de chuvas, do custo de vida e por fim das dificuldades de se conseguir bons companheiros de trabalho. Como eu estava muito cansado e de cabeça quente, devido aos dias finais do ano letivo, fiquei apenas o escutando, e vez por outra interagia com ele de forma monossilábica.

Quando ele percebeu que tinha minha atenção, logo me questionou sobre minha profissão e se eu estaria ocupado nas duas próximas semanas. Respondi que era professor de Filosofia, mas que a partir da quarta-feira da semana seguinte estaria de recesso pelos próximos quarenta dias até o fim de janeiro. Sem titubear por nenhum segundo, me fez uma proposta de trabalho, que de forma alguma poderia ser recusada. Disse-me que era carpinteiro de telhados artesanais e que estava à procura de um ajudante, que lhe pudesse auxiliar por duas semanas, pois seu antigo ajudante havia sofrido um pequeno acidente e estaria indisponível por uns dois meses, talvez até um pouco mais – soube depois, que estava em coma profundo. Jamais trabalharia outra vez –.

O trabalho era no interior, numa fazenda afastada da cidade. Um lugar sossegado e bastante pitoresco para uns dias de descanso de uma vida atribulada de cidade grande. Fez-me uma oferta financeira bastante razoável, para quem não tinha nenhuma experiência com este tipo de ofício, e logo quisera me pagar metade do valor oferecido de forma adiantada. Após acertarmos os detalhes, ficou decidido que na quarta-feira seguinte, partiríamos para a tal fazenda onde ficaríamos até o término do trabalho.

 Chegado o dia marcado, partimos bem cedo e antes do almoço já estávamos em nosso destino. Após nos instalarmos na casa onde ficaríamos alojados, depois de um improvisado repasto, ele disse-me que, meu dia seria devidamente pago e que eu poderia fazer o que bem entendesse naquela tarde. Ele por sua vez gostaria de descansar da viagem, e que se fosse possível, que eu não o incomodasse em seu sono vespertino. Aproveitei a tarde para ler, um dos livros que eu havia levado comigo – A outra volta do parafuso de Henry James, se não me falha a memória. Ele dormiu a tarde toda, só despertando no ocaso um pouco antes do início da noite. Após tomar um demorado banho, preparou nosso jantar, – galinha ao molho de pimenta – que fora servido acompanhado com um saboroso vinho tinto. – Lembrei-me de Jonathan Harker hospedado no Hotel Royal em Bistritz –.

Após o jantar ficamos conversando até tarde da noite. Ele me pormenorizou sobre seu passado, fatos que rememoravam sua infância mais remota. Acontecimentos de uma época em que eu ainda nem tinha nascido. – era ele um senhor de mais de sessenta anos – Percebi que ele tentava a todo custo me manter acordado com suas estórias, para lhe fazer companhia – uma espécie de Sherazade tupiniquim – Consegui me manter desperto até umas duas horas da madrugada, mas logo fui vencido pelo sono e pelo cansaço e acabei adormecendo na cadeira onde estava sentado, sendo despertado logo em seguida com gritos de pavor e desespero. Naquela noite não dormi mais do que meia hora ao todo, somando os pequenos cochilos que vez por outra me venciam, mas sendo logo despertado em seguida de forma abrupta.

Por três noites a fio, tudo se repetiu como na primeira noite. Eu já estava a ponto de um ataque de nervos. Por mais que eu tentasse de todas as formas, não conseguia dormir durante o dia. Ele por sua vez, iniciava sua jornada de trabalho às primeiras horas da alvorada e após o almoço, dormia quase toda a tarde, também me dispensando de meus afazeres. Depois de me certificar que aquele seu estranho comportamento estaria ligado diretamente ao mesmo terror noturno que eu enfrentara quando criança, decidi que eu talvez pudesse ajudá-lo. Sem deixar que ele percebesse, coloquei em sua bebida – que era de uso quase contínuo – dois dos comprimidos que tomava havia muitos anos para poder dormir uma noite de sono tranquila, sem ser incomodado por visões noturnas. O medicamento era controlado e bastava uma única dose para derrubar um cavalo. Como eu estava muito cansado, quis ser pragmático e lhe dar logo uma dose que eu sabia que seria mais do que suficiente para lhe proporcionar um pouco de paz.

Naquela noite nos recolhemos antes das oito da noite, pouco após o jantar ser servido. Aquele amedrontado senhor, meio que desmaiara em sua poltrona, com muito sacrifício consegui levá-lo para sua cama, – que até então só era usada durante o dia. Exausto como estava, logo adormeci pesadamente, sendo despertado por lamentosos gemidos de alguém que padecia um terrível sofrimento. Como há tempos, havia conseguido vencer meus temores noturnos, consegui me acostumar a dormir com a luz apagada, e naquela noite estávamos na completa escuridão. Quando olhei para a direção de onde vinha os gemidos, percebi que havia uma dezena de pequenos olhos amarelados ao redor da cama de meu companheiro, que por algum motivo parecia estar preso à cama sem poder se mover. Rapidamente acendi a luz e logo todos os olhos sumiram na mesma velocidade que a luz fora acesa.

Aquele senhor entrara numa espécie de catatonismo crônico, não conseguindo mais responder à realidade que o cercava. Num comportamento completamente ensandecido, mesmo estando com todas as juntas de seus membros inertes, ficava tentando se debater, como se unindo forças para se levantar e correr o mais rápido que pudesse e repetindo o tempo todo:

– Pigmeus! Pigmeus! Pigmeus...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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O Segredo Abaixo dos Pés

Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma máxima cruel: enquanto temíamos e vigiávamos os céus, o que realmente nos destruiria sempre esteve aqui. Silencioso, sob nossos pés, ansioso por erguer-se e devorar tudo o que estivesse ao seu alcance.

Era um daqueles entardeceres em que as sombras crescem como se quisessem devorar a luz. Entornei o café na xícara surrada e deixei que a pena deslizasse pelo caderno. As palavras surgiram primeiro tímidas, depois num jorro, como água de uma nascente há muito esquecida.

— Já parou para pensar — perguntei à Clara, enquanto ela enrolava um fio de cabelo escuro entre os dedos — que quase todas as teorias sobre o fim da espécie colocam o céu como o nosso grande ceifador?

O rosto dela contraiu-se numa expressão de genuína surpresa.

— Nunca tinha observado por esse prisma.

Sorri, tomando um gole do café já morno. Nossas conversas sempre tiveram essa dinâmica: eu lançava o anzol e ela mordia a isca sem hesitar, num balé intelectual que encenávamos desde o dia em que nos conhecemos.

— Existe um lugar ao qual damos pouca importância — continuei. Ela inclinou-se para frente; o decote do roupão revelou a curva familiar de seus seios, um detalhe que, mesmo após anos, ainda conseguia me distrair do fim do mundo. — As religiões falam de demônios, invasores estelares ou catástrofes vindas dos cometas. O dogma nos impõe olhar sempre para cima.

— Conte-me mais — respondeu ela, os olhos brilhando com aquela centelha que só surgia quando mergulhávamos nessas madrugadas de teorias e sombras.

— O erro é nunca olharmos para baixo — completei, sentindo o peso das próprias palavras. Seu pé descalço roçou o meu sob a mesa, um hábito antigo que me ancorava à realidade. — O que existe, de fato, no núcleo da Terra? Lençóis freáticos, magma e nada mais? Ou o abismo esconde espécies raras e comunidades secretas que o sol nunca tocou?

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo ruído da cidade lá fora — uma sinfonia de buzinas e passos apressados, gente desesperada em sua jornada para lugar nenhum.

— Eu acredito em outros seres e outras moradas, mas não na Terra. E não consigo acreditar que sejam demônios.

A resposta dela me fez sorrir. Era a essência de Clara: cética quanto ao inferno, mas aberta aos anjos.

— Quão fundo nós realmente cavamos? — perguntei, mordendo a ponta do lápis. Ela riu baixo, conhecendo meu vício de roer o instrumento de escrita. — É possível perfurar a crosta a ponto de enxergar o outro lado, já que somos uma órbita suspensa no nada?

A noite já havia engolido a janela completamente, transformando o vidro em um espelho negro que nos devolvia nossas próprias imagens. Dois rostos, inúmeras dúvidas.

— Acho que isso reflete a hierarquia dos deuses — ponderou ela. — Seres divinos que precisavam estar acima dos humanos para dominá-los.

— O fundo do mar ainda não é o fundo da Terra — rebati. — Supõem que o magma seja o limite, o fim de tudo, mas são apenas suposições. Ninguém desceu o suficiente para registrar o que há abaixo do fogo.

— Não existe luz lá — a voz dela baixou para um sussurro, como se temesse acordar algo profundo. — Tudo o que vive lá é cego.

— Se há fogo, pode haver luz — contrapus. — A luz da superfície é uma projeção do fogo solar. A lava é a polpa do fogo telúrico. Creio que haja uma claridade própria nas entranhas do mundo.

O caderno agora era um labirinto de linhas tortas e pensamentos soltos: a cartografia de uma teoria proibida. Clara deixou a xícara tocar o pires com um tilintar metálico que ecoou pela sala.

— Falam tanto da Lua — disse ela, puxando o cobertor sobre os joelhos. — Mas você já reparou como as imagens parecem fabricadas? Sombras cruzadas, bandeiras que ondulam no vácuo... como um palco mal iluminado.

Abri o caderno em uma página repleta de cálculos e diagramas.

— O mais curioso é que pararam de ir justamente quando as brocas terrestres estancaram. 1969: o homem pisa na Lua. 1970: o Projeto Kola atinge seu ápice e para. Conveniente, não?

Clara puxou o caderno, os olhos devorando minhas anotações.

— Você sugere que foi tudo um teatro? Uma cortina de fumaça?

— Sugiro que é mais fácil simular a conquista do céu do que encarar o que encontrariam se continuassem cavando — respondi, batendo o indicador no chão de madeira. O som saiu oco, fúnebre. — Doze quilômetros. Foi o máximo que o homem alcançou. Doze quilômetros em um planeta com mais de doze mil de diâmetro. Uma gota num oceano de rocha.

Seu olhar desceu para o assoalho, tentando atravessar as tábuas.

— E por que pararam?

— Talvez porque as brocas começaram a encontrar o que não deveria existir. Quando os microfones captaram... sons. Gemidos de um planeta que não quer ser despertado.

O abajur piscou, instável. Na parede, nossas sombras se contorceram, alongando-se como se algo colossal se movesse por trás de nós.

— Gastamos bilhões para fingir que dominamos uma rocha morta a mil quilômetros de distância, enquanto o verdadeiro mistério está a meros passos de onde estamos. Se a Terra fosse uma maçã, Carlos, nem sequer rompemos a casca.

Um arrepio percorreu o ambiente. Na cozinha, o estalo de algo rolando pelo piso nos sobressaltou.

— É mais fácil apontar para as estrelas do que entender o abismo sob nossos pés — concluí, fechando o caderno.

Uma risada nervosa escapou entre nós, quebrando a tensão.

— Eu creio em vida extraterrena — ela disse, por fim. — Mas não creio que o mal venha de cima. Talvez os céus tentem nos salvar de nós mesmos... e do que habita o nosso próprio solo.

— Céu acima, purgatório embaixo. O ser humano teme o que não pode iluminar.

Nossos olhares se cruzaram sobre as xícaras vazias, cúmplices de uma heresia. Lá fora, a cidade ignorava o abismo sobre o qual fora construída. Decidimos, naquela noite, que nossa busca não seria pelas alturas, mas pelas profundezas. Porque o fim não precisa vir do espaço; ele já pode estar aqui, esperando pacientemente que o esqueçamos para que, então, possa emergir.

Ao final, puxei-a pelo cinto do roupão. Ela veio sem resistência, como sempre. Selamos nossa pequena loucura com um beijo prolongado e, por um instante, o abismo sob meus pés deixou de existir. Só havia ela.


Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Mensagem da autora

Minha ideia inicial foi escrever um conto sobre uma garotinha que fica presa nas memórias da tia. De forma alguma descartei a ideia, mas o dia a dia me afogou de tarefas chatas impossíveis de serem negligenciadas de tal forma que só consegui me dedicar ao conto que os senhores vão ler em breve. E ele começou com uma ideia de nossa anfitriã: vampiros que amam o Sol.

Fiquei pensando em como um sugador de sangue poderia se apaixonar pelo que o mata, e concluí que esse sentimento exigiria uma relação distorcida com a sobrenaturalidade. Decidi transformar algo profundamente melancólico numa ironia, levado o gótico doméstico à linha tênue entre a ingenuidade e o delírio de minha personagem.

Aconselho que leia o restante desta nota DEPOIS da leitura do conto.

Sério, corre lá! Eu estarei aqui.

Akily preserva um tipo de afeto deslocado pelo cotidiano humano, agarrando-se a vantagens insignificantes diante de seus verdadeiros poderes. Esse apego funciona muito bem como uma forma de alienação ao longo da eternidade, o que a ajudou a preservar sanidade durante mais tempo do que podemos humanamente conceber.

Ela se preocupa por esquecer de colocar o lixo para fora, por não ter onde pendurar uma mandala supostamente mística, tentando esconder de si que é o mesmo ser capaz de levitar e manipular pessoas. Esse contraste revela uma escolha contínua de ignorar a própria natureza, o único traço de personalidade que verdadeiramente fazia sentido para mim nessa narrativa.

Há uma imagem que considero particularmente reveladora de sua personalidade: “Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa.” Essa descrição aparentemente banal, como todas as descrições aparentemente banais, dói somente depois da mordida. Ela sintetiza sua forma de existir, na qual o trivial é romantizado e elevado, enquanto o extraordinário é deliberadamente negligenciado. Esse traço se repete ao longo do conto porque se repete ao longo de sua vida.

Sua relação com o sol surge, então. É mais do que fascínio, mas Akily não consegue compreender a magnitude disso. Trata-se de algo profundo e animalesco que pede interrupção, como se sua própria natureza exigisse uma pausa na encenação contínua.

Optei por evitar o uso excessivo de vírgulas, buscando um ritmo que acompanhasse o fluxo de pensamento de Akily.

A repetição dos gestos de sorrir e deixar o corpo pesar é deliberada, bem como o uso de verbos “proibidos” como “sentir” e “perceber”. Akily atravessa um momento em que suas decisões são guiadas por uma força emocional mais intensa e menos racional. Não há, nesse contexto, receio da repetição, nem tentativa de suavizá-la. Pelo contrário, ela reforça a ausência de censura diante de seu poder em relação à sua vontade de romantizar a vida para que ela não perca sentido. Até que o sentido se torna, finalmente, a perda total da vida.

Sophia Kaiser

Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo. Ela sorriu, reorganizando os ímãs na geladeira. Mas o sorriso se esmaeceu com peso na linha onde deveriam nascer rugas, e ela notou que alinhava ímãs já alinhados; que seu favorito estava descolando do esmalte ciano na porta do congelador.

Esqueceu de colocar o lixo para fora; agora os camarões podres teriam que esperar até o dia seguinte, aprisionados num cubículo de plástico quente junto das cascas de ovo e das rosas de Alberto. Passou aquele dia inteiro sozinha, embora não se sentisse assim. Começou preparando seus muffins de caramelo, cuja receita podia jurar que era primeira no mundo; separou a pasta em pequenas ilhas e as pôs no forno. Ligou a pequena Philco suspensa no teto num daqueles canais em que ela nunca sabia se as francesas discutiam ou se reconciliavam. Não é que, durante todos os séculos, não tivesse aprendido francês; havia parado de ouvir quando não lhe era necessário.

Havia passado o tempo correto. Ela abriu aquela grande boca de aço e sem querer queimou o polegar. A fumaça preta nunca havia saído do forno junto com os muffins. O sopro infernal subia tão agressivo que Akily largou o tabuleiro na mesa um segundo antes de espatifar no chão. Quanto mais a abanava, mais ela tomava formas distorcidas e dramáticas. Quanto mais a encarava, mais era encarada de volta; contornava seu corpo e encontrava seu rosto em algum ângulo imprevisível. Akily bufou. Não sabia quantas vezes teria checado a textura da massa antes de botar no compartimento pré-aquecido em toda a sua vida. Culinária vinha da mesma fonte que a música; um ajuste definia todo o corpo da receita, a melodia, a proporção; o que ela fazia com bolos de carne e tortas de maçã um século antes não era diferente, com exceção dos venenos açucarados extremamente gostosos dessa geração. Para ela, aquilo era felicidade com promessa e entrega instantâneas, seu estômago trituraria qualquer mal, as toxinas alimentariam seu sangue com vigor tal qual uma fruta colhida do pessegueiro alimentado com os restos da última bruxa de Salém.

Desligou a televisão. O francês a estava deixando com muito calor. Ouviu o barulho do lixeiro passando outra vez e abriu a boca, sentindo seu pulmão comprimir. Quando voltou à cozinha viu como o tabuleiro havia adquirido uma segunda pele de escamas marrons e pretas. Parecia a metade de cima de um dragão filhote, se eles não fossem mera fantasia. Enfiou seu dedo na massa e lambeu. O sabor familiar do caramelo em cubinhos nunca veio. A crosta de noz-pecã derretida amargou o céu da boca, mas o açúcar estava derretido o suficiente pela massa solada. Decidiu que estava bom. Apanhou uma mãozada e comeu assistindo seu reflexo cinza pela TV.

Ainda carregava satisfação em seu corpo quando resolveu se banhar à luz das velas aromáticas de uva, como se o caramelo tivesse escapado para o coração. Lembrou que devia beber logo do estoque novo de sangue, as três bolsas que guardara na geladeira junto da manteiga na promoção e o sangue quente que deixara no armário perto dos dois potes gigantes de creme de avelã. Faria isso assim que saísse do banho. Seu roupão fino permitia que a brisa gelada revelasse partes de seu corpo de que ela gostava bastante. Os cabelos, há muitos séculos retratados em pinturas agora engavetadas como liso morto, haviam conquistado ondulações suntuosas que refletiam as curvas de seus seios, coxas, dedos dos pés.

