Hereditariedade
Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O Senhor é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.” (Números 14:18)
Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas em decorrência do estresse. Outros disseram que, por não saber de fato minha origem (era filha adotiva), não saberiam dizer se era uma condição hereditária — e até irreversível. Fato era que os males noturnos pioravam à medida que os meses se arrastavam perante mim.
Vertigem. Falta de ar. Suores repentinos. Não, eu não estava entrando na menopausa, nem precoce e nem nada, pois só tinha 27 anos na época e aqueles palermas afirmavam que não se tratava disso. Estresse? Quase todo mundo tinha, me sentia até pertencente à essa geração de descontrolados varridos. E, baseados nessas desculpas, me entupiram de drogas para “aliviar a tensão”.
E tudo continuava a se agravar.
Não conseguia mais dormir. O descanso irregular piorava o suposto quadro de estresse. Aquele maldito ciclo era surreal. Não conseguia dormir por causa do estresse, ficava ainda mais estressada porque não conseguia dormir.
Pensei em procurar meus pais biológicos, com a estrita intenção de tentar entender qual condição maléfica poderiam ter passado para mim, mas isso não era possível, já que minha mãe — a adotiva e minha mãe de fato —, nunca soube quem eram.
Mas eu não conseguia mais viver daquela forma e, ignorando meu ceticismo, fui visitar uma médium (essa atitude também agravou meu quadro, pois tive que passar por cima das minhas crenças, ou melhor, da falta delas).
Mas o que era mais uma cavada para quem já está no fundo do poço?
***
Devia ter seguido minha intuição. Aquela mulher falou tanta baboseira que mal consegui terminar de ouvi-la até o fim — alguma coisa sobre maldição hereditária e pecados atravessando gerações. Já ouviu falar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”? Então, não devia ter visto essa história de perto.
Segundo a charlatã, meu bisavô era proprietário de uma companhia muito próspera que fazia papeis de parede. O problema é que um dos elementos usados para produzir a cor púrpura era arsênico. Sim, o veneno.
Fui pesquisar depois e, para meu absoluto desprazer, isso realmente aconteceu na história humana. Papel de parede envenenando gente. O século XIX parecia um grande experimento suicida coletivo.
Mas, continuando a história absurda, em decorrência disso, várias pessoas faleceram intoxicadas. Uma dessas famílias era composta por religiosos fervorosos que, por influência de algo obscuro, flertavam com práticas incomuns (não me pergunte quais, como eu disse, mal prestei atenção nela).
Dos cinco membros que viviam na casa recém reformada com aqueles belíssimos papeis violetas, quatro morreram de forma trágica. A matriarca da família, e única sobrevivente, rogou uma maldição contra meu bisavô:
“Assim como quatro tombaram sob teu pecado, quatro gerações pagarão.”
Se aquilo fosse verdade, seriam quatro gerações condenadas à morte de formas terríveis: meu bisavô, meu avô, meus pais… e eu.
A mulher ainda afirmou que, quando meus pais descobriram sobre a maldição, decidiram me colocar para adoção. Talvez acreditassem que a distância bastasse para enganar a dona morte.
É obvio que não acreditei em nenhuma palavra da médium naquele momento, e continuei minha vida, rotina de insônia, médicos e trabalho. Até que tudo ruiu.
***
Quem poderia imaginar que o fundo do poço não era o pior lugar que eu poderia estar? Achava que só mais uma escavação não faria ruir as estruturas, mas tudo cedeu e me soterrou em ressentimentos e maldições. Sim, era tudo verdade, mas, mesmo se eu tivesse acreditado antes, não poderia mudar meu destino. Pagar pelos erros dos antepassados era cruel e injusto, mas a minha revolta não mudaria nada disso.
Perdi meu trabalho, porque não conseguia me concentrar em nada.
Não fui mais aos médicos, porque já não tinha dinheiro para os exames.
E, sem dormir, minha mente me pregou peças.
Um dia, quando estava deitada tentando dormir — ah, como eu era insistente — olhei para o espelho que havia ao lado da minha cama e avistei — até então tinha certeza de que imaginava — em cima do meu peito uma criatura cadavérica, de olhos tão escuros que sugavam a atenção, o olhar e a vontade de viver. E, quando ela sorriu, todos os males que sentia foram agravados. Ela era a culpada!
Mas eu não permitiria que a maldição me atingisse de forma direta. O último elo dessa corrente iria resistir bravamente, nos meus termos, do meu modo.
E, com uma apunhalada, quebrei o maldito portal-espelho, sentia os pedacinhos de vidros me convidando, atraindo, clamando para terminar de uma vez por todas com aquele sofrimento.
Agarrei um dos cacos mais pontudos e enfiei primeiro nos meus olhos, mas isso não foi suficiente e, apesar da dor, ainda havia vida em mim. Ouvi uma voz sussurrar que havia chegado o momento de, finalmente, ter o descanso eterno, e sem hesitar cravei o objeto na garganta e a rasguei...
...Continuo não sabendo o que sou, quem sou, mas enfim obtive o merecido sono eterno.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Onírico
Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da…
Arte de Henry Fuseli, edição de Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da arquitetura vitoriana. Despedi-me de meus pais com o remorso corroendo meu peito, mas sabendo que eles tentaram de tudo, e no final acabei compreendendo a decisão deles. Fui recebido por uma equipe formada por dois médicos, três enfermeiros e um auxiliar; eles me levaram para conhecer as instalações (que, aliás, não eram lá essas coisas), mas isso não me importava, contanto que eu melhorasse dessa terrível condição. O prédio, por dentro, parecia ter parado no tempo; o forte odor de desinfetante com pano sujo pairava pelo ar, presente em cada cômodo.
Subimos um grande lance de escadas — não sei explicar, mas senti-me observado. No fim dos degraus, vi um grande portão de ferro com severas marcas de corrosão; após atravessá-lo, deparei-me com um colossal e alto corredor, mal iluminado por luzes amareladas oscilantes. O piso de ladrilhos azuis perdera a cor, assim como a meia parede de azulejos verdes. Conforme caminhava, vi outros pacientes em seus leitos; gritos e risadas se misturavam, causando calafrios — outras portas permaneciam fechadas — até que paramos. Vi então a maciça porta de madeira onde resquícios de tinta branca resistiam ao inexorável tempo; olhei mais acima e vi o número 106, em ferro, no centro dela. Uma minúscula janela de vidro, impregnada com décadas de sujeira — algumas manchas eram marrons escuras, semelhantes a sangue —, esse pensamento me assombrou.
A porta rangeu; meus olhos passearam pelo cômodo. À esquerda, próximo à porta, encontrava-se uma mesa com duas cadeiras, ambas brancas. À minha frente havia uma claustrofóbica janela gradeada e, abaixo dela, uma cama robusta de ferro decorada com faixas de contenção fixas na lateral. Caminhei até a janela, onde contemplei um belo jardim com árvores frutíferas, gramas podadas e alguns bancos dispostos. Desejei respirar o ar puro…
Por mais que aqui houvesse pessoas transitando o tempo todo, este lugar exalava desesperança — semelhante ao umbral onde incontáveis almas padecem em eterna agonia, esperando para serem salvas. Esse pensamento trouxe uma sensação perturbadora: será que um dia sairei daqui?
Uma leve vertigem apoderou-se de mim; do alto da minha testa surgiram tímidas gotículas que logo formariam uma nascente. Conseguia ouvir os batimentos em descompasso. Antes do inevitável desmaio, os enfermeiros me puseram na cama; devido à minha agitação, deram-me um calmante via oral e disseram que havia guardas lá fora para uma possível necessidade. Assim que eles saíram, acenei para os guardas — mas as amarras me causaram calafrios. Esperava adormecer o quanto antes; não demorou para o sono vir.
Em algum momento daquela noite, acordei agitado. Não vi ninguém lá fora; gritei por socorro, mas minha voz se perdia no vazio. Continuei tentando. Minha respiração falhava como se houvesse um peso em meu peito — como na pintura Pesadelo, de Henry Fuseli. Fechei os olhos e fiz o exercício de respiração; no passado, funcionava.
Respirei novamente e gritei do fundo das minhas entranhas. Para minha sorte, os guardas retornaram e, com agilidade, seguraram meu corpo que se debatia com violência; em poucos minutos, o restante da equipe havia chegado. Durante os primeiros socorros, presenciei algo medonho: uma sombra disforme surgia por trás da porta, espalhando uma horrífica luz arroxeada. Não poderia ser… seria a mesma figura que tanto me assombrara na infância? Neste momento, uma certa frase ecoou em minha mente: "Está tudo bem, Pedro — foi apenas um pesadelo. Vamos rezar para que tudo fique bem, certo, filho?"
Desta vez, o horror era verossímil demais para ser um pesadelo. O nefasto brilho ocupou todo o cômodo até que a figura adentrou o recinto: era esguia, corcovada, cinzenta, quase translúcida, mas também opaca. No rosto, dois enormes e enegrecidos olhos que pareciam devorar minha alma, e um sorriso medonho repleto de dentes afiados. O medo ancestral abraçou meu trêmulo corpo. Rapidamente os enfermeiros colocaram as amarras para conter os espasmos; os gritos tornaram-se guturais. Relatei o que estava vendo e eles se entreolharam, balançando a cabeça em negação. Lá fora, uma sirene tocava constantemente.
Percebi mãos em meu pescoço — havia a chance de alguma lesão. A cama gemia; os gritos se misturavam com frases desconexas; pupilas dilatadas em frenesi.
— Ele está perdendo a consciência — inicie a massagem cardíaca. Vamos, rápido, não podemos perdê-lo — um dos enfermeiros falou.
A massagem pareceu funcionar. Pela visão periférica, vi-a se aproximar e pousar os olhos nos meus; a agulha perfurou minha pálida pele — o líquido ardeu em minhas veias. Rapidamente o medicamento fez efeito; minhas pálpebras pesaram. Entretanto, a maldita figura permanecia ali, assim como aquela tenebrosa cor.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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Chamas Da Inocência
Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
"Deixem vir a mim as criançinhas e não as impeçam;
pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas"
Mateus 19,14
Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio e jamais podem usufruir por completo das benesses que a roda da fortuna possa lhes oferecer. No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Para tais indivíduos a alegria e a bonança são dadas em pequenas partes intercaladas de tristezas e decepções.
Maria de Lourdes – que pela sua compleição franzina, desde que nascera era denominada Lourdinha – se encaixava perfeitamente dentre tais desafortunados. Sua vida fora um completo conjunto de absurdas decepções e infortúnios. Depois de uma infância de grandes privações e carregada da mais completa falta de perspectivas, antes mesmo de completar seus quinze anos, – ela que, apesar dos pesares, era dotada de uma beleza ímpar, uma verdadeira flor em desabroche – fora acometida pela varíola e por dias afins, caminhou no vale da sombra da morte. Essa pestilência não recolheu seu corpo para a cidade do silêncio, onde todos são inocentes, mas lhe deixara profundas marcas que levaria consigo por toda sua insignificante existência.
Proveniente de uma família simples e humilde onde a necessidade sempre se fazia presente, seu tratamento constara apenas de ervas e benzimentos. Com muita persistência e força de vontade, por fim a varíola se fora, mas levara consigo toda a beleza que Lourdinha possuíra até então. Sua pele antes macia e sedosa como uma pétala da mais fina rosa, ficara manchada e cheia de horrendas cicatrizes. Depois de sofrer mais esse terrível golpe do destino, essa frustrada criatura, que não conhecera a felicidade em sua plenitude, adquirira em seus olhos uma expressão tristonha e distante, que demonstrava uma profunda sensação de escárnio pelas vicissitudes da vida. Sempre que se olhava no espelho – fato que ela tentava evitar ao máximo – sentia-se como a mais desafortunada das criaturas.
Pela sua origem pobre e com uma aparência não tão agradável aos olhos de um possível pretendente, seu primeiro e único relacionamento fora com um desconhecido de olhos claros e cabelos na cor do entardecer, que por uma única vez, numa noite de bebedeira, onde ambos estavam completamente tomados pelos misteriosos fetiches da ebriedade se perderam nos braços um do outro. O desconhecido – a qual nem mesmo seu nome verdadeiro, Lourdinha soubera ao certo – da mesma maneira que surgira também se fora, sem deixar rastro nem vestígio, deixando para Lourdinha não somente as lembranças de voluptuosos momentos, que por mais que pudessem ter sido de uma frustrante efemeridade, ainda assim trazia em si uma profunda intensidade. Noite que proporcionara a ela, a oportunidade única, de conhecer nos braços de um desconhecido os misteriosos caminhos do inexplicável deleite da mais ensandecida paixão.
Essa única noite de prazer daria a Maria de Lourdes motivos para que jamais se esquecesse de tão voluptuosa passagem em sua existência. Pois o fruto de seu inconsequente deleite se materializara numa bela criança de olhos primaveris e cabelos na cor de ardentes labaredas. Essa graciosa criatura de sorriso fácil e olhar inocente recebera o nome de Lorena e a todos encantava. Para Lourdinha era seu porto seguro, onde depois de um dia de tenebrosas tempestades no árduo trabalho diário – limpando lares alheios – ao fim do dia, ela aportava para uma noite de deleitoso descanso. Para seus avós – já velhos e doentes, que cuidavam dela, durante o dia, enquanto Lourdinha trazia o sofrido sustento para o lar – era ela uma verdadeira dádiva. Lorena era uma criança criada a pão de ló, sempre bajulada por todos. Sempre carregada de muito amor e zelosa atenção. Por mais que lhe viesse a faltar luxo e o conforto, ainda assim tinha todo afeto e carinho que um ser poderia desejar.
Numa família onde a sorte jamais fizera morada, e nem mesmo a roda da fortuna dera um único giro sequer, aquelas duas senis e gentis criaturas dependiam totalmente do suado esforço da pobre Lourdinha para sobreviverem. Verdade seja dita, que eles cuidavam muito bem da graciosa Lorena, enquanto a mãe passava o dia no trabalho. No entanto, o parco ordenado de uma única pessoa para sustentar uma casa, onde havia uma criança dependente de cuidados dos mais diversos e duas outras pessoas em idade já bastante avançada, desprovidas de qualquer outra renda que fosse, era uma tarefa bastante hercúlea. Se o sustento básico já era difícil, uma moradia decente era apenas um sonho distante.
Os pais de Lourdinha, que além de velhos e doentes, também não eram detentores de nenhum tipo de posse de maior valor, que pudessem lhe valer num momento de extrema necessidade, sobrevivendo apenas do trabalho da filha e da providência divina. Sendo assim, viviam aquelas quatro desafortunadas criaturas numa improvisada casa – se por acaso, aquele estranho pardieiro pudesse ser denominado casa – feita de restos de tapumes de construção e um carcomido pedaço de lona de caminhão. Era um tipo de construção tão sinistra que mais parecia uma armadilha, pronta a tolher a vida de seus humildes moradores a qualquer momento.
O piso de terra batida, por mais que recebesse todo asseio possível, insistia em manter-se sujo todo o tempo. Como havia apenas um único espaço sem separação entre cômodos, a privacidade era praticamente inexistente. Ambiente quente e abafado sem nenhuma janela, praticamente sem ventilação alguma. Durante as chuvas – devido ao improvisado telhado – molhava mais dentro de casa do que pelo lado de fora. Se por acaso fosse uma tempestade violenta com relâmpagos e grande ventania era um verdadeiro “Deus nos acuda”. No período de extremo calor a casa se tornava um verdadeiro forno, devido a sua baixa e desajustada estrutura, tornando a permanência em seu interior algo quase que impossível. O saneamento básico era inexistente e a iluminação elétrica era um objetivo ainda não alcançado, fato que tornava o uso de velas ou candeeiros uma necessidade constante, quando a noite chegava.
Devido a uma vida de sofrimentos diversos e incontáveis frustrações, sem nenhuma perspectiva de dias melhores – ou talvez até mesmo, por não terem outra coisa com que ocuparem o tempo ocioso – os pais de Lourdinha encontraram determinado conforto numa comunidade pentecostal que frequentavam fielmente quase todas as noites. Sendo assíduos tanto na fervorosa fé, bem como na constante presença sempre que havia celebrações. Lorena já com cinco anos, dotada de saúde e disposição na mesma proporção que dispunha de energia e inquietude, sendo uma criança que nas palavras do avô – o bondoso Senhor Eusébio – “era fogo na roupa”, e devido a essa sua incrível qualidade de não conseguir manter-se em pleno sossego por muito tempo, nem sempre acompanhava os avós aos cultos na pequenina e improvisada igreja, que não distava muito longe de sua casa.
Em várias ocasiões em que Lourdinha demorava a chegar do trabalho – sendo essas ocasiões quase uma constante – Lorena ficava aos cuidados de uma vizinha que tinha uma filha da mesma idade que ela. Sendo ambas inseparáveis amigas. Essa vizinha que tal qual a própria Lourdinha, também não tinha marido se chamava Claudete – por todos conhecida como Detinha – mesmo sendo uma competente costureira era tão pobre e necessitada quanto eles mesmos e justamente por estarem no mesmo patamar de contínuo sofrimento se dava muito bem, tanto com aquele casal de idosos bem como com a própria Lourdinha que na maneira do possível tentava a todo o custo ser-lhe bastante prestativa, arranjando-lhe trabalho de costura pelas casas onde ela prestava serviços como faxineira.
Por mais difícil que a vida possa parecer, há certa peculiaridade nesse tipo de pessoas que deve ser louvada acima de tudo. Mesmo passando por todos os tipos de necessidades possíveis, ainda assim são pessoas fraternas e bastante generosas. Ainda que não tenha nada ou quase nada, o pouco que possuem dividem entre si. Mesmo vivendo em casebres dignos da mais profunda piedade, ainda assim, fazem de suas humildes moradas, lares calorosamente acolhedores, recebendo debaixo de seu teto, qualquer um que precise de um seio familiar em momentos de profundo abandono.
Há um velho provérbio que diz: “... não há nada de tão ruim que não possa piorar...” Certo dia, depois de um estafante dia de trabalho, sabendo que seus pais estariam na igreja e Lorena estando aos cuidados de Detinha, decidiu Lourdinha que ao chegar do trabalho tomaria um refrescante banho e logo se deitaria para um merecido descanso. Naquela época em questão o trabalho se tornava cada dia mais pesado e cansativo. Ela que estava tendo crises de insônia, após se queixar no trabalho de tal situação, havia conseguido através de uma de suas empregadoras alguns comprimidos que lhe proporcionariam noites mais tranquilas. Esse medicamento fora lhe entregue com a séria recomendação que deveria ser utilizado comedidamente e jamais misturado com qualquer tipo de bebida alcoólica que fosse.
Lourdinha – uma filha muito obediente e mãe bastante exemplar – muito raramente se dava ao luxo de tomar algum tipo de bebida alcoólica. Quando o fazia era na companhia de Detinha em algum evento especial; como algum aniversário de algum deles, nas festas de fim de ano ou coisa que o valha. Naquele dia em si, como o tempo estava bastante quente e abafado, estando ela faxinando a casa de uma velha cigana – cartomante conhecida e muito eficiente em sua mística arte – a convite de sua empregadora que era uma constante amante do copo, acabara por ingerir um gole ou outro de uma refrescante cerveja, que lhe fora muito insistentemente oferecida. Ao chegar em casa, assim que tomou seu demorado banho, devido ao cansaço do dia e os efeitos da bebida decidiu tomar pela primeira vez, dois dos relaxantes comprimidos que tanto conforto lhe trazia para suas insones noites de cansaço e profunda crise existencial. Assim que se deitou logo caiu em sono profundo e dormiu sossegadamente o sono dos justos.
Enquanto seus avós estavam numa acalorada celebração, onde o pregador ponderava sobre as benesses de uma vida de fiel servidão a Deus e obediência aos ensinamentos das Escrituras Sagradas, Lorena brincava sossegadamente com sua inseparável companheira de aventuras. Assim que o dia já cedera lugar a uma quente e abafada noite, Detinha logo preparara o parco e simples jantar, e em seguida decidira dar por encerrado alguns ajustes no vestido de uma de suas clientes, que exigia pressa no trabalho. Estando as meninas brincando de casinha no único e pequeno quarto da casa, perceberam que aquela brincadeira estava um tanto quanto sem graça, pois lhes faltavam alguns objetos considerados essenciais, para completarem aquela diversão. Tomada pela euforia e senso de aventuras, Lorena conseguira convencer sua amiga a irem até sua casa para buscarem alguns itens para continuarem com a brincadeira.
Detinha estando por demais ocupada, nem mesmo percebera que as meninas haviam saído e voltado logo em seguida. Acompanhada de sua amiga, Lorena entrara em sua casa e muito rapidamente após acender o toco de uma vela, logo recolhera todas as coisas que foram buscar e de forma bastante afoita logo retornaram a fim de continuarem com sua diversão. Uma vez que, estando a casa tomada pelas trevas, a luz da pequena vela não fora suficiente para perceberem que Lourdinha dormia sossegadamente em sua cama num dos cantos escuros da casa. Talvez devido a inocência, ou até mesmo por mero esquecimento a vela fora deixada acesa sobre uma pequena mesa encostada numa das paredes da casa. Em menos de meia hora, após essa negligente e despretensiosa façanha, Detinha sentira que o calor havia aumentado bastante e logo pôde perceber que seu quintal, fronteiriço a casa de sua inocente e infeliz amiga estava tão claro como o dia. Havia também um curioso barulho de fortes estalos preenchendo o silêncio da noite, ao olhar pela janela, finalmente deu por si que aquilo era incêndio.
A casa de Lourdinha ardia em tenebrosas chamas. Vizinhos logo se aglomeraram ao redor, mas muito pouco poderia ser feito além de evitar que o fogo se espalhasse pelos demais barracos. Lorena acompanhada da inseparável amiga e do filho mais velho de Detinha foram correndo até a igreja em busca de seus avós. Ao chegarem na porta do humilde templo, coincidentemente o pregador falava do fogo consolador que queima os pecados do mundo, Lorena que era conhecida por todos e fora a primeira a adentrar a pequena igreja fora logo gritando:
– Fogo! Foooogo...
– Justamente minha filha, é o fogo do Senhor que nos consola! Respondeu o pregador bastante afoito com sua mensagem.
Lorena desesperada ao extremo com a face banhada em lágrimas, não podendo controlar as emoções gritou bem alto:
– Não, pastor, é fogo mesmo e está queimando nossa casa.
Menos de dez minutos depois, todos os membros daquela pequena igreja – que naquela noite assistiam à celebração – estavam perante a imensa fogueira que outrora fora a casa onde Lorena vivia com sua mãe e seus avós. Seu Eusébio – velho e doente – tivera que ser amparado pelos vizinhos. Sua esposa – Dona Olinda – era um pranto só, entre lágrimas e soluços, dissera:
– Já não tínhamos nada! E o nada que possuíamos agora se foi entre as chamas...
Em menos de uma hora a pequena casa se tornou um monte de cinzas ainda fumegantes. O desespero fora tão grande que ninguém dera por fé que Lourdinha ainda não havia chegado do trabalho. Somente algum tempo depois, após os ânimos se acalmarem um pouco, que Detinha percebera que havia passado muito da hora que a amiga comumente chegava. Aquela noite fora triste e desoladora, a casa havia sido reduzida a cinzas, as horas passavam e Lourdinha nada de chegar. Depois de um tempo que parecera durar quase uma eternidade, a noite fora esvanecendo e dando lugar às primeiras luzes da manhã. Assim que a claridade se fizera presente, Detinha fora avisada por um dos vizinhos – daqueles tais, que se levantam antes do amanhecer e são dotados de curiosidade plena – que, chamando-a de lado, lhe dissera quase em surdina que havia os restos de um corpo carbonizado entre as cinzas...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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PIGMEUS
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Devemos temer unicamente o que pode de fato nos causar dano, e o simples temor não pode fazer mal”. — Dante Alighieri
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava eu tinha crises de pânico que me tiravam até mesmo o apetite, independente de qual fosse o cardápio do jantar. As nuances das cores do amarelo e do vermelho dos raios de sol que se intercalavam entre si formando vários tons de alaranjado que hoje em dia eu vejo como uma prova inquestionável da existência de um Ser superior, que a cada entardecer nos presenteia com uma cena cada dia mais esplêndida, na minha inocência de criança era o prelúdio para mais um período de profundo sofrimento. O final de um dia e início de mais uma noite de profundo terror noturno.
Até hoje não sei explicar, – talvez nunca o saiba – o porquê eu tinha tanto pavor da noite. Às vezes imagino – em momentos de profunda reflexão – que esse incontrolável terror, pode ter sido causado pelas coisas que só eu conseguia ver, vagando pelas sombras da noite. Por mais que tentasse mostrar aos meus pais onde estavam e como tais criaturas eram, eles jamais acreditavam em mim. Sabendo que tentar convencê-los era algo inútil, decidi que deveria convencer a mim mesmo, que minha mãe – exemplo de doçura e sabedoria – estava certa, quando ela sempre me dizia que: monstros, assombrações, entidades e todas essas coisas do tipo, não existiam no mundo real. Que tudo era fruto de uma mente fértil que chegava a criar tais criaturas.
Mamãe, para tentar aplacar minhas crises de pânico, quando eu acordava toda a casa com meus gritos de terror, – e certamente, se minha voz tivesse a força igual ao medo que eu sentia meus gritos também acordariam toda a vizinhança – ela muito carinhosamente me dizia: – Seus olhos vêem aquilo que sua mente quer ver. Sabendo do amor que minha querida mãe nutria por mim, eu tentava de todas as formas me acalmar e me convencer que tudo o que via era fruto de minha imaginação. Contudo, eu sabia que todas aquelas criaturas eram reais, mas como ninguém mais as via, eu temendo me passar por uma pessoa mentalmente perturbada, decidi que eu deveria me silenciar quanto às minhas visões, e não tocar mais no assunto.
Certa vez, visitamos uma conhecida família, que perdera o pai para uma doença desconhecida. Um homem saudável ao extremo e forte como uma rocha, que da noite para o dia, contraiu uma infecção misteriosa que em questão de dias o levou à morte. Segundo essa jovem, a doença que matara seu pai, fora tão terrível que muitos de seus amigos e conhecidos, – até mesmo parentes mais próximos – não ousavam nem mesmo se aproximar dele em seus últimos momentos, pois os vermes já o estavam devorando, mesmo estando ele, ainda vivo. Dissera ela que, em suas últimas horas de vida, seu pai, sofrendo extraordinários ataques de pânico, aos gritos, implorava a todo o momento para que iluminassem o quarto – mesmo estando dia claro – pois, segundo ele havia terríveis criaturas o espreitando nas sombras.
