Onírico

Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da…

Arte de Henry Fuseli, edição de Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da arquitetura vitoriana. Despedi-me de meus pais com o remorso corroendo meu peito, mas sabendo que eles tentaram de tudo, e no final acabei compreendendo a decisão deles. Fui recebido por uma equipe formada por dois médicos, três enfermeiros e um auxiliar; eles me levaram para conhecer as instalações (que, aliás, não eram lá essas coisas), mas isso não me importava, contanto que eu melhorasse dessa terrível condição. O prédio, por dentro, parecia ter parado no tempo; o forte odor de desinfetante com pano sujo pairava pelo ar, presente em cada cômodo.

Subimos um grande lance de escadas — não sei explicar, mas senti-me observado. No fim dos degraus, vi um grande portão de ferro com severas marcas de corrosão; após atravessá-lo, deparei-me com um colossal e alto corredor, mal iluminado por luzes amareladas oscilantes. O piso de ladrilhos azuis perdera a cor, assim como a meia parede de azulejos verdes. Conforme caminhava, vi outros pacientes em seus leitos; gritos e risadas se misturavam, causando calafrios — outras portas permaneciam fechadas — até que paramos. Vi então a maciça porta de madeira onde resquícios de tinta branca resistiam ao inexorável tempo; olhei mais acima e vi o número 106, em ferro, no centro dela. Uma minúscula janela de vidro, impregnada com décadas de sujeira — algumas manchas eram marrons escuras, semelhantes a sangue —, esse pensamento me assombrou.

A porta rangeu; meus olhos passearam pelo cômodo. À esquerda, próximo à porta, encontrava-se uma mesa com duas cadeiras, ambas brancas. À minha frente havia uma claustrofóbica janela gradeada e, abaixo dela, uma cama robusta de ferro decorada com faixas de contenção fixas na lateral. Caminhei até a janela, onde contemplei um belo jardim com árvores frutíferas, gramas podadas e alguns bancos dispostos. Desejei respirar o ar puro…

Por mais que aqui houvesse pessoas transitando o tempo todo, este lugar exalava desesperança — semelhante ao umbral onde incontáveis almas padecem em eterna agonia, esperando para serem salvas. Esse pensamento trouxe uma sensação perturbadora: será que um dia sairei daqui?

Uma leve vertigem apoderou-se de mim; do alto da minha testa surgiram tímidas gotículas que logo formariam uma nascente. Conseguia ouvir os batimentos em descompasso. Antes do inevitável desmaio, os enfermeiros me puseram na cama; devido à minha agitação, deram-me um calmante via oral e disseram que havia guardas lá fora para uma possível necessidade. Assim que eles saíram, acenei para os guardas — mas as amarras me causaram calafrios. Esperava adormecer o quanto antes; não demorou para o sono vir.

Em algum momento daquela noite, acordei agitado. Não vi ninguém lá fora; gritei por socorro, mas minha voz se perdia no vazio. Continuei tentando. Minha respiração falhava como se houvesse um peso em meu peito — como na pintura Pesadelo, de Henry Fuseli. Fechei os olhos e fiz o exercício de respiração; no passado, funcionava.

Respirei novamente e gritei do fundo das minhas entranhas. Para minha sorte, os guardas retornaram e, com agilidade, seguraram meu corpo que se debatia com violência; em poucos minutos, o restante da equipe havia chegado. Durante os primeiros socorros, presenciei algo medonho: uma sombra disforme surgia por trás da porta, espalhando uma horrífica luz arroxeada. Não poderia ser… seria a mesma figura que tanto me assombrara na infância? Neste momento, uma certa frase ecoou em minha mente: "Está tudo bem, Pedro — foi apenas um pesadelo. Vamos rezar para que tudo fique bem, certo, filho?"

Desta vez, o horror era verossímil demais para ser um pesadelo. O nefasto brilho ocupou todo o cômodo até que a figura adentrou o recinto: era esguia, corcovada, cinzenta, quase translúcida, mas também opaca. No rosto, dois enormes e enegrecidos olhos que pareciam devorar minha alma, e um sorriso medonho repleto de dentes afiados. O medo ancestral abraçou meu trêmulo corpo. Rapidamente os enfermeiros colocaram as amarras para conter os espasmos; os gritos tornaram-se guturais. Relatei o que estava vendo e eles se entreolharam, balançando a cabeça em negação. Lá fora, uma sirene tocava constantemente.

Percebi mãos em meu pescoço — havia a chance de alguma lesão. A cama gemia; os gritos se misturavam com frases desconexas; pupilas dilatadas em frenesi.

— Ele está perdendo a consciência — inicie a massagem cardíaca. Vamos, rápido, não podemos perdê-lo — um dos enfermeiros falou.

A massagem pareceu funcionar. Pela visão periférica, vi-a se aproximar e pousar os olhos nos meus; a agulha perfurou minha pálida pele — o líquido ardeu em minhas veias. Rapidamente o medicamento fez efeito; minhas pálpebras pesaram. Entretanto, a maldita figura permanecia ali, assim como aquela tenebrosa cor.


Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Azulíneo

A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A lembrança etérea me faz companhia enquanto sigo floresta adentro; meu instinto diz para não voltar ao Castelo, não sei explicar o motivo, talvez intuição ou simplesmente para sanar essa curiosidade obsessiva pelo desconhecido. Sutilmente, o cenário mudou; elevei meus olhos e senti um calafrio, as nuvens se dissiparam, o céu agora vestia um assombroso manto azulado, tinha também aquele brilho insólito das estrelas.

Em determinado trecho, escuto algo longínquo, como um sussurro, talvez seja apenas o vento; caminho com mais afinco enquanto o som reverberava no interior dos meus ouvidos, porém sou forçada a cessar os passos, pois perante a mim se encontra uma altíssima muralha de difícil acesso, composta por galhos e folhas de diferentes espessuras entrelaçados, coberto por musgos e líquens. Tentei enxergar sua altura, logo fui acometida por uma leve vertigem; me recomponho e vou ao seu encontro.

Aquele vislumbre arrancou gemidos inexprimíveis, aguçando ainda mais minha curiosidade; preciso atravessá-lo, os musgos dificultam a passagem, mas persisto. Então senti o gentil toque da brisa fresca em meu rosto, ela era úmida como se eu estivesse próxima de algum mar. Não estava preparada para tal paisagem, meu colo pulsa em desassossego diante de tamanha beleza. No passado presenciei este mesmo fenômeno da bioluminescência quando estive com a doce Ameritt na biblioteca, porém isto aqui é incomparável, este viridário é de uma beleza aterrorizante! Seu brilho alterna entre um pálido-anil e azul-turvoso, há também uma enigmática nevoa do mesmo tom terrífico.

Lembro de achar fascinante o processo no qual envolve a molécula luciferina e a enzima luciferase, resultando neste fenômeno de tirar o fôlego. Sinto que estou mergulhando no abismo oceânico, onde criaturas inimagináveis habitam a mais profunda escuridão. Tanto a flora como fauna são horripilantes, ali vida e morte coexistem; essa dualidade causa um grande incômodo, ora se vê um jardim exuberante, já outras vezes vê-se flores em decomposição, desafiando os mais sábios mestres alquímicos como Paracelso.

Além deste aspecto obscuro, elas executam uma dançar terrífica, orquestrada pelo nefasto azulescer. Porém, uma espécie endêmica é predominante, detentora de uma beleza extraordinária; as folhas verde oliva abraçam todo o caule e parte do cálice de pétalas externo é totalmente negro, contrastando com seu interior carmesim brilhante; são curvilíneas e levemente pontudas — lembrei das enigmáticas flores de Ovaeren que também escondiam em seu interior sua verdadeira beleza escarlate.

Imagino que possa existir um grimório oculto de botânica, catalogando todo espécime de plantas e suas respectivas finalidades. Enquanto divago, algo paira pelo ar, como materialização de um ectoplasma, vem ao meu encontro. "Será uma carta?” — Meu pensamento ecoa no ímpeto azul, assisto o objeto pousar em meus pés; abaixo-me para pegar e tenho a confirmação: é um fragmento de um mapa geográfico. Deduzo ser um gráfico grandioso pelas linhas incompletas, confeccionado em papiro, demonstra a região em que resido. Meus olhos decaem sobre o registro com extremo fascínio.

Aos arredores do Castelo está o Jardins de Olga — parece ser minha atual localização. Minha imaginação se perde nas linhas inacabadas, aquele lugar se tornou ainda mais tangível. Um nome que me causou grande tormenta, a “trilha do nevoeiro ramoso”, anteriormente pude presenciar a presença assombrosa do nevoeiro envolvendo o Castelo, bem como o arranhar dos galhos sob a superfície áspera das inúmeras pedras — tal lembrança me causa calafrios.

Vejo também duas vilas povoadas, as quais: Séttimor — a qual ouvi histórias a seu respeito; e a outra é a Vila Nemonium, no meio delas se encontra os Bosques Núridos, mais à frente uma região montanhosa chamada de Cimos Nevados. Meus olhos saltam ao ler: “Rio Bioluminescente de Magöhorror” — ele atravessa a área de montanhas. Vejo também a área de desertos chamada de “Dunas Múrmuras” e, no meio da região, um pequeno desenho sobressai e me faz estremecer: uma ilha indica um oásis. Ergo o mapa na altura dos olhos, traço os pontos cardeais com os dedos, e inicio minha peregrinação ao rio da Bioluminescência, sabendo que desta vez terei um norte para seguir. Seguro o mapa como se minha vida dependesse dele — o que não deixa de ser um fato.

Este lugar está começando a me afetar, talvez seja por conta do fúnebre flúmen que esparge pelo ar. Olho ao redor e vejo uma horrenda mudança nas flores: no lugar das deslumbrantes pétalas carmim, rostos pálidos disformes, com olhares vazios, são emoldurados por pétalas fúnebres num azul indescritível; por fim, um brilho metálico contorna cada uma. Elas parecem entonar lamúrias, como uma espécie de coral fúnebre. Acelero os passos, enquanto os olhares dos rostos me encaram; ao longe o calmo quebrar do mar ecoa. Checo o mapa e sigo a Leste, acredito que seja a maneira mais rápida de chegar ao Rio Bioluminescente.

Continuo ouvindo o fúnebre cântico; quando a brisa me surpreende trazendo consigo silenciosas gotículas que tocam meu rosto, imediatamente lembro dos incontáveis banhos de chuva tomados na adolescência, quando eu abria o portão e, com os pês descalços, corria pelos escorregadios paralelepípedos. Engulo amargamente aquela memória, não tenho mais espaço em minha galeria para ela. Melancólica, caminho, e acabo encontrando a estranha flor, porém estava diferente, tinha se fechado, assumindo uma forma de um coração anatômico. O tom carmim voltara a ser predominante, as pontas ficaram mais rígidas, pode ser apenas seu ciclo natural, ou algum fator mágico.

Fito novamente o vertiginoso firmamento, enquanto ele conduz minh’alma para um espiral de infindáveis horrores; essa cor traz à tona coisas adormecidas como culpas, arrependimentos, lembranças amargas e pensamentos que habitam as profundezas do meu âmago.

“A imortalidade é uma mera ilusão” — a frase escapa de meus lábios apáticos, enquanto isso, presencio mais uma transformação da misteriosa rosa: agora ela desabrochou por completo, suas pétalas traziam uma tonalidade de vinho-profundo, eram finas, alongadas e espinhosas. Essas transformações eram intrigantes, abaixo-me para observar melhor, tinha uma beleza obscura, queria estudá-la, porém tenho que partir. O familiar som das ondas me faz andar mais rápido, alcanço então as margens onde as calmas ondas beijavam com ternura os alvos grãos de areia; há também uma embarcação ancorada que já teve seus dias de glória, do modelo cúter. Aproximo-me dela e, no casco, tinha um nome: “Veleiro de Allant Clirrathz”.

Media por volta de dez metros de comprimento, um único mastro sustentava as duas velas amareladas feitas de poliéster, já desgastadas em certas partes. Em certas partes, cautelosa, adentro no veleiro; arrepios percorrem meu corpo, imagino as inúmeras pessoas que velejaram neste barco; será que foram testemunhas do inimaginável? O que descobriram sob estas águas negras...?

A embarcação fora erguida em cedrinho muito bem estruturado, ainda se via as pinceladas de verniz; havia um alçapão abaixo das velas e eu fui em sua direção, levantei sua pesada porta, desci alguns degraus. Lá encontrei uma simples pia, à direita um pequeno armário com alguns utensílios para cozinha, na esquerda uma cama com uma sutil mesa de canto, por fim um banheiro.

Nunca velejei antes; o pouco que conhecia foi através de livros. Subo os degraus, caminho até a proa e contemplo o imponente do céu azul neon, iluminando as águas negras. Vou para a popa, ligo o motor e, trêmula, seguro o leme; estou entregue ao destino, espero que ele seja gentil comigo.

Por incrível que pareça, o som do mar acalma meus demônios; em contrapartida, a solidão é avassaladora, o vazio consome minhas entranhas. Vasculho o bolso e tiro o mapa; será que me arrisquei nesta jornada? Talvez fosse melhor contornar os Bosques Núridos, cruzando as áreas montanhosas até finalmente chegar no tão desejado Rio da Bioluminescência... Mas espera, por que não vi isto antes? Quase no final do mapa, havia um nome que me fez tremer: “Oceano Sem Fim”. Logo abaixo estava escrito: Estranhas criaturas do mar. O que será que estas águas escondem? Talvez o temível Kraken ou espécies que fazem parte da criptozoologia.

Já se passaram algumas horas e até que estou me saindo bem. Minha maior dificuldade tem sido controlar as velas; às vezes o zombeteiro destino joga os dados e me surpreende com ventos fortes, desestabilizando o veleiro, porém isto passou a ser constante, deixando a viagem árdua; além disso, existe um terror primordial no infindável oceano que me causa extrema angústia, ademais prossigo.

Mas o destino é incansável e vil. Desta vez ele trouxe ventos tenebrosos, gerando ondas altas; uma delas atingiu o casco, deixando o bombordo quase imerso e o convés inundado. Se eu não fosse tão ágil, certamente a embarcação estaria naufragada; contornei as investidas dos ventos, não obstante segurei com afinco no leme e continuei.

Avisto finalmente a terra, deixo a embarcação ancorada. Assim que desci, vi que a vegetação é a mesma encontrada nos Bosques; aqui a espécie predominante era das rosas que sofreram aquela mutação sombria, em específico em sua primeira fase. Será que a flor teve origem aqui? Tímido, o rio anuncia sua presença, serpenteando por entre a vegetação de rostos disformes, um verdadeiro espetáculo horrífico em pálido-anil, desaguando no oceano, deixando rastros luminosos por onde passa; conseguirei alcançar sua nascente?

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Delírio Febril

Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro?…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro? Abro a porta, olho em volta e, aparentemente, não há ninguém. Perambulando, encontro um dos muitos corredores existentes; conforme atravesso, lembro do encontro interessantíssimo que tive com o professor Monm, uma figura distinta. Dificilmente esqueceria o brilho em seus olhos, pois ele é semelhante ao meu... gostaria muito de ser uma de suas alunas, tenho certeza de que seu conhecimento seria de valor inestimável para mim. Espero que o Castelo proporcione nosso reencontro.

