Hereditariedade
Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O Senhor é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.” (Números 14:18)
Foram várias consultas e aqueles malditos médicos não descobriram o que eu tinha. Uns ousaram dizer que eram sintomas psicossomáticas em decorrência do estresse. Outros disseram que, por não saber de fato minha origem (era filha adotiva), não saberiam dizer se era uma condição hereditária — e até irreversível. Fato era que os males noturnos pioravam à medida que os meses se arrastavam perante mim.
Vertigem. Falta de ar. Suores repentinos. Não, eu não estava entrando na menopausa, nem precoce e nem nada, pois só tinha 27 anos na época e aqueles palermas afirmavam que não se tratava disso. Estresse? Quase todo mundo tinha, me sentia até pertencente à essa geração de descontrolados varridos. E, baseados nessas desculpas, me entupiram de drogas para “aliviar a tensão”.
E tudo continuava a se agravar.
Não conseguia mais dormir. O descanso irregular piorava o suposto quadro de estresse. Aquele maldito ciclo era surreal. Não conseguia dormir por causa do estresse, ficava ainda mais estressada porque não conseguia dormir.
Pensei em procurar meus pais biológicos, com a estrita intenção de tentar entender qual condição maléfica poderiam ter passado para mim, mas isso não era possível, já que minha mãe — a adotiva e minha mãe de fato —, nunca soube quem eram.
Mas eu não conseguia mais viver daquela forma e, ignorando meu ceticismo, fui visitar uma médium (essa atitude também agravou meu quadro, pois tive que passar por cima das minhas crenças, ou melhor, da falta delas).
Mas o que era mais uma cavada para quem já está no fundo do poço?
***
Devia ter seguido minha intuição. Aquela mulher falou tanta baboseira que mal consegui terminar de ouvi-la até o fim — alguma coisa sobre maldição hereditária e pecados atravessando gerações. Já ouviu falar: “O que os olhos não veem, o coração não sente”? Então, não devia ter visto essa história de perto.
Segundo a charlatã, meu bisavô era proprietário de uma companhia muito próspera que fazia papeis de parede. O problema é que um dos elementos usados para produzir a cor púrpura era arsênico. Sim, o veneno.
Fui pesquisar depois e, para meu absoluto desprazer, isso realmente aconteceu na história humana. Papel de parede envenenando gente. O século XIX parecia um grande experimento suicida coletivo.
Mas, continuando a história absurda, em decorrência disso, várias pessoas faleceram intoxicadas. Uma dessas famílias era composta por religiosos fervorosos que, por influência de algo obscuro, flertavam com práticas incomuns (não me pergunte quais, como eu disse, mal prestei atenção nela).
Dos cinco membros que viviam na casa recém reformada com aqueles belíssimos papeis violetas, quatro morreram de forma trágica. A matriarca da família, e única sobrevivente, rogou uma maldição contra meu bisavô:
“Assim como quatro tombaram sob teu pecado, quatro gerações pagarão.”
Se aquilo fosse verdade, seriam quatro gerações condenadas à morte de formas terríveis: meu bisavô, meu avô, meus pais… e eu.
A mulher ainda afirmou que, quando meus pais descobriram sobre a maldição, decidiram me colocar para adoção. Talvez acreditassem que a distância bastasse para enganar a dona morte.
É obvio que não acreditei em nenhuma palavra da médium naquele momento, e continuei minha vida, rotina de insônia, médicos e trabalho. Até que tudo ruiu.
***
Quem poderia imaginar que o fundo do poço não era o pior lugar que eu poderia estar? Achava que só mais uma escavação não faria ruir as estruturas, mas tudo cedeu e me soterrou em ressentimentos e maldições. Sim, era tudo verdade, mas, mesmo se eu tivesse acreditado antes, não poderia mudar meu destino. Pagar pelos erros dos antepassados era cruel e injusto, mas a minha revolta não mudaria nada disso.
Perdi meu trabalho, porque não conseguia me concentrar em nada.
Não fui mais aos médicos, porque já não tinha dinheiro para os exames.
E, sem dormir, minha mente me pregou peças.
Um dia, quando estava deitada tentando dormir — ah, como eu era insistente — olhei para o espelho que havia ao lado da minha cama e avistei — até então tinha certeza de que imaginava — em cima do meu peito uma criatura cadavérica, de olhos tão escuros que sugavam a atenção, o olhar e a vontade de viver. E, quando ela sorriu, todos os males que sentia foram agravados. Ela era a culpada!
Mas eu não permitiria que a maldição me atingisse de forma direta. O último elo dessa corrente iria resistir bravamente, nos meus termos, do meu modo.
E, com uma apunhalada, quebrei o maldito portal-espelho, sentia os pedacinhos de vidros me convidando, atraindo, clamando para terminar de uma vez por todas com aquele sofrimento.
Agarrei um dos cacos mais pontudos e enfiei primeiro nos meus olhos, mas isso não foi suficiente e, apesar da dor, ainda havia vida em mim. Ouvi uma voz sussurrar que havia chegado o momento de, finalmente, ter o descanso eterno, e sem hesitar cravei o objeto na garganta e a rasguei...
...Continuo não sabendo o que sou, quem sou, mas enfim obtive o merecido sono eterno.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Onírico
Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da…
Arte de Henry Fuseli, edição de Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Vim para essa instituição ainda adolescente; a construção era sólida e grandiosa — mesmo sendo um prédio relativamente novo, ele trazia elementos da arquitetura vitoriana. Despedi-me de meus pais com o remorso corroendo meu peito, mas sabendo que eles tentaram de tudo, e no final acabei compreendendo a decisão deles. Fui recebido por uma equipe formada por dois médicos, três enfermeiros e um auxiliar; eles me levaram para conhecer as instalações (que, aliás, não eram lá essas coisas), mas isso não me importava, contanto que eu melhorasse dessa terrível condição. O prédio, por dentro, parecia ter parado no tempo; o forte odor de desinfetante com pano sujo pairava pelo ar, presente em cada cômodo.
Subimos um grande lance de escadas — não sei explicar, mas senti-me observado. No fim dos degraus, vi um grande portão de ferro com severas marcas de corrosão; após atravessá-lo, deparei-me com um colossal e alto corredor, mal iluminado por luzes amareladas oscilantes. O piso de ladrilhos azuis perdera a cor, assim como a meia parede de azulejos verdes. Conforme caminhava, vi outros pacientes em seus leitos; gritos e risadas se misturavam, causando calafrios — outras portas permaneciam fechadas — até que paramos. Vi então a maciça porta de madeira onde resquícios de tinta branca resistiam ao inexorável tempo; olhei mais acima e vi o número 106, em ferro, no centro dela. Uma minúscula janela de vidro, impregnada com décadas de sujeira — algumas manchas eram marrons escuras, semelhantes a sangue —, esse pensamento me assombrou.
A porta rangeu; meus olhos passearam pelo cômodo. À esquerda, próximo à porta, encontrava-se uma mesa com duas cadeiras, ambas brancas. À minha frente havia uma claustrofóbica janela gradeada e, abaixo dela, uma cama robusta de ferro decorada com faixas de contenção fixas na lateral. Caminhei até a janela, onde contemplei um belo jardim com árvores frutíferas, gramas podadas e alguns bancos dispostos. Desejei respirar o ar puro…
Por mais que aqui houvesse pessoas transitando o tempo todo, este lugar exalava desesperança — semelhante ao umbral onde incontáveis almas padecem em eterna agonia, esperando para serem salvas. Esse pensamento trouxe uma sensação perturbadora: será que um dia sairei daqui?
Uma leve vertigem apoderou-se de mim; do alto da minha testa surgiram tímidas gotículas que logo formariam uma nascente. Conseguia ouvir os batimentos em descompasso. Antes do inevitável desmaio, os enfermeiros me puseram na cama; devido à minha agitação, deram-me um calmante via oral e disseram que havia guardas lá fora para uma possível necessidade. Assim que eles saíram, acenei para os guardas — mas as amarras me causaram calafrios. Esperava adormecer o quanto antes; não demorou para o sono vir.
