Cantos de Magöhorror
As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Canto I
As almas e as sombras, na noite aprisionadas,
Pela frígida névoa de Magöhorror,
Em marfins retorcidos, já desgastados,
Seguem o fluxo lento de antigo horror;
Onde o anil turvo, por laços consagrados,
Une vida e morte em torvo esplendor;
Canto a saga em versos sombrios e graves,
De almas zumbis em seus cânticos suaves.
Canto II
Vede o rio, que d’além do tempo emana,
Bioluminescente em brilho azulescido,
Sua essência que a razão humana engana,
Como um saber arcano já esquecido;
Onde a fauna e a flora em forma insana
No terror mórbido surgem despidos;
Entre brilhos metálicos e aridez fosca,
Enquanto a própria vida se torna grotesca.
Canto III
Nas flores surgem rostos pareidólicos,
Dos olhos verte sangue em vão lamento,
Em versos que ecoam, quase bucólicos,
No vento frio que sopra sofrimento;
Criaturas outrora belas e melancólicas,
Perdem ao rio espectral seu alento;
Mortas ou vivas vagam no fundo,
Bioluminescência a guiar novo mundo.
Canto IV
Dunas Múrmuras, de areia e de pavor,
Sopram ventos que contam contos de dor,
Fábulas mortas, sem traço de amor,
Sob noite azúlea em frígido calor;
No Oásis Vil surge encanto traiçoeiro,
Atraindo as almas por falso roteiro;
Onde sede e fome se encontram famintas,
Entre criaturas das sombras distintas.
Canto V
Jardins de Olga, de viridário mágico,
Sensíflora estranha que o horror replica,
Cercam o alcácer em destino trágico,
Onde o Castelo Drácula se fortifica;
Pinheiros tremem em rastro nostálgico,
Gritos de arbustos que o sono prejudica;
Enquanto o azul da morte paira no ar,
E a decadência começa a reinar.
Canto VI
Vede os zumbis, de pele já rachada,
Sangue negrume estagnado nas veias,
Sua existência é triste jornada,
Entre solidões nadificantes teias;
Saem dos túmulos em marcha penada,
Por instinto vagam nas noites alheias;
Tentam amar com coração inerte,
Enquanto o diabo em riso se diverte.
Canto VII
Bebem seus próprios prantos em lamento,
Sonham sem dormir em eterno tormento,
Atraídos por sombras no barlavento,
Memórias do que não foi em esquecimento;
A vida em Magöhorror segue escura,
Na bioluminescência da noite impura;
Grãos de existência no vento lançada,
Como poeira na noite estrelada.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Inverno Azul
o dia nasce em tons de um azul morto | um azul que não encanta
que não vibra | que não promete nada…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
o dia nasce em tons de um azul morto
um azul que não encanta
que não vibra
que não promete nada
é o azul das veias cansadas
das manhãs que não chegam a ser manhãs
um frio que não toca a nossa pele
mas mora em nossos ossos
existe um vento
não daqueles que derrubam árvores
mas um sopro mais suave
que atravessa nosso espírito
como uma lâmina afiada
ele carrega o vazio
esse antigo companheiro
que se senta ao nosso lado
e jamais pede licença
os relógios continuam
fiéis carcereiros do nada
marcando segundos que escorrem
como água turva por mãos trêmulas
e tudo é azul
o céu, os olhos
as paredes e a alma
um azul profundo demais
para ser esperança
claro demais para ser noite
um intervalo
um quase
um erro de existência
caminhamos por corredores
onde as portas levam sempre
para o mesmo quarto vazio
e lá dentro
há apenas lembranças
do que já fomos
ou talvez nunca fomos
e o frio cresce
ele se aninha nas palavras que jamais foram ditas
nas despedidas que não aconteceram
nos abraços que imaginamos
que jamais ousaram existir
é um frio paciente
quase belo
como uma catedral abandonada
onde o azul dos vitrais
já não iluminam o interior
e permanecemos
respirando esse ar frio
como se houvesse sentido
como se o vazio fosse suficiente
e talvez seja
talvez sejamos somente isso:
carne habitada por um inverno azulado
tentando fugir do calor
enquanto lentamente
nos tornamos parte dele.