Na volta para casa, minha mãe me questionou se eu havia prestado atenção no que nossa anfitriã havia nos contado. Quando eu dissera que sim, ela me alertou sobre o perigo daquilo que achamos que vemos escondidas pelos cantos sombrios. Suas palavras jamais foram esquecidas:
– Filho, não duvido de nada do que me dizes, mas não é porque eu acredito em você que os outros também deverão fazê-lo. Além de ser sua mãe, eu mesma também acredito que entre o Céu e a Terra existam muitas coisas estranhas e ainda incompreendidas pela mente humana, mas evite na medida do possível comentar com qualquer outra pessoa essas visões, para que não o tenham como um louco. Ver o que os outros não vêem o torna perigoso.
Depois da estória que ouvi, sobre um homem já experimentado em anos e que prezava do respeito de toda uma cidade, ter terminado seus dias tributado como louco, e pelos incansáveis conselhos de minha mãe decidi, que deveria silenciar as vozes e afastar aquilo que me atormentava nas trevas da noite. A última visão que tive, foi na vida adulta, quando eu já estava namorando. Foi algo assustadoramente constrangedor.
De visita a casa dos pais de minha namorada, – a primeira e última – assim que chegamos, estando todos sentados na varanda, fui educadamente cumprimentar a todos os seus parentes presentes no momento. Sem exceção de idade, um por um eu fiz questão de me apresentar e apertar a mão em um fino gesto de galhardia. Fui gentil com todos, inclusive com uma sorridente senhora que estava sentada numa confortável cadeira de balanço. Quando a cumprimentei com todo respeito e atenção que se deve ter a uma pessoa idosa, logo percebi que todos me olharam de forma assustada. Minha namorada, muito constrangida, logo me chamou num canto em particular e demonstrando estar um tanto quanto irritada, disse:
– O que pensa que está fazendo? Quer que meus pais pensem que o namorado da filha deles é um louco, um maníaco pervertido que fala com cadeiras vazias. Saiba, que quando eu disse para minha mãe qual era sua profissão – Professor de Filosofia – ela de imediato me questionou, se você não era daquele tipo de pessoa perturbada, que passa o tempo todo sob o efeito de substâncias entorpecentes...
Pedi sinceras desculpas, e disse que eu estava um pouco cansado, e que talvez eu pudesse estar confundindo a realidade, devido ao estresse causado pelo meu trabalho. Mas, assim que entramos na sala de estar, logo na parede de frente à porta de entrada, havia um enorme retrato da senhora a quem eu havia cumprimentado há pouco. Quando questionei minha namorada de quem se tratava a imagem do retrato, ela suspirando profundamente, me disse que era sua querida avó, a quem ela tanto estimava, mas que havia falecido há mais de cinco anos...
Na velha sabedoria de botequim, há um antigo provérbio que diz que os semelhantes se reconhecem apenas pelo olhar. Numa quente e abafada noite de meados de dezembro, após um estafante dia de trabalho, estava eu sentado numa velha banqueta, encostado num polido e gordurento balcão de um sossegado bar no centro da cidade, saboreando uma cerveja estupidamente gelada ao som de Belchior, quando um senhor se aproximou de onde eu estava e logo foi puxando assunto. Sem nenhuma cerimônia foi se apresentando e iniciou uma conversa por conta própria, – sem saber se eu gostaria de ouvi-lo, ou não – primeiro; falando do calor, da falta de chuvas, do custo de vida e por fim das dificuldades de se conseguir bons companheiros de trabalho. Como eu estava muito cansado e de cabeça quente, devido aos dias finais do ano letivo, fiquei apenas o escutando, e vez por outra interagia com ele de forma monossilábica.
Quando ele percebeu que tinha minha atenção, logo me questionou sobre minha profissão e se eu estaria ocupado nas duas próximas semanas. Respondi que era professor de Filosofia, mas que a partir da quarta-feira da semana seguinte estaria de recesso pelos próximos quarenta dias até o fim de janeiro. Sem titubear por nenhum segundo, me fez uma proposta de trabalho, que de forma alguma poderia ser recusada. Disse-me que era carpinteiro de telhados artesanais e que estava à procura de um ajudante, que lhe pudesse auxiliar por duas semanas, pois seu antigo ajudante havia sofrido um pequeno acidente e estaria indisponível por uns dois meses, talvez até um pouco mais – soube depois, que estava em coma profundo. Jamais trabalharia outra vez –.
O trabalho era no interior, numa fazenda afastada da cidade. Um lugar sossegado e bastante pitoresco para uns dias de descanso de uma vida atribulada de cidade grande. Fez-me uma oferta financeira bastante razoável, para quem não tinha nenhuma experiência com este tipo de ofício, e logo quisera me pagar metade do valor oferecido de forma adiantada. Após acertarmos os detalhes, ficou decidido que na quarta-feira seguinte, partiríamos para a tal fazenda onde ficaríamos até o término do trabalho.
Chegado o dia marcado, partimos bem cedo e antes do almoço já estávamos em nosso destino. Após nos instalarmos na casa onde ficaríamos alojados, depois de um improvisado repasto, ele disse-me que, meu dia seria devidamente pago e que eu poderia fazer o que bem entendesse naquela tarde. Ele por sua vez gostaria de descansar da viagem, e que se fosse possível, que eu não o incomodasse em seu sono vespertino. Aproveitei a tarde para ler, um dos livros que eu havia levado comigo – A outra volta do parafuso de Henry James, se não me falha a memória. Ele dormiu a tarde toda, só despertando no ocaso um pouco antes do início da noite. Após tomar um demorado banho, preparou nosso jantar, – galinha ao molho de pimenta – que fora servido acompanhado com um saboroso vinho tinto. – Lembrei-me de Jonathan Harker hospedado no Hotel Royal em Bistritz –.
Após o jantar ficamos conversando até tarde da noite. Ele me pormenorizou sobre seu passado, fatos que rememoravam sua infância mais remota. Acontecimentos de uma época em que eu ainda nem tinha nascido. – era ele um senhor de mais de sessenta anos – Percebi que ele tentava a todo custo me manter acordado com suas estórias, para lhe fazer companhia – uma espécie de Sherazade tupiniquim – Consegui me manter desperto até umas duas horas da madrugada, mas logo fui vencido pelo sono e pelo cansaço e acabei adormecendo na cadeira onde estava sentado, sendo despertado logo em seguida com gritos de pavor e desespero. Naquela noite não dormi mais do que meia hora ao todo, somando os pequenos cochilos que vez por outra me venciam, mas sendo logo despertado em seguida de forma abrupta.
Por três noites a fio, tudo se repetiu como na primeira noite. Eu já estava a ponto de um ataque de nervos. Por mais que eu tentasse de todas as formas, não conseguia dormir durante o dia. Ele por sua vez, iniciava sua jornada de trabalho às primeiras horas da alvorada e após o almoço, dormia quase toda a tarde, também me dispensando de meus afazeres. Depois de me certificar que aquele seu estranho comportamento estaria ligado diretamente ao mesmo terror noturno que eu enfrentara quando criança, decidi que eu talvez pudesse ajudá-lo. Sem deixar que ele percebesse, coloquei em sua bebida – que era de uso quase contínuo – dois dos comprimidos que tomava havia muitos anos para poder dormir uma noite de sono tranquila, sem ser incomodado por visões noturnas. O medicamento era controlado e bastava uma única dose para derrubar um cavalo. Como eu estava muito cansado, quis ser pragmático e lhe dar logo uma dose que eu sabia que seria mais do que suficiente para lhe proporcionar um pouco de paz.
Naquela noite nos recolhemos antes das oito da noite, pouco após o jantar ser servido. Aquele amedrontado senhor, meio que desmaiara em sua poltrona, com muito sacrifício consegui levá-lo para sua cama, – que até então só era usada durante o dia. Exausto como estava, logo adormeci pesadamente, sendo despertado por lamentosos gemidos de alguém que padecia um terrível sofrimento. Como há tempos, havia conseguido vencer meus temores noturnos, consegui me acostumar a dormir com a luz apagada, e naquela noite estávamos na completa escuridão. Quando olhei para a direção de onde vinha os gemidos, percebi que havia uma dezena de pequenos olhos amarelados ao redor da cama de meu companheiro, que por algum motivo parecia estar preso à cama sem poder se mover. Rapidamente acendi a luz e logo todos os olhos sumiram na mesma velocidade que a luz fora acesa.
Aquele senhor entrara numa espécie de catatonismo crônico, não conseguindo mais responder à realidade que o cercava. Num comportamento completamente ensandecido, mesmo estando com todas as juntas de seus membros inertes, ficava tentando se debater, como se unindo forças para se levantar e correr o mais rápido que pudesse e repetindo o tempo todo:
– Pigmeus! Pigmeus! Pigmeus...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
⚜ Suspeita
Estou-me à rede, calma, descansando… | O vento é-se regélido e assoviante | E vem só d'uma fresta se apossando | Da noite no horizonte vigilante;…
Estou-me à rede, calma, descansando…
O vento é-se regélido e assoviante
E vem só d'uma fresta se apossando
Da noite no horizonte vigilante;
Mi'as pálpebras pesadas cerram lentas
E abrindo-se parecem relutantes;
Um sonho que à mi'a mente vem lamenta…
"Olá" — morbo sussurro no rompante!
No susto me arregalo os olhos: medo!
O escuro e nada mais ali se ajeita.
Respiro, pego as chaves, ainda quedo;
Estranha sensação me vem suspeita;
Emperro a porta, impeço sua abertura,
Abaixo-me p'ra olhar na fechadura:
É rubra a vil pupila que me espreita.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Pigmeus — A Origem
Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Legião é o meu nome, porque somos muitos.”.
Marcos 5:9
Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas limitações não permitiriam fazer nada por ele — a não ser lhe fazer companhia —, após deixar todas as luzes da casa acesas, peguei um dos meus livros, sentei-me ao seu lado e iniciei uma interessante leitura na companhia de Hercule Poirot, que deveria desvendar um mistério sobre fantasmas, bruxas ou coisas do tipo. Talvez tenha sido a noite mais longa da minha vida. Em menos de duas horas de leitura, a estória já havia terminado; mesmo assim, a noite ainda continuava fria e bastante escura lá fora. A única coisa que poderia fazer era esperar o dia clarear para ir em busca de ajuda.
Vez por outra, eu ouvia barulhos estranhos, tanto no telhado sobre minha cabeça, como por sob o piso assoalhado abaixo de mim. Pareciam ser dezenas de pés correndo de um lado para outro no mais completo desassossego. Tentei me convencer de que era apenas um bando de ratos famintos, que sempre empesteiam velhas casas de fazenda, mas algo me dizia que eu estava redondamente enganado. Mesmo tentando afastar de meus pensamentos qualquer menção sobre terríveis criaturas da noite, eu ficava me lembrando das últimas palavras daquele inerte senhor, — que agora estava sobre a proteção das luzes acesas e, sabendo que havia alguém velando por ele, dormia pesadamente. Na verdade, nunca saberei se seu sono era devido à dose cavalar de calmante que eu havia lhe dado, ou pelo susto que tivera ao acordar e perceber que os tais “Pigmeus” o observavam na calada da noite. Algumas dúvidas me vieram à cabeça…
— Quem ou o que eram esses Pigmeus? Eram seres malignos? Que mal poderiam causar a um ser humano? Essas questões me atormentaram pelo restante da noite. De certo modo eu sabia que o termo “Pigmeu” se referia aos habitantes de uma nação imaginária onde as pessoas não tinham mais de um côvado de altura. Eu ainda me lembrava das esplêndidas aulas de História da África ministradas pelo professor Luís Carlos. Ele adorava mesclar fatos historiográficos com crenças populares que, segundo ele, eram tão válidos quanto qualquer fato científico. Mestre Luís dizia: “... A sabedoria popular é a mãe de todas as ciências. Antes da escrita, veio a fala. Há inúmeras verdades nos relatos dos mais velhos, suas estórias são carregadas de um velado misticismo que esconde inúmeros mistérios de um tempo a muito esquecido...”.
Decidi que assim que conseguisse ajuda para aquele pobre senhor, eu me encarregaria de fazer uma aprofundada pesquisa sobre esses tais pigmeus; quem sabe até mesmo fizesse uma visita ao meu velho e saudoso professor — isto é, se acaso ele ainda estivesse vivo. Quem sabe ele conseguisse me ajudar de alguma forma, com alguma informação que talvez eu não pudesse encontrar nos livros. Até aquele momento, — de uma forma bastante equivocada — eu me enxergava como uma pessoa que deveria ter algum tipo de problema em discernir a realidade com aquilo que minha cabeça pudesse criar. No entanto, o fato de conhecer alguém que temia tanto a noite quanto eu mesmo, e também saber que essa pessoa — um senhor de idade que parecia ter um caráter completamente ilibado — via coisas que outras pessoas não poderiam ver, mas que eu também vi; me fez perceber que o mundo é um lugar mais perigoso do que a maioria das pessoas possam acreditar, pois estamos rodeados de criaturas, fatos e fenômenos que estão bem acima de nossa humilde compreensão.
Assim que o sol raiou, abri todas as portas e janelas da casa; pude perceber que a casa estava toda iluminada pela luz da manhã, então fui em busca de socorro para aquele meu amigo que dava mostras de ter se desligado por completo do mundo. Antes de deixá-lo só, ainda tive o cuidado de verificar se ele ficaria em segurança, mas por mais que eu tentasse interagir com ele, não havia nenhum tipo de resposta de sua parte. Mesmo percebendo que eu me preparava para deixá-lo só, ele nem um pouco se inquietou, pois sabia que agora estava sob a segurança da luz do dia e nenhuma criatura da noite poderia vir a atormentá-lo. Senti em seu olhar — mesmo vazio — o mesmo desejo que eu tinha quando era criança: fazer a manhã durar para sempre, sem necessidade de um entardecer.
Querendo uma solução rápida para aquela situação, e sem mínima vontade de passar mais uma noite naquela casa, caminhei por alguns quilômetros e logo consegui ajuda numa casa às margens da estrada. O proprietário, que muito cortês veio me atender ainda na porta de entrada, disse-me que teria imenso prazer em ajudar. Convidou-me para entrar e tomar uma xícara de café, enquanto ele colocava uma veste mais adequada para ir até a cidade. Em menos de duas horas já estávamos dentro do pequeno hospital da cidade. Meu velho e recém-conhecido companheiro seria transferido para a capital, pois seu caso era grave. Mesmo com toda a deficiência de um hospital interiorano, fora possível — devido a abissal competência do médico que o atendeu — um diagnóstico de catatonismo crônico. Esse mesmo diagnóstico fora corroborado depois, por uma junta médica da capital após vários exames detalhados do paciente.
Em seu laudo dizia que o caso era bastante grave e momentaneamente irreversível, muito possivelmente o paciente jamais conseguiria discernir a realidade novamente. Um choque psicológico tinha o reduzido a quase um vegetal. Era triste ver o fim daquele tal amável senhor. De certo modo eu me sentia um pouco culpado, afinal fora eu que dera os comprimidos para ele beber. E também fora eu mesmo quem apagara as luzes que ele tinha todo o cuidado de manter sempre acesas. Sorte minha que ninguém mais sabia disso. De alguma forma o efeito do álcool em seu sangue potencializou o efeito do calmante sem deixar nenhum vestígio que pudesse ter sido identificado por algum exame. Sua própria filha me agradeceu pelo cuidado com seu pai e me tranquilizara dizendo que sabia que mais dia menos dia algo daquele tipo poderia acontecer. Segundo ela, seu pai bebia demais, exagerava no café e quase não dormia direito...
Depois de uma noite bastante tumultuada e de um dia que se iniciou com muitas desventuras, cheguei em casa completamente exausto. Eu que deveria retornar apenas duas semanas depois, em menos de cinco dias já estava de volta. Minha vizinha — uma viúva, solteirona e sem filhos, que vivia sempre me oferecendo mil favores — havia ficado responsável de olhar minha casa e regar minhas plantas enquanto eu estivesse fora; ela logo se assustou quando cheguei. Estava justamente, naquele momento, na varanda da frente, terminando de regar minhas samambaias quando eu abri o portão. Depois de um grito acompanhado de um risinho malicioso, ela me disse:
— Ora, ora, ora! Não é que esse reflexivo pensador retorna para o seio de sua amada... O que aconteceu? Dissesses-me que ficaria fora por duas semanas...
— Houve um acidente! O senhor que me contratara teve algum tipo de ataque, derrame ou coisa que o valha que me impossibilitou de terminar o serviço. Estou chegando agora do hospital, onde o deixei internado, agora sob a responsabilidade de sua filha. Parece-me que ele não conseguirá terminar essa obra nem qualquer outra sequer. Sua data de validade expirou...
— Diga-me uma coisa? Você não fora justamente substituir uma pessoa que havia também sofrido um acidente? — questionou-me ela, com olhar curioso...
— Sim! Havia sido seu ex-ajudante que havia caído do telhado sobre uma pilha de madeira.
— Eita! Que trabalho mais sinistro esse. Sendo assim, sua rápida aventura como carpinteiro terminou antes de começar? — disse ela, até com certo ar de galhofa.
— É! Parece que devo voltar às minhas profundas reflexões sobre as verdades do Universo, e deixar o ofício do pai de Nosso Senhor para aqueles que têm maior afinidade com o assunto.
Ela, que já estava terminando seus voluntariosos afazeres, ainda me questionou se eu precisava de algo mais. Agradeci profundamente sua boa vontade e disse que estava tudo bem. Tudo que eu mais queria era poder tomar um banho, fazer um lanche reforçado e depois tentar descansar um pouco. Ela, que certamente jamais desistiria de suas investidas, me questionou.
— Quer que eu esfregue suas costas? Também posso lhe preparar um jantar, se você quiser...
— Obrigado mais uma vez! Você tem sido uma pessoa muito carismática comigo. Mas nesse momento tudo eu que preciso é apenas de um pouco de paz...
Assim que ela saiu pelo portão, busquei pela paz e a quietude do meu humilde lar. Como era bom estar em casa. Tomei um banho, fiz um lanche e iniciei algumas pesquisas. Primeiro eu gostaria de saber onde se encontrava meu venerável professor Luís Carlos. Através de uma sobrinha sua, que havia sido minha aluna, descobri que ele estava vivo e muito bem de saúde. Ela me disse que ele ficaria deslumbrado em me receber em sua casa, pois sempre falara muito bem de mim como um brilhante aluno, sempre muito curioso quanto a coisas inexplicáveis. Disse-me ainda que seu tio certa vez comentara o fato de sempre ter visto em mim um aluno curioso, alguém que via o mundo de uma forma diferente dos demais.
Além do endereço, ela também me deu a certeza que eu poderia visitá-lo sem precisar agendar nada com ele. Segundo ela, ele muito raramente saía de casa e ficaria bastante satisfeito com a surpresa de minha visita. Ainda procurei por uma coisa ou outra sobre os pigmeus na internet, mas como não consegui encontrar mais nada de tão interessante e como já era noite escura, decidi que daria aquela fastidioso dia por encerrado e logo fui me recolher. Fechei meus olhos, relaxando ao som profundo e ressoante da chuva que caía lá fora e só voltei a abri-los por volta das quatro horas da manhã, quando após a forte descarga de um relâmpago ter causado uma momentânea queda de energia. Em menos de dez segundo a luz havia retornado, mas foi tempo suficiente para que meus olhos se acostumassem às sombras espessas da madrugada e então pude ver que havia diversos pontos amarelados me espreitando dos cantos escuros do quarto. Percebi que aquelas mesmas criaturas que haviam lançando aquele bondoso senhor num lastimável estado vegetativo, haviam me seguido de alguma forma.
Levantei-me mais do que depressa e acendi todas as luzes da casa. Como a noite já se encaminhava para seu término — fato que era notório pelas primeiras luzes que despontavam no horizonte, trazidas por um sol que não tardaria a nascer —, decidi que já iniciaria minha jornada daquele dia, naquela mesma hora, e não voltaria mais para cama. Tomei um banho e, após preparar um café reforçado, iniciei minhas pesquisas novamente. Depois de quase duas horas em frente ao computador, entendi que aquilo tudo era uma grande perda de tempo. Não havia nada de substancial sobre aquilo que eu realmente queria saber. Todos os sites falavam dos Pigmeus como sendo de tribos de seres humanos de uma estatura um pouco abaixo de um ser humano comum. Não encontrei nenhuma menção sobre seres pequeninos de olhos amarelos incandescentes que vagueiam pelas trevas e temem qualquer tipo de luz.
Logo começaram os primeiros movimentos da manhã, com pessoas indo e vindo de um lado para o outro nas ruas. A cidade desapertava e trazia consigo seus inúmeros habitantes, cada um com seus problemas em busca de uma evolução espiritual e tentando dar respostas às suas questões existenciais, completamente alheios às dificuldades uns dos outros. Vivendo um dia após o outro, na ânsia de chegar a algum lugar, mesmo sem saber para onde ir. Depois de protelar por um longo tempo, me vesti adequadamente e decidi ir procurar a casa de meu antigo professor. Quando cheguei ao local que o endereço me indicava, imaginei que estivesse no lugar errado, mas para minha surpresa, Professor Luís estava na porta varrendo sua calçada — típico de um professor aposentado — e quando me viu ficou muito satisfeito, mesmo sem ainda saber que eu estava ali para visitá-lo, pois num primeiro momento ele pensou que eu estivesse apenas de passagem pela rua. Cumprimentou-me com bastante alegria dizendo:
— Bom dia! Mas vejam só, se não é meu curioso e destemido aluno. O que o trazes aqui para esses lados tão distantes da civilização, meu jovem?
Ele falava como se vivesse numa solitária cabana no meio do deserto e me tratava como se eu ainda tivesse uns dezessete anos. Sua casa parecia uma pequena floresta, com árvores de todos os tipos e cores, por isso a necessidade diária e continua de estar sempre varrendo a calçada, devido ao excesso constante de folhas caídas quase o tempo todo. Após dar uma olhada panorâmica pelo lado de fora daquela pitoresca moradia respondi ao seu cumprimento tentando ao máximo corresponder a alegria que ele demonstrava em me ver.
— Bom dia, Professor Luís! É um prazer imenso poder revê-lo e poder verificar com meus próprios olhos que gozas de plena saúde e muita disposição. Consegui seu endereço com sua sobrinha Letícia que, diga-se de passagem, foi minha aluna. Peço mil desculpas por vir sem avisar, mas ela me disse que o senhor não tem telefone e me garantiu que o senhor muito apreciaria minha visita. Estou precisando muito de seus sábios conhecimentos sobre alguns assuntos um tanto quanto particulares e obscuros. Talvez o senhor possa me ajudar...
— Letícia é uma menina de ouro, sempre que tem um tempo de sobra, vem aqui me visitar. Mas tratando de você, sim! Vamos entrar, venha conhecer meu humilde lar. Não sei se poderei ajudá-lo em alguma coisa, mas aquilo que estiver ao meu alcance, certamente o farei.
Respondeu ele com bastante alegria na voz. Ao entrarmos em sua casa, pensei que estivesse numa espécie de museu de antiguidades e objetos exóticos. Havia uma miscelânea de um tudo e mais um pouco. Dava para ver de imediato que ele vivia sozinho, pois havia somente uma xícara usada sobra a mesa e todo o resto levava a essa dedução. Contudo, mesmo com a imensa balburdia de inúmeros objetos espalhados pela casa e pelas paredes, tudo estava muito organizado e limpo, como se a qualquer momento ele fosse receber um turbilhão de visitantes ao seu museu particular. Fui convidado a me sentar e ele logo me serviu café com bolinhos fritos. Em nenhum momento pensei em recusar, pois sei que pessoas da idade dele se sentem bastante ofendidos se não puderem ser prestativos de alguma forma. A nuance entre o amargo do café e o doce dos bolinhos trazia um prazer indelével ao paladar.
Assim que me vi satisfeito e certamente ele também o estava, decidi que já era hora de usufruir um pouco de sua sabedoria. Contei-lhe em pormenores o motivo de minha visita, solicitando por fim sua ajuda. Fato que, de alguma forma, inflou seu ego, pois logo se levantou e disse que eu o aguardasse onde estava. Para me dar algum tipo de resposta ele queria me mostrar algo primeiro. Após alguns minutos, retornou com alguns livros velhos que logo foram colocados à minha frente. Um em especial, com capa de couro encerado, foi mantido consigo debaixo do braço e, apontando para as encadernações à minha frente, disse com bastante entusiasmo:
— Essas obras à sua frente são do tipo de literatura comum e estão disponíveis em qualquer sebo ou livraria do gênero. São livros rasos que, para serem publicados, têm um conteúdo prolixo, cheio de regras e fundamentações científicas com notas de rodapé e todas essas bobagens. Contudo, esse livro aqui é uma espécie de enciclopédia do obscurantismo. Seu autor ou autores são desconhecidos. O que se sabe realmente é que é uma obra jesuítica, muito utilizada pelos membros da Companhia de Jesus em suas inúmeras viagens às terras desconhecidas e nunca dantes desbravadas pelo homem civilizado. É uma obra que cita toda e qualquer criatura — deste mundo ou não — que se tenha notícia; para que se alguém, porventura, se deparar com algum desses seres, pelo menos saiba do que se trata. E talvez consiga tentar enfrentá-los.
Com bastante receio, como se estivesse me entregando um recém-nascido, ele colocou o livro em minhas mãos. Logo pude perceber que era um exemplar raríssimo, mas bastante conservado. Folhei o livro com cuidado e pude perceber que estava escrito em diversas línguas diferentes, como se fosse a união de inúmeros textos avulsos. Sorte minha que o índice estava em castelhano. Fui correndo o dedo pela ordem alfabética e me deparado com alguns seres não tão estranhos ao meu humilde conhecimento: Almajonas, Cuckoo, Kurupi e a lista era enorme e bastante curiosa; de repente meus olhos se depararam com um título inusitado: “Órfãos”. Antes de abrir na página indicada, perguntei ao professor Luís:
— Como assim? Órfãos? Órfãos de quem?
— Quem sabe? O livro diz que são criaturas que ficavam vagando pelas cercanias dos cemitérios como se fossem pedintes na porta de uma igreja. Geralmente andam em forma de um casal com a aparência de duas crianças inocentes que estão em busca de seus pais. Segundo o livro, todo aquele que uma vez se encontrou com os órfãos e sobreviveu para contar a estória, jamais voltou a ser a mesma pessoa; a maioria findou seus dias na mais completa demência.