Em algum momento daquela noite, acordei agitado. Não vi ninguém lá fora; gritei por socorro, mas minha voz se perdia no vazio. Continuei tentando. Minha respiração falhava como se houvesse um peso em meu peito — como na pintura Pesadelo, de Henry Fuseli. Fechei os olhos e fiz o exercício de respiração; no passado, funcionava.
Respirei novamente e gritei do fundo das minhas entranhas. Para minha sorte, os guardas retornaram e, com agilidade, seguraram meu corpo que se debatia com violência; em poucos minutos, o restante da equipe havia chegado. Durante os primeiros socorros, presenciei algo medonho: uma sombra disforme surgia por trás da porta, espalhando uma horrífica luz arroxeada. Não poderia ser… seria a mesma figura que tanto me assombrara na infância? Neste momento, uma certa frase ecoou em minha mente: "Está tudo bem, Pedro — foi apenas um pesadelo. Vamos rezar para que tudo fique bem, certo, filho?"
Desta vez, o horror era verossímil demais para ser um pesadelo. O nefasto brilho ocupou todo o cômodo até que a figura adentrou o recinto: era esguia, corcovada, cinzenta, quase translúcida, mas também opaca. No rosto, dois enormes e enegrecidos olhos que pareciam devorar minha alma, e um sorriso medonho repleto de dentes afiados. O medo ancestral abraçou meu trêmulo corpo. Rapidamente os enfermeiros colocaram as amarras para conter os espasmos; os gritos tornaram-se guturais. Relatei o que estava vendo e eles se entreolharam, balançando a cabeça em negação. Lá fora, uma sirene tocava constantemente.
Percebi mãos em meu pescoço — havia a chance de alguma lesão. A cama gemia; os gritos se misturavam com frases desconexas; pupilas dilatadas em frenesi.
— Ele está perdendo a consciência — inicie a massagem cardíaca. Vamos, rápido, não podemos perdê-lo — um dos enfermeiros falou.
A massagem pareceu funcionar. Pela visão periférica, vi-a se aproximar e pousar os olhos nos meus; a agulha perfurou minha pálida pele — o líquido ardeu em minhas veias. Rapidamente o medicamento fez efeito; minhas pálpebras pesaram. Entretanto, a maldita figura permanecia ali, assim como aquela tenebrosa cor.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
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Le Papillon et la Fleur
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker II
(Anotações em seu caderno)
25 de agosto de 1871 — París.
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e se arrastaram pelos dias até o presente momento.
Torno a escrever minhas próprias memórias — sobre o dia 22.
Todos os eventos daqueles dias até agora ficaram terríveis na minha mente. Memórias que somente nessas folhas e com este lápis atrevo-me a confessar.
Minha jornada começou no distrito XIII, Gobelin, passando por Reuilly — XII distrito. As casas aqui foram algumas queimadas, atravessadas por projéteis dos canhões de campanha de 4 e 8 libras — sabíamos o tamanho dos projéteis pelas histórias dos que retornavam da guerra com a Prússia. Agora testemunhei com meus olhos e outros sentidos os efeitos dessas armas de destruição pelas ruas e casas de Paris.
— Ouvi tantos relatos durante a guerra contra a Prússia, que agora eu sou o que vai criar o relato. — Sussurrei para mim mesmo.
Foram tantos desvios de regiões tomadas por comunas e suas barricadas. Cadeiras, mesas, candelabros, paralelepípedos e até os postes, além dos sacos de terra para as barricadas. Tudo para impedir a mobilização dos soldados de Adolphe Thiers.
— Ainda creio estar entre os mortais? — Essas dúvidas persistem! Assim como as dores que ganhei tanto no corpo quanto na alma.
A luta tem sido tanta. A dor, a angústia e a penúria têm sido demasiadas.
— Os dias calmos agora parecem tão distantes, na linha do horizonte…
Tentava…
Me esforcei para evitar os conflitos!
Mas uma ou outra vez pelo caminho me vi diante do confronto direto.
A troca de golpes com soldados de sua majestade ou com os infelizes rebeldes da comuna. Na última vez que me vi num conflito, um jovem com uma baioneta, desferiu um golpe que achei haver evitado. Lutei como um cão faminto quando consegue carne e precisa defender a vida e seu bem precioso.
Corri, me escondi e me arrastei por entre destroços, corpos inchados, sangue com terra.
—Afirmo… Não nego que isso já é uma loucura. — Minha angustiante situação me fez tomar decisões estranhas.
“Piorado por sons estranhos, animalescos, inumanos que ouvi durante as noites.”, — Pensei, ao adentrar uma casa ao final da tarde. Se me lembro bem, sim, foi naquela noite dias atrás que rumores sobre eles começaram a correr pelas ruas.
Consegui um breve momento de paz. Havia um silêncio no ambiente que me soava estranho. Sinto o corpo esfriando, então… Uma agulhada cortando meu interior, do cotovelo ao ombro e depois aos dedos, correndo pelo meu braço… Dor!
Aquela sensação subiu intensamente como se fossem as ondas de disparo dos canhões da sua majestade. Encostei na porta e comecei a descer lentamente apoiado nela, senti sua madeira desgastada e áspera.
— Ah, droga. — Levo a mão do braço bom até o braço ferido. — Como…? Como não notei? — Rugi aquelas palavras entre os dentes.
Olhei para o braço. A manga rasgada estava escura, grudenta. Puxei o tecido com os dentes para ver melhor. Corte!
— Limpo… Sim… Pelo menos isso. — Tomo uns momentos para controlar a respiração. — Atingiu o bíceps... braquial, sim, essa é a palavra. Sorte que não pegou a artéria.
— Médico, lembra? — Um sorriso em meio à dor invade meu rosto. — Você é médico. Sabe o que fazer.
Foi como confessar segredos para comigo mesmo porque falar com as paredes era me soaria naquele momento delatar minha própria loucura.
Rasguei a barra da camisa. Amarrei-a firmemente acima do ferimento. Apertei até sentir o nó cravar na pele.
— Pressão. Aaaargh — Uma dor correu como um raio até a ponta dos meus dedos. — Primeiro… Oh, Deus… Pressão!
O sangue parou de escorrer como uma nascente. Respirei aliviado, mesmo com as ondas de dor percorrendo meu corpo.
Depois, limpar. Com quê?
— Água…? Onde nessa maldita casa terá água. — Me ergui com dificuldade, me escorando na porta, forçando ainda mais minhas pernas doloridas.
Passei a vasculhar aquela casa. O piso de madeira maltratado, desbotado e empenado. Móveis atirados ao chão. Cacos de vidro das janelas e das louças sobre grande parte do ambiente.
O som do ranger das tábuas a cada passo que dei, arranhou meus ouvidos, fazendo correr calafrios na espinha. Era como um monstro mórbido buscando amedrontar minha alma castigada.
Não havia água limpa…
Olhei dentro dos armários, correndo com os olhos. Quando no que estava num canto, na esquina, abri, dentro de uma garrafa suja, empoeirada. Dentro de um líquido verde fantasmagórico, não mais que meia garrafa, sim, absinto.
— Um doce remédio para um homem ferido e quebrado. — A voz saiu rouca e baixa. Meu rosto está esboçando o cansaço e o estresse. Mãos trêmulas, coluna doendo.
Antes de segurar a garrafa, caminhei até onde ainda havia uma cadeira intacta atirada ao chão. Coloquei-a de pé, encostada na parede ao lado do armário. Me sentei lentamente. Sentindo cada fibra muscular dura. Peguei a garrafa com a cor esmeralda.
