Divina Presa
No ventre palestino o prometido, um dia, | Nasceu de uma virgem, sob luz de profecia. | Filho de Josué, do Espírito gerado, | Foi pelo rei temido, em berço arado…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
No ventre palestino o prometido, um dia,
Nasceu de uma virgem, sob luz de profecia.
Filho de Josué, do Espírito gerado,
Foi pelo rei temido, em berço arado.
Como cordeiro em sangue, seu destino selado,
Ressurge em terra árabe, em chão desolado.
Mas a fome o ceifa, antes do primeiro ano,
E o anjo pacificador parte em vão, humano.
Terceira vez renasce em solo devastado,
Mas explosivos rasgam seu frágil passado.
E quando enfim retorna, abre os olhos feridos:
Fuzis brancos e azuis: seus únicos vestidos.
Perece o Cordeiro em guerra, fome e espanto,
Mas sua carne é pó, é luta, é grito e canto.
Revisão por Sahra Melihssa
Leonardo Garbossa
Leonardo Garbossa nasceu em São Paulo, em 1995. Desde jovem é um leitor apaixonado e grande fã das obras romancistas. Sentimentalista por natureza, iniciou sua vida acadêmica na área das ciências exatas, migrando em seguida para psicologia, que estuda atualmente. Teve a infância conturbada após perder o pai para o suicídio, tema que se tornou seu foco nos estudos acadêmicos. Foi criado pela avó, que fez o máximo possível para ensinar a ele a importância da excelência nos estudos e na cultura. ... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Quem é ela?
Uma dolorosa despedida | Veja! Lágrima seca pela dor | Oh, uma face tão abatida! | Os poéticos últimos momentos de uma flor…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Uma dolorosa despedida
Veja! Lágrima seca pela dor
Oh, uma face tão abatida!
Os poéticos últimos momentos de uma flor
Fantasma que em meus sonhos habita
Estás me esperando além do purgatório?
Entidade em diversos livros descrita
Tal como Dante em seu fim inglório!
Quem, dentre nós, chegará mais abatido?
Quem em terra permanecerá, de joelhos
Ou com o coração pelo amor aquecido?
E quem apto será a grandes conselhos?
Veja, o derradeiro final que nos aguarda!
Trágicos amantes desprendidos na vanguarda.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Trilogia Sprawl: Parte #1 Neuromancer
O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas…
Imagem da Web
O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas. Abrangendo desde gêneros literários, jogos de vídeo game, músicas, vestimentas, características estéticas… se compondo como um todo a ser explorado. Com luzes neon iluminando as ruas à noite, implantes cibernéticos, conflitos entre gangues e um mundo dominado por megacorporações, o cyberpunk (que se tornou, recentemente, um vocábulo reconhecido pela Academia Brasileira de Letras) se materializa como uma crítica clara e explícita ao caminho que a humanidade trilha há décadas: um mega corporativismo ultra capitalista.
É impossível tocar no assunto sem citar e se aprofundar na trilogia que pavimentou a estrada do sub-gênero literário: Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, conhecidos como “trilogia Sprawl”, do autor William Gibson.
Neuromancer (1984) é o primeiro livro da trilogia e, também, é aquele que captura o leitor e o apresenta ao estilo de escrita do autor. Ora extremamente descritiva (e nada explicativa), ora direta e dinâmica, a escrita de Gibson pode impactar negativamente os leitores de primeira viagem. O autor discorre, por páginas e páginas, pelos mais ínfimos detalhes da cidade de Chiba: as tecnologias dispostas por toda parte, as gírias locais, as drogas utilizadas, as dinâmicas entre a população local… O que pode ser considerado como característica de uma escrita amadora, ou como um verdadeiro truque de mestre. Gibson alterna a quantidade de informação disposta ao leitor conforme a linha narrativa do capítulo em questão. Quando acompanhamos Case, o cowboy (hacker) e personagem principal do livro, o autor é específico com relação aos equipamentos e técnicas utilizadas, assim como sobre o ciberespaço (termo cunhado por ele mesmo). Quando acompanhamos outro personagem, que pouco sabe sobre os acontecimentos, o autor também nos apresenta com pouca informação. Assim, nos vemos com o mesmo nível de conhecimento que os personagens que estamos acompanhando, tecendo uma relação pessoal e íntima com eles.
No início do livro, nos deparamos com um protagonista em ruínas. Case, após tentar roubar de seus próprios contratantes, foi infectado com um vírus que o impede de se conectar à rede. Vivendo em completo colapso, ele está preso às lembranças de sua ex-namorada e à rotina criminosa de Chiba — um cenário que reflete não apenas suas emoções destroçadas, mas também a ausência de qualquer perspectiva, sentimentos que permeiam este novo universo. O personagem se submete a trabalhos perigosos para criminosos locais, em troca do suficiente para viver mais um dia. Gibson, então, nos presenteia com a personagem mais singular e inesquecível de toda trilogia: Molly Millions. Molly é personagem recorrente nas histórias do autor, aparecendo pela primeira vez em Johnny Mnemonic, três anos antes de Neuromancer. Forte, em todos os sentidos, e apaixonante, a razorgirl surpreende pelas marcantes características físicas (as lentes prateadas sobre os olhos) e pela personalidade incomparável. Molly é o “estado da arte” do autor. Todas as cenas em que aparece são marcantes, especialmente quando o autor vai nos mostrando pequenos fragmentos sobre o passado obscuro da personagem.
Molly aborda Case para convocá-lo, sabendo de suas habilidades como cowboy, a mando de Armitage, outro personagem que nos surpreende ao longo da obra. Case recebe a possibilidade de ser curado, mas deve ajudar Armitage em determinadas missões que o apresentarão a desafios jamais vistos. Neste momento o autor nos apresenta a característica mais marcante da trilogia: a junção do cyberpunk com a religião vodu. O ciberespaço deixa de ser a representação gráfica de dados corporativos e passa a ser lar de entidades sencientes, como inteligências artificiais que se materializam no espaço virtual, se movimentando e buscando compreender umas as outras. É inegável que a proposta gera uma sensação desconfortável no leitor, que se vê diante de algo que nem as forças de segurança digital do livro sabem lidar. Case se vê perante algo muito maior do que ele mesmo: o questionamento sobre quando, e como, isso começou (algo que só será respondido, em partes, no terceiro livro da trilogia) e quais os impactos por vir.
O misto de tecnologia, investigação, religião vudu e questionamentos sobre humanidade e moral nos mantém presos à obra, que escala e ruma as resoluções da metade para o final, com uma conclusão surpreendente e inesquecível
Neuromancer é visto por muitos como o melhor livro da trilogia (e do autor) e ponto de partida de todos que querem compreender o início do universo cyberpunk. Sua influência nas obras que se seguiram é perceptível nos elementos desenvolvidos pelo autor: constructos de personalidade (o personagem Flatline, que auxilia Case em diversos momentos), megacorporações que dominam as cidades (Hosaka, Maas Biolab, a infame e familiar Tessier-Ashpool), implantes cibernéticos por toda parte (como não se lembrar dos braços de Ratz logo no início do livro?) e o universo abstrato e assustador que é o ciberespaço.
Os escritos de Gibson são uma experiência a ser vivida e que todos os amantes do cyberpunk deveriam conhecer para entender as estruturas que sustentam esse gênero.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Entidade
Na fria balada da noite, sob o manto da neblina | Surge figura soturna, felina. | Com sorriso aberto, nova vítima procura. | Caçada furiosa empreende…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na fria balada da noite, sob o manto da neblina
Surge figura soturna, felina.
Com sorriso aberto, nova vítima procura.
Caçada furiosa empreende, mediante animalesca busca
Sem uma única palavra causa pânico e terror
Sangue-frio, entidade de puro horror
Sorriso amarelo, doentio e inebriante
Que rasga tecidos, causador de dor excruciante
Ameaça misteriosa torna a desaparecer
Assim que a mãe noite começa ao horizonte perecer
Assim, poderoso astro-rei desponta
Riso macabro, por fim, encerra sua afronta.
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Pela Fria Noite
Ádito aos templos, me detenho. | Corpo gravado com feitiços e magias, contemplo. | Lisonjeira mãe, que na escuridão oculta a todos | com garras soturnas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ádito aos templos, me detenho.
Corpo gravado com feitiços e magias, contemplo.
Lisonjeira mãe, que na escuridão oculta a todos
com garras soturnas que me forçam a cair em seus engodos
Professa em meus ouvidos palavras adocicadas e poderosas.
Realizações que se farão, para mim, onerosas.
Cantemos, noite adentro, em belo dueto.
Tuas mãos a dar vida ao derradeiro soneto
A última obra de nossas entristecidas vidas,
Que jazem, aqui, totalmente despidas.
Talvez somente no frio do túmulo vazio
teremos nosso canto livre de desvio.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Perfeitos Estranhos IV – Faces
— Nauärah? A palavra, o nome, simplesmente escorre pela minha boca, soando o mais natural e simples possível. Tenho certeza de que jamais...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
— Nauärah?
A palavra, o nome, simplesmente escorre pela minha boca, soando o mais natural e simples possível. Tenho certeza de que jamais a ouvi, embora ela tenha sido lançada para fora de mim. Bem ali, a uma fração de metro de mim, estava a mesmíssima dama que avistei antes de adentrar os umbrais do castelo. Tenho a certeza, que emerge de lugares inomináveis da minha alma, de que é ela. Cabelos fartos e escuros, o olhar decidido, forte e um tanto indecifrável. Seria tal donzela uma ilusão? Uma manifestação da crueldade e do desejo sádico do castelo? Ou seria outra vítima, atraída para cá, assim como eu?
Minhas mãos tremem. Meu maxilar tensiona.
A visão vacila e sinto a sombra me arrastando para os bastidores. O outro quer seu lugar, seu espaço sob a luz, embora seja, literalmente, o pior momento para tal besteira. Tento lutar contra as garras amarelas que me arrastam para a bruma. Minha mente titubeia por um segundo, que se faz suficiente para que eu tenha que apoiar em um móvel próximo.
Por alguns poucos segundos, que me parecem uma verdadeira eternidade, esforço-me para recobrar os sentidos. Balanço a cabeça na tentativa de retomar o bom senso e a normalidade.
— Peço desculpas pela exibição pífia de uma possível labirintite não tratada. Antes de me apresentar, preciso ter certeza de que você é real, mademoiselle. Não me interprete mal, mas este castelo já se mostrou cruel o bastante comigo.
♤♡◇♧
O medo que outrora eu sinto, começa a dar lugar à curiosidade. Como ele sabe o meu nome? Como? Que lugar é este que faz com que as pessoas se conectem como se uma magia as fizesse agir de maneira ágil e soubessem de tudo? Onde já se viu perguntar se sou real ou coisa da sua imaginação? Desculpa tola de homens aproveitadores. Crueldade é a dele de invadir o meu espaço dessa maneira, e não do Castelo.
Por outro lado, a sua voz é serena, embora seja masculina. “Mademoiselle”, ele profere, e uma aura de paz parece chegar em meu quarto. Mas ainda me sinto ameaçada. Não posso ser tão doce e pacífica com o estranho das matas. Foi por causa da minha antiga natureza dócil e pacífica que aconteceu comigo o que nunca deveria ter acontecido com uma moça.