Após o nome dos órfãos, meu dedo indicador se deparou com aquilo que eu estava procurando — Pigmeus! Abri o local indicado pelo índice e me deparei com uma imagem bastante sinistra. Um humanoide com grandes olhos amarelos, sem nariz e sem orelhas, com uma enorme boca cheia de dentes serrilhados — que mesmo na imagem era possível constatar que seriam terrivelmente afiados. Abaixo da imagem havia uma breve descrição numa língua que não consegui identificar, mas logo minhas dúvidas foram sanadas, pois rapidamente professor Luis me explicou em pormenores do que se tratava o texto.
— O texto em si traz, em primeiro plano, várias descrições desses seres em diversas civilizações ao longo da História, desde o Egypto antigo, passando pelo mundo Greco-romano, Idade Média, até serem confundidos com algumas tribos de seres de baixa estatura do continente africano. Tais criaturas já foram confundidos com anões mineradores na antiga Núbia, onde trocavam enormes quantidades de ouro e pedras preciosas por crianças inocentes. Já estiveram no imaginário nórdico como duendes que viajavam através do arco-íris e trocavam potes de ouros por jovens ainda imberbes. E em muitos outros locais de variadas formas diferentes.
No entanto, os verdadeiros pigmeus que seu amigo alega ter visto e você também, talvez o tenha, — e não duvido de jeito algum — são seres maléficos tão antigos quanto a própria existência deste mundo. Certamente já habitavam os recônditos sóbrios do caos antes mesmo da luz ser criada. Esses terríveis seres sobrevivem do medo daqueles a quem eles perseguem, geralmente pessoas com problemas de insônia ou aqueles que de alguma forma padecem de nictofobia, pois para se alimentar do medo de suas vítimas, estas devem estar acordadas para liberarem a energia vital que se desprende em momentos de maior angústia de um indivíduo. Por serem criaturas propriamente das trevas, temem a luz acima de qualquer coisa e não há relatos que tenham atacado, quem quer que fosse, em plena luz do dia.
Infelizmente o texto não relata nenhuma forma concreta de como podem ser enfrentados, pois sua verdadeira força não se encontra neles mesmos, mas na fraqueza e aflição de suas vítimas que devem a todo custo tentar enfrentar seus próprios medos e encarar as trevas de frente. No texto, há algumas orações, certos encantamentos e disposições de certos itens pelo quarto da vítima que pode vir a afastá-los, mas não há relatos de algo que possa expulsá-los por completo de uma forma definitiva. Uma vez perseguido por um pigmeu, a vítima deverá se atentar a sempre dormir num ambiente iluminado e, se possível, na companhia de outras pessoas...
A imagem daquela horrenda criatura ficou gravado na minha memória e, as palavras de meu antigo professor, cravadas no meu peito. Por um momento fiquei bestificado com tudo aquilo. Saber que havia tantos seres que transitam entre nosso mundo e o outro bem além de nossa compreensão e que essas tais criaturas sempre foram de conhecimento da própria igreja, e o pior de tudo era pensar que pessoas como eu, quando relatam sobre a existência de tais seres, — até mesmo para alguma autoridade clerical — são tidos como mentalmente perturbados.
Sem deixar transparecer ao meu venerável professor meu profundo abalo emocional, agradeci a ele por sua ajuda e, ao demonstrar que estava de saída, antes de me despedir fui convencido a ficar em sua casa e lhe fazer companhia para um almoço que ele mesmo preparara. Foi um repasto simples, mas bastante saboroso. Nesse meio tempo ainda falamos bastante sobre vários outros assuntos, pois percebeu ele que a estória dos pigmeus havia relamente me abalado. Após o almoço, já um pouco mais calmo, assim que me despedi de meu antigo e sábio professor, decidi dar um passeio pelo centro da cidade e, no horário de visitas, passar pelo hospital para ver como estava meu companheiro de rápida experiência em carpintaria.
Para minha surpresa ele já não estava mais naquela instituição. Naquele momento, seu corpo estava sendo velado numa capela próxima de sua antiga casa. Ele havia falecido naquela mesma madrugada. Uma enfermeira da noite o havia encontrado já sem vida numa de suas rondas pela madrugada. Como eu não era da família, o havia conhecido a menos de um mês e não tive maiores intimidades com sua filha, achei melhor não me aproximar naquele momento tão íntimo. Depois eu levaria flores em seu túmulo. Bastante contrariado, cansado e até mesmo melancólico, decidi retornar para casa. Talvez com mais dúvidas ainda do que quando eu havia saído. Quando cheguei de frente ao meu portão de um lado da rua, minha vizinha também chegava do mercado pelo outro lado. Nos cumprimentamos e, naquele momento, pela primeira vez, eu a vi com outros olhos e percebi o quanto ela era atraente e sedutora. Decidi ser um pouco mais atrevido e me arrisquei a perguntar:
— Essas coisas são para aquele jantar que tens me prometido há tempos?
— Não necessariamente! Mas, se assim você o desejar, passaram a ser... — disse ela um tanto quanto assustada com minha atitude, mas bastante animada com a ideia.
Em poucas palavras ficou decidido entre nós que ela faria o jantar e que comeríamos na varanda de minha casa. Eu me encarregaria do vinho e das velas. Tudo correu de forma esplêndida. O tempo estava fresco, o céu limpo, e logo fomos agraciados pela magnificência de uma enorme lua cheia que abrilhantou ainda mais a beleza daquela noite. Depois de umas taças a mais de vinho, nos animamos além do que o normal e, quando dei por mim, já estávamos deitados um nos braços do outro em trajes de Eva após alguns momentos de louca euforia, onde pudemos acertar nossas diferenças. Ela, por ter exaurido suas forças numa insana cavalgada, que não parecia ter mais fim, estava ressonado em meus braços, fungando em meu pescoço um hálito doce com frescor de hortelã — até um pouco estranho para quem havia bebido quase uma garrafa de vinho. Devido aquela inebriante labuta vivida momentos antes, havia exigências em meu corpo que deveriam ser sanadas imediatamente. Com muito cuidado retirei meu braço de debaixo de sua cabeça e silenciosamente fui até o banheiro para me aliviar. Demorei um pouco mais do que o necessário e, quando estava retornando ao quarto, percebi que ela estava sentada no meio da cama em completo estado de choque, olhando para um dos cantos do quarto...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A Queda de um Anjo Caído
Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“... ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele...”.
Apocalipse 12:9
Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constante. Dentro daquele sonolento ambiente estava quente e abafado, devido as janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de início de semana. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido, vez por outra, pelo som de bolas de bilhar, o barulho do silencioso carteado e pelo som de copos sendo reabastecidos. As antigas canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fosse um fúnebre fundo musical.
Sempre nas noites de segunda-feira — único dia de folga de Salatiel, em seu novo emprego de segurança noturno — ele buscava um lugar onde pudesse beber sossegadamente, ouvir um pouco de música e tentar se socializar um pouco, de forma que pudesse observar os outros ao seu redor, e se possível não ser notado. Nem sempre dava muito certo e havia a constante necessidade de ter de trocar de lugar de tempos em tempos. Havia certa peculiaridade nesse estranho ser, que o tornava um tanto quanto diferente; de certo modo parece que ele era perseguido pelo senso de fazer justiça e por onde andava sempre se deparava com uma irrecusável oportunidade de desfazer algum desagravo a uma alma inocente. Para tentar conviver num mundo tão hostil e covarde, buscava os lugares mais discretos possíveis.
Certamente não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase ao ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente, nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas, para tentar se esconder de seus próprios problemas.
Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad eternum no ar, sempre há alguém disposto a buscar o momento de paz para consigo mesmo. Da mesma forma que todo ser vivente tem os seus segredos mais profundos, Salatiel não era de todo diferente. Contudo, qualquer um que viesse a saber quem ele realmente era, certamente não viveria para contar a quem quer que seja, e se por acaso contasse, ninguém acreditaria.
Assim que entrou naquele ambiente, sentou-se num dos cantos mais afastados do balcão — onde a luz era praticamente insuficiente — e, logo, pediu uma bebida. A jovem que viera o servir era de uma beleza ímpar. Uma mulher de altura mediana, de corpo bem feito, com belos seios rijos e um agradável perfume com leves notas no odor de almíscar. Seus belos olhos eram brilhantes e de um castanho claro como a cor do mais puro mel. Sua boca de lábios carnudos estava delineada por um batom de um tom carmim. Quando o cumprimentou, mostrou-lhe um inocente sorriso de dentes brancos como o mais puro marfim.
— Boa noite, nobre cavalheiro! Seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Meu nome é Denise, quero que saiba que é um prazer poder conhecê-lo. Estou aqui hoje para servi-lo da melhor maneira possível! O que vai beber?
— Boa noite! Traga-me por gentileza uma garrafa de conhaque. — disse de uma forma fria e até um tanto quanto ríspida. De cabeça baixa estava e assim continuou.
A bela jovem, acostumada àquele tipo de cliente, não deu muita atenção a toda aquela falta de delicadeza do belo cavalheiro que optava por se esconder naquele penumbroso canto do bar. Salatiel era um ser de uma beleza que poderia se dizer um tanto quanto... exótica. Mesmo escondido nas sombras, ainda assim era possível perceber que era um homem alto, másculo, de mãos fortes e ombros largos; cabelos negros como uma noite sem luar e uma face lisa desprovida de qualquer traço de barba ou bigode. Num primeiro momento, não foi possível ver a cor dos seus olhos nem mesmo o brilho de seu sorriso — se esse, porventura, viesse a existir —, mas tinha a leve aparência de ser um sujeito decente.
A noite tinha tudo para transcorrer tranquilamente até a chegada de um estranho valentão ávido por uma confusão. Antes de qualquer coisa, já entrou no bar falando palavras de baixo calão num tom bastante alto e muito desagradável. Ao passar próximo à mesa de bilhar, esbarrou num dos jogadores, atrapalhando a jogada, o que fez com que uma discussão se iniciasse, mas logo fora amainada quando o valentão mostrou o cabo de uma brilhante pistola. Ao sentar-se, deu um forte soco no balcão — quase derrubando a garrafa de conhaque de Salatiel, que logo previu que aquilo não terminaria bem. Quando a jovem bartender, muito prestativamente, veio lhe servir, ele logo lhe mostrou o seu lado mais abjeto após colocar a arma sobre o balcão e se dirigir a ela, em seguida, de forma bastante desrespeitosa:
– Belezoca, quero uma bebida e uma beijoca.
– Boa noite, senhor. Qual bebida poderei lhe servir? — disse ela, muito educadamente.
– Daquelas que se bebe! Sua piranha. E para sua informação, Senhor está no céu.
– Peço perdão, senhor, mas são normas da casa o tratamento respeitoso que damos a todos os nossos distintos clientes. Contudo, se me disser o seu nome, terei imenso prazer em chamá-lo da forma que preferir. Insisto em perguntar-lhe qual é o tipo de bebida que deseja? — disse ela mais uma vez, num tom bastante sereno, sem deixar se abalar pela indelicadeza do cliente.
– Quando eu lhe disser o meu nome, terá mais cuidado na forma como fala comigo. Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer coisa que você me sugerir. — respondeu ele.
Quando ela foi lhe servir, delicada e com muito bom jeito, ele a segurou pelo braço e a arrastou para próximo de si, tentando beijá-la à força. Quando ela tentou recusar, já se viu na mira da arma que ele apontava entre seus seios, com a séria intenção de atirar se fosse necessário. Como que por passe de mágica, o estranho que estava no canto mais afastado do balcão, em um simples piscar de olhos já estava ao lado do valentão e lhe segurava o ombro dizendo, muito calmamente, para que ele soltasse a moça. Um silêncio se fez por completo naquele instante, como se o próprio tempo tivesse parado. Todos ficaram bastante atônitos com o que poderia vir a acontecer naquele tranquilo bar.
Num ímpeto de selvageria, o estúpido cavalheiro que havia adentrado aquele ambiente para perturbar a paz ali existente, virou a arma na direção de Salatiel e apertou o gatilho várias vezes. O som que a arma emitiu, fez com que todos ficassem boquiabertos, inclusive o próprio valentão que não acreditava no que estava ouvindo, pois, por mais que insistisse em apertar o gatilho, a arma girava no vazio como se estivesse descarregada. Salatiel, com toda a serenidade que lhe cabia, tomou a arma do valentão como se tomasse um brinquedo de uma criança. Em seguida, o segurando pela mão direita, olhou profundamente nos olhos dele e disse algumas palavras que ninguém conseguiu entender ao certo, nem mesmo a jovem que estava próxima a eles dois. Denise também pôde ver que os olhos de Salatiel tinham mudado de um tom azulado bastante sedutor para um negro bastante sombrio. Naquele momento, ela teve a estranha impressão de ter visto dois profundos abismos no lugar dos olhos.
Em alguns poucos segundos, ao olhar nos dois abismos que se tornaram os belos olhos de Salatiel, o valentão fez uma longa viagem pelas terras onde a esperança não jaz e, acompanhado daquele estranho ser — que naquele lugar tinha outras feições bastante assustadoras —, pôde vislumbrar um lugar de dor e bastante sofrimento. Todas as estórias que ouvira sobre a terra da danação eterna se tornou real perante seus olhos. Num voo rápido pôde ver, com seus próprios olhos, centenas de milhares de pessoas em terrível padecer, clamando por piedade num incessante lamuriar. Tentou fechar os olhos, para não ver toda aquela dor, mas percebeu que, ao fazer esse gesto, uma ardente chama se acendeu logo atrás de seu globo ocular, como se sua cabeça estivesse pegando fogo. Assim que abriu os olhos novamente, a ardência desapareceu. Pôde então perceber que estava ali, justamente para ver toda aquela angústia.
Após presenciar todo aquele sofrimento que poderia levar qualquer um à loucura, sentiu seu peito se fechar num profundo pesar; mas o pior ainda estava por vir: quando viu seu falecido pai, preso ao chão com correntes incandescentes, ser estuprado por dois terríveis monstros com feições de crianças demoníacas. Essas crianças sodomizavam seu pai sem nenhuma piedade, como se aquilo fosse em exercício de uma função a ser executada de forma profissional. Mas havia prazer nos terríveis olhos daquelas duas criaturas que, para piorar ainda mais a situação, tinham um semblante que lembravam duas crianças inocentes. Seu pai, percebendo uma estranha presença próximo a ele, levantou sua cabeça e logo reconheceu a imagem do filho que estava a sua frente, ao lado de Salatiel. Num urro de tremendo remorso, gritou para o filho:
— Jeremias, me perdoe! Eu era uma pessoa doente e agora sei todo o mal que lhe causei.
Jeremias soube, então, que tipo de lugar era aquele e porque seu pai estava sendo punido daquela forma. Lembrou-se, então, de tudo o que havia sofrido nas mãos de seu pai quando sua mãe não estava em casa. Após poder contemplar o castigo dos ímpios, um triste pesar tomou conta de todo o seu ser. Essa viagem de Jeremias durou, para ele, quase meia hora, mas no bar não se passara nem cinco segundos. Quando ele piscou os olhos, logo viu que todos estavam estupefatos, imaginando o que ele faria em seguida, mas para a surpresa geral, ele baixou sua cabeça e em seguida lançou as mãos no rosto e começou a chorar como uma criança.
Ninguém no bar entendera coisa alguma. Jeremias completamente tomado pela emoção, ainda pagou pela bebida que nem mesmo chegou a tomar e, com o rosto banhado em lágrimas, implorou pelo perdão de Denise; logo em seguida saiu correndo do bar, deixando para trás seu maço de cigarros, um pacote de dinheiro e a arma que lhe fora tomada. Denise olhou para o estranho cliente que viera em seu socorro e, sem entender nada daquilo, logo lhe questionou:
— O que foi aquilo? O que o senhor disse a ele?
— Nada demais, apenas disse a ele para que endireitasse suas veredas e que tivesse um pouco mais de respeito para com o seu próximo. Acho que daqui para frente ele será um homem um pouco mais educado e bem mais cuidadoso com suas atitudes.
Salatiel, após dizer essas palavras, pegou a arma que ainda estava sobre o balcão, a descarregou em seguida, guardando, tanto a arma quanto as munições, nos bolsos da jaqueta jeans que estava usando. Voltou para seu lugar e tomou mais uma satisfatória dose de seu conhaque. O restante da noite transcorreu de forma tranquila, sem mais nenhuma perturbação. O bar fechava em dias de segunda-feira, por volta de uma hora da madrugada. Antes de encerrar o trabalho, Denise muito gentilmente agradeceu seu salvador novamente, dizendo que seria um enorme prazer recebê-lo uma vez mais ali naquele humilde ambiente.
Assim que ela fechou o bar, seguiu seu caminho direto para casa que distava somente algumas quadras de seu trabalho. Salatiel, como era de costume, sempre levava consigo o restante da garrafa que sempre sobrava, e sentava-se num banco de uma praça qualquer; ainda ficava, até quase o dia amanhecer, sentado de face virada para cima, contemplando as estrelas e se lembrando de tempos de outrora. Estava ele caminhando em passos lentos quando ouviu gritos desesperados vindos de uma rua logo abaixo de onde ele estava. Rapidamente se encaminhou na direção dos gritos e, lá chegando, logo percebeu que pela segunda vez naquela noite, Denise necessitava de sua ajuda novamente, pois dois homens tentavam encantoá-la para um local escuro, possivelmente com a intenção de abusar de sua inocência.
Mais uma vez, com a calma de um pastor que tange suas ovelhas, Salatiel se aproximou dos dois agressores e parece que repetiu o mesmo que havia feito no bar, pois assim que tocou nos agressores, em alguns segundos os dois saíram correndo aos prantos, clamando que Deus tivesse piedade de suas almas. Denise, uma vez mais, achou tudo aquilo bastante estranho, mas, mesmo assim, o agradeceu novamente e pediu para que ele a acompanhasse até em casa. Sem poder dizer não, para uma jovem que se parecia por demais indefesa, assim ele o fez. Ao chegarem ao portão de sua casa, quando Denise já estava prestes a se despedir, um agradável rostinho apareceu na janela. E para surpresa ainda maior daquela batalhadora garçonete — que criava sozinha, com o parco salário que ganhava, uma filha adotiva que padecia de leucemia —, ouviu quando a menina disse que o convidasse para entrar.
Ela sorriu e pediu que ele entrasse somente um pouquinho, para que a menina não se contrariasse. Salatiel jogou, a garrafa que trazia nas mãos, na lixeira; e seguiu Denise. Assim que entraram na casa, ele logo pôde perceber que havia uma menina de uns nove anos, sentada numa cadeira de rodas. Tinha a pele pálida como a neve — a ponto de deixar visíveis quase todas as suas veias. Na cabeça nua, não tinha nenhum fio de cabelo sequer. Era tal magra, que dava a leve sensação de que não duraria muito tempo. Contudo, para surpresa tanto de sua mãe, bem como para o próprio Salatiel, a menina se direcionou a ele como se o conhecesse há muito tempo.
— Boa noite, Salatiel. Como tem passado? Não reconhece mais um de seus irmãos quando vê um? Pelo que vejo tem se adaptado bem à sua nova vida...
Para não restar nenhuma dúvida, Salatiel respondeu na língua dos anjos.
— Boa noite, Galalel. Agora se disfarça de menininhas doentes para andar entre os seres humanos? Ele já foi mais criativo para nos enviar entre os seus preferidos.
— Não há preferidos para Ele! Somente aqueles que o obedecem e os que, por escolha própria, são rebeldes. Estou aqui por uma causa nobre. Denise é muito preciosa para ele e precisa ser testada em sua fé. Respondeu Galalel, também na língua dos anjos...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Reflexos do Mal
— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.
— Friedrich Nietzsche
— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu. Desde então, de seis em seis meses, nos conta essa mesma história absurda, de uma forma enfática e repetitiva. Quando será que o senhor irá nos confessar o que realmente aconteceu? Por que assassinou sua esposa e seus filhos? O senhor precisa realmente cooperar conosco; só assim poderemos tentar ajudá-lo.
O paciente baixou a cabeça e começou a chorar copiosamente, entrando numa terrível crise de histeria. Os enfermeiros foram chamados e conseguiram contê-lo, aplicando-lhe um forte calmante, que o fez ficar inerte na cadeira, mas ainda assim com os olhos abertos e vidrados em alguma direção a esmo, como se avidamente quisesse enxergar algo que ninguém mais pudesse ver.
Assim que aquele paciente se acalmou e o ambiente ficou mais tranquilo, o renomado psiquiatra Doutor Eugênio de Abreu, que conduzia aquela sessão e que também era o mais velho dos três médicos ali presentes, disse aos outros dois profissionais que estavam ao seu lado:
— Esse paciente que está à nossa frente é um espécime raro nesta instituição. Na visão de um leigo, que não saiba de seus crimes, ele pode parecer uma pessoa completamente normal. Há quase dez anos tenho acompanhado seu tratamento e, durante todo esse tempo, ele tem nos contado a mesma história sem nunca, nem mesmo sob o forte efeito de drogas pesadas — ou outros tipos de tratamentos nada ortodoxos —, ter mudado uma única vírgula do que sempre tem sido contado ao longo de todos esses anos. Sua inverossímil história parece o enredo de um conto de terror e mistério. Segundo ele, um antigo espelho que ele teria herdado de sua avó seria o responsável por toda a tragédia que assola sua família há muitos anos...
... Seu nome é Wilson Bernardes — mesmo nome do avô — ele era uma espécie de artista fracassado que ganhava a vida como professor de artes e, vez por outra, conseguia vender uma de suas pinturas por uma ninharia qualquer. Era casado com uma promissora médica — de nascimento nobre, filha de família rica — que abandonara a fortuna e carreira para acompanhar o marido, cuidar da casa e dos filhos que os dois logo tiveram no início do casamento.
Segundo a sogra — dona de uma renomada galeria de arte —, seu genro sempre havia demonstrado um comportamento estranho e arredio, com certo senso de inferioridade. O relacionamento dele com sua filha foi o típico casamento entre “a princesa e o plebeu”, fato esse que sempre gerou discórdia entre eles, e que, a todo custo, tentava se manter distante da família dela.
Professor Wilson é oriundo de um núcleo familiar onde a tragédia parece fazer parte da própria família. Ele mesmo era órfão desde os cinco anos, quando perdera os pais num terrível acidente de carro, onde somente ele conseguira sobreviver — as causas do acidente nunca foram totalmente esclarecidas —. Até os 18 anos, fora criado por sua avó materna numa pequena cidade do interior — uma bondosa e sofrida mulher que já havia criado seu filho sozinha, após a trágica morte do marido, que tirara a própria vida em circunstâncias misteriosas —.
O avô do nosso paciente, o senhor Wilson Bernardes, era motorista de um ônibus escolar. Um profissional competente e muito querido por todos, mas que, numa triste manhã de sexta-feira, sem nenhum motivo aparente, havia jogado o veículo que dirigia numa ribanceira, matando, além dele mesmo, mais 17 crianças, deixando outras tantas feridas — algumas das crianças que sobreviveram ao acidente disseram, em depoimento, que o sempre meigo e atencioso tio Wilson estava com um sorriso bastante estranho e se comportava de uma forma muito esquisita naquele dia —.
Assim que terminou os estudos escolares, o jovem Wilson veio estudar na capital, onde se formaria em História da Arte, tornando-se posteriormente professor de uma pequena escola de bairro. Ainda na faculdade, conheceria sua futura esposa. Clarisse estava cursando o penúltimo ano de medicina quando ele iniciou seus estudos no curso de Licenciatura em História da Arte. Em menos de cinco anos, oficializariam um relacionamento bastante conturbado devido a inúmeras diferenças que havia entre eles. Ele, que era bastante solitário desde que perdera sua avó, teria uma família novamente. Ela, por sua vez, estava selando seu trágico destino.
Quando se casaram, a esposa tinha certeza da vida simples e humilde que o futuro esposo poderia lhe proporcionar e nunca reclamara por isso, até o dia em que viria receber uma pequena fortuna de herança do pai. Dinheiro esse que era visto pelo marido como uma profunda ofensa a seus nobres princípios de homem humilde e trabalhador. Com a herança recebida pela morte do pai e a constante companhia da mãe, a esposa retomou alguns costumes e contatos da época de solteira, quando ainda vivia em uma vida de opulência e riqueza na casa dos pais. Esse fato causou a inevitável separação dos dois, devido ao sentimento de profunda inferioridade do marido.
Uma vez separado de sua esposa e longe da companhia de seus filhos, decidira tirar umas merecidas férias e retornar à sua cidade natal. Pois, desde que se mudara para a capital, jamais havia retornado à sua antiga cidade. Sua avó, que terminara seus dias no mais completo abandono numa clínica de repouso para idosos, havia deixado a ele — seu único herdeiro — sua casa e todos os seus pertences — essa casa estava fechada há muitos anos —. Professor Wilson, que trabalhava na mesma escola há 15 anos, solicitara uma licença do trabalho, alegando, além das questões pessoais — que todos já sabiam —, que também gostaria de um tempo para voltar a pintar de forma profissional ou, quem sabe, até mesmo poder escrever um livro sobre a história de sua família.
Após esclarecer seus planos à ex-esposa — com quem ainda mantinha um relacionamento de respeito e admiração, por ser ela a mãe de seus filhos —, despedira-se de seus filhos de forma bastante carinhosa e voltara para sua antiga casa dos tempos de infância, onde ficaria quase dois meses sem dar nenhuma notícia. Sua cidade natal ficava a mais de 150 km distante da capital.
Certa noite, já em alta madrugada, o vulto de uma pessoa parecida com o professor Wilson fora visto por um dos vizinhos — que chegava de uma noitada — entrando sorrateiramente em sua antiga casa, onde ele vivera por mais de 10 anos com a ex-esposa e seus dois filhos. Nenhum deles jamais seria visto novamente. A mãe de Clarisse — que estava em viagem à Europa —, ao perceber que Clarisse não respondia às suas ligações, retornou imediatamente de sua viagem e, assim que percebeu que sua filha e seus netos haviam desaparecido, logo teve a plena certeza de que o ex-genro era o responsável pelo sumiço de todos eles.
A polícia foi acionada imediatamente. Um pedido de prisão preventiva fora expedido contra o professor Wilson pelo desaparecimento de sua ex-esposa e também de seus filhos. Ele fora encontrado no porão da casa que herdara da avó, pintando um autorretrato, inocente a tudo que havia acontecido. Ao saber do desaparecimento de sua família, entrara em choque. Uma antiga conhecida da família, que ele havia contratado como uma espécie de governanta, dissera que ele não havia saído de casa na noite do assassinato.