— A primeira vai para o médico! — Abri a garrafa, o cheiro herbal e doce convidativo inundou meu nariz, tirei o pó do gargalo e logo levei a boca tomando um gole longo. — Aaaargh… Queima como o inferno! — Saiu quase como um rugido, o sabor doce e intenso tendo um contraste queimante na garganta, rasgando minhas entranhas.
Um gole de coragem e outro para o meu ferimento.
— Recomendação médica! — Sussurrei para mim mesmo.
Ardeu… Ah, sim, ardeu! Queimou, mas queimou tanto, que chamei todos os anjos do cânone.
— Isso vai doer por um longo tempo! — Eu me contorcia na cadeira suportando a ardência como podia. — Será que… Anton e o Marcel fizeram isso alguma vez enquanto estavam na frente de combate?
Busquei acalmar meu espírito.
— Quer parar de reclamar, doutor? — Gritei para mim mesmo naquela cozinha abjeta e escura.
Ri, num crescente, até gargalhar sozinho… Terminei num riso curto, amargo.
Pensei naquele momento: —“Médico ferido é pior que paciente.” Dei de ombros. O silêncio ambiente parecia uma redoma ao que ocorria em Paris. O cansaço deixou minha cabeça pesada, me fazendo apoiar na parede, de olhos fechados. Um novo pensamento me invadiu, “— Porque sabe exatamente o que pode dar errado.”
— Uma vez médico… Sempre médico!
Sentado naquela cozinha, as lembranças vinham em ondas. Não tive tempo para refletir com clareza sobre o que eu havia presenciado horas atrás.
Tomei outro gole da minha única bebida à disposição.
— Foi tão desolador… Ver os olhos perdidos daquela criança. — Me coloquei a analisar a cena. — A guerra arranca a alma de qualquer um, mas ver aquela monstruosidade foi além para aquela pobre criatura.
Seria aquele o pai dela?
Será que aquele dorso que foi queimado era alguém importante para ela?
A criança não… Ela não falou nada.
Ela ficou nos meus braços… Silêncio… Vazio!
Estamos do lado errado do céu?
— É possível…? Em algum nível?
Estamos tão condenáveis e reprováveis que as hostes infernais venham nos capturar?
Será que com suas mãos demoníacas de chamas condenatórias já estejam nos levando um por um?
— Oh, Deus… o que fizemos…? — Tomei um novo gole do líquido verde.
Lentamente sinto meu corpo relaxar, o coração se acalmou e a dor diminuiu. Os pensamentos ficaram tão distantes. Ao longe escuto o som de uma melodia tão suave e… Sim! Popular.
Estão… Alguém está cantando? Qual era…? Qual era a música? Ah, sim, “Le Papillon et la Fleur”.
— “Mas não, você voa longe demais! Entre incontáveis flores você voa, enquanto eu permaneço sozinha, observando minha sombra circular ao redor dos meus pés. ” — A bela melodia transbordou de minha alma até sair pelos meus lábios e me embalou o coração a um sono tão suave com lágrimas escorrendo em minha face.
Madrugada do dia 23 — Lembrar, revisitar essas imagens em minha mente é como tocar com bisturi uma ferida estranha que não encontra cura, apenas segue aberta e cheirando a queijo podre e rançoso, uma gangrena não tratada.
Eu caí num sono profundo, mesmo com todo aquele caos acontecendo, meu corpo apenas desmoronou naquela cadeira. Um sono sem sonhos. Sem perturbações. As poucas horas que mergulhei nos braços de Morfeu deram novo fôlego.
De sobressalto desperté. Um estado de alerta que não me era natural, se apossou de mim, como um espírito maldito e frio.
A garrafa estava ao chão, com seu interior parcialmente derramado. O ar tinha cheiro de “fada verde”, madeira molhada e um pouco de fumaça.
Primeiro, ouvi como se algo tivesse sido arrancado da casa. Depois, gradualmente soavam como se algo estivesse apertando a madeira da casa intensamente até ela estalar. Então, como se algo tivesse caído no piso superior, a poeira se soltou do teto com um som oco e pesado.
— Que diabos foi isso? — Sussurrei.
Comecei a buscar algo para usar como arma, observando as rotas de saída da casa.
Corri meus olhos no breu, até que a pouca luz das fogueiras na rua fez meus olhos notarem que havia algo perto da lareira. Me aproximei lentamente, tomando todo bom cuidado para assegurar minha posição. Aquilo parecia um atiçador! Sim, era. Feito de ferro fundido com duas boas pontas.
— Não sei o que está lá em cima, mas com isso tenho mais chances. — Uma certa calma tomou posse das minhas feições tanto quanto a segurança do meu espírito.
Caminhei em direção à porta pisando como um gato que busca um passarinho na janela aberta. Tomando todo bom cuidado para não provocar ruídos desnecessários e atrair o que quer que fosse que estava andando no piso superior.
Por Deus, meu coração galopava loucamente dentro do meu peito, apertando meus pulmões contra as minhas costelas.
Será que era mais uma estranha criatura que queima ao sol?
Olhei pela janela e o céu estava escuro demais até para ver as estrelas. Os astros estavam se escondendo dos olhos mortais naquela noite.
O que estava no andar de cima foi em direção às escadas que terminavam de frente com onde eu estava. Recordo de pensar, —“ Como eu não notei essas escadas?”. Olhei para a parte de trás da casa e dava para uma pequena janela que estava aberta. Olhei para a porta que estava fechada. Ela não estava trancada. Também nem poderia, o trinco está parcialmente quebrado, apenas uma ponta do ferrolho sobrou, qualquer batida externa arrebentaria aquilo.
Ao longe escutei o som do disparo de canhões, na sequência, as explosões, o barulho do disparo dos mosquetes. Gritos.
Meu cenário naquele lugar estava apenas ficando pior. A rua era quase uma reta, e no início da noite eu não lembro de ter visto barricadas nela.
O barulho externo parecia aumentar, o que já me deixava sem fôlego, novamente sendo pego no meio do conflito.
Olhei para o meu braço com o corte.
— Droga, minhas chances estão diminuindo rápido demais. — Rosnei a minha fala em voz baixa.
Então um rosnado na escada. Passos pesados.
— Meu amigo do andar de cima deve ser grande. — Sussurrei para mim mesmo e às paredes mudas e surdas ao meu redor.
Segurei o atiçador como se fosse um florete, só que mais pesado e rígido. — “Vou agradecer a meus amigos ingleses por terem me permitido umas partidas de esgrima no clube dos lordes.” — Acho que pensei isso na hora. Me faltou o gole de coragem para impulsionar meu valor.
Antes que minha decisão se formasse, na esquina da escada de canto, na parte superior de sua esquina, vejo surgir uma mão que parece humana. A respiração da coisa é pesada, há um grunhido animalesco soando.
Quando surge a coisa pela metade na parte superior da escada, seu aspecto é cadavérico, aquilo fica um tempo de perfil, quando decide seguir, ela vira seu rosto revelando olhos fundos com um estranho brilho esverdeado não natural.
Ela desce lentamente como se não tivesse pressa para fazer qualquer coisa. Observando… a mim! Quando ela chega ao fim da escada, pude ver melhor suas feições grotescas.
Além dos olhos, sua pele parecia branca demais, além de se assemelhar a um couro curtido e esticado. Sua boca esboçava um sorriso obscuro e malicioso. Ela emana uma presença aterradora.
— Por Deus, suas mãos…. — Minha voz falhou ou foi impedida de falar qualquer coisa.
A coisa tinha garras e o que pareciam presas. Das mãos a boca e o queixo gotejavam um líquido vermelho e negro.
Me correu um frio na espinha, um calafrio desceu da minha nuca até a ponta dos meus dedos. Me senti um felino diante de uma ameaça desconhecida eriçando os pelos.
Não sei sua origem, mas afirmo: não veio do céu muito menos deste mundo carnal.