Levanto-me bruscamente da cama e as minhas mãos logo encontram o arco e a flecha próximos. Armo todo o movimento com técnica e fluidez e direciono-me para ele, deixando no ar o som do preparo selvagem. As luzes estão apagadas e apenas um feixe de luz da lua ilumina o momento de tensão. Não consigo perguntar quem ele é. Só consigo vociferar de medo e irritação.
— Você vai sair do meu quarto agora! Ou a minha flecha vai adorar se sujar de sangue! A minha mira é mais eficiente do que o melhor atirador. E se der as costas sem olhar para trás, nem me encarar, lhe darei o direito de se explicar na antessala. O estranho cavalheiro escolhe. E então, decide se a “Mademoiselle” aqui é real ou não. — Digo de maneira irônica.
Olho tensa para ele, pelas frestas e sombras da escuridão, tentando não demonstrar o meu medo, e o que vejo é o mesmo: aquela figura das matas… é ele! Finjo, então, estar segura, embora a minha fragilidade seja evidente agora. Estou tremendo. Ele percebe. O cheiro dele é miseravelmente agradável e se funde com o meu, mas a sua presença tão calma me faz dar essa chance de ouvi-lo.
♤♡◇♧
Jamais presenciei um movimento tão ágil e impecável quanto aquele. Numa fração de segundo ela apanhou o arco e flecha e, com exemplar maestria, havia armado o disparo. Eu já havia atirado antes, e lembro da força que se fez necessária para entesar a corda e mantê-la daquela maneira. Muito além do que fui capaz de compreender, e acompanhar, me deparei com uma flecha apontada para mim, acompanhada de uma doce ameaça.
— Pelas barbas do Rei, mulher, abaixe isso! — Cubro os olhos com a mão esquerda, restando a direita para manter distância da dama armada. Sinto um medo, bem sólido, ao perceber a possibilidade de ser atingido. Àquela distância, a flecha poderia, facilmente, me ferir de forma letal. — Prometo não estar vendo mais nada. Darei meia volta… Mas não atire em mim!
Dou dois passos em direção à porta, a encontrando com a mão direita. Mantenho os olhos cobertos, embora esteja ciente de que minha jornada nesta terra possa se encerrar a qualquer momento. Fecho a porta e a aguardo no corredor, apartado daquela loucura.
Sou atingido pelo doce perfume que havia seguido a pouco. Sem dúvida alguma era o perfume dela. Penso, também, que deveria estar armado com algo. Se ela for hostil, não terei como me defender de um ataque. A existência de um arco e flecha indica a existência de outras armas, acredito. Procuro por objetos que possam ser usados para defesa, mas nada existe aqui além de quadros de gosto duvidoso e velas praticamente sem vida.
Massageio as têmporas com os dedos, buscando algum tipo de conforto, enquanto espero aquele espectro violento resolver se manifestar novamente.
♤♡◇♧
Quando o estranho sai do meu quarto, parto correndo para trancar a porta. Agora entendo, algo sombrio neste lugar me fez ficar sonolenta, que até esqueci-me da porta aberta e do meu perfume também. Que inútil, me condeno.
Respiro fundo, me desarmando e abaixando o arco e a flecha, os posicionando de volta ao chão. De tudo que me aconteceu aqui no castelo, isso foi o mais bizarro e doloroso. Esbarrar com uma face masculina próximo à minha cama me deixou pensando que todo aquele passado aconteceria comigo novamente.
Preciso sair para falar com ele? Não, não preciso, ainda assim, a força maior de um chamado esquisito me faz querer sair para apresentar-me e talvez fazer uma amizade. Se eu ficar tão reclusa desse jeito, ficarei o tempo todo sozinha, sem companhia. Esses homens que estou avistando, se amigos forem, podem até defender-me dos perigos também, apesar de eu saber bem fazer isso. Não. Não preciso deles. O último que eu confiei desgraçou a minha vida.
Paro de pensar demais, olho para a porta e me dirijo até lá para sair e falar com ele. Quando toco na maçaneta noto que ainda estou em vestes de dormir. Me assusto e a porta faz um barulho de abrir e fechar. Estou tão turbulenta que não me vesti adequadamente. Volto para dentro e troco a roupa. Visto muito bem a minha capa e cubro-me adequadamente para não transparecer nenhuma feminilidade que chame atenção, embora já tenha deixado isso escapar demais.
Me dirijo até a porta e abro, sem nenhum armamento. Sinto que não é necessário. Dou um passo à frente, com o coração batendo forte, e quando saio pela porta, o visualizo, como se estivesse me aguardando. Não posso ser tão hostil. Ele chamou o meu nome. Deve me conhecer. E se for um mensageiro? Penso inúmeras coisas enquanto me aproximo tão fielmente de uma figura masculina por aqui pela segunda vez. Ele sente minha presença, mas fica no mesmo lugar. Devo mesmo tê-lo assustado, mas é melhor assim. Olho para ele, ainda com a minha capa, e a minha voz tenta dizer algo lúcido.
— Eu... é... — Respiro fundo — Quem é você, o que faz na Vila Séttimor, para que adentrou neste castelo, como sabe o meu nome e por que entrou em meu quarto? Se apresente, diga a verdade e juro que não lhe farei mal. Vês? Estou desarmada, confiando totalmente em sua integridade.
O ambiente do castelo é assustadoramente escuro, ainda assim, consigo enxergá-lo bem entre a meia luz e alguma abóbada próxima à parede. Seu aroma permanece no ar, e agora o suspense da sinestesia que tem acontecido aqui e o mistério das nossas faces confusas estão mais próximos de serem revelados.
Personagens nessa crônica:
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Perfeitos Estranho III - Morte
Morte. É isso que verte pelas paredes do Castelo. […] Após escrever a carta para a minha família, deixo-a em uma espécie de escrivaninha…
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Morte. É isso que verte pelas paredes do Castelo.
A nuvem de poeira que me atinge após o fechar das portas é suficiente para me trazer à mente outra necessidade, que de outra maneira teria levado alguns minutos para revisitar: minhas luvas. Tateio os bolsos do casaco e as encontro. Um belo par de luvas brancas, maltratadas pela longa jornada a esse local repulsivo. Me pego refletindo sobre as justificativas que ele teria dado a si para carregar consigo itens aos quais não se recorda de possuir. De qualquer maneira, me sinto satisfeito pela gentileza acidental e as calço.
Me encontro no saguão principal do castelo — uma área ampla, de teto alto, e surpreendentemente limpa e bem cuidada, contrastando com a maltrapilha aparência externa do prédio. O espanto me impacta, afinal, imagino o trabalho homérico que é manter essa propriedade asseada e em bom estado.
À esquerda vejo um corredor largo que provavelmente leva a outras áreas do castelo, áreas estas que me darei ao luxo de explorar em um momento posterior, depois que minha curiosidade for sanada, afinal, que donzela misteriosa seria aquela que avistei pelas janelas do andar superior? Fui alertado quanto à natureza sobrenatural do Castelo e como manipula as distâncias, podendo fazer com que objetos pareçam mais próximos, ou mais distantes, do que realmente estão. Outros perigos me foram informados, mas tomarei nota de todos eles após encontrá-la.
Resolvo investigar os demais cômodos, para me sentir seguro para buscar respostas no piso superior. Adentro o corredor à direita, ganhando o novo ambiente. É uma galeria arrojada, com quadros antigos representando as mais diversas paisagens, além de pequenas estátuas com alguns traços medonhos. Admiro a criatividade do escultor, mas não sou capaz de admirar a beleza poética de corpos de mármore dobrados em ângulos estranhos. Sigo por generosos metros até me deparar com duas portas fechadas. Um detalhe que talvez tenha passado despercebido: lá fora, havia anoitecido e as poucas luzes que iluminavam o castelo por dentro eram de velas dispostas, estrategicamente, pelos ambientes.
As portas eram antigas, de madeira maciça e com trancas rústicas. Forcei uma, depois a outra, sem qualquer sinal de sucesso em abri-las. Decidi não continuar com o trabalho inútil, por receio de gerar mais barulho e chamar a atenção dos outros moradores do castelo. Este detalhe, aliás, não havia ficado claro para mim. Havia outros, sim, mas nada sei sobre suas intenções e, tampouco, se são confiáveis ou não. Não seria eu outra presa, capturada pelas demoníacas garras do castelo. Ah, não!
Sem sucesso em prosseguir, resolvi me virar e voltar pelo caminho que havia seguido. Para o meu terror, o corredor já não era mais o mesmo. Os quadros haviam mudado para paisagens grotescas e disformes. As pequenas estátuas, de natureza desprimorosa, se tornaram versões ainda mais bizarras de si mesmas, como uma confusão de membros retorcidos. O corredor estava ainda mais escuro e já não era possível enxergar com clareza o seu outro lado.
No ápice da minha tolice, eu fui pego.
Tomado pela aflição e pelo pavor, tentei não expressar tais sentimentos. Tateei as paredes. Eram sólidas e firmes. Segui tateando, passo a passo, em direção ao que antes era o saguão principal, mas que agora estava tomado pela escuridão. Impossível ter escurecido em um espaço tão curto de tempo. Antes de mergulhar no breu, respirei fundo.
Avancei por alguns metros pela total obscuridade. Ao longe, avistei um vestígio de luz. Era outra sala, iluminada por uma vela solitária que já havia doado metade da sua vida, disposta sobre uma pequena mesa de canto. Ao lado, uma janela, de onde pude observar o céu estrelado, tão limpo como nunca havia visto antes. Apoiei os dedos na madeira áspera da moldura e fui hipnotizado pela visão.
Minha visão vacilou e minha mente estremeceu. As estrelas ficavam cada vez mais próximas, e a própria lua começou a se deformar em uma massa branca amarelada. O horror estava entranhado em mim.
Antes de perder a consciência, lembrei da donzela da janela. Espero que tenha um destino melhor do que este…
Recobrei os sentidos, prostrado no corredor. Todo o cenário estava da exata maneira que o vi pela primeira vez: os quadros dispostos pelas paredes e as pequeninas estátuas excêntricas.
A mensagem era clara. Eu não devia me esquivar. Deveria seguir a imagem misteriosa no piso superior, sem hesitar.
Retornei ao saguão principal e observei a escada que dava acesso ao primeiro andar. Senti um perfume excepcional, de natureza floral e aveludada. Algo nele despertou fortes emoções em mim, como a necessidade sem precedentes de descobrir sua fonte. Então, subi pela escada a passos largos, seguindo a fragrância, que ficava cada vez mais forte. Um corredor, depois outro. Fui tomado por tamanha ansiedade que não me atentei em decorar o caminho de volta. Finalmente parei em frente a uma porta, entreaberta. Ao abri-la, um nome me veio à mente e deixei escapar pela boca.
— Nauärah?
…
Após escrever a carta para a minha família, deixo-a em uma espécie de escrivaninha mágica, em formato de esfera, desacreditando que este castelo, magicamente, a transportará para a minha aldeia no Brasil. Sorrio, e pela primeira vez com um riso mais disposto aqui neste lugar, pois a magia daqui é totalmente diferenciada da magia que conheço, embora sejam magias, de fato, e esta tem me conquistado, me incentivado a estudá-la e praticá-la mais profundamente. Mas questiono-me: como a minha carta, algo físico, chegará em minha aldeia através de uma espécie de portal na superfície de uma bancada mágica? Sorrio novamente, pela segunda vez, respondendo para mim mesma que a carta será enviada com a mesma força da magia em que acredito.