Pisou na água morna dentro da banheira, e só então se lembrou das pétalas de rosa guardadas num saquinho da loja esotérica dois quarteirões distante. Buscou-as e, num impulso que geralmente não lhe acometia, antes de notar que elas já murchavam, ao invés de jogá-las dentro da água: jogou-as para cima.

Estava submersa até a cintura; uma nova brisa gelada arrepiou sua clavícula, e sorriu de um modo que seus pelos se arrepiaram. Acabara de receber uma amostra do sopro de vida, tal como os seres vivos recebiam a água e o sol. O sol. Seu rosto contorceu, passando os dedos molhados pela barriga seca. “Se a vida é uma valsa cósmica que baila com o divino, a de um vampiro estará sempre um tempo atrasado, nunca sendo guiada pelas mãos do sol.” A frase da irmã ainda grudava. Ela não deixaria que a valsa parasse, mesmo assim. Seu coração se enchia tanto que enxergou sua condição com amor materno, tal qual um recém-nascido com uma alergia grave; mesmo que espirrasse, seriam espirros perfeitos, que a aproximariam cada vez mais do divino. Akily se levantou e fez os dedos contornarem a borda de alumínio do batente com bastante cuidado. Abriu mais a janela.

Depois que seus seios já balançavam na gravidade confortável da água, ela não sentiu vontade nenhuma de se tocar. Quando voltou para o quarto, havia decidido algo tão íntimo quanto seu nome ou quanto beber sangue.

Ao abrir o guarda-roupa de mogno antigo, dedilhou os vestidos suspensos no cabide e só parou em um daqueles poucos que nunca havia usado. Escolheu aquele azul com detalhes em marfim, que fora comprado num ato de altruísmo para sua irmã, antes que a dona cheia de pintas passasse na loja no dia seguinte. Se esqueceu de entregá-lo, afinal de contas, mas conseguia ver o rosto da irmã por entre as dobras de renda com cheiro de talco.

Demorou duas horas inteiras na frente do espelho da penteadeira, esfregando as cerdas macias pelos cabelos que passaram tempo demais no condicionador. Cheirava o sabonete em sua pele e depois dava um sorriso, seus olhos quase transbordando gotículas que faziam seus globos oculares doer. Sua barriga roncou. Pensar na bolsa de sangue fresca na geladeira pareceu tê-la saciado de quase todas as formas. Passou mais duas horas sentindo o quarto gelar com o ar-condicionado no 16. Lembrou-se do doce vento da Irlanda, a brisa gelada que arrepiou a pele quente e encheu o estômago de ar.

Só parou de alisar o lençol quando a palma da mão se irritou com a seda, e então repousou a cabeça de lado como quando dividia a cama com a irmã e deixou as pálpebras pesarem. Na manhã seguinte, quis ver a luz do sol pelo bumbum do tabuleiro de fazer muffins de caramelo.

Lavou a crosta doce com cheiro de açúcar artificial com força, afinal, não tinha tempo para compensar o vacilo de não o ter deixado de molho. Voltou para o quarto, calçou suas novas papetes roxas de borracha e vestiu a capa grossa de chuva com a qual recolhia as flores de Alberto diariamente. Caminhou fazendo barulho pelo azulejo do lado de fora e esticou o braço até o metal molhado encontrar a claridade do céu.

De repente sua varanda azuleou de tal modo que Akily se atribuiu asas. Estava voando por um verão sem nuvens, e então se deu conta de que havia tantos seres voadores no mundo. Podia fincar suas presas sorridentes e indolores nos corpos penados e ainda não faria a liberdade crescer em suas costas. Uma sobrancelha se levantou. Ela podia, claro que podia levitar. Mas não via graça nenhuma em manipular a gravidade com aquele formigamento todo na sola dos pés, na ponta dos dedos, das orelhas e pelo pescoço até o queixo. Ela queria voar como os anjos; mas não como nas pinturas no teto distante das catedrais em 1823 que tanto a irritavam. Detestava aquela leveza. Ela desejava os músculos eróticos que a conquistaram muito antes disso, que a tornariam uma deusa feita de curvas impossíveis; invejava o poder de voar até os céus com a promessa de ser um com o universo. No fundo, mesmo que não gostasse da ideia, sabia que seu voo pareceria muito mais leve do que gostaria.

Ainda contemplava em agradecimento a infinita luz azul, se perguntando se o sol era azul também, quando o tabuleiro escapuliu de seus dedos encapuzados. Seus ouvidos murcharam com o barulho estridente de um azulejo quebrado, o clarão do sol irradiando de uma forma que Akily se acuou para dentro da cozinha. Bateu a porta com tanta força que precisou conferir se a havia quebrado. Botou a mão no peito com os olhos arregalados. Não sabia o que dentro dela doía tanto. E então deu uma gargalhada desafinada e trêmula que expulsou o espírito daquela velha curandeira que lhe havia praguejado algumas décadas antes. Logo percebeu que respirava forçado demais, e ficou encarando o calendário da empresa de botija de gás enquanto sua alma, que voava tão alto, voltava para si. Teria esperado anoitecer para sair outra vez, mas sua garganta fechou; esperar algumas horas era tortuoso demais. Abriu a porta só mais um instante, um feixe de luz potente alcançando a geladeira ciano. Que luz poderosa e absoluta! Fechou a porta devagar e sem rir dessa vez.

Uma cólica tremenda a atravessou, a vista queimando. Um cheiro estranho e sinistro percorreu seu corpo. O lixo dentro de casa fazia aniversário. Se agachou para pegar o pote de Nutella, seu corpo pesando com exaustão. Foi para o quarto e ligou a TV. O francês piorou as dores no corpo. Passou o dia e a noite na cama.

Não se lembrava do sonho da madrugada, mas havia acordado com vontade de jogar mais pétalas para o ar. Ela viu o sol. Fechou os olhos com um sorriso bobo, quase como se pudesse ignorar as dores nas articulações. Por um momento, se imaginou novamente refletida naquela imensidão azuleada do céu da hora do almoço. Era quase como se tivesse memórias infantis que envolvessem dias solares encantados, embora soubesse que estava terrivelmente enganada. Preferia não ficar se corrigindo o tempo todo.

Tentou se levantar. Seu corpo não quis. Então espirrou tão forte que seu peito a fez deitar de novo. Em que momento havia resfriado? Passou a mão pelos braços, o rastro doendo até as dobras dentro da pele. A porta da cozinha devia estar se sentindo exatamente daquele jeito, foi o que pensou. O pote de creme de avelã havia deitado para dormir com ela e, por sorte, tivera sua boca fechada antes de ambos pegarem no sono. No fundo da colher ainda tinha Nutella, então ela a tomou na boca enquanto abria o pote outra vez.

No final do mesmo dia, estava tão faminta que precisou ir se arrastando com seu robe de seda rosa até o armário da cozinha. Embora seus cotovelos ainda lhe fossem fiéis, suas pernas tremiam como varas, e ela pensou que ter dado aquela risada histérica lhe havia custado caro; espantara espíritos importantes, que tomavam conta dela. Quando chegou no armário, percebeu como havia acumulado poeira no tecido fino. Arremessou o braço para dentro e rasgou a bolsa com a força que lhe restava. Virou-se para cima e deixou a cabeça descansar no travesseiro duro que era o chão do armário. Inclinou o líquido tão menos gostoso que avelã em direção à boca, mas seus braços fracos derramaram a primeira dose no colo do roupão.

Seu pescoço se levantou para abocanhar o corte no plástico, o sangue recheando sua boca por completo. Seu corpo mexeu um pouco. Ela tomou todo o sangue antes de lembrar de respirar, depois sentiu um espasmo fazendo-a contorcer como se despreguiçasse finalmente. Balançou os pés por um tempo, sentindo a dormência sendo expulsa, as unhas em vermelho descascadas. Estava completamente abastecida, o que a irritou profundamente. Conseguiu se levantar, xingando o roupão todo sujo. Ela não tinha deixado o chão imundo como parecia, aquilo não era verdade. Abriu a torneira e tomou água até que o gosto de ferro se dissipasse. Quando fez o movimento de jogar o restante da água na pia, sentiu que as juntas ainda reclamavam. Voltaria à loja esotérica para comprar mais pétalas depois que o sol se pusesse, mas antes das seis, se melhorasse. Compreendeu que era melhor, no fim, dormir em seu caixão naquela noite.

Ela só tirou o rosto do fundo estofado vermelho depois de algumas semanas; o velho despertador cismou de funcionar, e era sua primeira vez naquele ano inteiro, então Akily entendeu que era um sinal. Deu um pulo quando conferiu o horário; as cinco e meia da manhã na verdade eram cinco e meia da tarde, e então ela subiu pela escada em caracol até o quarto e trocou de roupa. Prendeu o cabelo, calçou a papete. Jogou o lixo podre no latão da rua. Catou o tabuleiro no chão da varanda. Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa. Resolveu comprar uma balinha de cada tipo que pendia ao lado do caixa, a atendente dando piscadas tão demoradas que a tornou confortável em espiar tudo o que havia. Ah, vou levar essa mandala, também. Passou tudo no crédito pelo celular.

Fechou o portão e trancou a porta com carinho. Esticou a mandala pela mesa da cozinha, lamentando não ter um furo na parede para pendurá-la em sua cama. Comeu as três balinhas de alga de uma só vez, tendo certeza de que as cores diferentes não mudavam o sabor. Se o barulho do metal caindo ao chão não fosse tão alto, faria o sol aparecer pelo tabuleiro na tarde seguinte de novo. Abriu a barrinha de alfarroba e fez uma careta, depois pressionou o gosto com a língua até o céu da boca. Estava melhor do que seu muffin fracassado. Quando foi tomar banho para jogar as pétalas para o alto, passou pelo seu quarto e viu o pote de Nutella. Levou-o consigo.

O vapor do banho não queria subir, ruminando o calor dentro da água e transformando a banheira numa panela de cerâmica branca. Akily mergulhou lentamente, equilibrando a colher e o pote enquanto deixava a pele ceder e, quando os seios desceram, o perfume de rosas transbordou e molhou o tapete felpudo. Ao fundo, ouviu uma televisão vizinha alta, ligada na mesma novela que passava na Bruxa Boa. Deu um sorriso manso e levou uma colher cheia até a boca. Depois da segunda ou terceira colherada, resolveu que não precisava de doce para ser feliz, então a depositou no chão e inspirou profundamente. Encarou a janela, imaginando que tinha feito a noite se tornar manhã, recebendo o sol diretamente no rosto. Pensou que o calor que a cozinhava era dele, somente dele, e se pegou mordendo os lábios. Observou as pétalas que caíram com ela, tão murchas como a ponta de seus dedos, seus bebês com alergia grave. Ficou séria durante todo o resto do banho, seus olhos pesando tão pouco que ela mal precisava piscar.

Saiu da banheira, despediu-se da janela e foi para o quarto. As pegadas não a incomodariam daquela vez. Vestiu-se com o corpo ainda molhado, aquele vestido azul com rendas marfim que usara pela primeira vez semanas antes. Somente agora parecia entender tudo. Ousou rodopiar na frente do espelho da penteadeira. Sua irmã a teria puxado para dançar se lhe tivesse contado a descoberta. Colocou as mãos na frente da boca e rodopiou mais algumas vezes. Encarou-se no espelho como se não reconhecesse seus traços, embora ainda se achasse muito bonita. Talvez fosse um pássaro, quem sabe um Anjo. Era aquele passo que faltava em sua valsa.

Fez novos muffins, mas o caramelo havia sido orgulhosamente trocado pelo creme de avelã. Akily havia descoberto uma nova maravilha no mundo.

Aproveitou que ainda era antes das onze e ligou para Alberto. Dessa vez, não quis que ele a buscasse de carro, afinal, ela era a imortalidade encarnada, foi o que concluiu depois de séculos. Esqueceu a chave outra vez, mas fechou com firmeza a porta e o portão. Seus cabelos ainda escorriam e faziam cócegas molhadas pelas costas quando fez seus pés formigarem. Começou a levitar apenas o suficiente para o asfalto não machucar, e então foi levando seu corpo para frente. Mas o formigamento não valia a vagareza, portanto se atirou para o céu tão rápido que a fez se contorcer de frio. Como era bonito o bairro que escolhera para morar, pensou, à noite; apenas algumas luzes douradas acesas, sem o crescimento vertical excessivo das metrópoles poluídas. Desceu bem na frente da casa de Alberto e entrou sem tocar a campainha.

Alberto a tocou com paixão. Ela já lhe avisara que viajava às vezes, e ele compensou cada segundo de saudade com estocadas firmes. Akily o deixou admirar a pele nova sem que ele percebesse: ela não era mais como conhecia. Estava mantendo a virgindade de seu novo eu. Imaginou como seria enxergar o sol. Não era como se ela visse um fiapo de raio se esgueirando minutos antes do amanhecer para lhe beliscar a bochecha ou um clarão idiota num tabuleiro idiota. De forma alguma era aquilo. Sua boca se tornou passagem de gemidos molhados quando pensou no sol a enxergando de volta. Ele abriria os olhos, talvez um de cada vez, ou os dois ao mesmo tempo. Compreenderia suas feições, a cor de sua pele, e lhe diria com quem ela se parecia mais: a mãe ou o pai. Ela já não se lembrava, mas derreteu nos braços de Alberto, imaginando que se parecia mais com a mãe.

No dia seguinte, vestiu sua capa de chuva por cima do mesmo vestido azul e buscou as flores no correio. Rosas vermelhas. Não as jogou fora, porque aquele novo ser gostava muito das rosas vermelhas de Alberto. Na verdade, gostava dele como um todo, o suficiente para passar no banco e transferir a ele uma boa quantia do seu dinheiro secular antes de voltar para casa e se arrumar. Tinha um encontro, afinal de contas.

Preparou uma pequena lancheira da época de quando as escolas começaram a aceitar mulheres como alunas. Era o tipo de quinquilharia que ela não sabia para que guardava, mas preferiu não se julgar naquela situação agora que lhe era tão conveniente. Arrumou uma refeição com dois sanduíches de queijo e manteiga, depois foi até o banheiro, pegou o pote e enrolou mais dois pães-de-forma no creme de avelã. Faltava algum líquido, mas ela sabia que podia parar na banquinha logo antes de pegar o trem e comprar uma Coca-Cola. Guardou também o buquê de rosas.

­— Desculpe, senhorita. Nós acabamos de fechar.

Akily não conseguia entender como a estação de trem tinha tão pouca opção na parte da noite. Então ela engoliu em seco e moveu lentamente seu polegar. O dono da banquinha perdeu qualquer expressão nos olhos, tornando-se o que Akily não gostava muito. Ele enfiou a mão com Parkinson no bolso largo da frente e buscou pela chave correta. Abriu a porta minúscula e barulhenta e catou uma latinha de Coca-Cola e uma garrafa de água com gás, as mais geladas que havia na geladeira e as depositou no chão sujo da estação. Ela segurou as bebidas e as limpou na barra do vestido azul. Abriu a água e deu uma golada, depois guardou as duas na lancheira e seguiu para a plataforma. Só deixou o homem retomar o controle depois que o fizera caminhar para bem longe, esperando que o tivesse guiado pela direção que ele pretendia.

Era 22:22 quando ela recebeu uma mensagem de Alberto. Estava fora de si, escrevendo palavras quase irreconhecíveis. Alguém havia mandado três milhões para a conta dele. Estava com medo de ser testemunha ou cúmplice ou mandante de algum crime, mandou áudio dizendo que seu coração doía. Akily pôs a mão no peito e se lembrou de quando o dela também doeu, compreendendo que o que sentira ao ver o sol no tabuleiro foi a sensação absurda de sorte que Alberto sentia agora. Mandou uma mensagem fazendo-o prometer que não contaria para ninguém que o dinheiro saíra de sua conta. Não queria que ele morresse, nem de preocupação nem de felicidade. Por fim enviou uma selfie e, sem esperar visualização, bloqueou a tela. Quando ouviu o trem que ela precisava pegar chegando na estação, jogou o celular no trilho e se preparou para embarcar.

Somente lá dentro conseguiu sentir um pouco de calma para observar o redor. Tudo o que existia na frente da vidraça manchada era um adolescente que ocupara seu lugar no banco. Desviou o olhar tão naturalmente que se esqueceu que tinha a intenção de observar. Aproveitou o assento de madeira bem alto e ficou mexendo as pernas descalça como estava, fazendo carinho na gola do vestido, enquanto encarava os homens de chapéu passando rumo a outra plataforma. A estação não era tão bem iluminada quanto a cidade vista do alto pelos seus pés formigantes, e concluiu que os limpadores não deviam receber tanto.

Quando o trem iniciou sua jornada às Dunas Múrmuras, algo dentro dela despertou uma felicidade extrema, como se Alberto a tivesse entendido. Como era prazerosa a nova carne recém parida, ainda nascente como sol do dia seguinte. Ela chegaria no deserto às 4h da manhã. Apanhou um sanduíche de queijo e manteiga já de olho no de Nutella. Sentia uma fraqueza sutil roendo seus braços. Abriu a Coca-Cola com um estalo orgulhoso e observou a paisagem como se a visse pela última vez. Sabia que em breve a pequena cidade seria substituída por uma série de construções cheias de janela, fumaça preta invasiva, trânsito que ela morreria dez vezes antes de pensar em pegar. Depois de algumas horas, jogou seu corpo para o lado e fingiu que o estofado vermelho era o interior de seu caixão.

