Liturgia da Noite
Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante,
e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante,
eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,
carregando em meu peito a sombra da tua partida.
A noite abre seus braços como uma mãe silenciosa,
coroada por estrelas numa tristeza formosa,
e eu, pobre peregrino de um destino sem calor,
faço da escuridão o altar do meu amor.
Há um canto entre as sombras que somente eu conheço,
onde os ventos da saudade rezam sem endereço,
ali deposito os sonhos que jamais pude viver,
flores negras de esperança que se recusam a morrer.
Eu te amei como a lua ama o mar adormecido,
como um castelo em ruínas ama o tempo consumido,
eu te amei como a chuva ama o bosque outonal,
num desejo sem retorno, num suplício espectral.
Teu nome era um incenso pelas trevas espalhado,
um fantasma luminoso sobre o mundo abandonado,
e cada noite sem tua presença junto à minha
era uma cruz carregada por uma alma que definha.
Quantas vezes contemplei a madrugada vazia,
vendo a dor fazer morada onde antes havia alegria,
quantas vezes a lembrança, como um corvo sepulcral,
veio pousar sobre os restos do meu sonho ancestral.
As estrelas pareciam olhos frios a vigiar
o lento naufrágio da esperança perdida no luar,
e a lua, velha sacerdotisa das tristezas sem fim,
derramava sua prata sobre os desertos em mim.
Então compreendi o segredo que a noite escondia:
toda lágrima guardava uma secreta alquimia,
pois a dor, quando profunda, como um rio subterrâneo,
escava dentro da alma um reino vasto e arcano.
Foi quando o amor surgiu entre os escombros do sofrer,
como uma rosa impossível voltando a florescer,
não um amor de incêndios nem de febre passageira,
mas um farol aceso contra a tormenta derradeira.
Veio suave como um hino que atravessa a eternidade,
como um anjo fatigado retornando à claridade,
e tocou minhas feridas com um gesto tão sereno
que transformou o meu inverno num pesadelo ameno.
Desde então a escuridão continua a me chamar,
e ainda ouço as velhas mágoas sussurrando ao luar,
mas já não sou o espectro que vagava sem destino,
pois carrego dentro do peito um fogo clandestino.
A noite segue sendo minha amante e confidente,
o espelho onde contemplo minha alma decadente,
mas onde antes reinava o abandono sepulcral,
ergue-se agora um sonho sereno e imortal.
E se um dia o tempo vier fechar meus olhos cansados,
e eu repousar entre os mortos, pelos séculos velados,
que escrevam sobre minha lápide, em letras de esplendor:
"Aqui dorme um homem triste,
salvo pela noite e redimido pelo amor."
Cláudio Borba
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Solilóquio da Matéria Escura
Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina | É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca. | Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina
É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca.
Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,
Rasteja sob o teto de um templo calado e cego.
Olho para o firmamento, essa tapeçaria de breu purpura,
E que vejo? O Nada. O vácuo que engole os impérios,
Que desdenha dos reis e ri-se do saber dos homens.
Ó, teia invisível! Tecido de matéria escura,
Que sustentas as estrelas como joias na agonia,
Tu és o grande segredo que nenhum fidalgo decifra.
Bato às portas do infinito com punhos de poeira;
Rogo por uma resposta, um som, um estalo de voz,
Mas o universo guarda seu mistério como um avaro
Que esconde o ouro nas galerias mais profundas do caos.
Minha alma é um mar revolto em noite de tempestade.
A aflição me corrói as entranhas, pois sou o átomo
Que ousa julgar a imensidão que o esmaga.
Quem somos nós, senão pensamentos febris da terra?
Um breve espasmo de consciência entre duas eternidades
De silêncio absoluto e sombras irrevogáveis.
O abismo do ser... eis a vertigem que me paralisa!
Caminho à beira desta razão que já desaba,
Tateando o contorno de Deus na arquitetura do vácuo.
Mas não há face. Não há traço. Há apenas o frio,
Um manto soberano de mistério denso e sombrio
Que zomba dos meus astrolábios e da minha heresia.
Quisera eu ser a pedra, ou o ferro que não cogita,
Pois pensar é herdar o tormento de um exílio eterno.
A noite avança, a matéria escura me devora o peito,
E o universo, essa esfinge de ébano e silêncio,
Cerra suas pálpebras cósmicas sobre o meu desespero,
Deixando-me a sós com o horror... de não ser nada.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Menel Lomë II - Uma busca fútil
Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo. Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Menel continuava a procurar, sem nem mesmo saber ou entender aquele mundo.
Onde estava? O que era aquilo? Por que ela veio para cá?
Essas perguntas remoíam seus pensamentos.
Já caminhava há horas, e não conseguia sair da margem. A areia da praia já começava a incomodar sua pele fina e fria como cinzas.
Foi então que ele avistou uma esperança.
Um rastro dela.
Um sapato parcialmente soterrado pela areia.
Ele correu, esquecendo que estava sem forças, esquecendo onde estava. Só pensava que havia encontrado algo, algo que o levaria até sua alma gêmea. Era a única coisa que importava. Era a única coisa que ele queria.
Pegou o sapato como se fosse a flor mais delicada, e o analisou como se olhasse uma obra de arte.
E, então, Menel não estava mais na praia.
Sua visão escureceu por um segundo — apenas um segundo — e ele se viu em um lugar escuro.
Uma escrivaninha sanguinolenta.
Manchas secas. Manchas frescas. Algo brilhava sobre a madeira escura, algo que ele não queria identificar. O cheiro era metálico, doce, insuportável.
Menel correu para longe, mas não conseguia se afastar. Não conseguia se aproximar. Quando se virava e corria em outra direção, a escrivaninha estava lá, à sua frente. Como se o perseguisse. Como se o chamasse.
O sangue na mesa parecia se mover. Lentamente. Escorrendo para as bordas, pingando no chão com um som úmido e aterrorizante.
— Não... — sussurrou Menel, a voz falhando. — Pare!
Mas o lugar não perguntava o que ele queria.
Então ele piscou novamente.
E voltou à praia.
Suas mãos agora estavam manchadas com o rubro do sangue. Manchas frias, pegajosas, que se espalhavam pelos dedos e sujavam o sapato que ele segurava com tanto cuidado.
Menel não se aguentou.
Caiu de joelhos. O sapato rolou para o lado, parcialmente enterrado na areia molhada, agora também manchado.
Ele olhou para as próprias mãos. Para o sangue que não era dele. Para o horror que aquele mundo lhe trouxera sem aviso.
— O que é isso? — perguntou em voz alta, para ninguém. — O que vocês querem de mim?
O vento respondeu com silêncio.
Ele ficou ali por muito tempo. Ou talvez apenas alguns segundos. O tempo naquele lugar não obedecia às regras que ele conhecia.
Aos poucos, a respiração voltou ao normal. O coração ainda batia forte, mas já não parecia que explodiria. Menel limpou as mãos nas roupas, o sangue saiu, mas a sensação ficou. Uma ardência invisível. Uma memória na pele.
Ele olhou para o horizonte. Para o mar escuro. Para o céu de cor incerta.
Iria buscar sua amada. Iria salvá-la.
Mas será que sobreviveria ao horror que encontraria em cada beco? Em cada visão? Em cada escrivaninha sangrenta que o chamasse?
Menel pegou o sapato novamente. Limpou na areia. Guardou-o junto ao peito como uma promessa.
E continuou caminhando.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Ela
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.
Quase nada. Apenas você.
A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.
Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.
Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.
Foi quando eu o vi.
Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.
Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.
Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.
Ele acelerou o passo.
Eu também.
Não vou descrever o que fiz com ele.
Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.
Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.
Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.
Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.
— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.
Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.
Eu o matei.
Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.
Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.
Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.
Matei por você.
Já nem sei quanto tempo passou.
Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.
Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.
Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.
Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.
A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.
A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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À Procura da Dama Noturna
Já amei. | E talvez seja esta a maldição mais antiga | de todas as criaturas que atravessam os séculos: | não a morte, | não a solidão, | não a lenta erosão…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já amei.
E talvez seja esta a maldição mais antiga
de todas as criaturas que atravessam os séculos:
não a morte,
não a solidão,
não a lenta erosão dos nomes,
mas a lembrança.
Os rostos passam como estações,
as cidades apodrecem sob novas arquiteturas,
impérios tornam-se notas de rodapé,
e até os juramentos mais ardentes
acabam dissolvidos na saliva do tempo.
Ainda assim,
há algo em mim que persiste.
Uma fome.
Não a fome do sangue,
como diriam os velhos contos,
mas a fome de uma presença.
Desejo uma mulher
como quem procura uma estrela desaparecida
há milhares de anos,
sabendo que sua luz ainda atravessa a escuridão.
Não a desejo perfeita.
A perfeição pertence às estátuas
e aos cadáveres.
Desejo-a viva,
contraditória,
capaz de esconder tempestades
sob um olhar aparentemente sereno.
Talvez tenha os cabelos negros
como uma noite que se recusa a amanhecer.
Talvez a pele guarde a palidez delicada
das criaturas que preferem a companhia da lua.
Talvez os olhos,
escuros e insondáveis,
carreguem mais perguntas do que respostas.
Não desejo uma santa.
As santas pertencem aos altares,
e os altares sempre me pareceram
solitários demais.
Desejo uma mulher
que compreenda a beleza das ruínas,
que veja poesia onde os outros veem defeito,
que não peça desculpas
por sua própria escuridão.
Uma mulher que saiba
que a melancolia não é doença,
mas uma forma de contemplação.
Que compreenda
que nem toda tristeza deseja ser curada.
Os tempos modernos,
tão orgulhosos de sua virtude,
ensinaram as pessoas a temer o abismo.
Transformaram mistério em problema,
silêncio em falha,
profundidade em excentricidade.
Mas eu continuo a acreditar
que há certa beleza
naquilo que não se deixa domesticar.
Por isso a desejo.
Entre multidões iluminadas por telas,
entre discursos apressados,
entre rostos que se repetem
como reflexos de um mesmo espelho partido.
Desejo aquela
que ainda conserve algo de indizível.
Aquela cuja beleza não termine na superfície,
mas continue para dentro,
como um corredor sem fim
em um castelo abandonado.
E se algum dia a encontrar,
não lhe oferecerei promessas eternas.
Os séculos ensinaram-me
a desconfiar das eternidades.
Oferecerei apenas a noite.
Uma noite longa,
silenciosa,
perfumada por livros antigos,
vinho escuro
e pensamentos proibidos.
E talvez,
enquanto o mundo dorme
sonhando com suas pequenas certezas,
nós possamos contemplar juntos
a estranha beleza de existir
como duas criaturas noturnas,
para além da moral dos homens.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
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Caellum Noctis, Parte III - Vestígios de Lembrança
— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei. Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu: — Sei. — Então me leve até lá!…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
— Você… sabe onde estão minhas memórias? — perguntei.
Ela juntou as mãos e esfregou o polegar. Hesitante, respondeu:
— Sei.
— Então me leve até lá! Me diga o caminho.
Ela entristeceu. Depois de uma longa pausa, suspirou e disse:
— Caellum, eu sinto muito…
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, ela continuou:
— Vá para o castelo. Suas memórias estão lá em algum lugar. Com eles. Você... você as encontrará...
— Mas?
Ela hesitou novamente. O silêncio entre nós se alongou como um corredor sem fim.
— Mas?
— Nada. Deixa pra lá. Você sempre faz isso… — disse, caminhando até a porta.
— Vá. Não perca seu tempo comigo de novo.
E eu fui.
Saí de lá com mais perguntas do que quando entrei.
Caminhei pela estrada de terra por alguns minutos, até começar a avistar o castelo. Era magnífico — uma estrutura gigantesca, com torres por toda parte. Se minhas memórias estivessem lá, seria muito difícil encontrá-las em um lugar tão grande.
Mas, mesmo assim, segui.
O caminho até o castelo era fácil de percorrer. Depois da estrada de terra, encontrei uma bifurcação que me levou a uma estrada de pedra, e então, aos arredores do castelo que exibiam um lindo jardim. E por mais que estivesse com pressa, parei para observar um pouco.
Era lindo. Como se alguém cuidasse dele todos os dias.
Então me adentrei no castelo.
E uma forte dor de cabeça invadiu minha mente. Segurei a cabeça com as mãos, tentando fazer aquela dor parar.
E então me lembrei.
De novo.
Eleine.
Ela estava sorrindo. Tocando meu rosto com afeto.
Esqueci da dor por um segundo.
Quando finalmente parou, consegui lembrar de verdade.
Ela era minha esposa.