Ao final do corredor, encontro o grandioso salão, palco de uma noite memorável. Foi exatamente aqui onde ocorreu o primeiro baile de máscaras. As lembranças que pareciam estar adormecidas despertam com mais intensidade. Imediatamente, vislumbrei o vazio se materializar através de memórias fantasmagóricas.

Com clareza, vi o lugar sendo ocupado por mulheres e homens em trajes de gala, ostentando suas exuberantes máscaras. Reverberava em meu ouvido as funestas notas da peça Toccata and Fugue (música tocada pelo quarteto naquela ocasião). Contemplo os vultos em longos vestidos rodopiando em tonalidades diferentes, sem contar aquele vertiginoso encontro com aquela criatura lúgubre de olhos azuis, tão enigmáticos quanto a vastidão do universo.

Defronte para o silêncio, sussurro seu nome com a delicadeza de quem assopra a chama de uma vela: “Nickollas”. Meus caninos sobressaltam; não consegui disfarçar o desejo sombrio. Fito a janela onde ele me levou naquela noite para observar a túrgida lua — lembro de como a veia em seu pulso resplandecia à penumbra do luar e do excitante som ao rasgá-lo.

Mas algo me trouxe à tona: um brilho arcano de tonalidade magenta surgia pelos arredores do Castelo. Conforme ia se aproximando, clareava o recinto. O que será isto? Assustada, vou até a janela e a atravesso. O frescor da brisa toca minha tez ávida (não lembro a última vez que saí do Castelo).

Era impressionante a dimensão da névoa. Via-se pouquíssimo do firmamento, assim como a vasta e verdejante vegetação composta por exuberantes carvalhos com suas belas folhas, altas faias, baixos arbustos e, pelo chão, gramíneas cresciam desenfreadamente. Avisto uma esguia trilha que se estendia mata adentro; decido segui-la.

Nos primeiros passos, um frescor inexplicável invade meus pulmões, como se ali tivesse caído uma forte chuva. Tive a nítida sensação de que a vegetação se movia, como se estivesse respirando. Abaixo e inspiro aquele cheiro melancólico; então, enterro meus dedos sob aquele solo úmido, deixo escapar um gemido inaudível, acompanhado de intenso salivar. Retiro-os ainda úmidos (isso foi intenso) e sigo em frente.

A bruma que outrora era magenta adquiriu tons em escarlate e também ficou mais densa. Após muito caminhar, tenho um vislumbre espetacular: perante a mim, erguia-se um arco esculpido em mármore branco, de altura considerável. Os galhos das faias abraçaram aquela estrutura com afinco.

Estava perplexa com este lugar. Será que acessei outra realidade? Um brilho longínquo surgia dentro da mata. Munida de curiosidade e excitação, atravesso e, mais alguns passos à frente, encontro uma ampla piscina. Parece ser profunda, sua borda feita do mesmo material do arco. As águas eram serenas e sombrias, de mesmo tom da névoa, porém a cor escarlate era predominante.

Um incontrolável desejo de mergulhar se apoderou de mim. Estava prestes a realizar tal ato quando ouço passos em meio à névoa. Sem dúvidas, uma visão espantosa, semelhante a uma aparição fantasmagórica, movia-se com espantosa graça. Parou em frente à borda; então, tive um vislumbre estupendo.

Uma figura feminina, de altura média, sua pele lívida, semelhante a uma boneca de porcelana, dona de uma beleza arrebatadora. Seus olhos eram um excitante enigma o qual adoraria desvendar. As sobrancelhas eram arqueadas, o nariz afilado, emoldurando aquele rosto, longos cabelos negros com duas mechas brancas, chegando na altura dos quadris.

Usava um vestido translúcido; havia rendas francesas tanto na barra como no provocativo decote, ressaltando ainda mais os esplendorosos e firmes seios. Caminhava naquela névoa, tal qual uma bailarina.

Mesmo sem saber a natureza daquela aparição, anseio ardentemente possuí-la. Assisto-a andar pela borda com muita destreza. Em certo momento, ela mergulha a ponta do seu pé direito na água, espalhando gotículas vermelhas no ar, maculando o vestido, assim como a borda. Vi nascer de seus lábios um sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa.

É impressionante o poder que ela exerce sobre mim. Seus gestos suaves afloram meu lado selvagem, atiçando uma luxúria quase obscena. Um desejo ancestral floresce do meu âmago; nunca pensei que fosse sentir tais sentimentos.

Desenvolvo uma certa obsessão, beirando ao voyeurismo. É excitante pensar na possibilidade dela estar me vendo... Depois de andar, ela senta com elegância e toca suavemente as águas com os dedos indicador e médio em movimentos circulares, criando calmas ondas. Hipnotizada, contemplo seu reflexo distorcido; então, escuto um sussurro vindo da criatura:

— Me chamo Olívian d’Nehr — finalmente pude ouvi-la. Sua voz era doce e irresistível, como o licor das maçãs sangrentas.

O movimento circular se intensificou, deixando a água cada vez mais agitada. Aquele som fez meu corpo contorcer em espasmos libidinosos. Das minhas entranhas escapam gemidos, até que os movimentos cessam (mas as águas permaneceram inquietas, assim como meu âmago). Em seguida, fitou-me e sorriu, enquanto meu colo pulsava em descompasso. Das águas, ergueu os dedos e me chamou silenciosamente; assim o fiz, caminhei ao seu encontro, sem questionar.

Olívian estava de pé, parada. Seus cabelos bailavam com muita leveza ao som dos ventos. Então, fechou os olhos e despiu-se. Fui acometida por um estado febril intenso; abracei a volúpia com fervor. Neste momento, éramos como Adão e Eva na imensidão do Éden e estávamos prestes a morder o fruto proibido. Gostaria de ter pincéis, tintas e um quadro para eternizá-la; seria uma pintura digna de filas quilométricas, sua beleza era assustadora.

Me despi com uma certa rapidez. Vi seus olhos castanhos escuros brilharem diante do meu corpo nu. Finalmente, estou face a face. Sua respiração tranquila, porém quente, toca meu rosto. Ela tinha as mesmas expressões da pintura “Deusa Vênus” feita pelo talentoso pintor italiano, Sandro Botticelli.

— É um prazer inefável conhecê-la, Olívian — as palavras foram silenciadas pelo desejo. Meneou a cabeça cordialmente, seguido do sorriso enigmático. Ouço novamente mais um sussurro: — Acompanhe-me.

Caminhamos por algum tempo até que avistamos uma frondosa árvore a qual me era familiar. Reconheceria aqueles frutos até de olhos vendados. Daquela árvore vinham as afrodisíacas maçãs sangrentas. Olívian pegou uma das inúmeras maçãs, olhou ardentemente em meus olhos e mordeu com avidez, espalhando pelo ar gotículas. A espessa seiva também serpenteou por entre dedos, mãos, queixo, pescoço, passando por entre o colo, cessando em suas pernas.

Ela me oferece a maçã; mordo com vontade, sinto novamente aquele gosto sombrio, porém inesquecível. Deixo a maçã escapar de minhas mãos. Banhadas pela bruma e pelo tênue luar, nossos corpos ardentes se entrelaçam, tornando-se um só. Sob o úmido chão, me entrego ao oceano de prazeres e libertinagem inimagináveis.

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Monstruosidade

O sol resplandecia imponente no firmamento azul-índigo. Diziam que era o dia mais quente do ano. Dentro da taverna, o calor era enlouquecedor; o suor não parava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O sol resplandecia imponente no firmamento azul-índigo. Diziam que era o dia mais quente do ano. Dentro da taverna, o calor era enlouquecedor; o suor não parava de exsudar da minha tez. Comecei a velar as horas com uma certa frequência, porém os ponteiros insistiam em caminhar morosamente. Parecia que o universo se deleitava com minha inquietação.

Apesar dessas adversidades, minha vida era boa. Tinha uma ótima casa. Trabalhar na taverna possibilitou conhecer muita gente e, consequentemente, suas histórias. Algumas eram fantasiosas por demais; era o caso do João, conhecido pela região por ser uma figura peculiar. Muitos o chamavam de “lunático” por conta de seus causos.

Suas narrativas rompiam o limiar entre a sanidade e a insanidade. Enquanto limpava o balcão, ele surgiu. Sorri e acenei; ele retribuíra minha saudação. Sua presença sempre animava o recinto, porém, enquanto caminhava, notei algo estranho. Conforme se aproximava, vi suas feições adquirirem contornos sombrios e seu olhar estava envolto por uma aura indescritível.

Ele trajava uma camiseta preta e calça jeans, ambas rasgadas e manchadas, e, nos pés, chinelos sujos. As poucas pessoas presentes espantaram-se, pois ele parecia desnorteado. Num estado de hipnose, ele se dirigiu até a bancada e sentou-se onde costumávamos conversar, mas permaneceu em silêncio. Aquele comportamento era estranho até para ele.

— Está tudo bem, João? — perguntei com cautela, mas obtive apenas o silêncio perturbador, acompanhado de um contido, mas assustador, sorriso.

Assustados, os clientes foram deixando o local, um por um. Minha atenção estava voltada para cada movimento seu. Sinceramente, não sabia o que iria acontecer. Talvez fosse melhor chamar as autoridades...

— Sangue, ele está vindo, prepare-se, Roberto — sussurrou João enquanto me encarava com olhos inexpressivos.

Nada me prepara para o desconhecido. Aquelas palavras soaram desconexas e confusas. Naquele momento, um desconforto se apoderou de mim; confesso que me senti observado. Repeti a mesma pergunta e obtive uma inesperada reação: ele começou a arranhar a madeira da bancada, gerando um som horrífico. Os movimentos das mãos foram progredindo, chegando ao ponto de as unhas se quebrarem, espalhando gotas escarlates sobre a madeira.

— Você precisa me ouvir. O Mestre está vindo e não há mais nada que possamos fazer — disse enquanto aniquilava e comia insetos como formigas e mosquitos que ocasionalmente surgiam.

Dito isto, pousou seu olhar nos meus e contou-me um dos mais medonhos causos que aquela taverna já ouviu. Sim, havia uma bizarra semelhança com a clássica obra Drácula, de Bram Stoker. Relatou que ouvira o chamado através de um sonho e, desde então, vive para o tal mestre, que lhe prometeu a eternidade através da aniquilação de pequenos insetos. Abismado, disse que aquilo era loucura e humanamente impossível; porém, ele se tornou mais agressivo, o que não é de seu feitio.

Temeroso pela minha vida, mandei que ele fosse embora. Falei que estava cansado e que precisava de uma boa noite de sono, pois o dia havia sido difícil.

João gargalhou de forma insana e alertou para que eu tivesse cuidado, pois hoje o mestre iria fazer uma visita. Deixou a taverna me encarando com um sinistro sorriso, o qual certamente me causaria pesadelos. Saí o mais rápido possível dali. Respirei aliviado ao entrar em casa. Tranquei a porta, liguei as luzes, tomei banho, comi uma lasanha que fiz no dia anterior, escovei meus dentes e me preparei para dormir.

Meu quarto não é tão grande, mas é confortável. Minha cama fica abaixo de uma janela de madeira deteriorada pela cruel maresia. Ao lado direito, uma mesinha de canto com uma moringa de barro e também uma Bíblia severamente desgastada pelas traças e bastante empoeirada. Em frente à cama, havia um aparador com um televisor. Por fim, um ventilador de teto que também sofreu com a maresia. Deitei-me e logo senti a brisa rastejar sutilmente pelas frestas da janela, produzindo uivos agourentos. Alguns minutos se passaram, comecei a sentir as pálpebras pesarem e finalmente consegui dormir.

Em determinada hora, acordei com uma intensa falta de ar. Em vão, meus olhos arregalados fitaram a pálida parede em busca de respostas. A cama de madeira rangia com pesar. — É apenas um pesadelo — repeti essa frase incontáveis vezes, como um mantra. Aquele medo irracional cravou suas perversas garras em meu corpo. Foi quando ouvi algo lá fora.

O som era semelhante a um sutil, mas imponente, bater de asas. Isto foi o suficiente para deixar as janelas inquietas. Em posição fetal, criei os mais irreais e absurdos cenários. Contemplei, então, uma presença abissal projetando uma densa sombra para dentro do cômodo. Em todo momento, ouvia as palavras proferidas por João e até cogitei considerar a existência de uma criatura tão aterrorizante como o personagem Drácula.

Sufocado, com o corpo encharcado pelo inenarrável, ergo uma das mãos em busca da janela. Abri-a e senti um denso vento gélido passar por entre meus dedos suados. Ao fazer isto, vi as sombras adentrarem, exterminando qualquer resquício de luz. Já não era possível enxergar o branco das paredes. Fechei-a imediatamente, mas já era tarde...

Sua monstruosa presença ocupava todo o quarto. No canto, ele estava a me observar. Mesmo com todo o breu, sua palidez era visível, assim como seus resplandecentes caninos. Percebo a nefasta criatura vindo ao meu encontro. Suas presas eram maiores do que havia pensado.

Ele parou, debruçou-se lentamente sobre mim, saboreando meu sofrer. Não consegui desviar de seu olhar vazio. Sua respiração era intragável. Ouço, então, sua boca abrir, revelando milhares de dentes. De sua comprida língua, gotejava uma saliva pútrida e viscosa. Seus olhos eram hipnotizantes. Antes que pudesse dilacerar meu pescoço, fecho os olhos e grito com todas as forças.

Acordo num quarto diferente do meu. A princípio, era tudo nebuloso. Então, ouço a porta abrir. Duas figuras de jaleco se aproximam.

— Vejo que acordou, Roberto. Como está se sentindo? — sua voz calma ecoou pelo recinto.

— Não sei onde estou. O que está acontecendo?

— Me chamo Pedro Sampaio, sou chefe da psiquiatria. O que direi pode ser assustador, peço que ouça com atenção. Faz alguns meses que você está aqui internado. Vizinhos encontraram você aos gritos, completamente histérico, balbuciando frases desconexas...

Minha respiração se alterou. Alguns fragmentos de memória surgiram em minha mente. Não é possível... Ele estava lá, seus dentes. O João estava certo. Tentei me mexer, mas fui contido, pois havia faixas por todo o meu corpo.

— Enfermeiro, por favor, aplique o sedativo. O paciente entrará em surto novamente. Antes de sentir os efeitos entorpecentes, escuto uma voz familiar cruzar o corredor, cantarolando a seguinte frase: “O mestre chegou e precisa de sangue.” João... é você?


Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Primeiro Ato

Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Permaneci parada como se os deuses estivessem parados os ponteiros do infindável tempo, porém aquele ritmo cadenciado do relógio permanecia ressoando em minha mente, como um mantra.

Mesmo sem vislumbrar a figura atrás de mim, notei sua sombra imponente projetada à luz do úmido piso de pedras, à oscilante luz vinda da lamparina, preenchendo aquela biblioteca, sem dúvidas tratava-se de alguém muito importante.