Um sono inexplicável alcança-me, fazendo as minhas pálpebras ficarem mais lentas. Este Castelo é enérgico o suficiente para me fazer pensar que estou sendo manipulada por sua magia. Consegui sorrir algumas vezes e ainda ficar em um local praticamente sozinha, embora haja outros residentes. E por falar nisso, acredito que eu tenho certeza de ter fechado a minha porta. Eu sempre fecho e a tranco. Sabe? Se este castelo é poderoso o suficiente, ele vai tratar de conferir todas as trancas por si só. O meu sono não me permite verificar mais nada aqui e me dirijo, sonolenta, ao meu dossel, saindo da antessala da minha alcova.
Apenas me livro dos acessórios mais pesados em meu corpo, penteio leve os meus longos fios com as mãos, retiro a capa áspera que me cobre, lavo o meu rosto e higienizo a minha pele. Depois, utilizo a minha fragrância favorita, com aroma floral e aveludado. Eu sempre fecho bem o meu perfume, mas o sono que sinto agora, me faz ficar sem forças. É. Eu acho que eu escrevi demais. Deixo o frasco na cômoda próxima à cama e paro de lutar contra o meu cansaço.
Deito-me na cama, bocejando leve, mas suficientemente profundo para deixar escapar um som sutil do bocejo. Apago a luz do abajur e o quarto finalmente fica escuro e agradável para o momento do meu sono. Nem consigo me cobrir totalmente, mas os lençóis deste lugar parecem me envolver, magicamente. Neste instante, posso sentir alguma presença próxima, dentro do Castelo, mas estou tão vulnerável agora que não conseguiria segui-la com as minhas lanças e vestida com a minha capa.
Um cheiro também invade as minhas narinas, e não é o meu. É um cheiro quase familiar, mas estranho. Estranho? Lembro-me do cavalheiro que as minhas vistas alcançaram em uma das noites anteriores. Se o vi nas matas, se aproximando, e logo depois o vi neste recinto, o quarto dele deve ser próximo ao meu. A minha intuição grita que há alguém perto. E o meu trauma zomba de mim, me dando a certeza de que é uma figura masculina, mas por que sinto isso? Por que sinto aquele homem tão perto?
O cheiro dessa presença é masculino, sinto, sei. Mas não me atreveria a explorar mais nada à essa altura. Por que sinto esse cheiro agora? E tão agradável? Por que eu gosto desse cheiro?
Lembro-me da minha adolescência, quando chegavam na vila estrangeiros trazendo especiarias. Eles vendiam esse cheiro e também tinham esse cheiro... Não. Eu não deveria gostar. Não devo nem ficar curiosa como estou agora, ainda que sonolenta. Foi um homem com um cheiro desse que desgraçou a minha vida.
Pesadelos... sempre eles. Devem ser pesadelos... Este lugar parece me pregar peças.
Estou deitada na cama, dormindo e uma espécie de paralisia do sono me acomete. Nela, uma silhueta toma conta do meu espaço, não o espaço que antecede o meu quarto, mas pior, o ambiente próximo à minha cama, de fato.
"Tem um homem no seu quarto... é ele. É ELE!". A voz zombadora insiste em minha mente. Mas ela zomba me revelando sempre a verdade... E o pesadelo não termina.
"Nauärah?", ouço meu nome em um tom de voz viril, firme e suave. Como se um desconhecido me chamasse.
Com muito esforço, quase me debatendo na cama, consigo despertar do transe. Os meus olhos se abrem e, apesar do escuro, a mesma silhueta está aqui. Um homem. No meu quarto. Próximo à minha cama. Não. Não pode ser... Uma figura que tanto temo... entrar dessa maneira no quarto de uma donzela?! Onde estão todos os meus líderes para defender-me agora? Onde estão os guardadores deste lugar? O que mais temo, acontece — estou sozinha e na presença de um homem estranho.
Penso em esticar o meu braço e pegar a minha flecha a poucos centímetros da cama. Parece que eu sabia que seria surpreendida e precisaria usá-la. Mas algo dentro de mim diz que não devo retribuir com agressividade. Ainda assim, estou temerosa, com a respiração ofegante e quase suando frio.
A única solução que encontro é ficar calma e respirar fundo, controlando a situação, como se eu realmente estivesse dormindo, e a figura se esvairá. Caso contrário, fingirei estar morta, porque morta é como desejo estar, se ele fizer algo contra mim.
Lembro-me das cenas perturbadoras há anos. A minha mente parece reviver tudo novamente, sem nada ter acontecido agora, e uma lágrima quente começa a querer chegar.
Espero, respiro e tomo a coragem necessária para encarar a silhueta que também me encara, através do canto dos meus olhos emocionados, e constato: É ele. A mesma figura vista pelas minhas retinas naquela noite através da minha janela. Agora entendo a sensação da sua presença e o cheiro... que exala todo o meu quarto e que odiosamente eu aprecio. Ele fica parado próximo à minha cama, o que faz o meu peitoral ficar arfante pelo medo e denunciar que eu estou acordada. Porém finjo que não estou vendo, então, aperto firme e discretamente o meu cristal caído ao redor do meu pescoço, encolhendo ainda mais o meu corpo, com impotência e medo, debaixo dos lençóis.
Eu não arriscaria dizer uma palavra, mas os meus ouvidos saberiam se, pela sua voz, ele é alguém de confiança ou não — aprendi a identificar tom de vozes. Quem dera seja um bom amigo ou algum guardador deste lugar, caso não, a minha flecha teria que assustá-lo hoje, pois isso não se faz com uma dama deitada em sua cama e com vestes particulares.
Personagens neste capítulo:
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Perfeitos Estranhos - II
Ao entrar pelos umbrais do castelo, fui tomado pela sensação lúgubre da morte […] A atmosfera deste Castelo é sutil e todo ruído da porta principal, o mínimo que seja, é possível ser ouvido…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Ao entrar pelos umbrais do castelo, fui tomado pela sensação lúgubre da morte. Não me lembrava de como havia chegado ali, tampouco me apercebi de qualquer fonte lógica para o terror que me tomava. Certamente essa, e tantas outras respostas, haviam sido postas à sombra do meu ser, um local que, em definitivo, eu não teria acesso neste momento.
O outro fizera exatamente o que sugeri, em sonho. Pela primeira vez minhas sementes haviam dado frutos dentro daquele ser sugestionável e covarde que compartilhava do mesmo corpo, e mente, comigo.
Sem sorrisos, alegrias e quaisquer vestígios de bondade. Aqui, dentro destas paredes cinzentas e cadavéricas, eu me tornaria realizado. Seus mistérios, envoltos nos mais cruéis ardis, seriam o solo fértil para a concretude de meus mais íntimos desejos.
Dentro do Castelo, não havia limites.
Entretanto, da mesma maneira que eu me tornei um predador, outros também predavam neste território. Havia outros escritores, dispostos a alimentar a máquina carniceira que o castelo se tornara. Caçadores e vítimas. O topo e a base da mesma cadeia.
O outro me servira bem. Percorreu uma distância surreal e empreendeu recursos de forma exaustiva para chegar até aqui. Tudo isso sem, sequer, ter certeza dos motivos. Queria tê-lo como amigo, mas uma relação parasitária como a nossa, dispensa quaisquer interesses do tipo. O horror tomaria conta da sua alma se soubesse da natureza do castelo. Por isso precisávamos vir. É dentro destas paredes que o tempo, a lógica e a sanidade se corrompem e recaem sobre si mesmas.
Ainda é muito cedo para especulações. Muito precisa ser feito.
Para minha surpresa, compartilhamos da mesma visão. A figura feminina, misteriosa e distante, de dentro do castelo. Fui tomado pelo seu olhar arrebatador, impactante e desmedido. Pude sentir, mesmo estando à sombra, que meu colega também foi abatido por esse acontecimento. O Castelo brinca com as distâncias, com o tempo e com as emoções, e eu havia começado a ser manipulado por ele, mesmo distante das suas garras. A silhueta, mesmo ao longe, me parecia próxima. O peso de ser observado quase fez minhas costas curvarem.
Bem, tudo, daqui em diante, deveria ser examinado com cautela e inteligência. Tateei os bolsos e encontrei meus óculos. O outro não usava óculos. As lentes estavam imundas, descuidadas e completamente embaçadas. Arrisco dizer, com segurança, que notei um ou dois riscos. A falta de cuidado para com minhas coisas me aborrecia, mas consigo ser empático o bastante para compreender esse dissabor.
As portas se fecharam às minhas costas, em um som seco e amadeirado. Uma pequena nuvem de poeira me abraçou pelas costas e tingiu, gentilmente, toda a minha roupa. Era chegada a hora de explorar os ambientes internos desta obscenidade.
O salão principal era amplo, teto alto e com uma infinidade de caminhos possíveis. Deduzi a direção que deveria seguir para chegar à janela do curioso espectro que me observou enquanto chegava.
...
A atmosfera deste Castelo é sutil e todo ruído da porta principal, o mínimo que seja, é possível ser ouvido, ainda que estejamos em cômodos distantes. Ouço, então, o ranger da colossal porta a se abrir. A minha intuição briga com a possibilidade de não ser tal figura que avistei ao longe nas matas atrás do Castelo.
Apesar de calejada pelas experiências funestas que ocorreram em minha vida, estou intrigada. A curiosidade rouba os meus princípios e todas as regras que eu estabeleci para mim mesma. A voz interior ainda me questiona se devo fazer o que estou imaginando. Mas o meu espírito aventureiro é grandioso demais para recusar os riscos.
Coloco um roupão que me cobre ainda mais, como uma capa em tom canela, escondendo o damanoute que me veste, escondendo o meu corpo quase completamente. “Cuide do teu corpo. Ele é um templo.” A lembrança da voz maior me orientando ressoa na minha mente.
Aproximo-me da porta do meu quarto e abro. O ar gélido do Castelo, bem como o som da antiga música do baile anterior parece ecoar, ainda, em meus ouvidos. Mas não mais do que o som de passos que começam a me confirmar que é aquela figura que vi nas matas.
Do alto, ainda escondida em frente à porta da clássica alcova onde me hospedo, o vejo, vejo mais próximo. A balaustrada traz espaços em filigranas, onde o rosto baixo e reto do homem se encaixa simetricamente. Agora as minhas certezas ganham forças e uma emoção dolorosa me encontra. É a primeira figura masculina que os meus olhos percebem depois de tudo. Os únicos homens cujos quais tenho vivência são os da minha família, vizinhos xamânicos e indígenas da região onde eu estava morando.
Percebo que há muito para relatar sobre esses estudos que resolvi fazer. Mas o que este homem está fazendo aqui no Castelo? Ele veio me importunar? Quase me arrependo de ter vindo para este lugar. Mas seria muito luxo e muita exigência da minha parte que este grandioso recinto hospedasse apenas mulheres.
“Homem”. Respiro. A palavra precisa soar natural para mim. Preciso parar de temê-los. Por que tenho medo deles desta maneira? Nem todos são iguais àquele ser, eu sei, não são.
Encosto-me na balaustrada e a magia do lugar parece querer trazer alguma percepção ou conexão entre mim e a figura masculina. Ainda assim, disfarço bem, para que ele não note a minha presença o observando. Torço, ainda, para que o meu perfume natural não me denuncie, espiando-o na parte alta do Castelo, escondida na balaustrada em frente a alcova.
Quase não respiro, enquanto ele parece se direcionar a um alvo. O que ele vê? Penso em voltar para o meu quarto, antes que essa figura me alcance com o seu olhar. Não quero ser percebida.