Tanto a casa da avó quanto a casa onde eles viviam foram periciadas até pelo avesso em busca de evidências que pudessem comprovar um triplo assassinato. Paredes foram minuciosamente verificadas, os dois quintais foram revirados, vários testemunhos foram colhidos, porém nenhuma prova fora encontrada. De certo modo, o crime parece ter sido perfeito.
Wilson — que já não era mais professor — ficou preso até o julgamento, mas este douto e persuasivo ex-professor, contando com a competência de um bom advogado e a anuência da Lei, fora solto após o julgamento por ter sido considerado inocente, pois, segundo as negligentes leis vigentes desse país, “se não há corpo, não há crime”...
Depois de todos esses episódios que vocês ouviram, esse paciente à nossa frente começou a dar mostras de um comportamento que variava entre o lúcido e o mais completo delírio. Envolveu-se em algumas confusões em bares e boates, muitas das vezes sendo expulso desses locais por quebrar os espelhos que encontrava pela frente. De alguma forma, criou uma espécie de total aversão pelo próprio reflexo.
Segundo sua governanta, alguns dias após o seu julgamento, ele tivera algum tipo de surto psicótico sobre um determinado espelho que havia em seu porão. Fez várias pesquisas sobre a origem do antigo objeto que pertencera ao seu avô, comprou diversos livros sobre ocultismo e chegava a ficar dias inteiros trancado no porão de sua casa, sussurrando palavras estranhas que ela não conseguia compreender direito, pois eram frases sem nexo algum. Falava sobre demônios, espelhos, portais e coisas desse tipo...
Depois de quase dois anos desde que tudo ocorrera, parece que as coisas estavam voltando ao normal e Wilson demonstrava que se tornaria uma pessoa lúcida novamente, até que, certa noite, em uma hora já bastante avançada, após a governanta ouvir estranhos barulhos de uma terrível luta no porão, além de vozes lamentosas e gritos de profundo desespero, ela, temendo pela integridade do seu patrão, que ela ajudara a criar desde criança, desceu até aquele ambiente onde lhe era proibido adentrar e pôde conferir com seus próprios olhos que ele já não estava mais lá. O ambiente estava tranquilo e silencioso. Era estranho, pois seu carro estava na garagem e ela não o ouvira sair pela porta da frente.
De alguma forma, Wilson havia chegado à casa de sua ex-sogra e tentou assassiná-la. A pobre mulher — que ainda chorava pela perda da filha e dos netos — conseguiu se salvar das garras do alucinado agressor, gritando por socorro aos seus vizinhos, que já estavam previamente avisados do comportamento psicótico e agressivo de seu ex-genro. Wilson foi preso tentando arrombar a casa da ex-sogra, de posse de uma afiada faca. Naquele momento, seu estado parecia ser de total embriaguez, mas parecia haver algo mais, pois, mesmo com a presença da polícia, mantinha um comportamento agressivo e alienado, ficando o tempo todo murmurando palavras sem sentido algum. Sua prisão em flagrante por tentativa de assassinato fora revertida em internação em uma clínica psiquiátrica de segurança máxima.
De alguma forma, ele conseguira escapar. Mesmo vestindo trajes de um interno, descalço, sem dinheiro algum e sem nenhum documento, conseguira retornar até sua antiga casa. A governanta fora encontrada aos prantos do outro lado da rua, amparada por vizinhos que também chamaram a polícia e os bombeiros. Segundo ela, ao ouvir barulhos estranhos no porão, desceu rapidamente para ver o que estava havendo, temendo ser um invasor. Encontrou a porta do porão trancada por dentro e logo sentiu cheiro de fumaça e o calor do fogo por debaixo da porta. Os bombeiros agiram rápido e conseguiram controlar as chamas e salvar a casa. Wilson, com quase 70% do corpo queimado, fora preso mais uma vez. Ficou mais de seis meses se recuperando das queimaduras e, logo após se restabelecer, foi enviado até nós. Desde então, tentamos mantê-lo longe de espelhos ou qualquer objeto ou superfície que possa refletir sua imagem.
Acredito que seja de total conhecimento de vocês, jovens e devotados calouros em psiquiatria, que todo e qualquer indivíduo, com qualquer tipo de distúrbio, por menor que seja, uma vez internado numa instituição como essa, muito dificilmente conseguirá sair para o convívio social novamente. Principalmente em se tratando de casos específicos, como esse, em que o paciente transita em paralelo entre universos de fantasia e realidade. Como podem saber, sou um profissional com mais de quarenta anos de carreira e já vi muitas coisas estranhas em todos esses anos de psiquiatria. Tenho acompanhado o caso do paciente Wilson desde que ele chegou aqui nesta clínica. Em todos esses anos, nunca havia me deparado com um caso tão peculiar como esse, onde o paciente jamais desiste de contar a mesma história. De alguma forma, ele realmente acredita em tudo o que diz, como se toda essa insanidade fosse realmente verdade, e não apenas um mero fruto de sua fértil imaginação...
Um dos jovens calouros, que atentamente ouvia todo aquele relato e que tentava anotar tudo o que o experiente médico dizia, ousou perguntar:
— Doutor Eugênio, em algum momento, o senhor, com toda a sua experiência, cogitou a possibilidade de que ele talvez estivesse falando a verdade? Sobre o espelho amaldiçoado em seu porão? O senhor não nos disse muitas coisas sobre esse espelho.
Aquele sábio e experimentado psiquiatra deu um longo suspiro e, olhando para aquele jovem e inexperiente médico com certa indulgência, disse num tom paternal:
— Cuidado, meu jovem rapaz... Aqui, entre essas paredes, tem um lugar reservado a todos aqueles que contam histórias fantásticas e também para quem acredita nelas...
— O tal espelho realmente existe, mas é somente uma peça antiga, talvez do século XVIII ou XIX. Depois que nosso paciente foi definitivamente considerado incapaz de retornar à sociedade, sua casa, com todos os pertences que restaram após o incêndio, foi leiloada pelo Estado. Eu mesmo arrematei o tal espelho por mera curiosidade, devido a todas as histórias que o acompanham. Era uma das peças da coleção particular do avô de nosso paciente. Senhor Wilson Bernardes era um aficionado por coisas antigas e colecionava todo tipo de quinquilharia. Era um verdadeiro saudosista dos tempos idos, que, em sua estranha coleção de velharias, sempre optava por objetos que tivessem algum tipo de relato macabro em sua história...
Saindo daquela sala especial onde os internos eram examinados a cada seis meses, Doutor Eugênio convidou os outros dois médicos a acompanhá-lo até seu consultório, onde o espelho se encontrava. Naquela mesma tarde, Doutor Eugênio de Abreu fora brutalmente assassinado dentro de seu próprio consultório; um dos médicos que o acompanhava está em coma profundo após ter o seu crânio fraturado e os olhos perfurados com um bisturi. O outro médico encontra-se foragido...
Revisado por Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Coelhinha
Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O maior feito de Jesus não foi ressuscitar os mortos, mas a capacidade de ressuscitar os vivos.”
— Padre Fábio de Melo
Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda, depois um longo suspiro, o que causou certo alvoroço dentre os médicos que o acompanhavam. Na segunda semana já havia sido desentubado e começava a se alimentar com comida sólida. E depois de um mês de muita fisioterapia já conseguia ir ao banheiro com suas próprias pernas, mas ainda estava na UTI. Sentia que estava se recuperando bem, mas o que lhe causava certo desconforto era o fato de, mesmo após ter saído do coma, ainda não ter sido visitado pela sua família nem uma única vez. Apenas sua irmã mais nova, vez por outra, colocava a face pela vidraça da sala e lhe acenava de forma bastante afetuosa.
Naquela tarde, dois meses após ter acordado de um coma profundo, sua médica plantonista, Doutora Aline, lhe comunicara que, na manhã seguinte, após uma bateria de exames, dependendo do resultado, ele poderia ser transferido para um quarto comum, e assim poderia receber visitas. Ele ficou bastante eufórico com a notícia. As horas passaram se arrastando naquela noite; mesmo depois de um longo tempo, que mais pareceu uma eternidade, logo as primeiras luzes do dia começaram a iluminar o quarto onde estava, e enfim a manhã chegou. Seus exames atestavam-no para uma progressão para outra ala e, se tudo corresse bem, naquela mesma semana talvez ele até recebesse alta. Assim que foi levado para o quarto, sua irmã o aguardava ansiosa. De alguma forma parecia que ela estava bastante estranha, parecendo mais velha e um pouco mais magra. Fato que ele de forma alguma quisera comentar.
— Bom dia, maninho querido. Como está se sentindo? Que baita susto você nos deu? — disse ela de forma bastante calorosa, mas com certo tremor na voz, como se houvesse algo de errado.
— Bom dia, Marianne! Estou me sentindo um novo homem. Por falar em nós... Onde está todo mundo? Por que Denise não veio me ver todo esse tempo? Onde estão as meninas? Minha mãe está doente? Parece que ninguém tem mais nenhuma consideração por mim.
A médica que o estava acompanhando até o quarto solicitou que, naquele momento, ele descansasse, e que depois tudo lhe seria devidamente esclarecido. Daniel não era o tipo de pessoa dotada de muita paciência e logo quis saber do que se tratava. O porquê de sua família não estar ali visitando-o? Afinal, ele tinha acabado de sair do coma. Apesar de nem ele mesmo se lembrar do motivo de estar internado naquele hospital, muito menos em estado de coma. Doutora Aline, com muita paciência, disse que era melhor que sua irmã, que o havia acompanhado durante todo aquele tempo, lhe deixasse a par de toda a situação.
Assim que Daniel foi devidamente acomodado, sua médica recomendou cautela quanto ao excesso de emoções, mas também disse que já era hora de lhe contar toda a verdade. Disse que retornaria à tarde para verificar sua evolução, mas que por hora o deixaria aos cuidados da irmã. Saiu e fechou a porta do quarto atrás de si, deixando os dois irmãos a sós no quarto. Marianne, quando viu a ansiedade estampada na face do irmão, não conseguiu manter o controle sobre si mesma e logo sua face estava banhada em lágrimas. Daniel de alguma forma compreendeu o que aquelas lágrimas diziam. Com o senso de irmão mais velho que nunca perdera, mesmo com o passar dos anos, abriu os braços e chamou a irmã para junto de si.
Marianne ainda chorou por um longo tempo. Parecia que havia uma enorme carga de tristeza e sofrimento sobre seus ombros. O tipo de pesar que alguém segura o quanto pode, mas quando começa a descarregar parece que não acaba mais. Assim que ela conseguiu recuperar o controle de suas emoções, pediu-lhe que ele permitisse que ela fosse até o banheiro lavar o seu rosto. Após se refazer, ela puxou uma cadeira que estava próxima e, ao sentar-se ao seu lado, rogou-lhe que ele contasse o que se lembrava de antes do acidente.
— Que acidente? — perguntou ele.
Nesse momento percebeu que era mais sério do que ela podia imaginar. E decidiu que deveria contar tudo de uma única vez. Se ele conseguiu sobreviver a um acidente onde mais de 40% dos ossos de seu corpo haviam se esfacelado, certamente ouvir a triste verdade sobre sua nova vida não poderia matá-lo. Afinal, até mesmo sua própria médica havia lhe dado carta branca. Sem mais delongas, Marianne disse-lhe que narraria tudo que era necessário para lhe pôr a par de sua situação, mas que ele deveria lhe prometer que não a interromperia até que ela terminasse de contar tudo o que ocorrera. Assim que ele concordou, ela principiou.
— ...Era feriado de Semana Santa, e como acontecia todos os anos, desde que se casara você sempre viajava para a casa dos pais de sua esposa a fim de passar a Páscoa com a família dela. Você justificava para mamãe que, uma vez que nós, como cristãos, tínhamos o Natal como um dia muito especial e que sempre passávamos juntos. Sendo assim, a família de sua esposa, como era de origem judia, a Páscoa era de suma importância para eles também. Por isso, para manter uma política de paz em seu lar, vocês todos sempre viajavam para a casa deles nessa época do ano. Acontece que naquela fatídica tarde de quinta-feira — véspera de Sexta-feira da Paixão — ninguém esperava que um motorista completamente embriagado estaria testando os limites de velocidade de sua nova pick-up para demonstrar para sua amante — uma bela jovem, ainda na flor da idade, que tinha idade para ser sua neta, a quem ele chamava de doce coelhinha, segundo a mãe dela em testemunho à polícia — o quanto ele tinha a capacidade de desafiar a morte em todos os sentidos possíveis.
Em certa altura da estrada, seu carro se chocara de frente com a pick-up desse inconsequente sujeito, que naquele momento dirigia na contramão a mais de 200 km/h, segundo a perícia. Pedaços do corpo da jovem, que estava com ele na pick-up sem usar o cinto de segurança, foram retirados daquilo que sobrou do seu carro e de um longo trajeto da estrada; o enterro dela teve que ser com caixão lacrado, para desespero de sua mãe. Denise e as crianças tiveram morte instantânea, sem sofrimento algum, segundo os peritos. De forma milagrosa, na hora da batida, você também estava sem cinto e, tal como a jovem “coelhinha”, também fora lançado para fora do carro, mas passando por cima da pick-up e caindo numa plantação de milho ao lado da estrada. O impacto quebrara grande parte dos ossos de seu corpo, mas de uma forma inexplicável você conseguira sobreviver.
Quando o socorro chegou, o homem que dirigia a pick-up já havia se evadido do local sem prestar nenhum tipo de socorro. Ele mesmo, que fora o grande causador daquela inexplicável tragédia, não tivera nenhum ferimento grave, apenas alguns leves arranhões. Os socorristas, que não tardaram a chegar ao local do acidente — acionados por outro motorista que passava pelo local um pouco depois que tudo ocorrera — ali mesmo lhe prestaram os primeiros socorros e logo conseguiram estabilizá-lo, salvando-lhe a vida. É certo que seus ferimentos foram tão graves que o deixaram em estado de coma profundo.
O motorista da pick-up logo fora localizado e preso pela polícia. Mas conseguira, através de pessoas influentes, aguardar o decorrer do processo em liberdade. Seu julgamento aconteceu um ano depois do acidente. Devido aos seus inúmeros contatos com pessoas importantes e pela sua enorme fortuna, fora-lhe aplicada apenas uma pena bastante branda, considerado o tamanho da tragédia que ele causara. Foi condenado a pagar uma fiança revertida em cestas básicas — que, até onde se sabe, nunca foram pagas — e a prestar alguns serviços comunitários relacionados ao trânsito — serviços esses também que jamais foram prestados.
Minha mãe, que já não estava muito bem desde que papai se fora, ao saber da morte de sua estimada nora e de seus adorados netos, além de saber que seu filho estava em estado de coma profundo num hospital, sem saber se algum dia conseguiria se recuperar, assim que viu o motorista da pick-up dirigindo livremente pelas ruas novamente, não suportou tanto descaso por parte das autoridades e, num ataque de desespero, atentou contra a própria vida. Amanhã faz dois anos que mamãe se matou...
Nesse momento Marianne abaixou sua cabeça e iniciou um lamentoso choro novamente. Daniel, que naquele momento estava de pé logo à sua frente, segurou sua face com ambas as mãos e disse-lhe com toda convicção possível:
— Esse tipo de homem se acha acima das leis que eles mesmos criam para serem aplicadas em outros abaixo deles. Contudo, se esquecem de que existem outras Leis que regem as engrenagens desse mundo conhecido por nós e de outro muito além de nosso entendimento. O Universo foi criado em plena perfeição e as Leis que assim o regem são exatas e nunca falham. Durante nossa insignificante passagem por esta terra, o tempo todo estamos adquirindo créditos e dívidas, independentemente de quem somos ou com demasiada soberbia pensamos ser; mais cedo ou mais tarde, teremos que acertar as contas com o Infinito. Certamente minha família e essa infeliz jovem não foram os primeiros a sofrerem esse tipo de atrocidade nas mãos de pessoas como ele, mas saiba você que, por parte dele, ninguém mais sofrerá esse tipo de injustiça. É uma promessa que lhe faço. Esqueça tudo isso e fique despreocupada, pois essa última dívida que ele contraiu, lhe será cobrada muito em breve. O dinheiro que ele acha que tem e sua honrosa posição social conseguiram livrá-lo da justiça, mas não conseguirá de forma alguma protegê-lo de mim. Tem quanto tempo que isso aconteceu, Marianne? Desde quando estou aqui nesse hospital?
— Três anos exatos. Afinal, domingo próximo é Páscoa novamente — disse ela.
Daniel ficou em absoluto silêncio e nada mais quis saber além do nome do homem que causara a destruição de toda a sua família. Abraçou sua irmã uma vez mais e logo pediu a ela que saísse, pois precisava descansar. Marianne, sentindo-se mais aliviada por ter conseguido contar ao irmão tudo o que lhe ocorrera, dirigiu-se para sua casa com o senso de dever cumprido. A pedido de seu irmão, lhe repassara tudo que ela sabia sobre o homem que causara aquele terrível acidente: quem ele era; onde vivia; e o que fazia da vida — ou seja, nada. Pois era um homem bastante rico, que nunca trabalhara, uma vez que sua enorme riqueza era proveniente de heranças que havia recebido tanto por parte de pai bem como por parte da mãe. Era o tipo de pessoa que se achava acima de tudo e de todos, imaginando que, com o dinheiro que possuía, poderia comprar qualquer coisa, até mesmo a dignidade de alguns e o silêncio de outros.
Na manhã seguinte — Sexta-feira da Paixão — Marianne soube que seu irmão havia se evadido de seu quarto e que, na fuga, havia levado consigo o carro de um dos médicos do hospital. Um veículo esportivo, bastante rápido e muito potente. A polícia estava em seu encalço desde então, mas ainda sem saber de seu paradeiro, tanto por ser ele um paciente ainda em tratamento, bem como pelo roubo do veículo de luxo.
Na manhã de domingo, o que sobrara de um veículo bastante caro fora encontrado caído numa ribanceira, com partes de um corpo presas no para-choque dianteiro. Os pés da vítima pareciam que haviam sido consumidos pela constante abrasão no asfalto; segundo a perícia, o corpo havia sido arrastado pelo asfalto em altíssima velocidade. Havia um leve rastro de sangue, carne e ossos por um raio de quase três quilômetros até o local onde o carro fora encontrado. Não havia sinais de quem havia dirigido o veículo. No banco do motorista havia apenas um inocente coelho de pelúcia amarrado ao volante, com um bilhete escrito: Feliz Páscoa...
Revisado por Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
O Velório que Nunca Acaba
Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era, sem dúvida, o melhor velório a que eu já tinha ido, não pela comida, mesmo que o bolo de ossos moídos fosse bastante crocante e os brigadeiros tivessem aquele sabor único de infância traumática. Não, o encanto, ou melhor, o diabo estava nos detalhes: ninguém ali precisava se preocupar em morrer de novo, mas convenhamos que é um alívio danado quando já se está morto. O salão principal parecia ter sido decorado por um coveiro muito entediado. Balões inflados com pulmões humanos balançavam no teto, emitindo estalos úmidos sempre que se tocavam. As velas, dispostas em fileiras, não derretiam em cera, mas em camadas de pele liquefeita que pingavam sobre toalhas bordadas com crucifixos invertidos. A cada gota que caía, os convidados riam como se presenciassem uma situação muito engraçada.
No centro da sala erguia-se o bolo: três andares de ossos moídos envernizados em glacê amarelado, de onde brotavam velas azuladas. Quando o primeiro pedaço foi cortado, não saiu recheio, mas um murmúrio coletivo, vozes dos mortos pedindo que ninguém os comesse. Os convidados, é claro, devoraram as fatias como crianças famintas. Um detalhe digno de nota: o cheiro era insuportável, mas ninguém parecia se importar. Pelo contrário, havia quem respirasse fundo, como se inalasse um perfume francês. Na vitrola tocava risadas de crianças desaparecidas, era uma trilha sonora que deixava qualquer chá de bebê no chinelo. De tempos em tempos, um dos balões estourava, cuspindo um sopro gelado de ar que, suspeito eu, fosse o último de alguém que não fez nenhuma falta.
Eu me lembrava de ter chegado, mas não lembrava de ter saído em algum momento, aliás, ninguém ali lembrava, éramos todos convidados, e o castelo não permitia que a festa acabasse. No auge da celebração, quando alguém abria a caixa com o coração pulsante, eu ria, ria porque não sabia de quem era aquele coração, mas tinha certeza de que não era o meu, ou talvez fosse, e o castelo apenas o tivesse me emprestado por mais uma rodada. A reunião prosseguiu com brindes em taças cheias de um vinho espesso demais para ser vinho. Um bruxo ao meu lado, com humor mórbido, cochichou:
— É da safra de 1897, o ano em que Drácula foi publicado, dizem que fermentaram com mais do que uvas.
Ri, nervosa, até perceber que algo se movia dentro do líquido. A cada brinde, a cada corte de bolo, eu pensava: “Este é o melhor velório de todos os tempos.” E era mesmo. Onde mais se poderia estar morto, estar vivo, e ainda assim se sentir um convidado de honra?
Foi então que o defunto da noite entrou, ele surgiu do nada, como se tivesse sido cuspido pelo próprio chão do salão. Vestia um terno antiquado, gasto e ligeiramente úmido, como se ainda carregasse a terra da cova em seus ombros. O rosto era pálido, com olheiras bem fundas. Um sorriso exagerado, costurado nos cantos por pontos malfeitos, se abria de orelha a orelha, revelando dentes amarelados e um hálito de formol. Os olhos muito escuros piscavam a todo momento, às vezes vivos, às vezes mortos, refletindo o brilho azulado das velas de pele liquefeita. No peito, uma flor murcha brotava de um alfinete, e a cada movimento seu, caíam pequenos fragmentos de terra, como se a cova o chamasse de volta, mas ele, teimoso, preferisse ficar para mais uma apresentação.
— Bem-vindos ao meu velório, queridos! Boa noite, plateia, ou seria boa morte? Enfim, tanto faz, não é, aqui ninguém sai vivo mesmo.
A plateia ria.
— Deixem-me apresentar, sou o defunto da festa, literalmente. E devo dizer que nunca estive tão animado. Quem diria que morrer era o segredo para finalmente dar uma festa que preste? Vamos aos destaques do cardápio? — Ele falava e apontava para a grande mesa. — O bolo foi feito com ossos moídos, muito crocante, nutritivo e cheio de cálcio. Cada fatia vem com um brinde exclusivo, o sussurro de um morto aleatório. É tipo o brinde do kinder ovo, mas com mais trauma. Já os brigadeiros...ah, esses são especiais. Você morde e, ou sai um verme, ou uma lembrança horrível da sua infância. Eu experimentei três e agora sei que minha mãe realmente preferia meu irmão.
A plateia gargalhava com cada comentário que ele fazia sobre o cardápio.
— A lembrancinha da noite? Uma caixa com um coração ainda pulsando, mas relaxem, ninguém sabe de quem é, mas pode ser seu, pode ser meu. A decoração também merece aplausos, vocês não acham? Velas que derretem como pele liquefeita, e não em cera. Sustentável? Sim, vegano? Nem tanto, mas quem liga, não é?
Mais gargalhadas histéricas.
— Balões feitos de pulmões inflados, se estourarem perto de você, considere-se beijado pelo além. E a música, claro, vem de uma vitrola amaldiçoada que em vez de melodias, toca risadas de crianças desaparecidas, muito mais autêntico que sertanejo universitário, vocês concordam?
E mais gargalhadas histéricas.
— Agora, o ponto alto, temos escritores fantasmas que escrevem melhor mortos do que quando estavam vivos, vampiros bêbados de sangue ralo batizado com água benta, sim, isso mesmo que vocês ouviram, porque sangue fresco já virou mainstream e leitores que entraram no castelo e nunca mais saíram. Ah, e eu, claro, seu anfitrião preferido ou não, que não pode ser expulso, afinal, eu fui enterrado aqui.
A plateia morria de rir.
— E o Castelo, esse grande sacana, adora brincar de mestre de cerimônias, ele tranca as portas, sopra brisas geladas e sempre me lembra: “Mais um ano está chegando, prepare o ritual.” E eu respondo: “Pode vir, Castelo, só não esqueça do open bar.” E o mais incrível é que a festa nunca acaba. A cada vez que você pensa que terminou, alguém novo chega e tudo recomeça. É como um Natal em família, só que divertido.
Mais e mais risadas.
— Por isso eu digo, com toda a certeza de um cadáver satisfeito: Este é o melhor velório que já existiu, porque, afinal, não se pode matar o que já está morto e agora, vamos brindar de novo. — gritou o defunto. — Quem tiver cálice, levante, quem não tiver, pode usar o crânio do vizinho. Moléstia eterna!
A multidão explodiu em aplausos e risadas histéricas, outros levantaram seus cálices e seus crânios. Então, como sempre, a festa recomeçou. A primeira convidada entrou, perplexa, reparando nas decorações bizarras, e todos aplaudiram como se fosse a atração principal e eu, com meu cálice de vinho que tinha gosto de sangue ralo, levantei-me para brindar:
— Um brinde à eternidade da festa, porque não se pode matar o que já está morto.
Todos riram de forma histérica, insana, até que o bolo voltasse a ser cortado e os murmúrios dos mortos se repetissem, como no primeiro dia, pois era, afinal, o melhor velório que nunca terminou.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Peregrinus
No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“De onde você vem?”, perguntou o SENHOR. Satanás respondeu: “Estive rodeando a terra, e observando o que nela acontece”. — Jó 2:2
No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Depois de mais uma longa noite de bebedeira, já em alta madrugada, naquela hora fria e silenciosa que antecede os primeiros sinais da aurora, tendo como única companhia uma lua cheia plena e brilhante, mas também já se despedindo no poente, Ewerton retornava para casa – ou pelo menos o pardieiro que ele naquele momento se tornara sua casa – para mais um dia de ressaca, desespero e muitas lamentações.
Caminhando em passos trôpegos, ziguezagueando pela rua, tentando a todo custo se manter de pé devido ao excesso de bebida e pela falta de alimento já de muitos dias, mesmo já não confiando mais na exatidão de seus sentidos que vinham lhe pregando peças nos últimos tempos, pôde ver ao longe que havia alguém sentado nos degraus da porta da igreja. Templo esse que, há não muito tempo atrás, ele mesmo um dia, fora ministro de celebrações e por vezes incontáveis foi arauto das mensagens das Boas-Novas. Ao se aproximar, logo pôde perceber que a pessoa que estava ali em completo abandono naquelas horas tardias era uma mulher, e pela posição que estava sentada com o rosto prostrado entre os joelhos, demonstrava estar num terrível desconsolo.