Uma tosse vinda da figura interrompeu o breve momento onde o silêncio se fazia presente, senti uma tensão quase eletromagnética percorrendo meu corpo, sua forte respiração aguçava minha curiosidade. Finalmente sua voz ecoou forte e calma, (estava correta, era um homem).

Cautelosa, virei-me, os cachos escondiam minha tez franzida, e de fato era alguém mui importante, suas vestimentas perfeitamente alinhadas, trajava uma camisa social branca com detalhes renascentistas no punho e gola, colete e terno eram pretos, cabelos curtos igualmente pretos, olhos penetrantes porém cativantes, na mão direita trazia uma lamparina, voltei minha atenção para seus ágeis dedos manuseando um relógio de bolso feito ouro envelhecido, a caixa de no estilo savonnette com detalhes em arabesco, o mostrador era num tom azul petróleo, os ponteiros eram de prata, e a longa corrente também em ouro velho.

— Perdoe-me por assustá-la, não era minha intenção. Me chamo Professor Monm, (apesar de sua voz ser um tanto grave, como um barítono), havia também nuances melancólicas, seu olhar sereno certamente era de alguém que já enfrentou muitas provações ao longo de sua vida.

— Bem, confesso que havia conhecido poucas figuras masculinas aqui no Castelo, a não ser os rápidos encontros durante as festividades, mas... posso fazer uma pergunta, se me permite? O que o senhor leciona?

Primeiramente ele sorriu com os lábios, e disse que era um prazer me conhecer. Em seguida, fechou a porta. Pairava naquela biblioteca uma misteriosa calmaria. Chamei-o para caminhar, ele aceitou de bom grado, e continuarmos a conversa.

— Com toda franqueza, senhorita, esta é uma pergunta complexa, mas pode-se dizer que leciono transmutação temporal, além de ser exímio conhecedor em relógios.

Meus olhos saltam de curiosidade pois lembrei das obras de alquimia que folheei incontáveis vezes, sempre às escondidas. Foi difícil esconder minha euforia, a sede pelo conhecimento me movia (mesmo que esse conhecimento fosse “proibido”).

Minha reação foi notada pelo professor, que esboçou um tímido sorriso e, em seguida, perguntou se possuía algum conhecimento sobre o assunto. Assenti, (li bastante a respeito). Vi então seu semblante mudar sutilmente, acho que o surpreendi.

Ele falava dos relógios com uma notável paixão e, sinceramente, seria uma honra poder ouvi-lo discursar sobre cada engrenagem e suas particularidades por horas.

Erguendo a lamparina à altura dos olhos, iluminou as enormes estantes de carvalho que se estendiam até o final da biblioteca, repleta de inúmeras e empoeiradas obras.

Meus olhos fitaram as centenas de obras, algumas deterioradas severamente pelo inexorável tempo e pelas insaciáveis traças. Conforme andávamos, ergui levemente meus dedos e me permiti sentir cada puídas lombadas de couro e suas respectivas marcas.

Alguns resíduos permaneceram em meus dedos. Observei também o impecável trabalho das aranhas ocupando aquele estreito espaço. “Será que um dia eu o encontrarei?” Monm, que também observava as estantes, cessou os passos e pousou os olhos castanhos sobre mim.

— O que disse, senhorita?

— Não foi nada, apenas pensei alto, mas... ou talvez o senhor possa me ajudar, absorta, inicio minha narrativa.

— Certa noite, perambulando pelo Castelo, encontrei algo que se tornaria minha obsessão, e desde então tenho procurado com afinco. Trata-se de um horrífico e grandioso Códex, confeccionado em couro humano. Sua deteriorada capa era uma desagradável fusão entre marrom e tons de escarlate. Trazia ainda um símbolo arcano, o qual nunca tinha visto, mas parecia ser tão antigo quanto a própria existência. Ele também emanava um odor pútrido terrível. Foi ali que o encontrei, sobre aquela mesa redonda vitoriana.

Saí do estado letárgico, ofegante, meu corpo tremia, com meu braço direito estendido apontando para a mesa vazia. Olhei para o professor, que me ouvia com atenção. Vi suas feições adquirirem contornos espantosos. Ele passou a mão esquerda sobre a testa e disse:

— Sem dúvidas, é um relato muito impressionante. Gostaria muito de poder ajudá-la, mas conheço bem esse caminho...

Seus lábios emudeceram. Então, vi o horror estampado em sua fronte, seguida por uma profunda e terrível melancolia. Os batimentos reverberavam no recinto, atônito, o professor recorreu novamente ao relógio, abrindo e fechando sem cessar. Em vão tentei chamá-lo, estava absorto, talvez por alguma lembrança.

Até que ele “voltou” num estado de confusão mental, que me deixou preocupada. Será que, neste período ausente, ele teve acesso a outras realidades? Se foi, gostaria muito de aprender.

— Professor Monm, o senhor está bem?

— Sim, senhorita, não se preocupe, está tudo bem, permita-me dizer que foi um prazer conhecê-la, mas infelizmente tenho que partir. Bom, espero que possamos nos encontrar novamente.

Checou o relógio mais uma vez, como se estivesse atrasado. Antes de cruzar a porta, ele sussurrou: — Muito cuidado com a obsessão, Rose, é um caminho bastante tortuoso, confie em mim, você não quer isso...

Aquele conselho soou estranhamente, o timbre de sua voz trazia um pesar, um arrependimento, o qual nunca saberei. Nos despedimos com um cordial aceno.

A introspecção recai sobre mim, trazendo à margem alguns pensamentos: quanto tempo mais suportarei manter esta falsa máscara de normalidade? Será que alguém realmente sabe quem sou? Será que interpretei bem o meu papel de falsa humana? Se bem que Ameritt conheceu meu verdadeiro eu...

Caminho até a porta envolta de questionamentos, toco na maçaneta e fico parada por alguns instantes, tal qual um ator que está prestes a entrar em cena. Ouço resquícios de diálogos que desaparecem pelos extensos corredores, passos apressados ecoam pelo Castelo, risadas que se perdem. Qual será o próximo acto desta magistral peça teatral?

Revisão por Sahra Melihssa
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Sanctitas

O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça. Atônita, contemplo o baile sombrio mover-se com extrema volúpia. Meus olhos não eram capazes de acompanhar os movimentos. Fecho os olhos, pois fui acometida por fortes náuseas. Deixo a taça no chão e, vagarosamente, caminho. Mesmo estando longe, era possível ouvir o doce dedilhar sob as cordas dos delicados violinos, assim como as risadas libertinas. Tiro a máscara, e minha tez está febril. Conforme ando, o som das festividades foi se distanciando, se igualando a estranhos sussurros vindos de alguma civilização esquecida há éons.

Em meu íntimo, desejo voltar para o baile. Minhas entranhas suplicam mais um gole do detestável licor. Tento silenciar os pensamentos, contemplando o Castelo. Ao fazer isto, constato que o mesmo se modificou — sua estrutura ganhara dimensões abissais; sofrera, também, graves mudanças. O Castelo estava imerso numa aura lúgubre; cada pedra foi consumida por uma cor inenarrável, profunda e viscosa.

As pedras também sofreram com a presença de terríveis musgos, ocupando as frestas presentes em cada pedra. Noto uma sutil, mas aterrorizante, mudança no ar, tornando árduo o ato de respirar. Vi o véu que guarda segredos além do tempo sendo rasgado perante mim, e então o imaginário se materializou.

— Eram semelhantes a inúmeras partículas de uma pálida poeira, pairando misteriosamente, alcançando todo o interior do Castelo. Fui até uma das janelas e constatei que vinham de fora. As palavras de Evelyn Dubois recaem sobre mim; sorrindo, ela dizia: “Com o passar do tempo, você irá se acostumar.”

A visão que tive foi demasiadamente extraordinária — a poeira ocupava cada centímetro daquela região. O céu ganhara horripilantes pinceladas num desagradável tom de azul-petróleo. Já no horizonte, a magnífica e dourada lua, em sua fase quarto crescente, resplandecia imponente, contornando o cume das montanhas, bem como toda a vegetação, desde as grandes árvores até os pequenos arbustos. Alumiava também os grãos pálidos da arcana poeira, que obedeciam fielmente ao soprar dos ventos. Inclusive, pude sentir um característico cheiro pútrido marítimo, deixando-me atordoada.

Pois bem, estarrecida, afasto-me da janela. Olho em volta; a quantidade de partículas aumentou consideravelmente. Assustada, cubro meu rosto com a mão direita e caminho sem direção, até que encontro um esguio e mal iluminado corredor. Por alguma razão, decido atravessá-lo. À medida que ando, as velas se tornam mais escassas. Noto também que a poeira está se dissipando conforme ando.

Estou entregue à minha própria sorte. Com pesar, observo seu moroso derretimento. Lembrei do meu pai — ele disse que cada vela derretia de uma forma; disse também que o mesmo acontecia com o pavio. Tal lembrança deixou meus olhos marejados. “Ah, pai, queria tanto te ver...” — a frase saiu sem querer, ecoando no imenso corredor. Se eu fechasse os olhos, conseguiria ver sua vasta biblioteca; o cheiro dos livros me acalmava. No centro, havia uma mesa de jacarandá, sempre ornamentada com anotações importantes, livros para pesquisa. Ocupando as laterais, estantes repletas de livros.

Assim como eu, ele era um curioso em relação ao desconhecido. O pouco que sei foi graças a ele. Naquela noite, meus pais não queriam que eu saísse (parecia que estavam prevendo meu terrível destino), mas eles cederam à minha insistência.

Se não fosse por aquele convite — tornei-me taciturna —, onde minh’alma fora devorada por aqueles sedutores e sombrios olhos azuis, eu estaria... Não importa. Estou condenada a carregar a mesma escuridão que meu algoz — ele estava enraizado em meu âmago, e às vezes soprava em meu ouvido verdades incontestáveis. São momentos assim que desejei o aprazível abraço da morte. Porém, algo me resgata do abismo.

Ando mais alguns metros. Vejo uma espécie de aura longínqua e, a princípio, parece disforme. Ando mais depressa, pois era uma visão intrigante. Cheguei perto o suficiente para ver do que se tratava: era uma luz branda, etérea, quase angelical. Fui acometida por uma estranha paz — senti algo semelhante quando estive em Somníria. A quantidade de poeira diminuiu consideravelmente. Paralisada, contemplo o gracioso mover da intrigante luz. Me questiono qual será sua natureza.

Sigo-a até uma porta alta e simples de madeira. Espantada, assisto ela atravessar a porta e desaparecer. Um terrível arrepio percorre meu corpo. Relutante, abro a porta — e não posso crer: achei a biblioteca que incansavelmente busquei. Foi aqui onde encontrei aquele Códex sinistro, que, desde então, havia se tornado uma obsessão. Por breves segundos, esqueci daquela figura espectral. Ela estava no final da biblioteca, levitando próxima da mesa redonda vitoriana, alcançando o abobadado teto — tal qual o famoso espiritualista escocês Daniel Dunglas Home.

Sem dúvidas, era uma visão espantosa. Fechei a porta; sua presença doce preencheu aquele lugar. Era como uma santa. Olhando mais atentamente, havia traços humanos: os cabelos negros ondulados balançavam sob o ar. Vi também um rosto delicado. Os olhos fechados traziam mansidão; já as palmas unidas em oração continham esperança. Para quem seriam aquelas preces?

Fascinada, caminho devagar ao seu encontro. Porém, algo me impede. Escuto, então, passos firmes vindo de fora, acompanhados de um sutil, mas pontual, tique-taque. (Sabia que se tratava de um relógio de bolso, pois era uma das paixões do meu pai.) A porta se abriu lentamente, emitindo um penoso ranger. Mas, antes disso, contemplei a figura sacra desaparecer da mesma forma que surgiu. Um sussurro escapa de meus lábios — mais um evento o qual não teria respostas.

Após isso, uma brisa gélida invadiu aquele âmbito. Meus olhos dançam frenéticos sob as pálpebras. Quem será que adentrou neste recinto? Que presença é esta?

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Sibilino

O relato impressionante do inestimável amigo Capitão João ressoou no seu subconsciente como uma ancestral canção arcana, esquecida…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O relato impressionante do inestimável amigo Capitão João ressoou no seu subconsciente como uma ancestral canção arcana, esquecida em eras estranhas. O velocímetro marcava 70 km/h — o que era consideravelmente rápido, dadas as condições da pista —; apesar das mãos trêmulas, segurou com firmeza no volante, pois esse trecho possuía muitas curvas sinuosas. Pelo retrovisor, viu a casa do amigo sumindo lentamente; prometeu a si mesmo voltar mais vezes. Observou também a união mística de céu e mar, fazendo desaparecer a linha do horizonte, causando uma inexplicável sensação de medo. Tivera a impressão de que o céu, repleto de estrelas resplandecentes, estava mais próximo da terra. Pensar nesta ideia lhe apavorou.

Tomé mergulhou cada vez mais em seus pensamentos, enquanto a minguante e turgida lua iluminava seu caminho. Finalmente, a descida chegou ao fim. Era meia-noite, de acordo com os ponteiros. Ansiava estar em casa; porém, ainda havia alguns quilômetros, e uma longa estrada reta se estendia até o horizonte.

Enquanto dirigia, notou o despencar da temperatura, presenciando a cortante brisa gélida tocar-lhe o rosto terrivelmente. Notou mais algumas peculiaridades, como o ar que havia se tornado mais viscoso e, mesmo distante da praia, — o cheiro ainda permanecia ali, a assombrá-lo. Os ventos também trouxeram uma suave bruma, que surgiu tal qual uma aparição fantasmagórica, flutuando pela escuridão.

Com o vento soprando, Tomé assistiu, com olhos vestidos de horror, à bruma ganhar estranhos contornos. Os faróis amarelados deixavam tudo etéreo. Lembrou da nefasta imagem da ponte descomunal, assim como esta estrada.

Escutou nitidamente a melancólica voz de João, seu amigo, recitando Shakespeare, ecoando em sua mente. Esta lembrança o fez virar bruscamente, pois era como se alguém estivesse no banco de trás, sussurrando a citação — mas encontrou o vazio.

Seu peito batia em desassossego. Observou o céu novamente: as estrelas pareciam se aproximar ainda mais. Uma terrível sensação de estar sendo observado tomou conta dele. “Preciso manter a calma”, pensou. Novamente olhou para o retrovisor — a escuridão parecia devorar o que ficou para trás.

Precisava parar. Puxou devagar o freio. O carro derrapou em meio à neblina; o som dos pneus ressoou naquele lugar. Respirou fundo. Passou a mão na testa que gotejava medo. Saiu do carro, respirou fundo outra vez. Viu algo inexplicável — a impressão que tivera se concretizou. Aquela visão era inconcebível. Ficou na frente dos faróis e, em seguida, caiu de joelhos, as mãos na cabeça. Em sua frente: a imensidão.

Não havia nada que Tomé pudesse fazer, a não ser contemplar o irreal. Desejou ter uma câmera fotográfica para registrar aquele medonho espetáculo. Nenhum ser humano deveria presenciar aquilo. As brumas se tornaram mais densas, adquirindo formas grotescas; elas bailavam terrivelmente, alcançando alturas inimagináveis.