Caellum Noctis
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Muffins de Caramelo
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Akily agradeceu pelas rosas de Alberto com um selinho. Jogou-as no lixo assim que se tocou que ele não voltaria, pois já voltara uma vez para lhe dar um segundo beijo. Ela sorriu, reorganizando os ímãs na geladeira. Mas o sorriso se esmaeceu com peso na linha onde deveriam nascer rugas, e ela notou que alinhava ímãs já alinhados; que seu favorito estava descolando do esmalte ciano na porta do congelador.
Esqueceu de colocar o lixo para fora; agora os camarões podres teriam que esperar até o dia seguinte, aprisionados num cubículo de plástico quente junto das cascas de ovo e das rosas de Alberto. Passou aquele dia inteiro sozinha, embora não se sentisse assim. Começou preparando seus muffins de caramelo, cuja receita podia jurar que era primeira no mundo; separou a pasta em pequenas ilhas e as pôs no forno. Ligou a pequena Philco suspensa no teto num daqueles canais em que ela nunca sabia se as francesas discutiam ou se reconciliavam. Não é que, durante todos os séculos, não tivesse aprendido francês; havia parado de ouvir quando não lhe era necessário.
Havia passado o tempo correto. Ela abriu aquela grande boca de aço e sem querer queimou o polegar. A fumaça preta nunca havia saído do forno junto com os muffins. O sopro infernal subia tão agressivo que Akily largou o tabuleiro na mesa um segundo antes de espatifar no chão. Quanto mais a abanava, mais ela tomava formas distorcidas e dramáticas. Quanto mais a encarava, mais era encarada de volta; contornava seu corpo e encontrava seu rosto em algum ângulo imprevisível. Akily bufou. Não sabia quantas vezes teria checado a textura da massa antes de botar no compartimento pré-aquecido em toda a sua vida. Culinária vinha da mesma fonte que a música; um ajuste definia todo o corpo da receita, a melodia, a proporção; o que ela fazia com bolos de carne e tortas de maçã um século antes não era diferente, com exceção dos venenos açucarados extremamente gostosos dessa geração. Para ela, aquilo era felicidade com promessa e entrega instantâneas, seu estômago trituraria qualquer mal, as toxinas alimentariam seu sangue com vigor tal qual uma fruta colhida do pessegueiro alimentado com os restos da última bruxa de Salém.
Desligou a televisão. O francês a estava deixando com muito calor. Ouviu o barulho do lixeiro passando outra vez e abriu a boca, sentindo seu pulmão comprimir. Quando voltou à cozinha viu como o tabuleiro havia adquirido uma segunda pele de escamas marrons e pretas. Parecia a metade de cima de um dragão filhote, se eles não fossem mera fantasia. Enfiou seu dedo na massa e lambeu. O sabor familiar do caramelo em cubinhos nunca veio. A crosta de noz-pecã derretida amargou o céu da boca, mas o açúcar estava derretido o suficiente pela massa solada. Decidiu que estava bom. Apanhou uma mãozada e comeu assistindo seu reflexo cinza pela TV.
Ainda carregava satisfação em seu corpo quando resolveu se banhar à luz das velas aromáticas de uva, como se o caramelo tivesse escapado para o coração. Lembrou que devia beber logo do estoque novo de sangue, as três bolsas que guardara na geladeira junto da manteiga na promoção e o sangue quente que deixara no armário perto dos dois potes gigantes de creme de avelã. Faria isso assim que saísse do banho. Seu roupão fino permitia que a brisa gelada revelasse partes de seu corpo de que ela gostava bastante. Os cabelos, há muitos séculos retratados em pinturas agora engavetadas como liso morto, haviam conquistado ondulações suntuosas que refletiam as curvas de seus seios, coxas, dedos dos pés.
Pisou na água morna dentro da banheira, e só então se lembrou das pétalas de rosa guardadas num saquinho da loja esotérica dois quarteirões distante. Buscou-as e, num impulso que geralmente não lhe acometia, antes de notar que elas já murchavam, ao invés de jogá-las dentro da água: jogou-as para cima.
Estava submersa até a cintura; uma nova brisa gelada arrepiou sua clavícula, e sorriu de um modo que seus pelos se arrepiaram. Acabara de receber uma amostra do sopro de vida, tal como os seres vivos recebiam a água e o sol. O sol. Seu rosto contorceu, passando os dedos molhados pela barriga seca. “Se a vida é uma valsa cósmica que baila com o divino, a de um vampiro estará sempre um tempo atrasado, nunca sendo guiada pelas mãos do sol.” A frase da irmã ainda grudava. Ela não deixaria que a valsa parasse, mesmo assim. Seu coração se enchia tanto que enxergou sua condição com amor materno, tal qual um recém-nascido com uma alergia grave; mesmo que espirrasse, seriam espirros perfeitos, que a aproximariam cada vez mais do divino. Akily se levantou e fez os dedos contornarem a borda de alumínio do batente com bastante cuidado. Abriu mais a janela.
Depois que seus seios já balançavam na gravidade confortável da água, ela não sentiu vontade nenhuma de se tocar. Quando voltou para o quarto, havia decidido algo tão íntimo quanto seu nome ou quanto beber sangue.
Ao abrir o guarda-roupa de mogno antigo, dedilhou os vestidos suspensos no cabide e só parou em um daqueles poucos que nunca havia usado. Escolheu aquele azul com detalhes em marfim, que fora comprado num ato de altruísmo para sua irmã, antes que a dona cheia de pintas passasse na loja no dia seguinte. Se esqueceu de entregá-lo, afinal de contas, mas conseguia ver o rosto da irmã por entre as dobras de renda com cheiro de talco.
Demorou duas horas inteiras na frente do espelho da penteadeira, esfregando as cerdas macias pelos cabelos que passaram tempo demais no condicionador. Cheirava o sabonete em sua pele e depois dava um sorriso, seus olhos quase transbordando gotículas que faziam seus globos oculares doer. Sua barriga roncou. Pensar na bolsa de sangue fresca na geladeira pareceu tê-la saciado de quase todas as formas. Passou mais duas horas sentindo o quarto gelar com o ar-condicionado no 16. Lembrou-se do doce vento da Irlanda, a brisa gelada que arrepiou a pele quente e encheu o estômago de ar.
Só parou de alisar o lençol quando a palma da mão se irritou com a seda, e então repousou a cabeça de lado como quando dividia a cama com a irmã e deixou as pálpebras pesarem. Na manhã seguinte, quis ver a luz do sol pelo bumbum do tabuleiro de fazer muffins de caramelo.
Lavou a crosta doce com cheiro de açúcar artificial com força, afinal, não tinha tempo para compensar o vacilo de não o ter deixado de molho. Voltou para o quarto, calçou suas novas papetes roxas de borracha e vestiu a capa grossa de chuva com a qual recolhia as flores de Alberto diariamente. Caminhou fazendo barulho pelo azulejo do lado de fora e esticou o braço até o metal molhado encontrar a claridade do céu.
De repente sua varanda azuleou de tal modo que Akily se atribuiu asas. Estava voando por um verão sem nuvens, e então se deu conta de que havia tantos seres voadores no mundo. Podia fincar suas presas sorridentes e indolores nos corpos penados e ainda não faria a liberdade crescer em suas costas. Uma sobrancelha se levantou. Ela podia, claro que podia levitar. Mas não via graça nenhuma em manipular a gravidade com aquele formigamento todo na sola dos pés, na ponta dos dedos, das orelhas e pelo pescoço até o queixo. Ela queria voar como os anjos; mas não como nas pinturas no teto distante das catedrais em 1823 que tanto a irritavam. Detestava aquela leveza. Ela desejava os músculos eróticos que a conquistaram muito antes disso, que a tornariam uma deusa feita de curvas impossíveis; invejava o poder de voar até os céus com a promessa de ser um com o universo. No fundo, mesmo que não gostasse da ideia, sabia que seu voo pareceria muito mais leve do que gostaria.
Ainda contemplava em agradecimento a infinita luz azul, se perguntando se o sol era azul também, quando o tabuleiro escapuliu de seus dedos encapuzados. Seus ouvidos murcharam com o barulho estridente de um azulejo quebrado, o clarão do sol irradiando de uma forma que Akily se acuou para dentro da cozinha. Bateu a porta com tanta força que precisou conferir se a havia quebrado. Botou a mão no peito com os olhos arregalados. Não sabia o que dentro dela doía tanto. E então deu uma gargalhada desafinada e trêmula que expulsou o espírito daquela velha curandeira que lhe havia praguejado algumas décadas antes. Logo percebeu que respirava forçado demais, e ficou encarando o calendário da empresa de botija de gás enquanto sua alma, que voava tão alto, voltava para si. Teria esperado anoitecer para sair outra vez, mas sua garganta fechou; esperar algumas horas era tortuoso demais. Abriu a porta só mais um instante, um feixe de luz potente alcançando a geladeira ciano. Que luz poderosa e absoluta! Fechou a porta devagar e sem rir dessa vez.
Uma cólica tremenda a atravessou, a vista queimando. Um cheiro estranho e sinistro percorreu seu corpo. O lixo dentro de casa fazia aniversário. Se agachou para pegar o pote de Nutella, seu corpo pesando com exaustão. Foi para o quarto e ligou a TV. O francês piorou as dores no corpo. Passou o dia e a noite na cama.
Não se lembrava do sonho da madrugada, mas havia acordado com vontade de jogar mais pétalas para o ar. Ela viu o sol. Fechou os olhos com um sorriso bobo, quase como se pudesse ignorar as dores nas articulações. Por um momento, se imaginou novamente refletida naquela imensidão azuleada do céu da hora do almoço. Era quase como se tivesse memórias infantis que envolvessem dias solares encantados, embora soubesse que estava terrivelmente enganada. Preferia não ficar se corrigindo o tempo todo.
Tentou se levantar. Seu corpo não quis. Então espirrou tão forte que seu peito a fez deitar de novo. Em que momento havia resfriado? Passou a mão pelos braços, o rastro doendo até as dobras dentro da pele. A porta da cozinha devia estar se sentindo exatamente daquele jeito, foi o que pensou. O pote de creme de avelã havia deitado para dormir com ela e, por sorte, tivera sua boca fechada antes de ambos pegarem no sono. No fundo da colher ainda tinha Nutella, então ela a tomou na boca enquanto abria o pote outra vez.
No final do mesmo dia, estava tão faminta que precisou ir se arrastando com seu robe de seda rosa até o armário da cozinha. Embora seus cotovelos ainda lhe fossem fiéis, suas pernas tremiam como varas, e ela pensou que ter dado aquela risada histérica lhe havia custado caro; espantara espíritos importantes, que tomavam conta dela. Quando chegou no armário, percebeu como havia acumulado poeira no tecido fino. Arremessou o braço para dentro e rasgou a bolsa com a força que lhe restava. Virou-se para cima e deixou a cabeça descansar no travesseiro duro que era o chão do armário. Inclinou o líquido tão menos gostoso que avelã em direção à boca, mas seus braços fracos derramaram a primeira dose no colo do roupão.
Seu pescoço se levantou para abocanhar o corte no plástico, o sangue recheando sua boca por completo. Seu corpo mexeu um pouco. Ela tomou todo o sangue antes de lembrar de respirar, depois sentiu um espasmo fazendo-a contorcer como se despreguiçasse finalmente. Balançou os pés por um tempo, sentindo a dormência sendo expulsa, as unhas em vermelho descascadas. Estava completamente abastecida, o que a irritou profundamente. Conseguiu se levantar, xingando o roupão todo sujo. Ela não tinha deixado o chão imundo como parecia, aquilo não era verdade. Abriu a torneira e tomou água até que o gosto de ferro se dissipasse. Quando fez o movimento de jogar o restante da água na pia, sentiu que as juntas ainda reclamavam. Voltaria à loja esotérica para comprar mais pétalas depois que o sol se pusesse, mas antes das seis, se melhorasse. Compreendeu que era melhor, no fim, dormir em seu caixão naquela noite.
Ela só tirou o rosto do fundo estofado vermelho depois de algumas semanas; o velho despertador cismou de funcionar, e era sua primeira vez naquele ano inteiro, então Akily entendeu que era um sinal. Deu um pulo quando conferiu o horário; as cinco e meia da manhã na verdade eram cinco e meia da tarde, e então ela subiu pela escada em caracol até o quarto e trocou de roupa. Prendeu o cabelo, calçou a papete. Jogou o lixo podre no latão da rua. Catou o tabuleiro no chão da varanda. Havia esquecido as chaves dentro de casa; encostou o portão e saltitou com bastante convicção até a loja Bruxa Boa. Resolveu comprar uma balinha de cada tipo que pendia ao lado do caixa, a atendente dando piscadas tão demoradas que a tornou confortável em espiar tudo o que havia. Ah, vou levar essa mandala, também. Passou tudo no crédito pelo celular.