Acordou com um formigamento e se assustou, pensando que estava tentando levitar dentro do trem. O breu que tomava conta do lado de fora só não a engoliu de vez por causa das luzinhas simpáticas que costuravam o tapete da cabine. Podia ter trazido um livro, ou até mesmo seu Kindle, se tivesse compreendido, antes, que seu novo eu gostava bastante de ler. Desceu na estação correta e estranhou ter sido a única. Colocou a lancheira nas costas e levitou lenta.

Akily sabia que precisava se afastar o máximo possível do trilho em linha reta. Logo tudo o que conseguia ver era a fina lua no céu, a aliança que o dia entregara para a noite como prova de seu amor. Seu dedão do pé bateu num monte mais volumoso de areia, e então ela percebeu que estava na hora de levitar mais alto. Atirou-se para frente numa súbita empolgação, o coração palpitando. Não sentia aquilo há mais tempo do que conseguia contar. O deserto brincava com seus olhos, de forma que parecia haver muitos pontos de luz colorida dentro da escuridão azúlea. Era como ir de encontro com o nada, sentindo a brisa fresca furando a pele com grãos gelados de areia. Eram tão virgens quanto ela, acariciando a face de um ser vivo pela primeira vez na vida, foi o que escolheu pensar. Sentiu-se fraca outra vez. Se já não estivesse no coração das Dunas, ao menos estaria em seu pulmão.

Deixou seu peso cair na areia quando percebeu uma leve declinação. Abriu a lancheira para retirar o buquê, acabou devorando logo os dois sanduíches cremosos antes que apodrecessem. Fechou os olhos, e cada vez que os abria, uma nova onda de claridade laçava seu corpo e a fazia tremer. Qual delas era a verdadeira face do Sol?

Ela vibrou quando se lembrou dele. Estava o evitando desde quando saiu do caixão, mas cada centímetro de sua pele nova gritava por ele, ansiava por sua aparição como os povos na época que ela nasceu. Falou seu nome em voz alta, depois seu queixo tremeu e sua risada virou um choro dolorido de sair dos olhos. Olhou para as pétalas que faziam cócegas no colo e sorriu, vendo que seu choro havia azuleado algumas das rosas vermelhas.

Um vento fez o corpo de Akily se expandir até sentir frio. Ela inclinou o rosto para não respirar areia, mas conseguia senti-la dançando entre os fios do cabelo. Seus olhos lacrimejaram outra vez. Enxergava tudo e qualquer coisa em sua frente. As dunas remetiam às catedrais com tetos que tanto lhe irritavam. As cordilheiras pareciam repetir as curvas de seu corpo, infinitas fileiras de areia moldada pelo vento, organizadas como nuvens num céu renascentista. Estava se casando. Fechou os olhos, sentindo uma fraqueza sem fim, e viu Alberto como um padrinho feliz, contente com o presente que acabara de receber na conta. Mas, do começo da passarela onde estava, Akily ainda não via seu noivo.

O arranjo no buquê continuava azulescendo; as rosas que já haviam azulescido antes tinham miolos distorcidos em marfim, como se Akily segurasse pequenas caveiras. Ela só não se lembrava em qual momento havia planejado um buquê daqueles. Mas não tinha problema; uma noiva deveria se lembrar de mil coisas e esquecer outras mil.

E então ela enxergou.

Ele não abriu um olho ou dois. O fogo galopava no horizonte trêmulo em cima de um cavalo dourado e forte. Akily gemeu quando sentiu a testa queimar, seus olhos incapazes de compreender o que via, ao passo que compreendia absolutamente tudo. O mundo era dourado para os que voavam.

Seu pescoço quase não se moveu, seus ossos rangendo conforme ela executava qualquer gesto. Somente ela podia se casar com ele, guardou aquela certeza em seu coração quando percebeu que não segurava mais o buquê. As duas rosas ainda vermelhas se derretiam em sangue pela areia. Num espasmo, as arrematou de volta e as lambeu, o gosto de ferro revigorando seu ser com um fogo quase tão ardente quanto o de seu futuro marido.

Seu estômago se revirou em ânsia; algumas cinzas inconvenientes tomaram a vista, mas, quando se viu livre delas, estava leve, como os anjos que tanto desgostava, e começou a rir. O fogo irradiava de seu peito para o deserto, seus olhos cegos por um clarão que a tomava inteira. Era a noiva mais linda, sairiam dizendo isso. Ela recebia o Sol impiedoso. Ele a atravessava crua. Não reconhecia aqueles pedaços de pele que rolavam com o vento forte sobre a areia fina.

Ela era toda Dourado, ela era toda Anjo, e recebia a coroa solar sobre o cabelo de fogo, na pele virgem que havia parido para ele.

Quando ele a segurou e a levou pelo horizonte em brasa, Akily enfim revirou os olhos e deixou uma última lágrima escapar, esquecendo-se de todos os muffins de caramelo que fez na vida.


Escrito por:
Sophia Kaiser

S. Kaiser é escritora de ficção gótica contemporânea, fascinada por vampiros que parasitam o cérebro humano em forma de culpa e desejo. Sempre escreveu sobre ferida que grita antes que a palavra a decifre, geralmente na perspectiva do monstro rejeitado, tentando seu máximo para não romantizá-lo na vida real. Fortemente influenciada pela melancolia de Louis em “Entrevista com o Vampiro”, pela narração visceral de “Império do Vampiro” e pela complexidade psicológica de Dostoiévski e Clarice Lispector. Atualmente, revisita sua obra para relançamento na Amazon. » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo. Não era apenas areia que se levantava, mas fragmentos de algo mais antigo, partículas que carregavam um brilho opaco, resquícios de uma luz que não deveria existir fora da água, mas que agora se misturava ao ar, criando um véu espesso e iridescente.

Amira já havia atravessado desertos antes, já conhecia a lógica da escassez e do silêncio, mas aquilo não seguia nenhuma lógica conhecida. O vento não apenas empurrava; ele guiava, moldava trajetórias, fechava caminhos que haviam sido abertos segundos antes, e quando ela tentou usar o sol como referência, percebeu que o céu havia sido completamente tomado por aquele azul pálido que não indicava direção alguma.

As dunas erguiam-se como ondas congeladas, e por um instante, Amira teve a impressão de estar caminhando sobre um oceano imóvel, um pélago de areia que escondia algo em suas profundezas. Foi então que ela tropeçou.

O que pensou ser uma pedra revelou-se, ao toque, como algo macio demais para ser mineral e rígido demais para ser carne viva. Ao afastar a areia, encontrou o primeiro corpo. Não estava decomposto, tampouco intacto; encontrava-se em um estado intermediário, como se a morte tivesse sido interrompida em algum ponto do processo. A pele apresentava um tom marfim retorcido, com áreas que refletiam a luz de forma metálica, enquanto outras permaneciam opacas, quase ressecadas.

E então o corpo respirou.

Não foi um movimento completo, apenas um leve expandir do tórax, seguido por um som que não chegava a ser um suspiro, mas que carregava uma intenção, um esforço. Amira recuou, mas ao olhar ao redor, percebeu que não estava diante de um único corpo, mas de centenas, talvez milhares, parcialmente enterrados sob a areia negra, formando um vasto campo que se estendia até onde a visão permitia.

A tempestade cessou tão abruptamente quanto havia começado.

E, no silêncio que se seguiu, ela viu o oásis.

Não era grande, mas destacava-se como uma anomalia perfeita no meio daquele cenário de morte suspensa. Um pequeno lago de águas cristalinas refletia o azul do céu com uma intensidade quase hipnótica, e ao seu redor, estruturas que lembravam árvores se erguiam, seus troncos formados por aquilo que só poderia ser descrito como ossos entrelaçados, organizados em padrões que sugeriam crescimento, como se estivessem vivos.

A sede falou mais alto.

Amira caminhou em direção à água, ignorando os corpos que, agora, pareciam reagir à sua presença, movimentos sutis percorrendo suas superfícies, como se estivessem despertando de um sono profundo. Ao ajoelhar-se à beira do lago, viu seu reflexo, mas não o reconheceu completamente. Seus olhos pareciam mais escuros, mais fundos, e havia uma leve luminescência em sua pele, quase imperceptível, mas suficiente para alterar a maneira como a luz se comportava ao seu redor.

Ela tocou a água. E sentiu fome.

Não uma fome comum, mas uma necessidade profunda, primitiva, que não se dirigia à água, mas ao que estava sob ela. Porque, ao mergulhar a mão, percebeu que o lago não era vazio. Havia movimento ali, formas que se deslocavam lentamente, roçando sua pele com uma suavidade enganosa.

Quando retirou a mão, algo veio junto.

Não era uma criatura completa, mas um fragmento, uma estrutura que lembrava uma mandíbula translúcida, cujos dentes finíssimos se moviam de forma independente, como se testassem o ar. Antes que pudesse reagir, a estrutura aderiu à sua pele, e imediatamente começou a emitir uma luz azulada, pulsante.

O contato foi suficiente. Os corpos ao redor começaram a se erguer. Não de forma abrupta, mas gradual, como se a própria areia estivesse liberando-os, permitindo que emergissem em um estado de vigília incompleta. Seus olhos se abriram, revelando cavidades preenchidas por aquela mesma luz bioluminescente, e quando suas bocas se moveram, o som que emergiu não era um grito, mas um chamado.

Amira tentou fugir, mas seus pés afundaram na areia, que agora parecia mais densa, mais aderente, como se respondesse à presença daquela luz que se espalhava por seu corpo. A mandíbula presa à sua mão começou a expandir-se, ramificando-se em filamentos que penetravam sua pele sem dor, mas com uma finalidade clara.

Ela olhou novamente para o lago.

E compreendeu.

O oásis não era uma fonte de vida, mas um núcleo de transformação, um ponto onde o que restava das criaturas do deserto era reciclado, reorganizado, devolvido ao ciclo daquele horror luminoso. A sede que a havia guiado até ali não era sua; era deles.

Os corpos continuavam a se aproximar, seus movimentos agora mais coordenados, mais intencionais, e Amira percebeu que não havia predador ou presa naquele lugar, apenas um sistema que assimilava tudo o que entrava em seu domínio.

Quando finalmente caiu, não sentiu dor. Apenas a expansão da luz, preenchendo cada espaço, cada pensamento, até que não houvesse mais distinção entre ela e o deserto. E, sob a superfície do lago, algo novo começou a se formar, aguardando o próximo viajante sedento.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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“Legião é o meu nome, porque somos muitos.”.
Marcos 5:9

Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas limitações não permitiriam fazer nada por ele — a não ser lhe fazer companhia —, após deixar todas as luzes da casa acesas, peguei um dos meus livros, sentei-me ao seu lado e iniciei uma interessante leitura na companhia de Hercule Poirot, que deveria desvendar um mistério sobre fantasmas, bruxas ou coisas do tipo. Talvez tenha sido a noite mais longa da minha vida. Em menos de duas horas de leitura, a estória já havia terminado; mesmo assim, a noite ainda continuava fria e bastante escura lá fora. A única coisa que poderia fazer era esperar o dia clarear para ir em busca de ajuda.

Vez por outra, eu ouvia barulhos estranhos, tanto no telhado sobre minha cabeça, como por sob o piso assoalhado abaixo de mim. Pareciam ser dezenas de pés correndo de um lado para outro no mais completo desassossego. Tentei me convencer de que era apenas um bando de ratos famintos, que sempre empesteiam velhas casas de fazenda, mas algo me dizia que eu estava redondamente enganado. Mesmo tentando afastar de meus pensamentos qualquer menção sobre terríveis criaturas da noite, eu ficava me lembrando das últimas palavras daquele inerte senhor, — que agora estava sobre a proteção das luzes acesas e, sabendo que havia alguém velando por ele, dormia pesadamente. Na verdade, nunca saberei se seu sono era devido à dose cavalar de calmante que eu havia lhe dado, ou pelo susto que tivera ao acordar e perceber que os tais “Pigmeus” o observavam na calada da noite. Algumas dúvidas me vieram à cabeça…

— Quem ou o que eram esses Pigmeus? Eram seres malignos? Que mal poderiam causar a um ser humano? Essas questões me atormentaram pelo restante da noite. De certo modo eu sabia que o termo “Pigmeu” se referia aos habitantes de uma nação imaginária onde as pessoas não tinham mais de um côvado de altura. Eu ainda me lembrava das esplêndidas aulas de História da África ministradas pelo professor Luís Carlos. Ele adorava mesclar fatos historiográficos com crenças populares que, segundo ele, eram tão válidos quanto qualquer fato científico. Mestre Luís dizia: “... A sabedoria popular é a mãe de todas as ciências. Antes da escrita, veio a fala. Há inúmeras verdades nos relatos dos mais velhos, suas estórias são carregadas de um velado misticismo que esconde inúmeros mistérios de um tempo a muito esquecido...”.

Decidi que assim que conseguisse ajuda para aquele pobre senhor, eu me encarregaria de fazer uma aprofundada pesquisa sobre esses tais pigmeus; quem sabe até mesmo fizesse uma visita ao meu velho e saudoso professor — isto é, se acaso ele ainda estivesse vivo. Quem sabe ele conseguisse me ajudar de alguma forma, com alguma informação que talvez eu não pudesse encontrar nos livros. Até aquele momento, — de uma forma bastante equivocada — eu me enxergava como uma pessoa que deveria ter algum tipo de problema em discernir a realidade com aquilo que minha cabeça pudesse criar. No entanto, o fato de conhecer alguém que temia tanto a noite quanto eu mesmo, e também saber que essa pessoa — um senhor de idade que parecia ter um caráter completamente ilibado — via coisas que outras pessoas não poderiam ver, mas que eu também vi; me fez perceber que o mundo é um lugar mais perigoso do que a maioria das pessoas possam acreditar, pois estamos rodeados de criaturas, fatos e fenômenos que estão bem acima de nossa humilde compreensão.

Assim que o sol raiou, abri todas as portas e janelas da casa; pude perceber que a casa estava toda iluminada pela luz da manhã, então fui em busca de socorro para aquele meu amigo que dava mostras de ter se desligado por completo do mundo. Antes de deixá-lo só, ainda tive o cuidado de verificar se ele ficaria em segurança, mas por mais que eu tentasse interagir com ele, não havia nenhum tipo de resposta de sua parte. Mesmo percebendo que eu me preparava para deixá-lo só, ele nem um pouco se inquietou, pois sabia que agora estava sob a segurança da luz do dia e nenhuma criatura da noite poderia vir a atormentá-lo. Senti em seu olhar — mesmo vazio — o mesmo desejo que eu tinha quando era criança: fazer a manhã durar para sempre, sem necessidade de um entardecer.

Querendo uma solução rápida para aquela situação, e sem mínima vontade de passar mais uma noite naquela casa, caminhei por alguns quilômetros e logo consegui ajuda numa casa às margens da estrada. O proprietário, que muito cortês veio me atender ainda na porta de entrada, disse-me que teria imenso prazer em ajudar. Convidou-me para entrar e tomar uma xícara de café, enquanto ele colocava uma veste mais adequada para ir até a cidade. Em menos de duas horas já estávamos dentro do pequeno hospital da cidade. Meu velho e recém-conhecido companheiro seria transferido para a capital, pois seu caso era grave. Mesmo com toda a deficiência de um hospital interiorano, fora possível — devido a abissal competência do médico que o atendeu — um diagnóstico de catatonismo crônico. Esse mesmo diagnóstico fora corroborado depois, por uma junta médica da capital após vários exames detalhados do paciente.

Em seu laudo dizia que o caso era bastante grave e momentaneamente irreversível, muito possivelmente o paciente jamais conseguiria discernir a realidade novamente. Um choque psicológico tinha o reduzido a quase um vegetal. Era triste ver o fim daquele tal amável senhor. De certo modo eu me sentia um pouco culpado, afinal fora eu que dera os comprimidos para ele beber. E também fora eu mesmo quem apagara as luzes que ele tinha todo o cuidado de manter sempre acesas. Sorte minha que ninguém mais sabia disso. De alguma forma o efeito do álcool em seu sangue potencializou o efeito do calmante sem deixar nenhum vestígio que pudesse ter sido identificado por algum exame. Sua própria filha me agradeceu pelo cuidado com seu pai e me tranquilizara dizendo que sabia que mais dia menos dia algo daquele tipo poderia acontecer. Segundo ela, seu pai bebia demais, exagerava no café e quase não dormia direito...

Depois de uma noite bastante tumultuada e de um dia que se iniciou com muitas desventuras, cheguei em casa completamente exausto. Eu que deveria retornar apenas duas semanas depois, em menos de cinco dias já estava de volta. Minha vizinha — uma viúva, solteirona e sem filhos, que vivia sempre me oferecendo mil favores — havia ficado responsável de olhar minha casa e regar minhas plantas enquanto eu estivesse fora; ela logo se assustou quando cheguei. Estava justamente, naquele momento, na varanda da frente, terminando de regar minhas samambaias quando eu abri o portão. Depois de um grito acompanhado de um risinho malicioso, ela me disse:

— Ora, ora, ora! Não é que esse reflexivo pensador retorna para o seio de sua amada... O que aconteceu? Dissesses-me que ficaria fora por duas semanas...

— Houve um acidente! O senhor que me contratara teve algum tipo de ataque, derrame ou coisa que o valha que me impossibilitou de terminar o serviço. Estou chegando agora do hospital, onde o deixei internado, agora sob a responsabilidade de sua filha. Parece-me que ele não conseguirá terminar essa obra nem qualquer outra sequer. Sua data de validade expirou...

— Diga-me uma coisa? Você não fora justamente substituir uma pessoa que havia também sofrido um acidente? — questionou-me ela, com olhar curioso...

— Sim! Havia sido seu ex-ajudante que havia caído do telhado sobre uma pilha de madeira.

— Eita! Que trabalho mais sinistro esse. Sendo assim, sua rápida aventura como carpinteiro terminou antes de começar? — disse ela, até com certo ar de galhofa.

— É! Parece que devo voltar às minhas profundas reflexões sobre as verdades do Universo, e deixar o ofício do pai de Nosso Senhor para aqueles que têm maior afinidade com o assunto.