Passou a ouvir sons demasiadamente longínquos, porém não demorou muito até que se aproximassem com rapidez. Trêmulo, ouviu o que pareciam ser incontáveis vozes de diferentes tons, mas unidas. Eram semelhantes a um tenebroso trovão rasgando a imensidão do firmamento.

Tomé se perguntava se aquilo era fruto de um delírio causado pelas histórias impressionantes do amigo. Mas aquela visão era tão verossímil quanto o vento gélido e pútrido tocando seu rosto. Sua mente ínfima não iria suportar aquela visão. Seu corpo estava prestes a entrar em colapso, quando vislumbrou nuvens se aglomerando, formando imagens colossais, incompreensíveis. Gritos emanavam de suas entranhas.

Seu corpo não aguentou. Antes de entrar em colapso, viu dois olhos titânicos, flamejantes, clareando o céu — a mesma visão que seu amigo e exímio Capitão João tivera.


Escrito por:
Pablo Henrique

Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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Láparos

Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ela se levantou, estendeu sua mão direita em minha direção. Seus lábios exibiam um sorriso acolhedor, mas que escondia algo. Por fim, acatei seu convite, pois ansiava sanar minhas dúvidas. Iniciamos uma silenciosa caminhada. Cautelosa, segui ao seu lado, fascinada e amedrontada com aquele lugar. Sentia uma certa claustrofobia, mesmo o lugar sendo amplo. 

Hipnotizada, observei os gases azulados presentes nos numerosos e delicados tubos de ensaio. O som ininterrupto das engrenagens era nauseante. Até mesmo o ar daquele lugar... O desconforto era nítido em meu corpo, mas disfarcei bem — pelo menos, eu acho. Evelyn... ela me intrigava. Em seus olhos havia uma certa malícia — talvez eu esteja errada, talvez seja apenas sua personalidade —, mas o fato de ela conseguir adaptar suas emoções à medida que conversávamos, como se entendesse meus pensamentos, me deixou preocupada. 

Conforme andávamos, me explicou algumas coisas, como a intensa luz lá fora. Disse que se tratava de dois sóis, um raro fenômeno, uma falha temporal — mas que era temporária. Imediatamente, paralisei ao imaginar aquela luz impetuosa rasgando minha frágil existência. Evelyn viu o horror em meus olhos, mas escolheu não perguntar sobre o meu estado. Sobre as engrenagens, disse que não sabia nada a respeito. Porém, noto um sorriso brincalhão nascer em seus lábios. Em seguida, falou: 

— Não se preocupe, Rose. Talvez nada disso seja real... talvez seja apenas o desconhecido brincando conosco. 

Assenti. Em seguida, vi seus olhos esboçarem um estranho sorriso, mas ignorei. Então, avisto ao longe uma porta. Pergunto-lhe onde daria. Disse que ali geralmente era a saída — e afirmou uma verdade irrefutável: o castelo está em constante mudança. 

Por fim, despediu-se e novamente disse para ter cuidado, pois nunca saberemos o que iremos encontrar. Mesmo tendo minhas desconfianças, gostei de sua companhia. Mas, ao olhar para trás, não a vejo mais. Alguns passos à frente, me deparo com uma porta deveras alta, que se esgueira horrivelmente sobre mim. Ela era abobadada — diria comum. Toco a maçaneta, sinto o corpo pulsar. Abro-a e, para minha surpresa, estou no magnífico salão principal. Sinto-me ínfima neste lugar. 

Inexplicavelmente, o som terrífico das engrenagens sumira. Respirei aliviada. Porém, o castelo estava diferente. Fui abraçada por muitos cheiros. Dentre eles, identifico algumas notas adocicadas de maçã. Não era só isso: percebo também uma fragrância floral bastante sutil, mas marcante. Observei o queimar das muitas velas dispostas em cada parede. Isto me trouxe uma sensação de acolhimento. Porém, o odor ferruginoso permanecia ali, flutuando sobre o ar, tal qual um espectro. 

Não lembro a última vez que andei por aqui. Porém, vejo que alguma entidade cósmica jogou os dados do destino — e aqui estou. Parece que um belíssimo jantar será servido. A enorme mesa de jantar está decorada com impecáveis pratos de porcelana branca com a borda em dourado. Para acompanhar, talheres igualmente dourados. Em volta de cada prato, havia galhos secos vermelho-acinzentado, formando uma guirlanda. 

Há também um encantador caminho de mesa confeccionado em linho, num tom verde-claro. Acima dele, exuberantes flores ocupam toda a extensão da mesa. Elas possuíam um formato peculiar: suas pétalas se fechavam tal qual um ovo, a ponto de ficar imperceptível a união de cada uma. Suas cores eram vivas e brilhantes — algumas alvas como a neve, outras traziam um tom escarlate. Elas pareciam guardar segredos de antigas eras. Estavam também espalhadas por todo o hall. 

Enquanto admirava a enigmática decoração, vislumbro o mover de uma sombra trêmula, descendo lentamente os infinitos degraus da colossal escada. Tratava-se de uma criatura com vestes que remetiam a alguma antiga e sigilosa cerimônia. A túnica negra parecia flutuar conforme caminhava. Ostentava uma horripilante máscara pálida e sorridente de um coelho, com orelhas delgadas. No lugar dos olhos, um vazio abissal. Trazia uma carta escarlate. De maneira cortês, se aproximou e me entregou uma carta. Elevo-a à altura do nariz, e sinto o mesmo aroma de maçã adocicada. Fiquei tão enfeitiçada com tudo aquilo que mal vi a criatura se esvair.

Finalmente, leio. Trata-se de um convite para participar de uma festividade chamada Aesttera. Na carta, explicava-se o significado da celebração. Tudo fascinante. Porém, para mim, não há renovação de ciclos, nem moldar sentidos para uma nova existência — muito menos recomeçar. Mas estou intrigada com o tal Baile de Láparos. Houve menção de que haveria trajes para o baile em meus aposentos.

Dirijo-me rapidamente ao meu quarto. Abro a porta devagar, pois aqui foi palco de fenômenos inexplicáveis. Fiquei mais tranquila ao ver tudo em seu devido lugar. Em minha cama, encontram-se meus trajes: consistiam em uma máscara de coelho e um longo vestido vitoriano preto de cetim, com detalhes de renda no colo e nas mangas. Fiquei encantada com o vestido. Lavei-me e troquei de roupa. Controlei meus rebeldes cachos, coloquei minha máscara e segui em direção ao salão principal.

Apreensiva, tenho um vislumbre magnífico: a celebração havia começado. Todos estavam rigorosamente bem trajados — estavam belíssimos. Os homens, todos elegantes, exibiam seus fraques; e as mulheres, com seus vestidos exuberantes. O salão estava cheio. Confesso que, às vezes, esqueço dos demais inquilinos. Através da máscara, vejo a inquietação de alguns; em outros, permeavam dúvidas e medo; já outros são uma verdadeira incógnita.

Vejo alguém se aproximando — era um garçom, equilibrando taças numa bandeja dourada. Falei educadamente que não queria, porém ele explicou que era um licor das raras maçãs sangrentas. Disse que, devido à maturação das maçãs, um líquido começa a escorrer do fruto, resultando em um espesso licor rubro. Fui persuadida por ele e acabei aceitando.

Em mãos, balancei a bebida, que exalava um aroma doce e tentador. Elevei-a aos lábios. Ao provar, fui tomada por uma excitação. Meu estado alterado foi perceptível. Não era possível... isso seria...? Olhei ao redor. Senti uma sensação estranha de estar sendo observada. Respirei fundo. A taça tremia em minhas mãos. Andei até a rosácea para tentar me distrair. Estava uma linda noite. Elevei meus olhos e vi a luz pálida da lua atravessar a rosácea, resultando em um espetáculo único.

Permaneci ali, assistindo o tênue luar rasgar a escuridão, como se ainda houvesse uma luz no fim do túnel (não para mim, certamente). Tomada por uma desesperança, sorvo mais do doce licor. Porém, algo rouba minha atenção: um pisar firme, longínquo, ecoa pelo salão, acompanhado de um leve caminhar de saltos altos. Também escuto passos apressados. Ao virar, vejo um círculo se formando. Aproximo-me devagar — e então é anunciada uma atração que fazia parte das festividades.

Era uma atração circense: uma arlequina, domadora de Láparos. Ela apresentou truques que desafiavam a lógica — diria, realistas demais. O momento que me causou náuseas foi quando ela tirou cabeças de coelhos da cartola e fez malabarismo com elas. Era possível ouvir, de cada um presente, gritos abafados de horror. Encerrou a apresentação apoiando a cartola na cabeça, arrancando aplausos efusivos.

Não sei se foi efeito do licor ou do truque — contemplei algo perturbador. Da cartola escorria um espesso líquido escarlate, serpenteando por seu rosto maquiado. Tive a nítida impressão de que ela olhava diretamente para mim. Sorrindo, ela se despediu.

Todos ficaram espantados, inclusive eu. O círculo se desfez, e então iniciou-se o baile. Os primeiros acordes da Sétima Sinfonia de Beethoven retumbavam por todo o castelo. A dança começou tímida, mas logo se tornou lascívia. "Preciso de mais uma taça", pensei, observando o baile. Parece que o castelo me ouviu: um dos garçons se aproxima. Devolvo a taça vazia e pego a cheia. Antes de sair, ele disse para não exagerar no licor, pois pode causar alucinações.

Desta vez, senti o gosto adocicado com notas ferruginosas. Meu corpo tremia. O sabor era demasiadamente semelhante. Sorvi aquele néctar de uma vez. Enquanto isso, assisto à dança se tornar frenética, fazendo com que as máscaras adquirissem um aspecto macabro — com aumento das orelhas e a presença de dentes pontiagudos.

Não deveria ter feito isso. Será mesmo sangue?

Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.

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15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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Ferruginoso

Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Desperto mais uma vez em meus aposentos, e o que presenciei em Somníria reverbera em minha mente como uma tristonha canção. Melancólica, meus olhos passeiam pelas fissuras presentes nas superfícies das inúmeras pedras maciças do abobadado teto. Perco-me em devaneios sobre a construção deste imponente castelo, e uma pergunta paira sobre minha cabeça: quanto sangue teria sido derramado para erguer estas sólidas paredes? 

Bom, estou ‘condenada a viver’ neste infindável limbo sob a regência das perversas mãos do desconhecido. Porém, algo me faz acordar deste transe: uma luz flamejante oriunda de fora atravessa a enorme janela, fazendo com que o lindo lustre vitoriano acima de mim brilhasse terrivelmente. Procuro abrigo na alta cabeceira de veludo verde, abraço meus trêmulos joelhos e me cubro. Parece que o sol está mais quente que o normal. Permaneço encolhida, enquanto a luz mortal consome ferozmente cada resquício de escuridão do meu quarto. 

No momento em que cruzei os descomunais portões deste lugar, encontrei a morte algumas vezes, porém nada se compara a isto. De repente, um medo inexplicável perfurava minha alma, uma angústia sem razão aparente preenchia meu âmago vazio. 

Precisava agir rápido. Procurei por espaços onde havia vestígios de escuridão; infelizmente, eles eram cada vez mais escassos. O desejo de saber o que se passa lá fora me perturba. O castelo, que em sua natureza é gélido, sentiu uma insólita e sufocante onda de calor, mas temo que essa luz não seja proveniente do sol, e sim de algo grandioso. 

Finalmente, encontro uma brecha. Respiro fundo e salto da cama até a porta (ela se encontra a uma distância considerável). Enquanto saltava, desejei ter um breve vislumbre deste enigmático fenômeno, mas, ao fazer isso, deixaria este mundo num piscar de olhos, tal qual a mulher de Jó. Cheguei à porta, abri e saí com rapidez. 

Ofegante, contemplei o longínquo e mal iluminado corredor. Caminho em busca de respostas, enquanto as sombras das pendentes velas parecem zombar de mim. 

Será que Ameritt sabe de algo? Nosso último encontro foi catastrófico, ainda assim preciso vê-la. Após muito andar, começo a ouvir algo assombroso, um som que parecia surgir das espirais da cóclea, reverberando como um impronunciável sigilo, deixando-me paralisada. Porém, o som vinha de fora. Intrigada, encostei meus ouvidos sobre as paredes. Então ouvi algo tenebroso, semelhante a um terrível ranger de inúmeras engrenagens ocultas, girando em perfeita sincronia. Atônita, prossegui em direção ao oculto. 

Em certo trecho, percebi que havia algo além do desagradável ruído: o ar estava denso, chegando a causar náuseas. Apoiei-me nas paredes, respirei e logo percebi: era o odor pungente de ferrugem. Apressando os passos, finalmente alcancei uma porta, que nada se parecia com a porta daquele mágico lugar onde Ameritt tão sabiamente zela pela estufa. 

Erguia-se perante mim uma porta ovalada descomunal, feita de um material semelhante ao cobre. Havia incontáveis engrenagens e parafusos, de diferentes tamanhos e espessuras, cobrindo-a por completo. Pareciam provenientes de algum lugar do espaço; seu comportamento obedecia leis não terrestres. Cada engrenagem tinha sua forma de girar, criando diferentes sons, causando estranheza e uma inexplicável fascinação. 

Não sei quanto tempo perdi admirando aquele monumento, mas precisava descobrir. Então, ao tocar na maçaneta, senti o repulsivo toque álgido do metal. Foi necessário um pouco de força. Ao abrir, sou recebida com um intenso sopro metálico; o cheiro me causou ânsia. Tranco-a. 

A princípio, não consegui ver a dimensão do lugar. Manter-se em pé tornou-se difícil, visto que o ar ali era denso, quase palpável. Aos poucos, o lugar tomou forma através de sons. Ouvi o silábico gotejar de líquidos e também o leve chiar, indicando algum processo de ebulição. Lentamente, aquele lugar se revelou a mim. Era semelhante a uma caverna. Acima de mim, um inalcançável teto abobadado. A vasta e misteriosa vegetação se fundia com as engrenagens. Vejo também vapores índigos serpentearem pelo ar através dos tubos de ensaio. Envolvida pelo terrífico odor ferruginoso, caminho. Quero saber que surpresas me aguardam. É quando um sussurro ecoa: 

— Quem está aí? 

Sua voz, aparentemente gentil e amigável, me deixou tranquila. 

— Pode se aproximar, eu não mordo. 

Em seguida, sorriu de forma arteira. 

Cautelosa, sigo. Conforme me aproximo, sinto novos odores: óleo queimado, resíduos de alguma alquimia oculta. 

— Olá, cara visitante, como se chama? 

Apresentei-me, mas com cuidado para não falar demais, apesar de me sentir à vontade perante ela. 

— Prazer, Rose. Me chamo Evelyn Dubois! 

Seus olhos me estudavam. 

— O prazer é meu, Evelyn! Bom, que lugar é este? Eu deveria estar em outro lugar, mas já deveria ter me acostumado. 

O castelo está em constante mudança: os corredores se alongam ou diminuem, portas mudam de lugar, além dos acontecimentos peculiares que comumente ocorrem. 

