Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Mensagem da autora

Amáveis leitores, espero que esta nova série possa encantá-los tal como me encantou enquanto a escrevia. Publicarei capítulos bimestrais, alguns podem sair antes a depender do meu tempo disponível para escrevê-los. Assim que terminarem a leitura, venham me contar se Írides cativou vocês n’este primeiro encontro! Posso garantir que ela é incrível e são muitos os horrores e fascínios que a esperam no Castelo Drácula.

Boa leitura!
Com apreço, Sahra Melihssa

Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos se abriram vagarosos e demorei a me acostumar com a luz que, esplendorosa, irradiava na clareira. A cálida lagoa que se abençoava da linha pálida-solar, refletia em suas águas a cintilância iridescente dos céus de Opallihan e das flores de mesmo matiz. Quando distingui as cores e feixes, de imediato avistei, fora da clareira, certo tipo de eletricidade rasgando o espaço. Iniciara de um ponto absoluto em vazio, pairando no ar e expandindo-se célere para todos os lados. A princípio: fascínio! Era de beleza extraordinária como os fúlmens nuvieanos, porém, atraía-me sem temor. Pouco depois, as faíscas deram espaço ao que eu compreendi como “outro lado”, mostrando-me frondosa e azúlea floresta cingida por soturno mistério. Eu sequer podia piscar, pois estonteante era a experiência.

Levantei-me atenta, jamais vi algo tão extravagante. A eletricidade espargia sonidos, estalos e faíscas lívidas que se contorciam n’uma distorção atemporal. Andando envolta de tal “rasgo” — e somente d’esta maneira eu poderia apreendê-lo — nada havia além de sua existência possuída de duas únicas dimensões; símil a uma porta sem espessura. O turvo arvoredo azulescido estava dentro da fissura — embora fosse incabível haver intradimensão. Ousei aproximar-me, pois, ponderei tratar-se de algo deífico ou tão somente sonho de expressão lúcida causado pelo tempo de exposição ao perfume de lanuvenis. “No universo onírico, todo o horror é miragem e todo o enlevo é recordação.” — diz um antigo ditado.

Estendi minhas mãos; certa densidade opressiva as arrastara ao interior do fenômeno e a eletricidade nívea-faiscante alargou-se violenta. Assustei-me no rompante, clamei socorro. Um zumbido pujante e súbito ensurdeceu-me e, por mais insistente que eu fosse em apartar-me daquilo, minha força era ínfima perante o tragar da manifestação. Vi Saphihria aproximar-se, decerto ouvira meu chamar condoído, entretanto, a luz iridescente rarefez-se até pratear-se e... findar... antes que eu pudesse pronunciar quaisquer sílabas de alívio por encontrar minha irmã. A linha pálida-solar alterou-se ao breu amedrontador; descargas contínuas de energia contorceram-me o corpo, causaram-me dores exorbitantes nas veias e artérias — assim assimilei, nítido e legítimo, mesmo sendo tão breve e repentino.

Fui tragada para o cerne do fenômeno, caí d’outro lado — um outro lado de inominável conceber. Envolvi-me em terror que me trouxera hediondo abalo existencial e físico. Por átimos esperei despertar do pesadelo, mas quando senti exalar fragrâncias amarescentes... tão coercitivas... e respirei um ar de algidez inenarrável, ali compreendi que não se tratava de inócua ilusão.

Jamais cogitei sentir pavor — emoção residente tão só em lôbregas histórias sobre a lua noctígera —, entretanto, o sentimento expressou-se em meu espírito com ferocidade suficiente para fragmentar-me o equilíbrio; e apossou-se de mim, pois não havia retorno. E não havia retorno, pois o que vi... a eletricidade de beleza insondável que desejei demasiado tratar-se do contato de Deusas Iridescentes... infelizmente era uma grave, e lídima, armadilha. Desfez-se em sua centelha, a energia em lampejo, e tudo o que restou era azul-escuro e penumbra, e o arvoredo sombrífero, e os estranhos sons de naturezas hostis e... aquele céu vantanegro...

Eu estava ali, sem direções. Prensei minhas pálpebras. “Acorde, Írides!” — sussurrei ininterrupta por infindável duração e, somente quando toda a adrenalina se dissolveu em lágrimas, ousei abrir meus olhos. A primeva imagem — embaçada por gotículas salinas — fora de minha pele que, sob a escuridão intolerável, perdera seu tom castanho-profundo e tornara-se parte indissociável do breu azúleo — entretanto, de alguma estranha forma, produzia ou cintilava pontos douradiços. Senti-me instigada a fitar a floresta, por questões íntimas à sobrevivência e ao conhecimento de um devir indistinto, porém, havia aquele céu amedrontador... receei pela possibilidade de erguer minhas retinas a ele ao me deslumbrar, ou me estarrecer, com o que habitava sob ele.

Era preciso coragem e eu a desenterrei do jazigo de meu horror.