Ela, que já estava terminando seus voluntariosos afazeres, ainda me questionou se eu precisava de algo mais. Agradeci profundamente sua boa vontade e disse que estava tudo bem. Tudo que eu mais queria era poder tomar um banho, fazer um lanche reforçado e depois tentar descansar um pouco. Ela, que certamente jamais desistiria de suas investidas, me questionou.

— Quer que eu esfregue suas costas? Também posso lhe preparar um jantar, se você quiser...

— Obrigado mais uma vez! Você tem sido uma pessoa muito carismática comigo. Mas nesse momento tudo eu que preciso é apenas de um pouco de paz...

Assim que ela saiu pelo portão, busquei pela paz e a quietude do meu humilde lar. Como era bom estar em casa. Tomei um banho, fiz um lanche e iniciei algumas pesquisas. Primeiro eu gostaria de saber onde se encontrava meu venerável professor Luís Carlos. Através de uma sobrinha sua, que havia sido minha aluna, descobri que ele estava vivo e muito bem de saúde. Ela me disse que ele ficaria deslumbrado em me receber em sua casa, pois sempre falara muito bem de mim como um brilhante aluno, sempre muito curioso quanto a coisas inexplicáveis. Disse-me ainda que seu tio certa vez comentara o fato de sempre ter visto em mim um aluno curioso, alguém que via o mundo de uma forma diferente dos demais.

Além do endereço, ela também me deu a certeza que eu poderia visitá-lo sem precisar agendar nada com ele. Segundo ela, ele muito raramente saía de casa e ficaria bastante satisfeito com a surpresa de minha visita. Ainda procurei por uma coisa ou outra sobre os pigmeus na internet, mas como não consegui encontrar mais nada de tão interessante e como já era noite escura, decidi que daria aquela fastidioso dia por encerrado e logo fui me recolher. Fechei meus olhos, relaxando ao som profundo e ressoante da chuva que caía lá fora e só voltei a abri-los por volta das quatro horas da manhã, quando após a forte descarga de um relâmpago ter causado uma momentânea queda de energia. Em menos de dez segundo a luz havia retornado, mas foi tempo suficiente para que meus olhos se acostumassem às sombras espessas da madrugada e então pude ver que havia diversos pontos amarelados me espreitando dos cantos escuros do quarto. Percebi que aquelas mesmas criaturas que haviam lançando aquele bondoso senhor num lastimável estado vegetativo, haviam me seguido de alguma forma.

Levantei-me mais do que depressa e acendi todas as luzes da casa. Como a noite já se encaminhava para seu término — fato que era notório pelas primeiras luzes que despontavam no horizonte, trazidas por um sol que não tardaria a nascer —, decidi que já iniciaria minha jornada daquele dia, naquela mesma hora, e não voltaria mais para cama. Tomei um banho e, após preparar um café reforçado, iniciei minhas pesquisas novamente. Depois de quase duas horas em frente ao computador, entendi que aquilo tudo era uma grande perda de tempo. Não havia nada de substancial sobre aquilo que eu realmente queria saber. Todos os sites falavam dos Pigmeus como sendo de tribos de seres humanos de uma estatura um pouco abaixo de um ser humano comum. Não encontrei nenhuma menção sobre seres pequeninos de olhos amarelos incandescentes que vagueiam pelas trevas e temem qualquer tipo de luz.

Logo começaram os primeiros movimentos da manhã, com pessoas indo e vindo de um lado para o outro nas ruas. A cidade desapertava e trazia consigo seus inúmeros habitantes, cada um com seus problemas em busca de uma evolução espiritual e tentando dar respostas às suas questões existenciais, completamente alheios às dificuldades uns dos outros. Vivendo um dia após o outro, na ânsia de chegar a algum lugar, mesmo sem saber para onde ir. Depois de protelar por um longo tempo, me vesti adequadamente e decidi ir procurar a casa de meu antigo professor. Quando cheguei ao local que o endereço me indicava, imaginei que estivesse no lugar errado, mas para minha surpresa, Professor Luís estava na porta varrendo sua calçada — típico de um professor aposentado — e quando me viu ficou muito satisfeito, mesmo sem ainda saber que eu estava ali para visitá-lo, pois num primeiro momento ele pensou que eu estivesse apenas de passagem pela rua. Cumprimentou-me com bastante alegria dizendo:

— Bom dia! Mas vejam só, se não é meu curioso e destemido aluno. O que o trazes aqui para esses lados tão distantes da civilização, meu jovem?

Ele falava como se vivesse numa solitária cabana no meio do deserto e me tratava como se eu ainda tivesse uns dezessete anos. Sua casa parecia uma pequena floresta, com árvores de todos os tipos e cores, por isso a necessidade diária e continua de estar sempre varrendo a calçada, devido ao excesso constante de folhas caídas quase o tempo todo. Após dar uma olhada panorâmica pelo lado de fora daquela pitoresca moradia respondi ao seu cumprimento tentando ao máximo corresponder a alegria que ele demonstrava em me ver.

— Bom dia, Professor Luís! É um prazer imenso poder revê-lo e poder verificar com meus próprios olhos que gozas de plena saúde e muita disposição. Consegui seu endereço com sua sobrinha Letícia que, diga-se de passagem, foi minha aluna. Peço mil desculpas por vir sem avisar, mas ela me disse que o senhor não tem telefone e me garantiu que o senhor muito apreciaria minha visita. Estou precisando muito de seus sábios conhecimentos sobre alguns assuntos um tanto quanto particulares e obscuros. Talvez o senhor possa me ajudar...

— Letícia é uma menina de ouro, sempre que tem um tempo de sobra, vem aqui me visitar. Mas tratando de você, sim! Vamos entrar, venha conhecer meu humilde lar. Não sei se poderei ajudá-lo em alguma coisa, mas aquilo que estiver ao meu alcance, certamente o farei.

Respondeu ele com bastante alegria na voz. Ao entrarmos em sua casa, pensei que estivesse numa espécie de museu de antiguidades e objetos exóticos. Havia uma miscelânea de um tudo e mais um pouco. Dava para ver de imediato que ele vivia sozinho, pois havia somente uma xícara usada sobra a mesa e todo o resto levava a essa dedução. Contudo, mesmo com a imensa balburdia de inúmeros objetos espalhados pela casa e pelas paredes, tudo estava muito organizado e limpo, como se a qualquer momento ele fosse receber um turbilhão de visitantes ao seu museu particular. Fui convidado a me sentar e ele logo me serviu café com bolinhos fritos. Em nenhum momento pensei em recusar, pois sei que pessoas da idade dele se sentem bastante ofendidos se não puderem ser prestativos de alguma forma. A nuance entre o amargo do café e o doce dos bolinhos trazia um prazer indelével ao paladar.

Assim que me vi satisfeito e certamente ele também o estava, decidi que já era hora de usufruir um pouco de sua sabedoria. Contei-lhe em pormenores o motivo de minha visita, solicitando por fim sua ajuda. Fato que, de alguma forma, inflou seu ego, pois logo se levantou e disse que eu o aguardasse onde estava. Para me dar algum tipo de resposta ele queria me mostrar algo primeiro. Após alguns minutos, retornou com alguns livros velhos que logo foram colocados à minha frente. Um em especial, com capa de couro encerado, foi mantido consigo debaixo do braço e, apontando para as encadernações à minha frente, disse com bastante entusiasmo:

— Essas obras à sua frente são do tipo de literatura comum e estão disponíveis em qualquer sebo ou livraria do gênero. São livros rasos que, para serem publicados, têm um conteúdo prolixo, cheio de regras e fundamentações científicas com notas de rodapé e todas essas bobagens. Contudo, esse livro aqui é uma espécie de enciclopédia do obscurantismo. Seu autor ou autores são desconhecidos. O que se sabe realmente é que é uma obra jesuítica, muito utilizada pelos membros da Companhia de Jesus em suas inúmeras viagens às terras desconhecidas e nunca dantes desbravadas pelo homem civilizado. É uma obra que cita toda e qualquer criatura — deste mundo ou não — que se tenha notícia; para que se alguém, porventura, se deparar com algum desses seres, pelo menos saiba do que se trata. E talvez consiga tentar enfrentá-los.

Com bastante receio, como se estivesse me entregando um recém-nascido, ele colocou o livro em minhas mãos. Logo pude perceber que era um exemplar raríssimo, mas bastante conservado. Folhei o livro com cuidado e pude perceber que estava escrito em diversas línguas diferentes, como se fosse a união de inúmeros textos avulsos. Sorte minha que o índice estava em castelhano. Fui correndo o dedo pela ordem alfabética e me deparado com alguns seres não tão estranhos ao meu humilde conhecimento: Almajonas, Cuckoo, Kurupi e a lista era enorme e bastante curiosa; de repente meus olhos se depararam com um título inusitado: “Órfãos”. Antes de abrir na página indicada, perguntei ao professor Luís:

— Como assim? Órfãos? Órfãos de quem?

— Quem sabe? O livro diz que são criaturas que ficavam vagando pelas cercanias dos cemitérios como se fossem pedintes na porta de uma igreja. Geralmente andam em forma de um casal com a aparência de duas crianças inocentes que estão em busca de seus pais. Segundo o livro, todo aquele que uma vez se encontrou com os órfãos e sobreviveu para contar a estória, jamais voltou a ser a mesma pessoa; a maioria findou seus dias na mais completa demência.

Após o nome dos órfãos, meu dedo indicador se deparou com aquilo que eu estava procurando — Pigmeus! Abri o local indicado pelo índice e me deparei com uma imagem bastante sinistra. Um humanoide com grandes olhos amarelos, sem nariz e sem orelhas, com uma enorme boca cheia de dentes serrilhados — que mesmo na imagem era possível constatar que seriam terrivelmente afiados. Abaixo da imagem havia uma breve descrição numa língua que não consegui identificar, mas logo minhas dúvidas foram sanadas, pois rapidamente professor Luis me explicou em pormenores do que se tratava o texto.

— O texto em si traz, em primeiro plano, várias descrições desses seres em diversas civilizações ao longo da História, desde o Egypto antigo, passando pelo mundo Greco-romano, Idade Média, até serem confundidos com algumas tribos de seres de baixa estatura do continente africano. Tais criaturas já foram confundidos com anões mineradores na antiga Núbia, onde trocavam enormes quantidades de ouro e pedras preciosas por crianças inocentes. Já estiveram no imaginário nórdico como duendes que viajavam através do arco-íris e trocavam potes de ouros por jovens ainda imberbes. E em muitos outros locais de variadas formas diferentes.

No entanto, os verdadeiros pigmeus que seu amigo alega ter visto e você também, talvez o tenha, — e não duvido de jeito algum — são seres maléficos tão antigos quanto a própria existência deste mundo. Certamente já habitavam os recônditos sóbrios do caos antes mesmo da luz ser criada. Esses terríveis seres sobrevivem do medo daqueles a quem eles perseguem, geralmente pessoas com problemas de insônia ou aqueles que de alguma forma padecem de nictofobia, pois para se alimentar do medo de suas vítimas, estas devem estar acordadas para liberarem a energia vital que se desprende em momentos de maior angústia de um indivíduo. Por serem criaturas propriamente das trevas, temem a luz acima de qualquer coisa e não há relatos que tenham atacado, quem quer que fosse, em plena luz do dia.

Infelizmente o texto não relata nenhuma forma concreta de como podem ser enfrentados, pois sua verdadeira força não se encontra neles mesmos, mas na fraqueza e aflição de suas vítimas que devem a todo custo tentar enfrentar seus próprios medos e encarar as trevas de frente. No texto, há algumas orações, certos encantamentos e disposições de certos itens pelo quarto da vítima que pode vir a afastá-los, mas não há relatos de algo que possa expulsá-los por completo de uma forma definitiva. Uma vez perseguido por um pigmeu, a vítima deverá se atentar a sempre dormir num ambiente iluminado e, se possível, na companhia de outras pessoas...

A imagem daquela horrenda criatura ficou gravado na minha memória e, as palavras de meu antigo professor, cravadas no meu peito. Por um momento fiquei bestificado com tudo aquilo. Saber que havia tantos seres que transitam entre nosso mundo e o outro bem além de nossa compreensão e que essas tais criaturas sempre foram de conhecimento da própria igreja, e o pior de tudo era pensar que pessoas como eu, quando relatam sobre a existência de tais seres, — até mesmo para alguma autoridade clerical — são tidos como mentalmente perturbados.

Sem deixar transparecer ao meu venerável professor meu profundo abalo emocional, agradeci a ele por sua ajuda e, ao demonstrar que estava de saída, antes de me despedir fui convencido a ficar em sua casa e lhe fazer companhia para um almoço que ele mesmo preparara. Foi um repasto simples, mas bastante saboroso. Nesse meio tempo ainda falamos bastante sobre vários outros assuntos, pois percebeu ele que a estória dos pigmeus havia relamente me abalado. Após o almoço, já um pouco mais calmo, assim que me despedi de meu antigo e sábio professor, decidi dar um passeio pelo centro da cidade e, no horário de visitas, passar pelo hospital para ver como estava meu companheiro de rápida experiência em carpintaria.

Para minha surpresa ele já não estava mais naquela instituição. Naquele momento, seu corpo estava sendo velado numa capela próxima de sua antiga casa. Ele havia falecido naquela mesma madrugada. Uma enfermeira da noite o havia encontrado já sem vida numa de suas rondas pela madrugada. Como eu não era da família, o havia conhecido a menos de um mês e não tive maiores intimidades com sua filha, achei melhor não me aproximar naquele momento tão íntimo. Depois eu levaria flores em seu túmulo. Bastante contrariado, cansado e até mesmo melancólico, decidi retornar para casa. Talvez com mais dúvidas ainda do que quando eu havia saído. Quando cheguei de frente ao meu portão de um lado da rua, minha vizinha também chegava do mercado pelo outro lado. Nos cumprimentamos e, naquele momento, pela primeira vez, eu a vi com outros olhos e percebi o quanto ela era atraente e sedutora. Decidi ser um pouco mais atrevido e me arrisquei a perguntar:

— Essas coisas são para aquele jantar que tens me prometido há tempos?

— Não necessariamente! Mas, se assim você o desejar, passaram a ser... — disse ela um tanto quanto assustada com minha atitude, mas bastante animada com a ideia.

Em poucas palavras ficou decidido entre nós que ela faria o jantar e que comeríamos na varanda de minha casa. Eu me encarregaria do vinho e das velas. Tudo correu de forma esplêndida. O tempo estava fresco, o céu limpo, e logo fomos agraciados pela magnificência de uma enorme lua cheia que abrilhantou ainda mais a beleza daquela noite. Depois de umas taças a mais de vinho, nos animamos além do que o normal e, quando dei por mim, já estávamos deitados um nos braços do outro em trajes de Eva após alguns momentos de louca euforia, onde pudemos acertar nossas diferenças. Ela, por ter exaurido suas forças numa insana cavalgada, que não parecia ter mais fim, estava ressonado em meus braços, fungando em meu pescoço um hálito doce com frescor de hortelã — até um pouco estranho para quem havia bebido quase uma garrafa de vinho. Devido aquela inebriante labuta vivida momentos antes, havia exigências em meu corpo que deveriam ser sanadas imediatamente. Com muito cuidado retirei meu braço de debaixo de sua cabeça e silenciosamente fui até o banheiro para me aliviar. Demorei um pouco mais do que o necessário e, quando estava retornando ao quarto, percebi que ela estava sentada no meio da cama em completo estado de choque, olhando para um dos cantos do quarto...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Era mais um dia de brigas. Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era mais um dia de brigas.
Mais um dia do mundo tentando reconstruir minhas ruínas, sem eu nem mesmo ter pedido. Fazendo com que eu fosse culpado por apenas… existir.

Esse mundo podre e corrompido. Escondendo absurdos à vista de todos que fingem não olhar. Esse mundo que destrói sonhos e enterra potencial. Sempre querendo acabar com quem somos, sempre querendo destruir quem é diferente.
Mas eu sou assim.
E não vou mudar para ser aceito.

O ciclo começa como sempre.
Despertador gritando, meu corpo pesado demais para se levantar. Minha mente cansada antes mesmo do dia começar.
E levantar da cama é uma tortura que envolve cálculos para entender se vale a pena. E cada movimento exige uma negociação silenciosa com os fantasmas que me prendem — “só mais cinco minutos”, e depois mais cinco, e mais cinco, até que, por fim, a culpa me levanta.

O banho é uma vitória. Escovar os dentes é mais demorado do que deveria.

E eu não comemoro nenhuma ação. Pode ser difícil para mim, mas para os outros é o mínimo e ninguém comemora o mínimo.

O dia se arrasta como areia no deserto. As pessoas falam alto demais, e eu escuto mais do que gostaria. Sorrio quando preciso sorrir. Respondo o suficiente para não ser notado.
Seria esforço demais ficar com essa máscara, se olhassem muito para mim.

Mas ninguém vê o esforço. Ninguém vê o cansaço nos ossos. As pessoas não me veem.

E eu…

Eu finjo que está tudo bem.

Mas sempre tem alguém para tirar minha paz.

E foi então que ela chegou. Sorrindo com os olhos.
Olhava para mim como se eu fosse a sombra imperfeita do seu dia.

Ela desfilou até mim, com uma mistura de ódio e preocupação, e sem saber o quanto aquilo iria me ferir, perguntou:
— Por que está triste?

Aquela pergunta. Mais uma vez. Ouvia ela todos os dias desde que me lembro. Ouvia dos meus pais, na escola, na faculdade, no trabalho. Ninguém me deixava em paz. E eu só queria gritar para eles: “ME DEIXEM FICAR EM PAZ!”

Eu não quero que se preocupem. Não quero que me ajudem. Não quero nada. Só quero ficar sozinho.