Cláudio Borba
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Cianose
Noite após noite, enclausuro-me | como quem naufraga num pélago inefável. | Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento, | estranho ao próprio oceano…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Noite após noite, enclausuro-me
como quem naufraga num pélago inefável.
Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento,
estranho ao próprio oceano —
é a tintura lúgubre da ausência,
um sopro gélido que, em letargia, respira.
Peregrino pelos labirintos da própria mente
como por Dunas Múrmuras a sussurrar epítetos obliterados;
e cada passo soçobra
no lodo de memórias que jamais sorvi.
Há o acre salitre a corroer as ideias,
como se o pranto antecedesse a gênese da carne,
qual se a nostalgia fosse o molde dos meus ossos.
Minha epiderme, por instantes, fulgura
numa bioluminescência pálida e azúlea,
não como farol aos errantes —
mas como delação do vácuo que palpita nas veias.
E, ao tatear a própria forma,
constato o horror:
jaz um abismo intransponível entre a matéria do gesto
e a tradução do sentir.
E, não obstante, persevero.
Roço as falanges na tessitura do silêncio,
desvelando contornos de um invólucro alheio,
qual explorador de um feudo maldito
encravado na própria carne.
Emerge um calor efêmero, de rubro indecente,
que ousa macular a frigidez —
porém, logo se dissolve
num cobalto mais espesso, mais tumular,
como nanquim derramado sobre a eternidade do nada.
Cobiço a mim mesmo
não por enlevo narcísico,
mas pela crônica esterilidade do outro.
Neste conclave solitário,
fundem-se o sagrado e a mais abjeta ruína —
é o beijo mórbido na face de um espelho
cônscio de que o vidro jamais retribuirá.
O cosmo exterior, alheio e ruidoso, teima em existir,
enquanto em meu claustro vigora a maré cativa,
um oceano amordaçado que refuta romper as margens.
Aberrações inomináveis flutuam sob o limo dos meus pensamentos,
letárgicas, silentes,
irradiadas por uma melancolia fosforescente
que esparge sua mágoa sem rogar indulgência.
Sou forjado num anil atávico,
matriz não catalogada nas cartografias d’outrora,
pigmento exilado nas escarpas do tempo.
Carrego no peito a saudade umbrífera
daquilo que jamais chegou a ser,
e que, a despeito de sua irrealidade, me convoca
com a doçura letal de um lar.
Vez ou outra, alucino a fricção de outro corpo —
não como redenção,
mas como puro e brutal contraste tátil.
Epiderme contra epiderme,
a chama mortal contra esta infinitude glacial.
Todavia, até tal delírio
dilui-se em espectros de safira e turquesa mortuária,
e retorno à minha clausura,
eu sempre retorno.
Pois repousa uma lúgubre e mansa paz
na rendição ao próprio abismo.
Já não me debato contra a fúria deste pélago azul.
Consinto que o flúmen me engula,
que me converta em vitral translúcido,
numa quase-não-existência.
Reside o belo naquilo que é perpetuamente manco,
no anseio que ecoa sem jamais tocar o outro,
no corpo que aprende a ser, num só fôlego,
mausoléu e ermo escaldante.
E destarte, cristalizo-me:
nem desperto, nem aniquilado —
apenas suspenso
num azulíneo devorador
que é meu verdugo e minha gênese.
Se lá fora fulgura alguma luz,
seus raios não perfuram minha noite.
E já não os cobiço.