Ouvindo que ela suspirava ais de tristeza, e pela solidão noturna em que ela ali se encontrava, entendeu muito rapidamente com o restante de cavalheirismo e dignidade que ainda lhe restara, que deveria prestar-lhe algum tipo de auxílio, com delicadeza e parcimônia aproximou-se a ela, e disse-lhe de modo cortês:
– Boa noite, minha senhora. Há algo em que eu lhe possa ser útil?
Com movimentos leves de quem estava há muito tempo na mesma posição, ela sentou de forma ereta e com a face completamente banhada em lágrimas, e com certa dificuldade tentou lhe responder com palavras entrecortadas entre soluços e suspiros de dor:
– Boa noite, meu amigo. Quem dera, se alguém neste mundo cruel pudesse fazer algo em meu socorro. Aquilo que perdi jamais me será restituído e o que me foi tomado não pode ser devolvido.
Ao vê-la falando dessa forma seu coração dilacerado pela dor, se encheu de ternura. Não somente pelas palavras que exemplificavam sua própria situação naquele momento, mas pela forma como ela soube se expressar. De certa forma estava ele muito condoído com aquela bela criatura ali naquele estado de completo desalento. Mesmo com a visão bastante embaçada pela bebida e pela ausência de claridade no local onde se encontravam, ainda assim pôde perceber que era uma bela mulher, ainda transpirando o frescor da juventude, com uma aparência bastante agradável aos olhos e exalando um perfume bastante sedutor. De forma muito gentil, pediu-lhe autorização para que pudesse se sentar ao seu lado. Vênia que de imediato lhe foi outorgada. Com uma estranha expressão ela disse:
– Que pobre e infeliz criatura sou eu para impedir que alguém se sente na porta da casa daquele que é o Pai de todas as criaturas? Sente-se e esteja à vontade.
Ewerton, que naquele momento não sabia discernir o certo do incerto, mesmo não entendendo o porquê de ela ter dito aquelas palavras, com certa dificuldade sentou-se ele ao seu lado, e logo almejou saber o motivo de tanta tristeza numa mesma pessoa. Ela por sua vez, secando os olhos com as costas das mãos, relatou-lhe em poucas palavras sua trágica e inverossímil história.
– Vivíamos outrora numa bela casa onde éramos todos felizes e satisfeitos com tudo ao nosso redor, em tempo algum soubemos o que era necessidade, dor ou tristeza. Nossa existência era baseada numa plenitude infinita de deleites sem fim. Mas por escolhas indevidas, feitas por uma vil influência baseada em promessas infundadas, decidimos por trilhar caminhos obscuros e incertos. Desde então, condenados pela Justiça Divina, eu e meus irmãos somos impedidos de retornarmos para nosso verdadeiro lar e somos obrigados a vagar pelo mundo como pobres peregrinos. Sem termos um destino certo, transitamos por ermos caminhos em busca de um lugar decente onde possamos pelo menos poder lamuriar nossa infinita desgraça sossegadamente.
Ewerton, que naquele momento já não era mais senhor de seu juízo perfeito, esquecendo-se por um instante de sua própria situação desoladora, por mais uma vez, vendo-se como um ministro de Deus, mesmo tropeçando nas palavras, disse-lhe de forma muito afetuosa, como se fosse um pastor se dirigindo a uma ovelha que havia se perdido e fora novamente encontrada.
– Não deixe que a tristeza te assole dessa forma, tome conta de seus sentimentos, por mais terrível que uma tempestade possa parecer, o sol sempre voltará a brilhar novamente. Não se deixe abater tão facilmente, você ainda é jovem e muito bonita...
Nesse momento, ela esboçou um leve sorriso, que à luz do dia, certamente seria bastante sinistro. Ele continuou:
– ... Dias melhores sempre estarão reservados para pessoas iguais a você. Já é muito tarde, não é certo que ninguém esteja na rua a essas horas, principalmente uma mulher indefesa igual a você. Há muitas pessoas ruins e hostis nesse mundo, seres que não têm nenhum apreço pelo seu semelhante. Não posso de forma alguma permitir que algo de ruim aconteça a você.
Ela abaixou a cabeça em reverência, concordando. Ele nem pôde ver que ela esboçava um novo sorriso, tão maquiavélico quanto o anterior, pois estava ele bastante entretido com sua oratória. Juntando forças sem saber de onde, colocou-se ele novamente de pé, gentilmente estendendo-lhe a mão esquerda – na outra mão ainda segurava uma garrafa de bebida – disse-lhe:
– Minha casa não é muito longe daqui, se quiser me acompanhar, posso lhe servir um café, uma cadeira para se sentar e se for de seu agrado tentarei ser um ouvinte atencioso para uma boa conversa. Não tenha medo, sou uma pessoa inofensiva, só consigo causar mal a mim mesmo.
Ela, agarrando-se à mão que lhe era oferecida, tocando de leve com a ponta dos dedos uma brilhante aliança que ele ainda ostentava no dedo, desferiu-lhe um olhar que seria capaz de enxergar os recantos mais profundos de sua alma, e foi logo dizendo:
– Agradeço pela oferta, gentil cavalheiro. Mas não quero ser nenhum tipo de incômodo em sua vida. Longe de mim, causar qualquer problema em quem quer que seja de forma intencional, mesmo que eu quisesse não me é permitido causar-lhe nenhum tipo de mal.
Por um momento, ele olhou tristemente para a aliança e suspirando profundamente ao relembrar sua dolorosa realidade – que por um breve instante fora esquecida – disse-lhe:
– Não se preocupe com isso, minha amada esposa não está mais entre nós. Ela fora arrancada de mim da forma mais injusta possível, e como uma desgraça nunca vem sozinha, junto com ela também se foram o fruto de nosso amor e também toda a minha felicidade. Parece-me que somos dois seres abandonados pela providência divina, eternamente condenados à dor e a uma tristeza sem fim.
Quando disse essas palavras, uma coruja que estava assentada numa árvore próxima e presenciava toda aquela cena, deu um piado ensurdecedor e passou sobre eles num voo rasante até outra árvore logo atrás da igreja. Estando Christine já de pé, percebendo que o convite estava sendo feito de livre e espontânea vontade, decidiu que aceitaria acompanhá-lo até sua casa com a promessa que ele deveria se comportar como um cavalheiro respeitando sua situação de jovem indefesa. Caminhando a seu lado, ainda segurando a mão dele, ela logo quis saber o motivo que de alguma forma ele pudesse imaginar que ambos poderiam ser semelhantes em alguma coisa. Sem muita cerimônia o questionou sobre o que ocorrera à sua esposa e seu filho.
– Filha! Ela se chamava Esther e tinha apenas três anos, era apenas uma inocente criança praticamente ainda de colo. Ela e minha esposa Lucy voltavam de uma celebração na casa de uma irmã que padecia de um mal irremediável e já estando essa irmã no leito de morte, quis minha amada esposa prestar-lhe os últimos votos de fé e de esperança num lugar melhor. Minha amada Lucy sempre fora uma excelente companhia para pessoas nesse tipo de situação. A celebração – mesmo com a situação em si – fora bastante ungida e alegre e se prolongou um pouco mais do que deveria. Já era tarde quando ela retornava para nossa casa, e desde o início da noite caía uma chuva fina, o asfalto estava bastante molhado e escorregadio. Lucy era uma motorista cuidadosa, mas o condutor do caminhão que vinha em sentido contrário, talvez por mil outros motivos, mas principalmente por estar completamente embriagado, não pôde perceber que estava invadindo a pista contrária com seu caminhão carregado com madeira e sem tempo ou destreza necessária, bateu de frente no carro de minha esposa, matando duas pessoas inocentes que naquela hora trágica, retornavam de uma celebração em intenção a uma pessoa em profundo sofrer...
Nesse momento, Ewerton, largando a mão da jovem, cobriu o rosto em completo desespero, e após alguns instantes, tentando segurar os soluços que estavam em sua garganta, olhou para o céu e como se estivesse perguntando para o firmamento com palavras carregadas de ódio e desespero, disse:
– Como um Deus a quem tanto adoramos, que deveria zelar por nós, pode tirar a vida de duas pessoas inocentes que naquele momento estavam justamente a serviço dele?
Pegando sua mão novamente e levando-a aos lábios para um beijo terno, ela disse:
– Pensei que tivesse sido um caminhoneiro bêbado que causara o acidente!
– E por acaso, não consta nas Escrituras Sagradas que não cai uma folha do céu sem que Deus assim o permita?
Se Deus fosse realmente tão bom quanto se autoeleva, não teria permitido a morte de minha querida filha, que nunca causara mal a quem quer que fosse.
– Mas também está escrito que o livre-arbítrio é um presente dos céus aos homens, que lhes fora concedido como dádiva desde o princípio, o direito de escolha: “...Tudo lhe será permitido. Contudo, nem tudo será lícito...” Não deveis jamais questionar os desígnios de Deus.
– Minha filhinha, uma inocente criança de apenas três anos, teve a oportunidade de usufruir do livre-arbítrio?
Questionou ele de forma ríspida.
Alguém certa vez também disse: “... Entre o céu e a terra existe muito mais do que julga a nossa vã filosofia...”
Ao ouvir essas palavras, ele parou de repente e num gesto não tão delicado, soltou sua mão mais uma vez, postando-se de frente a ela, um tanto quanto assustado, e perguntou-lhe:
– Quem é você? De onde vem tanta eloquência numa pessoa de aparência tão jovem?
– Ninguém mais importante do que você mesmo! Alguém que outrora também foi esquecida por Deus. Meu nome é Christine e se pareço sábia é porque a dor e o sofrimento moldaram cada parte do ser em que hoje sou. E tenha mais cuidado com as aparências, Ewerton!
Naquele exato momento estavam de frente a uma grande casa com traços esplêndidos e elegantes. De uma aparência muito bela, mas parecendo estar bastante desmazelada pelo abandono. Parados frente a frente iluminados pelos últimos raios de uma lua poente, ela logo lhe perguntou:
– Aqui é sua casa? Não vai me convidar para entrar e cumprir as promessas que me fez?
Ele, tentando se lembrar em que parte da conversa teria lhe dito seu nome, e ainda assustado com tudo que estava acontecendo, jogou a garrafa de bebida que ainda trazia consigo na lixeira e, pegando as chaves, se encaminhou para abrir o portão que conduzia para um jardim que demonstrava ter sido majestoso em outros tempos. Colocando a mão esquerda em movimento de dúvida sobre a boca, tentando ainda se decidir se deveria convidá-la ou não para entrar em sua casa, pôde sentir próximo às suas narinas um belo perfume que ficara impregnado em sua mão. O cheiro voluptuoso que sentia, o terno olhar que ela lhe desferira naquele momento sob o luar e o senso de cavalheirismo ainda existente dentro dele, foram determinantes para a decisão de convidá-la a entrar nos recantos que outrora vivenciara os dias mais felizes de sua vida. Com gestos de galhardia fez uma reverência e, apontando a entrada de sua casa, convidou-a para que pudesse entrar em seu não tão humilde lar.
Deitada numa aconchegante cadeira de balanço na varanda, estava o animal de estimação de sua filha Esther. Thereze era uma gata de cor preta de um negrume escuro como uma noite sem luar. Seu pelo era tão macio e sedoso que chegava a ser convidativo para uma carícia. Contudo, assim que percebeu a presença daquela estranha mulher adentrando em seu território, esse animal que então tinha sido dócil e extremamente pacífico, ficou arredio e bastante agressivo, colocando-se em posição de ataque com unhas e dentes arreganhados e com o pelo todo eriçado como se estivesse vendo o pior dentre todos os predadores, pronto a lhe tirar a vida. Atravessou na frente da porta de entrada da casa e ficou andando de um lado para o outro barrando a passagem, como se fosse uma devotada sentinela, guardando um tesouro de valor inimaginável. Ewerton pensou que aquele animal estivesse tendo algum tipo de ataque psicótico, talvez devido à falta que estava sentindo de sua estimada dona. Tentou em vão dissuadi-la a liberar a passagem de ambos, mas assim que Christine pôs o pé no primeiro degrau que levava ao alpendre da casa, a gata ficou ainda mais arredia, emitindo sons ensandecidos e demonstrando que de forma alguma permitiria que eles passassem por ela para entrarem na casa. Tanto convidada como anfitrião ficaram estupefatos com aquela estranha atitude de um animal que por natureza deveria ser totalmente absorto a tudo aquilo que acontecia ao seu redor, e muito diferente dos cães não se importava em vigiar a casa de pessoas estranhas.
Já sem muita paciência e com muita vontade de entrar em casa para usar o banheiro – sua bexiga já o estava alertando há um bom tempo que havia necessidade imediata de ser descarregada – Ewerton desferiu um violento pontapé na gata, que foi lançada para longe da porta, que imediatamente foi aberta. Assim que a entrada foi escancarada os dois logo entraram fechando rapidamente a porta atrás de si, pois mal a gata caiu ao chão, assim que se refez da pancada que recebera, lançou-se outra vez a fim de que impedisse a entrada dos dois. Ewerton balançou a cabeça em gesto negativo, mas não mais deu importância à gata, que agora estava do lado de fora da casa. Pediu que Christine se sentasse e se sentisse à vontade, enquanto ele rapidamente pudesse usar o banheiro. Após ter respondido o chamado da natureza, saindo do banheiro que há muitos dias não sabia o que era um gesto de assepsia, disse a Christine que o acompanhasse até a cozinha onde ele lhes prepararia um café bem forte. Christine por sua vez solicitou-lhe para que ela também pudesse usar o banheiro. Mesmo envergonhado pela sujeira acumulada há dias, ele, como um bom anfitrião, pediu perdão pela bagunça e disse-lhe que se sentisse à vontade como se a casa fosse sua. Ela por sua vez, esboçando um estranho sorriso, respondeu quase em murmúrio:
– Não só a casa! Não se preocupe com a bagunça, meu adorável coração partido! Já estive em lugares bem piores, locais que poderia muito facilmente levar qualquer homem à loucura.
Talvez pelo barulho ensurdecedor que a gata fazia no lado de fora, miando e arranhado a porta e as paredes numa tentativa ensandecida de adentrar a casa, ele não conseguiu ouvir corretamente o que ela dissera. Mas, também não se importou muito com aquelas palavras e logo se encaminhou para a cozinha a fim de preparar um saboroso café, pois até ele mesmo naquele momento tão tardio estava ansiando por algo quente e bastante forte para recarregar suas energias e tentar diminuir a enxaqueca que já começava a incomodá-lo. Rapidamente colocou a água no fogo e, sem mais delongas, logo o café ficaria pronto. Christine, que se demorara mais que o normal a se recompor no banheiro, assim que saiu estava totalmente diferente da pobre jovem que fora encontrada se entornando em lágrimas jogada de qualquer forma nas escadarias daquela escura e solitária igreja em horas tão tardias.
A mulher que agora estava encostada no umbral da porta entre a sala e a cozinha de sua casa era uma criatura de uma beleza ímpar. Um corpo esbelto de altura mediana com curvas bem definidas dando-lhe uma aparência sedutoramente voluptuosa. Os longos cabelos negros que caíam em cascata pelos ombros descendo quase até a cintura, com belos cachos parecendo as ondas do mar em seu infinito vai e vem. Destacando-se ainda mais a beleza desse véu noturno, havia duas volumosas mechas pintadas com uma cor avermelhada quase próxima ao cobre. Essas mechas dividiam seu penteado ao meio deixando sua bela face quase toda à mostra. Seus olhos eram de um verde muito brilhante num tom extremamente hipnotizante, seu sorriso inocente era irresistivelmente encantador. Ela havia retocado minuciosamente a maquiagem e em seus lábios agora brilhava um batom na cor de carmim tão púrpuro como o mais puro sangue.
Aquela imagem deixara Ewerton tão boquiaberto que até mesmo o café que ele estava preparando fora esquecido e derramou-se no fogão. O pouco que ainda sobrara foi servido em duas canecas. Oferecendo uma das canecas para Christine, instou que ela se sentasse numa cadeira na mesa de jantar. Ela, ao se aproximar dele para receber o café, pegou a caneca e a colocou sobre a mesa, e olhando no fundo de seus olhos com um sorriso cheio de uma maliciosa volúpia, o questionou se não havia algo um pouco mais forte em casa que ele pudesse lhe oferecer. Ele por sua vez, rapidamente serviu dois copos com uísque e gelo. Christine sorveu apenas um gole de sua bebida, enquanto Ewerton entornou a sua de uma única vez acompanhado de duas aspirinas. Christine perguntou-lhe:
– E por acaso nunca te disseram que não se deve misturar bebidas com nenhum tipo de medicação? Que em alguns casos pode-se levar a pessoa à morte?
Ele de forma bastante desdenhosa, mas ainda assim com gentileza, respondeu:
– Nesse momento da minha vida, a morte não está na minha lista de preocupações, na verdade talvez seja o que eu mais desejo. Pôr um fim em todo esse sofrimento de uma vez por todas.
Christine deu mais um gole em sua bebida e, abraçando-o em seguida, deu-lhe um longo beijo que fez com que ele quase caísse, pois seus joelhos ficaram trêmulos e suas pernas perderam as forças por um breve momento. Ewerton, mesmo se quisesse, jamais poderia se esquivar de tal situação. Aquela bela mulher demonstrava ser inabalável em seus gestos, a copiosidade de seu abraço e o forte perfume que ela usava fez com que ele perdesse completamente todo o controle de seus movimentos, se entregando de corpo e alma aos seus encantos. Entre beijos e carícias ela o foi arrastando para o quarto, como se tivesse estado naquela casa por muitas outras vezes.
Inebriado por tanta beleza e influenciado pelo desejo que agora tomava conta de todo o seu ser, deixou-se ele levar como um cordeiro para o sacrifício. Na mesma cama que um dia fora o leito sagrado onde ele e sua esposa consumaram seu abençoado matrimônio e imaginaram uma vida alegre, cheia de sonhos e prosperidade, agora estava sendo usado para uma orgíaca prática sexual sem nenhum tipo de pudor. Ewerton pôde na penumbra daquela madrugada fria, experimentar delícias que talvez nenhum outro ser vivo tenha sentido nessa existência. Christine com o corpo completamente desnudo se lançava sobre ele e se agitava como se fosse uma serpente. Seus movimentos eram cadenciados como o pulsar de seu próprio coração, naquele momento no mais completo êxtase, Ewerton se esqueceu de tudo que já havia se passado na sua inútil existência sobre essa terra, e numa atitude impensada, influenciado pelo calor do momento disse em palavras claras:
– Faça de mim o que você quiser, sou inteiramente seu!
Christine, que estava sobre ele, o segurando pelos ombros, pareceu por um momento ter ficado maior e mais robusta, as mechas vermelhas de seus cabelos davam a leve impressão de estarem se movendo como se fossem duas serpentes, seu sorriso tinha ficado maleficamente sinistro e em seus olhos havia algo sobrenatural, pois eles haviam sumido por completo, deixando dois infinitos buracos tão negros como azeviche e para completar ainda mais o assombro que naquele momento tomara conta de todo o seu ser, ela com uma voz cavernosa num tom sombriamente grave, disse:
– Já há muito tempo que você me pertence! Eu apenas estava esperando o momento certo para vir buscá-lo para o lugar que lhe será destinado por toda a eternidade. Tal como nós, sentirá você também a ira de Deus sobre todos aqueles que ousam traí-lo.
Naquele último momento de medo e aflição, Ewerton compreendeu quem ela realmente era e tudo o que estava acontecendo. Mesmo tentando usar toda as forças que lhe restavam, não conseguiu se libertar dos braços daquela sinistra criatura que havia adquirido uma aparência terrível aos olhos humanos. Sentiu que um calor intenso subia pelo seu ventre e tomava conta de todo seu corpo, como se uma chama tivesse se acendido em suas partes. Quando pensou que poderia pelo menos gritar em última tentativa pela misericórdia divina, foi consumido por um beijo tépido, seus olhos foram tomados por um intenso clarão que logo se tornou em trevas absolutas...
...Os vizinhos agiram rápido acionando o corpo de bombeiros, mas as chamas foram implacáveis e toda aquela bela casa fora completamente destruída num terrível incêndio. De seu ilustre e outrora simpático residente só sobraram cinzas. Da construção restaram as lembranças de um tempo onde ainda havia paz e felicidade naquele lar. Entre vizinhos e curiosos que assistiam àquele infortúnio sem nada poderem fazer, vagava uma gata preta ronronando entre uma perna e outra em busca de conforto.
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Gêmeos
O ar da tarde estava tépido, pairando úmido e denso, reverberando com trovões distantes. Doutora Priscila olhava pela janela as escuras nuvens no horizonte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Pensa que o dia passado não volta mais!”. — Dante Alighieri
O ar da tarde estava tépido, pairando úmido e denso, reverberando com trovões distantes.
Doutora Priscila olhava pela janela as escuras nuvens no horizonte e, suspirando doridamente, previu que a noite seria bastante tempestuosa. Naquele momento, aguardava sua última paciente do dia. Era a primeira consulta de uma criança que, segundo os pais, vinha enfrentando sérias crises existenciais devido a visões imaginárias. Nenhum outro detalhe fora informado por telefone.
Perder um ente querido é doloroso para qualquer um, mas, no caso de Priscila — que tinha apenas nove anos na época —, foi algo avassalador. Não pela morte em si, mas por como tudo ocorrera. Sua irmã, Cecília, afogara-se em um pequeno riacho nos fundos do sítio da avó. Ambas sabiam nadar muito bem e costumavam banhar-se nas tranquilas águas cristalinas daquele regato. Contudo, de acordo com o boletim médico, Cecília sofrera um princípio de convulsão após um mergulho e acabou se afogando às margens do riacho. O socorro foi rápido, mas a menina não resistiu e chegou ao hospital já sem sinais vitais.
Com a trágica perda da irmã, Priscila ficou arrasada; trancou-se no quarto e recusou-se a participar do velório. Entretanto, assim que o caixão descia à sepultura, ela teve um ataque de histeria, gritando que sua irmã estava viva, que a deixassem sair do caixão. Debatia-se, implorando que o abrissem, certa de que todos veriam que dizia a verdade. Cecília passara toda uma tarde na agência funerária, fora velada por uma noite e metade de um dia. Todos os presentes testemunharam que, durante todo esse tempo, ela esteve como um cadáver deve estar: completamente inerte.
A mãe das meninas morreu alguns anos depois e foi enterrada na mesma sepultura da filha. Quando os funcionários do cemitério abriram a cova, depararam-se com algo perturbador. A tampa do caixão estava bastante danificada por dentro; o forro, totalmente rasgado; e havia lascas de madeira entre o que restara das mãos da criança, que jazia deitada de lado, como se dormisse tranquilamente.
A partir de então, Priscila — que desde o velório da irmã alegava ver vultos e ouvir sussurros pela casa — nunca mais foi a mesma. Após anos de terapia, buscou na psicologia uma forma de ajudar a si mesma e também crianças traumatizadas como ela.
A secretária avisou que sua última paciente havia chegado. Doutora Priscila pôde ouvir o que a mãe, mesmo em sussurro, dissera à filha quando foram convidadas a entrar:
— Nenhuma palavra sobre o Gabriel...
Como era uma psicóloga muito proativa, Priscila rapidamente iniciou uma interação com as duas belas crianças que entraram em seu consultório. O menino era um rapazinho de cabelos cacheados, faces rosadas e sorriso fácil; a menina, bastante parecida com o irmão, distinguia-se apenas pelos longos cabelos e pela face salpicada de sardas. Os pais, imaginando que ela estava interagindo com sua filha Letícia, nada disseram e ficaram apenas observando.
Doutora Priscila, virando-se para a menina, perguntou qual era seu nome. Ela, muito timidamente, respondeu:
— Letícia...
Os pais ficaram estupefatos quando a psicóloga, olhando para a cadeira vazia ao lado da menina, perguntou:
— E você, rapazinho de cabelos dourados... qual é o seu nome?
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Monstruosidade
O sol resplandecia imponente no firmamento azul-índigo. Diziam que era o dia mais quente do ano. Dentro da taverna, o calor era enlouquecedor; o suor não parava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O sol resplandecia imponente no firmamento azul-índigo. Diziam que era o dia mais quente do ano. Dentro da taverna, o calor era enlouquecedor; o suor não parava de exsudar da minha tez. Comecei a velar as horas com uma certa frequência, porém os ponteiros insistiam em caminhar morosamente. Parecia que o universo se deleitava com minha inquietação.
Apesar dessas adversidades, minha vida era boa. Tinha uma ótima casa. Trabalhar na taverna possibilitou conhecer muita gente e, consequentemente, suas histórias. Algumas eram fantasiosas por demais; era o caso do João, conhecido pela região por ser uma figura peculiar. Muitos o chamavam de “lunático” por conta de seus causos.
Suas narrativas rompiam o limiar entre a sanidade e a insanidade. Enquanto limpava o balcão, ele surgiu. Sorri e acenei; ele retribuíra minha saudação. Sua presença sempre animava o recinto, porém, enquanto caminhava, notei algo estranho. Conforme se aproximava, vi suas feições adquirirem contornos sombrios e seu olhar estava envolto por uma aura indescritível.
Ele trajava uma camiseta preta e calça jeans, ambas rasgadas e manchadas, e, nos pés, chinelos sujos. As poucas pessoas presentes espantaram-se, pois ele parecia desnorteado. Num estado de hipnose, ele se dirigiu até a bancada e sentou-se onde costumávamos conversar, mas permaneceu em silêncio. Aquele comportamento era estranho até para ele.
— Está tudo bem, João? — perguntei com cautela, mas obtive apenas o silêncio perturbador, acompanhado de um contido, mas assustador, sorriso.
Assustados, os clientes foram deixando o local, um por um. Minha atenção estava voltada para cada movimento seu. Sinceramente, não sabia o que iria acontecer. Talvez fosse melhor chamar as autoridades...
— Sangue, ele está vindo, prepare-se, Roberto — sussurrou João enquanto me encarava com olhos inexpressivos.
Nada me prepara para o desconhecido. Aquelas palavras soaram desconexas e confusas. Naquele momento, um desconforto se apoderou de mim; confesso que me senti observado. Repeti a mesma pergunta e obtive uma inesperada reação: ele começou a arranhar a madeira da bancada, gerando um som horrífico. Os movimentos das mãos foram progredindo, chegando ao ponto de as unhas se quebrarem, espalhando gotas escarlates sobre a madeira.