Ele me olhava como se eu nada fosse, mesmo estando com atiçador numa das mãos. Não sei dizer se estava pronto para morrer, mas certamente eu queria muito viver.
A criatura seguiu seu próprio tempo brincando com a comida? Era essa a áspera sensação: eu era a próxima refeição dela!
Com um grito estridente que me fez doer os ouvidos até alcançar o cérebro, ela levantou seus braços na altura dos ombros com as mãos abertas e o peito descoberto. Ela não parecia temer minha arma e menos ainda a mim.
Avançando lentamente em minha direção, eu me preparei para o ataque. O atiçador pesava na minha mão. Sou médico, me dediquei uma vida para salvar outras. Nunca matei ninguém, aprendi a suturar feridas. Naquele preciso instante aquilo parecia ter uma diferença ínfima.
Num movimento a criatura avançou, abrindo a boca com quatro dentes longos e pontudos se projetando. Seu braço esquerdo fez um arco rasgando o ar, tal qual fosse uma foice. O defendi como era possível. O som metálico do encontro do atiçador com o corpo daquele monstro soava no ambiente.
Tentei dar um passo para trás… uma triste revelação… senti nas minhas costas a parede fria.
A criatura atacava de forma tão aleatória e estranha, que era perceptível sentir a maldade naqueles movimentos. Meu braço ferido começou a arder e doer com o suor do esforço, o sangue voltou a brotar da ferida.
— Argh! Criatura maldita. — Meus gritos eram para motivar meu espírito a seguir no combate.
A criatura no último movimento agarrou meu pescoço. A sensação daquela mão era de um frio polar, sua pele com textura tão ressecada, adornada com o odor fétido de sangue e gordura. Apertou lentamente meu pescoço. Olhei para ela, e com o atiçador ainda em minha mão, tive por intenção um golpe desesperado, que foi frustrado sem esforço pela criatura que agarrou meu braço, me fazendo derrubar minha única arma.
— Arrg….! Cri…aaa… turaaa….— Ele apertava minha traqueia como se eu fosse um boneco de palitos.
O ar começou a faltar. Minha memória daquele momento é aterradora, eu estava morrendo. Lembro dela se aproximando, ficando a poucos centímetros de mim. Como quem observa seu novo brinquedo sendo quebrado deliberadamente.
“Fraqueza. Pesar nos extremos. Visão ficando turva”. Comecei a listar os efeitos da privação do ar. Então quando estava sentindo que a esperança havia acabado.
Um som explosivo e estrondoso.
Um mosquete?
O vazio.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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Cantos de Magöhorror
As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Canto I
As almas e as sombras, na noite aprisionadas,
Pela frígida névoa de Magöhorror,
Em marfins retorcidos, já desgastados,
Seguem o fluxo lento de antigo horror;
Onde o anil turvo, por laços consagrados,
Une vida e morte em torvo esplendor;
Canto a saga em versos sombrios e graves,
De almas zumbis em seus cânticos suaves.
Canto II
Vede o rio, que d’além do tempo emana,
Bioluminescente em brilho azulescido,
Sua essência que a razão humana engana,
Como um saber arcano já esquecido;
Onde a fauna e a flora em forma insana
No terror mórbido surgem despidos;
Entre brilhos metálicos e aridez fosca,
Enquanto a própria vida se torna grotesca.
Canto III
Nas flores surgem rostos pareidólicos,
Dos olhos verte sangue em vão lamento,
Em versos que ecoam, quase bucólicos,
No vento frio que sopra sofrimento;
Criaturas outrora belas e melancólicas,
Perdem ao rio espectral seu alento;
Mortas ou vivas vagam no fundo,
Bioluminescência a guiar novo mundo.
Canto IV
Dunas Múrmuras, de areia e de pavor,
Sopram ventos que contam contos de dor,
Fábulas mortas, sem traço de amor,
Sob noite azúlea em frígido calor;
No Oásis Vil surge encanto traiçoeiro,
Atraindo as almas por falso roteiro;
Onde sede e fome se encontram famintas,
Entre criaturas das sombras distintas.
Canto V
Jardins de Olga, de viridário mágico,
Sensíflora estranha que o horror replica,
Cercam o alcácer em destino trágico,
Onde o Castelo Drácula se fortifica;
Pinheiros tremem em rastro nostálgico,
Gritos de arbustos que o sono prejudica;
Enquanto o azul da morte paira no ar,
E a decadência começa a reinar.
Canto VI
Vede os zumbis, de pele já rachada,
Sangue negrume estagnado nas veias,
Sua existência é triste jornada,
Entre solidões nadificantes teias;
Saem dos túmulos em marcha penada,
Por instinto vagam nas noites alheias;
Tentam amar com coração inerte,
Enquanto o diabo em riso se diverte.
Canto VII
Bebem seus próprios prantos em lamento,
Sonham sem dormir em eterno tormento,
Atraídos por sombras no barlavento,
Memórias do que não foi em esquecimento;
A vida em Magöhorror segue escura,
Na bioluminescência da noite impura;
Grãos de existência no vento lançada,
Como poeira na noite estrelada.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Menel Lomë I - O Herói Que Ninguém Pediu
Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As pessoas que inventamos
Não existem fora de nossa cabeça
Por isso, inventar personalidades
De quem mal conhecemos
Pode ser nossa ruína
Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela escrivaninha. A tinta de sua caneta ainda pingava, e o papel ainda estava úmido. Com o retrato ainda secando.
Era o retrato de uma jovem: pele morena, cabelos enrolados, olhos profundos e vivos. Não se parecia com ninguém, pois era feito com memórias.
O resto do ateliê estava bagunçado; textos e cadernos jogados por toda parte, todos eles contando sobre a mesma mulher, sob a mesma perspectiva. Menel Lomë escrevia para tornar sua amada real, pois jamais teve coragem de dizer o que sentia quando ainda era tempo.
Mas então ela desapareceu. E isso levou Menel à loucura, guiado por um romantismo idealizado e irreal.
Ele a havia visto três vezes.
Na primeira, em uma viagem. Ela estava com um casal de amigos, posando para uma foto que se perderia no tempo, mas ele... ele a guardava na memória.
Ela sorria. O casal atrás, de mãos dadas, posava para a foto. A garota tirou a foto e correu para mostrar aos amigos, e todos pareciam felizes. Mas Menel viu solidão onde havia apenas um momento feliz de uma viagem.
Na segunda vez, foi mais perto. Perto de casa. Perto demais. Ela estava tomando café, lendo o livro preferido dele. Ele se apaixonou ali. Pensou em perguntar sobre o livro, pensou em fazer uma piada, pensou em comentar algo sobre o que ela estava lendo.
Pensou demais.
Ela fechou o livro, levantou-se e foi embora.
A terceira vez foi ontem. Ela caminhava à noite na rua, e ele a viu pela janela do ônibus. Criou coragem, correu para a porta e, quando o ônibus parou, desceu. Correu até ela. Mas ela já não estava mais lá. Ela havia sumido e, onde ela deveria estar, havia um portal mágico e sinistro fechando-se.
Menel, dessa vez, não pensou. Não hesitou. Apenas correu.
Jogou-se para o desconhecido, esperando ser o herói que ela não pediu para resgatá-la.
E então ele sumiu, tudo sumiu.
Menel apareceu caído em outro mundo; o rosto sujo, as mãos raladas, a pele sangrando.
Levantou-se e viu um homem de sorriso largo e pontiagudo que surgia com um manto negro bordado em ouro-bronze. Ele estava ao lado de um menino, a quem segurava pelas mãos; a criança tinha olhos pálidos e roupas singelas.
Menel se levantou e disse:
— Onde ela está?
O homem, em silêncio, apenas sorriu.
— Ela já se foi.
Aquele sorriso fez com que diversos pensamentos — um pior que o outro — passassem pela cabeça de Menel. E o homem voltou a dizer:
— Ela não morreu. Ainda não. Mas as coisas aqui vão mudar em pouco tempo. Cinco atos, cinco tempos. E o sofrimento-carmim vai acontecer.
