13 - Azulácia de uma vida azul
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Relato de Alana Mortensen
“E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?”
Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para elaborar respostas que estivessem à altura. Contudo, desta vez, minha voz saiu rápida e assertiva: “Azul”.
Não sei precisar se tenho uma cor favorita, para ser sincera nunca vi sentido em pensar nessas coisas, mas agora sei o quanto gostava de azulescer meus sentimentos; o quanto gostava do límpido azulíneo da lua; o quanto azulescia-me cada vez que pensava no meu passado.
A vida é assim: quando menos se espera entramos nessas elucubrações sem propósito, e qual é o sentido de viver se não for para viajar por caminhos tortuosos?
Meu cabelo preto, de tão escuro e denso, tornou-se azulado. Nosso sangue não parece ser azul olhando de fora? Não entendo o porquê ele insiste em tornar-se apaixonante, cor vibrante quando arrancado das veias, pois enquanto aqui dentro — dentro de cada um de nós — ele mal tem forças para gritar, quem dirá ser paixão. Para mim, ser azul, aceitar o “Azul”, faria muito mais sentido.
Sentido.
E lá vou eu novamente falando de sentido.
Fugindo dele, na maioria das vezes.
Quiçá procurando um destino.
Das cores da sobrevida.
Destinos desconexos.
Sem sentido.
Sentindo.
Indo.
Lisa olhou-me como se eu fosse um espectro, mas sei que ela me entende. Óbvio que ela entende o que falo, porquanto fala também, mas me refiro a entender o que sinto. Nessa relação fico em desvantagem, porque não sei dos sentimentos dela, já que não gosta de se sentir vulnerável — nem sei se algum dia ficou indefesa —, mas é como se ela soubesse exatamente tudo o que trago dentro de mim. E tudo o que deixei transbordar.
E, atendendo aos pedidos expressos por seus lindos olhos amarelos, começo a transportar para a tela as nuances “azuis” das cores da minha alma.
Com os pincéis crio vórtices de vários tons e tamanhos, eles preenchem os espaços diferentemente do que ocorre em mim.
“Quais vórtices esses redemoinhos enigmáticos irão despertar?”, pergunta.
“Órbita que precede o óbito”.
Lisa desaprova. “Nada de óbitos!”.
Conto a ela que só estou devolvendo o tempo emprestado. Ela não acredita, e insiste para continuar.
“E se a morte aqui no Castelo não for real, Lisa?”
Ela grita “Eu morri, você não lembra?”.
Era verdade e eu tinha esquecido. Se eu tentasse, desta vez, poderia não ter Drácula para me salvar.
Afasto tais pensamentos. Para onde vou?
Não quero voltar para casa, mas também não quero ficar.
Lisa propõe uma jornada, um passeio pela região e então os vórtices na tela começam a girar.
Assim como minha chegada ao Castelo foi por meio da minha arte, minha nova escapada aconteceu por causa daqueles vórtices; minha arte, pois, abrira um portal para as terras que ainda não havia explorado.
Mais tarde, descobri que fora transportada para as Dunas Múrmuras, um local repleto de areias, não as do tempo, mas as areias que cobrem terras secas e praias. Mas não havia mar, somente um Rio que chamou minha atenção.
Já olhastes luzes salvadoras após se ver perdida em meio à escuridão?
Quando criança, fingia não ter medo do escuro, porque não podia ter medo daquilo que não via. Quando cresci percebi que é exatamente aquilo que não vemos, ou sabemos, que nos causa mais medo. Como combater um monstro invisível?
O Rio era habitado por criaturas. Não só eram bem nítidas, como nos atraíam. A fotoluminescência agia como um canto sagrado — ou maldito —, que transpassava a armadura que havia colocado em volta de mim. Não pude ficar longe de suas formas e brilho intenso... convidavam-me para adentrar às águas. A voz de Lisa foi quase sufocada, sufoquei o instinto que clamava. Sabia que não poderia ceder tão facilmente, mas a quantos chamados estranhos já não havia respondido após chegar ao Castelo?
A ida para aquele mausoléu, por si só, já era uma atitude deveras ousada para mim, não era?
As formas aquáticas avolumavam-se à medida que me aproximava da margem do Rio Magöhorror. Sim, este era seu nome. Estava tão focada nos horrores submersos que demorei para notar que tudo ao meu redor tornava-se vívido. Não eram animais e flores comuns, pareciam mais provindos de uma floresta maldita. As flores com as bordas metálicas foram as que mais me chamaram atenção; lindas, assemelhavam-se aos espectros do passado, de outras eus e outras pessoas que desejava esquecer. Os esqueletos não estavam no armário, mas plantados na terra (não sei em qual momento a areia tornou-se terra, e quando o deserto virou miragem. Era uma miragem?).
Quando estava próxima demais da margem, Lisa me arranhou, já que eu insistia em não a ouvir. A floresta não me traria problemas, as flores tinham poderes de cura e apresentavam aquele aspecto por estarem carregadas demais. Porém, as águas azuis-índigo eram prisões de criaturas maléficas. Eram elas que me chamavam e não as águas.
Eu tinha esse dom de atrair monstros terríveis e de acreditar que sempre estaria segura. Lisa me olhava com indignação, e eu também me olharia assim se tivesse espelho naquele momento.
Não era uma tarefa fácil proteger alguém atraída pelo obscuro.
Lisa sorriu e disse que tinha todo o tempo do mundo.
E eu soube — mesmo sem provas — que enquanto houvesse azul em mim, ela estaria sempre atenta.
As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos…