Tanatose
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora,
Onde a carne estrangula as estátuas da memória;
Onde o mármore ferve em rubro e profundo,
E os relógios apodrecem no ventre do mundo.
Teu hálito desliza nas naves vazias,
Como incenso sombrio de antigas liturgias;
Teu riso ressoa nas torres do abismo,
Misto de espasmo, de parto e cataclismo.
Ó Soberana dos véus e das peles feridas,
Que destilas o gozo dos restos de vidas;
Não para a glória dos tronos terrenos,
Mas para a ceia dos vermes eternos.
A noite te veste com mantos de névoa,
Enquanto o gemido no escuro se eleva;
Violinos de ossos em surda canção,
Dilaceram o peito em sacra aflição.
Nos vales da mente, gélidos e ermos,
Florescem os membros dos sonhos enfermos;
Formas que buscam o gume derradeiro,
Antes que a alma se entregue ao cinzeiro.
Ali rastejam os seres rendidos,
Em leitos de terra, por dentes colhidos;
Carregam nas pupilas a mesma fixação:
O sulco que traz a ressurreição.
O amor transfigura-se em bicho alado,
Não como amante, mas lobo faminto;
Vertigem de membros em nós amarrados,
Onde o deleite é a lâmina do instinto.
Nupcial abraço de mármore e desejo,
Onde a agonia é o mais puro beijo;
O espinho que rasga, a unha que crava,
Na boca que fenece e na carne que lava.
Cada suspiro é um grito distante,
Cada delícia, um estilhaço cortante;
Cada carícia, um flagelo a arder,
Contra as amarras do amanhecer.
A Regente observa dos altos balcões
Os rios escuros das raras paixões;
Não as condena, tampouco as absolve,
No enlace do luto seu corpo se envolve.
Pois toda doçura possui sua ruína,
Todo orgasmo guarda sua guilhotina;
Todo esplendor carrega em segredo
O dente paciente do próprio degredo.
Assim ela canta, serena e cruel,
Enquanto o veneno escorre do mel;
Com a violência de um mito esquecido,
Na força de um vício nunca antes vivido.
Que há beleza naquilo que pende e perece,
No sangue que tépido o chão humedece;
No espasmo final da garganta sem luz,
No abraço de terra que ao nada conduz.
E enquanto o cosmos prossegue a girar,
E os corpos já frios se deixam amar,
Permanece seu cântico, austero e profundo,
Ecoando entre as ruínas do mundo.
Um cântico antigo, de luxo e luar,
Feito para quem ousa escutar
A voz que habita entre o corte e o desvelo,
Entre o abismo, a cinza e o castelo.
E quando o último sopro cessar,
E o céu sobre as lápides se inclinar,
Se ouvirá ainda, além do véu funéreo,
O eco da Noiva sussurrando em Érebo.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;