— Você precisa me ouvir. O Mestre está vindo e não há mais nada que possamos fazer — disse enquanto aniquilava e comia insetos como formigas e mosquitos que ocasionalmente surgiam.
Dito isto, pousou seu olhar nos meus e contou-me um dos mais medonhos causos que aquela taverna já ouviu. Sim, havia uma bizarra semelhança com a clássica obra Drácula, de Bram Stoker. Relatou que ouvira o chamado através de um sonho e, desde então, vive para o tal mestre, que lhe prometeu a eternidade através da aniquilação de pequenos insetos. Abismado, disse que aquilo era loucura e humanamente impossível; porém, ele se tornou mais agressivo, o que não é de seu feitio.
Temeroso pela minha vida, mandei que ele fosse embora. Falei que estava cansado e que precisava de uma boa noite de sono, pois o dia havia sido difícil.
João gargalhou de forma insana e alertou para que eu tivesse cuidado, pois hoje o mestre iria fazer uma visita. Deixou a taverna me encarando com um sinistro sorriso, o qual certamente me causaria pesadelos. Saí o mais rápido possível dali. Respirei aliviado ao entrar em casa. Tranquei a porta, liguei as luzes, tomei banho, comi uma lasanha que fiz no dia anterior, escovei meus dentes e me preparei para dormir.
Meu quarto não é tão grande, mas é confortável. Minha cama fica abaixo de uma janela de madeira deteriorada pela cruel maresia. Ao lado direito, uma mesinha de canto com uma moringa de barro e também uma Bíblia severamente desgastada pelas traças e bastante empoeirada. Em frente à cama, havia um aparador com um televisor. Por fim, um ventilador de teto que também sofreu com a maresia. Deitei-me e logo senti a brisa rastejar sutilmente pelas frestas da janela, produzindo uivos agourentos. Alguns minutos se passaram, comecei a sentir as pálpebras pesarem e finalmente consegui dormir.
Em determinada hora, acordei com uma intensa falta de ar. Em vão, meus olhos arregalados fitaram a pálida parede em busca de respostas. A cama de madeira rangia com pesar. — É apenas um pesadelo — repeti essa frase incontáveis vezes, como um mantra. Aquele medo irracional cravou suas perversas garras em meu corpo. Foi quando ouvi algo lá fora.
O som era semelhante a um sutil, mas imponente, bater de asas. Isto foi o suficiente para deixar as janelas inquietas. Em posição fetal, criei os mais irreais e absurdos cenários. Contemplei, então, uma presença abissal projetando uma densa sombra para dentro do cômodo. Em todo momento, ouvia as palavras proferidas por João e até cogitei considerar a existência de uma criatura tão aterrorizante como o personagem Drácula.
Sufocado, com o corpo encharcado pelo inenarrável, ergo uma das mãos em busca da janela. Abri-a e senti um denso vento gélido passar por entre meus dedos suados. Ao fazer isto, vi as sombras adentrarem, exterminando qualquer resquício de luz. Já não era possível enxergar o branco das paredes. Fechei-a imediatamente, mas já era tarde...
Sua monstruosa presença ocupava todo o quarto. No canto, ele estava a me observar. Mesmo com todo o breu, sua palidez era visível, assim como seus resplandecentes caninos. Percebo a nefasta criatura vindo ao meu encontro. Suas presas eram maiores do que havia pensado.
Ele parou, debruçou-se lentamente sobre mim, saboreando meu sofrer. Não consegui desviar de seu olhar vazio. Sua respiração era intragável. Ouço, então, sua boca abrir, revelando milhares de dentes. De sua comprida língua, gotejava uma saliva pútrida e viscosa. Seus olhos eram hipnotizantes. Antes que pudesse dilacerar meu pescoço, fecho os olhos e grito com todas as forças.
Acordo num quarto diferente do meu. A princípio, era tudo nebuloso. Então, ouço a porta abrir. Duas figuras de jaleco se aproximam.
— Vejo que acordou, Roberto. Como está se sentindo? — sua voz calma ecoou pelo recinto.
— Não sei onde estou. O que está acontecendo?
— Me chamo Pedro Sampaio, sou chefe da psiquiatria. O que direi pode ser assustador, peço que ouça com atenção. Faz alguns meses que você está aqui internado. Vizinhos encontraram você aos gritos, completamente histérico, balbuciando frases desconexas...
Minha respiração se alterou. Alguns fragmentos de memória surgiram em minha mente. Não é possível... Ele estava lá, seus dentes. O João estava certo. Tentei me mexer, mas fui contido, pois havia faixas por todo o meu corpo.
— Enfermeiro, por favor, aplique o sedativo. O paciente entrará em surto novamente. Antes de sentir os efeitos entorpecentes, escuto uma voz familiar cruzar o corredor, cantarolando a seguinte frase: “O mestre chegou e precisa de sangue.” João... é você?
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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O órgão
Um dia, Lorde Vlad resolveu agir. Era o proprietário de um suntuoso castelo, cuidadosamente desenhado por sua falecida esposa, cujo conhecimento…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Um dia, Lorde Vlad resolveu agir. Era o proprietário de um suntuoso castelo, cuidadosamente desenhado por sua falecida esposa, cujo conhecimento em arquitetura permitiu que cada detalhe daquele lugar fosse confeccionado impecavelmente. Ele sempre considerou um exagero todo aquele espaço e recursos empreendidos em bens que ficarão aqui após sua partida — assim como para ela — que nada pode levar em sua jornada junto a Caronte.
Há algum tempo ele sofrera um mal, segundo suas suspeitas, fora revirado de dentro para fora e pretendiam utilizá-lo em uma doentia vivissecção. À medida que a dor aumentava, mais irascível ficava. Quanto mais raiva, mais cansaço.
Estava pálido, alguns de seus servos diziam que estava tão amarelado que parecia as folhas de outono que flutuam a esmo, comparação essa também em decorrência da visível perda de peso.
Afogava suas dores com bebida forte e sempre exigia que esse elixir fosse preparado mais e mais forte. Ele precisava dormir, só assim esqueceria a dor.
Decidiu consultar os oráculos, quaisquer que fossem suas origens e finalidades, desde que lhe oferecessem alguma solução. Chegou aos magos. Ele nunca se interessou em saber quais eram suas fontes, só pretendia obter a cura. Finalmente havia recebido um plano para sua cura. E assim ele decidiu oferecer um jantar.
Todos os homens do reino, entre 25 e 35 anos, foram convidados. O primoroso convite dizia que aquela noite seria uma data especial na história daquele local, pois o Lorde escolheria um dentre aqueles felizardos para receber o castelo e toda sua fortuna como herança. Como pode-se imaginar, todos os convidados não ousaram abster-se do convite.
No dia fatídico, chegaram cedo. Uma fila extensa se formava em frente aos enormes portais do castelo, que só foram abertos no horário exato. Os homens estavam animados e logo já foram servidos barris da bebida que o Lorde tanto apreciava. Após horas de confraternização entre si, finalmente, o grande banquete seria servido.
Mal sabiam eles que todo este tempo Lorde Vlad já os observava, pois pretendera escolher o homem mais respeitoso, sincero e gentil.
Após horas de comilança, Lorde Vlad interrompeu o burburinho e a algazarra generalizada, tocando com um talher de ouro em sua taça repleta do elixir:
— Meus bons homens, espero que tenham apreciado essa singela cerimônia. Não tenho a intenção de atrapalhar vossas conversas, mas preciso contar-lhes algo. Há alguns meses venho sofrendo mazelas, as quais não desejo nem ao pior dos meus inimigos. Em consulta aos sábios, descobri que seres espectrais tentaram contra minha vida e retiraram meus fluidos e órgãos com suas próprias mãos ressequidas. Devolveram as minhas partes para dentro de mim, mas os efeitos desse procedimento horrendo sinto até agora. Não sei até quando durarão meus dias nesta terra e, como não tenho herdeiros, preciso passar meu legado a um de vós aqui presente.
Um silêncio perturbador preencheu o enorme espaço. Mesmo com muitos convidados, ainda havia espaços vazios, mas o ar tornou-se pesado ante a este pronunciamento. Lorde Vlad, por fim, adentrou a espessa névoa que suas palavras haviam procriado:
— Meus bons homens, por obséquio, não me olhem com essas caras funestas. Tudo o que lhes digo é para que entendam meus motivos. Comam e bebam. À meia-noite irei anunciar meu escolhido.
Sob o efeito da bebida, todos os homens voltaram à alegria descomedida de outrora, como se ao se calar Lorde Vlad tivesse despausado a cena e todos pudessem voltar a rodar e girar sem limites.
Meia-noite. Desta vez, o pronunciamento foi exigido após os acordes do suntuoso órgão, que viera de terras longínquas, mas era como se uma marcha fúnebre retumbasse. A música ressoava tão forte que balançava as estruturas ósseas dos presentes. Horlok foi o escolhido, o herdeiro. Era o único sóbrio e sério.
Todos foram convidados a se retirarem. Restava agora a Horlok discutir os termos deste acordo. Deveria ter o seu nome no testamento.
Foi levado a um corredor, permeado de incontáveis portas, que, segundo o servo, eram alguns dos quartos do castelo. Ao final do corredor, chegaram a uma câmara iluminada, onde o Lorde e um senhor com roupas extremamente limpas o aguardavam.
Horlok não conhecia a aparência de autoridades da lei, mas aquele senhor não se parecia com um deles, arriscou pensar que era um médico.
— Sou o doutor Seward. O Lorde precisa saber o quão saudável és, pois não almeja correr risco de que seu castelo caia em mãos inimigas.
E sem esperar qualquer resposta ou reação de Horlok, segurou-o com ajuda dos servos, para que ficasse firmemente colado à mesa. Lorde Vlad estava deitado na mesa ao lado.
Após alguns minutos, Horlok estava inerte. Alguma mistura, que mais tarde seria conhecida como ópio, foi enfiada brutalmente em seu corpo. Suas mãos jaziam em cada um dos lados da mesa. Um corte profundo em seu abdômen permitiu que seu órgão fosse cuidadosamente retirado. O sangue escorria sem parar, mas o doutor não iria perder tempo com isso. Um corpo ao lado esperava ansiosamente pelos novos anos de vida que aquele pedaço marrom iria lhe proporcionar.
E Horlok sucumbiu. E quem diria que a má educação e hábitos torpes daqueles outros homens um dia salvariam-lhes a miserável vida.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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As gavetas dos últimos dias
São Paulo, terra da garoa e dos mortos. A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
São Paulo, terra da garoa e dos mortos.
A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte, ela é nossa fiel escudeira, única acompanhante nos becos, nas estações vazias e viadutos abandonados.
E nunca se sabe quando o encontro fatídico ocorrerá, e ele ocorre para a maioria da população mais cedo do que se pode esperar.
Com o acúmulo de corpos sem vidas, uma Companhia percebeu a demanda e fez uma oferta irrecusável. Uma vez que os cemitérios tradicionais já não comportavam o volume de corpos, surgiu a brilhante ideia: e se eles fossem condicionados verticalmente, tal qual o Japão que adaptou suas lavouras às condições e criou robustos sistemas de hortas verticais. Prédios vazios e sem uso comercial foram transformados em criptas, onde o céu era o limite. E como havia espaço até que as bordas dos edifícios tocassem a beira do firmamento.
Os edifícios eram arrematados em leilões. Empresas que declaravam falência eram as principais ex-proprietárias. Estavam, em sua maioria, em ótimo estado, alguns precisavam ter a energia elétrica religada, pois estavam há meses sem pagamento, mas nada que onerasse a Empresa da morte. O fim da vida tornara-se algo lucrativo e tinham certeza de que logo recuperariam o valor investido, o lucro viria.
Os elevadores eram enormes, como bunkers reforçados de aço, robustos e impenetráveis. Após os possíveis ajustes, cada andar era remobiliado: saíam as baias que antes abrigavam os humanos sobreviventes de suas rotinas miseráveis; entravam as gavetas onde eram condicionados os corpos, agora, sem vida.
A visão daquelas caixas perfeitamente encaixadas causava satisfação para quem observava, tudo era limpo e quieto, o SPA após a vida. Quem visitava esses decorados ficava encantado com a disposição impecável, de certo, esse era o descanso merecido.
Renan era o corretor mais bem-sucedido daquela Companhia. Seus argumentos e simpatia comedida sempre eram convertidos em vendas, mesmo quem não queria, pois dizia não ser “bom agouro comprar o lugarzinho ali”, acabava sendo seduzido por suas dóceis palavras. Se buscar o conforto próprio não era o suficiente, ele apelava para o dos entes queridos, e a esse discurso ninguém ousava olvidar.
Naquele dia tinha agendado uma visita para as 14h, e como de costume chegou mais cedo ao local. Cumprimentou Olivia, a recepcionista com quem tinha uma amizade discreta, e entrou no elevador.
As teclas, numeradas de 1 a 16, o perscrutavam, esperando o momento em que uma delas seria tocada, e após uma espera de milésimos de segundos, a 13ª saiu vencedora.
1, 2, 3...
Quando a gaveta de ferro iniciou a subida, bateu as mãos nos bolsos: “Putz, esqueci o celular”. Apertou o 0, mas o elevador seguiu fielmente sua missão e continuou a subida até o andar selecionado.
4, 5, 6...
Obedecendo a pensamentos intrusivos, apertou a tecla 8, mas o elevador ignorou seu pedido e continuou seguindo cegamente a programação. “Como sou burro, ele respeita a ordem de seleção, agora vai demorar mais ainda para descer, mais uma parada inútil.”
Tentou calar a voz da ansiedade. A caixa de metal finalmente chegou ao 13º andar. Parou. Era esperado as portas demorarem 3 segundos para abrir, sim, ele tinha contado durante algumas crises de ansiedade. O medo de um dia ficar preso dentro daquilo era vencido pelo sedentarismo, subir 13 lances de escadas não iria rolar, mas agora se arrependia da tola decisão. Dez segundos passaram, as portas insistiram em permanecerem cerradas. Pressionou outra tecla, aquela com ícone de telefone para caso de emergência, alguém atenderia e diria que estava tudo bem, seria resgatado. Mas não ouviu voz humana, aliás, não conseguiu distinguir o barulho, parecia uma geladeira que grita do nada na madrugada. Sentia a respiração descompassada, dançando uma música sem ritmo e sem nexo.
“Que droga, respira, 1, 2, 3... Como a Carla ensinou”. Carla era a terapeuta, partes de suas manias e fobias foram amenizadas com as sessões, mas nada o havia de fato preparado para aquilo. O elevador desceu de forma violenta, como se 1, 2, 3 fosse um comando de voz, luzes piscando como uma discoteca infernal.
Parou bruscamente, pareceu ter atingido os limites do solo. Com a freada, Renan caiu de joelhos, que ardiam com o impacto brutal. “Que merda foi essa?”.
As luzes estabilizaram e o coração insistia em sair pela boca, mas ele o engoliu e o forçava a bombear sangue, mesmo irrigando partes que não deveriam, molhado demais. “Pera, eu mijei?”.
Conseguiu levantar-se após empregar força sobre-humana em seus joelhos, as pernas ainda tremiam, mas era de medo.
Apertou novamente o botão que o salvaria, mas nada, outros ruídos surgiram.
Deslizou derrotado na parede em frente à porta, aquela situação era demasiadamente difícil para ele. Olhou para cima, buscando um deus no céu de aço, e encontrou o painel, que indicava o número dos andares, piscando em alto e bom neônio vermelho: -10.
Pensou e riu consigo mesmo que havia chegado a um ciclo, até então, desconhecido do inferno.
Enquanto lamentava sua situação, algo lá fora arranhava a porta e forçava entrada. “Era melhor ter morrido esmagado”.
O teto, obediente à sentença proferida pelo miserável, desceu rápido e implacável. Metal contra carne. Não houve grito, somente os estalos dos ossos cedendo e esmigalhando, fundindo elevador e homem em uma massa disforme única.
Não era o jazigo que havia comprado, mas era o único e último que teria.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Harmonia do Acaso
Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Vós que aqui entrais, abandonai toda a esperança”. — Dante Alighieri
Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar que uma Força maior talvez tenha interferido no destino de alguém. Os fatos ocorrem de forma sincronizada, uma simples ação desencadeando outra e mais outra até que algo inevitável aconteça. Naquela madrugada, após chegar em casa às três horas, depois de mais uma noite de bebedeira, Antônio jamais esperaria que o dia seguinte lhe traria dissabores inomináveis. Como lhe era de costume, chegou em casa, procurou algo para comer, descalçou os sapatos e, ainda mastigando um pedaço de queijo velho – de há muito tempo abandonado na geladeira – jogou-se na cama do jeito que estava e logo caiu no sono, sem se preocupar que a vida teria que continuar dali a algumas horas.
Acordou assustado com o telefone tocando e com o barulho de uma buzina de um caminhão que havia acabado de dobrar a esquina. A casa em que morava – um apartamento de dois quartos no segundo andar de um sobrado antigo – situava-se numa esquina bastante movimentada àquelas horas da manhã. Aquele barulho lhe arrancara de seu sono pesado e o trouxera de volta à sua dura realidade. Ainda meio zonzo pelo susto, ao olhar para o rádio-relógio – que ele esquecera de programar o alarme – na cômoda ao lado da cama, logo se colocou de pé num sobressalto. Estava bastante atrasado para o trabalho. O relógio marcava 08h35, e ele já deveria estar na loja desde as 08h00. Assim que olhou para o telefone e viu que o número identificado era do asilo onde sua mãe estava há mais de dois anos, o ignorou por completo, pensando consigo mesmo: – Na hora do almoço, ligo de volta para saber do que se trata.
Em menos de dez minutos já havia tomado banho e se barbeado. Foi até a cozinha em busca de algo para comer e, como nada de agradável para uma manhã de ressaca fora encontrado, tomou apenas um copo de leite frio. Já vestido com seu uniforme, foi mais uma vez ao banheiro para escovar os dentes e, sem mais delongas, se encaminhar rapidamente para o trabalho. Ao retirar o creme dental do tubo, talvez devido à pressa em que estava, ou mesmo por falta de perícia, conseguiu sujar toda sua camisa – de cor preta – com uma considerável quantidade daquela pasta branca. Por mais que tentasse, não conseguiu, de forma alguma, deixá-la apresentável. A única solução fora usar a mesma camisa do dia anterior – amarrotada, suja de suor, fedendo a cigarro e a todo tipo de odor que um botequim pode oferecer.
Aquele era um dia que ele, de forma alguma, poderia faltar ao trabalho. Um grande artista da música pop iria pessoalmente até a loja buscar um violão estilizado, que havia sido encomendado há dias. No dia da encomenda do tal instrumento, após aquele momento de trocas de gentilezas entre vendedor e cliente – onde certa intimidade se estabelece –, Antônio se aproveitou daquela oportunidade única – que ele há muito tempo aguardava – e, sabendo de quem se tratava, logo relatou sobre sua paixão pela música e também falou sobre suas composições, que certamente, na voz de um grande intérprete, talvez poderiam se transformar em hits de sucesso. Solicitou então àquele artista que, assim que voltasse à loja – se fosse de seu interesse e sem compromisso algum –, pudesse dar uma olhada rápida em suas composições e, quem sabe assim, encontrar alguma canção que lhe interessasse.
Antônio era um homem talentoso e bastante sonhador. Um indivíduo muito trabalhador, mas também muito irresponsável com suas finanças e bastante negligente consigo mesmo. Já na casa dos trinta anos – tal como sua própria mãe, agora abandonada num asilo – ainda não havia se casado e muito menos conseguido algum tipo de sucesso na vida. Filho de uma professora aposentada, que o concebera já madura em anos, quando já contava com quarenta anos. Essa professora – Tia Adélia – uma bela solteirona que havia dispensado várias oportunidades de casamento em sua juventude, preferindo investir seu tempo e disposição em sua carreira pedagógica, certo dia, num baile de carnaval, sob efeito de uma bebida um pouco mais forte, se deixou levar pelos encantos de um sedutor caminhoneiro que estava de passagem pela cidade. O resultado dessa ébria noite de carnaval viria se apresentar ao mundo nove meses depois, na figura de um belo e saudável menino que receberia o nome de Antônio Augusto.
Como não conhecera seu pai – que certamente morrera sem saber da existência de um filho –, fora criado pelo avô – que também se chamava Antônio – que tentou, dentro de suas possibilidades, lhe dar uma boa educação. Seu Antônio tinha, em parceria com seu irmão Jaime, uma serraria na pequena cidade onde moravam. Foi nessa serraria que Antônio Augusto – chamado Toninho – passou sua infância e adolescência aprendendo todo tipo de coisa: tudo o que prestava e também aquilo que não seria de nenhum proveito.
Esse seu tio-avô, Jaime, era a pior espécie de pessoa que poderia servir de exemplo para uma criança. Não era muito achegado ao trabalho duro, bebia como um louco e fumava feito uma chaminé. Era mulherengo ao extremo e tinha meia dúzia de filhos – nenhum deles reconhecido por ele – espalhados por toda a cercania com diversas mulheres diferentes, mulheres essas de índole e caráter bastante duvidosos. Contudo, não há nada no Universo de que não se retire algum proveito. Tio Jaime, por mais que possa parecer ser um indivíduo completamente imprestável, mesmo tendo ensinado o jovem Toninho os diversos segredos da malandragem, também fora o responsável por encaminhá-lo ao mundo da música, ensinando-o a tocar diversos instrumentos musicais. Tio Jaime era um exímio instrumentista e lhe ensinara tudo o que sabia.
Sua mãe se aposentara no mesmo ano em que ele completara 18 anos. Nessa época, seu avô já havia falecido há dois anos; sua avó morreria no ano seguinte, ficando apenas ele e sua mãe morando numa casa enorme. A serraria fora vendida assim que Seu Antônio falecera. Tio Jaime sobrevivia de sua parca aposentadoria e de um ou outro trocado que recebia de algum aluno que o procurava para aprender a tocar algum instrumento musical, mas também viria a falecer em pouco tempo, após uma vida carregada de lascívia e devassidão.
Como Tia Adélia não via muito futuro para o filho numa cidade pequena, decidira se mudar com ele para a cidade grande. Antônio Augusto – que deixara o apelido de Toninho para trás – tentara de todas as formas seguir carreira como artista. Contudo, não obtendo a sorte e a oportunidade necessárias ao estrelato, se firmara como vendedor numa loja de instrumentos musicais, onde trabalhava há mais de dez anos. Sem o tempo necessário e com pouca paciência para com sua mãe, que na senilidade se tornara irascível e taciturna ao extremo, decidira por interná-la num asilo, onde, para desencargo de sua própria consciência, dizia para si mesmo que ela seria muito bem cuidada por profissionais especializados nessa função.
Aquele dia – que não havia começado muito bem – tinha tudo para ser um grande dia. Ele não deixaria que ninharias o abatessem. Vestiu a camisa do dia anterior – mesmo não estando na melhor das condições –, pegou seu crachá e suas chaves e desceu correndo as escadas para ir para seu trabalho. Sabia que o tão esperado artista só estaria na loja após as dez da manhã. Para isso, ele ainda tinha tempo. A questão era que seus atrasos estavam ficando corriqueiros demais, e a nova gerência da loja já o havia advertido naquela mesma semana quanto a tal situação. Quando chegou ao portão de saída de sua casa, lembrou que estava se esquecendo do item mais importante daquele dia – seu caderno de composições. Talvez fosse a coisa mais importante de toda a sua vida. Por isso mesmo, voltou correndo até seu apartamento e, já de posse de tão importante objeto, desceu mais uma vez as escadas que levavam até a saída. No escuro corredor das escadas, sentiu uma estranha presença perto de si e, ao cruzar o portão de saída, teve a sensação de ter visto um vulto passando por ele. Bastante eufórico com as promessas daquele dia e totalmente absorto em seus pensamentos, atravessou a rua sem olhar para os lados e, quando o fez, a única coisa que viu foi uma enorme mancha verde vindo sobre ele. Num último momento, ouviu um estrondoso barulho que misturava sons de buzina, freadas de pneus e uma forte pancada. De repente, havia apenas o silêncio, e tudo ficara completamente escuro...
... Quando conseguiu, por fim, abrir os olhos, estava num lugar estranho, onde parecia estar anoitecendo, mas não conseguia ver os traços de um entardecer, muito menos o menor sinal de um céu estrelado. Ao olhar para cima, o que viu foi a escuridão de um céu que parecia estar nublado, pronto para descarregar uma tempestade a qualquer momento, mas não havia o menor sinal de chuva. O tempo estava quente e abafado, não havia uma única brisa soprando. Havia um fétido odor de coisa podre pelo ar, como se houvesse um esgoto a céu aberto ali por perto e vários velórios acontecendo ao mesmo tempo, com seus vapores de defunto, velas e flores murchando. Levantou-se e logo quis saber onde estava, mas as pessoas que passavam por ele, caminhando a esmo, agiam de forma estranha, não diziam coisa com coisa. Pareciam estar bêbadas, caminhando trôpegas e falando coisas sem nenhum nexo. Alguns pareciam estar em profundo remorso, pois batiam no próprio peito numa inconsolável lamentação.
Decidiu que o melhor a fazer era tentar encontrar alguém que conhecia, para saber que lugar era aquele e, principalmente, tentar entender o que estava fazendo ali, uma vez que deveria estar na loja para encontrar a pessoa que poderia realizar o grande sonho de sua vida. Caminhou sem destino certo por quase uma hora, sem encontrar ninguém que pudesse lhe dar uma explicação plausível; todos que encontrava pelo caminho pareciam estar muito envolvidos em seus próprios problemas. Ninguém interagia com ninguém, era um verdadeiro “cada um por si e Deus por todos”. Contudo, de algum modo, ele teve a estranha sensação de que Deus não estava presente naquele lugar. Sentindo-se cansado e com um gosto estranho de sangue na boca, com o corpo todo dolorido, como se tivesse sido violentamente espancado, não conseguia de forma alguma se lembrar de como chegara ali. Suas pernas estavam doendo pela caminhada, mas não sentia sede, e até mesmo a fome que o açoitava ao se levantar naquela manhã o havia abandonado. Numa das mãos ainda trazia consigo as chaves de casa, que ele não havia colocado nos bolsos, e na outra carregava seu caderno de composições.