Aprendi a contemplar o breu
de pálpebras seladas,
a palpar a vacuidade
como se fosse carne vívida,
e a idolatrar
— com devoção póstuma —
o silêncio espectral que em mim fez morada.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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Baskhiat
o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra | Nas brumas onde o tempo em dor se inclina, | Ergueu-se a lâmina e lamento; | Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra
Nas brumas onde o tempo em dor se inclina,
Ergueu-se a lâmina e lamento;
Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim.
Bebeu do abismo o próprio sofrimento.
Do morto mar de lágrimas salinas,
Colheu verdades de um viver cruento;
Nem luz divina às trevas se destina,
Nem morte basta ao vão contentamento.
Ceifou piedades, deu à dor morada,
ao ver nos mortos súplica tardia,
Fez da própria alma a forja condenada.
Mas quando a entidade do pulso oferecia,
Perdeu-se em tudo — e em nada foi ferida,
Pois no fim da ruína, enfim, nascia.
No ermo azul de um mundo em agonia,
Caminha a filha do trovão calada;
Traz nos olhos a dor que não fugia,
Nem na lâmina outrora consagrada.
Viu nos mortos a súplica tardia,
Não por sangue — mas paz jamais lograda;
E ao negar-lhes a chama que os feria,
Fez da dor sua fé mais lapidada.
Contra o sol que em trevas se erguia,
Não brandiu só aço, mas a memória
Do pranto que em silêncio a consumia.
Ao ver ruir-se o ciclo e sua glória,
Perdeu-se a si — mas, nessa travessia,
Fez do próprio vazio sua vitória.
Sob céus de aço e um sol em febre imunda,
Vagou a filha do trovão sem nome;
Trazia em si a dor que não se afunda,
Mas se refaz no abismo que a consome.
Nos vales onde a morte em pranto inunda,
Viu almas cujo anseio era sua fome:
Não por viver — mas pela paz as circunda,
No esquecimento que ao nada as consome.
Ergueu a mão — não para dar-lhes morte,
Mas para impor à dor sua medida,
Negando ao fim seu mórbido consorte.
Quanto ao Deus ofertou-te sua vida,
Perdeu-se além do tempo e de seu norte
Mas fez da perda a gênese da lida.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Oásis de Ossos Vivos
A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo. Não era apenas areia que se levantava, mas fragmentos de algo mais antigo, partículas que carregavam um brilho opaco, resquícios de uma luz que não deveria existir fora da água, mas que agora se misturava ao ar, criando um véu espesso e iridescente.
Amira já havia atravessado desertos antes, já conhecia a lógica da escassez e do silêncio, mas aquilo não seguia nenhuma lógica conhecida. O vento não apenas empurrava; ele guiava, moldava trajetórias, fechava caminhos que haviam sido abertos segundos antes, e quando ela tentou usar o sol como referência, percebeu que o céu havia sido completamente tomado por aquele azul pálido que não indicava direção alguma.
As dunas erguiam-se como ondas congeladas, e por um instante, Amira teve a impressão de estar caminhando sobre um oceano imóvel, um pélago de areia que escondia algo em suas profundezas. Foi então que ela tropeçou.
O que pensou ser uma pedra revelou-se, ao toque, como algo macio demais para ser mineral e rígido demais para ser carne viva. Ao afastar a areia, encontrou o primeiro corpo. Não estava decomposto, tampouco intacto; encontrava-se em um estado intermediário, como se a morte tivesse sido interrompida em algum ponto do processo. A pele apresentava um tom marfim retorcido, com áreas que refletiam a luz de forma metálica, enquanto outras permaneciam opacas, quase ressecadas.
E então o corpo respirou.
Não foi um movimento completo, apenas um leve expandir do tórax, seguido por um som que não chegava a ser um suspiro, mas que carregava uma intenção, um esforço. Amira recuou, mas ao olhar ao redor, percebeu que não estava diante de um único corpo, mas de centenas, talvez milhares, parcialmente enterrados sob a areia negra, formando um vasto campo que se estendia até onde a visão permitia.
