31. Quero trazer à memória o que me pode dar esperança
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data Incerta - Eu descobri por acidente, foi num gesto mais estúpido e cotidiano possível. Ao tentar lembrar do rosto da minha mãe, a imagem não vinha, era só um vazio, como quando se passa a língua num dente que foi arrancado há anos e a ausência incomoda; então eu forcei a lembrança, com vontade, fechei os olhos no meio do corredor da torre, encostada na parede úmida. Me concentrei no rosto dela como quem cutuca uma ferida que não cicatrizou por inteiro. No início, nada; depois náusea e depois sangue, mas não da memória e sim do meu corpo. O gosto metálico subiu rápido pela garganta e quando cuspi no chão de pedra, veio escuro demais para ser só saliva. E então a imagem abriu: minha mãe estava de costas, diante da pia da cozinha antiga, o cabelo preso errado, o barulho da água, o cheiro de café passado, uma rachadura na parede que eu tinha esquecido da existência, tudo perfeito demais. E logo veio a dor, como uma agulha quente enfiada na base do meu crânio; minhas pernas falharam e eu caí sentada, ainda vendo a cena, ainda presa nela. Eu estava tendo uma leve convulsão e mesmo assim eu não queria soltar, porque entre um espasmo e outro, eu percebi que tentar lembrar me custava algo, mas funcionava. Quando finalmente perdi o acesso, o corredor voltou em golpes, pedras úmidas, sombras, luzes trêmulas e meu próprio sangue escorrendo pelo queixo. Eu ri, uma risada curta e quebrada, pois isso só podia ser castigo.
Depois disso, testei de novo dias depois, mas outra memória, outro preço e, às vezes, era um apagão de horas; às vezes febre, às vezes uma tristeza tão densa que eu passava o dia inteiro olhando para a parede, com vontade de pedir desculpa para pessoas que eu não sabia quem eram. As lembranças vinham inteiras, nítidas e absurdas de tão claras e, junto delas, a certeza insuportável de que eu não merecia tê-las de volta. E por vezes eu chorei sem saber exatamente por quem. Eu não contei a ninguém no início, nem a Arturio e muito menos a Mara, porque se eles soubessem que eu posso acessar, vão querer regular e talvez explorar e eu já tinha sido explorada o bastante. As recaídas começaram a vazar para o cotidiano, eu perdia palavras no meio das frases, confundia nomes, respondia a perguntas que ninguém tinha feito. Uma vez chamei Mara pelo nome da minha amada, ela não me corrigiu, mas também não esqueceu e o pior não era a dor era a tentação. Saber que tudo que eu perdi ainda está lá, trancado atrás de um mecanismo que cobra em carne, em sanidade, em culpa, em sangue, isso é uma forma lenta de tortura. Eu não estou apenas revisitando memórias, eu estou ficando viciada nelas.
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Data Incerta - Fui em minha primeira missão, e elas não chamaram de missão, chamaram de treinamento de campo. A palavra “treinamento” me deu mais medo do que qualquer outra coisa que já ouvi naquele lugar. Fui acordada sem toque, apenas abriram a porta e ficaram paradas no escuro; três silhuetas vestidas com o mesmo tecido pesado que parecia absorver a pouca luz do corredor.
— Levante-se, Rute.
E eu apenas obedeci por inércia. Enquanto eu me vestia, senti uma sensação sob a pele, senti que alguma coisa em mim já estava sendo preparada para algo que eu não tinha escolhido. No corredor, vi Mara encostada na parede, braços cruzados, o rosto fechado demais até para o padrão dela, foi a única que não desviou o olhar quando passei. Descemos, então entendi o objetivo quando chegamos ao limite do vilarejo, havia uma casa isolada, velha demais até para aquele lugar e, dentro dela, algo que elas chamaram apenas de eco.
— Não é uma entidade — disse uma das mulheres. — Não exatamente.
Ninguém explicou melhor, porque não era necessário, eu já sentia, a memória que não era minha começou a se agitar no fundo do meu crânio, como um animal preso. Aparentemente eu só estava ali para reagir ao que quer que aquilo fosse.
— Se aproximar demais, ela vai ativar — disse outra. — Se não chegar perto o suficiente, ela não morde.
Fiquei parada.
— “Ela” quem? — perguntei.
A mulher apontou para mim.
— Você.
A porta da casa se abriu sozinha ou alguém por dentro a abriu, não faz diferença; um cheiro de poeira, coisa antiga, veio. Dei dois passos e já senti as pernas pesarem, algo lá dentro reconhecia algo em mim e isso era exatamente o que elas queriam. O eco se manifestou como uma distorção no ar, não tinha forma definida, era como um erro na continuidade do espaço e quando me aproximei demais, uma dor explodiu; memória, não a minha.