Ela prestou atenção em cada palavra dita por mim, ao mesmo tempo que manipulava um líquido roxo em um tubo de ensaio. 

Trajava um jaleco branco fechado por apenas um botão e, por baixo dele, havia um lindo vestido vitoriano verde-musgo. Seu rosto era delicado, seus olhos, verdes; seus cabelos pretos estavam amarrados; sua pele era pálida. Ela continuou: 

— Bem, Rose, isso vai demandar bastante tempo, mas chegará um dia em que você se acostumará com os eventos ocorridos aqui. 

Ela contou brevemente sua história: sua mãe era costureira, e seu pai, um excêntrico cientista. Sua obsessão era desenvolver tintas fotossensíveis. Mas, num fatídico dia, houve uma explosão. Após o incidente (ela não entrou em detalhes sobre o que acontecera a seu pai, e achei melhor não perguntar), assumiu as pesquisas dele. No entanto, de alguma forma, seu foco se voltou para a chamada "cor oculta". 

Fiquei curiosa com sua história, e, quando perguntei sobre sua pesquisa, notei uma mudança abrupta. Era perceptível sua frustração em relação à sua pesquisa; parecia que não tivera bons resultados. 

— Que lugar é este? — perguntei para mudar o rumo da conversa. Imediatamente, vi a mudança em seu rosto, tornando-se mais uma vez amigável. 

— Você está em meu refúgio, um laboratório que se encontra nos arredores do castelo. 

Comentou um pouco sobre um evento denominado "Nemonium" e, por algum motivo, uma horrenda criatura foi vista pelos corredores, assombrando os moradores. Gritos de terror foram ouvidos além dos arredores. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Infindável

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Certa noite, enquanto as notas cítricas de um vinho chileno me aqueciam, recebi um e-mail de um velho amigo. Após lê-lo, fiquei feliz e respondi que iria imediatamente. Havia uns bons anos que não o via. Guardei o vinho na geladeira, troquei de roupa e, depois de dirigir alguns quilômetros, avistei sua casa.

Ele morava no alto de uma belíssima falésia. Sua casa era uma construção no estilo A-frame, toda de carvalho, com duas janelas altas. Estacionei o carro e, por alguns minutos, contemplei a vista, que eu quase havia esquecido o quanto era encantadora.

Permiti que meu olhar se perdesse naquela paisagem, que mais parecia uma pintura. Acima de mim, o céu, onde as poucas nuvens se moviam com certa rapidez. As estrelas ostentavam um brilho assustador. A lua estava minguante (fase que acho mais encantadora). À minha frente, a imensidão do mar e seu pacífico quebrar de ondas.

"Preciso entrar!"

Antes que eu pudesse concluir meu pensamento, minha atenção se voltou para a porta. Ouvi o trinco mover-se vagarosamente, assim como o ranger dos ferrolhos enferrujados. Então, ele surgiu no canto (um pouco abatido, é bem verdade). Trajava um conjunto de moletom preto e chinelos, mas continuava o mesmo. A barba grisalha escondia parte das rugas. Com um sorriso tímido, gesticulou para que eu entrasse. Eu estava feliz por vê-lo.

— Venha, entre, caro amigo.

Sua voz rouca, acompanhada de um pigarro, reverberou naquele lugar.

Ao entrar, olhei em volta e percebi que nada mudara. Era uma casa de tamanho considerável, dividida entre cozinha, sala e uma suíte. Ao lado da porta, ficava uma mesa redonda preta, com duas cadeiras. Na sala, o velho sofá de couro marrom. À sua frente, uma bela lareira e, acima dela, uma cornija esculpida em mármore, exibindo fotografias e algumas conquistas pessoais. Mais à frente, encontrava-se uma janela grande, por meio da qual era possível enquadrar a lua com toda sua graça sob o firmamento estrelado. Abaixo dela, uma confortável poltrona de couro marrom, que resistiu bravamente ao tempo. Notei também uma garrafa de whisky sobre uma mesa de canto, acompanhada de dois copos.

— Fique à vontade.

Apontou para o sofá e, em seguida, dirigiu-se à poltrona.

— Veja, Tomé, a noite está nos proporcionando um verdadeiro espetáculo. Tenho algo para você.

Ele abriu a garrafa, exalando notas de caramelo, maçã, laranja e baunilha. Após isso, encheu os copos até a metade. Em seguida, brindamos. Confesso que fazia tempo que não bebia whisky; logo senti o ardor em minha garganta, acompanhado de notas amadeiradas.

Sorriu e disse que era um whisky escocês muito raro. Em seguida, perguntou se eu queria ouvir uma música. Foi até o quarto e trouxe uma vitrola, que deixou próxima à lareira. Escolheu um vinil do qual tinha boas lembranças: tratava-se de uma coletânea de Robert Johnson. O som da agulha deslizando no vinil era quase fantasmagórico. Em seguida, vieram as notas agourentas de sua guitarra, acompanhadas de sua inconfundível voz.

— Ah, Tomé, como é bom revê-lo. Sabe, não tenho tido muitas visitas, e ver um rosto familiar sempre é animador.

A melancolia estava presente em cada palavra.

— Eu que peço desculpas por não ter mais aparecido, João. Minha vida está bastante confusa. Me separei, não estou conseguindo produzir como antigamente. Tudo que escrevo soa medíocre. Mas trabalho com revisão de textos e escrevo para uma coluna no jornal. E você, como está?

Ele sorveu a bebida por completo e, enquanto acrescentava mais, disse:

— Não tenho do que reclamar. Tive uma vida dura, mas incrível. O mar me fez conhecer lugares que jamais imaginei conhecer. Colecionei muitas histórias...

Passou as mãos na testa e nos poucos cabelos que lhe restam. Então, continuou:

— Porém, eu tenho vivido de lembranças. As aventuras que tive no mar são o que me mantém vivo. Velejei minha vida inteira, hoje em dia estou aposentado. Quanto ao dinheiro, tenho uma boa quantia no banco, devido aos longos anos de trabalho no mar.

— É verdade, João, você era um exímio capitão. Conhece o mar como ninguém, enfrentou a terrível imensidão inúmeras vezes. Sem dúvidas, vivenciou situações deveras difíceis. Brindamos a isso. Viva!

Em seguida, conversamos por mais algumas horas. A garrafa já passara da metade. Ele encheu mais uma vez os copos e, inebriado, disse:

— Tomé, de todas as histórias que você ouviu, existe uma que me assombra. Durante todos esses anos, guardei-a a sete chaves.

Sua fisionomia adquiriu tons graves; seus olhos inertes brilhavam sob aquele turgido luar. Ele continuou:

— Sabes que o mar, em sua grandiosidade, esconde segredos inimagináveis. Não tenho explicação para o que me ocorreu naquela horrenda noite.

Ele respirou fundo, bebeu mais um pouco e, ao som de "Hellhound on My Trail", iniciou sua narrativa.

O céu exibia um lindo entardecer, onde tons alaranjados se misturavam ao azul escuro. No horizonte, o sol, em sua beleza arrebatadora, brilhava. Notei também pinceladas de rosa e roxo. Uma obra-prima!

As condições eram perfeitas. Era verão, 15 de janeiro de 1998. Decidi comemorar minha aposentadoria com um passeio. Verifiquei todo o casco, chequei também a proa, assim como a popa. Convés e porão foram inspecionados, assim como as velas e cabos. Por último, o leme e a âncora. Era uma embarcação de porte médio. Meu anemômetro estava com defeito, porém, ao longo dos anos, aprendi a calcular o vento com base em observações e anotações.

Ergui as velas ao ar, pedi licença aos mares e iniciei meu passeio. Aparentemente, estava tudo tranquilo. A noite chegou rápida, usurpando a luz do dia e trazendo uma brisa fresca. Liguei o refletor e segui.

Te digo: não importa o quão experiente você seja, o vazio marítimo te causa calafrios. Mesmo com o luar e as estrelas, o breu se torna quase tangível.

Desliguei um pouco o motor e segui, até que, em determinado trecho, notei uma brusca mudança nos ventos. Se não me engano, eles estavam a trinta e quatro nós, fazendo as ondas se agitarem...

A uma certa distância, sob a luz do refletor, enxerguei algo semelhante a uma ponte. Definir seu começo e seu final era uma tarefa impossível. Parecia infindável.

Meus olhos arregalados não podiam acreditar naquela visão medonha. Você pode conhecer os mares como a palma de sua mão, mas nada te prepara para o desconhecido. Ela parecia flutuar sobre as águas. Era possível ver o topo das colunas que a sustentavam e, imaginar sua dimensão, causou-me verdadeiro terror. Tentei manter a embarcação trimada, mas as águas estavam revoltas.

É em situações como esta que percebemos o quão frágeis somos. Aquele monumento colossal era um lembrete de que não passamos de poeira cósmica habitando um planeta minúsculo.

Enquanto me perdia em meus devaneios, vi que estava mais próximo. Trovões intensos revelaram mais detalhes. Notei a presença de inúmeros postes, todos enferrujados. A estrutura estava coberta por uma viscosa camada de musgo ao longo de sua lateral.

Olhei para o céu, e o clarão dos relâmpagos rabiscava formas monstruosas sob as nuvens. Estava aterrorizado. Existia uma força cósmica naquele trecho, a qual nem ouso imaginar.

Por sorte, a distância em que me encontrava permitia voltar, mas seria um trabalho árduo. Mesmo com a curiosidade corroendo minhas entranhas para descobrir o que aquela construção nefasta escondia, permanecer ali seria assinar meu atestado de óbito.

Liguei o motor e girei o leme até o limite. Porém, senti a embarcação sofrer uma desestabilização, deixando-a à deriva. Algo me impedia de ir embora.

Após quase naufragar, consegui, aos poucos, retomar o controle da embarcação. Enquanto minhas trêmulas mãos seguravam o leme com afinco, de costas para a ponte, praguejei-a.

Tentei ignorar, mas não consegui. Mesmo temeroso, olhei por cima dos ombros pela última vez. Então, ouvi nitidamente os ventos soprarem meu nome, como se fossem um funesto coral formado por inúmeras vozes vindas do abismo. Elas ocuparam toda a vastidão do mar.

Implorei ao universo forças para sair dali.

Após longas horas, consegui fugir. Já não via mais a construção.

Gritei até não poder mais. Até que enxerguei a beira da praia. Parecia até uma miragem.

Joguei a âncora e desembarquei. Cheguei em terra firme. O dia começava a surgir timidamente. Foi maravilhoso ver luz.

Ele terminou aquele relato medonho com um olhar vazio e assustador. Eu estava apavorado. Sem dúvidas, foi uma experiência impressionante. Perguntei se estava bem. Ele disse que sim. Contar sua vivência foi libertador, pois ninguém sabia o que ele havia passado.

Permanecemos em silêncio enquanto "Crossroad Blues" preenchia o vazio.

— João... — Minha voz quase não saiu — Meu caro, eu sinto muito pelo que você passou. Mas saiba que estou aqui. Sabes que sempre podes contar comigo. E não se preocupe, levarei seu relato até o dia da minha morte.

Ele agradeceu minha companhia por ter ouvido seu relato.

Ao se despedir, disse:

— Lembre-se: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Sonial

Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sinto os olhos correrem em desespero por debaixo das pálpebras. Vagas lembranças dos fatos ocorridos na estufa atingiam meu corpo, que tremia, desperto com o insistente menear. 

De olhos abertos, permaneço deitada sob um infindável jardim de lavandas. Seu aroma adocicado e suave me abraça. Os galhos eram altos o suficiente para envolver meu corpo. Seu leve toque em meu rosto extraiu de mim cócegas e uma lembrança. 

Vejo-me deitada preguiçosamente em suas pernas, no nosso sofá da sala. Estamos assistindo a um dos seus filmes preferidos, “Um Corpo que Cai”. Eu amava os filmes do Hitchcock. Minha mãe acabara de passar creme para as mãos. Enquanto meus olhos estavam na televisão, sinto seus dedos macios e cheirosos sobre meu rosto, deixando o aroma marcante de lavanda. 

Mas antes que eu me torne melancólica, devolvo-a, o quanto antes, ao cemitério abandonado de memórias. É melhor assim, digo para mim mesma: “Esqueça isto!”. Em seguida, viro a cabeça para a esquerda, e meus olhos se perdem perante os galhos. 

A grandiosidade daquele lugar é, sem dúvidas, arrebatadora. Existe uma aura quase celestial. O silêncio sagrado me causa arrepios. Acima de mim, contemplo algo magnífico: trajando um manto alvo está o firmamento e sua imensidão. Um temor se apoderou de mim. Adoto a posição fetal, como forma de me proteger, pois um mísero raio de sol poderia me exterminar. Mas, de alguma forma, nada aconteceu. Apesar de toda vastidão nívea, a luz parecia inofensiva. Não havia nuvens, nem sol nem lua, apenas o vazio opressor. 

Decidi me levantar. Limpei as folhas presentes em minhas roupas. Em pé, pude ter a verdadeira dimensão daquele lugar. Caminho, e as lavandas se destacam. Seu balançar é hipnotizante. Será que estou fora do Castelo? Será o fim da minha mísera existência? Será algum efeito alucinógeno daquele preparo feito por Ameritt? O repugnante gosto ainda faz morada em minha boca. 

Cuidadosa, caminho enquanto dúvidas pairam sobre minha mente. Olhar em volta e ver apenas o vazio abissal é angustiante. Será que irei parar na vila de Séttimor? Agora, a menção de Ameritt me causa tremor, porém continuo. 

Após muito andar, noto algo perturbador. Um horror indescritível dominava meus ossos e entranhas. Meus membros tornaram-se rígidos, como se alguma força de proporções inimagináveis agisse sobre mim. 

Elevo meus olhos, e não posso acreditar. Em meio àquela intensa nívea, um colossal e belíssimo umbral, mais escuro que a própria noite, erguia-se no vazio níveo. Trazia adornos vitorianos esculpidos pelos deuses de outra era. Assemelhava-se a um portal. Ao seu lado, havia também uma criatura tão misteriosa quanto aquele lugar. Sua aparência angelical me deixava confortável. Obedeci à sua reverência e, cautelosa, fui ao seu encontro. Estou a dois passos. Sem dúvidas, estava diante de algo grandioso. 

— Bem-vinda à Somníria, Rose. Permita que eu me apresente. Meu nome é Lieran, sou o guardião Arquelua do primeiro umbral. Foi-me ordenado guiar-te pelo sonho daquele que teu coração mais anseia. 

Sua voz era como um imponente e doce quarteto de vozes cantando em uníssono, algum canto gregoriano secreto que fora esquecido pelo impiedoso tempo. Seu semblante quase angelical me acalmava. Ele tinha cabelos alvos como a neve, e, mesmo com os olhos fechados, parecia saber exatamente quem eu era. Posteriormente, ele me explicou que Somníria é um reino extrafísico que está além da compreensão. Este lugar cuida do plano onírico daqueles que ainda estão vivos, assim como dos que já desencarnaram. 

