Múrex e Arsênio - Nauseante luz sanguínea
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O motor industrial range no peito da noite, um zumbido constante,
L'existence précède l'essence...
ou seria o fungo na parede que sonha?
Milhares de moluscos apodrecem no tear de um tempo distante,
Para vestir a elite corrompida com a náusea que nos envergonha.
Regardez a viúva vitoriana: seu vestido exala o perfume do ouro e da urina,
Uma fragrância bizarra, le parfum de la mort, que a intersubjetividade coroa; Enquanto a trimetilarsina dança na umidade que descasca a rotina,
O bebê de cera chora no berço de ferro... a engrenagem ressoa.
Não há sentido social que salve o gesso mofado da sala funerária,
A agonia é o teto que baixa, a paralisia da carne operária,
Condenada a respirar o roxo-profundo que o próprio pulmão fabrica.
O caixão espera o corpo intoxicado pelo status do veneno estético,
O espelho Lynchiano reflete apenas o vazio do teatro patético...
Um grito mudo de radiador, onde a morte iminente se purifica.
Ruído Branco de Fundo: O som do vapor escapando dos canos da fábrica de tecidos preenche o quarto escuro.
O papel de parede vitoriano continua a descascar, caindo como pele morta sobre o veludo do caixão.
O cheiro de peixe podre e arsênio é a única prova material de que estamos acordados.
Não há saída para o palco.
Matéria Inominável derretida,
O ferro do radiador sangra o seu vapor mecânico,
Um chiado de dentes brancos contra a ferrugem do ser; Onde o eu se dissolve num vômito cinzento, botânico,
E o feto de cera, na sombra, insiste em não nascer.
Regardez a costura do espaço: o gesso mofado desaba como cinza que cai de um céu que nunca conheceu o sol;
A viúva de roxo fita o caixão onde a luz se acaba,
E o tempo rasteja, viscoso, feito um verme no lençol.
Não há ontologia que salve a carne da náusea primeira, O átrio vitoriano é o palco de um teatro mudo, esquecido... A trimetilarsina sussurra na fresta da madeira:
"O espelho que limpas reflete o que foi corrompido". Atrás da cortina vermelha, o silêncio é um urro profundo, E a agonia de Deus é o perfume que veste o fim do mundo.
Ao monólogo da pele descascada no incendiário fluxo intermitente na penumbra dos ossos e limo... Amor, escute o motor.
O motor não para de girar a engrenagem do dente que caiu na pia. Não é sangue, é apenas o óleo preto que lubrifica o sonho daquela mulher cujo rosto esquecemos na terça-feira. Ela abre a boca para gritar, mas o som que sai é o latido de um cão enterrado sob o assoalho em 1826. O papel de parede vitoriano... vês como ele ondula? Não são os fungos. É a parede que tenta respirar porque o ar aqui dentro ficou pesado demais com o cheiro dos milhares de moluscos que apodreceram para que o rei pudesse vestir o seu manto de soberba. O rei está morto. Ele está sentado na poltrona de veludo no canto do quarto, mas se tu olhares de perto, a cabeça dele é apenas um bloco de gesso cru com duas pupilas desenhadas a carvão. Duas pupilas que piscam quando tu fechas os teus próprios olhos.
L'existence... c'est une bête qui rampe.
O corvo no fundo da sala funerária não voa. Ele tem asas de chumbo e os olhos brancos da viúva. Ele sabe que a cortina vai se fechar e que, quando as luzes do palco piscarem três vezes, o homem do espelho estará sentado na tua cama, segurando o teu velho casaco roxo, esperando que tu peças desculpas por ter nascido. Não olhes para o radiador. O radiador é onde os bebês sem pele cantam a canção do absoluto nada.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;