Fechou o portão e trancou a porta com carinho. Esticou a mandala pela mesa da cozinha, lamentando não ter um furo na parede para pendurá-la em sua cama. Comeu as três balinhas de alga de uma só vez, tendo certeza de que as cores diferentes não mudavam o sabor. Se o barulho do metal caindo ao chão não fosse tão alto, faria o sol aparecer pelo tabuleiro na tarde seguinte de novo. Abriu a barrinha de alfarroba e fez uma careta, depois pressionou o gosto com a língua até o céu da boca. Estava melhor do que seu muffin fracassado. Quando foi tomar banho para jogar as pétalas para o alto, passou pelo seu quarto e viu o pote de Nutella. Levou-o consigo.
O vapor do banho não queria subir, ruminando o calor dentro da água e transformando a banheira numa panela de cerâmica branca. Akily mergulhou lentamente, equilibrando a colher e o pote enquanto deixava a pele ceder e, quando os seios desceram, o perfume de rosas transbordou e molhou o tapete felpudo. Ao fundo, ouviu uma televisão vizinha alta, ligada na mesma novela que passava na Bruxa Boa. Deu um sorriso manso e levou uma colher cheia até a boca. Depois da segunda ou terceira colherada, resolveu que não precisava de doce para ser feliz, então a depositou no chão e inspirou profundamente. Encarou a janela, imaginando que tinha feito a noite se tornar manhã, recebendo o sol diretamente no rosto. Pensou que o calor que a cozinhava era dele, somente dele, e se pegou mordendo os lábios. Observou as pétalas que caíram com ela, tão murchas como a ponta de seus dedos, seus bebês com alergia grave. Ficou séria durante todo o resto do banho, seus olhos pesando tão pouco que ela mal precisava piscar.
Saiu da banheira, despediu-se da janela e foi para o quarto. As pegadas não a incomodariam daquela vez. Vestiu-se com o corpo ainda molhado, aquele vestido azul com rendas marfim que usara pela primeira vez semanas antes. Somente agora parecia entender tudo. Ousou rodopiar na frente do espelho da penteadeira. Sua irmã a teria puxado para dançar se lhe tivesse contado a descoberta. Colocou as mãos na frente da boca e rodopiou mais algumas vezes. Encarou-se no espelho como se não reconhecesse seus traços, embora ainda se achasse muito bonita. Talvez fosse um pássaro, quem sabe um Anjo. Era aquele passo que faltava em sua valsa.
Fez novos muffins, mas o caramelo havia sido orgulhosamente trocado pelo creme de avelã. Akily havia descoberto uma nova maravilha no mundo.
Aproveitou que ainda era antes das onze e ligou para Alberto. Dessa vez, não quis que ele a buscasse de carro, afinal, ela era a imortalidade encarnada, foi o que concluiu depois de séculos. Esqueceu a chave outra vez, mas fechou com firmeza a porta e o portão. Seus cabelos ainda escorriam e faziam cócegas molhadas pelas costas quando fez seus pés formigarem. Começou a levitar apenas o suficiente para o asfalto não machucar, e então foi levando seu corpo para frente. Mas o formigamento não valia a vagareza, portanto se atirou para o céu tão rápido que a fez se contorcer de frio. Como era bonito o bairro que escolhera para morar, pensou, à noite; apenas algumas luzes douradas acesas, sem o crescimento vertical excessivo das metrópoles poluídas. Desceu bem na frente da casa de Alberto e entrou sem tocar a campainha.
Alberto a tocou com paixão. Ela já lhe avisara que viajava às vezes, e ele compensou cada segundo de saudade com estocadas firmes. Akily o deixou admirar a pele nova sem que ele percebesse: ela não era mais como conhecia. Estava mantendo a virgindade de seu novo eu. Imaginou como seria enxergar o sol. Não era como se ela visse um fiapo de raio se esgueirando minutos antes do amanhecer para lhe beliscar a bochecha ou um clarão idiota num tabuleiro idiota. De forma alguma era aquilo. Sua boca se tornou passagem de gemidos molhados quando pensou no sol a enxergando de volta. Ele abriria os olhos, talvez um de cada vez, ou os dois ao mesmo tempo. Compreenderia suas feições, a cor de sua pele, e lhe diria com quem ela se parecia mais: a mãe ou o pai. Ela já não se lembrava, mas derreteu nos braços de Alberto, imaginando que se parecia mais com a mãe.
No dia seguinte, vestiu sua capa de chuva por cima do mesmo vestido azul e buscou as flores no correio. Rosas vermelhas. Não as jogou fora, porque aquele novo ser gostava muito das rosas vermelhas de Alberto. Na verdade, gostava dele como um todo, o suficiente para passar no banco e transferir a ele uma boa quantia do seu dinheiro secular antes de voltar para casa e se arrumar. Tinha um encontro, afinal de contas.
Preparou uma pequena lancheira da época de quando as escolas começaram a aceitar mulheres como alunas. Era o tipo de quinquilharia que ela não sabia para que guardava, mas preferiu não se julgar naquela situação agora que lhe era tão conveniente. Arrumou uma refeição com dois sanduíches de queijo e manteiga, depois foi até o banheiro, pegou o pote e enrolou mais dois pães-de-forma no creme de avelã. Faltava algum líquido, mas ela sabia que podia parar na banquinha logo antes de pegar o trem e comprar uma Coca-Cola. Guardou também o buquê de rosas.
— Desculpe, senhorita. Nós acabamos de fechar.
Akily não conseguia entender como a estação de trem tinha tão pouca opção na parte da noite. Então ela engoliu em seco e moveu lentamente seu polegar. O dono da banquinha perdeu qualquer expressão nos olhos, tornando-se o que Akily não gostava muito. Ele enfiou a mão com Parkinson no bolso largo da frente e buscou pela chave correta. Abriu a porta minúscula e barulhenta e catou uma latinha de Coca-Cola e uma garrafa de água com gás, as mais geladas que havia na geladeira e as depositou no chão sujo da estação. Ela segurou as bebidas e as limpou na barra do vestido azul. Abriu a água e deu uma golada, depois guardou as duas na lancheira e seguiu para a plataforma. Só deixou o homem retomar o controle depois que o fizera caminhar para bem longe, esperando que o tivesse guiado pela direção que ele pretendia.
Era 22:22 quando ela recebeu uma mensagem de Alberto. Estava fora de si, escrevendo palavras quase irreconhecíveis. Alguém havia mandado três milhões para a conta dele. Estava com medo de ser testemunha ou cúmplice ou mandante de algum crime, mandou áudio dizendo que seu coração doía. Akily pôs a mão no peito e se lembrou de quando o dela também doeu, compreendendo que o que sentira ao ver o sol no tabuleiro foi a sensação absurda de sorte que Alberto sentia agora. Mandou uma mensagem fazendo-o prometer que não contaria para ninguém que o dinheiro saíra de sua conta. Não queria que ele morresse, nem de preocupação nem de felicidade. Por fim enviou uma selfie e, sem esperar visualização, bloqueou a tela. Quando ouviu o trem que ela precisava pegar chegando na estação, jogou o celular no trilho e se preparou para embarcar.
Somente lá dentro conseguiu sentir um pouco de calma para observar o redor. Tudo o que existia na frente da vidraça manchada era um adolescente que ocupara seu lugar no banco. Desviou o olhar tão naturalmente que se esqueceu que tinha a intenção de observar. Aproveitou o assento de madeira bem alto e ficou mexendo as pernas descalça como estava, fazendo carinho na gola do vestido, enquanto encarava os homens de chapéu passando rumo a outra plataforma. A estação não era tão bem iluminada quanto a cidade vista do alto pelos seus pés formigantes, e concluiu que os limpadores não deviam receber tanto.
Quando o trem iniciou sua jornada às Dunas Múrmuras, algo dentro dela despertou uma felicidade extrema, como se Alberto a tivesse entendido. Como era prazerosa a nova carne recém parida, ainda nascente como sol do dia seguinte. Ela chegaria no deserto às 4h da manhã. Apanhou um sanduíche de queijo e manteiga já de olho no de Nutella. Sentia uma fraqueza sutil roendo seus braços. Abriu a Coca-Cola com um estalo orgulhoso e observou a paisagem como se a visse pela última vez. Sabia que em breve a pequena cidade seria substituída por uma série de construções cheias de janela, fumaça preta invasiva, trânsito que ela morreria dez vezes antes de pensar em pegar. Depois de algumas horas, jogou seu corpo para o lado e fingiu que o estofado vermelho era o interior de seu caixão.
Acordou com um formigamento e se assustou, pensando que estava tentando levitar dentro do trem. O breu que tomava conta do lado de fora só não a engoliu de vez por causa das luzinhas simpáticas que costuravam o tapete da cabine. Podia ter trazido um livro, ou até mesmo seu Kindle, se tivesse compreendido, antes, que seu novo eu gostava bastante de ler. Desceu na estação correta e estranhou ter sido a única. Colocou a lancheira nas costas e levitou lenta.
Akily sabia que precisava se afastar o máximo possível do trilho em linha reta. Logo tudo o que conseguia ver era a fina lua no céu, a aliança que o dia entregara para a noite como prova de seu amor. Seu dedão do pé bateu num monte mais volumoso de areia, e então ela percebeu que estava na hora de levitar mais alto. Atirou-se para frente numa súbita empolgação, o coração palpitando. Não sentia aquilo há mais tempo do que conseguia contar. O deserto brincava com seus olhos, de forma que parecia haver muitos pontos de luz colorida dentro da escuridão azúlea. Era como ir de encontro com o nada, sentindo a brisa fresca furando a pele com grãos gelados de areia. Eram tão virgens quanto ela, acariciando a face de um ser vivo pela primeira vez na vida, foi o que escolheu pensar. Sentiu-se fraca outra vez. Se já não estivesse no coração das Dunas, ao menos estaria em seu pulmão.
Deixou seu peso cair na areia quando percebeu uma leve declinação. Abriu a lancheira para retirar o buquê, acabou devorando logo os dois sanduíches cremosos antes que apodrecessem. Fechou os olhos, e cada vez que os abria, uma nova onda de claridade laçava seu corpo e a fazia tremer. Qual delas era a verdadeira face do Sol?
Ela vibrou quando se lembrou dele. Estava o evitando desde quando saiu do caixão, mas cada centímetro de sua pele nova gritava por ele, ansiava por sua aparição como os povos na época que ela nasceu. Falou seu nome em voz alta, depois seu queixo tremeu e sua risada virou um choro dolorido de sair dos olhos. Olhou para as pétalas que faziam cócegas no colo e sorriu, vendo que seu choro havia azuleado algumas das rosas vermelhas.
Um vento fez o corpo de Akily se expandir até sentir frio. Ela inclinou o rosto para não respirar areia, mas conseguia senti-la dançando entre os fios do cabelo. Seus olhos lacrimejaram outra vez. Enxergava tudo e qualquer coisa em sua frente. As dunas remetiam às catedrais com tetos que tanto lhe irritavam. As cordilheiras pareciam repetir as curvas de seu corpo, infinitas fileiras de areia moldada pelo vento, organizadas como nuvens num céu renascentista. Estava se casando. Fechou os olhos, sentindo uma fraqueza sem fim, e viu Alberto como um padrinho feliz, contente com o presente que acabara de receber na conta. Mas, do começo da passarela onde estava, Akily ainda não via seu noivo.
O arranjo no buquê continuava azulescendo; as rosas que já haviam azulescido antes tinham miolos distorcidos em marfim, como se Akily segurasse pequenas caveiras. Ela só não se lembrava em qual momento havia planejado um buquê daqueles. Mas não tinha problema; uma noiva deveria se lembrar de mil coisas e esquecer outras mil.
E então ela enxergou.
Ele não abriu um olho ou dois. O fogo galopava no horizonte trêmulo em cima de um cavalo dourado e forte. Akily gemeu quando sentiu a testa queimar, seus olhos incapazes de compreender o que via, ao passo que compreendia absolutamente tudo. O mundo era dourado para os que voavam.
Seu pescoço quase não se moveu, seus ossos rangendo conforme ela executava qualquer gesto. Somente ela podia se casar com ele, guardou aquela certeza em seu coração quando percebeu que não segurava mais o buquê. As duas rosas ainda vermelhas se derretiam em sangue pela areia. Num espasmo, as arrematou de volta e as lambeu, o gosto de ferro revigorando seu ser com um fogo quase tão ardente quanto o de seu futuro marido.
Seu estômago se revirou em ânsia; algumas cinzas inconvenientes tomaram a vista, mas, quando se viu livre delas, estava leve, como os anjos que tanto desgostava, e começou a rir. O fogo irradiava de seu peito para o deserto, seus olhos cegos por um clarão que a tomava inteira. Era a noiva mais linda, sairiam dizendo isso. Ela recebia o Sol impiedoso. Ele a atravessava crua. Não reconhecia aqueles pedaços de pele que rolavam com o vento forte sobre a areia fina.
Ela era toda Dourado, ela era toda Anjo, e recebia a coroa solar sobre o cabelo de fogo, na pele virgem que havia parido para ele.
Quando ele a segurou e a levou pelo horizonte em brasa, Akily enfim revirou os olhos e deixou uma última lágrima escapar, esquecendo-se de todos os muffins de caramelo que fez na vida.
Sophia Kaiser
S. Kaiser é escritora de ficção gótica contemporânea, fascinada por vampiros que parasitam o cérebro humano em forma de culpa e desejo. Sempre escreveu sobre ferida que grita antes que a palavra a decifre, geralmente na perspectiva do monstro rejeitado, tentando seu máximo para não romantizá-lo na vida real. Fortemente influenciada pela melancolia de Louis em “Entrevista com o Vampiro”, pela narração visceral de “Império do Vampiro” e pela complexidade psicológica de Dostoiévski e Clarice Lispector. Atualmente, revisita sua obra para relançamento na Amazon. » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Cianeto
No altar, em júbilo | Trajada em seda negra | Espero sob os olhos divinos | Brilhantes e perversos | A catedral silenciosa | Iluminada pela Lua…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
No altar, em júbilo
Trajada em seda negra
Espero sob os olhos divinos
Brilhantes e perversos
A catedral silenciosa
Iluminada pela Lua
Vitrais tremeluzem fantasmagóricos
Velas derramam descontentes
Os pés na pedra fria
A noite é minha cúmplice
Renuncio o ânimo
Clamando em devoção febril
Coberta pelo véu
Murmuro votos eternos
Entrego meu coração
Em matrimônio à morte
Bebo da taça profanada
O toque álgido em minha pele
Sinto seu beijo morrediço
Lábios azuis pálidos
Lilium Batista
Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
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Menel Lomë I - O Herói Que Ninguém Pediu
Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As pessoas que inventamos
Não existem fora de nossa cabeça
Por isso, inventar personalidades
De quem mal conhecemos
Pode ser nossa ruína
Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela escrivaninha. A tinta de sua caneta ainda pingava, e o papel ainda estava úmido. Com o retrato ainda secando.
Era o retrato de uma jovem: pele morena, cabelos enrolados, olhos profundos e vivos. Não se parecia com ninguém, pois era feito com memórias.
O resto do ateliê estava bagunçado; textos e cadernos jogados por toda parte, todos eles contando sobre a mesma mulher, sob a mesma perspectiva. Menel Lomë escrevia para tornar sua amada real, pois jamais teve coragem de dizer o que sentia quando ainda era tempo.
Mas então ela desapareceu. E isso levou Menel à loucura, guiado por um romantismo idealizado e irreal.
Ele a havia visto três vezes.
Na primeira, em uma viagem. Ela estava com um casal de amigos, posando para uma foto que se perderia no tempo, mas ele... ele a guardava na memória.
Ela sorria. O casal atrás, de mãos dadas, posava para a foto. A garota tirou a foto e correu para mostrar aos amigos, e todos pareciam felizes. Mas Menel viu solidão onde havia apenas um momento feliz de uma viagem.
Na segunda vez, foi mais perto. Perto de casa. Perto demais. Ela estava tomando café, lendo o livro preferido dele. Ele se apaixonou ali. Pensou em perguntar sobre o livro, pensou em fazer uma piada, pensou em comentar algo sobre o que ela estava lendo.
Pensou demais.
Ela fechou o livro, levantou-se e foi embora.
A terceira vez foi ontem. Ela caminhava à noite na rua, e ele a viu pela janela do ônibus. Criou coragem, correu para a porta e, quando o ônibus parou, desceu. Correu até ela. Mas ela já não estava mais lá. Ela havia sumido e, onde ela deveria estar, havia um portal mágico e sinistro fechando-se.
Menel, dessa vez, não pensou. Não hesitou. Apenas correu.
Jogou-se para o desconhecido, esperando ser o herói que ela não pediu para resgatá-la.
E então ele sumiu, tudo sumiu.
Menel apareceu caído em outro mundo; o rosto sujo, as mãos raladas, a pele sangrando.
Levantou-se e viu um homem de sorriso largo e pontiagudo que surgia com um manto negro bordado em ouro-bronze. Ele estava ao lado de um menino, a quem segurava pelas mãos; a criança tinha olhos pálidos e roupas singelas.
Menel se levantou e disse:
— Onde ela está?
O homem, em silêncio, apenas sorriu.
— Ela já se foi.
Aquele sorriso fez com que diversos pensamentos — um pior que o outro — passassem pela cabeça de Menel. E o homem voltou a dizer:
— Ela não morreu. Ainda não. Mas as coisas aqui vão mudar em pouco tempo. Cinco atos, cinco tempos. E o sofrimento-carmim vai acontecer.
— Não demore a encontrá-la — continuou o homem. — As coisas vão ficar bem complicadas se você demorar.
Então ele puxou uma joia, um anel muito bem adornado, com uma única pedra carmim reluzindo no centro…
— Aqui. Pegue. Vai te ajudar.
E no momento em que Menel tocou a joia, uma névoa cobriu sua visão, e o gosto de sangue tingiu sua boca. Menel sentiu náuseas, e o cheiro de sangue surgiu em suas narinas.
Um segundo depois, sua visão retornou.
E o homem e a criança já haviam desaparecido
Quando ele voltou à consciência, estava parado no mesmo lugar, mas, agora, sem a figura do homem, conseguia perceber onde realmente estava:
Na areia.
Seus pés, agora descalços, tocavam a areia fina e gelada. Sua mão ainda segurava a joia. Seu olhar se perdeu no horizonte do mar.
Estava perdido.
Mas sabia exatamente o que queria. Quem queria encontrar.
Só não sabia por onde começar.
Então ele caminhou pela praia, procurando-a. Procurando qualquer rastro que ela tivesse deixado.
Mas não encontrou nada.
E então começou a pensar nas consequências de ser inconsequente. Talvez ser o herói de sua alma gêmea fosse mais desafiador do que qualquer coisa que ele tivesse feito até agora.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Caellum Noctis, Parte II - Minhas Memórias
Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico.
Aos poucos, minha visão se ajustou e comecei a entender onde estava, mesmo que isso fosse irreal. Eu tentei entender, mas acho que enlouqueci, pois nada do que conseguia ver parecia real. O céu era vermelho, o rio era brilhante e o cheiro parecia velho e antigo. Apesar de estar ao ar livre, era como estar preso em uma sala empoeirada demais.
O azulíneo do rio brilhava ou parecia brilhar. A luz iluminava apenas o suficiente para que minha imaginação completasse o resto — formas que se moviam nas bordas da visão, sombras que podiam ser árvores ou coisas observando, esperando o melhor momento para atacar.
Aquele lugar era hostil, eu podia sentir. Mas não era uma hostilidade comum, era como se qualquer coisa pudesse me matar... a qualquer momento..., mas escolhia esperar, escolhia não ter que caçar e apenas esperar para quando eu não pudesse mais fugir.
E então, eu a vi.
Como se sempre tivesse estado ali. Me observando.
— Eleine — sussurrei, esperando que meus olhos e minha mente entrassem em acordo sobre aquilo ser real ou apenas minha mente pregando uma peça.
Não era possível. Não podia ser ela. Era fácil demais.
Mas meu peito não queria saber. Ele acreditava. E isso é o poder que a imaginação tem sobre os homens apaixonados…
Descobri depois o poder daquele azulescer. As plantas que pareciam chorar sangue tinham algum efeito sobre a mente. E eu fui apenas mais uma vítima.
A última coisa de que me recordei, antes de desmaiar, fora seus cabelos: pretos de um lado, uma mecha branca do outro. Ela se ajoelhou perto de mim, e eu pude ouvir sua voz preocupada, perguntando-me se estava tudo bem.
E então…
O vazio.
Quando acordei, estava deitado em uma cama dura. Minha boca tinha gosto amargo, e minha mente continuava nublada, como um quebra-cabeças com peças faltando. Se recuperei alguma memória ao vir para cá, eu a esqueci novamente.
— Vejo que acordou — disse uma voz.
Suave. Melodiosa. Quase sedutora.
— Tive que cuidar de você e te tirar de lá. Aquele lugar é difícil para recém-chegados.
Segui o som da voz, procurando de onde vinha. E então a encontrei.
Ela era diferente da mulher que vi na minha ilusão. Não era Eleine. Eu não conseguia sentir o desejo, o amor, o prazer que me atravessavam quando pensava no que Eleine significava. Aqui, havia apenas curiosidade. E cansaço.
— Quem…? — tentei perguntar.
Queria fazer tantas perguntas: “Onde estou? Quem é você? Onde encontro respostas sobre mim?”. Queria saber tudo, mas não sabia como me expressar. Minha cabeça doía. Minha boca não falava o que eu mandava.
— O remédio ainda vai levar um tempo. — Ela se aproximou, sentando-se numa cadeira ao lado da cama. — Os efeitos colaterais… bom, tudo ainda vai levar algum tempo para melhorar. — Ela colocou a mão em minha testa, sentindo o calor do meu corpo, me examinando.
Ela me observou em silêncio por um momento. Os olhos dela eram estranhos, de uma cor que nunca tinha visto antes, de uma cor que não existia. Mas ali, era tão real quanto qualquer coisa. Se é que alguma dessas coisas eram reais.
— Não sei por que está aqui, estranho — ela continuou, inclinando a cabeça. — Mas talvez tenha seus motivos. Todos têm.
— Quero... quero encontrar minhas memórias...
E eu pude notar sua expressão, ela sabia o que eu estava procurando, ela sabia quem eu estava procurando.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Seu Calor Cruel
O azulescer | transbordou em meu peito | O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou | A voz invisível | Escapa pela cicatriz da minha pele | E meu coração grita…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O azulescer
transbordou em meu peito
O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou
A voz invisível
Escapa pela cicatriz da minha pele
E meu coração grita
Ecoando no vazio da minh’alma
Exigindo o calor
Que pode me matar
O conforto do sol
Em seu abraço
Os dois queimando minha pele
E me matando um pouco, toda vez
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Tristeza Abissal
A névoa ergue-se como uma prece interrompida | um murmúrio que ninguém distingue, | mas que se aloja na pele | como o frio que anuncia a morte das coisas belas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A névoa ergue-se como uma prece interrompida
um murmúrio que ninguém distingue,
mas que se aloja na pele
como o frio que anuncia a morte das coisas belas.
Há orvalhos que descem lentos,
tão lentos,
que parecem medir o tempo pelo ritmo da dor.
E eu, que deveria esquecer,
repito o gesto antigo de quem espera
por algo que não vem,
mas fere.
A noite carrega um rosto que não finda.
Ela caminha comigo pelas falésias do sonho,
toca meu ombro como um segredo,
invade o silêncio como se fosse memória.
Profunda demais para que o corpo resista,
sombria demais para que a alma adormeça.
Vive num intervalo,
num quase,
num limiar
onde a existência se desbota.
O mundo se dobra adiante,
nesse cinza-rosado que sangra nostalgia.
Flores espectrais inclinam-se ao meu peso,
sabendo que trago um vazio
sem nome,
mas com um cheiro:
— o cheiro úmido daquilo que um dia esperei.
Rios imóveis,
mares hesitantes,
o vento, velho mensageiro,
incapaz de trazer respostas.
Talvez porque tudo esteja suspenso
num suspiro que se recusa a nascer.
E aquilo que devora por dentro
não tem pressa.
Seria fácil se viesse de súbito.
Mas não, age com a delicadeza cruel
das coisas que entendem
que a maior dor é sempre a lenta.
Senta-se ao meu lado,
toca meus versos,
e os torna mais verdadeiros
que minha própria respiração.
E então percebo:
é nesta penumbra translúcida,
onde tudo é passado e futuro ao mesmo tempo,
que aprendo a última lição
a de que, apesar de tudo,
ainda permaneço,
ainda espero,
ainda sangro poesia.
REVISADO POR SAHRA MELIHSSA
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Manto Sagrado da Noite
A névoa sobe como exércitos vencidos, | erguendo suas lanças translúcidas | num silêncio que antecede a ruína. | O orvalho desce como cortejos fúnebres,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A névoa sobe como exércitos vencidos,
erguendo suas lanças translúcidas
num silêncio que antecede a ruína.