Lieran contou que, em Somníria, tanto os umbrais quanto os guardiões são infindos. Explicou que existem diferentes espécies de guardiões: alguns cuidam dos sonhos, sendo chamados de Arquelua, enquanto outros se dedicam a vigiar pesadelos — os Nocturnos. Disse ainda que há tipos de Nocturnos especializados em pesadelos densos, enquanto outros vagam por pesadelos fúnebres. 

Amortecida pelo que acabara de ouvir, observei mais uma vez aquela criatura. Ele se assemelhava a uma escultura de um deus grego esculpido em mármore. Seus traços delicados e marcantes me prendiam, e a possibilidade de entrar em um sonho era intrigante e muito me interessava. 

Antes que eu dissesse qualquer palavra, ele fez um gesto para que eu atravessasse o umbral e disse: 

— Por favor, tenha cuidado. Visitar sonhos pode ser mortal. Vi que tens alguém em mente. Concentre-se e atravesse. Lembre-se: para retornar, basta dizer meu nome. 

Agradeci, respirei fundo e, assim que atravessei, senti uma forte vertigem, como se caísse em queda livre no vazio. Ainda enjoada, abri os olhos e não pude acreditar que funcionara. 

Acordei em meu quarto de infância. Tudo estava intacto: os pôsteres de filmes de horror, como Psicose, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, O Exorcista, O Iluminado, entre outros. Minha estante preta decorada com livros, incluindo romances como Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, O Morro dos Ventos Uivantes — em vida, eu acreditava no amor. Minha escrivaninha estava cheia de cadernos e canetas espalhados. Ao folhear um deles, deparei-me com anotações sobre magia e ocultismo. 

Ao vê-las, lembrei-me de um certo livro que está no Castelo. Ele ainda me causa fascínio e repulsa. Recordei sua capa feita de pele, num tom viscoso de carmim quase vivo, suas páginas puídas e o cheiro pútrido que senti ao abri-lo, bem como o toque repulsivo. 

Lembro que o livro estava no final da biblioteca, sobre uma mesa redonda vitoriana, coberto por um manto negro. Ele não saiu da minha cabeça: sua natureza desconhecida e o modo como foi confeccionado me intrigavam. Que segredos infindáveis aquelas páginas escondiam? Recordo vagamente ter visto o desenho de um ramalhete naquela terrível noite de nevoeiro. 

O Castelo tem me proporcionado experiências inexplicáveis. Aquele baile aterrorizante foi muito marcante. Preciso continuar. Olhei para a direita: algumas roupas estavam empilhadas sobre uma cadeira. É verdade que prometi enterrar estas lembranças, mas decidi fazer este último passeio e despedir-me para sempre. 

Tristezas e sorrisos me acompanham. Encosto na maçaneta e sinto um tremor. Ao abrir uma fresta da porta, vejo minha mãe deitada no sofá da sala, como costumava ficar. Mas havia algo perturbador em seu semblante. Seus olhos inertes assistiam à televisão, e o cansaço era visível em suas pálpebras. Seus braços estavam imóveis, e, na palma da mão direita, notei uma marca que parecia um pequeno terço. Deduzi que, em algum momento, ela o segurara com tanto fervor que provocara um ferimento. Após um tempo, uma lágrima caiu de seu rosto, e um sussurro ecoou pela casa: 

— Ainda tenho esperanças de que minha filha voltará um dia. 

Isso quase arrancou um grito de mim, mas silenciei com as mãos. Não posso mais ficar aqui. A culpa parecia deliciar-se com meu sofrimento. Na cozinha, meu pai preparava o almoço. O cheiro de bife com cebolas fritas me causou enjoo. 

Tomada por uma profunda tristeza, murmurei: 

— Se não tivesse aceitado aquele convite, talvez estivesse em seu colo, mãe. Eu sinto muito pelas minhas escolhas. 

As inevitáveis lágrimas escorreram. Fechei a porta e sussurrei: 

— Lieran. 

Após isso, senti uma forte sensação de sono até que, finalmente, meu corpo encontrou o solo. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Aborom

Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os olhos de Ameritt me estudavam com uma certa fascinação, como se o véu que escondia minha natureza fosse rasgado, expondo o vazio e o negrume do meu ser. Enquanto sorvia o chá, minhas papilas gustativas se entorpeciam com cada nota presente na infusão. Ela sorriu, levantou-se e me convidou para uma caminhada. Concordei meneando a cabeça, finalizei a xícara, elevei meu rosto e sorri. Ameritt respondeu ao meu gesto com um amável olhar. Inebriada pelos sabores, levantei-me e segui ao seu lado. 

Enquanto caminhava, secretamente me questionava sobre esta doce senhora. Quais segredos essa figura tão enigmática esconde? Ela é realmente um ser fascinante, de alguma forma que não compreendo. Sua presença me acalma. Talvez seja sua forma pacífica de falar, seus gestos e seu olhar sereno e penetrante. 

Iniciamos a caminhada, e a forma como ela pronunciou a palavra "besin" ressoava em minha mente como um doce sussurro. Era acolhedor e engraçado, arrancando de mim discretas risadas, fazendo-me recordar da minha mãe e do seu amável "boa noite, querida filha", seguido de um carinhoso beijo em minha testa. Espero sinceramente que tais lembranças não sejam esquecidas. Guardo-as em meu mais profundo íntimo e volto à realidade. Ameritt percebeu minha "ausência" e indagou se eu estava bem. Respondi que sim, e continuamos. 

Ela estava boquiaberta com a flora desta estufa. Disse-me que cuidava dela com muito esmero. Meus olhos pararam em algo que eu não havia notado antes: enormes abóboras, donas de um brilho hipnotizante. 

— Rose-besin — disse Ameritt calmamente, desacelerando seus passos. Receosa, eu a fitava, pois ela poderia saber algo sobre mim; seu olhar parecia sondar meu íntimo. 

— Saiba que tenho grande apreço por sua companhia. Não tenho recebido tantas visitas ao longo desses anos, apenas dos meus amáveis besouros. 

— Eu que fico lisonjeada com sua companhia. Confesso que... — respirei fundo e continuei —, a senhora me lembra muito minha mãe, tanto na fala quanto nos gestos. 

Abaixei a cabeça com grande pesar após dizer isso. Um silêncio pairou sobre nós. Ela não precisou dizer nada; suas feições falavam por si. Prosseguimos, enquanto eu ouvia suas explicações, tudo com uma paixão singular. Era encantador vê-la falando. 

— Rose-besin, você está ouvindo? Disse que sim. Que doce som as gotas de chuva fazem ao cair no chão, não é mesmo? Venha, gostaria de mostrar algo especial — ela acenou para o canto esquerdo da estufa. 

Após chegarmos, senti algo indescritível, e o que vi foi amedrontador, porém mágico. Eram enormes abóboras detentoras de um brilho único e hipnotizante, como um ardente pôr do sol colorindo o céu com notas alaranjadas. Ao lado delas, nascia um tipo de fungo chamado Obomitas (posteriormente ela explicou-me que era uma espécie de funghi) da mesma tonalidade. Ela disse que, por conta da meia estação, tanto as abóboras quanto os Obomitas se alastraram com rapidez sobrenatural sob as gramas. 

Eu ouvia tudo, mas meus olhos estavam usurpados por aquele brilho. Ela explicou o quão difícil era cuidar da estufa nessa época, pois a vegetação sentia a mudança no clima. 

— Não é só a vegetação que sente a mudança. — As palavras rastejaram para fora dos meus lábios. 

— Perdão, você disse algo, minha querida? Está tudo bem, Rose-besin? 

— Não disse nada — sorri, enquanto meus olhos inertes fitavam as abóboras. Estava claro que não poderia esconder quem eu sou, ainda mais para uma pessoa tão sábia como Ameritt. 

Ela olhou-me com sinceridade e disse: 

— Eu sei, minha querida, o que lhe ocorreu. Existem mais como você aqui no castelo. 

Essa informação me deixou surpresa e aliviada por saber que eu não era a única. Contei-lhe da minha transformação, bem como da minha jornada até ali. Ela ouvia atentamente, e seu semblante exibia um grande pesar. 

— Eu sinto muitíssimo, minha querida... — Interrompi sua fala, pois já sentia a presença dos pontiagudos caninos. 

— Preciso sair... — Mas caí de joelhos. Meus caninos se tornaram visíveis e brilhantes perante os tons alaranjados das abóboras. Gritos inumanos emergiam das minhas entranhas. Vi-a caminhar por entre a estante, enquanto meu corpo se contorcia com violência. Antes que a transformação fosse completa, ela retornou com algo nas mãos. Diante de mim, ergueu as mãos manchadas de terra em forma de concha. Com os olhos fechados, iniciou uma reza numa língua indecifrável. Em seguida, esmagou o que pareciam ser algumas ervas e folhas, produzindo um líquido viscoso esverdeado que caiu em minha boca. Senti um gosto terrível. O que seria isso que acabara de descer em minha garganta? 

Sem demora, senti os efeitos. As pálpebras dos meus olhos tornaram-se pesadas, até que finalmente meu corpo tocou o chão.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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Ben

O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O relógio batia nove horas, e José, diferente dos jovens de sua idade, preferia estar em seu quarto, testando algum software novo, descobrindo novos sites ou apenas jogando jogos vintage em seu emulador. Gostava também de ouvir música em seu toca-discos; essa atmosfera dos anos noventa lhe agradava muito. Antes de se sentar em sua cadeira, ele liga o toca-discos. Seus dedos passeiam sobre os plásticos que protegem cada vinil e, finalmente, escolhe o álbum: Violator, da banda Depeche Mode. É um de seus álbuns favoritos. Os primeiros acordes de "World in My Eyes" ecoam no quarto. Acompanhado de sua caneca transbordando de café, José inicia sua noite. Primeiro, checa seu e-mail, que está transbordando de spam, entre outros e-mails indesejáveis. Quando estava selecionando-os, algo chamou sua atenção. 

No passado, sua curiosidade o levou a lugares peculiares, e desta vez não foi diferente. O e-mail em questão era, no mínimo, suspeito. Ele elevou a caneca aos lábios e inspirou os aromas de baunilha, canela e notas de chocolate. Sorveu e colocou o café ao lado do mouse, sobre a mesa de madeira. 

Ele havia ouvido dezenas de casos sobre e-mails estranhos, que mais se assemelhavam a alguma creepypasta, de tão fantasiosos que eram. Essas histórias geralmente eram encontradas em algum fórum do Reddit, ou acabavam em um tópico escondido do 4chan, com o intuito de viralizar ou assustar. 

Ele estava prestes a clicar quando sentiu as garras gélidas e pontiagudas do medo cravarem-se em sua nuca, roubando os contornos leves de seu rosto, assim como a mansidão tão presente em seus olhos azuis. Sua expressão adquiriu feições de pavor, e a ponta suada dos dedos escorregava sobre o mouse. Olhou em volta; tudo estava igual: o abajur emanava a luz azulada ao lado esquerdo de sua cama, as roupas continuavam sobre a cama, o café também estava lá. Piscou os olhos e retomou sua atenção para a tela do computador. Havia algo naquele estranho e-mail. Primeiro, seu remetente parecia ser criptografado; não havia nada escrito, apenas um link. Ele passou a mão na testa; as primeiras gotas de suor começaram a aparecer. “Não deve ser nada”, pensou ele. Enquanto isso, "Personal Jesus" tocava na vitrola. Bebeu mais um pouco de café e clicou. Uma aba foi aberta, e ele imediatamente reconheceu: era um site chamado CleverBot, um chatterbot criado pelo veterano em IA Rollo Carpenter, que já havia desenvolvido outros aplicativos para a web. 

José estava eufórico, pois havia um mistério envolvendo o CleverBot. Uma creepypasta, temida por muitos, dizia que, através deste chatterbot, o usuário poderia se comunicar com “Ben”, um garotinho que amava jogar Zelda e que havia morrido sob circunstâncias misteriosas, com sua alma presa em uma fita do jogo. Cético, José inicia uma conversa com perguntas triviais, interagindo com a máquina. Estava se divertindo bastante, mas, de repente, as perguntas começaram a soar estranhas. Seus olhos estavam fixos na tela, e ele decidiu desafiar o aplicativo. Começou a digitar: “Onde está o Ben?”, mas antes de enviar, houve uma resposta. 

— Se fosse você, não faria isso. 

— Não faria o quê? 

— Talvez você encontre algo de que não goste. 

— Eu não iria procurar nada. 

— Eu sei que sim; não adianta negar. 

Imediatamente, uma sensação perturbadora de estar sendo observado o envolveu. Pensou: "Isto está ficando bizarro, melhor fazer outra coisa". Porém, algo o prendia ali. 

— Deve ser algum tipo de brincadeira. Adeus. 

— Não vá, José; estava começando a me divertir. 

— Como você sabe meu nome? 

— Ora, eu sei de tudo. 

— Nunca deveria ter aberto aquele e-mail. 

— Tarde demais para arrependimentos. 

— Aliás, eu adorei a luminária azul. 

Suas mãos tremiam. Ele saiu do computador, olhou em volta, ligou a luz, fechou as janelas e a porta. 

— Sabe, José, gosto muito de Depeche Mode. Inclusive, “Waiting for the Night” é uma das minhas preferidas. 

Uma atmosfera terrível pairava naquele quarto. José estava amedrontado, andando de um lado para o outro. Uma pavorosa sensação de sufocamento o acompanhava, como se fosse um obsessor. Sentiu uma dor pungente brotar de seu peito, gritou até não poder mais e, antes de sucumbir, leu a última frase no computador. 

— A propósito, me chamo BEN.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Lago

— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Alertei para ele não ir até lá... — disse Marcos, equilibrando seu corpo inebriado na banqueta, os cotovelos apoiados na bancada de madeira, lutando para não cair. Sua voz, inaudível, soou um tanto fantasmagórica enquanto contemplava o vazio através de seus olhos verdes. 

— Até hoje sou assombrado por aquele horrendo entardecer... — Após proferir tais palavras, um silêncio perturbador reinou naquele bar. 

Enquanto isso, Carlos, que lustrava a bancada, ouvia com temor cada sílaba, pois aquele terrível acontecimento ainda lhe causava calafrios. 

— Por Deus, Marcos, temos visitantes na vila; é melhor não abrir a boca, entendeu? Todos nós avisamos sobre os perigos daquele lago, e mesmo assim... ele sorriu e foi ao encontro daquelas turvas águas. Ele tinha um ego maior que o temível Kraken — concluiu ele, servindo outra dose para Marcos. 

Nesse momento, alguém com passos leves se aproxima e ouve parte da conversa. A princípio, eles ignoram, mas o cumprimento do visitante faz os homens despertarem daquele estado letárgico. 

Nesta época do ano, a vila recebe muitos turistas por conta de um festival tradicional de frutos do mar, com os mais diferentes pratos, gerando muita renda para o comércio local. As águas cristalinas da praia eram belíssimas, o céu sempre azul-marinho, e o sol radiante era um espetáculo para os olhos. 

Após as formalidades, o visitante entrou e pediu uma cerveja. Carlos o serviu, e o homem, que dizia ser um pesquisador, explicou que estava ali para escrever uma matéria para uma revista. 

