Azulíneo
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente para sanar essa curiosidade obsessiva pelo desconhecido. Sutilmente, o cenário mudou; elevei meus olhos e senti um calafrio, as nuvens se dissiparam, o céu agora vestia um assombroso manto azulado, tinha também aquele brilho insólito das estrelas.
Em determinado trecho, escuto algo longínquo, como um sussurro, talvez seja apenas o vento; caminho com mais afinco enquanto o som reverberava no interior dos meus ouvidos, porém sou forçada a cessar os passos, pois perante a mim se encontra uma altíssima muralha de difícil acesso, composta por galhos e folhas de diferentes espessuras entrelaçados, coberto por musgos e líquens. Tentei enxergar sua altura, logo fui acometida por uma leve vertigem; me recomponho e vou ao seu encontro.
Aquele vislumbre arrancou gemidos inexprimíveis, aguçando ainda mais minha curiosidade; preciso atravessá-lo, os musgos dificultam a passagem, mas persisto. Então senti o gentil toque da brisa fresca em meu rosto, ela era úmida como se eu estivesse próxima de algum mar. Não estava preparada para tal paisagem, meu colo pulsa em desassossego diante de tamanha beleza. No passado presenciei este mesmo fenômeno da bioluminescência quando estive com a doce Ameritt na biblioteca, porém isto aqui é incomparável, este viridário é de uma beleza aterrorizante! Seu brilho alterna entre um pálido-anil e azul-turvoso, há também uma enigmática nevoa do mesmo tom terrífico.
Lembro de achar fascinante o processo no qual envolve a molécula luciferina e a enzima luciferase, resultando neste fenômeno de tirar o fôlego. Sinto que estou mergulhando no abismo oceânico, onde criaturas inimagináveis habitam a mais profunda escuridão. Tanto a flora como fauna são horripilantes, ali vida e morte coexistem; essa dualidade causa um grande incômodo, ora se vê um jardim exuberante, já outras vezes vê-se flores em decomposição, desafiando os mais sábios mestres alquímicos como Paracelso.
Além deste aspecto obscuro, elas executam uma dançar terrífica, orquestrada pelo nefasto azulescer. Porém, uma espécie endêmica é predominante, detentora de uma beleza extraordinária; as folhas verde oliva abraçam todo o caule e parte do cálice de pétalas externo é totalmente negro, contrastando com seu interior carmesim brilhante; são curvilíneas e levemente pontudas — lembrei das enigmáticas flores de Ovaeren que também escondiam em seu interior sua verdadeira beleza escarlate.
Imagino que possa existir um grimório oculto de botânica, catalogando todo espécime de plantas e suas respectivas finalidades. Enquanto divago, algo paira pelo ar, como materialização de um ectoplasma, vem ao meu encontro. "Será uma carta?” — Meu pensamento ecoa no ímpeto azul, assisto o objeto pousar em meus pés; abaixo-me para pegar e tenho a confirmação: é um fragmento de um mapa geográfico. Deduzo ser um gráfico grandioso pelas linhas incompletas, confeccionado em papiro, demonstra a região em que resido. Meus olhos decaem sobre o registro com extremo fascínio.
Aos arredores do Castelo está o Jardins de Olga — parece ser minha atual localização. Minha imaginação se perde nas linhas inacabadas, aquele lugar se tornou ainda mais tangível. Um nome que me causou grande tormenta, a “trilha do nevoeiro ramoso”, anteriormente pude presenciar a presença assombrosa do nevoeiro envolvendo o Castelo, bem como o arranhar dos galhos sob a superfície áspera das inúmeras pedras — tal lembrança me causa calafrios.
Vejo também duas vilas povoadas, as quais: Séttimor — a qual ouvi histórias a seu respeito; e a outra é a Vila Nemonium, no meio delas se encontra os Bosques Núridos, mais à frente uma região montanhosa chamada de Cimos Nevados. Meus olhos saltam ao ler: “Rio Bioluminescente de Magöhorror” — ele atravessa a área de montanhas. Vejo também a área de desertos chamada de “Dunas Múrmuras” e, no meio da região, um pequeno desenho sobressai e me faz estremecer: uma ilha indica um oásis. Ergo o mapa na altura dos olhos, traço os pontos cardeais com os dedos, e inicio minha peregrinação ao rio da Bioluminescência, sabendo que desta vez terei um norte para seguir. Seguro o mapa como se minha vida dependesse dele — o que não deixa de ser um fato.
Este lugar está começando a me afetar, talvez seja por conta do fúnebre flúmen que esparge pelo ar. Olho ao redor e vejo uma horrenda mudança nas flores: no lugar das deslumbrantes pétalas carmim, rostos pálidos disformes, com olhares vazios, são emoldurados por pétalas fúnebres num azul indescritível; por fim, um brilho metálico contorna cada uma. Elas parecem entonar lamúrias, como uma espécie de coral fúnebre. Acelero os passos, enquanto os olhares dos rostos me encaram; ao longe o calmo quebrar do mar ecoa. Checo o mapa e sigo a Leste, acredito que seja a maneira mais rápida de chegar ao Rio Bioluminescente.