Talvez, se eu buscar um arco e uma flecha, eu me sinta mais segura, mas algo dentro de mim pede para não o machucar sem antes saber quem ele é. Pela recepção que tive anteriormente, estou segura. Nem mesmo devo ousar direcionar a lança em sua direção. Não posso. Sinto que não devo. Aqui ninguém me fará mal.
Fico apenas pronta para recuar rapidamente ao meu quarto, se por um acaso ele me perceba. O capuz que cobre a minha cabeça deixaria alguma incerteza para ele, de que talvez eu não fosse um ser tão indefeso assim, como ele percebera da minha janela, ao longe.
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Condenados aos trilhos de ferro, com olhares cansados, | Cabelos bagunçados | Dentre almas sem esperança | Viajando em enganoso momento de bonança…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Condenados aos trilhos de ferro, com olhares cansados,
Cabelos bagunçados
Dentre almas sem esperança
Viajando em enganoso momento de bonança.
Entorpecedor sono que amortece os sentidos
Desejos que se tornam, então, omitidos
Amor que neste chão jaz sepultado
Como produto do próprio resultado
Paixões que nascem e morrem a cada nascer da luz
Aos mais jovens corações seduz
A troca de olhares breves, omissos
Toque que, aqui, se faça inciso
Telas luminosas que entretêm o sentido.
Desprezo, em suma, contido.
Barras frias, corpos amontoados,
A caminho daquilo que foram condenados.
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Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de […] | Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui […]
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Parece que nunca amanhece aqui. Onde estão os raios de sol, para que eu me dirija para as matas lidar com os animais perigosos? Não... eu não estou em meu país — preciso lembrar.
Lentamente, ainda no escuro, levanto-me da maciez dos lençóis de cetim e sinto os meus olhos ainda sonolentos, se ajustando à baixa luz da alcova onde me encontro.
Ao me aproximar da janela deste quarto no antigo castelo, os meus olhos se fixam nos majestosos montes que se erguem ao longe. Lá, entre os mistérios da madrugada, surge uma silhueta, e mais do que isso, uma figura solitária, destacando-se contra o horizonte sereno. Um homem, cujos contornos se misturam com a imponência das montanhas distantes.
Minha feição muda para um possível receio, enquanto observo aquele estranho visitante. Uma sensação indescritível me envolveu, um misto de curiosidade e medo, como se o universo tivesse conspirado para que eu visse alguém a uma hora dessas.
Me afasto do grande vidro, rogando a Tupã que aquilo não tenha me enxergado assim como eu o enxerguei e vou correndo até a porta do quarto conferir se está mesmo trancada. Eu poderia buscar à Olga Nivïttiz, mas preciso me controlar e dominar os meus medos. É só um andarilho, vizinho, talvez. Ou será mais um residente do Castelo? Não, não sou capaz de ver nenhuma figura masculina em minha frente. Bastam todas aquelas pessoas estranhas que vi na grande embarcação cuja qual me trouxe até aqui.
Preciso registrar tudo, tudo, para mostrar aos meus líderes, à minha família. Busco meus papiros e sento-me na escrivaninha que me é possível, próxima ao dossel onde estou descansando, e escrevo, relato, amedrontada, mas o faço.
Meus lábios se entreabriram, tentando questionar tudo isso comigo mesma, mas nenhuma palavra escapa deles. Eu permaneço aqui, imóvel, como se temesse que qualquer movimento pudesse dissipar a visão diante de seus olhos.
O vento que escapa de uma fresta discreta brinca suavemente com as cortinas de renda, criando uma dança etérea ao redor dela, enquanto meus pensamentos se perdem na figura misteriosa lá fora que eu acabo de vislumbrar.
Eu posso sentir a pulsação do meu próprio coração, cada batida ecoando no silêncio da madrugada. O desconhecido nos montes parecia tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante. Uma inexplicável sensação de conexão se estabeleceu, como se “aquilo” pudesse compreender-me ou, até mesmo, ter vivido uma história similar à minha. Muitas vezes, histórias se cruzam e eu preciso parar de temer as pessoas, preciso parar de pensar que todos os seres masculinos são diabólicos e monstros. Talvez até eu ganhe um amigo-irmão um dia. É o que vibra em meu coração, como se houvesse um fio invisível de verdade. Para isso eu preciso parar de acertar homens com a minha flecha. Não farei mais isso. Não aqui. Com ninguém. Prometo para mim mesma.
Com um suspiro involuntário, me aproximo novamente da janela e não mais o vejo. Será alucinação? Alucinose? Ele desaparece dos meus olhos, mas a imagem do homem nos montes permanece gravada em minha mente. E se ele se aproximou do castelo e conseguiu entrar? Fecho os olhos, como se assim eu sentisse mais veracidade e sensibilidade no ambiente e percebo que ele pode ter adentrado no castelo. Ele está presente neste lugar, sei que está. Olho novamente para a porta e me acalmo. Por mais presente que aquela criatura Indecifrável esteja, ela não será capaz de adentrar às portas das alcovas particulares deste grande recinto.
O mistério daquele quase encontro noturno paira no ar, deixando-me ansiando pelo desenrolar dos acontecimentos que o destino reserva para mim neste castelo.
...
Descrença e desconfiança. Foram esses os princípios que me trouxeram aqui. Abracei o incerto, o irreal, abandonando minha vida anterior atrás de algo que, à princípio, me parecia um mero devaneio, mas agora é angustiantemente verdadeiro.
Juntei todas as economias que pude, me desfazendo de todos os bens que me cabiam, para poder partir com todos os recursos possíveis. Após dias e mais dias de uma jornada cruel e longa, cheguei a um pequeno povoado. Muitos idosos, poucos adultos e nenhuma criança. Este último fato me causou um desconforto visceral e inesperado.
Eu deveria esperar pela carruagem que me levaria pelo último trecho do meu caminho.
Os moradores mal se dirigiam a mim, e quando eu os forçava, por meio de minhas diversas e invasivas perguntas, eles condensavam suas respostas ao mínimo possível, apenas me indicando onde esperar pelo cocheiro.
O povoado era pequeno, bem pequeno para os meus padrões. Úmido, escuro, quase pútrido. Não esbarrei com uma dúzia de pessoas, o que me causou uma estranheza exponencial.
Conforme o esperado, a noite chegou, e o cocheiro também. Eu seria seu único cliente, se é que posso me identificar desta forma. O sujeito vestia um manto escuro, denso, velho e maltratado. Era pouco mais baixo do que as outras pessoas que observei, embora sua estatura reduzida não condissesse com sua força sobrenatural, a qual demonstrou ao erguer minha única mala, desprezando totalmente o peso exagerado.
A viagem seguiu sem maiores intercursos. Não trocamos palavras, nem olhares, nem coisa alguma. Seguimos floresta adentro, por uma trilha que mal era visível. Me questionei quantas vezes ele teria realizado aquele caminho… Inúmeras, talvez.
Após uma subida íngreme e desleal, ele parou. Senti uma estranha angústia descer pela garganta e tomar conta do meu estômago. Não o vi descer do banco frontal, tão pouco ouvi retirar minha mala de trás da diligência. Abriu a porta lateral e fez menção para que eu saísse. Senti que, se ousasse desafiar sua sugestão, seria estripado e largado à própria sorte. Estava acuado, como uma presa indefesa, mas segui a ordem.
Não pude localizar o povoado, nem me esforçando para tal. A floresta era densa e escura, iluminada por poucos pontos de luz, espaçados, que indicavam a presença de lamparinas. No segundo seguinte, tanto a diligência quanto o cocheiro haviam desaparecido, sem deixar rastro ou som algum. Nada ali fazia sentido, tão pouco o que eu presenciei em seguida.
O Castelo erguia-se imponente, tal como uma entidade sobrenatural, atemporal e titânica. A morte reinava em cada torre, cada quarto, cada porta e janela. Tudo me causara terror, mas não o terror que eu já conhecia, e que escrevia em minhas obras, mas sim um terror feroz, cruel, brutal, rígido e ávido por sangue.
A ânsia e o desespero congelaram cada músculo do meu corpo, de forma que levei alguns segundos, ou horas, para me recompor. Minha cognição estava prejudicada, talvez pela longa viagem, talvez pelo espanto, talvez pela falta de tabaco.
Balancei a cabeça, tentando me ater ao último fio de sanidade que me restara. Foi quando meus olhos me pregaram uma peça cruel.
Pude ver, dentro do Castelo, uma figura feminina. Sim, claramente uma mulher. Soube, dentro do meu ser, que ela também havia me visto, apesar da generosa distância entre nós.
Havia vida dentro daquelas paredes, restando-me descobrir que tipo de vida era aquela. Poderia, também, ser uma penosa e bem delineada armadilha. Eu poderia estar sendo guiado para um abatedouro, destinado ao fim mais mórbido que meu lado pessimista pudesse imaginar.
Antes que eu pudesse conceber qualquer pensamento concreto, a figura desapareceu, fechando as cortinas da janela. Ela era real. Real e viva, tão viva quanto eu. Fora este o momento oportuno para que eu pudesse recobrar o controle sobre minhas pernas e caminhar em direção à porta do Castelo.
Faço uma pequena e rápida prece aos deuses e bato à porta.
Ela se abre sozinha.
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Rainha
Que tipo de presa seria, oh nobre e cruel rainha, se me entregasse por completo aos teus lascivos caprichos? Que tipo de serva seria se buscasse tua boca…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Que tipo de presa seria, oh nobre e cruel rainha, se me entregasse por completo aos teus lascivos caprichos? Que tipo de serva seria se buscasse tua boca, perigosa, cruel, ácida e ávida, ao invés de buscar proteção? Sou vítima, sim, de seus feitiços e encantos, mas uma vítima desejosa em satisfazê-la.
Gostaria de me deitar sobre tua pele, branca como a morte, fria como gelo, e deleitar-me com tua doçura mortífera e devastadora. Que sou para ti? Uma filha, escrava ou amante? Não vim ao mundo pelo teu ventre, que há muito não cultiva mais vida, mas sinto em meu cerne que derivo de vossa vontade.
Como, questiono repetidamente, exala tamanho vigor e luxúria, enquanto veste o manto da incompreensão e da impenetrabilidade? Sinto um medo visceral, íntimo, quase vivo, que desafia meus mais preciosos instintos de preservação.
Me busca com sua língua macia, como se soubesse decifrar meu dialeto, me lendo por inteira com seus dedos úmidos e impiedosos.
A noite é nossa casa, a escuridão nosso lar, e da mesma forma que o dia nasce, nosso amor também findará um dia.
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Dentro dos domínios pungentes da sanidade, me perco por inteiro. A eterna precipitação das cinzas assenta-se em camadas cada vez mais grossas sobre o solo,…
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Dentro dos domínios pungentes da sanidade, me perco por inteiro.
A eterna precipitação das cinzas assenta-se em camadas cada vez mais grossas sobre o solo, encobrindo qualquer vestígio de vida. Nesta floresta monocromática somente a eternidade e a amargura permanecem.
Negras, carbonizadas, jazem as árvores. Emissárias da degeneração infindável e moradia daqueles que desistem de buscar os limites da Floresta.
Em movimento, as cinzas não condensam, mas basta um único segundo inerte para sentir o ímpeto lúgubre da ruína que recai sobre tudo.
Aqui, firmo eu, meus pés, sitiado entre o intérmino vazio e o descorado solo que se compõe.