A tempestade cessou tão abruptamente quanto havia começado.
E, no silêncio que se seguiu, ela viu o oásis.
Não era grande, mas destacava-se como uma anomalia perfeita no meio daquele cenário de morte suspensa. Um pequeno lago de águas cristalinas refletia o azul do céu com uma intensidade quase hipnótica, e ao seu redor, estruturas que lembravam árvores se erguiam, seus troncos formados por aquilo que só poderia ser descrito como ossos entrelaçados, organizados em padrões que sugeriam crescimento, como se estivessem vivos.
A sede falou mais alto.
Amira caminhou em direção à água, ignorando os corpos que, agora, pareciam reagir à sua presença, movimentos sutis percorrendo suas superfícies, como se estivessem despertando de um sono profundo. Ao ajoelhar-se à beira do lago, viu seu reflexo, mas não o reconheceu completamente. Seus olhos pareciam mais escuros, mais fundos, e havia uma leve luminescência em sua pele, quase imperceptível, mas suficiente para alterar a maneira como a luz se comportava ao seu redor.
Ela tocou a água. E sentiu fome.
Não uma fome comum, mas uma necessidade profunda, primitiva, que não se dirigia à água, mas ao que estava sob ela. Porque, ao mergulhar a mão, percebeu que o lago não era vazio. Havia movimento ali, formas que se deslocavam lentamente, roçando sua pele com uma suavidade enganosa.
Quando retirou a mão, algo veio junto.
Não era uma criatura completa, mas um fragmento, uma estrutura que lembrava uma mandíbula translúcida, cujos dentes finíssimos se moviam de forma independente, como se testassem o ar. Antes que pudesse reagir, a estrutura aderiu à sua pele, e imediatamente começou a emitir uma luz azulada, pulsante.
O contato foi suficiente. Os corpos ao redor começaram a se erguer. Não de forma abrupta, mas gradual, como se a própria areia estivesse liberando-os, permitindo que emergissem em um estado de vigília incompleta. Seus olhos se abriram, revelando cavidades preenchidas por aquela mesma luz bioluminescente, e quando suas bocas se moveram, o som que emergiu não era um grito, mas um chamado.
Amira tentou fugir, mas seus pés afundaram na areia, que agora parecia mais densa, mais aderente, como se respondesse à presença daquela luz que se espalhava por seu corpo. A mandíbula presa à sua mão começou a expandir-se, ramificando-se em filamentos que penetravam sua pele sem dor, mas com uma finalidade clara.
Ela olhou novamente para o lago.
E compreendeu.
O oásis não era uma fonte de vida, mas um núcleo de transformação, um ponto onde o que restava das criaturas do deserto era reciclado, reorganizado, devolvido ao ciclo daquele horror luminoso. A sede que a havia guiado até ali não era sua; era deles.
Os corpos continuavam a se aproximar, seus movimentos agora mais coordenados, mais intencionais, e Amira percebeu que não havia predador ou presa naquele lugar, apenas um sistema que assimilava tudo o que entrava em seu domínio.
Quando finalmente caiu, não sentiu dor. Apenas a expansão da luz, preenchendo cada espaço, cada pensamento, até que não houvesse mais distinção entre ela e o deserto. E, sob a superfície do lago, algo novo começou a se formar, aguardando o próximo viajante sedento.