Ao derredor, tons de bronze-áureo esplendoravam em plantas, flores e insetos alados; por causa disso, minha tez lumiava naquele matiz como pelo reflexo desta fauna e flora, além do anil difuso que parecia penetrar os poros e invadir o ser. Levantei-me aturdida e notei que me encolhia sobre relva mediana e frígida — gélida como nunca senti. Respirei fundo. Em silêncio busquei em mim a paz iridescente das pérolas lunares e observei tudo, menos o céu vantanegro — e confesso que sua presença me oprimia. A imensurável pupila celeste era o terror mais insuportável já idealizado — antes fábula... e, de repente, concreta sobre mim...

A linha pálida-solar fenecera; o portal elétrico fechara-se. Nenhum orvalho bendizia a floresta e a única fonte de iridescência vinha de minha memória, protegida no meu coração. A pulsante vida lucífera de Opallihan — agora reminiscência — era guia dos meus sentidos diante do anseio de reencontrá-la, por isso restitui a fé; meus passos se iniciaram contidos, e andei mesmo sem Norte ou Sul. “Não... não estou só... elas me resgatarão... Deusas criadoras do cosmo plenicores... clamo a vós... que esta azulínea natureza insólita tenha senciência... e me devolva ao meu lar... Restitua, eu rogo, o pleniluzir dos céus... amanhã e para sempre... afasta-me d’horror d’esta pupila e do agouro que a precede...” — rezei, murmurante.

Afasssta-me... d’horror d’essssta... pupila.... — ouvi sussurrarem...

Terrifiquei-me, tão próxima ao estupor catatônico. Um altar de árvores frondosas, nada além disso vinha ao encontro de minha visão.

Agouro... agouro que precede... — espargira outro sussurro, agudo e distorcido.

— Q-quem me replica? Mostra-se! Mostra-se de uma vez! — bradei como pude, a voz ainda embargada pelo pânico ensandecido.

Mossstra-se... mosssstra-se... — Horrifiquei-me ao ouvir e, apressada em abrigar-me de tamanha perturbação, fui desbravando a selva azulescida em trevas, gritando aos prantos lacrimais: “Vá embora! Afasta-te de mim!” — Até a fadiga obrigar-me à pausa, e a respiração ofegante calar-me.

Sozinha... exausta... afogada...

E então, um rosto longínquo... vários deles... todos calcificados... eu vi... dentre arbustos frondejantes... eles observavam-me em expressão de espanto e de seus orifícios oculares ocos e das bocas ovais vertia sangue vívido em tom escarlate intenso. Todos eles... inclinados... iníquos... sussurravam minhas palavras em uníssono. Meu cérebro pulsou em opressão irrefletida; era símil a dores pontiagudas, entretanto, carregava densidade agônica vinda da inconcebível constituição que possuía tais plantíferas criaturas.

Só podia ser pesadelo... inaceitável que o terrífico pudesse existir com grandiosa perfeição tangível... soterrando-me em suas vísceras bestiais... era inadmissível...

N’um surto de suplício atormentador, fitei a imensidão acima em sua pupila eterna, o vantanegro dos horrores mais martirizantes. Caí de joelhos na relva, sem afastar minhas retinas do betume celeste. “Por favor...” — roguei em lamúrias, contudo, os sussurros impediam-me de ouvir minha própria voz e meu pedido direcionava-se ao meu maior temor, pois, seu poder era o único capaz — e eu intuía essa verdade — de me amparar; ainda que fenecer em seu pélago infindável fosse a única saída.

E ele era... terrificamente belo...

A escuridão... a pupila dilatada no infinito...

Meu medo perturbador tornou-se atônito êxtase e, de repente... a quietude circundou-me. O breu desmesurado, insondável... como um manto parecera descer sobre mim. Eu o senti... e todo o arvoredo tornou-se silhueta... todo o anil atrovioleara... os fulvos lumes dealvaram... e o céu obsidiano — insigne... magnânimo... — olhou-me de volta, alcançando a profundez de minha alma irisada...

· · • • •✤• • • · ·

Glossário da autora:

Atroviolear: Tornar roxo-escuro.

Azulíneo, Azulescer, Azúleo, Azulear: De cor azul. Tornar azul. Azular.

Douradiço: Que possui cor dourada.

Esplendorar: Fazer brilhar. Resplandecer.

Intradimensão: Espaço tridimensional no interior de alguma coisa bidimensional.

Plantífero: Relativo a plantas. Corpo vegetal. Que possui características de plantas.

Plenicor: Iridescente. Todas as cores. Furta-cor.

Pleniluzir: Luz intensa espargida. Esplendor. Plena luz.

Vantanegro: Uma adaptação de “vantablack”. Vantablack é uma substância feita de nanotubos de carbono. É a substância mais preta conhecida, absorvendo até 99,965% de radiação.

Vantanúrida
A ínfima compreensão impossibilita-me de descrever o escuro perpétuo; esta matéria enegrecida envolvendo os céus que outrora foram puro esplendor iridescente. Nunca vi tal opressivo e misterioso poder... é como pupila de insondável dimensão que observa, perfurante, minh'alma através de meu absorto olhar. Chamam-na de Noite..., e eu a sinto vantanúrida em meu ser...

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Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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