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Novamente sinto o sabor pecaminoso em seus lábios vitrais. Como um beijo seco recebo em meu âmago a doçura ébria que somente teu…
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Novamente sinto o sabor pecaminoso em seus lábios vitrais. Como um beijo seco recebo em meu âmago a doçura ébria que somente teu corpo esguio pode fornecer. Meu corpo, por sua vez, é arrebatado pela serenidade, como se cada músculo, cada tecido, cada ínfima parte de meu ser deixasse cair ao chão o fardo que carregou por toda a vida.
Oh doce brandura, trajada em belo vestido tinto, basta somente um gole audacioso para que o armistício para com as adversidades tenha início.
Em sua metade já me deixei abater por sua insensatez. Em sua completude me entrego por inteiro aos seus desejos.
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Com as mãos trêmulas, levo mais um copo de whisky à boca. O sabor forte afoga minha língua e anestesia a sensação…
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Com as mãos trêmulas, levo mais um copo de whisky à boca. O sabor forte afoga minha língua e anestesia a sensação de desespero e pavor que toma conta do meu ser.
Sou incapaz de descrever o medo visceral que sinto. Estou congelado, petrificado em frente ao computador, com uma tela de busca aberta. Facilmente eu seria tido como tolo por qualquer ser existente neste mundo, mas as coordenadas que recebi durante meus sonhos apontam para um local real. É anti-natural acreditar que isso seja verdade, mas assim o é!
Já há alguns meses tenho tido sonhos cada vez mais vívidos. Um anfitrião (ou anfitriã?) me convoca a sua casa, ao seu Castelo, onde devo produzir uma grande obra em sua homenagem. Durante os primeiros sonhos a figura se mostrava distante, observadora, mas aos poucos passou a ficar cada vez mais próxima, chegando ao ponto de me estender as mãos pálidas e esguias. Pude ver a pele cinza, pútrida, com ossos quase aparentes, que causou uma repulsa intrínseca ao meu ser.
Durante o último sonho, recebi ordens concretas de me dirigir a sua residência sem maiores delongas. Inclusive a figura agora vestia um grande manto negro e surrado. Por uma pequeníssima fração de segundo, pude ver seus olhos de cor púrpura, tão profundos e famintos quanto o próprio inferno. Fora me informado as coordenadas, com exatidão. Acordei em sobressalto e resolvi escrever os números antes que acabasse esquecendo.
Agora, pela manhã, me propus a pesquisar, por mera curiosidade e para poder, finalmente, dormir em paz.
Estou em estado de choque, como nunca estive antes. O local é real, o Castelo é real, ele existe tal como meu computador, minhas anotações, minha casa… Ele reside lá, no topo da montanha, com sua majestade brutal e melancólica. O musgo em seus muros como seu manto. As torres como sua coroa.
Já tive que lutar contra meu café da manhã para que continuasse onde está, além de dividir espaço com as três ou quatro doses de whisky que tomei.
Nada reduz o tremor, o espanto, a amargura, a angústia… Desejo ao mesmo tempo tanto me esconder quanto ir até lá!
Bem, deixarei aqui este registro, para que saibam que resgatei minhas economias, reuni tudo que pude e partir para aferir se é possível existir alguma verdade em tal abismo de descrença e loucura.
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As mulheres e crianças liberdade receberam | Podendo viver, livres, sem receio; | Pedra seus corações se tornaram, | Na cidade onde os homens nada falam…
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As mulheres e crianças liberdade receberam
Podendo viver, livres, sem receio;
Pedra seus corações se tornaram,
Na cidade onde os homens nada falam
Bocas rosadas e juvenis contam
Histórias antigas suas narrativas remontam
O doce sono da morte embalam
Na cidade onde os homens nada falam
O silêncio pútrefo impera regente
No coração de um movimento final, emergente
Solo bélico que poucos tocaram
Na cidade onde os homens nada falam
Por guerras sem sentido a trama fora marcada
Um clássico de frieza rebuscada;
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Na cidade onde os homens nada falam.
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Flertando a beira do abismo…
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Se eu pudesse me dobrar ao seu sorriso
Lábios vermelhos, repletos de mistério
Flertando a beira do abismo
Me perdendo sem nenhum tipo de critério
Quantas mentiras seus olhos ocultam
Oh, dama de beleza distinta
Palavras que a muitos insultam
Quadro belo, colorido com tinta
Rosto corado, jovem e ardente
Sua doçura abundante se dispõe
Através de palavra cuidadosa, prudente
A alma de muitos, com facilidade, transpõe
Quisera eu, a eternidade com ti compartilhar
Mesmo que isso a morte significasse
Tudo que possuo posso lhe doar
Para cair, voluntariamente, dentro de seu enlace.
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O Paciente das 18h
Todos os acontecimentos aqui narrados aconteceram entre o verão de 2020 e o inverno de 2021. Resolvi reunir todos meus registros sobre o caso, cada nota, cada página…
MidjourneyAI
Todos os acontecimentos aqui narrados aconteceram entre o verão de 2020 e o inverno de 2021. Resolvi reunir todos meus registros sobre o caso, cada nota, cada página de meu diário, cada mensagem trocada, cada relato, a fim de que outras pessoas possam se proteger daquilo que eu mesma, infelizmente, quase não pude.
Mesmo após anos de carreira e estudo, podemos nos surpreender por pacientes com demandas muito… singulares, eu diria. Apesar de todo o preparo que recebi para não impor minhas crenças, conceitos e princípios às pessoas que atendo e que buscam meu consultório, devo admitir que nunca fui tão desafiada, tão pressionada, tão questionada quanto fui com o último paciente que atendi como psicóloga clínica.
Antes de começar sua leitura, preciso que acredite em cada palavra que escrevi, pois, todas são verdadeiras, mesmo aquelas que pareçam impossíveis ou carregadas de angústia e desespero. Mesmo que não acredite, peço que se mantenha atento, afinal, existem seres que se parecem conosco, falam como nós, se comportam e, talvez, até um dia tenham sido mesmo pessoas comuns, mas hoje estão além de qualquer atribuição comum — embora eu creia que até exista uma, porém ela é fantasiosa demais para ser escrita aqui.
Não se deixe seduzir. Não se deixe levar pelo desejo ou pelos gracejos. Isso pode custar sua vida.
5 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Dei por encerrados os atendimentos do dia. Já era tarde e eu precisava liberar Laura, secretária da clínica, para ir descansar. Não lembro ao certo, mas creio que atendi mais de quinze pacientes hoje e estou exausta. Me despedi dela, desejei um ótimo final de semana e disse que eu mesma fecharia a clínica.
Desliguei as luzes do consultório, guardei meu caderno e notebook na bolsa. Fechei a porta. Fui à recepção, acionei o alarme, tranquei a entrada no tempo de o alarme se armar.
Meu carro estava, como de costume, em frente à clínica. Entrei, joguei a bolsa no banco do passageiro e resolvi verificar as mensagens do celular. Havia, como sempre, mensagens de alguns pacientes (que Laura prontamente responderia na segunda-feira de manhã) e pouquíssimas mensagens pessoais (somente minha mãe comunicando um almoço em família, o que eu certamente ignorei).
Me dei conta de que a rua estava muito vazia e silenciosa, então resolvi guardar o celular dentro da bolsa e colocá-la debaixo do banco.
Pessoalmente não acredito em instinto, ou algo parecido, mas fui abatida por uma sensação estranha. Angústia, medo, como se eu estivesse sendo observada. Olhei ao redor, através dos espelhos do carro, porém nada encontrei. Resolvi ignorar. Liguei o carro e voltei para casa, que fica há poucos minutos da clínica.
Como sempre, sem trânsito.
Ao chegar em casa atualizei os registros de alguns pacientes e dei meu trabalho encerrado por hoje.
Uma taça de vinho é minha companheira enquanto escrevo essas páginas.
7 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Ontem descansei como não fazia há muito tempo. Fui ao parque, caminhar pela manhã. Passei o restante do dia lendo e vendo alguns filmes.
Hoje cheguei antes do horário. Abri a clínica como de costume e fiz café. Laura chegou pouco depois de mim. Ela é sempre muito prestativa e companheira. Está cursando psicologia e, assim que se formar, quer atender junto comigo, aqui mesmo. Fico feliz de tê-la ao meu lado.
Como sempre, tive a agenda cheia até tarde da noite.
Meus pacientes são, em sua maioria, adultos, embora eu atenda alguns adolescentes, casais em processo de divórcio, executivos à beira de um burnout, jovens que em breve irão prestar vestibular… é uma diversidade muito grande de casos.
O último paciente do dia desmarcou em cima da hora. Isso é raro de acontecer. Mesmo assim, eu e Laura ficamos na clínica, conversando sobre o andamento da faculdade dela. Estava no quinto semestre e tirava ótimas notas.
O telefone tocou. Interrompemos a conversa, as risadas, e eu mesma atendi.
A voz ao telefone era de um homem, muito sereno e quase alegre por falar diretamente comigo. Ele disse que gostaria de marcar uma consulta para aquele mesmo momento. Eu disse que, infelizmente, não havia mais horários disponíveis para hoje, mas que poderíamos marcar para o dia seguinte, logo cedo. Ele foi categórico, quase contrapondo a postura que tinha até então, e me perguntou se haveria algum horário depois das 18h. Confirmei a disponibilidade e ele ficou feliz novamente. Disse que estava ansioso em me conhecer. Nos despedimos e liberei Laura.
Ao voltar para casa, mantive meu hábito de atualizar alguns prontuários.
Logo fui invadida pela lembrança daquela ligação. Um novo paciente. Mesmo após anos de profissão, ainda fico um pouco ansiosa quando alguém novo aparece. Meus pacientes estão todos comigo há muito tempo e, geralmente, minha agenda não comporta mais, então eu encaminho para outros profissionais, amigos da faculdade.
Por sorte, eu diria, havia um último horário disponível para o dia seguinte.
Vou preparar a ficha dele e dormir.
8 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Pontual, exatamente às 18h, ele chegou à Clínica e tocou a campainha. Eu sei, pois, Laura me contou, dado que a campainha só toca na recepção. Eu estava encerrando um atendimento naquele instante. Laura o recebeu e, mais tarde, quando estávamos a sós, ela me disse que, mesmo após abrir a porta para o homem, ele esperou. Fitou os olhos e a entrada da clínica, como se esperasse um convite. Ela então disse para ele entrar e ficar à vontade, pois logo seria atendido. Assim, abrindo um sorriso, o homem agradeceu e entrou.
Seus cabelos eram curtos e muito bem cortados. Seus olhos eram castanhos, num tom avermelhado que eu jamais havia visto. Seus dentes eram incrivelmente brancos e sua pele bem cuidada.
“Raphaël” era seu nome, exatamente como escreveu na ficha. Deve ter origem francesa ou algo do tipo.
Vestia um belíssimo terno. Sapatos engraxados e a camisa aberta, sem gravata.
— Ah, doutora! É um grande prazer conhecê-la! — E me estendeu a mão, em cumprimento. Eu aceitei sua oferta e imediatamente senti seu aperto de mão firme e seguro, como poucos homens costumam fazer.
Eu o levei até a porta do consultório e fiz menção para que entrasse. Ao entrar, logo após ele, senti um vento gelado que me fez arrepiar. Muito provavelmente veio da janela que deixei aberta, dentro da sala. Por um instante, ele parecia uma criança, curioso e fascinado com tudo que via. Ficou parado por alguns segundos, no meio da sala, enquanto eu fechava a porta.