Mas ela ainda se incomodava, como se eu devesse ser grato por sua preocupação; que deveria ser feliz apenas por viver. E então, com impaciência no olhar, continuou, com um sorriso que tentava ser doce:
— Nada aconteceu, então fique feliz!

“Fique feliz”, repeti para mim mesmo. Como se felicidade fosse um botão que eu gostava de manter desligado. Como se fosse escolha. Como se já não tentasse todos os dias.

Podia sentir meus punhos se fechando. A raiva subindo pelo meu corpo. Mas consegui me controlar. Respirei fundo e comecei a sair dali. Comecei a ir embora.

Mas…

Algo aconteceu ali. Quando ela segurou meu braço e me impediu de ir embora.

Ela segurou em mim, e eu me virei para protestar. E naquele momento… aquilo fez o mundo parar por um segundo.

E eu vi em seus olhos horrorizados uma lágrima caindo.
Não era por mim. Não ainda. Era por ela. Pelo que ela viu ao me tocar e não sabia como nomear.

Pelo vazio que de repente ficou visível, como se por um segundo ela entrasse na minha mente e entendesse que felicidade era mais difícil para quem lutava pra se manter de pé.

Eu a olhei por mais tempo do que pareceu. E então percebi que já não estávamos no mesmo lugar.

Olhei para os lados e vi que o mundo parou de fazer sentido.
Pra cima era pra baixo. Pra baixo era pra cima. Corredores de escadas em labirintos que não levavam a lugar nenhum. Algumas portas tinham maçanetas quentes. Outras, frias. Algumas, sabia que não deveria abrir. Elas gemiam baixo quando prestava atenção demais.
O teto não existia. Ou existia, mas mudava de altura. O chão às vezes inclinava sem aviso, e o pé afundava como se pisasse em areia fofa, e no próximo passo o chão era pedra dura, e no próximo, algo pegajoso que não queria soltar.
Um relógio sem ponteiros flutuava no centro de um salão vazio. E o som das engrenagens ecoava pelo ambiente, fazia tudo parecer urgente, mas sem importância, fazia tudo ser tarde demais, tudo ser perigoso, tudo precisar de atenção.

Meu corpo quente reclamava do frio. E o peso da dor parecia triplicar ali. Mas não era uma dor de machucado. Era uma dor de existir. Uma dor surda, velha, encostada nos ossos como um inquilino que se recusa a sair. Eu já nem lembrava como era antes dela. Talvez nunca tenha existido um antes.

E a mulher estava comigo. Gritava e chorava como uma criança. Olhou para mim tentando entender.
E então eu respondi:
— Meu lar.

Ela, ainda mais horrorizada, não entendia.

Para ela, estar ali era como estar coberta de agulhas que tentam rasgar sua pele e corroer seus ossos, mas eu parecia tranquilo.
— Minha mente. É onde estamos.

Ela olhou ao redor. Viu os corredores infinitos. Ouviu, pela primeira vez, os ecos. Vozes que não estavam ali, mas enchiam o espaço. “Você está exagerando.”, “É só preguiça.”, “Você tem tudo pra ser feliz.” — As frases batiam nas paredes, voltavam, batiam de novo. Ela tapou os ouvidos, mas eu já sabia que era inútil, não havia como escapar.

E ainda horrorizada, com os olhos fechados e os ouvidos tapados, ela me perguntou:
— Como você consegue…

Ela não conseguiu terminar, a dor era pesada demais. Mas eu já sabia o que ela iria perguntar: “Como viver com a mente assim?”.

— Estou vivo, e morto ao mesmo tempo. Como se tivesse tomado do Magöhorror minha sina. Eu sobrevivo. Todo dia. — eu disse, me ajeitando no conforto desse caos. — Mas você não precisa entender. Ninguém entende. E está tudo bem. Só… não me diga que nada aconteceu. Porque tudo aconteceu. Tudo acontece. O tempo todo. Dentro de mim. E eu não posso desligar. Então me deixa ficar em paz, pelo menos do lado de fora.

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Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Já havia sonhado outra vez com um prédio enorme abandonado. Um vão gigante, com a parte de baixo aberta, sem divisões por metros, enorme, parecendo uma igreja medieval. Uma porta que mais parecia uma passagem ou portal; janelões já sem vitrais. Morava nele. Morávamos nele. Na parte onde havia divisórias e dava para ser habitado, algumas poucas famílias em situação de rua eram minhas vizinhas. Era legal. Havia crianças e muitas dificuldades, mas estávamos todos bem ali, sobrevivendo.

Desta vez, foi mais louco. Entrei no sonho com uma garota. Não entendi ao certo; parecia comprometida, mas não entendi. Parecia familiar. Andávamos pelas ruas, de boa. Procurávamos algo, um porre, passamos por algumas vezes por bares, lojas, e muita gente nas calçadas à noite, estava animado, mas íamos sem parar, de rolê, como se estivéssemos investigando a cidade. O sonho parecia grande e confortável. Era como se fôssemos turistas. E estava rolando um clima com essa mulher. Uma preta. Era bonita. Lembrava alguém. O fato de caminhar é excitante, vivo e nostálgico também porque se sabe que pode demorar muito para retornar aos lugares, dependendo da situação nunca mais retorna. Começávamos a falar que estava havendo um clima legal, mas que não poderíamos por causa da condição de ambos. Vagávamos. Vagabundeávamos de mãos dadas pela cidade. Rios e ruas da frente à beira das avenidas e meio das praças.

Do nada, ela me tomou pela mão para me levar a um lugar misterioso: o prédio. Estava mais fodido do que da outra vez; só havia sujeira e escombros velhos, madeiras, pregos, dificuldade para andar por entre as madeiras e um telhado caído, defunto; enfim, estava uma porcaria ainda pior. Havia muitas portas enormes de madeira. Entramos por uma; parecia fácil encontrar a saída, mas nos perdemos.

Uma cacetada na cabeça. Um grupo de loucos selvagens, acho que três, porque passei a ter a visão da garota, na qual pelo menos dois me detonavam com madeiras estilo ripões, a paisagem era escura. Não sei por que diabos ela estava a alguns metros de mim, se estávamos de mãos dadas antes da porretada. Eu era detonado; ela gritava. Um terceiro, que acredito ser uma mulher de máscara, a que provavelmente dera o primeiro golpe da minha queda, pareceu se contentar por não estar em cima. Também seria difícil dividir o espaço; eu não sou tão grande, e dois animais são suficientes para um debilitado no chão, sendo esmagado por porretes enormes. A garota se aproxima e, não sei direito, os caras meio que somem, correm, algo assim. Só fica essa que parecia uma mulher de máscara.

Que porcaria! Meu rosto estava destruído. O queixo parecia não existir; as bochechas, inchadas e totalmente cortadas; eu já não falava, do resto da boca saía uma mistura de grunhidos e sangue. Os olhos sumiram no inchaço, e a parte de cima da cabeça não lembro bem, mas estava toda fodida. Uma obra de horror de dar inveja a cineastas com grandes recursos. Eu tinha as mãos no peito, e elas pareciam atrofiadas. Eu sei que eles ficaram estacionadas no peito, mas o “atrofiadas” é que eu as contraía; acho que queria pegar no rosto, mas sabia que não podia, e as retorcia no peito. Doía pra caralho!

A garota pega um machado; a mulher recebe um golpe na cabeça, tenta correr com a lâmina saindo da cabeça; dá as costas, mas, com as costas do machado, a garota lhe dá outra porretada. Ela cai, com a marca do golpe ainda mais aprofundada e o crânio fodido.

A cena muda para um hospital, sei lá. Só lembro que já estava na maca; parecia ainda a parte de baixo do hospital, uma ala, não uma sala. A garota, meio ao longe, meio perto. Choro. Médicos.

Acordo com um fedor de carniça do caralho. Sento-me rápido na cama. Faço o sinal da cruz e começo a rezar. Tenho calafrios; alguém estava no quarto, eu sinto. Fedor da peste. Aos poucos, o cheiro de carniça desapareceu e eu pude parar de tremer para escrever as ruínas. Já não tinha mais a mão da garota entre as minhas. Não sei se sobreviverei.a


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Queda de um Anjo Caído

Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“... ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele...”.
Apocalipse 12:9

Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constante. Dentro daquele sonolento ambiente estava quente e abafado, devido as janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de início de semana. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido, vez por outra, pelo som de bolas de bilhar, o barulho do silencioso carteado e pelo som de copos sendo reabastecidos. As antigas canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fosse um fúnebre fundo musical.

Sempre nas noites de segunda-feira — único dia de folga de Salatiel, em seu novo emprego de segurança noturno — ele buscava um lugar onde pudesse beber sossegadamente, ouvir um pouco de música e tentar se socializar um pouco, de forma que pudesse observar os outros ao seu redor, e se possível não ser notado. Nem sempre dava muito certo e havia a constante necessidade de ter de trocar de lugar de tempos em tempos. Havia certa peculiaridade nesse estranho ser, que o tornava um tanto quanto diferente; de certo modo parece que ele era perseguido pelo senso de fazer justiça e por onde andava sempre se deparava com uma irrecusável oportunidade de desfazer algum desagravo a uma alma inocente. Para tentar conviver num mundo tão hostil e covarde, buscava os lugares mais discretos possíveis.

Certamente não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase ao ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente, nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas, para tentar se esconder de seus próprios problemas.

Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad eternum no ar, sempre há alguém disposto a buscar o momento de paz para consigo mesmo. Da mesma forma que todo ser vivente tem os seus segredos mais profundos, Salatiel não era de todo diferente. Contudo, qualquer um que viesse a saber quem ele realmente era, certamente não viveria para contar a quem quer que seja, e se por acaso contasse, ninguém acreditaria.

Assim que entrou naquele ambiente, sentou-se num dos cantos mais afastados do balcão — onde a luz era praticamente insuficiente — e, logo, pediu uma bebida. A jovem que viera o servir era de uma beleza ímpar. Uma mulher de altura mediana, de corpo bem feito, com belos seios rijos e um agradável perfume com leves notas no odor de almíscar. Seus belos olhos eram brilhantes e de um castanho claro como a cor do mais puro mel. Sua boca de lábios carnudos estava delineada por um batom de um tom carmim. Quando o cumprimentou, mostrou-lhe um inocente sorriso de dentes brancos como o mais puro marfim.

— Boa noite, nobre cavalheiro! Seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Meu nome é Denise, quero que saiba que é um prazer poder conhecê-lo. Estou aqui hoje para servi-lo da melhor maneira possível! O que vai beber?

— Boa noite! Traga-me por gentileza uma garrafa de conhaque. — disse de uma forma fria e até um tanto quanto ríspida. De cabeça baixa estava e assim continuou.

A bela jovem, acostumada àquele tipo de cliente, não deu muita atenção a toda aquela falta de delicadeza do belo cavalheiro que optava por se esconder naquele penumbroso canto do bar. Salatiel era um ser de uma beleza que poderia se dizer um tanto quanto... exótica. Mesmo escondido nas sombras, ainda assim era possível perceber que era um homem alto, másculo, de mãos fortes e ombros largos; cabelos negros como uma noite sem luar e uma face lisa desprovida de qualquer traço de barba ou bigode. Num primeiro momento, não foi possível ver a cor dos seus olhos nem mesmo o brilho de seu sorriso — se esse, porventura, viesse a existir —, mas tinha a leve aparência de ser um sujeito decente.

A noite tinha tudo para transcorrer tranquilamente até a chegada de um estranho valentão ávido por uma confusão. Antes de qualquer coisa, já entrou no bar falando palavras de baixo calão num tom bastante alto e muito desagradável. Ao passar próximo à mesa de bilhar, esbarrou num dos jogadores, atrapalhando a jogada, o que fez com que uma discussão se iniciasse, mas logo fora amainada quando o valentão mostrou o cabo de uma brilhante pistola. Ao sentar-se, deu um forte soco no balcão — quase derrubando a garrafa de conhaque de Salatiel, que logo previu que aquilo não terminaria bem. Quando a jovem bartender, muito prestativamente, veio lhe servir, ele logo lhe mostrou o seu lado mais abjeto após colocar a arma sobre o balcão e se dirigir a ela, em seguida, de forma bastante desrespeitosa:

Belezoca, quero uma bebida e uma beijoca.

– Boa noite, senhor. Qual bebida poderei lhe servir? — disse ela, muito educadamente.

– Daquelas que se bebe! Sua piranha. E para sua informação, Senhor está no céu.

– Peço perdão, senhor, mas são normas da casa o tratamento respeitoso que damos a todos os nossos distintos clientes. Contudo, se me disser o seu nome, terei imenso prazer em chamá-lo da forma que preferir. Insisto em perguntar-lhe qual é o tipo de bebida que deseja? — disse ela mais uma vez, num tom bastante sereno, sem deixar se abalar pela indelicadeza do cliente.

– Quando eu lhe disser o meu nome, terá mais cuidado na forma como fala comigo. Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer coisa que você me sugerir. — respondeu ele.

Quando ela foi lhe servir, delicada e com muito bom jeito, ele a segurou pelo braço e a arrastou para próximo de si, tentando beijá-la à força. Quando ela tentou recusar, já se viu na mira da arma que ele apontava entre seus seios, com a séria intenção de atirar se fosse necessário. Como que por passe de mágica, o estranho que estava no canto mais afastado do balcão, em um simples piscar de olhos já estava ao lado do valentão e lhe segurava o ombro dizendo, muito calmamente, para que ele soltasse a moça. Um silêncio se fez por completo naquele instante, como se o próprio tempo tivesse parado. Todos ficaram bastante atônitos com o que poderia vir a acontecer naquele tranquilo bar.  

Num ímpeto de selvageria, o estúpido cavalheiro que havia adentrado aquele ambiente para perturbar a paz ali existente, virou a arma na direção de Salatiel e apertou o gatilho várias vezes. O som que a arma emitiu, fez com que todos ficassem boquiabertos, inclusive o próprio valentão que não acreditava no que estava ouvindo, pois, por mais que insistisse em apertar o gatilho, a arma girava no vazio como se estivesse descarregada. Salatiel, com toda a serenidade que lhe cabia, tomou a arma do valentão como se tomasse um brinquedo de uma criança. Em seguida, o segurando pela mão direita, olhou profundamente nos olhos dele e disse algumas palavras que ninguém conseguiu entender ao certo, nem mesmo a jovem que estava próxima a eles dois. Denise também pôde ver que os olhos de Salatiel tinham mudado de um tom azulado bastante sedutor para um negro bastante sombrio. Naquele momento, ela teve a estranha impressão de ter visto dois profundos abismos no lugar dos olhos.

Em alguns poucos segundos, ao olhar nos dois abismos que se tornaram os belos olhos de Salatiel, o valentão fez uma longa viagem pelas terras onde a esperança não jaz e, acompanhado daquele estranho ser — que naquele lugar tinha outras feições bastante assustadoras —, pôde vislumbrar um lugar de dor e bastante sofrimento. Todas as estórias que ouvira sobre a terra da danação eterna se tornou real perante seus olhos. Num voo rápido pôde ver, com seus próprios olhos, centenas de milhares de pessoas em terrível padecer, clamando por piedade num incessante lamuriar. Tentou fechar os olhos, para não ver toda aquela dor, mas percebeu que, ao fazer esse gesto, uma ardente chama se acendeu logo atrás de seu globo ocular, como se sua cabeça estivesse pegando fogo. Assim que abriu os olhos novamente, a ardência desapareceu. Pôde então perceber que estava ali, justamente para ver toda aquela angústia.

Após presenciar todo aquele sofrimento que poderia levar qualquer um à loucura, sentiu seu peito se fechar num profundo pesar; mas o pior ainda estava por vir: quando viu seu falecido pai, preso ao chão com correntes incandescentes, ser estuprado por dois terríveis monstros com feições de crianças demoníacas. Essas crianças sodomizavam seu pai sem nenhuma piedade, como se aquilo fosse em exercício de uma função a ser executada de forma profissional. Mas havia prazer nos terríveis olhos daquelas duas criaturas que, para piorar ainda mais a situação, tinham um semblante que lembravam duas crianças inocentes. Seu pai, percebendo uma estranha presença próximo a ele, levantou sua cabeça e logo reconheceu a imagem do filho que estava a sua frente, ao lado de Salatiel. Num urro de tremendo remorso, gritou para o filho:

 — Jeremias, me perdoe! Eu era uma pessoa doente e agora sei todo o mal que lhe causei.

Jeremias soube, então, que tipo de lugar era aquele e porque seu pai estava sendo punido daquela forma. Lembrou-se, então, de tudo o que havia sofrido nas mãos de seu pai quando sua mãe não estava em casa. Após poder contemplar o castigo dos ímpios, um triste pesar tomou conta de todo o seu ser. Essa viagem de Jeremias durou, para ele, quase meia hora, mas no bar não se passara nem cinco segundos. Quando ele piscou os olhos, logo viu que todos estavam estupefatos, imaginando o que ele faria em seguida, mas para a surpresa geral, ele baixou sua cabeça e em seguida lançou as mãos no rosto e começou a chorar como uma criança.

Ninguém no bar entendera coisa alguma. Jeremias completamente tomado pela emoção, ainda pagou pela bebida que nem mesmo chegou a tomar e, com o rosto banhado em lágrimas, implorou pelo perdão de Denise; logo em seguida saiu correndo do bar, deixando para trás seu maço de cigarros, um pacote de dinheiro e a arma que lhe fora tomada. Denise olhou para o estranho cliente que viera em seu socorro e, sem entender nada daquilo, logo lhe questionou:

— O que foi aquilo? O que o senhor disse a ele?

— Nada demais, apenas disse a ele para que endireitasse suas veredas e que tivesse um pouco mais de respeito para com o seu próximo. Acho que daqui para frente ele será um homem um pouco mais educado e bem mais cuidadoso com suas atitudes.