O orvalho desce como cortejos fúnebres,
marcando cada passo meu
com o peso de eras esquecidas.
Caminho entre falésias que respiram,
ilhas quebradas do tempo,
onde cada pedra guarda o eco
de algo que nunca deveria ter sido ouvido.
A noite se abre como um manto antigo,
sagrada e terrível,
circundando-me com seus presságios.
Sinto-a avançar, lenta,
como criaturas que se aproximam
em um mundo onde o destino
já foi decidido antes do nascer das estrelas.
A fronteira se dobra diante de mim,
e dela surgem sombras que me reconhecem
mesmo quando não sei quem sou.
O mundo cintila em rosa cinéreo,
cidades fantasma ao longe,
mares que recuam como dragões fatigados,
rios imóveis guardando segredos
profundos demais para o sopro humano.
Flores espectrais abrem e fecham seus véus,
como clamores de um reino caído.
E o vento, o velho arauto,
se cala por respeito ao que se aproxima.
Dentro de mim, algo desperta.
Um antigo chamado.
Um juramento que não lembro de ter feito,
mas que pulsa como sangue nascido antes do mundo.
Toca meus versos:
— não como consolo,
mas como espada.
E então percebo:
minha luta não é contra monstros,
nem sombras,
nem destinos.
É contra o próprio eco do que fui.
E ainda assim avanço.
REVISADO POR SAHRA MELIHSSA
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Velian: O Banquete da Noite
Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra fora reencontrada — mas agora não havia nostalgia nem peso: o que ardia em sua alma era sede, não de simples sangue, mas de corpos, de jogos, de poder e vertigem. É que o vampiro intuía agora que de nada ou de pouca coisa valia seus esforços por encontrar sentido último na vida. Por meio de seus encontros atrozes com a deusa Nix, Velian entendia que, por mais magia que estudasse, não iria descobrir uma verdade última sobre a vida, que era imensa e se desdobrava demais até para ele. Com isso, o vampiro não pretendia deixar de lado seus estudos, pois percebera que sempre haveria mais coisas para entender, e, no processo, ficar ainda mais forte e poderoso.
Da varanda alta de um edifício antigo, o vampiro contemplava a cidade. Fortaleza estendia-se como uma tapeçaria noturna de luzes, fumaça e mar distante. E apesar de o vampiro admirar a cidade de vez em quando, ele não buscava beleza contemplativa; buscava movimento, carne, pulsares. Com um sorriso enviesado, lançou o chamado: não súplica, mas desafio. Convocou Cassandra por meios telepáticos. Não a queria como lembrança, mas como chama. Queria testá-la, tê-la ao lado, enfrentá-la no terreno mais fértil da luxúria, onde Cassandra era muito boa, melhor que ele na maioria das vezes, ele reconhecia. Só que, desta vez, o vampiro não se importava com quem fosse ganhar, se todos, no final, fossem ter prazer. O vampiro também se sentia recarregado em seu interior e sentia que estava preparado para Cassandra.
Ela veio. Surgiu como sombra lasciva em meio à escuridão e o breu do prédio em que Velian estava, o vestido colado à pele como promessa. Entre os dois, não havia saudade, apenas provocação. Ele a olhou como quem devora; ela riu como quem jamais se deixa conter. "Dessa vez foi rápido." — pensou o vampiro. Velian ainda não conhecia muito bem o poder da teletransportação, o vampiro precisava voar e percorrer longos caminhos, ainda que rápido, para chegar aos seus destinos.
— Ainda és capaz de me surpreender, Velian? — ela sussurrou, deixando o hálito frio roçar-lhe o pescoço.
— Não preciso surpreender, Cassandra. Preciso apenas… consumir.
A cidade se abriu para eles como palco obsceno. Primeiro, a boate pop, onde corpos reluzentes dançavam sob luzes de néon: ali sugaram a vitalidade de um casal, jovens que tremiam entre o medo e o êxtase. Depois, o subterrâneo rochoso do rock, onde o suor misturava-se ao sangue — um beijo rasgado em meio aos gritos das guitarras. Mais adiante, o caos punk, onde corpos se chocavam, e Velian se embebedou do gosto amargo de um rebelde, rindo ao ver Cassandra deixar marcas profundas nos ombros de uma mulher andrógina que se oferecia como oferenda. Por fim, o delírio ciberpunk: máquinas e carne, implantes cintilantes, olhos de néon. Ali, eles foram de todos e de ninguém — sorvendo, possuindo, misturando-se até que a madrugada não tivesse mais fronteira.
E então veio o chamado. Não humano, não terreno. Um som grave, como se as paredes vibrassem com a respiração de algo antigo. O ar magenta se adensou, dissolvendo a boate ciberpunk em ruínas úmidas. Diante deles erguia-se o Castelo Drácula, vivo, pulsante, enraizado em sombras.
Velian e Cassandra trocaram um olhar de puro gozo: a noite apenas começava.
Entraram. No salão principal, criaturas os aguardavam. Vampiros menores reverenciavam ou invejavam sua presença. Fantasmas serpenteavam, oferecendo toques frios como beijos eternos. Lobisomens os observavam com uma fúria erótica, como se o desejo fosse tão grande quanto a raiva. E, entre colunas que se erguiam como membros retorcidos, pairavam entidades mais antigas — quase divinas, encarnações da noite e do prazer.
Tudo respirava sob o signo do magenta profundo: cor entre o rosa mórbido e o vermelho do sangue, ardendo como febre nos vitrais e nas peles. Cassandra gargalhou, e sua risada ecoou como chicote. Velian apenas abriu os braços, como se o castelo inteiro lhe pertencesse.
Ali, não havia mais mortais, não havia mais limites. Apenas a noite, o desejo e o abismo. E Nix, Senhora da Noite, invisível, mas presente, erguia-se como símbolo absoluto, assistindo ao jogo de poder e luxúria entre seus filhos imortais.
A Noite Magenta reinava.
O salão respirava como uma garganta viva. Cada sombra parecia observar, cada sopro de vento trazia perfumes de sangue e de incenso queimado. Cassandra caminhava como se fosse a própria sacerdotisa da luxúria. O vestido desfazia-se em transparências, e dela emanava a volúpia de uma rainha indomada. Velian a seguia com olhos cerrados de desejo e ironia, consciente de que a provocação dela só o inflamava mais.
Dizes que me consomes, Velian… — Cassandra deixou escapar num murmúrio rouco. — Mas e se fores tu o devorado?
— Que me devorem então — respondeu, mordendo-lhe o pulso delicado.
O sangue escorreu quente, vermelho e febril, e ambos sorriram como predadores cúmplices. Ao redor, os convidados da noite se aproximavam. Uma vampira jovem, de olhos cinzentos, ajoelhou-se diante de Cassandra, oferecendo-lhe o pescoço. Cassandra aceitou com a delicadeza cruel de quem colhe uma flor para logo esmagá-la. Velian, observando, riu baixo.
— Sempre a rainha de súditos desesperados.
— E tu, sempre o cavaleiro que finge desdém, mas não resiste a entrar no jogo.
Um lobisomem se ergueu da sombra. O corpo musculoso, marcado de cicatrizes, observava-os com fúria erótica. Velian estendeu-lhe a mão e, num gesto inesperado, arrastou-o para perto. Beijou-lhe a boca com violência, arrancando-lhe um uivo de prazer e dor. Cassandra gargalhou, e o eco da risada fez os fantasmas estremecerem.
Velas altas ardiam em magenta, tingindo as paredes de febre. Entre colunas retorcidas, ninfas espectrais surgiam — seres de pura energia que tocavam com mãos etéreas, provocando tremores de êxtase. Uma delas deslizou por entre Cassandra e Velian, sussurrando um canto sem palavras. Velian fechou os olhos: o toque frio era como mergulhar em abismos de desejo sem fundo.
No centro do salão, uma mesa de pedra negra cobria-se de taças com sangue aromatizado por flores espinhosas. Ali, Cassandra puxou Velian pelo colarinho e o empurrou contra a superfície dura. O beijo deles foi brutal, quase uma batalha.
— És meu inimigo e meu deleite — ela sussurrou.
— E tu, Cassandra, és minha perdição favorita.
A sala inteira parecia vibrar em torno deles. Os outros seres — vampiros menores, fantasmas, lobisomens — não apenas assistiam, mas participavam, entregando-se a toques, beijos, mordidas, formando uma espiral orgiástica de desejo e violência. A noite pulsava como um coração colossal.
E, acima de tudo, Nix, Senhora da Noite, pairava invisível, mas inegável. Velian sentiu sua presença como sopro no pescoço, como mão invisível sobre o peito. Era mais que luxúria: era o eterno chamado da escuridão, o ventre cósmico de onde nascia o desejo.
Por um instante, Velian fechou os olhos. O tempo não existia — apenas ciclos de prazer, sangue e silêncio. A melancolia se dissolveu no delírio magenta, e até o vazio se transformou em alimento.
Era ali, entre o amor e o abismo, que agora ele se sentia mais vivo.
Ninfas dançavam entre pilares de pedra, seus corpos translúcidos refletindo tons rubros, que se misturavam à penumbra do castelo. Velian sentiu o chamado: não havia necessidade de força, apenas de entrega ao êxtase que o rodeava. As criaturas o cercavam, e cada toque era como eletricidade: não física, mas metafísica, percorrendo a sua forma vampírica em ondas de calor e frisson. O desejo era profundo, não vulgar — um trago da própria eternidade.
— Velian — murmurou uma voz etérea, deslizando pelo corredor como fumaça de incenso. Era uma das ninfas, seu corpo esculpido em curvas impossíveis, os olhos refletindo auroras de cores também impossíveis — Você sente? Não é fome, não é sede. É vontade de tudo possuir, e ainda assim nada deter. É o prazer do infinito que nos rodeia.
— Sinto — respondeu Velian, a voz baixa e rouca, reverberando nas paredes úmidas — Sinto o vazio e o desejo, tudo ao mesmo tempo. Sinto o poder de existir, mesmo sem precisar do desespero.
— E ainda assim há ironia em ti — disse outra presença, um fantasma andrógino que se aproximava por entre as colunas, roçando sua essência contra a aura de Velian — Tens força para moldar mundos, e escolhes caminhar por entre sombras, provando prazer do etéreo. É humano demais, ou vampiro demais?
O Castelo Drácula os envolveu com seus corredores labirínticos, onde o tempo se curvava e cada sombra parecia palpitar com vida própria. Velian, pulsando com uma energia voraz e confiante, sentiu a presença das criaturas — fantasmas translúcidos, ninfas que ondulavam entre a penumbra, e seres andróginos cujos olhos brilhavam com segredos antigos. A respiração de todos se mesclava ao ar denso, impregnado de aromas doces e metálicos, uma fragrância que falava de desejo e eternidade.
— Aqui, até o silêncio tem gosto de sangue — murmurou Cassandra, deslizando ao lado de Velian, sua voz quente como veludo, provocando arrepios nos seres que os observavam. — Cada respiração, cada toque, cada olhar é uma dança de poder.
Velian sorriu, mordendo o lábio com malícia. Ele não buscava humanos agora — apenas o calor vivo e intenso dessas entidades que respiravam o mesmo abismo e compartilhavam da mesma sede. Ele tocou uma das ninfas, sentiu sua pele etérea vibrar entre seus dedos, e percebeu como o prazer e o medo se entrelaçavam, como se cada suspiro fosse um cântico antigo, uma oração esquecida.
Entre risos e murmúrios, seres com corpos andróginos aproximaram-se, oferecendo olhares que queimavam e mãos que provocavam pequenas faíscas de eletricidade na pele. Velian aceitou o jogo com destreza, sua presença um magnetismo de desejo que atraía e incendiava cada ser à sua volta. Cassandra, sempre altiva, seguia seus passos, brincando de dominadora e cúmplice, deslizando sobre os corpos que se curvavam e arqueavam sob a tensão do prazer.
— Não é só sobre matar ou seduzir — disse Velian, a voz grave, o olhar em chamas, enquanto uma sombra de fantasma cruzava seu corpo — é sobre sentir a eternidade no toque, no êxtase, na fusão do desejo e da vida que pulsa por trás da escuridão.
— E ainda assim — replicou Cassandra, arqueando a sobrancelha, os lábios tingidos de rubor de vinho — há sempre algo mais. Sempre há. O poder, o prazer, a fome… nada disso se compara ao que se encontra quando aceitas a profundidade da noite, e daquilo que somos. Tu queres sentir tudo, não é? E eu estou aqui para que sintas.
O toque, os olhares, o jogo de aproximação e afastamento criavam uma coreografia de luxúria e poder, onde o prazer era apenas o início da compreensão de algo maior — da eternidade, da solidão compartilhada e da beleza perversa de existir. Fantasmas e ninfas entrelaçavam-se, vozes sussurrantes cantavam cânticos indecifráveis, e a arquitetura do Castelo parecia responder, pulsando, expandindo-se, como se respirasse com cada desejo consumado.
Velian e Cassandra, lado a lado, abraçavam a escuridão, percebendo que cada toque, cada carícia, cada arrepio era uma reafirmação de sua própria condição: eternos, sedentos, livres, mas ainda assim ansiosos por sentidos, laços e descobertas. O Castelo os envolvia, a noite os consumia, e a sensação de pertença àquilo que era maior que a própria vida os incendiava por dentro.
— Aqui, no fim, — murmurou Velian, sentindo a vibração de Nix, senhora da noite, pairando sobre todos — só o desejo e o vazio coexistem, e são eles que nos tornam mais vivos que qualquer mortal.
Cassandra sorriu, e juntos, absorvendo cada ser, cada suspiro, cada presença, permaneceram na dança eterna do Castelo, entregues ao prazer, ao poder e à própria eternidade, até que o vento metálico do limiar sugeriu que novas descobertas os aguardavam, e que a noite jamais terminaria.
O Castelo Drácula tremia. As paredes antigas estalavam como se quisessem expelir séculos de segredos, e as torres pareciam ceder ao peso da própria eternidade. Velian sentiu o chão vibrar sob seus pés, o ar metálico da noite se tornando denso demais, quase líquido, como se o próprio limiar se desfizesse. Fantasmas, ninfas e seres andróginos evaporaram em brumas ondulantes, deixando apenas o eco de suspiros e risadas antigas. O desejo, intenso e febril, continuava a arder dentro dele, mas o Castelo parecia avisá-lo: era hora de retornar.
Em um instante que durou simultaneamente uma eternidade e um sopro, Velian sentiu o mundo girar, e tudo desmoronar ao redor. A última visão do abismo do Castelo se desfez, e ele despertou.
O amanhecer já tocava Fortaleza. Raios de sol pálido atravessavam a cortina do quarto, dourando o ar ainda impregnado do calor da noite. Cassandra dormia ao seu lado, seus cabelos negros espalhados como sombras luxuosas sobre o travesseiro. O perfume dela misturava-se com o aroma do café da manhã não feito e o leve toque do sol nascente. Cada curva de seu corpo era uma promessa silenciosa, cada respiração, uma melodia antiga que atravessava os séculos.
Velian a observou, os olhos absorvendo cada detalhe: a delicadeza da pele, o arrepio dos fios de cabelo, o ritmo perfeito da respiração. Um sorriso lento curvou-lhe os lábios, a ironia e a certeza de si próprios entrelaçadas.
Revisado por Sahra Melihssa
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Caellum Noctis, Parte I - O que eu perdi?
Havia retornado. E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Havia retornado.
E então, minha consciência começou a despertar. Eu não me lembrava do por que estava ali. Não me lembrava nem de quem eu era ou… De onde vim. Não me lembrava de nada. Quase nada.
Tinha apenas um nome que transbordava na superfície de minha mente, insistente como as notas pesadas de um piano desafinado.
Eleine Gallhan.
Repeti em voz alta tentando procurar um significado, forçando as peças do quebra-cabeça a se encaixarem. Eleine. Quem é você? Onde você está?
A única coisa que sabia era que aquele nome fazia meu peito doer. Então, instintivamente, levei a mão ao coração e apertei as roupas, tentando alcançar aquela dor, mesmo sabendo que não doía na pele, e sim na alma.
Ela mentiu, pensei.
Ela mentiu? Sim, eu sabia disso também. Quanto mais me forçava, mais doía, mais… Quase lembrava, como se a memória estivesse na ponta da língua e eu não pudesse dizer. Mas o pior não era a mentira. Era o silêncio que ela deixara dentro de mim.
Por que...? Por que não consigo me lembrar?
Meu próprio corpo parecia lutar para impedir que alcançasse essas lembranças. Mas por quê?
Tudo na minha cabeça girava, uma mistura de sentimentos sem imagem. Fechei os olhos e respirei fundo. E então, a pergunta. A pergunta que eu temia fazer. Aquela que fez o aperto no peito doer de verdade… E então, cessar.
Como você era?
Eu não me lembro do calor do seu toque. Do som da sua voz. Do peso do seu amor. Mas o rosto… o rosto era um buraco negro. Senti como se olhasse para um espelho depois de um banho quente, apenas um borrão que nunca tinha foco.
Eu preciso lembrar!
Abri os olhos e finalmente percebi onde estava. Aliás, consegui enxergar o que fora dos meus pensamentos, mas não sabia onde era aquele lugar.
O vento soprou uma pétala em minha mão, folha rosa que se desprendeu da grande árvore à minha frente. O toque suave fez tudo parecer, de certa forma, certo. E o mundo começou a devolver os fragmentos que eu mesmo trancava em minha mente.
— A árvore… Nós a plantamos, não é? — Sua voz ecoou, clara e traiçoeira, soprada pelo vento da memória:
“Quando voltarmos, iremos morar aqui. Eu, você, Lyfir… e nossos filhos.”
— Lyfir… — sussurrei. O nome tinha um gosto agridoce, como se eu não devesse pronunciá-lo em voz alta.
E então, mais peças se encaixaram: a sombra de um grande lobo negro ao seu lado. O olhar fixo de uma coruja pousada em seu ombro. Guardiões de uma mulher que eu não conseguia ver.
Quem é você, Eleine Gallhan?
Tentei forçar a memória. Mas, como já esperava: nada. Apenas o vazio com a forma dela.
Apertei as mãos, não com ódio, mas com uma frustração que doía nos ossos. Era a pessoa mais importante da minha vida; eu sentia isso, mas não me lembrava.
Foi então que a sombra daquela enorme árvore pareceu se espessar. E, de repente, um frio cortante, como o interior de uma cripta, fez os pelos da minha nuca arrepiarem. Alguém, ou alguma coisa, estava ali. Me observando.
— Você deseja… se lembrar? — A voz era um sussurro sedutor, como se a própria escuridão me convidasse a conhecê-la.
Ele se materializou não como uma forma, mas como uma falta de forma: uma silhueta humana feita de fumaça e sombra.
— Eles ouviram seu lamento — a voz sussurrada continuou. — Os Colecionadores de Memórias. Os Rostos Espirais não gostam de dívidas em aberto… nem de pactos incompletos.
Pacto. A palavra me atingiu como um estalo no crânio. E eu tive a terrível certeza: minha perda não era um acidente; era um contrato.
— Quem são eles? — Minha voz soou áspera, quebrada. — O que fizeram comigo?
E, se eu pudesse ver o rosto sob aquele manto, diria que ele sorriu com a minha pergunta.
— Eles guardam. Para cada memória tomada, uma razão. E a sua, Caellum Noctis, está guardada no coração do Castelo Drácula.
Ele fez uma pausa, deixando o horror se instalar.
— E se quiser recuperá-la… deverá adentrá-lo.
O Espectumbral estendeu as mãos. Seu corpo se desfez, transformando-se em um portal etéreo. No centro, apenas o nada me convidava a entrar.
Olhei para o portal. Depois, para a grande árvore, suas folhas caindo a cada lufada de vento. A promessa de um lar murchando como as pétalas caídas no chão. Fechei os olhos mais uma vez, criando coragem para encarar meu destino. Agora, eu sabia o que procurava. Agora, tinha um nome para meus algozes: Rostos Espirais.
Não havia escolha. A obsessão já era minha cela; agora, pelo menos, ela teria uma porta.
Estendi a mão e o toque não foi frio; foi uma ausência de calor, um vácuo que puxou algo vital de mim.
— Leve-me até eles — disse, e minha voz já soava diferente. Menos humana. Mais decidida.
O mundo ao redor começou a se desfocar, as cores escorrendo como aquarela na chuva.
E naquele instante, entre um suspiro e o próximo, tudo desapareceu.
Eu não estava mais em lugar nenhum.
Revisado por Sahra Melihssa
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Memórias Afogadas
Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Este lúgubre castelo com certeza é o lar de muitas histórias, de muitos seres e muitas memórias. São tantos segredos aqui guardados, mas o meu, acredito que seja o mais apaixonado, envolto pelo sangue e pela culpa. Jamais esquecerei a noite mórbida e intensa em que cravei meus dentes em tua pele doce pela primeira vez, soube ali que jamais iria desejar outro alguém e, mesmo assim, parece que te perdi.
Lembro-me bem da primeira vez que te vi passar por uma fenda estranha, como se cortasse o mundo, nossos olhares se tocaram pela primeira vez. Eu te segui pela noite magenta e meu coração não suportou, apaixonando-se perdidamente por cada pedaço de ti, mesmo sem uma única palavra ser pronunciada. Eu não gostaria que tivéssemos um fim, mas como maldita criatura noturna que sou, minha natureza destrutiva precisava frustrar o amor transcendental que nos habitou.
Recosto a nuca na borda da enorme piscina, febril, como se meu corpo nu já não fosse meu, mas parte da água. As cores estonteantes oscilam entre roxo e rosa, tingindo o ar de vertigem, enquanto uma névoa branca desliza sobre o espelho líquido.
Dentro da piscina, observo as estátuas de mármore nuas ao redor. Vejo que elas não são apenas pedra. Seus olhos me seguem, suas bocas se curvam em sorrisos largos, trocando cochichos que ecoam baixos, incompreensíveis. Uma delas me encara com firmeza, parece-se contigo. Elas me veem derramar lágrimas de sangue por ti.
Ela continua a me olhar. A silhueta, os cabelos, as feições e todas as tuas características em um corpo pétreo e marmorizado ainda me encaram. Ela me lembra tanto de você! Do fundo da piscina, pétalas cintilantes sobem dançando silenciosamente. Minha respiração torna-se arrastada enquanto troco olhares com a tua estátua tão perto, tão fria e tão dura quanto nossa separação. Soluço em lágrimas.
Nos cenários de nossas mais fortes memórias de lubricidade, eu me encontro a todo momento desejando retornar no tempo. Sem ti, eu desejo que minha eternidade acabe. Estou em um transe ao flutuar, ouvindo apenas o leve som do movimento aquático. Tentando esquecer as feridas de meu coração morto e as duras memórias do teu amor e da tua paixão que deixei para trás. Estas castigantes lembranças de nosso envolvimento tomam conta de minha mente, fazendo-me lembrar de cada toque, de cada beijo e cada ato carnal que cometemos em nossos corpos tão libidinosamente. Eu desejava ser parte de ti, me unir a ti eternamente em um mesmo corpo como Salmacis e Hermafrodito.
Gostaria de me afogar nestas águas quentes na tentativa de que elas me fizessem esquecer a fúria de meu desejo insaciável por ti e cada lembrança tortuosa que acaricia minha melancólica libido na falta de ti. Eu anseio pela tua presença junto à minha, experienciar a sutileza e o torpor da tua pele, a maciez de teu rosto e o sabor danoso de teus lábios. As lembranças me consomem nestas águas:
Devaneio ao lembrar de como é sentir-te em meu íntimo: a ferocidade de teu toque por entre minhas pernas, sob a cama, fizeste-me liberar sons que antes estavam cativos em minha garganta, gritos abafados em frenesi delirante, ardentes de desejo. O calor da tua boca contra meu íntimo arrancava de mim espasmos, eu completamente incapaz de conter os gemidos que escapavam como súplicas entrecortadas. E tua língua, que me devorava, sem trégua, firme e voraz, roubando cada fragmento do meu controle, dominando-me. Eu me abria em arrepios sob tua fome, e cada investida me fazia implorar, ainda que em silêncio vacilante, por mais! O mundo se desfazia no nosso ritmo frenético e no gosto febril do prazer que nos consumia.
Nestas águas púrpuras observo os reflexos inebriantes das estátuas e permito que minhas lágrimas de sangue se misturem à tua intensidade, enquanto tento esquecer a dor. Mas… é impossível. Minha devoção é tua. Minha devoção às tuas mãos, que tocaram meu corpo com sofreguidão e torpor, conduzindo-me ao ápice dos prazeres lascivos de tua carne ardente. Recordo-me da minha respiração ofegante sobre teu rosto, de teus olhares devassos que devorariam minha alma, se eu ainda a tivesse. Aos poucos, desprendo a nuca da borda da piscina e deixo meu corpo deslizar para o fundo, como se a água me reclamasse.
O que mais eu poderia fazer? Deixei-me levar pelo medo novamente, afundando minha mente em pensamentos abruptos, frutos do meu fatídico apego evitativo. Eu te amo sem razão, sem medida, desde o instante em que nossos olhos se cruzaram sob a lua, com a constelação de Órion ao lado de Sírius e Júpiter. Amei-te profundamente até mesmo antes desses momentos, só nunca tive coragem de proferir as palavras quando ainda havia tempo.
Perder-te dói como se meu coração tivesse, enfim, apodrecido ao relento do tempo que nos separa. Amo-te tanto que nem mesmo estas águas de paixões infames conseguem me preencher. Meu corpo e minha alma, meu coração e minha mente sempre pertencerão a ti. Aqui, nestas águas, afundo-me e perco-me no fundo, como se nelas pudesse dissolver a dor insuportável por te perder.
As lembranças de nossos corpos entrelaçados, à luz trêmula da vela fúcsia, ainda dançam em minha mente e me seduzem sem trégua. Ouço tua voz em meu ouvido, clamando por meu nome, inflamando-se de prazer ao perder-se nos meus gemidos de luxúria. Ainda sinto a pressão de tuas mãos em meus pulsos, prendendo-me a ti, amarrando-me à força de um laço que transcendia o físico. Selamos um feitiço de libido, onde nos aprisionamos mutuamente, enquanto a vela ardia.
Desejo mais do que tudo sentir teu corpo contra o meu e ver teus longos cabelos soltos estirados sobre meu peito enquanto clamo pelo teu beijo devorador que me envenena de eterno prazer. Enquanto estamos distantes, eu não consigo ter olhos para outros lábios e ter uma chama sinuosa de paixão como a nossa em outros corpos depravados.
Desejo tanto que a água finde meu sofrer, esqueci-me do tempo observando o fundo da piscina e a vaga luz violeta que cintila aqui embaixo. O transe se desfez quando algo me puxou de volta: abrupto, revoltoso. Lutei em vão contra aquela força que me arrancava do silêncio líquido.
Quando retornei a mim, encontrei-te à beira da piscina. Não era exatamente você, mas uma figura de mármore, tão semelhante, tão cruel na lembrança. Mãos frias afastaram meus cabelos para trás de minhas orelhas, como tantas vezes fizeste. Lábios pétreos roçaram os meus, duros a princípio, mas logo se desfazendo em um calor febril. Os braços de pedra enlaçaram-se ao redor de minha cintura, colando o corpo marmorizado, ao meu, deixando-me sem ação. Um delírio tomou conta de mim quando as mãos frias desceram, aproximando-se do meu íntimo, e o beijo danoso, inescapável. Nenhum outro corpo poderia ocupar teu lugar, mas no mármore finalmente me afoguei por ti.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
25. Cada um, porém, é tentado pelo seu próprio desejo, sendo por este arrastado e seduzido
Data incerta - Achei que havíamos conseguido escapar por um momento da lembrança do castelo. Que naquele vilarejo, mesmo que estranho…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diário de Rute Fasano
Data incerta - Achei que havíamos conseguido escapar por um momento da lembrança do castelo. Que naquele vilarejo, mesmo que estranho, conseguimos respirar um pouco. Pelo menos por uma noite, só uma, poderíamos nos sentar e assistir algo que não tivesse relação com o castelo. Quase acreditei que teríamos tempo. A peça era sobre nós, era sobre o castelo, cada palavra, cada movimento, cada pensamento como se tivesse sido arrancado dos nossos ossos e costurados com precisão ali naquele maldito palco, com aquele final que parecia fora do roteiro, um tanto improvisado talvez. Quando a peça acabou eu não senti alívio, mas um calafrio subir minhas costas como aqueles que eu sentia no castelo e já faziam parte da minha rotina lá. Quando cobri Mara com o manto para sairmos do teatro, senti olhos nos observarem mais intensamente do que qualquer outros ali.
Roupas escuras e presença quase fantasmagórica, mas havia algo mais, olhos treinados e corpos que sabiam matar e fazer isso com perfeição. Elas não estavam ali para aplaudir, estavam ali por ela, por Mara, que agora estava inteira. E antes que eu ou Mara pudéssemos reagir, fomos cercadas, um golpe seco, um cheiro de ferro e tudo escureceu. Acordei em uma cela de concreto úmido, tubulações vibrantes e luzes mortiças, Mara estava ao meu lado, sentada.
— Elas são da ordem — ela disse quando me viu acordar — Eu fiz parte disso, antes do castelo.
Depois de horas de espera fomos arrastadas até uma sala cheia de símbolos estranhos e um cheiro forte de ozônio. A ordem me olhava com desprezo, quantas mulheres haviam ali? Quinze, vinte? Eu não saberia dizer. Eu ouvi o plano delas, eliminar o elemento estranho, ela é descartável, um peso morto, um risco, então uma delas puxou uma faca e veio até mim, senti a morte chegando, a presença daquela mulher que vinha em minha direção era como a presença mortal, mas Mara se colocou entre nós, com uma fúria igual a de uma fera encurralada ela lutou com as mãos nuas com a motivação de quem já matou mil vezes e poderia matar muitos mais. E a beleza de Mara furiosa era aterradora, essa é a palavra que melhor descreve a sua aparência, com aquela pele de um tom quente, um âmbar escuro, sobrancelhas e olhos escuros muito intensos e ferinos, nariz levemente aquilino e lábios cheios, marcados e cerrados, olhá-la tão de perto, tão real, despertava em mim aquela sensação de quando se vê de frente a um grande felino selvagem, belo e mortal, e não se sabe se o acaricia como um pequeno gato ou se corre sabendo que não irá tão longe. Ela quebrou ossos, rasgou carne e assim que conseguiram contê-la, ela gritou:
— Se matarem ela, morremos as duas.
O silêncio foi total, todas elas olharam para Mara.
— Estamos ligadas — ela disse arfando — por uma magia do castelo, por algo que eu não entendo, mas que é real, se uma de nós morrer a outra morre também.
E contra minha vontade e a vontade da ordem eu entrei num plano que colocaria mais dificuldade em minha vida. A base da ordem, pelo que soube depois, era em um templo abandonado protegido por símbolos e amuletos que escondem a presença delas de outros membros da ordem. O mesmo amuleto foi dado a nós, um fragmento de obsidiana envolto com prata com uma runa estranha. E agora faço parte disso, uma ex-cientista cética amarrada ao destino de uma assassina de uma seita estranha. E o pior de tudo era que parte de mim agora quer saber até onde essa loucura vai. Uma reunião foi convocada, a qual Mara fez questão que eu estivesse presente, pois agora eu fazia parte disso, ela mantinha um olhar firme. A líder da ordem, que se apresentou como irmã Iridia, uma mulher de feições duras e olhos sem emoções, nos conduziu até um salão, com paredes de pedra, cadeiras e mesas grandes de madeira, castiçais com velas na cor magenta e algumas flores vermelhas aqui e ali. As outras mulheres estavam bem posicionadas ao redor dela em silêncio. Todas elas com capuzes baixos paradas como soldados esperando uma ordem, mas que não ocultavam totalmente seus rostos. Eram mulheres de idades e corpos diferentes.
Iridia falou com uma voz clara e calma.
— O castelo está morrendo e quando ele morre, não apenas ele perece, mas morre também aquilo que o sustenta e ele sustenta, todas as histórias que contêm dor e revelação, os livros que contêm vida, e os espíritos que ainda não foram lembrados pelo nome certo. Se ele morrer, o tempo aqui se contorce e leva tudo com ele. Devemos impedir que a antiga ordem faça isso acontecer.
Ela caminhou em círculo, os pés nus tocando as pedras frias daquele templo com uma familiaridade.
— Nossa função, como sempre, é garantir que o ciclo não se complete. Que os que chegam aprendam, que os que resistem escrevam e vocês — ela olhou para nós — estão presas a isso.
— Presas? — Mara sussurrou, como se a palavra tivesse um gosto ruim na boca.
— O castelo não permite que saiam, ainda não — Iridia respondeu — …vocês devem nos ajudar a fazer o castelo sobreviver.
— Mas como? — perguntei sentindo a pergunta me doer a garganta.
— Com tudo o que vocês têm, culpa, ódio, amor, luto, medo, desejo, e também com a matéria sombria presente no castelo.
Mara cruzou os braços, estava inquieta e percebi que ela observava cada membro da ordem com um olhar avaliador. Até que seus olhos pararam em uma delas, uma mulher de postura altiva, ombros largos e maxilar marcado.
— Eu lembro que o propósito da ordem nunca foi interromper o ciclo, e também achei que somente mulheres faziam parte da ordem — ela disse isso sem malícia, mas com a franqueza quase ríspida que era típica dela. — não sabia que tinham começado a aceitar homens agora.
Houve por um momento um silêncio constrangedor, a mulher ergueu o queixo e respondeu sem alterar o seu tom de voz.
— Eu sou uma mulher e a ordem nunca aceita homens.
O olhar de Mara hesitou por um breve momento, talvez de surpresa ou talvez vergonha, não sei ao certo, mas a mulher não esperou que ela se desculpasse ou se consertasse e continuou:
— O que a ordem aceita são mulheres que estão dispostas a sangrar de verdade. Não o gênero imposto, o nome que nós próprias enterramos não importa, mas o nome que escolhemos usar para renascer para a ordem.
Mara murmurou algo que não entendi e seu rosto se contorceu de raiva. Então, depois dessa interrupção Irina retomou:
— A ordem se ramificou e uma parte dela entende que certos ciclos não devem ser encerrados, então se desejam sobreviver, vocês terão de lutar e escrever, mas não basta contar o que viram, vocês precisam contar o que sentem, o que temem. A história só vive se for honesta e o castelo só respira se for alimentado com o que vocês não querem lembrar.
Depois de toda a conversa Iridia disse às outras que estavam liberadas e pediu que eu e Mara esperássemos no salão para poder jantar e depois nos levaria a nossos aposentos para que pudéssemos descansar. Nos sentamos em uma grande mesa com diversas comidas e bebidas, as freiras, pois era o que elas pareciam para mim, caminhavam pelo salão como sombras, descalças, sem fazer barulhos com seus movimentos leves. Diferente de horas antes que estavam vestidas todas de cores escuras, agora vestiam vestidos leves que roçavam nas coxas, deixando escapar vislumbres de pele sob as luzes trêmulas das velas na cor magenta que iluminavam aquele salão. Não havia aquela disciplina que observei antes, aqui agora elas riam entre si, bebiam vinho em longos goles e algumas trocavam beijos demorados, mas discretos, diante de todas, mãos que deslizavam por tecidos frouxos, como se aquele comportamento fosse parte da ordem. Aquele magenta profundo das velas, era uma cor que me lembrava carne, feridas, dor, prazer. Eu observava aquilo no começo incomodada, mas aos poucos me aceitando como parte daquilo. Mara crispava os lábios, seu semblante sério e sua rigidez era um contraste estranho com aquele ambiente e entendi que ela pertencia a um tempo que a ordem não era assim.
— Isso não é devoção — ela murmurou baixo para que só eu a ouvisse. — isso é fraqueza. A ordem é feita de silêncio, lâminas, dor e jejum. E agora o que vejo diante de mim? Uma geração que reza através de beijos e carícias e matam com o que? Perfume de flores venenosas? O propósito da ordem é manter o ciclo e destruir aqueles que o interrompem…
Ela reclamou por bastante tempo e falou mais do que eu já a tinha ouvido falar e com suas queixas eu descobri que a ordem era como uma seita que mantinha o ciclo natural da vida intacto e que destruía tudo e todos que quisessem ultrapassar o ciclo natural, isso incluía Drácula, mas a ordem que víamos agora e que, não por escolha, fazíamos agora parte, queria manter o castelo vivo. Seu olhar endurecido e sua irritação por aquela nova ordem me incomodou mais que a cena diante de nós e me senti um pouco culpada, pois em segredo eu invejava aquelas mulheres, a forma como riam sem medo, como se permitiam tocar e serem tocadas, como se o mundo fosse apenas aquela noite e o único mandamento que seguiam fosse o de se deixar sentir. E eu senti, contra a minha vontade, uma chama lenta se acender dentro de mim. O cheiro do vinho e das peles suadas misturavam-se ao cheiro de ozônio daquele lugar. O som dos sussurros, dos risos contidos e dos lábios encontrando beijos, me faziam recordar Hadassa, minha amante perdida, aquela cuja ausência ainda me doía o peito.