— Onde devo me sentar? — Perguntou, olhando para as duas poltronas disponíveis. — Onde achar melhor.
Ele olhou mais um pouco e decidiu, como quase todos os pacientes, a sentar-se na mais próxima. Eu me sentei na outra poltrona, de frente para ele.
Ele estava realmente encantado com tudo que via, desde a estante repleta de livros até a mesa de centro.
— As pessoas choram muito aqui? — Perguntou, ao ver a caixinha de lenços na mesa de centro. Eu não respondi, especialmente porque ele não pareceu dar atenção à própria pergunta que fez.
— Então, como começamos? — Ele cruzou as pernas, se apoiou confortavelmente e me olhou nos fundos dos olhos, ansioso.
— Quer falar um pouco de si? — Eu faço uma pergunta simples, para que o paciente comece a elaborar a partir daí.
— Sempre tive muita curiosidade para saber como era dentro de um consultório, para saber como tudo isso funciona. As pessoas entram, falam sobre suas vidas e saem bem. Não sei que tipo de magia é essa que os psicólogos possuem, mas estou interessado nela. — Ele respirou profundamente. — De toda forma, não é sobre isso que vim falar. — Um pequeno silêncio pairou sobre nós — Eu li muitos livros, muito mais do que consigo contar. Tenho uma coleção tão grande quanto a sua. — E apontou para trás, para a estante.
— Sobre o que você lê? — Perguntei, novamente.
— Ah! Muitas coisas! Sou um homem muito curioso. A curiosidade nos mantém entretidos! — Seus olhos brilharam. — A curiosidade mantém uma mente ocupada, e uma mente ocupada é uma mente saudável, não é? — Então, me olhou novamente nos olhos, buscando uma resposta. Com um gesto, concordei. — Eu li seu currículo.
A fala soou estranha e desprendida, mas não era raro novos pacientes pesquisarem por mim na internet. As pessoas gostam de saber para quem estão olhando.
— Excelente formação acadêmica. Diversas pós-graduações. Pesquisas sobre prevenção ao suicídio… acredito que você é a pessoa perfeita para me ajudar.
Aqui a sessão tomou outro rumo. O paciente descruzou as pernas, se projetou para frente e, com os dedos entrelaçados e apoiados no queixo, me olhou ainda mais profundamente nos olhos.
A essa distância pude ver que seus olhos, sob a luz do consultório, eram mais vermelhos do que eu pensara ter visto.
— Eu tenho tido sonhos… como não tinha há muitos e muitos anos. — Com o que sonha? — Sonho que estou sendo perseguido. É dia e o sol queima no céu. Eu corro tentando me proteger, enquanto uma turba me persegue, armados. — Ele faz uma pausa, quase desconfortável, e continua — Eu não sonho, e não deveria sonhar. — Por que não deveria sonhar? — Pergunto. — Eu… não durmo o suficiente para sonhar. Para entrar naquela profundidade de sono onde os sonhos nascem, você entende. — A resposta parecia inventada de última hora, e soou falsa. — Como o sonho continua? — Ah! A curiosidade do psicólogo… bem, eu me sinto incapaz de continuar a fugir. Eu poderia, em outras circunstâncias, facilmente lidar com todos eles, mas, por algum motivo que me foge da compreensão, não consigo! Então eu sinto… — Ele parou, apreensivo. Alguns segundos se passaram, que pareceu verdadeira eternidade — Eu sinto medo.
O paciente transpareceu uma expressão de pesar. Então, se levantou. Caminhou pela sala, correndo as mãos e os dedos pelos móveis. Parou em frente à estante.
— Freud… Jung… Lacan… — Se referindo aos autores. — Você não lê fantasia? Romances? — Novamente, não respondi. Era claro que ele se esquivava constantemente dos reais motivos que o levavam até ali. O pensamento sobre medo o perturbou ao ponto de se levantar e buscar comentar sobre qualquer outra coisa.
Olhou o relógio em seu pulso e disse, em tom surpreso, que já precisava ir.
— Mas ainda temos trinta minutos… — Acredito que já progredimos o bastante por hoje. Foi um prazer conhecê-la! Posso voltar neste mesmo horário, na semana que vem? — Vou confirmar e te retorno até amanhã cedo. — Que assim seja! — Respondeu abrindo a porta e partindo.
Confesso que fiquei intrigada com aquele comportamento. Em raras situações vi pacientes evitarem tão arduamente determinados assuntos. Ele simplesmente saiu, incomodado com suas próprias palavras. De toda forma, semana que vem ele voltará, e poderemos progredir.
8 de dezembro
Nota retirada do caderno de Laura
Vi o novo paciente sair às pressas do consultório, no meio da sessão. Ele parecia apressado para algum compromisso. A doutora nada disse sobre, apenas me dispensou mais cedo e fechou, ela mesma, a clínica.
Aqui, na faculdade, não consigo me concentrar na aula, então resolvi escrever.
Antes de sair, ele parou ao lado da porta, abotoando o último botão do paletó. Me levantei e fui abrir a porta para ele. Quando toquei a maçaneta, senti sua mão quente sobre a minha. Um arrepio gelado me subiu pela espinha quando vi seus olhos fixados aos meus.
Só pude fingir constrangimento e pedir desculpas. Ele se despediu e saiu, me desejando boa noite.
14 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Outro dia repleto de atendimentos. Cheguei em casa há poucos minutos e estou exausta. Só percebi agora que sequer almocei. Estou um pouco tonta.
Antes de dormir, vou atualizar alguns prontuários e preparar as coisas para amanhã.
14 de dezembro — Mais tarde, naquela mesma noite
Diário da Dra. Camila
É incrível como podemos ser vítimas de diversos acontecimentos quando estamos em um estado de exaustão. Agora pouco eu poderia jurar, com toda a minha convicção, que ouvi três batidas na porta. Levantei, assustada, e me aproximei. Não ouvi nada lá fora. Voltei a dormir.
15 de dezembro
Diário da Dra. Camila
O paciente Rafael (não vou me acostumar a escrever “Raphaël”) voltou, como era esperado. Antes dele entrar, percebi que Laura estava um pouco pálida, mas ele adentrou o consultório antes que eu pudesse perguntá-la se tudo estava bem.
O paciente se sentou e começamos a sessão.
— Peço desculpas por ter saído às pressas na semana passada. Me dei conta de que estava atrasado para um compromisso que não poderia deixar de comparecer.
— Tudo bem… E como foi a semana?
— Creio não ter te contado, mas me mudei recentemente. Vim para São Paulo lidar com questões familiares, eu diria.
— E como tem sido a adaptação?”— Perguntei.
— São Paulo é uma cidade enorme… Muitas pessoas e todas elas muito… agitadas. A cidade não dorme, como dizem por aí, e eu gosto bastante disso. — Ele fez uma pausa, como se procurasse uma forma de expressar algo. — A senhorita costuma sair à noite? — Perguntou. Respondi que não tinha esse hábito desde antes da faculdade. — É uma pena. A noite reserva diversões bem… peculiares… sobre o sonho, gostaria de falar mais sobre ele.
Eu tinha certeza de que ele voltaria a esse assunto, uma hora ou outra, mas não esperava que fosse tão rápido.
— Ele continua, quase todos os dias… Eu sou perseguido, sem chance de reagir, e quando estou acuado eu acordo. — Perguntei a ele que sentimentos este sonho trazia. Ele parou e refletiu, por um bom tempo. Eu esperava que a palavra “medo” surgisse novamente. — Não sei dizer. — Respondeu, com os olhos fixos no chão.
— Angústia? Raiva? — Sugeri.
— Ah, não! Eu não vivencio tais sentimentos há mais tempo do que consigo lembrar!
— Ser perseguido e atacado deve trazer sentimentos ruins… — Sugeri novamente.
Ele esboçou um sorriso tímido, o suficiente para mostrar seus dentes incrivelmente brancos.
— Sim, deveria! Mas eu não os tenho, como te disse. Não sei dizer o que sinto.
— Percebo que o que te preocupa mais é o fato de sonhar do que o sonho em si.
Ele cerrou os olhos, que agora pareciam castanhos novamente.
— Creio que você tem razão… E digo mais! Creio que ambos os fatos são estranhos para mim! Afinal, sequer me lembro do último sonho que tive, além deste. Por que deveria eu sonhar agora? Seria um aviso, como alguns acreditam? Uma premonição vinda do inconsciente? Um receio guardado tão profundamente que só veio à tona agora? O que acha? — Disse, empolgado.
— Freud dizia que… — Comecei, até ele me interromper abruptamente.
— Eu sei o que Freud dizia! Já li todas as suas obras, mais de uma vez. Tomei a liberdade de pesquisar muito sobre o assunto antes de vir procurá-la. Sonhos são a manifestação do inconsciente, não? É através deles que nossos desejos reprimidos vêm à tona, mas numa linguagem que não entendemos.
Então, ele se aproximou, sentando na ponta da poltrona, projetado na minha direção.
— Eu sei o que os livros falam, doutora, mas eu não quero ouvi-los, quero ouvir a senhorita.
A voz dele se tornou ríspida, árida e desafiadora. Ele queria uma resposta, uma solução, mas somente ele poderia encontrá-la.
— Sonhar é normal e comum a todos, desde que você tenha uma boa noite de sono. — Respondi, e continuei — Agora, por que acha que as pessoas o perseguem?
Ele voltou a se recostar na poltrona, mais relaxado.
— No sonho, você diz? — Perguntou, então confirmei com um gesto.
— Ah, sim! Eles têm medo! — Respondeu, quase rindo novamente.
— Eles sentem medo?
— Sim! Sentem! Posso ver isso em seus olhos enquanto estão furiosos atrás de mim. Medo, doutora, o mais profundo e visceral medo, eu diria!
Neste ponto, acredito que o paciente esteja projetando seus próprios sentimentos, por mais que os renegue, aos seus perseguidores.
Um vento gelado entrou pela janela, me fazendo arrepiar. Levantei-me e a fechei.
— A noite está linda, não está? — Perguntou, atento a cada movimento meu.
Quando sentei e fiz menção de continuar, ele se levantou.
— Veja só! Preciso partir. Creio que avançamos o suficiente!
Sessões tão curtas e breves não permitem um bom progresso. Sugeri marcamos mais cedo para a próxima semana, sugestão que foi negada prontamente por ele.
Saiu às pressas, assim como na semana passada.
15 de dezembro
Nota retirada do caderno de Laura
O mesmo paciente voltou. Novamente, saiu rápido do consultório, poucos minutos depois de entrar. Parou em frente à minha mesa e tirou um envelope pardo. Disse que ali havia dinheiro suficiente para quitar sua dívida e adiantar as próximas sessões.
Quando peguei o envelope, enquanto abria, me dei conta de que o paciente não estava mais lá. A porta estava entreaberta e não percebi quando saiu. Me sinto inquieta.
21 de dezembro
Diário da Dra. Camila
O Natal se aproxima. Minha mãe insiste que eu vá às comemorações da família, mas não me sinto à vontade para isso. Todos os anos é a mesmíssima história: jantares chatos, comentários desagradáveis e uma competição estranha por “sucesso”.
Este ano acho que vou abrir uma garrafa de vinho em casa e maratonar alguma série. Preciso descansar…
21 de dezembro — Mais tarde, naquela mesma noite
Diário da Dra. Camila
Isso deve ser uma piada! Ouvi as mesmas três batidas na porta há poucos minutos. Acordei num sobressalto e fui, com uma faca, até a porta. Novamente, ninguém. Deve ser algum engraçadinho tentando me assustar.
22 de dezembro
Registros pessoais do policial Jonathan
Essa cidade é uma merda. Toda noite é uma novidade… agora os viciados começaram a matar animais! Toda noite aparecem mortos um… dois… às vezes até três animais de rua.
Imagina ter que limpar essa merda toda… todo dia uma novidade!
Se não forem os viciados deve ser algum desafio entre jovens ou sei lá. Se essa porra continuar vou ter que abrir uma investigação, e como sempre vai sobrar pro meu rabo.
22 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Estive cheia de atendimentos e o dia passou rápido. Atendi o penúltimo paciente antes do horário e fiquei esperando as tão aguardadas 18h.
Fui ao banheiro e voltei. Perguntei a Laura se nosso paciente havia chegado, ela disse que ainda não.
— Ora, perdoem minha falta de modos!
Não tenho ideia de onde ele veio, mas estava na porta do consultório, com os braços cruzados, quase impaciente. Tentei esconder o susto, mas creio que meu semblante tenha transparecido.
— Como a porta estava aberta, tomei a liberdade de entrar. — Disse, sereno.
— Ah, tudo bem! Vamos entrar… — Meu coração ainda estava acelerado pelo susto e vi, pelo canto do olho, Laura quase que paralisada pelo acontecimento.
Antes de entrar, peguei um copo d’água na recepção.
— Noite quente? — Perguntou, quase que em deboche. Não respondi e fiz menção para entrarmos, fechando a porta em seguida.
Ele se sentou na mesma poltrona de antes. Cruzando as pernas e entrelaçando os dedos. Sentei-me e perguntei como havia passado a semana.
— Ah, muito bem. Tenho me acostumando cada vez mais com a cidade grande, me sinto vivo! — Disse, transparecendo uma empolgação que eu, poucas vezes, vi antes.
Reparei, novamente, em seus olhos. Estavam mais vermelhos e menos castanhos que da última vez, deve ser a iluminação da sala.
— Doutora, preciso perguntar uma coisa. — Então, assumiu a clássica postura projetiva, sentando-se na ponta da poltrona e se inclinando sobre a mesa de centro. Pegou a caixa de lenços e começou a lê-la.
— Você já desejou a morte? — A pergunta foi fria e direta.
— Não, nunca. — Respondi, o mais calmamente possível.
— Ah, que bom! Pois eu a desejei por várias vezes. — Disse, com uma calma que eu jamais pensei em ver em alguém que admitia, abertamente, pensamentos suicidas.
— Está dizendo que já desejou morrer?
— A grande surpresa aqui é a senhorita nunca ter desejado a morte! Mas não é esse o ponto… O ponto é que lembro com clareza de quando isso aconteceu. Faz tanto tempo que por pouco não esqueci por completo. — Soava estranho ouvir tantas vezes menções a acontecimentos tão distantes, sendo que ele havia relatado ter apenas trinta anos de idade. Mantive a atenção e o foco na narrativa. — Eu estava distante, muito distante, na Itália. Já conheceu a Itália doutora? — Neguei com um gesto, e ele continuou — Uma pena! A Itália possui lugares onde eu facilmente escolheria viver até o fim dos tempos!
— Você disse que foi lá que os pensamentos sobre morte começaram… — As respostas iriam aparecer.
— E sim, de fato foram! Reflita comigo, doutora, quando você observa algo tão lindo, por tanto tempo, poderia este algo permanecer tão belo quanto a primeira vez que seus olhos pousaram nele? Claramente não! A experiência, o momento, é único e, após perdido, jamais retorna. Foi exatamente aí que percebi que lugar algum neste planeta me faria feliz pelo tempo que desejo.
— Então você pensou em morrer?
Ele riu alto.
— Talvez! Ou teria sido antes? Não sei dizer…— Como sempre, se recostou na poltrona, voltando a relaxar. — Quando você vive sem medos, doutora, a vida se torna um tédio infindável. Hoje, nada me falta. Aprecio meu trabalho e o faço com prazer. Possuo uma casa grande o suficiente para me acomodar por muito tempo. Possuo fortuna abundante herdada de meu pai. Que mais ei de querer?
Agora o cenário começa a se desenhar. Ele é um herdeiro entediado e começou a refletir sobre a vida.
— E como é sua relação com esse pai? — Estamos progredindo.
Ele deu de ombros, com um sorriso no canto da boca.
— Eu mal o conheci. Tivemos um relacionamento intenso e extremamente curto, eu diria. Depois disso, nunca mais o vi. Recebi um comunicado quando ele morreu, me declarando herdeiro de todas as suas poses. Eu era jovem e creio ter aproveitado muito bem as oportunidades que me foram dadas. — Senti um tom amargo e pesado em sua fala. Tive receio de que desse a sessão por encerrada e tentei buscar mais respostas.
— Você relaciona o tédio com a morte. — Quando eu disse, ele rapidamente me olhou nos olhos, focado. — Como se o tédio fosse te consumir e tirar de você a vida. — Arrisquei. Ele refletiu em silêncio por alguns minutos. É um dos poucos pacientes que sustém o silêncio, a maioria se sente incomodado e fala o que vem à cabeça.
Levantou-se devagar, pensativo.
— Veja só, que horas são. Preciso partir. Retomamos na semana que vem? — Eu disse que vamos entrar no pequeno recesso de Natal e ano novo, e que vamos retomar na primeira semana de janeiro. Ele não pareceu satisfeito, mas concordou.
22 de dezembro
Nota retirada do caderno de Laura
Beleza, tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Aquele cara simplesmente apareceu do lado de nós duas! A porta não estava aberta, eu tinha acabado de olhar pra ela uns, sei lá, dois segundos antes disso tudo!
Eu não suporto aqueles olhos vermelhos me olhando…
24 de dezembro, véspera de Natal
Diário da Dra. Camila
Me permiti ficar em casa, em paz e tranquilidade. Já separei o vinho, os salgadinhos e a série. Quero dormir até tarde e descansar.
24 de dezembro — Mais tarde, naquela mesma noite
Diário da Dra. Camila
Devo ter caído no sono sem perceber, ou o vinho me derrubou. Não tenho ideia como, mas acordei de pé, de frente para a porta, e ela estava aberta. As chaves estavam na minha mão. Será que tive um episódio de sonambulismo? Isso nunca me aconteceu antes. Depois preciso perguntar para mamãe se existe histórico disso na nossa família…
É surreal a sensação de acordar e estar de pé, quase saindo de casa. Mal posso imaginar o que poderia ter acontecido.
Bem, chega de vinho nos próximos dias.
25 de dezembro — Natal
Registros pessoais do policial Jonathan
Odeio trabalhar no Natal, mas prefiro isso do que ter que trabalhar no Ano Novo. Ninguém merece.
Estou na delegacia, tomando um café enquanto vejo o noticiário da madrugada. O caso dos animais mortos só piora e, pra melhorar tudo, agora uma pessoa apareceu morta! Deve ter algum cachorro ou outro bicho andando por aí, porque o corpo tinha as mesmas marcas que encontramos nos animais, como se fossem pequenos furos no pescoço. Será que tem um morcego andando por aí? Mas que caralho de morcego conseguiria matar uma pessoa?
25 de dezembro — Natal
Diário da Dra. Camila
Fazia muito tempo que eu não descansava decentemente… A rotina entre atendimentos e relatórios era tudo que eu tive desde que me formei na faculdade. Me tornei referência na área, atendendo mais casos do que sou capaz de lembrar. Até escrevi alguns livros sobre terapia cognitivo-comportamental e casos específicos que atendi.
Agora, tudo que quero, é me desligar, nem que seja por alguns dias, das responsabilidades e obrigações.
Respondi a pouco a algumas mensagens desejando um feliz Natal.
Vou ao mercado comprar algo especial para o jantar.
25 de dezembro — Natal, à noite
Diário da Dra. Camila
Me sinto tão linda. Coloquei um vestido que não usava a muito tempo e que serviu perfeitamente em mim. Preparei uma ceia farta (até demais para uma única pessoa) e até pus a mesa! Deixei tocar uma lista de músicas clássicas, que deixaram a casa com uma atmosfera maravilhosa e acolhedora.
Pensei em convidar Laura para cear comigo, mas acredito que a coitada queira um pouco de privacidade depois de um ano inteiro trabalhando ao meu lado.
Vou tomar uma, e somente uma, taça de vinho, somente para relaxar e aproveitar melhor o fim da noite.
25 de dezembro — Natal, mais tarde naquela mesma noite
Registros pessoais do policial Jonathan
Como sempre digo, essa cidade sempre é uma novidade. As investigações tomaram outro rumo depois que outro corpo foi encontrado. Dessa vez, havia algo diferente. O corpo não havia sido apenas mordido, mas destroçado. Seria irreconhecível se não fossem as digitais preservadas. A merda é que o exame deve levar dias, talvez semanas, até retornar quem era o viciado que virou jantar de algum bicho.
Por sorte, dessa vez achamos duas testemunhas e uma câmera que pegou de relance o responsável por essa insanidade: um cachorro. A imagem era péssima, desfocada e parecia acelerada, mas dava pra ver um cachorro enorme, preto, que cruzava a rua e desparecia.
Essa cidade é absurda de dia, e ainda mais de noite.
Não virei policial para dar conta de cachorro, mas olha essa merda! A porra do cachorro destroçou um homem adulto como se fosse nada.
Amanhã cedo vou acionar o centro de controle de animais e passar esse caso de merda pra frente.
26 de dezembro — A noite
Diário da Dra. Camila
Acho que o tempo de descanso, aliado do pouquíssimo vinho que tenho tomado, devem ser os responsáveis pelas alucinações visuais que tenho tido a noite, mas essa foi muito, muito vívida pra mim, tanto que estou escrevendo isso tonta e com as mãos trêmulas.
Eu estava na cama, coberta e acomodada, quando sofri um episódio do que deve ser terror noturno. Não consegui me mover, estava paralisada por completo, mas consciente de tudo ao meu redor. Olhei ao redor, tomada de terror e medo. Minha visão estava borrada, turva, mas eu reconheci claramente a imagem de um gato preto, grande, sentado no pré da minha cama, me olhando nos fundos dos olhos, que pareciam dois rubis. Eu não tinha um gato fazia muito, muito tempo, e a vizinhança não era receptível com eles. Por onde ele entrou? A casa estava completamente fechada, desde as janelas até a porta, e eu tinha certeza absoluta de que tranquei tudo antes de me deitar.
Contrariando toda a lógica e probabilidade, lá estava ele. Escuro como a noite, imóvel como uma estátua, com aqueles dois pontinhos brilhosos na escuridão.
Me esforcei ao máximo para me mover, nem que fosse um único e pequeno movimento, mas falhei. O terror noturno é apavorante, mesmo quando você o conhece.
Tentei gritar, mas minha boca sequer se moveu.
Eu estava indefesa, desprotegida, sem chance alguma de reagir a qualquer coisa. E o gato continuava ali, imóvel como uma esfinge.
Em um pulsar, ele pareceu maior e mais próximo. Comecei a sentir um desespero visceral, que me corroía os ossos.
Aquilo não era um gato.
Mergulhei em seus olhos rubi e adormeci profundamente, como nunca havia adormecido antes.