Uma mulher correndo por um corredor que não existia, sangue na parede, uma escada em espiral que parecia crescer enquanto ela descia, vozes chamando por um nome que não era o dela. Meu corpo travou, a Ordem avançou enquanto eu não podia me mover. Elas passaram por mim como quem passa por uma porta aberta e o eco reagiu e reagiu em mim. Uma imagem se sobrepôs ao mundo e a casa virou o corredor, o chão virou os degraus, então eu gritei, não de medo, mas do excesso, era uma memória dolorosa demais para uma mente só. Senti algo sendo arrancado, ouvi o som do impacto ao longe — algo foi contido e depois, só depois entendi que a missão tinha sido bem-sucedida para elas; para mim sobrou o chão frio, o gosto de ferrugem na boca e a certeza horrível de que agora havia mais de uma vida circulando dentro da minha cabeça. Quando voltei a conseguir respirar direito, vi Mara de joelhos na minha frente.
— Elas já estão indo longe demais — sussurrou ela. Eu assenti uma única vez.
— Acho que desde o começo.
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Data Incerta - Não foi um sonho, isso não. Eu estava sentada, tentando lavar o sangue seco das mãos, um sangue que eu não lembrava de ter derramado quando o mundo simplesmente perdeu a continuidade e o chão se tornou escada em espiral. As paredes não eram paredes, eram superfícies úmidas, orgânicas, algo que respirava lentamente demais para estar vivo, rápido demais para estar morto. Um cheiro doce e apodrecido tomava conta de tudo, como flores deixadas tempo demais num quarto fechado. Eu estava descendo; eu não queria, mas minhas pernas se moviam sozinhas. Minhas mãos agora estavam sujas de sangue fresco e eu sabia que aquilo não era meu corpo, mas era o meu agora; então ouvi vozes, algumas distantes e outras perto demais.
— Volte.
— Ainda dá tempo.
— Você irá ser vista.
Um nome era repetido entre as vozes, um nome que se acumulava nas paredes como mofo e eu não vou escrever esse nome, pois algo em mim diz que ele não merece existir de novo. Quanto mais eu descia, mais a escada se estreitava, as paredes começaram a tocar meus ombros, meus braços, meu rosto, me esmagando, me reconhecendo como parte da estrutura. Vi corpos presos entre as dobras da parede, absorvidos, rostos ainda conscientes, olhos abertos, bocas presas no meio de um pedido de ajuda, talvez; e alguns deles sussurravam comigo.
— Não lembra.
— Não abre.
— Não aceita.
— Não escreva.
Mas eu já tinha feito tudo isso, já tinha descido até o fundo, e no centro da espiral havia uma sala circular, o chão era coberto por símbolos. No centro, uma mulher ajoelhada, eu a conhecia, mas não pelo nome; ela levantou o rosto que começou a girar, carne se reorganizando em espiral, os olhos sendo puxados para dentro, a boca sendo torcida até virar um poço e ainda assim ela olhou para mim. E algo saiu dela e entrou em mim: uma memória comprimida demais para existir inteira em um só corpo. Eu acordei assustada, ou pensei que havia acordado, o quarto estava lá, o teto estava lá e minhas mãos estavam limpas, mas meu corpo estava quente demais e no fundo da minha cabeça agora havia uma nova presença, então voltei a dormir logo depois. Mara me acordou e sussurrou no meu ouvido que tínhamos que ir, pois Arturio nos esperava na entrada.
Saímos antes do amanhecer, Arturio disse que impediria que a Ordem nos seguisse e ficou para trás. Mara não explicou muito, uma passagem nos levou para fora do vilarejo e para uma região onde a luz parecia envelhecida. O primeiro sinal disso foi a cor, não era azul comum, era uma palidez azúlea que parecia roubar calor da pele; o céu, a areia, até o ar tinham tonalidades que iam do azul pálido ao anil profundo, como se a noite tivesse sido moída e espalhada sobre o mundo. Quando chegamos à margem, vi o rio. O rio brilhava com uma bioluminescência pulsante, parecia que organismos dentro dele acendiam e apagavam num ritmo próprio. O brilho subia da superfície em vapores luminosos que flutuavam pelo ar antes de desaparecer, foi então que percebi a flora, as flores cresciam nas margens do rio, translúcidas e finas, cada uma tinha um rosto moldado na pétala, formado pela própria anatomia da planta. Um rosto abriu os olhos e sangue escorreu, uma lamúria saiu de dentro da flor, e eu congelei.
— Não olhe muito tempo — disse Mara.
Mas era tarde, aquela coisa estava olhando de volta. O vento que soprava era suave e atravessava a areia produzindo um ruído baixo, contínuo; o deserto se estendia além do rio, as dunas pareciam se mover lentamente, cada rajada revelava formas efêmeras, mãos, rostos, corpos emergindo por um segundo antes de voltarem a ser apenas areia de novo. Caminhamos pela margem até vermos algo no centro das dunas: um oásis, água negra, calma demais, palmeiras esqueléticas inclinadas como velas de um barco deteriorado. O lugar parecia convidativo, mas de um jeito errado. E foi ali que o vimos um homem alto, ele estava parado perto da água, usando um manto negro bordado com fios de ouro-bronze que refletiam a luz azul do rio. O sorriso dele era largo demais, quase pontiagudo e ao lado dele, uma criança, o menino segurava sua mão com naturalidade, ele usava roupas simples, claras, e tinha olhos pálidos que refletiam a bioluminescência do rio como se fossem feitos da mesma substância, então o homem falou antes que perguntássemos qualquer coisa:
— Vocês chegaram cedo demais.
Sua voz era tranquila, cordial.
— Quem é você? — perguntou Mara.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Um viajante, talvez um observador, alguns já me chamaram de vidente. Outros acreditam que venho de um mosteiro antigo onde aprendemos a ler o tempo como se fosse um texto mal escrito.
Ele olhou diretamente para mim.
O sorriso não mudou.
— E você, já começou a ler páginas que não são suas?
Senti o peso de uma memória vibrar dentro do meu crânio.
— O Castelo Drácula está prestes a atravessar cinco atos temporais — continuou ele.
Mara cruzou os braços.
— E por que deveríamos acreditar em você?
Ele não respondeu imediatamente, o vento das dunas soprou mais forte.
— Porque, se não se prepararem, vocês experimentarão algo chamado sofrimento-carmim.
— O que é isso? — perguntei.
O homem fez um gesto breve de impaciência, como se o tempo realmente estivesse curto.
— Não tenho tempo de explicar tudo, minha tarefa é apenas advertir os residentes do castelo.
Ele tirou algo do bolso do manto: uma joia, era um pingente de metal escuro, com um símbolo gravado com algo entre espiral, estrela e rachadura — estendeu- em sua a mão.
— Use isto.
— Por quê? — perguntei.
— Porque quando o primeiro ato temporal começar, vocês vão precisar de âncoras.
O menino ao lado dele me observava fixamente, seus olhos pálidos eram inquietantes por parecerem antigos demais para uma criança. Aceitei o pingente, assim que ele tocou minha pele, senti uma leve pressão na cabeça, quando levantei os olhos novamente, o homem e o menino já estavam caminhando para longe pelas dunas e o vento apagava as pegadas deles quase instantaneamente. Mara olhou para mim. Segurei o pingente, ele estava quente, e tive a sensação clara de que alguém, ou alguma coisa, estava tentando nos preparar para algo muito pior do que o castelo. Eu aceitei a joia por instinto e Mara não gostou.
— Você aceitou rápido demais.
— Ele disse que precisamos de âncoras.
— Homens que aparecem no meio do nada raramente oferecem algo sem cobrar depois.
Não respondi e de repente tudo ficou vermelho, uma névoa espessa cobriu completamente minha visão e tinha gosto metálico, cheiro de sangue quente, recém derramado. O ar ficou denso, durou um segundo, mas dentro desse segundo havia coisas demais. Eu vi o castelo, não como ele é agora, torres quebradas em ângulos impossíveis, corredores que se dobravam sobre si mesmos, pessoas caminhando repetindo os mesmos movimentos eternamente. Vi Mara e ela estava ajoelhada diante de uma estátua que eu não conseguia olhar diretamente, o corpo de Hadassa petrificado como de uma mártir. Seu rosto estava coberto de lágrimas, mas ela sorria de um jeito que me deu medo. Vi muitos rostos observando, esperando e no centro de tudo o castelo sangrava, sangrava de verdade, o vermelho escorria pelas paredes como um organismo vivo, descendo pelas escadas, enchendo salas, invadindo a terra ao redor; então a visão terminou, o mundo voltou de uma vez só em azúleo e marfim fosco. Mara segurou meu braço.
— O que foi?
Levei um momento para responder.
Minha boca ainda tinha gosto de sangue.
— A joia funciona.
— Como você sabe?
Olhei para o pingente.
— Porque talvez ela tenha me mostrado um segundo do que vem depois.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos…