O Segredo Abaixo dos Pés

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma máxima cruel: enquanto temíamos e vigiávamos os céus, o que realmente nos destruiria sempre esteve aqui. Silencioso, sob nossos pés, ansioso por erguer-se e devorar tudo o que estivesse ao seu alcance.

Era um daqueles entardeceres em que as sombras crescem como se quisessem devorar a luz. Entornei o café na xícara surrada e deixei que a pena deslizasse pelo caderno. As palavras surgiram primeiro tímidas, depois num jorro, como água de uma nascente há muito esquecida.

— Já parou para pensar — perguntei à Clara, enquanto ela enrolava um fio de cabelo escuro entre os dedos — que quase todas as teorias sobre o fim da espécie colocam o céu como o nosso grande ceifador?

O rosto dela contraiu-se numa expressão de genuína surpresa.

— Nunca tinha observado por esse prisma.

Sorri, tomando um gole do café já morno. Nossas conversas sempre tiveram essa dinâmica: eu lançava o anzol e ela mordia a isca sem hesitar, num balé intelectual que encenávamos desde o dia em que nos conhecemos.

— Existe um lugar ao qual damos pouca importância — continuei. Ela inclinou-se para frente; o decote do roupão revelou a curva familiar de seus seios, um detalhe que, mesmo após anos, ainda conseguia me distrair do fim do mundo. — As religiões falam de demônios, invasores estelares ou catástrofes vindas dos cometas. O dogma nos impõe olhar sempre para cima.

— Conte-me mais — respondeu ela, os olhos brilhando com aquela centelha que só surgia quando mergulhávamos nessas madrugadas de teorias e sombras.

— O erro é nunca olharmos para baixo — completei, sentindo o peso das próprias palavras. Seu pé descalço roçou o meu sob a mesa, um hábito antigo que me ancorava à realidade. — O que existe, de fato, no núcleo da Terra? Lençóis freáticos, magma e nada mais? Ou o abismo esconde espécies raras e comunidades secretas que o sol nunca tocou?

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo ruído da cidade lá fora — uma sinfonia de buzinas e passos apressados, gente desesperada em sua jornada para lugar nenhum.

— Eu acredito em outros seres e outras moradas, mas não na Terra. E não consigo acreditar que sejam demônios.

A resposta dela me fez sorrir. Era a essência de Clara: cética quanto ao inferno, mas aberta aos anjos.

— Quão fundo nós realmente cavamos? — perguntei, mordendo a ponta do lápis. Ela riu baixo, conhecendo meu vício de roer o instrumento de escrita. — É possível perfurar a crosta a ponto de enxergar o outro lado, já que somos uma órbita suspensa no nada?

A noite já havia engolido a janela completamente, transformando o vidro em um espelho negro que nos devolvia nossas próprias imagens. Dois rostos, inúmeras dúvidas.

— Acho que isso reflete a hierarquia dos deuses — ponderou ela. — Seres divinos que precisavam estar acima dos humanos para dominá-los.

— O fundo do mar ainda não é o fundo da Terra — rebati. — Supõem que o magma seja o limite, o fim de tudo, mas são apenas suposições. Ninguém desceu o suficiente para registrar o que há abaixo do fogo.

— Não existe luz lá — a voz dela baixou para um sussurro, como se temesse acordar algo profundo. — Tudo o que vive lá é cego.

— Se há fogo, pode haver luz — contrapus. — A luz da superfície é uma projeção do fogo solar. A lava é a polpa do fogo telúrico. Creio que haja uma claridade própria nas entranhas do mundo.

O caderno agora era um labirinto de linhas tortas e pensamentos soltos: a cartografia de uma teoria proibida. Clara deixou a xícara tocar o pires com um tilintar metálico que ecoou pela sala.

— Falam tanto da Lua — disse ela, puxando o cobertor sobre os joelhos. — Mas você já reparou como as imagens parecem fabricadas? Sombras cruzadas, bandeiras que ondulam no vácuo... como um palco mal iluminado.

Abri o caderno em uma página repleta de cálculos e diagramas.

— O mais curioso é que pararam de ir justamente quando as brocas terrestres estancaram. 1969: o homem pisa na Lua. 1970: o Projeto Kola atinge seu ápice e para. Conveniente, não?

Clara puxou o caderno, os olhos devorando minhas anotações.

— Você sugere que foi tudo um teatro? Uma cortina de fumaça?

— Sugiro que é mais fácil simular a conquista do céu do que encarar o que encontrariam se continuassem cavando — respondi, batendo o indicador no chão de madeira. O som saiu oco, fúnebre. — Doze quilômetros. Foi o máximo que o homem alcançou. Doze quilômetros em um planeta com mais de doze mil de diâmetro. Uma gota num oceano de rocha.

Seu olhar desceu para o assoalho, tentando atravessar as tábuas.

— E por que pararam?

— Talvez porque as brocas começaram a encontrar o que não deveria existir. Quando os microfones captaram... sons. Gemidos de um planeta que não quer ser despertado.

O abajur piscou, instável. Na parede, nossas sombras se contorceram, alongando-se como se algo colossal se movesse por trás de nós.

— Gastamos bilhões para fingir que dominamos uma rocha morta a mil quilômetros de distância, enquanto o verdadeiro mistério está a meros passos de onde estamos. Se a Terra fosse uma maçã, Carlos, nem sequer rompemos a casca.

Um arrepio percorreu o ambiente. Na cozinha, o estalo de algo rolando pelo piso nos sobressaltou.

— É mais fácil apontar para as estrelas do que entender o abismo sob nossos pés — concluí, fechando o caderno. — O conto é sobre essa cegueira voluntária.

Uma risada nervosa escapou entre nós, quebrando a tensão.

— Eu creio em vida extraterrena — ela disse, por fim. — Mas não creio que o mal venha de cima. Talvez os céus tentem nos salvar de nós mesmos... e do que habita o nosso próprio solo.

— Céu acima, purgatório embaixo. O ser humano teme o que não pode iluminar.

Nossos olhares se cruzaram sobre as xícaras vazias, cúmplices de uma heresia. Lá fora, a cidade ignorava o abismo sobre o qual fora construída. Decidimos, naquela noite, que nossa busca não seria pelas alturas, mas pelas profundezas. Porque o fim não precisa vir do espaço; ele já pode estar aqui, esperando pacientemente que o esqueçamos para que, então, possa emergir.

Ao final, puxei-a pelo cinto do roupão. Ela veio sem resistência, como sempre. Selamos nossa pequena loucura com um beijo prolongado e, por um instante, o abismo sob meus pés deixou de existir. Só havia ela.


Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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