Salatiel, após dizer essas palavras, pegou a arma que ainda estava sobre o balcão, a descarregou em seguida, guardando, tanto a arma quanto as munições, nos bolsos da jaqueta jeans que estava usando. Voltou para seu lugar e tomou mais uma satisfatória dose de seu conhaque. O restante da noite transcorreu de forma tranquila, sem mais nenhuma perturbação. O bar fechava em dias de segunda-feira, por volta de uma hora da madrugada. Antes de encerrar o trabalho, Denise muito gentilmente agradeceu seu salvador novamente, dizendo que seria um enorme prazer recebê-lo uma vez mais ali naquele humilde ambiente.

Assim que ela fechou o bar, seguiu seu caminho direto para casa que distava somente algumas quadras de seu trabalho. Salatiel, como era de costume, sempre levava consigo o restante da garrafa que sempre sobrava, e sentava-se num banco de uma praça qualquer; ainda ficava, até quase o dia amanhecer, sentado de face virada para cima, contemplando as estrelas e se lembrando de tempos de outrora. Estava ele caminhando em passos lentos quando ouviu gritos desesperados vindos de uma rua logo abaixo de onde ele estava. Rapidamente se encaminhou na direção dos gritos e, lá chegando, logo percebeu que pela segunda vez naquela noite, Denise necessitava de sua ajuda novamente, pois dois homens tentavam encantoá-la para um local escuro, possivelmente com a intenção de abusar de sua inocência.

Mais uma vez, com a calma de um pastor que tange suas ovelhas, Salatiel se aproximou dos dois agressores e parece que repetiu o mesmo que havia feito no bar, pois assim que tocou nos agressores, em alguns segundos os dois saíram correndo aos prantos, clamando que Deus tivesse piedade de suas almas. Denise, uma vez mais, achou tudo aquilo bastante estranho, mas, mesmo assim, o agradeceu novamente e pediu para que ele a acompanhasse até em casa. Sem poder dizer não, para uma jovem que se parecia por demais indefesa, assim ele o fez. Ao chegarem ao portão de sua casa, quando Denise já estava prestes a se despedir, um agradável rostinho apareceu na janela. E para surpresa ainda maior daquela batalhadora garçonete — que criava sozinha, com o parco salário que ganhava, uma filha adotiva que padecia de leucemia —, ouviu quando a menina disse que o convidasse para entrar.

Ela sorriu e pediu que ele entrasse somente um pouquinho, para que a menina não se contrariasse. Salatiel jogou, a garrafa que trazia nas mãos, na lixeira; e seguiu Denise. Assim que entraram na casa, ele logo pôde perceber que havia uma menina de uns nove anos, sentada numa cadeira de rodas. Tinha a pele pálida como a neve — a ponto de deixar visíveis quase todas as suas veias. Na cabeça nua, não tinha nenhum fio de cabelo sequer. Era tal magra, que dava a leve sensação de que não duraria muito tempo. Contudo, para surpresa tanto de sua mãe, bem como para o próprio Salatiel, a menina se direcionou a ele como se o conhecesse há muito tempo.

— Boa noite, Salatiel. Como tem passado? Não reconhece mais um de seus irmãos quando vê um? Pelo que vejo tem se adaptado bem à sua nova vida...

Para não restar nenhuma dúvida, Salatiel respondeu na língua dos anjos.

— Boa noite, Galalel. Agora se disfarça de menininhas doentes para andar entre os seres humanos? Ele já foi mais criativo para nos enviar entre os seus preferidos.

— Não há preferidos para Ele! Somente aqueles que o obedecem e os que, por escolha própria, são rebeldes. Estou aqui por uma causa nobre. Denise é muito preciosa para ele e precisa ser testada em sua fé. Respondeu Galalel, também na língua dos anjos...


Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Primeira Noite de Plantão

Agudo segundo que trouxe fogo em direção ao meu cigarro para queimar as pontas da incerteza, num duelo da mente e do ocaso. Seria tão agradável, com as razões…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Agudo segundo que trouxe fogo em direção ao meu cigarro para queimar as pontas da incerteza, num duelo da mente e do ocaso. Seria tão agradável, com as razões postas em xeque mais uma vez, desfrutar do colar da segurança.

Logo eu, médico de respeito, renomado doutor. Deixar-me permitir tamanha ausência de decoro. Porém, como resistir ao trepidante chamado: “O senhor me ensina”?

As palavras mais pesadas de captar.

Fui professor em Harvard. Tive experiências com mentes brilhantes, mas não tão sinceras e plácidas. Meus ouvidos incharam como ondas sonoras espessas no espaço, correndo em busca da sintonia. Como delicadíssimo pedido saído de uma bandeira amante da pátria. Incorrigível e sensata. Não podia haver um “não”. Eu saberia quando seria tão indelicado, tanto quanto matar sem sentido.

Os pelinhos eram brilhantes e deslizavam sobre a camada flácida da boca aberta. E o toque que enchia os pensamentos de culpas continuava esvaindo-se em banais artifícios de conquista. Soltaram-se sorrisos em favor da proeza que nunca se sentiu, mas que toda mística em volta suscitava um bravo descobrimento. Pero, Vás! Encaminhava-se às novas terras.

Serelepe encontro com a nudez provocante e sem pudor. Mulheres conheceram a magia dos rituais e saíram sem cobrir suas vergonhas.

Aqueles sinais graciosos que apareciam em cima da testa iam em direção automática à grande escultora que permanecia calada, soltando lágrimas de desejo.

A inocência transparecia a verdade. Foi o axioma máximo de todos.

Conviver com isso era me transformar; transmutar; remexer-me e desfazer-me; refazer-me.

Imagem noturna; gemidos. Esse som me fazia enxergar a direção correta. As covas que precisavam de sementes e a terra inteira que implorava por salvação. O correto e inabalável caldeirão de rosas, apenas, que carregava todas as fragrâncias dos campos e todos os desejos do mundo.

“O senhor pode ser meu professor.”

Uma convenção tradicional figurava a disputa de sentidos. A mais dolorosa cor de culpa que pintava todos os órgãos do pecado. Eu estava em meia-idade.

“O doutor...”

“O senhor doutor”

“Um grande exemplo”

“Um primor de rigor”

Atingido por mil léguas de distância da realidade, existia eu. Sem ser médico nem senhor. Com vontades e desejos, com folga e segredo.

Havia uma imensidão de eus conflitantes. Nunca imaginei que serenava discórdias além de desejos fluidos e naturais. Mas eram convenções.

Contratos comigo mesmo que se estabeleciam desde o nascer. Que organizavam o distanciamento entre o bem e o mal, numa balança quantitativa de sintomas nunca diagnosticados e sem receita.

Um belo sono estancaria essa marginalidade. Mas não dormia, por não conseguir. Não respirava, por não poder falar. Nem conseguia enxergar por poder imaginar o que seria da vida. O que era a vida? Esse estalar de pouco tempo no complexo mutirão de famintos.

Lembrei-me de menino e menina. Sabia das aparências e vontades minhas, e como as domei em nome de algo que não se palpava nem se sentia. Apenas se camuflava sobre um cobertor de irrealidades: a reputação.

O que seria um belo adormecer transformou-se no desejo de nunca acordar. Havia feito aquilo; meu corpo sabia e agradecia uma parte, a outra se julgava. Mas como resistir?

“Venha, faça-me aprender.”

Deu-me vontade de bater, surrar até não sentir mais as minhas próprias mãos. Aquela mulher não podia se atrever assim. Deixá-la mole como se um caminhão tivesse atropelado ou como se as estrelas caíssem, todas, de uma só vez, sobre aquele ponto brilhante e flamejante. Mas não pude. Sempre fui assim: contendo-me com um olhar de linhas grossas e agudez ferina, gentil e melindrosa.

Arrebatamos uma aula sincera, com todos os requintes pedagógicos do sexo, delicadeza e calmaria.

“É com o senhor que devo aprender.”

Era verdade. Como a verdade podia ser tão cruel? Ou o fato de não a encarar por medo podia ser crueldade? Fiz o que pude para ajudar. Acho que isso quis dizer que respondi às expectativas dos outros e às minhas também.

Não era nenhum jogo entre Deus e o Diabo, mas encontrar um sentido para tudo aquilo. Bastava a saciedade para ser válido. Ambos os resultados foram idênticos. Nunca pude imaginar um desfecho tão complacente. Cúmplices. As duas nódoas se misturaram em alquimia rítmica, soando baladas oitentistas regadas a alucinógenos espirituais. Uma nova voz se apresentou naquele meio, trazendo uma força vital de clareza nos acordes mais destoantes. Era algo novo e bem-sucedido.

Agora o vício avançava e voltava à imagem de um bebê, descobrindo os passos e as palavras. Dois adultos fazendo doidices sem razão, unindo a esfera do oculto no labor cotidiano.

Quanto à liberdade, essa gigantesca explodia naquele instante e chocava tudo, fazendo um reboliço no conceito e transmutando a paz nas águas da dúvida.

Impulso e soluço, regidos a sangue de espada cravado sobre o peito amigo. Sem traição. Sem constipação. Apenas soando orquestralmente os sonhos da própria ilusão de não ser só uma foda, mas a carreira que se tinha a zelar...

Continuei nesse vício de me descobrir, mesmo já sendo feito; de me desconstruir, só para sentir o efeito.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Não há muralhas contra a névoa

“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Prólogo

“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite, enquanto reunia coragem para pular.

Mal conseguia ver o chão. No alto da torre antiga, o nevoeiro parecia mais denso do que nunca. A loucura chegara ao auge, a ponto de ele começar a ouvir vozes etéreas sussurrando ao vento, embora ainda não distinguisse palavras.

“Como isso pôde acontecer? Essas lutas, esse estresse, essa incerteza… Será que finalmente quebraram minha mente? Fragmentaram minha visão de mundo a ponto de eu já não saber o que é real? Ou há alguém por trás disso — alguma entidade brincando comigo? Tanto faz. Toda essa resistência, toda essa vigília constante… não há sanidade que sobreviva intacta”, continuava a lamentar para o vento enquanto tentava reunir a coragem necessária para pôr fim ao pesadelo.

A luta fora brutal. Furiosamente intensa. Viktor sentia dores em músculos que sequer sabia nomear. Três dias quase sem comer, sem dormir, sem descanso. Apenas a defesa desesperada de suas muralhas.

Mas o problema não era o inimigo. Era a névoa, que nada tinha de normal. Ela era cada vez mais frequente e mais corrosiva para sua já frágil sanidade. Em nada lembrava o comum fenômeno meteorológico da região, com sua aura fantasmagórica que parecia tirar tudo do lugar. Até agora havia conseguido repelir os homens, mas não há muralhas contra a névoa, que em tudo penetra.

A batalha era a única constante. Impedir a invasão, lacrar as brechas. Mas as armas não paravam de se transformar: numa hora, ele empunhava uma espada; na seguinte, quando a neblina que turvava repentinamente sua visão se dissipava, estava com uma câmera nas mãos. Um celular. Um bloco de notas.

De um instante para outro, a parede de escudos se convertia numa transmissão ao vivo desesperada. Torres de cerco tornavam-se guindastes, aríetes transmutavam-se em retroescavadeiras. Janízaros se metamorfoseavam em oficiais de justiça. 

Tudo isso sem que ninguém mais notasse qualquer estranheza, mesmo sendo as mesmas pessoas. Agiam como atores interpretando diferentes papéis. Tanto os que atacavam quanto os que defendiam mantinham-se firmes em suas posições, seguros de sua própria realidade. Apenas ele transitava entre tudo; ou talvez não transitasse por nada. Nada mais era garantido, nem sequer a natureza da realidade.

Os momentos de imersão completa, quando se sentia plenamente presente em um único papel, numa única era, pareciam cada vez mais raros. Nada de dissociação cognitiva, nem questionamento de sua percepção. Era por isso que temia quando a névoa voltava a se formar. Bastava um pequeno contato com a cerração para a fragmentação recomeçar cada vez pior. Mundos e séculos fundiam-se diante de seus olhos, e ele já não sabia quem era, nem onde estava.

Quando a voz sussurrante se tornou ainda mais audível, a ponto de ser possível identificar um etéreo timbre masculino e outro feminino dialogando entre o vento, o limite do suportável foi rompido. Isso precisava terminar. Viktor pulou da mais alta torre.

Antes que atingisse o chão fora da visibilidade, finalmente compreendeu parte do que estava sendo dito pela voz masculina vinda de uma fonte invisível: “Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha?” 

Seu último pensamento, “maldita conversa de fantasmas sem sentido”, fez com que se sentisse profundamente decepcionado. Assim como todos que já se imaginaram em seus momentos derradeiros, esperava ter algo mais nobre ou filosófico energizando em sua massa encefálica prestes a ser esparramada no chão oculto pela densa bruma.

Três dias antes…

“Se a motivação do prefeito é a preservação cultural — e não apenas o lucro — por que nossas propostas de tombamento estão paradas há anos, enquanto o licenciamento dessa empresa avança em poucos meses?”, é o que questiona Viktor Vatra, professor de história e militante pela preservação do patrimônio cultural. Ele seria, se a lenda popular for verdadeira, descendente de condes romenos que governavam um castelo medieval que inspirou este aqui, que podem ver ao fundo, localizado na serra da Mantiqueira, próximo à turística Campos do Jordão, construído em 1872 pelo trisavô do historiador.

A ocupação de professores e estudantes para impedir o início das obras de um parque temático que pretende revitalizar as ruínas do castelo e usá-las como o coração do centro de diversões já completou um mês. O professor e seus alunos não saem da construção há dias, cercados por equipamentos da construtora que já recebeu autorização da prefeitura para começar as obras. É por isso que viemos até esse castelo sitiado, propondo uma trégua para o debate. Eu sou Elaine Bastos, em reportagem oficial para o Domingo Fantástico, e estou aqui para dar voz aos dois lados enquanto o embate jurídico prossegue.

Em nota oficial, a Serra Viva Concessões S.A. declarou: “O projeto do parque temático Castelo Assombrado foi concebido com rigor técnico, respeito às normas ambientais e compromisso com o desenvolvimento sustentável da região. Todas as etapas seguem a legalidade.”

— Professor Viktor, começo com o senhor. Objetivamente: qual é o risco real que o projeto da Serra Viva representa para o castelo?

— O risco é a descaracterização progressiva do castelo e a degradação ambiental do entorno. Não é uma demolição explícita. É algo mais sutil, para torná-lo “rentável”. Patrimônio vira cenário, a história se perde e a floresta sofrerá ainda mais, quando as trilhas e estradas de terra se tornarem rodovias, os estacionamentos forem cimentados e toneladas de lixo diário começarem a ser produzidas. Isso sem falar no ruído, iluminação excessiva e muito mais.

— A empresa afirma que vai restaurar, investir e preservar, seguindo à risca as normas vigentes.

— Primeiramente, as regras já nasceram frouxas, e nem assim costumam ser seguidas. Toda empresa afirma isso no início. O problema é o que acontece depois da primeira flexibilização. Já vimos isso antes com essa própria construtora.

— Senhor Tariq Carvalho, representante da Serra Viva, o professor fala em “flexibilização”. Como o senhor responde?

— Primeiro, agradeço o espaço. Nossa empresa atua dentro da legalidade. Flexibilização é um termo interpretativo. O que existe são ajustes técnicos normais em qualquer projeto dessa magnitude. Não há nenhuma ilegalidade.

— O senhor é diretor de expansão da Serra Viva, correto?

— Sim.

— O professor mencionou histórico de denúncias em outras cidades.

— Denúncias não são condenações. Nenhuma construtora ou incorporadora de grande porte passa décadas no mercado sem enfrentar questionamentos administrativos. Em todos os casos, cumprimos as determinações legais. Não há condenações contra a empresa nem multas não pagas.

— Professor?

— Multas pequenas e termos de ajuste não significam ausência de problema. Muitas vezes significam que a infração foi convertida em custo operacional. Isso me lembra uma bela citação, infelizmente não lembro onde a vi, mas era algo como “se a pena por um crime é apenas uma multa, então a lei só existe para os pobres”. Ainda mais quando vale a pena continuar operando apesar de autuações, se o razonete contábil assim indicar, como é o caso do parque aquático termal que vocês construíram.

— Isso é uma acusação grave.

— É uma constatação estrutural. Se o retorno econômico da descaracterização e da poluição é maior que o valor da multa, a multa vira parte do orçamento.

— Isso é retórica — intervém Carvalho, mantendo o tom controlado. — O projeto prevê recuperação paisagística, criação de empregos, aumento da arrecadação municipal e estímulo ao turismo cultural. Estamos falando de desenvolvimento regional. Ou você prefere que seu município continue sendo apenas ponto de parada para Campos do Jordão? Você prefere que toda a renda do turismo continue subindo o morro, negando a oportunidade de desenvolver sua cidade natal também?

— Desenvolvimento para quem? Empregos sazonais? Bilheteria privada sobre um patrimônio de relevância histórica? O castelo e a floresta em volta não são produtos.

— Também não é um relicário intocável — retrucou Tariq Carvalho. — Patrimônio precisa ser integrado à dinâmica econômica para sobreviver. Sem investimento, degrada-se.

— Investimento não pode significar transformação em parque temático. Existe verba pública destinada aos patrimônios tombados exatamente por esse motivo, fora que ainda há até mão de obra voluntária para a manutenção. Eu mesmo e meus colegas docentes fazemos isso há anos, sempre com o apoio de alunos e da comunidade. 

— Professor, o senhor já analisou o projeto executivo completo? Nossos espectadores precisam saber se essa é uma oposição informada ou dogmática — questionou a entrevistadora.

— Analisei o que foi tornado público. E já aponta ampliação de estacionamento, centro de eventos, reconfiguração do acesso principal. Isso altera a ambiência histórica.

— Ambiência não paga manutenção; nossa empresa, sim.

— Memória também não deveria precisar se provar lucrativa para existir.

— Realizamos todos os estudos de impacto ambiental exigidos justamente para unir todos os interesses.

— Estudos aprovados com rapidez incomum.

— Rapidez não é irregularidade. É eficiência administrativa.

— E por que o processo de tombamento do castelo tramita há anos sem definição?

— Isso compete ao poder público. Não à empresa. O senhor precisa questionar isso nos órgãos responsáveis, não conosco.

— Mas a empresa se beneficia da ausência de tombamento definitivo.

— Nós nos beneficiamos da segurança jurídica. Se o bem não está formalmente tombado, ele pode receber investimento. Isso é o que a lei estabelece para o caso de imóveis assim, expropriados porque não há um IPTU pago há décadas.

— Professor, o senhor fala também de uma conexão pessoal com o castelo. — retomou Elaine, tentando reduzir a belicosidade da entrevista.

— Minha família tem origem na Transilvânia. Minha mãe sempre contou que descendíamos de uma linhagem ligada ao castelo original que inspirou esta construção. Recentemente fui à Romênia, consultei arquivos, levantei registros, inclusive em igrejas medievais. Estou organizando essa genealogia com apoio acadêmico local.

— O senhor confirma essa ancestralidade?

— Estou confirmando com rigor historiográfico. Já há documentos consistentes até o século XVIII.

— E isso influencia sua posição aqui?

— Influencia minha responsabilidade. Mas mesmo que eu não tivesse qualquer ligação familiar, minha posição seria a mesma. Patrimônio não é mercadoria.

— Senhor Carvalho, a empresa reconhece o valor histórico simbólico do local?

— Reconhece. Justamente por isso quer integrá-lo a um circuito cultural estruturado. A alternativa é o abandono gradual, já que o suposto conde aqui não tem a menor condição de se responsabilizar por nada. Eu esperava mais de alguém de sangue azul…

— Estamos diante de duas visões claras — interveio a jornalista, tentando novamente conter o escalonamento da contenda. — Professor, última pergunta: se o projeto avançar como previsto, o que o senhor teme que aconteça em dez anos?

— Que o castelo continue de pé, mas irreconhecível no sentido. Que vire pano de fundo para selfies, eventos corporativos e festivais temáticos. Que a história real que nós, professores, ensinamos nas escolas e mostramos ao vivo para os alunos, seja substituída por uma narrativa mais vendável, enquanto animais nativos, tão presentes hoje, virem apenas réplica na decoração, mortos ou espantados pela invasão da especulação imobiliária

— E qual a visão da Serra Viva Concessões?

— Em dez anos, vejo um polo turístico consolidado, gerando renda, empregos e estrutura arquitetônica preservada e nenhum impacto ambiental digno de nota. Vejo essa cidade sendo colocada no mapa, não mais apenas um ponto de passagem.

— Professor, uma frase final.

— Desenvolvimento sem memória é invasão e depredação.

— Senhor Carvalho, e qual a sua?

— Memória sem desenvolvimento não passa de ruína.

— Professor, a lenda urbana da cidade diz que o senhor pode ser um descendente do conde Vlad, é verdade? — recomeçou a jornalista, tentando finalizar de modo leve. 

— Ah, esse é um estereótipo comum, e não tinha como minha família escapar disso quando a réplica de um castelo medieval real é erguida aqui no Brasil por um imigrante romeno. A associação com vampiros era inevitável, mas eu acho divertido. Nunca preciso me preocupar com a fantasia de Halloween.

A repórter, rindo, estava prestes a tentar quebrar o gelo com o homem de negócios, mas precisou interromper a gravação, pois uma espessa névoa rapidamente eliminou toda a visibilidade na área de filmagem.

Também facilmente penetrou nas muralhas e atingiu o defensor do castelo, cansado após seu duelo verbal. Era uma névoa diferente, espectral. E o começo de seu pesadelo.

A breve dissipação

Viktor levou a mão à cabeça, subitamente capturado por uma vertigem que o desequilibrou. A sensação era de desconexão, mudando a temperatura, que caiu vertiginosamente, e transformando a fragrância do ambiente e a textura das pedras. Uma sensação familiar ao toque, que o remeteu imediatamente à recentemente visitada Transilvânia. 

Enquanto se perguntava o que havia acontecido com os seus sentidos, tropeçou numa grade metálica, parte de um antigo portão, que não estava ali antes. Quando abriu os olhos novamente, o peso o atingiu antes da visão.

Peso nos ombros. No peito. Nos braços. Metal. Ele estava de pé, envolto numa armadura. Uma espada na mão direita. Um escudo cujo formato lembrava um losango no braço esquerdo.

Mas a perplexidade não recebeu autorização para se instaurar. As elucubrações do professor transfigurado em cavaleiro foram interrompidas por uma lança que emergiu da névoa, avançando em direção ao seu torso.

Seu corpo reagiu antes que sua mente entendesse, por pura memória muscular que nem sabia ter adquirido. O escudo girou, desviando a ponta de ferro. A vibração do impacto percorreu-lhe o braço como um eco antigo. Sua espada subiu em um arco perfeito, obrigando o atacante a recuar com sua haste partida. 

Ele retornou segundos depois, após desembainhar sua cimitarra e girá-la nas mãos antes de tentar um amplo corte lateral. Viktor recuou no momento preciso, evitando a finta do adversário, enquanto posicionava sua espada sob a borda do escudo, para garantir uma estocada precisa no ponto fraco da cota de malha do agressor.

Seu corpo sabia, mesmo sem que ele soubesse como. O tempo de reação, a distância, o peso da lâmina… era como se conhecesse tudo isso intimamente por sua vida inteira, como se tivesse passado incontáveis dias treinando. 

A espada de Viktor encontrou a brecha. A breve resistência dos anéis metálicos se rompeu, a ponta afiada da espada reta deslizou quase suavemente carne adentro antes de encontrar a placa da armadura que agora defendia inutilmente a retaguarda do guerreiro, cuja traqueia havia sido habilmente perfurada.

Viktor sentia-se como um istmo atacado pelas ondas conflitantes de dois mares. De um lado, euforia crua, animal, pela vitória no duelo, os fios de memória ainda fixados no século XXI foram capazes até mesmo de lembrar de um brado klingon  idioma que ele, como nerd de primeira classe, quase dominava. 

A outra onda era de horror absoluto. Ele havia tirado uma vida. Sua mão ainda vibrava com o impacto. Sua memória muscular celebrava o movimento perfeito. Sua mente registrava o peso irreversível do gesto.

Mais inimigos surgiam da névoa, pelo menos uma dúzia. Sentiu um alívio ao pensar no inevitável fim, apesar da perícia recém-descoberta. Seria bom ser poupado de processar e digerir aquela violência e, se fosse um sonho, aquilo certamente o faria acordar. Mas antes que viessem os golpes dos inimigos, sentiu um contato em suas costas. Eram homens portando escudos no mesmo formato, vestindo as mesmas cores. Rapidamente, uma parede de metal e madeira se formou em volta. 

As lanças inimigas chocaram-se contra a cunha de cavaleiros, mas flechas vieram das ameias acima, indicando que a guarnição da muralha havia contido o assalto com escadas que Viktor agora lembrava ter acontecido momentos antes. Enfim, podiam contra-atacar.

— Meu senhor! — gritou alguém à sua esquerda. — O portão foi reforçado! Já podemos recuar!

Mais um susto para o comandante Viktor. Era impossível! Ao seu lado, estava um dos professores da escola. Ele sabia que aquele homem corrigia provas e reclamava do salário em reuniões pedagógicas. E, paradoxalmente, também sabia que ele comandava homens sob sua bandeira há mais de duas décadas. As duas certezas coexistiam. O mundo oscilou novamente.

— Recuar! — ordenou Viktor, sem saber de onde vinha a autoridade na própria voz.

A linha de escudos avançou para trás de forma coordenada, protegendo a retirada. O som da batalha diminuía à medida que se aproximavam das muralhas.

Quando atravessaram o portão e este se fechou com um estrondo pesado, Viktor sentiu as pernas quase cederem. Ele estava dentro do castelo. Mas não o castelo recriado nos trópicos, e sim o ancestral, que fora um entrave ao avanço do império otomano por mais tempo do que os sultões gostavam de admitir. Sua primeira intuição após a névoa estava certa, afinal de contas. Tochas nas paredes. Pedra úmida. Homens feridos sendo atendidos às pressas.

Ele mal teve tempo de respirar, pois um vigia o convocava à muralha.

— Emissário! Bandeira branca!

Da névoa, surgiu um cavalo. Montado nele, um homem com trajes ricamente adornados, portando uma alva bandeira no estandarte. O rosto e a voz eram inconfundíveis, nada mudara além de sua indumentária, título e sobrenome. 

— Senhor do castelo — sua voz ecoou firme — trago termos generosos. Sou Tariq Selim Karahan, Paxá ao serviço de Sua Majestade, o Sultão Mehmed II, e comandante desta hoste imperial. Rendam-se, e suas terras serão preservadas. Seus costumes, respeitados. Sua fé, tolerada. Sob o império, prosperarão. Permanecerão senhores, ainda que sob nossa soberania. Seus impostos serão revertidos em bonança. Resistir é apenas prolongar o sofrimento.

Viktor sentiu o chão fugir sob os pés. Ele bem conhecia os ecos daquele discurso, mesmo sem saber definir se vinham do passado, do futuro ou dos sonhos. Desenvolvimento, prosperidade, inutilidade da resistência, abandono de suas raízes… O emissário aguardava resposta. E não poderia ser outra.

— Este castelo resistiu antes — disse ele, a voz ecoando sobre a pedra. — E resistirá novamente, hoje e no futuro! 

Em sua versão emissário, o invasor podia externar seu ódio com muito mais liberdade do que sua versão paralela, usando terno e dando entrevista para o telejornal.

Mas sua carranca de ódio foi coberta pela névoa, e ele se viu numa outra batalha, onde portava um celular e lanterna, fazendo uma live que denunciava um início de incêndio florestal criminoso iniciado por jagunços da empreiteira. E, à medida que a neblina sobrevinha com mais frequência, esqueceu o gosto da comida ou a sensação de um travesseiro sob sua cabeça, sendo transportado entre uma batalha e outra, através das eras, até perder a conta e a sanidade.

Epílogo

— Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha? — perguntou o escritor.

— Estou surpresa… você conseguiu me deixar confusa. Eu tinha certeza de que preferiria a ambientação medieval quando você me falou da ideia. Um conto para a revista Castelo Drácula praticamente pede isso. Mas agora estou em dúvida.

— Pois é, minha amiga, eu te entendo — ele respondeu. — Também sou assim. Gosto de medievalismo, de fantasia. A temática de castelo envolto em névoa é quase um convite automático para espadas e muralhas sob ataque, não é? Mas, enquanto eu escrevia, essa ideia de um conflito moderno — alguém tentando preservar a história contra uma grande corporação — foi ganhando força. Ficou impossível ignorar.

— E aí a sua indecisão fez o favor de deixar esta editora de revista já sobrecarregada com um baita dilema, não é? Eu adoraria dizer para você apresentar dois contos: A Luta do Ancestral e A Luta Moderna de Viktor. Mas você sabe que só podemos publicar um texto na revista.

— Sim, eu sei. É por isso que agora estou com essa ideia híbrida. Minha indecisão virando o próprio nevoeiro que une ambas as batalhas.

— Daqui a pouco você terá um livro de contos só sobre anomalias temporais… Logo saberemos o que os leitores vão achar! 

— Uma pena que o prazo não permita desenvolver mais — ele suspirou. — Se eu tivesse que escolher, acredito que prosseguiria na luta moderna. A luta medieval é fascinante, e eu adoro descrever combates, mas podemos deduzir o desfecho. Os otomanos não engoliram a Transilvânia, com ou sem a intervenção do conde Vlad real, ou o Drácula mitológico. Já as batalhas pela cultura e pela ancestralidade, como as travadas pelo descendente Viktor, continuam em curso. E as grandes corporações de hoje são, muitas vezes, mais implacáveis do que qualquer império do passado.

— É… oficialmente, pela primeira vez, eu diria que preferiria saber o desfecho de uma história moderna ao de uma medieval. Parabéns por isso. Só lamento pelo seu personagem.

— Por quê?

— Ele vai acabar enlouquecendo com a sua confusão cronológica.


Escrito por:
Henrique Morgante

Henrique Morgante é um completo dependente do consumo de boas histórias em todos os formatos, sejam livros, filmes, séries ou games. Paulistano, formado em Administração e graduando em História, atuou em gestão de equipes e no setor bancário. Mas sempre teve por objetivo trabalhar com a criatividade. Escreve contos e romances, navegando entre o terror, a ficção científica, fantasia e, ocasionalmente, ensaios ou crônicas sobre eventos reais, além dos mais diversos temas propostos pelas antologias e revistas das quais participa sempre que possível. » Instagram do autor
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Partitura de Cânfora e Pó: Um Réquiem em Séttimor

A umidade em São Cipriano das Almas não era meramente climática; era uma saliva antiga, uma exsudação da própria história que lambia as paredes…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A umidade em São Cipriano das Almas não era meramente climática; era uma saliva antiga, uma exsudação da própria história que lambia as paredes do sobrado, fazendo brotar mofo sobre o papel de parede inglês adamascado. O luxo europeu descolava-se como pele necrosada após uma febre tropical.

Eulália Valeriana de Alcântara repousava diante da escrivaninha de jacarandá — madeira de lei, escura e densa como a noite brasileira, cujos pés eram garras de leões entalhadas, cravadas no assoalho que gemia sob o peso do silêncio. Lá fora, a tempestade não caía; ela desabava. A chuva açoitava as telhas coloniais com a violência de um castigo bíblico, uma percussão líquida que tentava, em vão, abafar os sinos da matriz. Eles dobravam, roucos e insistentes, anunciando um óbito que Eulália, em sua névoa mental, não conseguia recordar de quem era.

Ela ajustou a gola de renda negra vitoriana que lhe estrangulava o pescoço, engomada até a rigidez de um osso. O luto era sua segunda derme, uma armadura de tafetá e crinolina, embora a razão das lágrimas lhe escapasse. Sentia o vazio fantasmagórico a corroê-la do âmago à pele, uma sensação vertiginosa de que suas vísceras haviam sido substituídas por neblina fria e pó de marfim.

— Escreve o que a morte sussurra — soprou a intuição perturbadora, uma voz que não vibrava no ar, mas arranhava o interior de sua medula.

Sua mão direita, pálida como a cera de um círio pascal, segurava a pena de ganso. O tinteiro de cristal repousava ali, cheio de um líquido espesso, negro como sangue venoso coagulado ou o café forte esquecido na xícara fria. Eulália, a dama respeitável, a psicógrafa que consolava as matronas do Império, a ponte entre os vivos e os tísicos, estava sozinha. Naquela noite, a casa não abrigava clientes, apenas a respiração asmática da madeira dilatando e a presença daquilo que não tem nome, mas tem cheiro: uma mistura adocicada de gardênias passadas e formol.

A mão ganhou vida própria. Não era a caligrafia desenhada, aristocrática, que as freiras lhe impuseram. Eram espasmos, cortes violentos, fissuras de morte e vida rasgando a fibra do papel.

“Aqui o tempo não passa, Eulália... ele apodrece,” a mão grafou, a tinta espirrando como uma artéria rompida.

Ela tentou parar, mas seus dedos eram marionetes de fios invisíveis. O espiritismo, discutido nos salões afrancesados da Corte, era consolo e ciência. Mas ali, isolada na serrania, cercada pela mata atlântica que engolia civilizações, o espiritismo parecia uma autópsia da alma a céu aberto.

“Olhe para o espelho, Valeriana. O véu de Maya rasgou-se.”

No canto do quarto, o grande espelho oval de moldura dourada repousava, coberto por um lençol de linho branco — a mortalha exigida pela superstição, para evitar que a alma do recém-falecido ficasse presa no azougue do reflexo. O medo silencioso subiu por sua garganta, trazendo um sabor metálico de pregos velhos e terra molhada.

Ela ergueu-se. O som de suas anáguas de seda roçando no chão soou como o suspiro coletivo de mil viúvas em procissão.

— Quem profana este luto? — indagou ela à penumbra.

Os candelabros de prata tremeluziram, projetando sombras que se esticavam nas paredes como espectros famintos, dançando uma valsa muda. Ninguém respondeu. Apenas a chuva e o tique-taque de um relógio que parecia contar segundos de uma eternidade errada. Eulália aproximou-se do espelho. Seus dedos, trêmulos, tocaram a trama fria do linho.

Com um puxão brusco, a mortalha caiu, levantando uma poeira que cheirava a séculos trancados.

Eulália preparou-se para o horror. Esperava ver um demônio de chifres, ou talvez a aparição de seu pai com a mandíbula atada.

Mas o horror foi a ausência. O absoluto e terrível nada.

O espelho refletia o quarto com precisão cirúrgica: a cama de dossel com suas cortinas pesadas, a escrivaninha de jacarandá, a chuva chorando na vidraça. Mas não refletia Eulália.

Onde deveria estar seu corpo, seu vestido negro, seu camafeu de ônix, havia apenas uma mancha turva, uma vibração no ar, como o calor tremulando sobre o asfalto ao meio-dia ou a poeira dançando num raio de lua. Um borrão na realidade.

Ela olhou para suas próprias mãos. Elas estavam lá, segurando o tecido. Ela sentia o tato áspero. Mas o espelho, aquele juiz implacável da existência, decretava sua anulação.

— Eu respiro! Eu sinto! — ela gritou, mas o som saiu abafado, rouco, como se ela gritasse de dentro de um caixão de chumbo, sob sete palmos de terra vermelha e barrenta.

Correu de volta para a carta psicografada, tropeçando na própria inexistência. As letras agora brilhavam com uma umidade fresca, pulsante. Ela leu o veredito final que sua própria mão escrevera, ditada por uma memória que retornava para assombrar, cruel e verdadeira.