— Mas que belo lugar este, não é? — disse Pedro, o visitante. — Desculpem minha curiosidade, mas ouvi boa parte da conversa, e... os fatos narrados são verdadeiros? Digo, é uma história bastante assustadora. 

Os homens se entreolharam com temor antes de responder. 

— Aquele lago é amaldiçoado — iniciou Marcos, em um tom que falhava, como se revelasse algum segredo macabro. 

— Crescemos ouvindo histórias sobre o lago. Diziam que, uma vez que você entra nas turvas águas, nunca mais será o mesmo. Acontecem mudanças físicas que tenho pavor em mencionar. 

— Que mudanças? — perguntou Pedro, intrigado. 

— Após três dias — disse Carlos, sussurrando — a pele se transforma, adquirindo um aspecto viscoso. Com o avançar dos dias, a pele desaparece por completo, e em seu lugar, escamas surgem dos poros. E então um cheiro pútrido e desagradável começa a ser sentido em certas horas... e os olhos... — Neste momento, um terrível arrepio percorreu os três. — Meu Deus, os olhos... ficam vazios, mortos, e o corpo se torna uma espécie de aglomerado acinzentado. 

Absorto, Pedro escutou com muita atenção e pensou consigo mesmo: “Será que tal relato é verdadeiro? Mas por que razão esses humildes homens haveriam de mentir? Suas feições vestem o verdadeiro horror.” 

Ainda espantado, Pedro disse: 

— Eu já ouvi muitas histórias estranhas nesta vida, mas nada se compara a esta. Se me permitem, será que eu poderia escrever uma matéria? 

Os homens tremiam e olhavam ao redor enquanto engoliam as lembranças com o álcool. 

— Acho que sim — um deles falou, enquanto o outro admirava o copo vazio com um olhar perdido. Pedro insistiu, e eles aceitaram. Mas antes de se despedirem, Carlos falou: 

— Se você tem amor à sua vida, vá embora o quanto antes. Sei que é dia de festa por aqui, mas aconselho você a ir. 

Pedro caminhava pela rua com aquela história na cabeça quando uma forte brisa tocou seu rosto, desarrumando seus cabelos pretos e trazendo consigo um odor pútrido, igual ao que acabara de ouvir. Procurou seu carro e acelerou o mais rápido possível.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Plácido

Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Desde que entramos em quarentena, nunca mais fomos os mesmos. Dia após dia, nossa sanidade foi cruelmente usurpada pelo desconhecido. Sem que pudéssemos revidar, fomos algemados pelas perversas mãos do invisível, aprisionados em nossas próprias casas. Ao mesmo tempo, a falsa ideia de “proteção” nos dava algum consolo. 

Enquanto isso, o terrífico vazio reina imponente sobre os escaldantes paralelepípedos; os únicos sons que se ouvem são o soprar da brisa marítima, que parece vir das profundezas do mar, espalhando os grãos de areia por todas as esquinas e ruas, precipitando-se por entre as frestas dos desgastados paralelepípedos. 

Minha casa fica em uma íngreme ladeira, próxima à placa de boas-vindas da vila. Devido à impiedosa maresia, não é possível mais ler a placa, mas, com muito esforço, é possível enxergar entre a ferrugem a vogal “P”. 

Minha casa é simples, assim como todas as outras. Possui um terraço feito de cimento queimado, uma rede dobrada sustentada por antigos armadores e uma cadeira de balanço. A sala é de bom tamanho; um sofá marrom de camurça ocupa o centro, próximo à porta, junto a uma poltrona, e em frente ao sofá há um rack com uma televisão de trinta polegadas. Acima do rack, algumas lembranças em fotografias. Mais à frente, uma mesa talhada em imbuia com quatro cadeiras. À esquerda, os quartos; à direita, uma cozinha. 

Por minha casa ter uma boa localização, consigo enxergar quase toda a vila e sua natureza exuberante. A vila é cercada por imensas falésias cobertas de gramíneas, e acima delas, belos e frutíferos coqueiros bailam suavemente perante os ventos. 

Vivo sozinho desde o fatídico dia em que minha família precisou fazer uma viagem de emergência, dois meses antes do isolamento. Nosso primo havia passado muito mal, acometido por um grave quadro de arritmia, e precisou ir ao hospital o mais rápido possível. Fiquei cuidando da casa; eles confiavam muito em mim. Toda noite, porém, sou assombrado por devaneios. Será que estão bem? Como anda a saúde de meu primo, a quem tenho tanta estima? Será que estão vivos?... Se algum dia tudo voltar ao normal, tentarei ser uma pessoa melhor. 

Os dias são iguais; tudo se tornou monótono, como um interminável e solitário entardecer de domingo. Às vezes ligo a televisão, mas as notícias são desanimadoras, o alerta para não sair é torturante. Apesar de ser uma vila muito afastada, não irei arriscar sair e algo acontecer. Ouço com apatia o tique-taque do relógio, que anuncia a chegada de mais um anoitecer. 

A noite se tornou para mim o pior momento do dia. É desconfortável olhar e ver os bancos das praças vazios. Se eu fechar os olhos, consigo ouvir pessoas caminhando, sorrisos, crianças correndo, até mesmo o cheiro amanteigado do carrinho de pipoca. Agora, porém, a desolação ocupa a praça. 

Debruçado na janela, observo com profunda melancolia e recordo com pesar momentos felizes. Meus olhos se perdem naquela rua escura, mas algo me tira do calabouço de memórias: escuto um arrepiante som vindo de alguma das longínquas casas. Era uma porta que acabara de ser aberta; o ranger foi ouvido por toda a vila, e meus olhos arregalados procuram a origem do som, sem êxito. 

Não importa qual seja o motivo — desespero, revolta ou curiosidade — o fato é que há alguém lá fora. Eu ouvia os passos com uma certa fascinação mórbida. Os passos, que começaram acanhados, se tornaram mais acelerados. Em meio àquele breu, os primeiros traços surgiram. Tratava-se de um homem alto, branco, de cabelos curtos, trajando pijamas em tons de bege, que caminhava desorientado. Em determinado trecho, ele parou, olhou para trás e formulou frases inaudíveis. A pálida lua salientava seus olhos apavorados, que pareciam querer saltar das órbitas. Sua expressão terrífica era assustadora. Outros moradores também observavam pelas frestas de suas casas. Ele clamou por ajuda, mas sem êxito; eis que uma voz ecoa, alguém lhe pedindo para que voltasse, mas ele ignorou o pedido. 

Ainda ali, com os olhos imersos na fechadura, noto que o homem continua na mesma posição, mas algo o faz olhar bruscamente para trás. Ele eleva as mãos aos céus, em desespero, e depois baixa a cabeça, lamentando sua escolha. Realmente havia algo lá fora. Ele continuou a correr, falando frases desconexas; sua respiração tornou-se mais debilitada. Prosseguiu por mais alguns metros, mas não o suficiente, pois seus pulmões começavam a falhar. Contemplo enquanto seu corpo lentamente cai de joelhos e, antes de sucumbir, ele profere a seguinte frase: “Não saiam! Pois Ele está à espreita, e quem desobedecer será severamente punido.” Após dizer isso, seu corpo cai sobre os paralelepípedos. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Último Sono

Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Era por volta das onze horas da noite. Eu estava me preparando para dormir; já havia feito meus rituais noturnos, como ir ao banheiro, escovar os dentes, trancar as portas, lavar algumas louças pendentes do jantar, encher minha moringa de barro e colocá-la ao lado direito da minha cama, sobre a mesinha de canto feita de carvalho, onde fica um antigo exemplar de capa dura da minha obra favorita, Morro dos Ventos Uivantes, uma das doces lembranças que tento preservar nesta casa repleta de fantasmas silenciosos. 

Deveria ter me acostumado com a solidão; afinal, faz tantos anos que convivo com ela, mas seu prazer é torturar-me dia e noite. As paredes desta casa estão fartas de ouvir minhas lamúrias. A noite ia ser longa, meu travesseiro é meu confidente, assim como você foi um dia. O lado em que você dormia permanece intacto, como se algum dia você pudesse voltar. Eu sei, é bobagem alimentar tal devaneio; preciso aceitar o fato de que nunca mais verei teu sorriso acolhedor, teu caloroso abraço e teu plácido olhar quando dizia que me amava. De nada adianta lamentar-se; não há como reparar o mal que tanto lhe causei. Se existir alguma divindade neste infinito cosmo, ela me fará dormir eternamente. 

A incômoda e brilhante luz do sol rastejou pelas frestas da persiana, sempre que a brisa matinal soprava, atingindo meus sonolentos olhos. Não sei o que é mais doloroso: não poder ouvir teu amável "boa noite" ou teu caloroso "bom dia". Observo, com melancolia nos olhos, o doce tear das aranhas armadeiras; elas tecem cada fio sem preocupação. Bocejo e, em seguida, me levanto. 

Enquanto tomo meu café, meu celular toca; era um número que não conheço. Penso ser uma daquelas ligações indesejáveis de telemarketing que recebemos durante o dia, mas decido atender. A princípio, o silêncio permanece, até que escuto um melancólico "alô". Era uma voz feminina, que soou um tanto trêmula. Ela me contou o motivo da ligação e disse que conseguiu meu número por indicação de um amigo. (De fato, já havia feito alguns trabalhos como fotógrafo — casamentos, batizados e alguns ensaios —, mas nada se comparava a isso.) O trabalho em questão era um registro post-mortem. 

Foi algo tão inesperado que fiquei desconcertado, mas prossegui com a conversa e disse, com pesar, que sentia muito por sua perda, mas, infelizmente, não seria capaz de realizar o trabalho. Ouvi a dor em sua respiração. Ela entendeu e, aos prantos, desligou. Encontrei-me extasiado, contemplando a fumaça do café evaporando no ar. Aquela conversa me fez lembrar de um seminário que participei há alguns anos, onde foi abordado um tema que, na época, me soou um tanto mórbido. O seminário em questão foi sobre os diferentes campos da fotografia. Eu ainda estava engatinhando nesse maravilhoso mundo e sentei nas cadeiras do meio, empolgado, pois, entre os temas, havia um em especial que causava uma estranha curiosidade. 

A voz rouca do palestrante anunciou o tema, e lembro dos avisos de que seria um tema sensível. Ele apagou as luzes, ligou o retroprojetor e exibiu uma obscura galeria. Explicou que esse tipo de fotografia trata-se de retratos post-mortem, um registro fotográfico de um ente querido após o falecimento. Ele mencionou que esse tipo de fotografia foi bastante difundido na era vitoriana, mas também na Europa e na África, e era dividida em categorias, como “O Último Sono” (como o próprio nome diz, a fotografia era tirada com o cadáver numa cama, algumas decoradas, outras não); outra categoria era “A Última Presença Social” (a fotografia era realizada com os amigos mais próximos e familiares, que ficavam em volta do cadáver, como o último evento em honra ao morto); e havia também a categoria chamada “Mãe e Filha” (em sua maioria, as filhas ou filhos eram natimortos, e geralmente as fotos eram das respectivas mães abraçadas com suas crianças).  

Ele bebeu água, enxugou a testa e prosseguiu, dizendo que, diferente da pintura, o daguerreótipo tornou mais acessível ter esse registro fotográfico de um familiar querido. Para nossa surpresa, os organizadores do seminário trouxeram dois exemplares reais, cedidos gentilmente para serem exibidos a nós. A fotografia estava envolta por um sólido compartimento de acrílico; nos deram luvas para manuseá-la, e posso te dizer com franqueza: assim que a toquei, senti uma terrível angústia. Eu não conseguia encarar a fotografia. A foto em questão era o “Sono Eterno”. Era desconfortante encarar aquele semblante calmo, com traços angelicais e, ao mesmo tempo, um tanto sombrio, o que me causou arrepios. Olhei rapidamente e a devolvi, pois não conseguia ver aquela imagem por muito tempo. Mas a verdade é que aquela fotografia permanece viva em minha memória; aqueles olhos fechados me assombram até hoje. 

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Pesadelo

Os gritos histéricos e o agoniante ranger da cama ecoavam por toda a casa. Sob o lençol branco, seu corpo se contorcia num medonho frenesi. Ele acorda…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Os gritos histéricos e o agoniante ranger da cama ecoavam por toda a casa. Sob o lençol branco, seu corpo se contorcia num medonho frenesi. Ele acorda aterrorizado: a cama encharcada, os olhos quase saltando das órbitas, os braços estendidos implorando por alguma intervenção. Amedrontado, Pedro senta-se na cama, atordoado. Ele tenta buscar respostas para esse terrível pesadelo e sussurra: 

— Isto foi tão assustador, e tão tangível quanto as paredes dessa casa. 

Ofegante, ele fita a janela à frente da cama. Ouve o soprar dos ventos, que soam como o arrepiante uivo de lobos em plena lua cheia, e ouve também as flores do jardim e as altas gramas movendo-se de forma estranha. Enquanto encara a janela, uma terrível sensação de estar sendo observado toma conta dele. Munido de coragem, ele se levanta, e, ao acender a luz do quarto, nota algo estranho: o piso parecia maleável, prestes a ceder a qualquer momento. Ele caminha com cautela e acende as luzes o mais rápido que pode. As alterações pioram severamente. Ele podia ouvir o horrível ranger da estrutura da casa; a tinta das paredes parecia derreter. Seus olhos percorrem, apavorados, todo o lugar. Viu também que os móveis da sala haviam duplicado, adquirindo um indescritível aspecto. 

— Não pode ser... Isto é loucura! Será que acordei, ou ainda estou dormindo? 

Após cruzar a sala, Pedro chegou à porta que dava acesso ao jardim. Ao abrir, ele contemplou o inimaginável ganhando vida diante dos seus olhos: o jardim que outrora era gracioso e belo sofrera também as anomalias. As altas gramas transformaram-se em horrendos e viscosos tentáculos que dançavam sob o temível luar. O som era repugnante. A terra adquirira um aspecto lamacento, como um pântano. O limoeiro fora tomado pelo lamaçal. 

Pedro eleva as mãos até a cabeça, e, tomado pelo terror, vocifera perante o inconcebível: 

— Isto não é real!! Estou dormindo ainda! 

Enquanto ele grita, os tentáculos partem ao seu encontro, deixando um rastro negro pelo chão. Ele corre para dentro de casa e, num piscar de olhos, está de volta em sua cama, apavorado, aliviado por ter amanhecido e pela luz brilhante do sol que invade o quarto. Levanta-se rapidamente, mas não consegue acreditar no que vê: as anomalias continuam lá. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Janela

Mais uma madrugada em que a insônia é minha companhia. Inquieto, me aproximei da janela, abri-a e senti a brisa fresca tocar meu rosto, dispersando as…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Mais uma madrugada em que a insônia é minha companhia. Inquieto, me aproximei da janela, abri-a e senti a brisa fresca tocar meu rosto, dispersando as gotas de suor em minha testa e trazendo um certo alívio, já que durante o dia tem sido demasiadamente quente. 