Luiz E. Tassini
Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Seu Calor Cruel
O azulescer | transbordou em meu peito | O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou | A voz invisível | Escapa pela cicatriz da minha pele | E meu coração grita…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O azulescer
transbordou em meu peito
O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou
A voz invisível
Escapa pela cicatriz da minha pele
E meu coração grita
Ecoando no vazio da minh’alma
Exigindo o calor
Que pode me matar
O conforto do sol
Em seu abraço
Os dois queimando minha pele
E me matando um pouco, toda vez
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Pergaminho de Requiem
O hálito gélido do Norte não trazia apenas a neve, mas o cheiro de cobre e seiva podre. O vilarejo, outrora um bastião de carvalho e honra, era agora…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O hálito gélido do Norte não trazia apenas a neve, mas o cheiro de cobre e seiva podre. O vilarejo, outrora um bastião de carvalho e honra, era agora um cemitério cromático. Sob o céu de um anil turvo e profundo, as flores não apenas desabrochavam; elas pariam horrores. Pétalas de marfim retorcido abriam-se em rostos pareidólicos que vertiam um sangue viscoso, e o vento, soprando sobre as Dunas Múrmuras, carregava o som de mil gargantas secas que tentavam, em vão, articular uma prece. O rio Magöhorror brilhava com uma bioluminescência maligna, transmutando a fauna em carcaças que se recusavam a repousar.
No centro do incêndio, onde o fogo lambia as vigas de madeira com uma fome de lobo, a garota de cabelos prateados como o luar de inverno via o mundo desmoronar. O calor das chamas era a única coisa que ainda a lembrava de que estava viva, enquanto criaturas de pele rachada e olhos vazios avançavam com a lentidão de um pesadelo inevitável. Foi quando o trovão metálico ecoou. Um cano longo e dourado cuspiu fogo, e a cabeça do carniçal mais próximo explodiu em um spray de polpa negra e fragmentos de osso.
Uma mão forte a puxou para as sombras. O homem tinha o olhar de quem já viu o fim de muitos mundos — uma esmeralda melancólica emoldurada por cicatrizes que cortavam sua beleza como sulcos de arado em terra morta. Ele não disse nada enquanto a guiava por passagens esquecidas até o ventre de uma gruta oculta por uma cortina de água estrondosa. Ali, o som da cachoeira abafava os gritos lá fora, criando um santuário de umidade e silêncio sepulcral.
Ela o observava enquanto ele limpava o sangue da arma, o silêncio entre eles mais pesado que a pedra acima de suas cabeças.
— Por que não impediu? — a voz dela era um sussurro quebradiço, o eco de uma esperança morta. — Você estava lá. Você via tudo.
Ele parou o movimento da flanela sobre o metal gravado. O brilho da tocha revelava runas que pareciam pulsar no cano da pistola.
— Há correntes que nem o aço mais forte pode cortar. O que você viu não é uma praga deste solo. É o cosmos sangrando. A energia que vaza das fendas da existência escolhe o que há de mais belo para corromper. As flores... elas são apenas os receptores mais sensíveis para essa escuridão.
Ele estendeu a mão, oferecendo um pequeno projétil de ouro. Símbolos arcanos estavam cravados na ogiva, emanando um calor antinatural.
— De onde eu venho, caçamos o que o resto do universo tenta esquecer.
— E quem é você? — ela perguntou, os dedos roçando o metal místico.
— No dialeto das minhas terras, chamam-me Leornn. — Ele fixou os olhos nos dela, buscando o rastro de força em meio ao prata de seus cabelos. — E você, portadora da neve?
— Clariegra — respondeu ela, sentindo o peso da bala na palma da mão.
Ele abriu um volume de couro curtido, cujas páginas pareciam feitas de pele humana. O cheiro de enxofre e sangue velho emanou do livro.
— Se quiser que o sol de amanhã signifique algo mais do que o início de uma nova agonia, aprenda. O sangue deles é o catalisador. A carcaça é o invólucro. Use a morte para ferir o que não pode morrer.
O amanhecer trouxe um sol pálido e doentio. O som ranhado de unhas contra a rocha anunciou que a trégua terminara. As criaturas, atraídas pela vibração das almas ainda quentes, escalavam as pedras úmidas. Leornn ergueu a pistola dourada, o olhar esmeralda fixo no vazio.
— Prepare o grimório, Clariegra. O banquete começou.