“Bem-vinda a Séttimor, minha querida. Onde os mortos vivem sem se lembrar de que o coração parou na última terça-feira de cinzas. Os sinos dobram por ti, Eulália. Tu esperas pelo médico que nunca virá, pois ele já assinou teu óbito. Tu és a assombração que temes. Tu és a memória que se recusa a ir embora, a mancha de umidade que a casa não consegue secar.”

Uma tristeza multiforme, pesada como a lápide de mármore carrara, esmagou seu peito. A lembrança rompeu a represa do esquecimento: o gosto de ferro na boca, a febre tifoide, o padre murmurando a extrema-unção em latim, o cheiro enjoativo de cânfora e cera derretida.

Ela não era a médium. Ela era a mensagem.

Olhou para suas mãos novamente. As pontas dos dedos começavam a ficar translúcidas, a cor da pele dissolvendo-se em cinza, fundindo-se com a névoa que invadia pelas frestas da janela podre. Ela estava se apagando, tornando-se natureza fantasmagórica, diluindo-se na atmosfera de Séttimor.

Sentou-se ao piano Pleyel que dormia no canto, um monstro de madeira e cordas que ela não tocava há meses. Seus dedos, agora quase feitos de fumaça, pousaram sobre as teclas de marfim amarelado.

Ela não tocou para os vivos de São Cipriano das Almas. Tocou para si mesma, um Noturno dissonante, tentando segurar a própria existência em cada acorde menor, ancorando sua alma na música antes que o esquecimento final a transformasse apenas em uma corrente de ar frio no corredor daquele velho casarão brasileiro.

E lá fora, a chuva continuava a lavar o mundo, indiferente à mulher que, nota por nota, desaparecia na partitura eterna do silêncio.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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Reflexos do Mal

— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.
Friedrich Nietzsche 

— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu. Desde então, de seis em seis meses, nos conta essa mesma história absurda, de uma forma enfática e repetitiva. Quando será que o senhor irá nos confessar o que realmente aconteceu? Por que assassinou sua esposa e seus filhos? O senhor precisa realmente cooperar conosco; só assim poderemos tentar ajudá-lo.

O paciente baixou a cabeça e começou a chorar copiosamente, entrando numa terrível crise de histeria. Os enfermeiros foram chamados e conseguiram contê-lo, aplicando-lhe um forte calmante, que o fez ficar inerte na cadeira, mas ainda assim com os olhos abertos e vidrados em alguma direção a esmo, como se avidamente quisesse enxergar algo que ninguém mais pudesse ver.

Assim que aquele paciente se acalmou e o ambiente ficou mais tranquilo, o renomado psiquiatra Doutor Eugênio de Abreu, que conduzia aquela sessão e que também era o mais velho dos três médicos ali presentes, disse aos outros dois profissionais que estavam ao seu lado:

— Esse paciente que está à nossa frente é um espécime raro nesta instituição. Na visão de um leigo, que não saiba de seus crimes, ele pode parecer uma pessoa completamente normal. Há quase dez anos tenho acompanhado seu tratamento e, durante todo esse tempo, ele tem nos contado a mesma história sem nunca, nem mesmo sob o forte efeito de drogas pesadas — ou outros tipos de tratamentos nada ortodoxos —, ter mudado uma única vírgula do que sempre tem sido contado ao longo de todos esses anos. Sua inverossímil história parece o enredo de um conto de terror e mistério. Segundo ele, um antigo espelho que ele teria herdado de sua avó seria o responsável por toda a tragédia que assola sua família há muitos anos...

... Seu nome é Wilson Bernardes — mesmo nome do avô — ele era uma espécie de artista fracassado que ganhava a vida como professor de artes e, vez por outra, conseguia vender uma de suas pinturas por uma ninharia qualquer. Era casado com uma promissora médica — de nascimento nobre, filha de família rica — que abandonara a fortuna e carreira para acompanhar o marido, cuidar da casa e dos filhos que os dois logo tiveram no início do casamento.

Segundo a sogra — dona de uma renomada galeria de arte —, seu genro sempre havia demonstrado um comportamento estranho e arredio, com certo senso de inferioridade. O relacionamento dele com sua filha foi o típico casamento entre “a princesa e o plebeu”, fato esse que sempre gerou discórdia entre eles, e que, a todo custo, tentava se manter distante da família dela.

Professor Wilson é oriundo de um núcleo familiar onde a tragédia parece fazer parte da própria família. Ele mesmo era órfão desde os cinco anos, quando perdera os pais num terrível acidente de carro, onde somente ele conseguira sobreviver — as causas do acidente nunca foram totalmente esclarecidas —. Até os 18 anos, fora criado por sua avó materna numa pequena cidade do interior — uma bondosa e sofrida mulher que já havia criado seu filho sozinha, após a trágica morte do marido, que tirara a própria vida em circunstâncias misteriosas —.

O avô do nosso paciente, o senhor Wilson Bernardes, era motorista de um ônibus escolar. Um profissional competente e muito querido por todos, mas que, numa triste manhã de sexta-feira, sem nenhum motivo aparente, havia jogado o veículo que dirigia numa ribanceira, matando, além dele mesmo, mais 17 crianças, deixando outras tantas feridas — algumas das crianças que sobreviveram ao acidente disseram, em depoimento, que o sempre meigo e atencioso tio Wilson estava com um sorriso bastante estranho e se comportava de uma forma muito esquisita naquele dia —.

Assim que terminou os estudos escolares, o jovem Wilson veio estudar na capital, onde se formaria em História da Arte, tornando-se posteriormente professor de uma pequena escola de bairro. Ainda na faculdade, conheceria sua futura esposa. Clarisse estava cursando o penúltimo ano de medicina quando ele iniciou seus estudos no curso de Licenciatura em História da Arte. Em menos de cinco anos, oficializariam um relacionamento bastante conturbado devido a inúmeras diferenças que havia entre eles. Ele, que era bastante solitário desde que perdera sua avó, teria uma família novamente. Ela, por sua vez, estava selando seu trágico destino.

Quando se casaram, a esposa tinha certeza da vida simples e humilde que o futuro esposo poderia lhe proporcionar e nunca reclamara por isso, até o dia em que viria receber uma pequena fortuna de herança do pai. Dinheiro esse que era visto pelo marido como uma profunda ofensa a seus nobres princípios de homem humilde e trabalhador. Com a herança recebida pela morte do pai e a constante companhia da mãe, a esposa retomou alguns costumes e contatos da época de solteira, quando ainda vivia em uma vida de opulência e riqueza na casa dos pais. Esse fato causou a inevitável separação dos dois, devido ao sentimento de profunda inferioridade do marido.

Uma vez separado de sua esposa e longe da companhia de seus filhos, decidira tirar umas merecidas férias e retornar à sua cidade natal. Pois, desde que se mudara para a capital, jamais havia retornado à sua antiga cidade. Sua avó, que terminara seus dias no mais completo abandono numa clínica de repouso para idosos, havia deixado a ele — seu único herdeiro — sua casa e todos os seus pertences — essa casa estava fechada há muitos anos —. Professor Wilson, que trabalhava na mesma escola há 15 anos, solicitara uma licença do trabalho, alegando, além das questões pessoais — que todos já sabiam —, que também gostaria de um tempo para voltar a pintar de forma profissional ou, quem sabe, até mesmo poder escrever um livro sobre a história de sua família.

Após esclarecer seus planos à ex-esposa — com quem ainda mantinha um relacionamento de respeito e admiração, por ser ela a mãe de seus filhos —, despedira-se de seus filhos de forma bastante carinhosa e voltara para sua antiga casa dos tempos de infância, onde ficaria quase dois meses sem dar nenhuma notícia. Sua cidade natal ficava a mais de 150 km distante da capital.

Certa noite, já em alta madrugada, o vulto de uma pessoa parecida com o professor Wilson fora visto por um dos vizinhos — que chegava de uma noitada — entrando sorrateiramente em sua antiga casa, onde ele vivera por mais de 10 anos com a ex-esposa e seus dois filhos. Nenhum deles jamais seria visto novamente. A mãe de Clarisse — que estava em viagem à Europa —, ao perceber que Clarisse não respondia às suas ligações, retornou imediatamente de sua viagem e, assim que percebeu que sua filha e seus netos haviam desaparecido, logo teve a plena certeza de que o ex-genro era o responsável pelo sumiço de todos eles.

A polícia foi acionada imediatamente. Um pedido de prisão preventiva fora expedido contra o professor Wilson pelo desaparecimento de sua ex-esposa e também de seus filhos. Ele fora encontrado no porão da casa que herdara da avó, pintando um autorretrato, inocente a tudo que havia acontecido. Ao saber do desaparecimento de sua família, entrara em choque. Uma antiga conhecida da família, que ele havia contratado como uma espécie de governanta, dissera que ele não havia saído de casa na noite do assassinato.

Tanto a casa da avó quanto a casa onde eles viviam foram periciadas até pelo avesso em busca de evidências que pudessem comprovar um triplo assassinato. Paredes foram minuciosamente verificadas, os dois quintais foram revirados, vários testemunhos foram colhidos, porém nenhuma prova fora encontrada. De certo modo, o crime parece ter sido perfeito.

Wilson — que já não era mais professor — ficou preso até o julgamento, mas este douto e persuasivo ex-professor, contando com a competência de um bom advogado e a anuência da Lei, fora solto após o julgamento por ter sido considerado inocente, pois, segundo as negligentes leis vigentes desse país, “se não há corpo, não há crime”...

Depois de todos esses episódios que vocês ouviram, esse paciente à nossa frente começou a dar mostras de um comportamento que variava entre o lúcido e o mais completo delírio. Envolveu-se em algumas confusões em bares e boates, muitas das vezes sendo expulso desses locais por quebrar os espelhos que encontrava pela frente. De alguma forma, criou uma espécie de total aversão pelo próprio reflexo.

Segundo sua governanta, alguns dias após o seu julgamento, ele tivera algum tipo de surto psicótico sobre um determinado espelho que havia em seu porão. Fez várias pesquisas sobre a origem do antigo objeto que pertencera ao seu avô, comprou diversos livros sobre ocultismo e chegava a ficar dias inteiros trancado no porão de sua casa, sussurrando palavras estranhas que ela não conseguia compreender direito, pois eram frases sem nexo algum. Falava sobre demônios, espelhos, portais e coisas desse tipo...

Depois de quase dois anos desde que tudo ocorrera, parece que as coisas estavam voltando ao normal e Wilson demonstrava que se tornaria uma pessoa lúcida novamente, até que, certa noite, em uma hora já bastante avançada, após a governanta ouvir estranhos barulhos de uma terrível luta no porão, além de vozes lamentosas e gritos de profundo desespero, ela, temendo pela integridade do seu patrão, que ela ajudara a criar desde criança, desceu até aquele ambiente onde lhe era proibido adentrar e pôde conferir com seus próprios olhos que ele já não estava mais lá. O ambiente estava tranquilo e silencioso. Era estranho, pois seu carro estava na garagem e ela não o ouvira sair pela porta da frente.

De alguma forma, Wilson havia chegado à casa de sua ex-sogra e tentou assassiná-la. A pobre mulher — que ainda chorava pela perda da filha e dos netos — conseguiu se salvar das garras do alucinado agressor, gritando por socorro aos seus vizinhos, que já estavam previamente avisados do comportamento psicótico e agressivo de seu ex-genro. Wilson foi preso tentando arrombar a casa da ex-sogra, de posse de uma afiada faca. Naquele momento, seu estado parecia ser de total embriaguez, mas parecia haver algo mais, pois, mesmo com a presença da polícia, mantinha um comportamento agressivo e alienado, ficando o tempo todo murmurando palavras sem sentido algum. Sua prisão em flagrante por tentativa de assassinato fora revertida em internação em uma clínica psiquiátrica de segurança máxima.

De alguma forma, ele conseguira escapar. Mesmo vestindo trajes de um interno, descalço, sem dinheiro algum e sem nenhum documento, conseguira retornar até sua antiga casa. A governanta fora encontrada aos prantos do outro lado da rua, amparada por vizinhos que também chamaram a polícia e os bombeiros. Segundo ela, ao ouvir barulhos estranhos no porão, desceu rapidamente para ver o que estava havendo, temendo ser um invasor. Encontrou a porta do porão trancada por dentro e logo sentiu cheiro de fumaça e o calor do fogo por debaixo da porta. Os bombeiros agiram rápido e conseguiram controlar as chamas e salvar a casa. Wilson, com quase 70% do corpo queimado, fora preso mais uma vez. Ficou mais de seis meses se recuperando das queimaduras e, logo após se restabelecer, foi enviado até nós. Desde então, tentamos mantê-lo longe de espelhos ou qualquer objeto ou superfície que possa refletir sua imagem.

Acredito que seja de total conhecimento de vocês, jovens e devotados calouros em psiquiatria, que todo e qualquer indivíduo, com qualquer tipo de distúrbio, por menor que seja, uma vez internado numa instituição como essa, muito dificilmente conseguirá sair para o convívio social novamente. Principalmente em se tratando de casos específicos, como esse, em que o paciente transita em paralelo entre universos de fantasia e realidade. Como podem saber, sou um profissional com mais de quarenta anos de carreira e já vi muitas coisas estranhas em todos esses anos de psiquiatria. Tenho acompanhado o caso do paciente Wilson desde que ele chegou aqui nesta clínica. Em todos esses anos, nunca havia me deparado com um caso tão peculiar como esse, onde o paciente jamais desiste de contar a mesma história. De alguma forma, ele realmente acredita em tudo o que diz, como se toda essa insanidade fosse realmente verdade, e não apenas um mero fruto de sua fértil imaginação...

Um dos jovens calouros, que atentamente ouvia todo aquele relato e que tentava anotar tudo o que o experiente médico dizia, ousou perguntar:

— Doutor Eugênio, em algum momento, o senhor, com toda a sua experiência, cogitou a possibilidade de que ele talvez estivesse falando a verdade? Sobre o espelho amaldiçoado em seu porão? O senhor não nos disse muitas coisas sobre esse espelho.

Aquele sábio e experimentado psiquiatra deu um longo suspiro e, olhando para aquele jovem e inexperiente médico com certa indulgência, disse num tom paternal:

— Cuidado, meu jovem rapaz... Aqui, entre essas paredes, tem um lugar reservado a todos aqueles que contam histórias fantásticas e também para quem acredita nelas...

— O tal espelho realmente existe, mas é somente uma peça antiga, talvez do século XVIII ou XIX. Depois que nosso paciente foi definitivamente considerado incapaz de retornar à sociedade, sua casa, com todos os pertences que restaram após o incêndio, foi leiloada pelo Estado. Eu mesmo arrematei o tal espelho por mera curiosidade, devido a todas as histórias que o acompanham. Era uma das peças da coleção particular do avô de nosso paciente. Senhor Wilson Bernardes era um aficionado por coisas antigas e colecionava todo tipo de quinquilharia. Era um verdadeiro saudosista dos tempos idos, que, em sua estranha coleção de velharias, sempre optava por objetos que tivessem algum tipo de relato macabro em sua história...

Saindo daquela sala especial onde os internos eram examinados a cada seis meses, Doutor Eugênio convidou os outros dois médicos a acompanhá-lo até seu consultório, onde o espelho se encontrava. Naquela mesma tarde, Doutor Eugênio de Abreu fora brutalmente assassinado dentro de seu próprio consultório; um dos médicos que o acompanhava está em coma profundo após ter o seu crânio fraturado e os olhos perfurados com um bisturi. O outro médico encontra-se foragido...

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Alex Miranda

Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Era sexta-feira 13. Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era sexta-feira 13.

Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições foi uma delas.

Já não sei mais quanto tempo se passou desde que revisito esses momentos. Já decorei tantos rostos quanto os esqueci. Não sei seus nomes, e talvez devesse ter perguntado no dia em que os vi. Mas agora nada disso importa. Nada mais é importante.

Fico me perguntando o sentido disto. Se deveria me arrepender de algo, pedir desculpas a alguém. Mas nada do que faço funciona. Nada do que tento dá certo. Apenas consigo viver à margem daquele dia, como se nada fora do que vivi realmente existisse de verdade.

Todas as vezes. Todos os dias. Sempre iguais. SEMPRE. SEMPRE!

Acordo exatamente às 6h15. Preparo meu café da manhã: o pão, pálido como a luz desta manhã que se repete. Deveria ter escolhido algo melhor, se soubesse que seria meu último dia. Ovos e presunto. Talvez a pizza fria de ontem. Mas não posso mudar essa escolha. Não agora.

Saio de casa atrasado. Pego o casaco, o guarda-chuva, e caminho pelas mesmas ruas cinzas de sempre. O mesmo emprego tedioso em administração. O mesmo chefe a reclamar de atrasos e erros. Tudo já se repetia, mesmo antes.

Parando para lembrar agora... talvez eu já estivesse morto antes mesmo de morrer.

E então, vou para casa. E, após reviver este dia mais uma vez, sempre penso: o mais terrível nem foi morrer, foi ter de trabalhar o dia inteiro antes do fim. Talvez, se tivesse atravessado a rua no sinal vermelho às 7 da manhã, não estaria repetindo tudo. Não me arrependeria de ter morrido antes de começar a trabalhar. Talvez já estivesse renascendo noutro tempo, ou no céu, ou no inferno.

Não sei qual é o verdadeiro destino para quem morre.

Talvez seja isto: reviver as mesmas coisas, sempre. E eu esteja condenado a repetir este dia. Para sempre.

E depois de tudo, finalmente acontece: eu entro no supermercado que fazia as compras, mas dessa vez, na hora errada. O homem de máscara olha para mim e atira, e o tiro silencioso passa em câmera lenta, até me atingir. Eu não sinto a dor, apenas desabo no chão, arrependido, e acordo novamente, no mesmo dia, para reviver tudo de novo.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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