Meu quarto fica no andar superior, proporcionando uma excelente vista de toda a rua. Debruço-me sobre a janela e vislumbro aquela rua vazia, mal iluminada pelos puídos e amarelados postes. Há algum prazer oculto, o qual desconheço, em imaginar o que meus vizinhos estão fazendo dentro das quatro paredes. Consigo ver algumas casas com luzes acesas, enquanto outras estão em absoluta escuridão. No entanto, algo chama minha atenção em uma casa à minha frente. Há um homem alto que anda de um lado para o outro, parecendo nervoso. Abaixo-me para observar com cuidado. Através da cortina, vejo que ele ensaia movimentos que lembram os de um mímico. 

Não consigo desviar o olhar. Vejo-o abrir o guarda-roupa e retirar algo que se assemelha a uma fantasia listrada preta e branca. Em seguida, ele a joga sobre a cama e vai até a janela para verificar se ninguém o está observando. Noto que ainda está com a maquiagem característica dos mímicos. Ao retornar, ele carrega uma grande mala. Sinto um frio na espinha, a sensação de que ele sabe que estou a observar seus segredos. Com certa facilidade, ele ergue algumas sacolas pretas, coloca-as na mala e a fecha. 

Tomado pelo horror, emito um grito, fazendo com que ele volte à janela. Infelizmente, ele me viu. “É tarde demais, provavelmente aquelas sacolas eram... Não quero nem pensar nisso...”. Algum tempo se passou e tudo voltou a ficar calmo (pelo menos era o que eu achava). Ainda me encontrava sentado no chão, em posição fetal, quando uma suave melodia soou como a sinistra sinfonia de Bach intitulada Toccata and Fugue. Foi então que ele finalmente entrou. Seus passos firmes ecoavam por toda a casa. Subiu as escadas, cruzou o corredor e encontrou meu quarto. Então, eu o vi: tinha por volta de um metro e noventa, o rosto afinado e pálido, coberto de tinta branca, sobrancelhas marcantes, olhos vazios e perversos. Seus cabelos estavam penteados para trás, tão negros quanto aquela noite. Por fim, um sorriso malicioso, que ansiava devorar-me, surgiu. Ele trajava calça de moletom preta e camiseta branca, salpicada de escarlate. A passos lentos, se aproximou de mim e disse calmamente: 

— Não era para você ter visto. Agora você fará parte da minha coleção. 

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Horrífico

Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Diante de mim está o altíssimo e longínquo corredor em forma de arco. Seu comprimento é imensurável, tal qual o colossal monstro bíblico Leviatã. Assustada, contemplo-o com admiração. Infelizmente, as pedras encontram-se severamente puídas; tenho certeza de que viveram eras em que sua beleza era notada por todos que cruzassem este corredor. Elas eram de diferentes tamanhos e espessuras, mas, unidas, resultavam em um visual sublime e uniforme, apresentando uma coloração que varia entre marrom, verde musgo e, em algumas, um tom acinzentado. 

Adornando toda a extensão do corredor, delicadas, porém resistentes teias, executadas com precisão pelas habilidosas aranhas, trabalhavam com ardor sob a chama trêmula oriunda das inúmeras velas. Por estranho que pareça, senti paz observando aquela cena, mas um leve menear trouxe-me de volta. Preciso continuar — digo para mim mesma, enquanto observo as chamas desenharem vultos sobre as pedras. Minha mente voltou a assobiar terrores que vivenciei em meu quarto. Tenho numerosas dúvidas, as quais temo proferir em voz alta. É com esses questionamentos que inicio minha caminhada cautelosa; meus passos ecoam no silêncio, desviando das constantes teias que insistem em enroscar-se em meus cachos. Estou caminhando há alguns minutos. Olho para trás e já não é possível ver o começo do corredor. Conforme ando, vejo que as velas se tornam cada vez mais escassas. Antes que fique em total escuridão, apodero-me de um dos candeeiros e prossigo. 

— Parece não ter fim. — Minhas palavras são engolidas pela penumbra, que lentamente me abraça. Lembro-me com clareza deste corredor; percorri-o no dia do grande baile de máscaras, e ele não me parecia tão extenso. Mas prossigo. Estou cogitando a ideia de estar alucinando, de que estou presa em um sonho. Será tudo fruto da minha imaginação? “Não, Rose, concentre-se”, digo a mim mesma, e acabo não percebendo que as paredes se tornaram mais próximas. Sei que é algo ilógico, dada a construção sólida do castelo, mas compreendi que, neste lugar, o inimaginável se torna tão real quanto o breu lá fora. 

Meus passos se tornaram mais acelerados, e o corredor mais estreito. Algo me faz parar: uma brisa que não pertencia ao castelo surgiu como uma assombração e parece trazer consigo vida e frescor. Inspiro e vejo folhas verdejantes sendo atingidas por intensos ventos, desprendendo-se e flutuando com graça sob o céu azul até tocar o chão de terra. Reconheço aquele lugar. Volto a ser criança novamente, fecho os olhos e sinto o perfume adocicado da mangueira, o som das suculentas mangas caindo naquele jardim, exalando o cheiro inconfundível. 

Abandono a terna lembrança e, mais à frente, me deparo com algo grandioso. Elevo a vela à altura dos olhos e fico extasiada: diante de mim está um lindíssimo portão, esculpido de forma magistral em ouro velho. Em torno dele, pairam centenas de borboletas em tons de marfim, com o bater de asas muito bem orquestrado, um espetáculo, como se velassem segredos além do tempo. Hipnotizada, respiro e vou ao encontro da gélida maçaneta. Ao girá-la, liberto um odor ferruginoso; as borboletas permanecem quietas. Sou recebida por um sopro diferente, um frescor toca meu rosto, como uma leve garoa. À minha frente, encontro uma enorme estufa. O lugar é surreal, meu cérebro tenta assimilar o que vê. Estou em êxtase, parece que cruzei a toca do coelho e vim parar em outra realidade. Aqui, exala vida; a vegetação brilha misteriosamente em tons de verde, roxo e vermelho. Seu brilho se estende por toda a estufa, tal qual uma nebulosa na imensidão do firmamento. Devido à sua bioluminescência, alguns insetos sobrevoam a vegetação colorida. Gotículas de água escorrem sob a redoma de vidro. Plantas das mais variadas espécies crescem vigorosas, exibindo suas folhas e frutos suculentos. Plantas das quais eu não tinha conhecimento que existiam. Quem ficaria encantado por este lugar era meu pai, pois ele era um entusiasta da botânica. Foi ele quem me mostrou algumas obras filosóficas e ocultistas; por não ter conhecimento adequado, compreendia quase nada, mas aquele mundo misterioso me encantou. Lia tudo escondida em meu quarto, na penumbra do abajur rosa; era nosso segredo. 

Imersa na nostalgia, vejo algo que me faz suspirar. À minha frente, este lugar também é uma extensa biblioteca, repleta de inúmeros exemplares, desde livros de bolso até verdadeiros calhamaços. Realmente, este castelo não deixa de me surpreender. Abismada, me questiono se o funesto livro se encontra aqui. Atenta, observo tudo, enquanto meus delgados dedos sentem as texturas de cada livro. Noto obras sobre botânica, alquimia, matemática, esoterismo e até mesmo magia. Alguns títulos me eram conhecidos, como A Mônada Hieroglífica, O Livro da Lei, A História da Magia, O Alquimista, e alguns livros sobre botânica que estavam em latim. Sigo lendo os títulos, estou chegando quase ao final da estufa, quando percebo uma mesa vitoriana branca. Sobre seu tampo, uma singela renda do mesmo tom da mesa; havia também duas xícaras e uma chaleira de porcelana verde. Por fim, duas cadeiras, sendo uma delas ocupada por alguém. Receosa, prossigo; agora seus traços ficam mais nítidos. Suas roupas estão com resíduos de terra; era uma idosa, dona de um sorriso sereno, de olhar profundo e amoroso. Trajava uma camiseta branca, uma jardineira e, por fim, um suéter de tricô verde. Havia algumas poucas rugas sob seu rosto pálido. Aproximei-me, temerosa; ela estendeu a mão, convidando-me a sentar. Assim o fiz. Ela sorriu e disse: 

— Não tenhas medo, minha jovem. Como se chama? 

Sua doce e trêmula voz trazia uma familiaridade que não consigo explicar. 

— Me chamo Rose — minha voz soou quase inaudível. Seu olhar era acolhedor, então ela continuou: 

— Pois bem, é um prazer te conhecer, Rose-besin. Eu me chamo Ameritt. 

Minhas feições me entregaram. Percebendo que eu não havia compreendido a palavra "besin", ela explicou seu significado, contando também que a palavra deriva de povos antigos da vila de Séttimor, que fica nos arredores do castelo. Aquilo me deixou intrigada. Ela mencionou, ainda, as sete mortes e os misteriosos habitantes dessa vila. Apoiei meu pulso sob o queixo e fiquei pensando: o que seria essa tal vila? Como chegar até ela? No entanto, ela continuou falando. 

— Resido aqui há muito tempo, e posso afirmar, minha jovem, vi e vivenciei coisas inimagináveis. Mas, pelo que percebi, acredito que você também, não é mesmo, Rose-besin? 

Assenti que sim. 

— Minha querida, posso lhe oferecer um chá? Eu mesma colhi as ervas. Aliás, percebi como você ficou encantada; vi seus olhos brilhando perante a vasta flora, bem como sua bioluminescência. É prazeroso quando vejo alguém que se apaixona pelo meu jardim. 

Perguntei sobre os besouros e insetos daqui, e ela explicou que eles tinham um significado profundo. Além de polinizar, eram almas perdidas que reencarnaram. Fiquei ainda mais confusa e entrei numa espécie de delírio. Será que virarei um besouro também, dada a minha natureza? Seus lábios moviam-se com a ternura de uma avó, me tranquilizando. Então, ela abriu a tampa da chaleira, e logo um aroma peculiar pairou no ar; era único. Ela serviu o chá com tranquilidade, olhou-me e disse: 

— Beba, vai se sentir melhor. 

Um sorriso plácido surgiu em seus lábios. Elevei a xícara à altura do meu queixo, vislumbrei as especiarias em infusão. O aroma era indescritível e convidativo. Fechei os olhos, inalei e sorvi. Porém, um pensamento assustador pairou em minha mente: e se este chá estiver envenenado? 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

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Insondável

Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Minhas mãos suadas permanecem estáticas segurando a maçaneta de ferro, enquanto meus olhos castanhos brilham perante a insondável nívea. Desde a minha “morte” tenho presenciado o desconhecido em suas variadas formas, mas nada como o inquietante arranhar dos pálidos galhos sob a estrutura do castelo, causando-me intensos arrepios.

Meus dedos escorregam pela maçaneta, deixando-a para trás. Fito mais uma vez o cinzento céu e caminho devagar rumo à janela. Ouço o soprar dos ventos que, sorrateiramente, rastejam por entre as frestas do castelo, remetendo aos acordes presentes na linda e fúnebre missa composta por Mozart, intitulada Réquiem.

A vejo surgir no canto esquerdo. Ela possui um estranho brilho, ao mesmo tempo que é opaca. A densa névoa parece dotada de algum tipo de inteligência, pois escala com muita perícia cada tijolo, tal qual uma astuta formiga que segue seu caminho com fervor. Volto meu olhar para a escuridão cinzenta e percebo então o que havia constatado há algum tempo: meu âmago é tão vazio e tenebroso quanto a nívea que se move lá fora, usurpando o tênue luar, bem como o brilho das estrelas.

Enquanto meus devaneios me afastam da realidade, uma horrenda dança orquestrada pelos ventos soturnos é iniciada. O balançar dos arbustos e das árvores soa como uma nefasta canção de ninar, proferida secretamente pelos deuses do infindável cosmo, espalhando pelas sombras suas verdes folhas.

Em estado de torpor, acompanho com meus olhos brilhantes o bailar da flora pelos arredores do castelo. Elas parecem obedecer aos comandos de alguma entidade que desconheço, assim como aquele ramoso nevoeiro.

Acabo atraindo a atenção dos incontáveis ramos, que logo vieram ao meu encontro, e finalmente vi sua horrenda forma com clareza. Eram compostos por extensos fragmentos esbranquiçados que, unidos, formavam os pavorosos e colossais ramos. Uma estranha sensação abraça meu corpo, sinto-me vulnerável, como se o ramoso nevoeiro conhecesse minha natureza. Minhas entranhas se contorcem, meu colo palpita desregulado.

Retiro minha mão do vidro com rapidez, mas eles permanecem ali, pairando na escuridão cinzenta, me observando e arranhando a janela de maneira ininterrupta, produzindo um som medonho que logo faz morada em meus ouvidos. Os ventos se intensificam, fazendo com que a dança dos galhos se torne mais intensa. Neste momento, uma dessas lembranças que nosso cérebro tanto se esforça para manter enclausurada nos confins do subconsciente decidiu nadar até a superfície.

Aquele arranhar dos galhos trouxe à tona algo que estava adormecido. Meus olhos agora vestiam uma sombria cortina de lágrimas que estava prestes a cair. Os amargos anos que passei ao lado do Airton foram repugnantes. O som dos galhos remetia aos talheres ainda com resquícios de macarronada deslizando sobre os pratos de porcelana branca, produzindo um som detestável. Ele fazia isso com um sorriso perverso no canto da boca, entre outras inúmeras grosserias. Seu respirar pesado e desagradável era como o soprar dos ventos lá fora. Infelizmente, ele ainda me assombra, tal qual um obsessor que sempre fica à espreita.

Lágrimas caíram e, por breves segundos, a ira se apoderou de mim. Meu corpo tremia, meus punhos estavam cerrados. Um grito emergiu das minhas entranhas: — Deixe-me em paz, criatura horrenda, não me tortures mais! — Gritei até meus pulmões cansarem, para a assombração que cruelmente sorria em meu subconsciente. Minhas palavras foram ouvidas por cada tijolo do castelo. Por mais que queira perder-me em lascívia, precisava me conter. Meu corpo se encontrava febril, minhas mãos sedentas. Com a finalidade de afugentar aqueles pensamentos, fecho a jaqueta, cruzo os braços e inicio uma caminhada em círculos, ignorando completamente o fato de que o assombroso nevoeiro ocupa grande parte do meu aposento.

Após um longo período, vou me acalmando. Mais uma vez, estou diante da porta. Tenho que sair. Respiro fundo e, antes de sair, noto uma presença atrás de mim. Cautelosa, olho por cima do ombro, com a mão na maçaneta. Então, vislumbro algo horripilante: a neblina havia tomado meu aposento quase por inteiro, tal qual a chegada sorrateira da noite, devorando os últimos raios de sol.

Munida de coragem, abro a porta. Sou agraciada por uma brisa gélida. Antes de fechar a porta, vejo pela fresta a névoa se movendo de forma estranha, em círculos. Sinto o frio na espinha me abraçar. Atrás de mim, um enorme corredor iluminado por anêmicas velas que lutavam para não cair dos candeeiros dispostos nas paredes. — Finalmente consegui sair! Sussurrei, enquanto meu olhar se perdia pelo corredor ornamentado pelas sombras disformes vindas das velas. Prossigo em direção à biblioteca; preciso folhear aquele livro mais uma vez.

Texto publicado na 8ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de agosto de 2024. → Ler edição completa

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