— Não demore a encontrá-la — continuou o homem. — As coisas vão ficar bem complicadas se você demorar.
Então ele puxou uma joia, um anel muito bem adornado, com uma única pedra carmim reluzindo no centro…
— Aqui. Pegue. Vai te ajudar.
E no momento em que Menel tocou a joia, uma névoa cobriu sua visão, e o gosto de sangue tingiu sua boca. Menel sentiu náuseas, e o cheiro de sangue surgiu em suas narinas.
Um segundo depois, sua visão retornou.
E o homem e a criança já haviam desaparecido
Quando ele voltou à consciência, estava parado no mesmo lugar, mas, agora, sem a figura do homem, conseguia perceber onde realmente estava:
Na areia.
Seus pés, agora descalços, tocavam a areia fina e gelada. Sua mão ainda segurava a joia. Seu olhar se perdeu no horizonte do mar.
Estava perdido.
Mas sabia exatamente o que queria. Quem queria encontrar.
Só não sabia por onde começar.
Então ele caminhou pela praia, procurando-a. Procurando qualquer rastro que ela tivesse deixado.
Mas não encontrou nada.
E então começou a pensar nas consequências de ser inconsequente. Talvez ser o herói de sua alma gêmea fosse mais desafiador do que qualquer coisa que ele tivesse feito até agora.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Diário de Dr. Christopher V. Walker
Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker
(Anotações em seu Caderno)
Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela sombra das colunas de fumaça da madeira queimada, com um cheiro acre de pólvora, sangue e fezes.
Ao longe posso escutar os tambores dos militares e os gritos da comuna. Mal avançamos uma semana desde os fatos que fiz questão de relatar ao Anton, e já me vejo envolto em novo caos.
As comunas pareciam por algum tempo haver desistido… uma doce ilusão de um médico.
Imagens daquela noite nefasta ainda provocam tremores neste pobre corpo e se somam aos medos vindos das ruas de minha querida Paris.
Resolvi registrar os eventos nesta terra de Deus. Uma ferramenta a que recorro para manter a sanidade, o equilíbrio e a esperança de que passem esses ventos e dias melhores venham. Contudo ao que vejo, do que recebo de notícias, esse desejo me parece cada vez mais distante.
Anton meu amigo, torço, com todas as forças que ainda me restam, que onde estiver encontre mais paz do que aqui… já que os inocentes deste lugar... são atormentados pelo tiro de mosquetes, das explosões das bombas como pelo fogo atormentador.
Tornou-se impossível sair para fazer qualquer coisa.
Há alguns dias saí do meu quarto com mil olhos e ouvidos, para evitar zonas de conflito. Mas não importa por qual viela, rua ou praça que se caminhasse haveria soldados, ou comunas, ou comunas e soldados se enfrentando.
Caminhei por poucas quadras como se fossem mil léguas em marcha cautelosa, porque a fome ainda é um excelente motor para superar o medo do risco de ser alvejado.
Ao chegar no açougue, coloquei-me a selecionar o que mais me apetecia. Ainda assim, meus ouvidos chamam a minha atenção a qualquer som incomum.
Então escutei um soldado que estava na porta do açougue, junto a outros quatro homens fardados numa conversa, a princípio, descontraída.
— Ouviram que numa das ruas próximas de um mercado no Norte, uma patrulha foi atacada por esses malditos baderneiros da comuna… — Por um breve momento parecia que o homem alto de cabelos loiros e olhos aquilinos tinha receio de seguir o relato. — Disseram… santo Cristo… que um dos atacantes avançou desarmado… que em sua boca os dentes eram como de um animal, e suas mãos pareciam de um demônio…
Todos se entreolharam, até que outro dos soldados tomou a palavra.
— Ora… que isso David! Está ouvindo historinhas de crianças contadas pelo sargento Dubois. — Ele soltou uma gargalhada, que fez o clima tenso se dissipar. Depois pegou um naco de salsicha defumada e deu uma bela mordida. Os demais igual riram. — Quer dizer que, além da comuna nos infernizando, temos que nos preocupar com monstros ajudando os inimigos?
— Ah, Thomas, quem me contou foi um dos que sobreviveram da patrulha atacada. Se fosse o Dubois eu contaria como uma piada e não com essa seriedade. — O rapaz claramente ficou vermelho de raiva.
De todos, ele parecia ser o mais jovem. Batendo a caneca de ferro fundido que tinha nas mãos — cujo líquido, derramado dela, parecia cerveja por causa cor.
— Haha… — Outro dos soldados ria em voz alta com a boca cheia de pão e queijo semicomidos. Começou a falar de boca cheia. — David deixe o menino em paz. — Ele terminou de falar e engoliu como um bom glutão. — Olhe, Alexander, nesse momento, muitas histórias estranhas vão ser contadas. Em sua maioria mentiras.
A atenção de todos recaiu sobre aquele homem imenso de tão alto e rechonchudo. Sua expressão era serena, apesar da cicatriz na face indo da sobrancelha até os lábios.
— Tá… tá… está bem. Apenas queria distrair o novato inocente. — Falou o soldado David em tom de deboche e uma cara de fuinha louca.
Devo dizer que ouvir aquilo gelou a minha alma. Um homem que tinha dentes e mãos como de uma fera selvagem… sim… sim… poderia ser.
Saí do açougue com umas poucas compras até o meu quarto. A jornada foi imersa em pensamentos e reflexões sombrias.
— Aquele jovem chamado… David… sim. Disse que foi uma patrulha ao Norte. — O pensamento que começava a ganhar forma em minha mente já causava arrepios, até que as lembranças daqueles monstros na faculdade e dos seus gritos me fizeram parar por um par de minutos.
— Tenho que me recuperar. — falei para mim mesmo. Quase me senti um louco fazendo aquilo no meio da rua.
Eu não iria sozinho buscar um perigo daqueles.
Óbvio… muito óbvio…
Precisaria de ajuda, e não de qualquer ajuda.
Alguém… uma pessoa, sim! Que tenha visto e participado comigo e que não duvidaria de minhas intenções e pensamentos.
· · • • •✤• • • · ·
Dia 22 de agosto à tarde — Recorri à única pessoa que me era familiar para aquela situação. O oficial Joules. Este homem que compartilhou comigo… a maldita experiência… a mais nefasta de toda a minha vida.
— Meu amigo Anton, se um dia tiver acesso a este diário espero que não fique chocado com o que encontrar. Torço por sua compreensão quanto a estes fatos que narro aqui.
Tomei o rumo para a delegacia onde Joules trabalhava. Na esperança de que ele estivesse disponível e disposto a participar de uma empreitada que para poucos podemos dizer ser convidativa.
De minha casa até a delegacia, de carruagem, seria trinta minutos, no entanto, com toda a baderna dos conflitos dentro de Paris, encontrar esse transporte se converteu em algo impossível.
Então tive que me aventurar por vielas e ruas caóticas. Desviando de áreas que estivessem com conflito deflagrado.
Por umas quantas vezes… Nessa curta viagem pelas entranhas de uma Paris em banho de sangue. Pude presenciar a angústia e desesperança encarnadas em rostos infantis. Era como ver anjos deprimidos e perdidos, caídos em meio a pólvora, a pedra e o sangue.
Mulheres correndo com suas crias na intenção de protegê-las, homens guarnecendo suas janelas e portas na vã tentativa de evitar o confronto.
Corpos estirados nas vias, com seu cheiro peculiar de podridão e morte. Ratos correndo por sobre eles e dentro deles.
Pobres almas saqueando corpos mortos e moribundos. Um cenário angustiante e doloroso. Por algumas vezes fui pego no meio do conflito das facções e tendo que desviar dos projéteis de ambos os lados.
Num dado ponto da jornada fui forçado a invadir uma casa, que por infeliz surpresa havia uma jovem senhora com suas crianças.