Naquele instante percebi que a sensualidade não vinha apenas dos corpos das freiras, estava em tudo na cor das velas, no templo, nas flores, na comida, no vinho, no ar saturado com cheiro de ozônio, luxúria e morte que me faziam sentir um sabor forte na boca, um sabor que depois de leves movimentos da língua se desfaz e traz com ele pequenas mortes. A sensualidade estava também em mim e ao meu lado, Mara não percebia que o seu desprezo por tudo aquilo não faria mudar nada naquele lugar. E talvez essa fosse a intenção do local, a intenção dessa ordem, nos fazer sentir até doer. Acabamos de comer e fomos levadas por Iridia a um pequeno quarto com colchões improvisados, Iridia nos deixou nos lembrando que no outro dia tínhamos mais a conversar. Me deitei naquele colchão improvisado e tentei encontrar algum descanso, mas o sono fugia de mim. Mara estava deitada em outro colchão ao meu lado ainda desperta e percebi como estava impaciente pela forma que batia os dedos na faca que tinha sobre si, faca essa que não sei onde ela tinha conseguido, ela estava impaciente como se estivesse à espera de um inimigo invisível que precisasse atacar.
Ela se ajeitou no colchão, com os olhos ainda fixos no teto, seu silêncio pesava como de costume, cortante e incômodo como a lâmina que agora carregava consigo. E imagino que cada riso, cada beijo das freiras era um insulto, uma afronta à disciplina que ela tinha. Porém dentro de mim, algo se movimentava, eu via um pecado bem-vindo onde ela via fraqueza e esse contraste me devorava por dentro. E comecei a pensar nas velas que queimavam lentamente, nas freiras que se acariciavam sem pressa, que bebiam sem pudor, que faziam Mara desviar o olhar furiosa, mas eu não conseguia desviar o olhar, meus olhos me traíam e quanto mais eu tentava afastá-los mais eles se voltavam. E o desejo e culpa se confundiam em mim, tanto que fizeram meu peito começar a doer só de imaginar. Virei meu rosto discretamente para Mara, seu perfil duro e impiedoso, mas também belo, mais belo ainda agora em carne e ossos, parecia tão alheia ao que talvez eu estivesse sentindo e pensando, ou talvez soubesse e por isso se mantinha em silêncio. Eu sentia que eu estava cedendo ao abismo, enquanto Mara construía uma muralha entre nós e nada continuava sendo dito, e eu queria dizer algo ou que algo fosse dito, e percebi que o desejo faz doer mais quando não se encontra as palavras certas.
Adormeci sem perceber, como se estivesse sendo engolida pelo abismo que eu já queria ceder, quando abri os olhos já não estava mais no quarto, meu corpo nu aquecido por uma água de cor fúcsia-brilhante, paredes que pareciam como carne viva e acima de mim um teto escuro com flores carmim que pingavam sangue naquela grande piscina com água quente. As freiras estavam lá, mas seus rostos eram véus escuros sem feições, e mesmo assim me olhavam, suas mãos estavam estendidas em minha direção delicadas e suaves e quando tocavam minha pele eram frias como ferro, beijavam-se ao meu redor com seus rostos sem feições, riam baixo e cada riso era como uma lâmina penetrando meus ouvidos. Mara emergiu do centro da piscina, vestida de branco, tecido molhado colado ao corpo, o vestido salpicado com o sangue que pingava do teto, ela não falava, não sorria, apenas me olhava e eu não sabia dizer se aquilo era uma censura ou um convite. Eu tentei ir até ela, mas meus braços e pernas estavam presos por raízes cheias de espinhos que se cravaram em minha carne causando feridas que sangravam demais. As freiras acariciavam minhas feridas com gestos delicados e cada toque trazia dor e êxtase ao mesmo tempo.
Quando finalmente consegui me soltar das raízes e das freiras, cheguei perto de Mara e quando toquei sua pele quente, ela dissolveu em pó e dela surgiu um esqueleto perfeito, como o que eu vi quando Drácula a reconstruiu no palco. O esqueleto sorriu um sorriso insano e se cobriu de sangue, que fez a piscina transbordar e sua água fúcsia ficar em um vermelho vivo. Do fundo ouvi palmas, lentas e pesadas e quando olhei em direção a elas vi Drácula sentado na plateia do meu sonho, sorrindo, como se fosse um crítico que estivesse observando e analisando cada detalhe da peça. Foi nesse instante que acordei com o coração disparado e o corpo suado. Mara dormia no colchão ao meu lado de costas para mim e dentro de mim eu desejava que aquilo fosse apenas um sonho e não um presságio.
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Transcendência do Silêncio
O silêncio é um corpo que respira no escuro, | pele de sombra colada à alma da noite. | Ele pulsa como ferida não dita, | como promessa trancada em lábios de ferro…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
I – O Silêncio
O silêncio é um corpo que respira no escuro,
pele de sombra colada à alma da noite.
Ele pulsa como ferida não dita,
como promessa trancada em lábios de ferro.
Há nele o peso de cem catedrais desertas,
onde cada eco é oração abortada.
O desejo se deita nele, invisível,
como fera à espreita no ventre da escuridão.
Nenhuma palavra se atreve a nascer,
mas os olhos gritam em febre clandestina.
Entre duas bocas suspensas,
o ar é um véu que treme, mas não se rompe.
O silêncio é punhal e é véu,
é cruz e é carne.
Não consola, não acolhe,
apenas incendeia o que tenta ocultar.
A respiração é oração contida,
rosário de gemidos que se negam a existir.
Mas o corpo, traidor da alma,
curva-se ao chamado de sua própria vertigem.
Quem toca o silêncio abre portais,
como quem pisa em solo sagrado profanado.
A quietude é apenas disfarce,
máscara da fúria que quer ser revelada.
O instante é prelúdio,
e o prelúdio já é queda.
Não há inocência no mutismo:
há apenas desejo coagulado.
Quando o silêncio enfim se rompe,
não há volta.
O grito é nascimento e sentença,
e quem o pronuncia já não se pertence.
II – O Sangue
O sangue é a língua do êxtase.
Ele escorre como vinho sacrílego,
rubro sagrado que consagra o instante
em que dor e prazer se entrelaçam.
Cada gota é pacto selado,
palavra gravada em carne viva.
É comunhão obscura
onde dois se tornam um abismo único.
A mordida é rito e coroação,
incisiva coroa feita de dentes e vertigem.
Ela não fere: ela liberta,
abre a porta para o gozo sem nome.
O rubro é banquete dos amantes da noite,
melodia de artérias em festa secreta.
Não há saciedade, apenas mais sede,
e cada sorvo é eternidade roubada.
Vampiros sabem: o sangue é oráculo.
Ele canta segredos nas veias,
ele revela a nudez da alma
no instante em que se mistura ao desejo.
Não há corpo sem ferida.
Não há prazer sem cicatriz.
A dor é oferenda,
e o êxtase, sua colheita.
Quando o rubro desce pela língua,
é mais que carne é universo.
O beijo sangrento é sacramento,
e a eternidade se escreve em veias abertas.
O sangue não mente.
Ele é a assinatura do prazer.
Quem o prova jamais retorna,
pois já pertence ao abismo.
III – A Luxúria
O corpo é templo profanado.
Cada curva, altar; cada sombra, labirinto.
A luxúria dança em sua nave,
chama que devora, mas não se extingue.
O prazer nasce na ruína.
Gemidos quebram muros internos,
suor é chuva que batiza o pecado,
e a carne se faz escritura viva.
O desejo não pede, exige.
Ele ordena como tirano amado,
e o súdito, em delírio,
oferece a própria ruína como trono.
Cada toque é incêndio.
Cada suspiro, queda.
Não há ternura:
há apenas a fome dos que sabem da morte.
O gozo não consola,
ele fere, ele abre, ele consome.
Mas a ferida é cântico,
e o cântico é mais doce que salvação.
A luxúria é caminho sem volta.
Um labirinto sem saída,
onde quem entra nunca retorna
pois aprende a amar a própria perdição.
O corpo não é cárcere:
é catedral em ruínas
onde anjos caídos ainda rezam
em idioma de gemidos.
Luxúria é divindade noturna.
Não julga, não absolve.
Apenas recebe como altar insaciável
todas as oferendas da carne ardente.
IV – A Transcendência
Após o gozo, não há descanso.
Há queda mais funda.
Há voo invertido
de quem toca o inferno para ver o divino.
O êxtase é um dos Deuses sem rosto,
que exige adoração em lágrimas.
Não é amor, não é pecado:
é a fusão febril dos dois.
O coração, crucificado,
pulsa como altar em chamas.
Cada batida é prece e maldição,
cada suspiro, ascensão pelo abismo.
Não há céu depois da vertigem,
apenas outro mergulho.
O prazer é espiral infinita,
onde cada fim já anuncia novo começo.
Quem goza morre.
Quem morre renasce no desejo.
Esta é a lei secreta:
morrer sempre mais para viver sempre mais.
A transcendência não é luz.
É treva que acolhe como mãe,
é sombra que alimenta,
é eternidade que se confunde com delírio.
O corpo exausto despenca,
mas a alma desperta em febre.
Descobre que o abismo é também escada,
que a vertigem é também voo.
O êxtase não se esgota.
Ele recomeça em cada olhar,
em cada silêncio, em cada gota de sangue.
O eterno é isto: morrer e renascer no desejo em silêncio.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Amor Etéreo
Dentro de mim reside uma chama acesa, | Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso. | Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dentro de mim reside uma chama acesa,
Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso.
Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos,
Desnuda meu peito inflamado, melancólico.
Etérea, me consome.
Ela crepita com cálida ternura,
Aproximando-me de seu ardor inebriante!
Guarda em mim seu doce incenso,
O aroma aveludado dos vinhos:
Amor marcado em mim eternamente.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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Intumescer
Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique! | Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo | soem em meus ossos como se o próprio firmamento…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Kaire, tríplice eclipse, ao deleite do meu psique!
Que teu trovão d’alma irrompa, que o clamor de abysmo
soem em meus ossos como se o próprio firmamento
rasgasse em vísceras de treva, tua sensualidade abraça-me.
Bruxa de orbes cerúleos, amo-te como Gomez Addams.
Abysmal senhora das neblinas e mãe de todos os corvos,
sois meu cálice sanguíneo, sois minha queda, sois meu êxtase.
Em pergaminhos de carne me transfiguro,
folhas que voam em ventania noctívaga,
lágrimas de tinta que copulam com o vácuo.
Eis tu, minha senhora do arcano,
colhes minhas sílabas como se fossem
feridas sagradas em liturgia profana.
Eu que senti no osso do gozo, na culpa,
bálsamo na chaga, a dor é sacramento, e o éter-pecado, altar.
Vede o híbrido ser brandindo ao sexo sobre minha fronte,
desfazendo ídolos em pó e silêncio.
Um anjo corrompido pelo sangue do desejo,
um vampiro sexual,
um lupino que rasga com seu uivo de tesão,
até que apenas tua língua reste,
serpente rubra que me crava, que me possui,
até que não mais eu seja eu,
mas sim um delírio, epifania-mania, carne de tua carne,
espírito tragado pelo teu hálito de tempestade.
Ouvi teu uivo no ventre meu,
clamando sangue, clamando carne, clamando vertigem.
Uivo convosco, Senhora, minha treva plasmática, osmose dos desejos,
uivo contra Céus e contra Deuses, até que a lua, navalha da vida,
talhe nossos corpos em girassóis de pranto. Teu pompoarismo dissolveria meu rosto em teu espelho, tempo derretido a escorrer em teu belíssimo, formoso seio.
Ejaculo para ti a energia, ejaculo para ti minha persona, meu perispírito da noite,
ampulheta onde o instante é gozo e o gozo, eternidade.
Se a vida é labirinto, pois que seja, quero-te obcecadamente.
Eu, andarilho desnudo, me lanço às paredes em chamas,
não buscando saída, mas a coruja da resposta, o guardião da combustão. Incinero-me quando acordo pela manhã e o sol me toca a pele, mas não posso sentir o teu toque. Isso é maldição, isso sangra minha sanidade e meu coração se tomba ao trono do Drácula.
Pois o chão não existe,
apenas o céu me sustenta,
e este céu és minha cara senhoria das sombras.
Teu riso é raio, tua lágrima, oceano,
tua carne, relâmpago que me parte em duas metades.
Não desejo salvação, mas perdição absoluta.
Quero que teu feitiço me devore em chama,
que tua boca seja a guilhotina onde findo,
que teu ventre seja o sacrário onde renasço,
que teu sangue escorra em minha língua como letania de fogo.
Quando tudo em pó se fizer,
quando não houver senão cinza e gemido,
quando o verbo for silêncio e o silêncio for verbo,
então — ó Senhora, ó Bruxa, ó Maré dos Mundos —
seremos nada, seremos tudo, carne e sangue e poesia e êxtase.
Aceita: és minha e de ti me alimentarei, diária sucção de tua geradora de vidas,
e ti receberá minha língua profana e o leite de minha energia sexual em tua face.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…