O aço e a magia se fundiram no ar saturado de neblina. Cada carniçal derrubado era uma fonte de matéria-prima. Entre o disparo e o golpe, eles colhiam o fluido negro e as vísceras místicas, forjando sob pressão e desespero as ferramentas de sua sobrevivência, enquanto o mundo lá fora continuava a ser devorado pela beleza letal da vêsffera sensiflora.
A névoa na gruta não era feita apenas de água; era o suspiro acumulado de séculos de solidão da pedra, agora misturado ao cheiro metálico da pólvora e ao odor adocicado da morte que pairava sobre eles. Clariegra sentia o peso do grimório em suas mãos, as páginas de pele pareciam pulsar contra seus dedos, uma biblioteca de dores antigas esperando para ser lida. O primeiro raio de sol, pálido e doentio, penetrou a cortina da cachoeira, não como uma promessa de esperança, mas como um holofote sobre a carnificina que os aguardava.
— O sangue deles é a tinta, Clariegra. — A voz de Leornn era um trovão baixo, ressoando na acústica da caverna. — O grimório é o papel. A sua vontade é a pena. Escreva a sua própria sobrevivência.
A primeira criatura rompeu a névoa. Não andava, mas se arrastava, uma abominação de membros alongados e pele que parecia casca de árvore queimada. Seus olhos, buracos vazios de escuridão, encontraram os de Clariegra. Houve um momento de reconhecimento silencioso, um eco de humanidade que se recusava a apagar. Clariegra viu, nas feições distorcidas, os traços de Elara, a padeira da vila, cujas mãos uma vez moldaram pães quentes e cujos olhos sempre sorriam para ela perfurou o peito. Não era a dor do medo, mas a dor da perda, a dor de ver a beleza de uma vida transformada em uma monstruosidade grotesca. O mundo ao seu redor pareceu desacelerar, o som da cachoeira abafado pelo batimento cardíaco frenético em seus ouvidos.
— Use a dor — comandou Leornn, sua voz agora uma âncora na tempestade emocional de Clariegra. — Transmute-a em poder.
Clariegra respirou fundo, o ar frio e úmido queimando seus pulmões. Ela abriu o grimório, suas páginas se abrindo como feridas expostas. Suas mãos, tremendo, traçaram as runas que pareciam queimar em sua mente.
O fluido negro, colhido dos corpos caídos, começou a ferver no grimório, emanando um calor antinatural.
A criatura que já foi Elara avançou, um rosnado gutural escapando de sua garganta.
Clariegra sentiu a magia fluir através dela, uma torrente de energia que parecia consumir sua própria essência.
Ela carregou a pistola com aquele orbe de sangue e disparou, uma explosão de luz prateada que envolveu a criatura. O carniçal gritou, um som que não era deste mundo, um lamento de dor e desespero.
Seu corpo começou a se desintegrar, a pele de casca de árvore queimada se desfazendo em cinzas.
Clariegra assistiu, com lágrimas nos olhos, enquanto a criatura que já foi sua amiga desaparecia no ar.
— Ela está livre agora — disse Leornn, sua voz suave por um breve momento.
Quando o sol finalmente começou a descer no horizonte, tingindo o céu de um carmesim doentio, a batalha cessou. A gruta estava silenciosa, exceto pelo som da cachoeira e pelo suspiro exausto de Clariegra. Leornn limpou o sangue de sua pistola dourada, seu olhar melancólico fixo na névoa que se dissipava.
— O mundo lá fora está em cinzas — disse ele, sua voz vazia de emoção.
Clariegra sabia que ele estava certo. A vila que ela uma vez chamou de lar era agora um cemitério cromático, as flores de vêsffera sensiflora desabrochando em horrores pareidólicos. Ela sentiu uma pontada de tristeza, uma saudade dolorosa da vida que ela conhecia.