— Ca… calma! — Minha voz estava entrecortada de tanta correria. O peito não conseguia se encher de ar, as narinas ardiam com o cheiro da fumaça; limpei a fuligem da roupa e o suor da minha face. — Não vou fazer mal a sua família.
Uma das crianças começou a chorar de medo. A mãe gritou alguma coisa que eu realmente não… não consigo recordar… ou não posso… sei que deveria!
Sei que o que fiz a colocou em perigo iminente e nem lembro da voz dela.
Logo atrás de mim, na casa da frente, uma explosão das bombas dos granadeiros nos fez cair ao chão com a onda de choque.
— Ahhhh… ahhh… — Por uns momentos… ali naquele chão de madeira empoeirado, sujo e desgastado, senti um zunido forte nos meus ouvidos, o coração acelerado somado à dificuldade de respirar.
Mal pude recuperar minha razão, percebi o ar denso, cheio de fumaça e fuligem.
— Ah… que dor em meu estômago… — Caí sobre algo. Senti cada músculo, até as fibras do meu cabelo doíam. Sentia a fadiga.
Me ergui como pude, tropeçando em meus pés, como se estivesse bêbado; corri para a porta para fechá-la da melhor maneira possível pensando em proteger aquela família.
Apenas escutei o choro desesperado das crianças, e a mãe entre tossir e chorar dizer algo que pudesse acalmar as crianças.
Me virei e olhei aquela cena, mas em minha mente havia um objetivo maior. Eu tinha que chegar até Joules.
— Vocês estão bem? — Sei que disse isso… ou gritei. Naquele momento ambas as coisas pareciam uma só.
Meus ouvidos começaram a ouvir novamente com clareza, sem o som irritante.
Me apoiei nos joelhos tentando recuperar o controle, enquanto do lado de fora se ouvia os disparos, os gritos de ordem.
Então um grito no andar superior da casa que me fez gelar. Era diferente do que estava acontecendo do lado de fora. Era… de terror.
Olhei para a mulher, que tinha uma expressão de não entender a razão do grito. Da escada apertada na lateral da sala da casa, se ouviu o som oco de algo rolando escada abaixo, até parar no térreo, atrás de uma pequena mesa com cadeiras caídas no chão.
Estava ali diante dos nossos olhos.
Levei uns momentos para entender o que era aquela massa diante de nós.
Ao me aproximar um pouco, pude perceber a parte superior de um tronco humano que parecia ter sido cortado ao meio por alguma lâmina.
— Mas… o que é isso? — Meus olhos se arregalaram, e minha mente tentava traduzir aquela imagem. — Isso… isso não… não pode ser!
Quando notei que o corpo gotejava um líquido mais escuro... preto! As memórias vieram. — Meu Deus… — Minha voz falhou neste momento, levei a mão à boca.
Minha cabeça seguia a escada, o que me fez olhar para o teto e um temor em meu coração cresceu.
Do andar de cima um grunhido feroz soou.
Não tive dúvidas, olhei ao redor e para o fundo da casa, foi quando notei que havia uma porta para um pátio traseiro, e que estava aberta.
— Co… corram. Corram para o fundo! — Foi um grito desesperado.
Não pensei muito, tão somente obedeci minhas pernas e meus instintos de sobrevivência. Avancei na direção da mulher e seus filhos. Todos se levantaram e correram para o fundo do ambiente. Tomei uma das crianças nos meus braços — que chorava e me abraçava, chamando por sua… sua… mãe. Oh, Deus! Como lembrar disso me atormenta, me angustia a alma.
A mãe tomou a outra criança até cruzarmos a porta.
Chegando ali, olhei para trás com aquele bebê em meus braços; observei aquele monte de carne no chão da casa da pobre mulher.
— Por favor, que eu esteja errado… Por favor, Deus… — Eu não consegui respirar direito, o peito doía, o ar com fumaça dificultava ainda mais. Os músculos tremiam de cansaço e dor. O corpo… aquele ser… humano?... Não, não sei afirmar… se ele era humano…
Ali no chão… Aquilo começou a vibrar fortemente, os braços se contorciam. Havia um cheiro forte de podridão no ar. Não sei dizer se vinha dele, ou do conflito… suponho que de ambos… Aquela cena não pertencia ao mundo de nosso Senhor.
— Aquilo poderia ser algo vindo do inferno para atormentar a humanidade? — Então… por um momento… um breve instante... aquele ser… parou.
Um silêncio mortal imperou.
Nem disparos, gritos ou mesmo explosões se ouviam. O mundo ficou num silêncio ensurdecedor. Os segundos pareciam levar décadas para avançar.
Logo, do andar superior, vindo pelas escadas, um som de passos pesados... descendo... quebrando aquela frágil redoma de ausência de som.
Naquele momento o desespero aumentou. Uma sensação de que algo abissal estava vindo, sim, algo que eu já havia possivelmente presenciado.
Por uma graça que só posso atribuir ao divino, a nuvem de fumaça negra que estava cobrindo o céu sobre a casa — e a região — passou a se dissipar gradualmente. Aos poucos, os raios amarelos surgiram dentro da casa, como uma luz gloriosa avançando divinamente. Cobrindo progressivamente; da cabeça até a parte faltante do corpo.
Aos poucos o corpo parecia incendiar-se, faíscas saíam de todas as partes, o ser abriu os olhos vermelhos e a boca com dentes pontudos. Começou a se debater empurrando a mesa para o outro lado da sala, e pude ver bem, chamas saindo de seu interior, sua pele se escurecendo como carvão... lento... e claramente fatal para a coisa.
Quando me dei conta, a mãe… ela… estava ao meu lado com o outro filho em seus braços, observando aquela mesma cena hedionda.
A pobre criança que estava comigo… oh, a pobre e inocente criatura estava estática em meus braços, com os olhos fixos no corpo no chão.
Parecia que algo havia sugado sua essência angelical.
Pus a criança no chão; a mãe sem dizer nada tomou sua mão e logo se colocou a andar em direção a um corredor que dava para uma via lateral e, então, à rua de trás.
Ver os olhos… sim… aqueles olhos da criança sem reação, mortos. Me rompeu… quebrou minha alma. Nenhum desses inocentes deveria ver algo tão terrífico como aquilo. Aquela imagem vai perturbar minha mente pelo resto de minha vida.
— Meu Senhor, o que foi isso? Que coisa nefasta é essa que corrompe a natureza? — A angústia tomava minha voz, consumia meu interior.
Aquele momento me fez derramar lágrimas. Derrubando muros que construí.
No andar superior se ouviu que algo foi rompido, como uma explosão. Claramente algo saiu correndo, já que se ouvia seu avanço de parede em parede.
Aqueles estrondos fizeram minhas lágrimas cessarem, parte da razão retornou à minha mente, ainda havia mais coisas ocultas.
Dentro da casa restou apenas um corpo carbonizado… um silêncio e um vazio… como se ali já não houvesse qualquer vestígio do divino.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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O Clamor dos Filhos da Noite
Vede agora os que têm sede de sangue, | Não da água salina ou da doce corrente, | Mas do carmesim puro que a luxúria condena; | Estes possuem, em seus mortos peitos,…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Vede agora os que têm sede de sangue,
Não da água salina ou da doce corrente,
Mas do carmesim puro que a luxúria condena;
Estes possuem, em seus mortos peitos,
Algo além do saudosismo da vida humana:
Um clamor masoquista, um culto ao impossível,
Ídolos de sombra que a luz seduz e fere,
Vampiros que emergem sob o azulíneo.
Impedidos de serem tocados pelo Sol,
Pelas próprias fantasias são julgados;
Desejos oprimidos que jamais revelam,
Seres das trevas que o dia bendizem;
Pois o que vale a imortalidade fria
Diante do aquecer do Astro inigualável?