Continuo ouvindo o fúnebre cântico; quando a brisa me surpreende trazendo consigo silenciosas gotículas que tocam meu rosto, imediatamente lembro dos incontáveis banhos de chuva tomados na adolescência, quando eu abria o portão e, com os pês descalços, corria pelos escorregadios paralelepípedos. Engulo amargamente aquela memória, não tenho mais espaço em minha galeria para ela. Melancólica, caminho, e acabo encontrando a estranha flor, porém estava diferente, tinha se fechado, assumindo uma forma de um coração anatômico. O tom carmim voltara a ser predominante, as pontas ficaram mais rígidas, pode ser apenas seu ciclo natural, ou algum fator mágico.
Fito novamente o vertiginoso firmamento, enquanto ele conduz minh’alma para um espiral de infindáveis horrores; essa cor traz à tona coisas adormecidas como culpas, arrependimentos, lembranças amargas e pensamentos que habitam as profundezas do meu âmago.
“A imortalidade é uma mera ilusão” — a frase escapa de meus lábios apáticos, enquanto isso, presencio mais uma transformação da misteriosa rosa: agora ela desabrochou por completo, suas pétalas traziam uma tonalidade de vinho-profundo, eram finas, alongadas e espinhosas. Essas transformações eram intrigantes, abaixo-me para observar melhor, tinha uma beleza obscura, queria estudá-la, porém tenho que partir. O familiar som das ondas me faz andar mais rápido, alcanço então as margens onde as calmas ondas beijavam com ternura os alvos grãos de areia; há também uma embarcação ancorada que já teve seus dias de glória, do modelo cúter. Aproximo-me dela e, no casco, tinha um nome: “Veleiro de Allant Clirrathz”.
Media por volta de dez metros de comprimento, um único mastro sustentava as duas velas amareladas feitas de poliéster, já desgastadas em certas partes. Em certas partes, cautelosa, adentro no veleiro; arrepios percorrem meu corpo, imagino as inúmeras pessoas que velejaram neste barco; será que foram testemunhas do inimaginável? O que descobriram sob estas águas negras...?
A embarcação fora erguida em cedrinho muito bem estruturado, ainda se via as pinceladas de verniz; havia um alçapão abaixo das velas e eu fui em sua direção, levantei sua pesada porta, desci alguns degraus. Lá encontrei uma simples pia, à direita um pequeno armário com alguns utensílios para cozinha, na esquerda uma cama com uma sutil mesa de canto, por fim um banheiro.
Nunca velejei antes; o pouco que conhecia foi através de livros. Subo os degraus, caminho até a proa e contemplo o imponente do céu azul neon, iluminando as águas negras. Vou para a popa, ligo o motor e, trêmula, seguro o leme; estou entregue ao destino, espero que ele seja gentil comigo.
Por incrível que pareça, o som do mar acalma meus demônios; em contrapartida, a solidão é avassaladora, o vazio consome minhas entranhas. Vasculho o bolso e tiro o mapa; será que me arrisquei nesta jornada? Talvez fosse melhor contornar os Bosques Núridos, cruzando as áreas montanhosas até finalmente chegar no tão desejado Rio da Bioluminescência... Mas espera, por que não vi isto antes? Quase no final do mapa, havia um nome que me fez tremer: “Oceano Sem Fim”. Logo abaixo estava escrito: Estranhas criaturas do mar. O que será que estas águas escondem? Talvez o temível Kraken ou espécies que fazem parte da criptozoologia.
Já se passaram algumas horas e até que estou me saindo bem. Minha maior dificuldade tem sido controlar as velas; às vezes o zombeteiro destino joga os dados e me surpreende com ventos fortes, desestabilizando o veleiro, porém isto passou a ser constante, deixando a viagem árdua; além disso, existe um terror primordial no infindável oceano que me causa extrema angústia, ademais prossigo.
Mas o destino é incansável e vil. Desta vez ele trouxe ventos tenebrosos, gerando ondas altas; uma delas atingiu o casco, deixando o bombordo quase imerso e o convés inundado. Se eu não fosse tão ágil, certamente a embarcação estaria naufragada; contornei as investidas dos ventos, não obstante segurei com afinco no leme e continuei.
Avisto finalmente a terra, deixo a embarcação ancorada. Assim que desci, vi que a vegetação é a mesma encontrada nos Bosques; aqui a espécie predominante era das rosas que sofreram aquela mutação sombria, em específico em sua primeira fase. Será que a flor teve origem aqui? Tímido, o rio anuncia sua presença, serpenteando por entre a vegetação de rostos disformes, um verdadeiro espetáculo horrífico em pálido-anil, desaguando no oceano, deixando rastros luminosos por onde passa; conseguirei alcançar sua nascente?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos…