Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Dr. Christopher V. Walker II
(Anotações em seu caderno)
25 de agosto de 1871 — París.

Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e se arrastaram pelos dias até o presente momento.

Torno a escrever minhas próprias memórias — sobre o dia 22.

Todos os eventos daqueles dias até agora ficaram terríveis na minha mente. Memórias que somente nessas folhas e com este lápis atrevo-me a confessar.

Minha jornada começou no distrito XIII, Gobelin, passando por Reuilly — XII distrito. As casas aqui foram algumas queimadas, atravessadas por projéteis dos canhões de campanha de 4 e 8 libras — sabíamos o tamanho dos projéteis pelas histórias dos que retornavam da guerra com a Prússia. Agora testemunhei com meus olhos e outros sentidos os efeitos dessas armas de destruição pelas ruas e casas de Paris.

— Ouvi tantos relatos durante a guerra contra a Prússia, que agora eu sou o que vai criar o relato. — Sussurrei para mim mesmo.

Foram tantos desvios de regiões tomadas por comunas e suas barricadas. Cadeiras, mesas, candelabros, paralelepípedos e até os postes, além dos sacos de terra para as barricadas. Tudo para impedir a mobilização dos soldados de Adolphe Thiers.

— Ainda creio estar entre os mortais? — Essas dúvidas persistem! Assim como as dores que ganhei tanto no corpo quanto na alma.

A luta tem sido tanta. A dor, a angústia e a penúria têm sido demasiadas.

— Os dias calmos agora parecem tão distantes, na linha do horizonte…

Tentava…

Me esforcei para evitar os conflitos!

Mas uma ou outra vez pelo caminho me vi diante do confronto direto.

A troca de golpes com soldados de sua majestade ou com os infelizes rebeldes da comuna. Na última vez que me vi num conflito, um jovem com uma baioneta, desferiu um golpe que achei haver evitado. Lutei como um cão faminto quando consegue carne e precisa defender a vida e seu bem precioso.

Corri, me escondi e me arrastei por entre destroços, corpos inchados, sangue com terra.

—Afirmo… Não nego que isso já é uma loucura. — Minha angustiante situação me fez tomar decisões estranhas.

“Piorado por sons estranhos, animalescos, inumanos que ouvi durante as noites.”, —  Pensei, ao adentrar uma casa ao final da tarde. Se me lembro bem, sim, foi naquela noite dias atrás que rumores sobre eles começaram a correr pelas ruas.

Consegui um breve momento de paz. Havia um silêncio no ambiente que me soava estranho. Sinto o corpo esfriando, então… Uma agulhada cortando meu interior, do cotovelo ao ombro e depois aos dedos, correndo pelo meu braço… Dor!

Aquela sensação subiu intensamente como se fossem as ondas de disparo dos canhões da sua majestade. Encostei na porta e comecei a descer lentamente apoiado nela, senti sua madeira desgastada e áspera.

— Ah, droga. — Levo a mão do braço bom até o braço ferido. — Como…? Como não notei? — Rugi aquelas palavras entre os dentes.

Olhei para o braço. A manga rasgada estava escura, grudenta. Puxei o tecido com os dentes para ver melhor. Corte!

— Limpo… Sim… Pelo menos isso. — Tomo uns momentos para controlar a respiração. — Atingiu o bíceps... braquial, sim, essa é a palavra. Sorte que não pegou a artéria.

— Médico, lembra? — Um sorriso em meio à dor invade meu rosto. — Você é médico. Sabe o que fazer.

Foi como confessar segredos para comigo mesmo porque falar com as paredes era me soaria naquele momento delatar minha própria loucura.

Rasguei a barra da camisa. Amarrei-a firmemente acima do ferimento. Apertei até sentir o nó cravar na pele.

— Pressão. Aaaargh — Uma dor correu como um raio até a ponta dos meus dedos. — Primeiro… Oh, Deus…  Pressão!

O sangue parou de escorrer como uma nascente. Respirei aliviado, mesmo com as ondas de dor percorrendo meu corpo.

Depois, limpar. Com quê?

— Água…? Onde nessa maldita casa terá água. — Me ergui com dificuldade, me escorando na porta, forçando ainda mais minhas pernas doloridas.

Passei a vasculhar aquela casa. O piso de madeira maltratado, desbotado e empenado. Móveis atirados ao chão. Cacos de vidro das janelas e das louças sobre grande parte do ambiente.

O som do ranger das tábuas a cada passo que dei, arranhou meus ouvidos, fazendo correr calafrios na espinha. Era como um monstro mórbido buscando amedrontar minha alma castigada.

Não havia água limpa…

Olhei dentro dos armários, correndo com os olhos. Quando no que estava num canto, na esquina, abri, dentro de uma garrafa suja, empoeirada. Dentro de um líquido verde fantasmagórico, não mais que meia garrafa, sim, absinto.

— Um doce remédio para um homem ferido e quebrado. — A voz saiu rouca e baixa. Meu rosto está esboçando o cansaço e o estresse. Mãos trêmulas, coluna doendo.

Antes de segurar a garrafa, caminhei até onde ainda havia uma cadeira intacta atirada ao chão. Coloquei-a de pé, encostada na parede ao lado do armário. Me sentei lentamente. Sentindo cada fibra muscular dura. Peguei a garrafa com a cor esmeralda.

— A primeira vai para o médico! — Abri a garrafa, o cheiro herbal e doce convidativo inundou meu nariz, tirei o pó do gargalo e logo levei a boca tomando um gole longo. — Aaaargh… Queima como o inferno! — Saiu quase como um rugido, o sabor doce e intenso tendo um contraste queimante na garganta, rasgando minhas entranhas.

Um gole de coragem e outro para o meu ferimento.

— Recomendação médica! — Sussurrei para mim mesmo.

Ardeu… Ah, sim, ardeu! Queimou, mas queimou tanto, que chamei todos os anjos do cânone.

— Isso vai doer por um longo tempo! — Eu me contorcia na cadeira suportando a ardência como podia. — Será que… Anton e o Marcel fizeram isso alguma vez enquanto estavam na frente de combate?

Busquei acalmar meu espírito.

— Quer parar de reclamar, doutor? — Gritei para mim mesmo naquela cozinha abjeta e escura.

Ri, num crescente, até gargalhar sozinho… Terminei num riso curto, amargo.

Pensei naquele momento: —“Médico ferido é pior que paciente.” Dei de ombros. O silêncio ambiente parecia uma redoma ao que ocorria em Paris. O cansaço deixou minha cabeça pesada, me fazendo apoiar na parede, de olhos fechados. Um novo pensamento me invadiu, “— Porque sabe exatamente o que pode dar errado.”

— Uma vez médico… Sempre médico!

Sentado naquela cozinha, as lembranças vinham em ondas. Não tive tempo para refletir com clareza sobre o que eu havia presenciado horas atrás.

Tomei outro gole da minha única bebida à disposição.

— Foi tão desolador… Ver os olhos perdidos daquela criança. — Me coloquei a analisar a cena. — A guerra arranca a alma de qualquer um, mas ver aquela monstruosidade foi além para aquela pobre criatura.

Seria aquele o pai dela?

Será que aquele dorso que foi queimado era alguém importante para ela?

A criança não… Ela não falou nada.

Ela ficou nos meus braços… Silêncio… Vazio!

Estamos do lado errado do céu?

— É possível…? Em algum nível?

Estamos tão condenáveis e reprováveis que as hostes infernais venham nos capturar?

Será que com suas mãos demoníacas de chamas condenatórias já estejam nos levando um por um?

— Oh, Deus… o que fizemos…? — Tomei um novo gole do líquido verde.

Lentamente sinto meu corpo relaxar, o coração se acalmou e a dor diminuiu. Os pensamentos ficaram tão distantes. Ao longe escuto o som de uma melodia tão suave e… Sim! Popular.

Estão… Alguém está cantando? Qual era…? Qual era a música? Ah, sim, “Le Papillon et la Fleur”.

 — “Mas não, você voa longe demais! Entre incontáveis flores você voa, enquanto eu permaneço sozinha, observando minha sombra circular ao redor dos meus pés. ” — A bela melodia transbordou de minha alma até sair pelos meus lábios e me embalou o coração a um sono tão suave com lágrimas escorrendo em minha face.

Madrugada do dia 23 — Lembrar, revisitar essas imagens em minha mente é como tocar com bisturi uma ferida estranha que não encontra cura, apenas segue aberta e cheirando a queijo podre e rançoso, uma gangrena não tratada.

Eu caí num sono profundo, mesmo com todo aquele caos acontecendo, meu corpo apenas desmoronou naquela cadeira. Um sono sem sonhos. Sem perturbações. As poucas horas que mergulhei nos braços de Morfeu deram novo fôlego.

De sobressalto desperté. Um estado de alerta que não me era natural, se apossou de mim, como um espírito maldito e frio.

A garrafa estava ao chão, com seu interior parcialmente derramado. O ar tinha cheiro de “fada verde”, madeira molhada e um pouco de fumaça.

Primeiro, ouvi como se algo tivesse sido arrancado da casa. Depois, gradualmente soavam como se algo estivesse apertando a madeira da casa intensamente até ela estalar. Então, como se algo tivesse caído no piso superior, a poeira se soltou do teto com um som oco e pesado.

— Que diabos foi isso? — Sussurrei.

Comecei a buscar algo para usar como arma, observando as rotas de saída da casa.

Corri meus olhos no breu, até que a pouca luz das fogueiras na rua fez meus olhos notarem que havia algo perto da lareira. Me aproximei lentamente, tomando todo bom cuidado para assegurar minha posição. Aquilo parecia um atiçador! Sim, era. Feito de ferro fundido com duas boas pontas.

— Não sei o que está lá em cima, mas com isso tenho mais chances. — Uma certa calma tomou posse das minhas feições tanto quanto a segurança do meu espírito.

Caminhei em direção à porta pisando como um gato que busca um passarinho na janela aberta. Tomando todo bom cuidado para não provocar ruídos desnecessários e atrair o que quer que fosse que estava andando no piso superior.

Por Deus, meu coração galopava loucamente dentro do meu peito, apertando meus pulmões contra as minhas costelas.

Será que era mais uma estranha criatura que queima ao sol?

Olhei pela janela e o céu estava escuro demais até para ver as estrelas. Os astros estavam se escondendo dos olhos mortais naquela noite.

O que estava no andar de cima foi em direção às escadas que terminavam de frente com onde eu estava. Recordo de pensar, —“ Como eu não notei essas escadas?”. Olhei para a parte de trás da casa e dava para uma pequena janela que estava aberta. Olhei para a porta que estava fechada. Ela não estava trancada. Também nem poderia, o trinco está parcialmente quebrado, apenas uma ponta do ferrolho sobrou, qualquer batida externa arrebentaria aquilo.

Ao longe escutei o som do disparo de canhões, na sequência, as explosões, o barulho do disparo dos mosquetes. Gritos.

Meu cenário naquele lugar estava apenas ficando pior. A rua era quase uma reta, e no início da noite eu não lembro de ter visto barricadas nela.

O barulho externo parecia aumentar, o que já me deixava sem fôlego, novamente sendo pego no meio do conflito.

Olhei para o meu braço com o corte.

— Droga, minhas chances estão diminuindo rápido demais. — Rosnei a minha fala em voz baixa.

Então um rosnado na escada. Passos pesados.

— Meu amigo do andar de cima deve ser grande. — Sussurrei para mim mesmo e às paredes mudas e surdas ao meu redor.

Segurei o atiçador como se fosse um florete, só que mais pesado e rígido. — “Vou agradecer a meus amigos ingleses por terem me permitido umas partidas de esgrima no clube dos lordes.” — Acho que pensei isso na hora. Me faltou o gole de coragem para impulsionar meu valor.

Antes que minha decisão se formasse, na esquina da escada de canto, na parte superior de sua esquina, vejo surgir uma mão que parece humana. A respiração da coisa é pesada, há um grunhido animalesco soando.

Quando surge a coisa pela metade na parte superior da escada, seu aspecto é cadavérico, aquilo fica um tempo de perfil, quando decide seguir, ela vira seu rosto revelando olhos fundos com um estranho brilho esverdeado não natural.

Ela desce lentamente como se não tivesse pressa para fazer qualquer coisa. Observando… a mim! Quando ela chega ao fim da escada, pude ver melhor suas feições grotescas.

Além dos olhos, sua pele parecia branca demais, além de se assemelhar a um couro curtido e esticado. Sua boca esboçava um sorriso obscuro e malicioso. Ela emana uma presença aterradora.

— Por Deus, suas mãos…. — Minha voz falhou ou foi impedida de falar qualquer coisa.

A coisa tinha garras e o que pareciam presas. Das mãos a boca e o queixo gotejavam um líquido vermelho e negro.

Me correu um frio na espinha, um calafrio desceu da minha nuca até a ponta dos meus dedos. Me senti um felino diante de uma ameaça desconhecida eriçando os pelos.

Não sei sua origem, mas afirmo: não veio do céu muito menos deste mundo carnal.

Ele me olhava como se eu nada fosse, mesmo estando com atiçador numa das mãos. Não sei dizer se estava pronto para morrer, mas certamente eu queria muito viver.

A criatura seguiu seu próprio tempo brincando com a comida? Era essa a áspera sensação: eu era a próxima refeição dela!

Com um grito estridente que me fez doer os ouvidos até alcançar o cérebro, ela levantou seus braços na altura dos ombros com as mãos abertas e o peito descoberto. Ela não parecia temer minha arma e menos ainda a mim.

Avançando lentamente em minha direção, eu me preparei para o ataque. O atiçador pesava na minha mão. Sou médico, me dediquei uma vida para salvar outras. Nunca matei ninguém, aprendi a suturar feridas. Naquele preciso instante aquilo parecia ter uma diferença ínfima.

Num movimento a criatura avançou, abrindo a boca com quatro dentes longos e pontudos se projetando. Seu braço esquerdo fez um arco rasgando o ar, tal qual fosse uma foice. O defendi como era possível. O som metálico do encontro do atiçador com o corpo daquele monstro soava no ambiente.

Tentei dar um passo para trás… uma triste revelação… senti nas minhas costas a parede fria.

A criatura atacava de forma tão aleatória e estranha, que era perceptível sentir a maldade naqueles movimentos. Meu braço ferido começou a arder e doer com o suor do esforço, o sangue voltou a brotar da ferida.

— Argh! Criatura maldita. — Meus gritos eram para motivar meu espírito a seguir no combate.

A criatura no último movimento agarrou meu pescoço. A sensação daquela mão era de um frio polar, sua pele com textura tão ressecada, adornada com o odor fétido de sangue e gordura. Apertou lentamente meu pescoço. Olhei para ela, e com o atiçador ainda em minha mão, tive por intenção um golpe desesperado, que foi frustrado sem esforço pela criatura que agarrou meu braço, me fazendo derrubar minha única arma.

— Arrg….! Cri…aaa… turaaa….— Ele apertava minha traqueia como se eu fosse um boneco de palitos.

O ar começou a faltar. Minha memória daquele momento é aterradora, eu estava morrendo. Lembro dela se aproximando, ficando a poucos centímetros de mim. Como quem observa seu novo brinquedo sendo quebrado deliberadamente.

“Fraqueza. Pesar nos extremos. Visão ficando turva”. Comecei a listar os efeitos da privação do ar. Então quando estava sentindo que a esperança havia acabado.

Um som explosivo e estrondoso.

Um mosquete?

O vazio.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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