Eles deixaram a gruta, caminhando pelas Dunas Múrmuras em direção à vila. O vento carregava o som de mil gargantas secas, um lamento constante que ecoava em seus ouvidos. Clariegra sentiu o peso do grimório em suas mãos, uma lembrança constante da escuridão que ela agora carregava consigo.
Ao chegarem na vila, Clariegra foi dominada pela visão de destruição. As casas de carvalho estavam reduzidas a cinzas, as vigas carbonizadas pairando no ar como esqueletos de um passado esquecido. O cheiro de queima e de morte era avassalador, um lembrete constante da beleza letal da vêsffera sensiflora.
Clariegra caminhou pelas ruas em ruínas, seus pés pisando nas cinzas de sua vida anterior. Ela sentiu uma solidão avassaladora, uma sensação de perda que parecia consumir sua própria essência. Foi quando ela ouviu um choro fraco, um som de dor e desespero que partiu seu coração.
—Platina? Ela exclama.
— Clari…egra? A criança incapaz de terminar a sentença, estava gravemente ferida açoitada pelo sangue daquele acontecimento,
— O que… o que houve? Clariegra estava trêmula ao ver aquela pobre criança naquele estado.
— Mortos-vivos, eles eram muitos, grunhindo, mastigando, entre eles estava um homem de armadura escura, um semblante terrível ele parecia um demônio, mas era humano, ele me pegou pelo pescoço e ordenou que eu dissesse onde estava Arale ou se eu conhecia tal moça, eu disse que não, então ele me apunhalou e me arremessou aqui…
—Calma… você vai ficar bem…
A garota cuspiu sangue e tossia enquanto gemia, a vida estava se apagando de seu globo ocular.
— Clariegra, só mais uma coisa, ele procurava um pergaminho e… obrigado por ser minha amiga...
—Platina? Platina…
Clariegra chorou com uma expressão de ódio e sentindo-se totalmente perdida.
— Arale? — Pergaminho? — Leornn por favor me ajude.
— Sim, não vou te abandonar, exatamente por isso estou aqui para encontrar Arale também…
Os olhos de Clariegra se arregalam, quem é Arale?
Leornn dá um sorriso de canto de boca e carrega sua arma.
— Abra o seu Códex Sangria e você vai descobrir.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Clamor dos Filhos da Noite
Vede agora os que têm sede de sangue, | Não da água salina ou da doce corrente, | Mas do carmesim puro que a luxúria condena; | Estes possuem, em seus mortos peitos,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Vede agora os que têm sede de sangue,
Não da água salina ou da doce corrente,
Mas do carmesim puro que a luxúria condena;
Estes possuem, em seus mortos peitos,
Algo além do saudosismo da vida humana:
Um clamor masoquista, um culto ao impossível,
Ídolos de sombra que a luz seduz e fere,
Vampiros que emergem sob o azulíneo.
Impedidos de serem tocados pelo Sol,
Pelas próprias fantasias são julgados;
Desejos oprimidos que jamais revelam,
Seres das trevas que o dia bendizem;
Pois o que vale a imortalidade fria
Diante do aquecer do Astro inigualável?
O Sol, vilão senciente, o alvo do desejo,
Destrói a escuridão que lhes serve de berço.
Nas margens do Magöhorror eles se prostram,
Banhados pelo brilho que a água esparge,
Buscando no reflexo a quentura do ouro
Que em suas peles seria o fim absoluto.
É a nostalgia do que jamais lhes pertencera,
O blues melancólico de uma noite frígida,
Onde o brilho de um outrora inalcançável
Torna a eternidade um fardo pesado.
Se o azulíneo da morte é o palco eterno,
Onde zumbis bebem o próprio pranto,
O vampiro é o verso de um sonho invertido:
Ama o carrasco que o reduz a cinzas.
Assim se desvela o existir em Irihria,
Entre a bioluminescência da efemeridade
E a busca da luz que, ao mesmo tempo,
É a suprema cura e a morte derradeira.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…