A rua pela qual ele caminhava parecia não ter fim, como se estivesse caminhando em círculos, mas, por mais que andasse, não passava pelo mesmo lugar mais de uma vez, como se estivesse numa cidade infinita. Percebeu que, nas casas, as luzes estavam apagadas e todas as portas – de casas, lojas, botequins etc. – estavam fechadas. Havia pessoas de todas as formas e tipos, as mais diversas, pelas ruas. Todas caminhavam de um lado para o outro, tristes e cabisbaixas, e, quando ele tentava interagir com alguém, cumprimentando-as ou lhes perguntando algo, ninguém lhe dava atenção. Depois de certo tempo, que lhe pareceu ser quase uma eternidade, teve a impressão de ter visto, caminhando em sua direção, sua antiga professora do jardim.
Tia Cecília fora sua professora quando ele ainda tinha sete anos, mas, pelo que se lembrava, ela havia morrido há alguns anos num trágico acidente de carro que colhera tanto a vida dela quanto a do marido e de seu único filho – bastardo, diziam as más línguas. Pelo que soubera, eles estavam voltando de uma festa, onde tanto ela como o marido haviam bebido muito e decidiram que o menos ébrio pegaria a direção. O resultado de álcool e direção fora desastroso. Tia Cecília passou por ele como se fosse um completo estranho e nem ao menos lhe respondeu quando ele a cumprimentou, chamando-a pelo nome. Antônio pensou que havia se confundido. Continuou caminhando e, ao dobrar uma esquina, se deparou com seu Tio Jaime, que esse sim o reconhecera. Pois foi Tio Jaime quem lhe direcionou a palavra, questionando o que ele estava fazendo naquele lugar. Muito satisfeito por ter encontrado um rosto conhecido, mas bastante assustado por saber que era alguém que havia falecido há muitos anos, logo questionou seu tio sobre o que significava tudo aquilo, o que, com certa relutância, lhe fora explicado.
— Este lugar tem vários nomes, filho: Hades, Purgatório, Inferno... Aqui nós o chamamos de Umbral. Território desprovido de todo e qualquer sentimento de piedade, não há fraternidade aqui presente, ninguém parece se importar com a dor do outro. Cada um purgando seus próprios pecados, nesse infinito vai e vem de transeuntes ensimesmados. Vez por outra, aparecem por aqui umas pessoas vestidas de branco, transcendendo uma estranha luz azulada, que escolhem alguns dentre os que caminham e os levam consigo. Para onde, ninguém sabe, até porque os que são levados não retornam para contar, e quem os leva nunca diz nada para os que aqui ficam.
O que sei é que muitos, como eu mesmo, ficam bastante tempo por aqui. Após muita reflexão – e tempo para refletir é o que não falta por aqui – cheguei à conclusão de que o tempo passado aqui depende de como foi sua vida no mundo dos vivos. Pois alguns são rapidamente resgatados pelos seres de luz. Quando alguma criança chega, algum ser de luz já está à sua espera e ela é imediatamente levada. É estranho você chegar no mesmo dia em que sua mãe também passou por aqui. Vocês estavam juntos? Tiveram algum acidente?
Naquele momento, Antônio teve um sobressalto e, todo assustado e trêmulo, disse:
— Como assim? Que história é essa? Minha mãe está ou esteve aqui?
Tio Jaime, após um longo suspiro – ou pelo menos algo que pudesse se assemelhar a tal –, respondeu:
— Cheio de perguntas como todo mundo! Sua mãe passou por aqui mais cedo, um pouco antes de você chegar. Mas, como tinha um coração puro e inocente como uma criança, logo foi resgatada por um dos seres que já aguardava. Ela não chegou a me reconhecer como você o fez. Porém, eu a reconheci de imediato e, como estava próximo a ela, pude ouvi-la quando questionou ao ser que a aguardava: “O que seria de você sem ela para protegê-lo?”. O ser, muito gentilmente, respondeu que você ainda teria bastante tempo para endireitar suas veredas...
De repente, uma forte luz que banhava sua face lhe cegou os olhos momentaneamente, e o barulho de uma buzina quase o deixou surdo. Mas o que mais lhe incomodava naquele momento era o irritante som do telefone que tocava insistentemente. Antônio despertou de um terrível pesadelo, seu estômago estava embrulhado e sua cabeça doía terrivelmente. Ao perceber que o telefone não lhe daria paz, decidiu atendê-lo. Era do asilo onde sua mãe estava internada.
— Senhor Antônio Augusto de Albuquerque?
— Sim! Sou eu.
— Infelizmente, não tenho uma boa notícia para o senhor...
Revisão de Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
De como Solas governa Zélis
Seis mil anos antes da invasão do Abismo, um arquidemônio já sombreava o plano terrestre com suas asas. O continente-reino de Zélis era o menor do mundo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Seis mil anos antes da invasão do Abismo, um arquidemônio já sombreava o plano terrestre com suas asas.
O continente-reino de Zélis era o menor do mundo de Palais. O rei Mietaz, da casa Andros, governava naquelas circunstâncias.
O rei, idoso e muito afeiçoado, tinha somente uma filha, a única herdeira de seu reino. A donzela Eneza, porém, já frágil de constituição, contraiu uma doença desconhecida. A notícia abalou o carinhoso rei e seu semblante nunca mais se recompôs.
A enfermidade acamou a princesa: um flagelo cruel, com febres constantes, bolhas pútridas e delírios que, segundo fanáticos, eram possessões. A doença não concedia sequer o benefício da morte.
Eneza sofreu por longos meses; o desesperado rei não encontrava físicos nem doutores que tivessem a causa ou a cura.
Mietaz, num gesto humilhante, enviou cartas e emissários a todos os continentes e reis de Palais. Mas nenhum nobre, nenhum médico, dispunha de solução.
A fagulha de esperança surgiu após um ano de sofrimento. Um visitante chegou à corte.
Forrasis era o nome dele. Pálido, alto, cortês e eloquente; apresentava-se como um diplomata enviado por Sarakh de Alfara.
Mietaz conhecia a fama do rei Alfaro. Sarakh era chamado de “o Prístino”, pois vivera mais de um milênio, sustentado por meios herméticos e controversos. Forrasis sugeria esses meios.
As audiências entre ele e Mietaz tornaram-se frequentes e sempre privadas. Os altos nobres estranharam a ausência do conselho real de Zélis. Mas o rei dizia que se tratava apenas de diplomacia externa.
O secretismo possuía nefastos motivos: o diplomata prenunciou a morte de Eneza e a anarquia de Zélis caso o rei recusasse sua proposta.
O rei, mais desesperado que nunca, aceitaria quase antes de ouvir. A proposta era simples e profana: conjurar o mestre dos segredos, Solas, arquidemônio do Abismo, por meio da demonurgia conduzida por Forrasis.
Naturalmente, Mietaz hesitou. Um arquidemônio como curandeiro? Mas Forrasis garantia: o Abismo já havia curado outros. Sarakh recorrera à alquimeria abissal para se manter vivo e fizera de Alfara uma potência com tal ciência.
Mietaz resistiu por alguns dias. Mas Eneza era sua filha. Sua vida sustentava não apenas o coração do rei, mas também a sucessão de Zélis. Era isso, ao menos, que murmurava para si mesmo, e bastou para que cedesse.
Forrasis logo produziu um símbolo distorcido, um ídolo abissal, como o objeto daquele acordo.
Seu sangue régio devia banhar por treze dias o ídolo; preces numa língua distorcida, que apenas o diplomata conhecia, deviam ser repetidas em sessões demoradas. Para isso, Mietaz mandou construir uma sala oculta, adjacente à sala do trono.
No décimo quarto dia, o ídolo se partiu em estilhaços e Solas se manifestou.
Sua forma era estranha aos olhos humanos: uma coruja altíssima, de pernas longas e nuas. O torso era magro, mas suas asas quase tocavam todas as paredes da câmara. Seus olhos, macabramente vermelhos, ignoravam a presença do rei.
Ele conversou primeiro com Forrasis numa língua profana. Somente depois cedeu um pouco de atenção ao rei, que suava e retraía seu corpo pelo medo, mesmo que o diplomata garantisse a segurança.
O rei vomitou em resposta ao cheiro pútrido de Solas. A pedido de Forrasis, Solas ocultou parte de sua essência. Encolheu-se. Tornou-se uma coruja comum aos olhos de quem o visse. Seu cheiro pútrido também desapareceu.
Mietaz falou, ainda que tremendo, no idioma que sabia, de sua aflição. Revelou suas dores e prestou reverência à criatura. Solas, primeiro em silêncio, respondeu no mesmo idioma do rei.
Solas concordou. Mas em troca, exigiu uma sala do trono, uma coroa real e o título eterno de conselheiro absoluto da coroa de Zélis.
Mietaz hesitou, dessa vez com mais consciência. Olhou para o chão. Suas mãos tremiam. Por um instante, cogitou recusar. Mas ao lembrar-se do estado de Eneza, cedeu de novo. Murmurou para si que era por Zélis… mas sabia, no fundo, que era só por ela.
O contrato foi feito, o ritual selado.
Treze dias depois, Eneza levantou-se da cama. Suas bolhas haviam sumido. Sua pele era clara e firme. Sua saúde perfeita. O rei chorou de alegria. Agradeceu a Solas e prestou mais reverências.
Mas a princesa não parecia a mesma de antes. A amabilidade de seu rosto desapareceu; a gentileza, antes costumeira, não mais existia. Ela desprezava o conselho, o povo, o pariato. Falava pouco, e cada vez mais passava tempo com o demônio. E seu cheiro, quando sentido de perto, era o de um cadáver.
Ao passar das semanas, Mietaz percebeu que foi enganado. Sua filha redespertou como serva de Solas, como fantoche do Abismo.
Todos os sacrifícios que ele ofereceu ao demônio, as crianças e as donzelas, foram somente para alimentar sua transformação. Almas humanas foram os temperos dos remédios.
Ele não suportou o peso da culpa. No segundo mês da “cura” de Eneza, o rei Mietaz se jogou de sua torre.
Sua filha não chorou, nem fingiu luto. Assumiu o trono. Ela dissolveu o conselho e instituiu Solas, trajando agora diversas aparências humanas, como conselheiro real.
Solas, por séculos, atuou como conselheiro real, e como o governante de facto do reino. Por ele, o continente se tornou o centro da tecnologia de Palais. E também o berço da alquimeria abissal.
A corte de Zélis, hoje repleta de vassalos demoníacos, foi uma importante coluna para a Igreja abissal e para o surgimento da fissura em Alfara.
Solas, o arquidemônio dos segredos, ainda governa ali, trajando uma coroa esplendente. Loquaz, simpático, crente de ser o mais sábio dos entes antigos.
Revisão de Sahra Melihssa
Ricardo Zanella
Ricardo Zanella, também Áster e Venez, é tradutor, escritor e poeta por vocação. Nascido no início do milênio, em Itaperuna, Rio de Janeiro, é um ardente mantenedor da antiga poética dos trovadores. Áster escreve por vocação e por necessidade interior, pois, como afirma, “há uma razão suficiente para cada verso”. Acredita na arte literária como o caminho mais belo para a elevação do espírito. É autor de "Abissais", fantasia sombria que mescla o horror metafísico a um vislumbre de redenção. Em seus escritos, o amor cortês é o tema mais recorrente. » Instagram do Autor
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A Relíquia
Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O mundo parece cheio de bons homens, mesmo que existam monstros nele”. — Bram Stoker
Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a segurança da água corrente. Essa secular construção é um pequeno palacete assobradado, construído por monges ainda nos tempos medievais. Uma lenda sobre o local remonta a um período onde ainda havia uma fé fervorosa entre os homens. Segundo essa lenda, o Arcanjo Miguel – o Guerreiro de Deus – havia aparecido para dois pescadores na margem do rio e, apontando para uma ilha que ficava no meio das águas daquele caudaloso rio, lhes ordenara que construíssem uma fortaleza, que posteriormente serviria de abrigo a todos aqueles que buscassem a proteção da luz. São Miguel dissera ainda que aquele santuário, estando entre águas correntes, jamais poderia ser transposto por criaturas das trevas.
Esses dois pescadores buscaram auxílio entre os monges pedintes e, em menos de cinco anos, uma resistente fortaleza estava pronta. Contudo, a conselho dos Franciscanos, nenhuma ponte deveria ser construída, ligando as margens do rio àquela protegida ilha, onde agora havia o Santuário de São Miguel Arcanjo. Qualquer acesso a essa fortaleza só poderia ser feito através de barco ou a nado – para algum aventureiro que ousasse enfrentar as fortes correntezas do rio. Somente no final do século XIX, quando aquela fortaleza – abandonada há décadas – foi adquirida por um abastado comerciante inglês, é que uma robusta ponte foi construída, ligando a ilha às margens do rio. Esse rico burguês fez do antigo santuário uma aconchegante pousada e residência própria, para si e sua recém-formada família.
Esse comerciante falecera há alguns anos, deixando a pousada nas mãos de sua esposa e sua única filha. Há rumores que, além da suntuosa estalagem, deixara como herança uma faustosa fortuna para a esposa e a filha. A esposa, mesmo depois de mais de vinte anos de viuvez – e a cada dia com uma aparência mais juvenil – jamais tivera outro relacionamento, mesmo sendo cortejada por diversos homens de toda e qualquer tipo de classe socioeconômica. Com muita seriedade, mantinha sua castidade e o pleno respeito ao luto de uma forma literal, pois, além de sua moral inquestionavelmente ilibada, vestia negro dos pés à cabeça. Cecília era realmente um modelo exemplar de viúva. Talvez devido à sua idoneidade, ou quem sabe em respeito à memória do falecido marido, ninguém jamais a vira fora da estalagem desde que ficara viúva – alguns desocupados mais antigos asseguravam que nem mesmo antes –.
A pousada Eclipse era um lugar quente e confortável, desprovida de luz elétrica devido à sua posição geográfica; mantinha sua iluminação à moda antiga, à luz de velas e lampiões, o que dava ao ambiente um aspecto bastante lúgubre. Além dos odores comuns a todo e qualquer estabelecimento comercial do tipo, cheirava a fumaça de madeira de lei que queimava constantemente numa lareira, acesa a noite toda. Havia também no ar um agradável cheiro de flores silvestres. Era o tipo de estabelecimento que funcionava todas as noites sem exceção, servindo cama e comida, atendendo a qualquer um que pudesse pagar. Havia apenas uma peculiaridade estranha naquela estalagem: nenhum hóspede, independentemente de sua classe social, jamais era convidado a entrar. Quem quisesse adentrar em suas portas deveria fazê-lo livremente.
Aquela era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades. No céu, uma lua nova se despedia no horizonte, deixando atrás de si um céu sem nuvens, bastante estrelado. Com a ausência de seu mais nobre luminar, a noite se tornara escura e bastante traiçoeira para quem andasse às escuras sem conhecer o caminho a ser seguido, ou sem o auxílio de alguma luz artificial. A sorte de qualquer um que ousasse ir até a Pousada Eclipse era a luz dos vários lampiões ao longo da ponte, que iluminavam todo o caminho. Devido ao bom atendimento e à qualidade dos serviços oferecidos, a estalagem era sempre muito movimentada.
O homem no umbral da porta era alto, forte, mas com traços um tanto quanto melancólicos. Tinha olhos claros e distantes. Parecia um sujeito que havia tido uma vida inteira de infelicidade. Trajava vestes surradas, que em outros tempos teriam sido o ápice da moda; entretanto, pareciam estar carecendo urgentemente de uma lavagem há tempos. Essas vestes davam-lhe a aparência de ser um viajante de terras bem longínquas. Sem pedir licença, foi logo entrando e, quando se pronunciou pela primeira vez, percebeu-se que tinha uma voz cavernosa e sussurrante, com um acentuado sotaque das terras do Leste. Para quem conhecia, logo foi fácil perceber que seu principal idioma era o romani – antiga língua dos ciganos –. Contudo, sem muitas dificuldades, conseguia se fazer entender muito bem e foi logo dizendo:
– Boa noite, senhoras! – disse ele, dirigindo-se diretamente a Cecile e sua filha, como se já soubesse que ambas eram as proprietárias do local –. Gostaria de algo forte para beber. E se não for muito tarde e nem muito incômodo, um jantar seria muito bem-vindo.
Rapidamente, um conhaque fora-lhe servido. Após tomar de um único gole a dose oferecida, pediu que a garrafa – mesmo que já pela metade – fosse deixada sobre a mesa. Antes que a garçonete lhe pudesse dizer qualquer coisa, lançou sobre a mesa uma moeda de ouro, pagando adiantado um valor bem acima daquele que imaginava ser por uma garrafa lacrada. A jovem que lhe servira a bebida recolheu a moeda e disse-lhe:
– Seja bem-vindo à nossa humilde casa, cavalheiro! Meu nome é Lilian Leblanc. Aquela que atende no balcão é minha mãe. Seu nome é Cecile Leblanc. Estamos ao seu dispor para atendê-lo da melhor forma possível. Seu jantar será logo servido, nossa cozinha funciona durante toda a noite. O que mais duas humildes estalajadeiras podem lhe ser úteis? Senhor...?
– Rubens! Muito prazer. Eu estou bastante atrasado, terminando de jantar eu já vou embora. Como as coisas estão indo por aqui, madame?
– Alguns reclamam da crise aqui; outros, da seca acolá, e muitos comentam sobre uma tal de Depressão econômica. Mamãe e eu não nos importamos muito com o que acontece lá fora. Temos nossos fregueses cativos e nosso movimento é sempre o mesmo em todas as épocas do ano. Aqui, em nossa humilde casa, tudo ocorre na mais absoluta paz e quietude. Nossos fornecedores nos abastecem continuamente com tudo o que precisamos. Na verdade, há tempos que nem mesmo saímos daqui dessa ilha. Temos sempre muito trabalho por aqui.
– Depressão econômica! Mesmo que seja longa e castigante, não se deve, de forma alguma, ser comparada ao que foi a Peste Negra, a Átila, o Huno, ou a qualquer uma das Cruzadas. Independentemente dos flagelos, o ser humano tem um dom a resistir a qualquer coisa – disse ele, sorvendo mais uma dose do conhaque.
Madame Cecile, que servia outros fregueses no balcão, mas a todo o tempo prestava zelosa atenção naquele sinistro forasteiro, dirigiu-lhe a palavra pela primeira vez, o questionando:
– Que tipo de homem é o senhor? O que o traz à nossa humilde casa, senhor Rubens?
– Peço perdão se disse algo errado, senhora. Sou um humilde viajante em uma importante missão, a serviço de pessoas poderosas do lugar de onde venho. Não sou do tipo de homem perigoso. Sou apenas um viajante. Se o que eu disse ofendeu a senhora ou a essa casa de alguma forma, eu revogo imediatamente. Às vezes me excedo um pouco nas palavras, talvez porque ainda trago na lembrança os velhos costumes de quando eu ainda era professor de História em meu país. Por falar em História, gostaria de lhes contar uma bastante interessante, se permitirem. Quem sabe se, depois de ouvirem o que tenho para dizer, possam me ajudar de alguma forma.
Cecile, que era estalajadeira desde que conseguira alcançar a parte de cima do balcão, sempre acostumada às esquisitices de seus fregueses, deu de ombros, como se, para ela, alguém falando ou ficando em silêncio fosse totalmente irrelevante. Contudo, sabia que o que mais agradava a um viajante, além de uma cama macia, boa comida e bebida farta, era poder compartilhar suas estórias a quem quisesse ouvir. Naquela noite, havia uma dúzia de pessoas presentes, talvez até um pouco mais. Entretanto, a estória seria de maior interesse de mãe e filha.
O forasteiro enchera seu copo até a borda e o emborcou de um único trago. Após limpar a garganta, pediu licença aos presentes e principiou a seguinte narrativa.
– Antes de qualquer coisa ser dita, devo preveni-los que o que tenho a dizer possa parecer uma estória de viajante, ou até mesmo algum desvario de alguém desprovido de suas capacidades mentais. Mas quero que saibam que, da mesma forma que há a luz, também existem as trevas. E, se porventura acreditam em Deus e todas as hostes celestiais, também devem acreditar que haja o príncipe das trevas e seus seguidores – sendo também eles, anjos – que, junto com seu mestre, foram lançados no abismo e reinam naquele lugar onde a esperança não jaz...
... Alguns dizem que o primeiro deles foi Caim, por ter derramado o sangue de seu irmão na terra ainda virgem do pecado. A punição de Deus para esse primeiro homicida havia sido algo severo e exemplar. “... é maldito na terra e que esta não mais lhe dará frutos, sendo, portanto, fugitivo e errante...” Caim fora marcado e condenado a vagar pela terra, sendo eternamente perseguido pelos demais filhos de Adão. Pelo assassínio covarde de seu irmão, a Luz Divina abandonara sua fronte. Caim, uma vez órfão, havia sido adotado pelas trevas, sendo obrigado a viver nas sombras, tendo o sangue como seu único alimento. Uma vez que dera o sangue de seu irmão para que a terra bebesse, Caim e sua prole também assim o faria.
Outros, no entanto, defendem que o primeiro nosferatu foi Judas Iscariotes – o traidor. Aqueles que defendem essa teoria se baseiam nas próprias Escrituras Sagradas, que, ao mesmo tempo que está escrito que Judas, estando amargamente arrependido por ter vendido seu próprio Mestre, atentara contra sua própria vida, há rumores de que a morte – privilégio para todos aqueles que buscam conforto no sono eterno – lhe fora negada. De forma bastante obscura, as Escrituras relatam que o traidor passou a viver num lugar chamado “Aceldama”, ou seja, campo de sangue. Ninguém sabe ao certo o que fora feito do traidor, apenas que desapareceu nas sombras do esquecimento, sem deixar nenhum tipo de vestígio.
Durante séculos, as estórias sobre mortos-vivos caíram no esquecimento, até virarem lendas, e as lendas virarem mitos. Quase uma era se passara sem ninguém mais ouvir falar sobre os filhos das trevas que caminhavam na noite e se alimentavam de sangue, até surgir o príncipe da Valáquia, Vlad Tepes – o Empalador. Contudo, seus súditos o chamavam de Vlad Dracul – o “filho do dragão” – ou, simplesmente, Drácula. Esse príncipe, após perceber que sua imagem se envolvera em diversas estórias de horror e sangue e que certamente chamaria a atenção da Igreja, para evitar que uma Cruzada fosse convocada contra ele, forjara sua própria morte, e seus restos mortais teriam sido levados para a igreja de Santa Maria la Nova, em Nápoles, na Itália.
O que de fato ocorrera é que, com auxílio de alguns súditos mais fiéis que o ajudaram a forjar sua própria morte, se recolhera nas ruínas de um de seus castelos e, usufruindo de sua imortalidade, escondido nas sombras da escuridão, esperou que um longo tempo passasse, até que, por mais uma vez, sua existência caísse por completo no esquecimento.
Em fins do século XIX, essa sinistra criatura emerge mais uma vez na figura de um abastado e temido Conde, que, devido à importância de sua linhagem, não quisera abandonar nem o nome, muito menos o símbolo de seus antepassados. Esse Conde, após séculos e séculos sobrevivendo do sangue e do medo de camponeses inocentes, encontrou seu fim nas mãos de um sábio e destemido cientista holandês, que, além de médico, também era um grande estudioso das ciências ocultas e sabia como poderia colocar um fim ao reinado de terror do Conde...
O forasteiro interrompera sua narrativa, para molhar a garganta com mais uma dose de conhaque. Secou a garrafa e pediu outra, que muito rapidamente lhe fora servida. Empolgado pela atenção que recaíra sobre si e sua inverossímil narrativa, nem mesmo se dera conta de que o sabor da bebida havia mudado. Em seu momentâneo silêncio, percebeu que havia vários sussurros entre os demais presentes. Madame Cecile, sem ser indelicada e aproveitando que o viajante se calara por um momento, aproveitou a ocasião e disse:
– Certamente que o senhor fosse um ótimo professor. Mas, se não estiver enganada, pensei ter ouvido dizer que era um historiador e não um professor de Literatura...
– Ainda não terminei minha história, madame. O melhor ainda está por vir.
... O Conde Drácula, cansado de sua vida monótona em seu castelo – se alimentando de camponeses rudes e donzelas simplórias – decidira partir para a Inglaterra para expandir seu reino de terror em terras civilizadas. Seu corpo e alguns de seus bens pessoais foram transportados em um navio mercante chamado Deméter. Porém, quando esse navio chegou à costa da Inglaterra, todos os tripulantes haviam morrido durante a viagem. Os dois únicos corpos encontrados a bordo – o capitão amarrado ao leme e seu imediato crucificado de cabeça para baixo no mastro principal – estavam com suas veias vazias, sem uma única gota de sangue.
Junto ao capitão, escondido entre suas vestes íntimas, fora encontrado o Diário de bordo do navio, que, além de informações de praxe sobre a viagem e a carga transportada, também relatava a presença de um grande mal a bordo. Nesse diário estava registrada a presença de nove tripulantes a bordo em sua origem, quando o navio partiu do porto de Varna, na Romênia. Contudo, no decorrer da viagem, surgiu a presença de uma passageira clandestina, uma bela mulher que estava escondida entre a carga no porão do navio. Constava nesse mesmo diário que, desses nove primeiros tripulantes, seis deles haviam perecido de forma misteriosa durante a viagem. Um dos tripulantes e a passageira clandestina haviam desaparecido.
Pelos registros, era o médico de bordo, o doutor Clement, um médico desempregado – estudioso de astronomia, filosofia e também especialista em doenças obscuras, segundo ele mesmo – que havia ficado obcecado em caçar e matar o monstro a bordo, que, segundo ele, estava se alimentando do sangue dos tripulantes. Numa das páginas do diário, o capitão relatara que houvera uma terrível luta entre o doutor e um enorme morcego. O doutor tivera vários ferimentos graves, mas também conseguira, com uma cruz de madeira, tendo uma de suas pontas afiadas, ferir seriamente o monstro, que derramara bastante de seu sangue pelo convés do navio. Parte desse sangue fora recolhido pelo doutor, que, segundo ele, seria para análise posterior. Esse foi o último registro da presença do médico a bordo. Após o desaparecimento do médico, a passageira clandestina também não foi mais citada no diário.
O então médico, que ousara enfrentar o suposto monstro de frente, fora dado como desaparecido pela justiça inglesa. A história do Deméter fora logo esquecida – afinal, era apenas mais um navio, dentre tantos, que todos os anos a força da tempestade destruía e lançava seus destroços junto à praia. Doutor Clement, uma vez que juridicamente fora dado como desaparecido ou morto, lançado ao léu do esquecimento, de posse de parte do ouro que era transportado no Deméter e também de algo de um valor inestimável, decidira deixar de vez sua antiga vida de médico – quase todo o tempo desempregado – para trás.