28 de dezembro
Nota retirada do caderno de Laura
Faz dias que eu não tenho uma noite de sono decente. Eu me sinto observada, em casa, na rua, em qualquer lugar. Talvez o estresse do final de semestre na faculdade tenha encadeado alguma condição clínica em mim… Eu durmo e acordo assustada, como se escapasse por pouco de algo.
A privação de sono tem surtido efeito… Minha memória anda péssima e minhas capacidades cognitivas estão ridiculamente baixas… se eu estivesse em época de prova estaria ferrada.
Estamos no final do ano, eu deveria estar dormindo doze horas por dia, mas sequer consigo dormir três horas seguidas…
Se tudo isso continuar, vou procurar ajuda.
30 de dezembro
Diário da Dra. Camila
Desde o terror noturno não mais problemas em dormir. Tenho tirado tempo para caminhar no parque, continuar meu último livro, que estava parado havia meses, ouvir música e pôr a leitura em dia.
Me sinto linda, jovem e disposta como nunca estive antes.
31 de Dezembro
Registros pessoais do policial Jonathan
Trabalhei durante o Natal e agora vou ter que trabalhar no final do ano! Já estou farto dessa porra de trabalho… ainda estou preso no caso dos ataques noturnos, especialmente agora que mais meia dúzia de corpos, dilacerados, ocupam as mesas de autópsia do centro médico. Os veterinários levantaram hipóteses absurdas sobre o culpado dos assassinatos… Cachorros de raças de grande porte, leões, animais exóticos… Eu estou convencido que existe um assassino em série aqui, e que ele tenta a todo custo despistar a polícia.
A real é que não sei o que achar… nunca vi um caso assim e é praticamente impossível rastrear um culpado.
3 de janeiro
Diário da Dra. Camila
Amanhã voltam os atendimentos. Me sinto descansada e preparada. Só existe uma coisa que tem me incomodado… Laura não responde minhas mensagens.
Lhe desejei um feliz Natal e um ótimo ano novo, ela nem mesmo viu as mensagens e tampouco as respondeu. Resolvi não fazer caso, afinal, Laura deve estar entretida com a família e pode não ter respondido por achar se tratar de mensagens sobre o trabalho. De toda forma, amanhã nos veremos e podemos pôr o papo em dia.
O paciente das 18h confirmou a sessão para amanhã, disse que estava ansioso para contar as novidades e que a terapia seria “chocante”, seja lá o que ele queira dizer com isso.
Às vezes é difícil se ausentar pelo período das férias, mas é necessário e até terapêutico para alguns pacientes.
Estou empolgada para rever Laura contá-la sobre meus últimos dias.
4 de janeiro- Pela manhã
Diário da Dra. Camila
Laura não deu notícias e tampouco foi trabalhar. Meu coração ficava cada vez mais apreensivo com o passar das horas e sem o mínimo sinal dela. Não recebeu minhas mensagens, não atende o celular e nem mesmo sua família dá notícias sobre seu paradeiro. Se ela não aparecer amanhã vou tentar outras formas de comunicação.
Precisei seguir o dia sozinha e cuidar da recepção e dos atendimentos.
4 de janeiro- A noite
Diário da Dra. Camila
Com anos de profissão ainda me surpreende que os pacientes possam trazer acontecimentos que me façam questionar as minhas próprias noções de realidade. Isso aconteceu hoje.
Rafael, o estranho e singular paciente das 18h, apareceu e, como da última vez, com sua repentina entrada cheia de mistério. Quando seu horário chegou, surgiu dentro do consultório, me dizendo que a porta estava aberta e que tomou a liberdade de entrar. Não sei como ele faz isso, mas vou por algumas hipóteses à prova na próxima semana.
Ele estava empolgado, corado e, arrisco dizer, até jovial. Seguiu me contando animadamente sua rotina durante o recesso, animado com suas descobertas sobre a “cidade grande” que São Paulo é. Parecia uma criança quando me contou que passou horas sentado em um café na Avenida Paulista, observando as pessoas que entravam e saíam, tentando prestar atenção em cada detalhe, desde suas roupas, seus gestos, sua forma de falar… Tudo isso dramatizando cada fala, como em um teatro.
Pela primeira vez, a sessão foi do começo ao fim, de forma fluida e vaga. Não nos aprofundamos em nenhum dos temas anteriores e ele parecia completamente renovado.
Ao chegar em casa, tentei contato com Laura pelas redes sociais, mas ainda sem resposta…
8 de janeiro
Diário da Dra. Camila
Estou horrorizada… mal consigo escrever estas palavras sem deixar escapar as lágrimas… Laura está morta.
Pelo relato da polícia, ela foi atacada dentro do próprio quarto, por um animal ou algo do tipo. O sepultamento ocorreu ontem pela manhã, sem velório… Meu coração dói profundamente.
Acompanhei a cerimônia e o breve discurso ao lado de sua família. Pai, mãe e irmão, todos extremamente abalados pela brutalidade do acontecimento.
Contive as lágrimas e a dor até agora pouco, quando cheguei em casa.
Estou devastada… vou cancelar os pacientes da próxima semana e tentar me recompor.
6 de janeiro — Último registro
Nota retirada do caderno de Laura
Eu não consigo dormir… não consigo comer… tem alguma coisa muito errada comigo… estou ficando sem desculpas para justificar o porquê passo o dia inteiro no quarto.
Estou sem forças, sem vontade… até arrisco dizer que estou vivendo um quadro depressivo, embora não tenha a menor ideia de como isso começou.
Não consegui nem mesmo pegar o celular para responder a doutora, que deve estar preocupadíssima comigo…
O pior de tudo são os sonhos… faz dias que tenho o mesmo sonho: Estou paralisada, completamente imóvel, e me sinto observada, como uma presa indefesa. Vejo a figura de um homem alto, com dois pontos vermelhos onde seriam os olhos. Ele me olha com desejo, raiva, crueldade… A cada noite ele se aproxima e eu tenho medo, muito medo, do que pode acontecer hoje.
11 de janeiro — A noite
Diário da Dra. Camila
Minhas mãos tremem e preciso me concentrar para escrever a insanidade que acabei de viver. Preciso que alguém acredite em mim.
Cancelei todos os atendimentos da semana, para tirar tempo para me recompor pela perda da Laura. Todos os pacientes compreenderam bem a questão e não insistiram. Exceto um. O paciente das 18h disse que precisava urgentemente falar comigo e foi inflexível. Eu disse que marcaria nossa sessão para o primeiro dia disponível. Ele nada respondeu e desligou o telefone.
Eu adormeci, com o rosto inchado e vermelho pelas lágrimas.
Acordei durante a noite e peguei o celular para conferir que horas eram. Exatamente 3h3. Meu coração disparou e deixei escapar um grito curto quando percebi que tinha alguém no quarto. Era o paciente das 18h!
Estava ali, tão real e vivo quanto eu estou agora, escrevendo isso. Sentado, com as pernas cruzadas e os dedos entrelaçados, me observando dormir.
Com o susto, deixei o celular cair e ele apagou, mergulhando o quarto na escuridão quase que total, apenas iluminado por um facho de luz vindo da pequena abertura na janela.
Ele não disse uma única palavra, permanecia imóvel e observador. A quanto tempo estava ali? Minutos ou horas? Isso já foi muito além da relação entre paciente e terapeuta!
Fiz menção de pegar o abajur da mesa de cabeceira, para tentar usar como arma, mas fui interrompida:
— Eu não faria isso se fosse você, senhorita. — Ele estava perto demais para que eu conseguisse fugir ou pegar qualquer coisa para usar como arma. — Tem um copo de água ao seu lado. Tome e vamos conversar.
Olhei para a outra mesa de cabeceira, do lado esquerdo, e realmente tinha um copo d’água ali. Deve ter algo ali, pensei.
— É seguro, beba.
Peguei o copo e tomei, sem tirar os olhos dele. Agora eu tinha um objeto, de vidro, que podia usar contra um possível ataque.
— Desculpe entrar deste jeito, mas não havia outra forma. Eu preciso da senhora e nosso encontro não poderia ser adiado.
— Quando você invadiu a minha casa cruzou uma linha que não deveria ser cruzada. — Respondi, tentando permanecer calma.
— Invadi? Ah, não! Você mesma me convidou, não se lembra?
A porta… A única vez que abri a porta sem perceber foi durante o episódio de sonambulismo. Mas eu tenho certeza de que havia fechado a casa inteira hoje. Que absurdo era esse?
— Só adentro ambientes aos quais sou convidado, senhorita. Sou educado e jamais ousaria entrar na casa de uma dama que não houvesse aberto as portas para mim.
Eu precisava lidar com aquilo. Eu poderia jogar o copo nele, correr até a porta, mas a essa distância não tinha como ter certeza se estava ou não aberta.
— As coisas fugiram um pouco do… Controle. — Disse, tomando um ar sombrio e quase vulgar. — Acho que me deixei levar pela febre da cidade grande e errei a mão em alguns momentos. A senhorita deve entender.
— Do que está falando? — Estava difícil manter a compostura perante uma cena insana como aquela.
— É chegada a hora de algumas verdades, doutora. — Ele se levantou, parecendo muito maior do que eu me lembrava. — Existem coisas que se parecem com seres humanos, andam, agem e até falam como, mas não são. Coisas que vagam pela Terra a tanto tempo que sequer se lembram do fatídico primeiro dia de suas novas vidas. Coisas, doutora, que veem pessoas belas e coradas como você como rebanho.
Era muita informação para processar, mas eu precisava estar atenta a narrativa e pensar em uma forma de escapar dessa loucura.
— Eu sou assim, há mais tempo do que me recordo. Meu sangue não corre, meu coração não bate e eu preciso de vocês para continuar assim! — Enquanto falava, seus dentes se tornavam mais brancos e seus caninos mais pontudos. — Note, bela dama, que não me orgulho de nada que fiz! Mas fiz por necessidade. Vim para São Paulo com esperança, devo admitir, esperança de encontrar alguém que me ajudasse a entender minha condição. Como viemos a descobrir, existem coisas que não devem ser compreendidas, apenas aceitas!
Minha mente vagueou e o terror tomou conta de mim.
— Aceitas! Sim! — Em uma fração de segundo, ele estava perto de mim, tão perto que consegui sentir o calor do seu corpo e suas mãos em meu rosto. Aproximou sua boca de meu ouvido e sussurrou — Cansei de tentar negar a fera que habita em meu interior. Cansei de manter oculto a vontade bestial de dilacerar, caçar e de tirar a vida. — Estava tomada pelo terror e por uma sensação de submissão. — Monstros foram feitos para serem monstros, doutora.
Em um espasmo de coragem consegui virar o copo com força contra ele, mas, no mesmo instante, seu corpo não estava mais lá, mas próximo à janela, fazendo com o que o copo espatifasse na parede.
— Hostilidade não combina com você.
— Saia já da minha casa! — Exclamei, com as forças falhando.
— Durma! — Foi a última palavra que lembro de ouvir, antes de acordar pela manhã, tonta, e com os cacos de vidro ao lado da cama.
Estou a horas sentada no canto do quarto, tentando entender tudo que vivi… até onde aquilo foi real? Até onde foi uma alucinação? Até onde posso confiar em meus próprios sentidos? Minha mente colapsa diante de tantas perguntas sem resposta…
Estou exausta, confusa, dolorida e apavorada.
Toda fotografia é uma imagem que carrega o espectral: a morte. O instante fotografado jamais será vivido novamente; assim jaz um tempo que passou…