O Sol, vilão senciente, o alvo do desejo,
Destrói a escuridão que lhes serve de berço.
Nas margens do Magöhorror eles se prostram,
Banhados pelo brilho que a água esparge,
Buscando no reflexo a quentura do ouro
Que em suas peles seria o fim absoluto.
É a nostalgia do que jamais lhes pertencera,
O blues melancólico de uma noite frígida,
Onde o brilho de um outrora inalcançável
Torna a eternidade um fardo pesado.
Se o azulíneo da morte é o palco eterno,
Onde zumbis bebem o próprio pranto,
O vampiro é o verso de um sonho invertido:
Ama o carrasco que o reduz a cinzas.
Assim se desvela o existir em Irihria,
Entre a bioluminescência da efemeridade
E a busca da luz que, ao mesmo tempo,
É a suprema cura e a morte derradeira.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Não há muralhas contra a névoa
“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Prólogo
“Pelo menos esta torre é alta o suficiente para a queda acabar com essa loucura. Ao menos isso a névoa ainda não transforma”, murmurou Viktor Vatra para a noite, enquanto reunia coragem para pular.
Mal conseguia ver o chão. No alto da torre antiga, o nevoeiro parecia mais denso do que nunca. A loucura chegara ao auge, a ponto de ele começar a ouvir vozes etéreas sussurrando ao vento, embora ainda não distinguisse palavras.
“Como isso pôde acontecer? Essas lutas, esse estresse, essa incerteza… Será que finalmente quebraram minha mente? Fragmentaram minha visão de mundo a ponto de eu já não saber o que é real? Ou há alguém por trás disso — alguma entidade brincando comigo? Tanto faz. Toda essa resistência, toda essa vigília constante… não há sanidade que sobreviva intacta”, continuava a lamentar para o vento enquanto tentava reunir a coragem necessária para pôr fim ao pesadelo.
A luta fora brutal. Furiosamente intensa. Viktor sentia dores em músculos que sequer sabia nomear. Três dias quase sem comer, sem dormir, sem descanso. Apenas a defesa desesperada de suas muralhas.
Mas o problema não era o inimigo. Era a névoa, que nada tinha de normal. Ela era cada vez mais frequente e mais corrosiva para sua já frágil sanidade. Em nada lembrava o comum fenômeno meteorológico da região, com sua aura fantasmagórica que parecia tirar tudo do lugar. Até agora havia conseguido repelir os homens, mas não há muralhas contra a névoa, que em tudo penetra.
A batalha era a única constante. Impedir a invasão, lacrar as brechas. Mas as armas não paravam de se transformar: numa hora, ele empunhava uma espada; na seguinte, quando a neblina que turvava repentinamente sua visão se dissipava, estava com uma câmera nas mãos. Um celular. Um bloco de notas.
De um instante para outro, a parede de escudos se convertia numa transmissão ao vivo desesperada. Torres de cerco tornavam-se guindastes, aríetes transmutavam-se em retroescavadeiras. Janízaros se metamorfoseavam em oficiais de justiça.
Tudo isso sem que ninguém mais notasse qualquer estranheza, mesmo sendo as mesmas pessoas. Agiam como atores interpretando diferentes papéis. Tanto os que atacavam quanto os que defendiam mantinham-se firmes em suas posições, seguros de sua própria realidade. Apenas ele transitava entre tudo; ou talvez não transitasse por nada. Nada mais era garantido, nem sequer a natureza da realidade.
Os momentos de imersão completa, quando se sentia plenamente presente em um único papel, numa única era, pareciam cada vez mais raros. Nada de dissociação cognitiva, nem questionamento de sua percepção. Era por isso que temia quando a névoa voltava a se formar. Bastava um pequeno contato com a cerração para a fragmentação recomeçar cada vez pior. Mundos e séculos fundiam-se diante de seus olhos, e ele já não sabia quem era, nem onde estava.
Quando a voz sussurrante se tornou ainda mais audível, a ponto de ser possível identificar um etéreo timbre masculino e outro feminino dialogando entre o vento, o limite do suportável foi rompido. Isso precisava terminar. Viktor pulou da mais alta torre.
Antes que atingisse o chão fora da visibilidade, finalmente compreendeu parte do que estava sendo dito pela voz masculina vinda de uma fonte invisível: “Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha?”
Seu último pensamento, “maldita conversa de fantasmas sem sentido”, fez com que se sentisse profundamente decepcionado. Assim como todos que já se imaginaram em seus momentos derradeiros, esperava ter algo mais nobre ou filosófico energizando em sua massa encefálica prestes a ser esparramada no chão oculto pela densa bruma.
Três dias antes…
“Se a motivação do prefeito é a preservação cultural — e não apenas o lucro — por que nossas propostas de tombamento estão paradas há anos, enquanto o licenciamento dessa empresa avança em poucos meses?”, é o que questiona Viktor Vatra, professor de história e militante pela preservação do patrimônio cultural. Ele seria, se a lenda popular for verdadeira, descendente de condes romenos que governavam um castelo medieval que inspirou este aqui, que podem ver ao fundo, localizado na serra da Mantiqueira, próximo à turística Campos do Jordão, construído em 1872 pelo trisavô do historiador.
A ocupação de professores e estudantes para impedir o início das obras de um parque temático que pretende revitalizar as ruínas do castelo e usá-las como o coração do centro de diversões já completou um mês. O professor e seus alunos não saem da construção há dias, cercados por equipamentos da construtora que já recebeu autorização da prefeitura para começar as obras. É por isso que viemos até esse castelo sitiado, propondo uma trégua para o debate. Eu sou Elaine Bastos, em reportagem oficial para o Domingo Fantástico, e estou aqui para dar voz aos dois lados enquanto o embate jurídico prossegue.
Em nota oficial, a Serra Viva Concessões S.A. declarou: “O projeto do parque temático Castelo Assombrado foi concebido com rigor técnico, respeito às normas ambientais e compromisso com o desenvolvimento sustentável da região. Todas as etapas seguem a legalidade.”
— Professor Viktor, começo com o senhor. Objetivamente: qual é o risco real que o projeto da Serra Viva representa para o castelo?
— O risco é a descaracterização progressiva do castelo e a degradação ambiental do entorno. Não é uma demolição explícita. É algo mais sutil, para torná-lo “rentável”. Patrimônio vira cenário, a história se perde e a floresta sofrerá ainda mais, quando as trilhas e estradas de terra se tornarem rodovias, os estacionamentos forem cimentados e toneladas de lixo diário começarem a ser produzidas. Isso sem falar no ruído, iluminação excessiva e muito mais.
— A empresa afirma que vai restaurar, investir e preservar, seguindo à risca as normas vigentes.
— Primeiramente, as regras já nasceram frouxas, e nem assim costumam ser seguidas. Toda empresa afirma isso no início. O problema é o que acontece depois da primeira flexibilização. Já vimos isso antes com essa própria construtora.
— Senhor Tariq Carvalho, representante da Serra Viva, o professor fala em “flexibilização”. Como o senhor responde?
— Primeiro, agradeço o espaço. Nossa empresa atua dentro da legalidade. Flexibilização é um termo interpretativo. O que existe são ajustes técnicos normais em qualquer projeto dessa magnitude. Não há nenhuma ilegalidade.
— O senhor é diretor de expansão da Serra Viva, correto?
— Sim.
— O professor mencionou histórico de denúncias em outras cidades.
— Denúncias não são condenações. Nenhuma construtora ou incorporadora de grande porte passa décadas no mercado sem enfrentar questionamentos administrativos. Em todos os casos, cumprimos as determinações legais. Não há condenações contra a empresa nem multas não pagas.
— Professor?
— Multas pequenas e termos de ajuste não significam ausência de problema. Muitas vezes significam que a infração foi convertida em custo operacional. Isso me lembra uma bela citação, infelizmente não lembro onde a vi, mas era algo como “se a pena por um crime é apenas uma multa, então a lei só existe para os pobres”. Ainda mais quando vale a pena continuar operando apesar de autuações, se o razonete contábil assim indicar, como é o caso do parque aquático termal que vocês construíram.