Doutor Clement, sabendo que nenhuma autoridade em Londres, nem mesmo na Inglaterra – ou em qualquer outro lugar que fosse –, o levaria a sério sobre estórias de homens que se alimentam de sangue e poderiam se transformar em enormes morcegos, decidiu que o melhor a se fazer era seguir o exemplo de seu algoz e também ele mesmo, esconder-se nas sombras do esquecimento. Conseguiu novos documentos, trocou de nome e de origem, e após se mudar para o continente, iniciou uma nova vida comprando uma antiga e abandonada fortaleza, que, por séculos, funcionara como uma espécie de leprosário franciscano. Doutor Clement, durante o dia, era um simples estalajadeiro, recebendo em sua pousada viajantes de todos os cantos do mundo, sempre muito atento a todo tipo de estória contada sobre monstros e criaturas estranhas. Entretanto, durante a noite, era um incansável estudioso das ciências ocultas, enquanto sua bela e jovial esposa fazia as vezes de anfitriã do local...
Lilian, que estava próxima ao clandestino, muito interessada na estória que ele contava, após essa última parte da narrativa, se afastara sorrateiramente dele e se aproximara de sua mãe, que estava atrás do balcão com toda sua atenção voltada para o forasteiro, que, após se servir de mais uma satisfatória dose de seu conhaque, continuou:
– Segundo informações muito seguras, Maurice Leblanc – antigo doutor Clement – após ter dado um fim em sua antiga identidade, se mudara para o continente, casando-se em seguida com a estranha passageira que viajara clandestinamente na última viagem do Deméter. Essa mesma fonte me assegurara que o antigo doutor tivera uma filha, que, nos dias atuais, deveria estar com 40 anos ou talvez até um pouco mais. Pelo que ouvi, sua aparência é de alguém com vinte anos apenas. Contudo, o mais estranho de tudo isso seria o fato de sua mãe, a mesma clandestina do Deméter, nunca ter envelhecido um único dia desde o dia em que fora vista pela última vez, quando zarpara do porto de Varna.
Não tenho nenhum interesse com o que acontecera ao doutor Clement, muito menos em sua família, mas tão logo, naquilo que ele retirou do navio, quando, de uma forma bastante inteligente, tanto ele como sua futura esposa saltaram do barco na primeira oportunidade que tiveram após a hercúlea luta travada contra o monstro a bordo. Estou aqui para recuperar aquilo que as pessoas que me contrataram chamam de “Relíquia”. Ou seja, um frasco contendo parte do sangue do Conde Drácula. Essas pessoas a quem me refiro são bastante poderosas e, há tempos, investigam o paradeiro do doutor Clement. Após décadas de sigilosas investigações, suas informações, obtidas por fontes bastante seguras, me trouxeram até aqui.
Há rumores de que, com a morte do Conde, os outros de sua espécie perderam parte de seus poderes. Não conseguem mais transformar outros seres humanos, já não possuem o poder do rejuvenescimento e muito menos o de autorregeneração. São decrépitas criaturas se escondendo nas sombras, sobrevivendo como ratos nos esgotos. Contudo, acreditam que, com o sangue do Conde, qualquer um que o possua poderá tornar-se um mestre vampiro com todos os poderes de outrora. Ou quem sabe, até mesmo, trazer o próprio Conde de volta das profundezas do inferno.
Não tenho certeza se isso seja possível. Mas, por todas as coisas que já vi e ouvi nesse mundo, já não sei se a palavra "impossível" tem mais algum significado. Apenas tenho a plena certeza de que, se Drácula conseguir retornar ao nosso mundo, virá mais forte do que nunca e arrastará todo o ódio dos anjos caídos consigo. Alguns imaginam que, quando Drácula foi morto, assim que chegou àquele lugar onde a esperança não existe, fora recepcionado com honras de Estado, e o lugar à direita do Príncipe das Trevas lhe fora oferecido...
O forasteiro se calara e ficara observando qual seria a reação dos que estavam ali presentes. Seu maior interesse era como mãe e filha agiriam ao ouvir sua história. O que viu e ouviu o deixou bastante irritado, pois toda a estalagem caíra numa grande algazarra. Gargalhadas e gracejos por todos os lados. Uma das mulheres dentre a clientela se molhou de tanto rir. Madame Cecile, após conseguir com muita dificuldade conter o riso, disse ao forasteiro:
– Prezado senhor Rubens, ou seja lá qual for seu verdadeiro nome. Sua história foi realmente fantástica. Nesses dias em que qualquer escrito vira uma obra literária, o senhor bem que poderia virar escritor e, quem sabe, até ganhar aquele prêmio... Como é mesmo o nome?
Alguém dentre os presentes gritara do fundo do salão:
– Nobel!
– Isso mesmo! Prêmio Nobel. Realmente sua imaginação é muito fértil, senhor. Mas, como sou uma boa anfitriã e busco sempre agradar a todos os meus fregueses da melhor maneira possível, não o deixarei vagando sozinho ao léu, como se fosse uma pessoa desequilibrada. Tentarei, dentro de minhas faculdades mentais limitadas, participar de seus devaneios.
Houve mais um turbilhão de gargalhadas por todo o salão.
– Quanto à então "Relíquia", não se preocupe, ela está bem segura aqui dentro dessas paredes. Neste antigo Santuário, nenhuma criatura das trevas pode entrar livremente, exceto se for transportada por um ser inocente. Nenhuma alma viva ou qualquer coisa que caminhe na luz ou nas sombras jamais colocará suas mãos nessa tal Relíquia. Dou-lhe minha palavra...
Ainda bastante irritado, após tentar se levantar e suas pernas não responderem ao seu comando, questionou ele a madame Cecile:
– Como pode ter tanta certeza disso?
Após dar uma gargalhada tão alta que chegou a abalar todas as estruturas da estalagem, causando um silêncio geral em toda a casa, ela lhe respondeu:
– Qualquer coisa, para ser tocada, antes precisa existir. Garanto-lhe que tal coisa, se um dia existiu, não existe mais. Se essa tal Relíquia tivesse existido de fato, com todo esse poder que o senhor imagina, certamente eu já o teria usado em meu benefício há muito tempo...
Alguns dias depois, um destacamento da polícia fez uma batida na Pousada Eclipse à procura de um viajante que fora dado como desaparecido e fora visto pela última vez entrando naquele estabelecimento. Madame Cecília alegara que nada sabia sobre esse fato. Autorizara que toda sua casa fosse revistada e, com um sorriso muito inocente na face, oferecera aos policiais uma rodada de bebidas por conta da casa. O chefe daquela operação, encantado com a beleza e simpatia de Madame Cecília, não apenas aceitara a bebida oferecida, bem como solicitara humildemente mil perdões por tão inconveniente incômodo, ordenando que aquela missão fosse imediatamente dada por encerrada...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Quando os deuses se cansam
No alto de um dos galhos eternos da Yggdrasil, a grande árvore que sustenta os nove reinos, duas figuras antigas contemplavam o vazio. Acima delas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
(Adaptação do conto “A Carona”)
No alto de um dos galhos eternos da Yggdrasil, a grande árvore que sustenta os nove reinos, duas figuras antigas contemplavam o vazio. Acima delas, Asgard reluzia em sua glória estagnada; abaixo, Midgard pulsava com o caos dos mortais. Entre um mundo e outro, o tempo parecia hesitar, preso a num suspiro prolongado dos deuses.
Elas já haviam cruzado cada trilha dos nove domínios — de Niflheim, gélido e sombrio, até o abrasador Muspelheim. Conheciam os segredos de Alfheim e os lamentos de Helheim. Cada canto da existência havia sido explorado, sentido, moldado... e, com o passar das eras, perdera seu sabor.
Nada mais surpreendia: nem a fúria dos guerreiros em Vanaheim, nem a sabedoria dos anões em Svartalfheim. Tudo era apenas repetição. Mesmo os ecos do passado, que antes traziam nostalgia ou orgulho, agora não passavam de ruídos distantes.
Em silêncio, uma delas ergueu os olhos para os céus de Asgard, como quem procura um presságio. A outra voltou-se para Midgard, onde o coração humano ainda batia com força e imprevisibilidade. Havia algo ali — algo incerto, caótico, tolo, talvez... mas vivo.
E, naquele instante, sem dizer palavra alguma, ambas compreenderam: era tempo de descer.
**
Matias dirigia tranquilamente pela estrada deserta, após seu primeiro encontro com Paula. Havia alcançado uma sintonia bem interessante com a moça, o que lhe deu bons pressentimentos sobre um possível relacionamento. Ouvia Black Sabbath em volume baixo para seus padrões, pois não pretendia suprimir os pensamentos a respeito do date maravilhoso de algumas horas antes.
Após passar por um trecho com uma curva sinuosa, foi obrigado a frear bruscamente. O carro ancorou no chão como se houvesse batido em uma parede invisível, deixando seu corpo dolorido. À sua frente, estava uma jovem loira, que aparentava ter uns 20 anos. Vestia um jeans imundo, uma camiseta amarela rasgada e pincelada com manchas de várias cores e tons — sendo a maioria nuances de vermelho.
Olharam-se por alguns segundos e, enquanto ele tentava entender a situação, ela correu até seu carro, abriu a porta do passageiro, entrou e gritou desesperadamente:
— Vai logo, ela está vindo!!!
Matias, ainda atormentado pelo susto, olhava para o nada, e mais uma vez a jovem gritou, enquanto puxava a cabeça dele pelo queixo em sua direção, a fim de se fazer entender:
— Você é idiota, cara? Vai logo, vamos sair daqui agora!!!
Matias despertou do transe em que se encontrava e, ainda sem compreender muito bem a situação, arrancou com seu carro potente, deixando para trás uma mistura de mistério, poeira e fumaça. Após alguns minutos na estrada, e percebendo que não havia ninguém os seguindo, foi recobrando a consciência e perguntou incisivamente:
— Que porra foi essa? Quase não consegui parar o carro, garota. Você poderia me dizer o que caralhos tá acontecendo?
— Eu estava fazendo uma trilha, me perdi na mata e encontrei uma pessoa estranha vestida de preto. Foi isso! — disse, despretensiosamente.
— Tava sozinha?! — perguntou indignado.
— Sim.
— Você é maluca? Fazer trilha num lugar desses... e sozinha!
— Eu sempre fiz isso e nunca aconteceu nada.
— Nunca acontece nada, até que um dia acontece, né?
— Pode ser... — Respondeu, dando de ombro.
Matias não conseguia esconder seu mau humor, todos os seus pensamentos sobre uma noite agradável haviam sido sugados por um problema que não era dele, mas ele não podia deixar a moça sozinha na estrada. Decidiu encontrar um lugar seguro para deixá-la e depois iria embora antes que “sobrasse para ele”.
— Você tem um cigarro? — perguntou a jovem.
— Não, eu não fumo.
— Como assim? Com essa cara e não fuma?
— Quê? “Com essa cara” — repetiu indignado — o que você quer dizer com isso?!
— Bem, olha o que você escuta, olha para suas roupas e tatuagens... pensei que fosse um drogado. — Ela respondeu com uma risada sarcástica.
— Cara, você só pode ter problemas. Eu estou te ajudando e você vem zombar da minha cara? Sua sorte é que minha mãe sempre me ensinou a respeitar e cuidar das mulheres, senão eu ia te jogar pra fora do carro!
— Ei, calma garotão, eu tava brincando — disse levantando as mãos em sinal de rendição, tentando apaziguar a situação desagradável que havia gerado — Aff, você está muito estressadinho!
— Nossa, como você é engraçada...
— Tudo bem, isso foi péssimo mesmo. Vou tentar me redimir com você. Eu também curto esse tipo de música e tenho tatuagens, mas, ao contrário de você, eu curto uns “negócios a mais” ... Se é que você me entende. Aliás, posso usar aqui?
— Eu não disse que não curtia uns baratos, eu só disse que não fumava. Mas usa, ué... O que é que você tem aí?
— Ahhhh, é algo muito diferente de tudo o que você já viu. Eu mesma criei. — Respondeu com um sorriso soberbo e uma piscadela cúmplice.
— Tá, mas o que tem aí?
— Aí você teria que experimentar...
— Tá de sacanagem? Como eu vou usar um negócio que eu nem sei o que é?
— Só vai saber se usar...
Matias permaneceu irritado. A moça era enigmática demais, e ele não gostava desse tipo de interação, pois preferia tudo “preto no branco”, como costumava dizer. Resolveu ficar calado enquanto ela consumia a substância que, diferente das outras que ele estava acostumado a ver, era aplicada na pele como um creme hidratante.
Ela foi entrando, gradativamente, em um estado letárgico, o que deixava Matias ainda mais curioso — mas não a ponto de decidir usar, porque queria chegar logo em casa. “Esta noite infernal tem que terminar!”
Horas e horas de viagem e a estrada parecia não ter fim. Pensou estar perdido, mas não conseguia consultar o GPS, pois o celular havia descarregado. A moça permanecia quase inerte, despertando de vez em quando para reaplicar o “creme”.
O sono começou a bater forte. Matias aumentou o volume e tentou cantar para espantá-lo, mas estava ficando cada vez mais difícil manter-se acordado, precisava de um estimulante o quanto antes, mas naquela maldita estrada, não aparecia um posto de gasolina ou qualquer outro estabelecimento aberto àquela hora.
Depois de um tempo imensurável a estrada foi ficando iluminada por luzes fluorescentes piscantes e Matias imaginou que seu cérebro estava lhe pregando uma peça, então parou o carro no acostamento e começou a chorar desesperadamente.
— Que caralho tá acontecendo? — gritava ele, enquanto esmurrava o volante.
— Essa sensação é boa, né? — a jovem o olhava sensualmente, com um olhar simultaneamente penetrante e gélido.
— Quê? Cara, eu tô cansado e com sono, o que me deixa ainda mais sem paciência. Como isso pode ser bom?
— Você não está com sono... Você só está morrendo, bobinho. Rs.
— Morrendo??? Para mim, já deu! Saia agora do meu carro!!!
— CALA A BOCA!!! Já cansei de você! Você só reclama e reclama, não sabe aproveitar o presente que lhe foi dado... vamos acabar logo com isso então!
Ela abriu a bolsa, retirou outro pote, abriu a tampa e enfiou os dedos, retirando uma quantidade considerável de outro creme, de aspecto avermelhado, e passou no rosto de Matias. Ele começou a gritar desesperadamente. Luzes fluorescentes piscaram por um tempo impreciso, e então, se apagaram. Escuridão. Após suas pupilas se reajustarem à luz natural do luar percebeu que estava preso nas ferragens do carro. Paula jazia ao seu lado, a cabeça caída de uma forma humanamente impossível, mas ainda “ligada” ao corpo por uma fina camada de pele.
Em seus últimos respiros, Matias entendeu que havia batido contra uma árvore e que aquele era seu fim.
Ao lado da janela dele, estavam a jovem de camiseta amarela e uma outra vestida de preto, com metade da face cadavérica, ambas acenaram e riram descompassadamente enquanto falavam:
— Eu falei para você experimentar a outra substância, pelo menos teria morrido em paz... — disse a jovem de amarelo, dirigindo-se a Matias.
— Mas eles sempre insistem em ficar sóbrios até o fim haha. — disse a de preto enquanto virava-se para a outra — Freya, você insiste em inovar, mas acho que prefiro fazer como antigamente.
— Ah, Hela, mas era tudo tão rápido, sem diversão nenhuma... Olha a carinha de desespero dele. E olha como você está estilosa, mesmo insistindo no preto, mais sorridente e sem aquela roupa sem graça. Você precisava disso!
— Que seja! Eu estava entediada mesmo... Só acho asqueroso você ficar se esfregando com essa massa mórbida nojenta feita dos restos deles. Vamos embora, ainda há muito o que fazer por aqui.
E os ruídos finais de Matias foram embalados pelas risadas de escárnio das deusas. Estavam apenas começando a experimentar as novas sensações que as mortes e os corpos humanos poderiam lhes proporcionar... E ainda havia uma longa estrada à frente...
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Vidente
Numa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, após o término da missa, que aquele apaixonado casal frequentava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios...”.
I Coríntios 13,2
Numa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, após o término da missa, que aquele apaixonado casal frequentava regularmente todos os domingos, Odete, a dedicada esposa, participara ao marido seu desejo de consultar as cartas para ver o que o futuro reservava para eles três — estava esperando a chegada de um novo integrante da família antes que aquele ano terminasse. No caminho entre a igreja e sua casa, havia uma loja esotérica onde uma velha cigana atendia regularmente todos os dias, pois, nos fundos da loja, também ficava sua residência. Quem a conhecia — e até mesmo quem tenha usufruído de seus serviços — atestava que ela era uma pessoa de sabedoria incomparável e vidência inquestionável.
— Meu amor... Tenha piedade de minha falta de paciência e de meu suado ordenado. Quantas vezes já falamos sobre esses charlatães, que sobrevivem como parasitas da inocência de pessoas de mentes influenciáveis? Até onde se sabe, ninguém pode viajar no tempo — seja no passado ou no futuro —, sendo assim, prever o que está por vir é algo impossível. Não duvido de forma alguma que aqueles que vivem de fazer previsões o tempo todo, uma vez ou outra, venham a acertar alguma coisa. É como jogar na loteria: quem insiste em suas apostas um dia tende a tirar a sorte grande. — Disse Adalberto de forma bastante carinhosa, para não aborrecer a esposa, que estava vivendo dias bastante delicados para ter qualquer tipo de contrariedade.
— Não estou dizendo que seja verdade, meu bem. Nem mesmo que eu vá acreditar em nada do que ela disser. Estou apenas curiosa. E não se preocupe com seu suado ordenado, eu mesma pagarei pela consulta. — Disse, um tanto quanto irritada com a avareza do marido.
Adalberto, percebendo que a esposa mudara suas feições, mais do que depressa se desculpou e, conduzindo-a pelo braço, logo se dirigiu à porta da loja. O estabelecimento seguia os rígidos padrões desses tais locais de ocultismo: uma fachada em madeira escura, portas de vidraças com cortinas de miçangas e outros penduricalhos servindo de cortina, e um forte cheiro de incenso impregnado no ar. Assim que abriu a porta da frente para que a esposa entrasse, um sino tocou sinistramente sobre o umbral, avisando à cigana a entrada de novos clientes.
A mulher que veio atendê-los era uma impressionante criatura de prateados cabelos, presos numa bela e volumosa trança toda adornada de miçangas e algumas joias. Sua face exibia uma caprichada maquiagem que lhe dava uma aparência bem jovial, apesar de que suas mãos — bastante enrugadas — dissessem o contrário quanto à sua verdadeira idade. Diferente das mulheres mais velhas que Adalberto conhecia, com seus desagradáveis odores de vários tipos de cremes com cheiros diferentes, todos usados ao mesmo tempo, para sua surpresa, ela usava um agradável perfume com suaves notas de flores silvestres e, quando se dirigiu a eles, não tinha o tipo de voz rascante que ele imaginava que todas as videntes teriam, devido ao uso indiscriminado de tabaco.
— Bom dia, adorável casal. Sejam muito bem-vindos à minha humilde casa. Todos me conhecem como Madame Simone, mas podem me chamar da forma que melhor lhes agradar. Em que poderei ser útil a vocês?
— Bom dia, Madame Simone. Se não for incômodo, gostaríamos que consultasse as cartas sobre o que o futuro reserva para nós três. — Disse Odete, alisando sua enorme barriga.
A cigana lhe dirigiu um sorriso encantador e, como soubesse do ceticismo do marido, quis deixar claro a lisura de seu trabalho, dizendo de forma bastante convincente:
— Posso lhes atender de muito boa vontade, com conselhos espirituais, indicações de ervas e pós medicinais para o alívio de algum mal-estar ou até mesmo lhes vender alguma mercadoria de minha humilde loja. Contudo, prever o futuro, infelizmente, não sou capaz, e acredito que ninguém o seja. Não vou negar que, vez por outra, consultamos as cartas, as linhas do destino que todos têm nas mãos e outras coisas mais. No entanto, jamais podemos nos deixar levar por esses presságios; afinal, nosso futuro é fruto de nossas escolhas aqui no presente.
Odete ficou bastante maravilhada com a retórica de Madame Simone; quanto a Adalberto, ficou sem palavras, pois esperava que ela fosse imediatamente lhes extorquir uma substancial quantidade de dinheiro com sinistras profecias de um obscuro e trágico futuro. Completamente desarmado quanto às intenções da cigana, começou a olhar sem muito interesse para uma mercadoria e outra, pegando uma coisa aqui e outra acolá, quando ouviu Odete dizer que, mesmo assim, se não fosse incomodá-la, gostaria que ela lhe tirasse a sorte, fosse essa verdadeira ou não.
Madame Simone pediu que eles a acompanhassem até uma saleta contígua. Era um ambiente odorífero bastante agradável, com uma iluminação leve, quase em penumbra, que trazia certo obscuro charme ao lugar. No centro desse pequeno ambiente havia uma mesa redonda forrada com um belo pano escarlate, com um sorridente sol dourado bordado no meio. Ao redor dessa mesa havia quatro cadeiras em madeira trabalhada, de encosto baixo, na altura da metade das costas, com assento em veludo verde, que dava um toque de requinte ao conjunto da mobília. Assim que Odete e o marido entraram na pequena saleta, a cigana fechou a porta atrás de si e solicitou que os dois se sentassem, também se acomodando de frente a eles.
Uma vez sentados, Madame Simone pegou um baralho e, após uma breve prece com o conjunto de cartas encostado em sua fronte, mais uma vez lhes avisara que não levassem ao pé da letra o que fosse dito ali naquela mesa. De olhos fechados, baralhou as cartas, sussurrando algumas irreconhecíveis palavras num dialeto muito estranho e num tom praticamente inaudível, mesmo para o casal que estava à sua frente, que só sabia que ela estava dizendo alguma coisa pelo fato de seus lábios se moverem, como se ela entoasse uma canção. Logo que as cartas pareciam estar prontas, entregou o baralho para Odete e pediu que ela cortasse o pacote e escolhesse qual das partes gostaria de ver. Com as mãos um tanto quanto trêmulas, Odete partiu o monte ao meio e entregou a parte da esquerda à cigana, dizendo de forma maliciosa:
— Quero essa parte por ser o mesmo lado que fica o coração e também por representar nós, as mulheres, únicas criaturas no universo com possibilidade de dar continuidade à perpetuação da nossa espécie.
Madame Simone deu um leve sorriso, como se concordasse totalmente com ela e, assim que pegou as cartas, distribuiu sete delas sobre a mesa, o que fez com que Adalberto se manifestasse de imediato:
— Por que apenas sete?
— Além de ser um número celestial citado em várias partes das Escrituras Sagradas, como as sete trombetas, os sete selos etc., é também considerado o número da Perfeição Divina, pois no sétimo dia Deus descansou de todas as suas obras. Para nós, os ciganos, representa a sabedoria, a intuição e a capacidade de se adaptar a todas as situações. Sete cartas são mais do que suficientes para aquilo que pode ser mostrado, porque nem tudo nos é revelado. — Disse ela de forma bastante fria, demonstrando estar desapontada por ter sido interrompida.
Assim que a cigana foi desvirando as cartas uma por uma, explicava o significado de cada uma delas. Ao final, estavam viradas sobre a mesa: O Louco, A Roda da Fortuna, A Sacerdotisa, O Julgamento, A Torre, O Enforcado e O Carro. Odete ficou intrigada, pois a maioria trazia em si como significado viagem e mudanças repentinas. A cigana, tentando deixá-la mais tranquila, disse-lhe que as mensagens muitas vezes eram metafóricas, mas, estando ela grávida, certamente haveria mudanças radicais em sua vida e possivelmente algumas viagens também. Disse ainda que ela ficasse tranquila, pois as cartas demonstravam que tanto ela quanto sua filha estariam bem por um longo período de sossego e muita prosperidade.
— E quanto a mim? — questionou Adalberto, curioso.
— As cartas não foram tiradas para você; mesmo assim, uma delas diz que você estará em paz. — Disse a cigana com um ar bastante irritado, primeiro por achar que ele estivesse zombando dela, pois, a cada carta virada, ele dava um sorriso debochado e revirava os olhos; segundo, porque sabia de seu ceticismo; e, por último, por sua evidenciada sovinice, mesmo sendo ele um homem rico e muito bem-sucedido.
Odete pareceu se dar por satisfeita em saber que tudo estaria bem, tanto com ela mesma como com sua amada família. Seu temor era se deparar com algum tipo de profecia aos moldes das peças de Sófocles. Como forma de demonstrar sua gratidão pelos serviços prestados pela cigana, comprou uma sacola cheia de toda espécie de bugigangas e, quando quis pagar pela consulta às cartas, Madame Simone de forma alguma quisera receber, dizendo, por fim:
— Sua satisfação já é uma grande paga pelos meus serviços e, como disse seu gentil esposo: “... não passam de charlatães e parasitas quem vive da boa-fé alheia...”.
Tanto Odete como o próprio Adalberto ficaram boquiabertos quando ela dissera aquelas últimas palavras, já na porta, despedindo-os. Saíram os dois de cabeça baixa, bastante envergonhados pela conduta do marido, que, segundo Odete, sempre falava mais do que devia. Depois de caminharem certa distância da loja, como se temessem que a cigana ainda pudesse ouvi-los, Adalberto, num sussurro quase inaudível, dissera:
— Como ela poderia saber o que eu disse ou deixei de dizer, uma vez que ainda estávamos fora da loja?
— Sinceramente, não consigo te explicar. Apenas sei que: “... há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia...” e que esses ciganos sabem o que dizem.
Continuaram caminhando lentamente por mais alguns quarteirões antes de chegarem até sua casa. Estando eles já na porta de sua residência, assim que Odete se sentou numa cadeira ao lado da porta, ainda na varanda, enquanto ele pegava as chaves para abrir a porta, Adalberto se lembrou que estava sem cigarros e disse que ela o aguardasse ali mesmo, enquanto ele atravessaria a rua e os compraria na loja da esquina. Estava ela bisbilhotando a sacola de compras quando ouviu uma terrível frenagem de pneus e um forte estrondo de metal se chocando contra uma árvore. No entanto, o acidente não era entre um veículo e uma árvore.
Adalberto, além de ser filho único e herdeiro de uma esplêndida fortuna, tinha um pomposo seguro de vida, fato esse que tornou Odete uma viúva muito rica, podendo, ao lado da filha que nascera bastante saudável, desfrutar de uma vida próspera e muito sossegada, como dissera a cigana, que também não mentira ao afirmar que Adalberto estaria em paz. Porque as cartas não mentem jamais: conseguem ver o passado, o presente, o futuro e até um pouco mais...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…