— Isso é uma acusação grave.
— É uma constatação estrutural. Se o retorno econômico da descaracterização e da poluição é maior que o valor da multa, a multa vira parte do orçamento.
— Isso é retórica — intervém Carvalho, mantendo o tom controlado. — O projeto prevê recuperação paisagística, criação de empregos, aumento da arrecadação municipal e estímulo ao turismo cultural. Estamos falando de desenvolvimento regional. Ou você prefere que seu município continue sendo apenas ponto de parada para Campos do Jordão? Você prefere que toda a renda do turismo continue subindo o morro, negando a oportunidade de desenvolver sua cidade natal também?
— Desenvolvimento para quem? Empregos sazonais? Bilheteria privada sobre um patrimônio de relevância histórica? O castelo e a floresta em volta não são produtos.
— Também não é um relicário intocável — retrucou Tariq Carvalho. — Patrimônio precisa ser integrado à dinâmica econômica para sobreviver. Sem investimento, degrada-se.
— Investimento não pode significar transformação em parque temático. Existe verba pública destinada aos patrimônios tombados exatamente por esse motivo, fora que ainda há até mão de obra voluntária para a manutenção. Eu mesmo e meus colegas docentes fazemos isso há anos, sempre com o apoio de alunos e da comunidade.
— Professor, o senhor já analisou o projeto executivo completo? Nossos espectadores precisam saber se essa é uma oposição informada ou dogmática — questionou a entrevistadora.
— Analisei o que foi tornado público. E já aponta ampliação de estacionamento, centro de eventos, reconfiguração do acesso principal. Isso altera a ambiência histórica.
— Ambiência não paga manutenção; nossa empresa, sim.
— Memória também não deveria precisar se provar lucrativa para existir.
— Realizamos todos os estudos de impacto ambiental exigidos justamente para unir todos os interesses.
— Estudos aprovados com rapidez incomum.
— Rapidez não é irregularidade. É eficiência administrativa.
— E por que o processo de tombamento do castelo tramita há anos sem definição?
— Isso compete ao poder público. Não à empresa. O senhor precisa questionar isso nos órgãos responsáveis, não conosco.
— Mas a empresa se beneficia da ausência de tombamento definitivo.
— Nós nos beneficiamos da segurança jurídica. Se o bem não está formalmente tombado, ele pode receber investimento. Isso é o que a lei estabelece para o caso de imóveis assim, expropriados porque não há um IPTU pago há décadas.
— Professor, o senhor fala também de uma conexão pessoal com o castelo. — retomou Elaine, tentando reduzir a belicosidade da entrevista.
— Minha família tem origem na Transilvânia. Minha mãe sempre contou que descendíamos de uma linhagem ligada ao castelo original que inspirou esta construção. Recentemente fui à Romênia, consultei arquivos, levantei registros, inclusive em igrejas medievais. Estou organizando essa genealogia com apoio acadêmico local.
— O senhor confirma essa ancestralidade?
— Estou confirmando com rigor historiográfico. Já há documentos consistentes até o século XVIII.
— E isso influencia sua posição aqui?
— Influencia minha responsabilidade. Mas mesmo que eu não tivesse qualquer ligação familiar, minha posição seria a mesma. Patrimônio não é mercadoria.
— Senhor Carvalho, a empresa reconhece o valor histórico simbólico do local?
— Reconhece. Justamente por isso quer integrá-lo a um circuito cultural estruturado. A alternativa é o abandono gradual, já que o suposto conde aqui não tem a menor condição de se responsabilizar por nada. Eu esperava mais de alguém de sangue azul…
— Estamos diante de duas visões claras — interveio a jornalista, tentando novamente conter o escalonamento da contenda. — Professor, última pergunta: se o projeto avançar como previsto, o que o senhor teme que aconteça em dez anos?
— Que o castelo continue de pé, mas irreconhecível no sentido. Que vire pano de fundo para selfies, eventos corporativos e festivais temáticos. Que a história real que nós, professores, ensinamos nas escolas e mostramos ao vivo para os alunos, seja substituída por uma narrativa mais vendável, enquanto animais nativos, tão presentes hoje, virem apenas réplica na decoração, mortos ou espantados pela invasão da especulação imobiliária
— E qual a visão da Serra Viva Concessões?
— Em dez anos, vejo um polo turístico consolidado, gerando renda, empregos e estrutura arquitetônica preservada e nenhum impacto ambiental digno de nota. Vejo essa cidade sendo colocada no mapa, não mais apenas um ponto de passagem.
— Professor, uma frase final.
— Desenvolvimento sem memória é invasão e depredação.
— Senhor Carvalho, e qual a sua?
— Memória sem desenvolvimento não passa de ruína.
— Professor, a lenda urbana da cidade diz que o senhor pode ser um descendente do conde Vlad, é verdade? — recomeçou a jornalista, tentando finalizar de modo leve.
— Ah, esse é um estereótipo comum, e não tinha como minha família escapar disso quando a réplica de um castelo medieval real é erguida aqui no Brasil por um imigrante romeno. A associação com vampiros era inevitável, mas eu acho divertido. Nunca preciso me preocupar com a fantasia de Halloween.
A repórter, rindo, estava prestes a tentar quebrar o gelo com o homem de negócios, mas precisou interromper a gravação, pois uma espessa névoa rapidamente eliminou toda a visibilidade na área de filmagem.
Também facilmente penetrou nas muralhas e atingiu o defensor do castelo, cansado após seu duelo verbal. Era uma névoa diferente, espectral. E o começo de seu pesadelo.
A breve dissipação
Viktor levou a mão à cabeça, subitamente capturado por uma vertigem que o desequilibrou. A sensação era de desconexão, mudando a temperatura, que caiu vertiginosamente, e transformando a fragrância do ambiente e a textura das pedras. Uma sensação familiar ao toque, que o remeteu imediatamente à recentemente visitada Transilvânia.
Enquanto se perguntava o que havia acontecido com os seus sentidos, tropeçou numa grade metálica, parte de um antigo portão, que não estava ali antes. Quando abriu os olhos novamente, o peso o atingiu antes da visão.
Peso nos ombros. No peito. Nos braços. Metal. Ele estava de pé, envolto numa armadura. Uma espada na mão direita. Um escudo cujo formato lembrava um losango no braço esquerdo.
Mas a perplexidade não recebeu autorização para se instaurar. As elucubrações do professor transfigurado em cavaleiro foram interrompidas por uma lança que emergiu da névoa, avançando em direção ao seu torso.
Seu corpo reagiu antes que sua mente entendesse, por pura memória muscular que nem sabia ter adquirido. O escudo girou, desviando a ponta de ferro. A vibração do impacto percorreu-lhe o braço como um eco antigo. Sua espada subiu em um arco perfeito, obrigando o atacante a recuar com sua haste partida.
Ele retornou segundos depois, após desembainhar sua cimitarra e girá-la nas mãos antes de tentar um amplo corte lateral. Viktor recuou no momento preciso, evitando a finta do adversário, enquanto posicionava sua espada sob a borda do escudo, para garantir uma estocada precisa no ponto fraco da cota de malha do agressor.
Seu corpo sabia, mesmo sem que ele soubesse como. O tempo de reação, a distância, o peso da lâmina… era como se conhecesse tudo isso intimamente por sua vida inteira, como se tivesse passado incontáveis dias treinando.
A espada de Viktor encontrou a brecha. A breve resistência dos anéis metálicos se rompeu, a ponta afiada da espada reta deslizou quase suavemente carne adentro antes de encontrar a placa da armadura que agora defendia inutilmente a retaguarda do guerreiro, cuja traqueia havia sido habilmente perfurada.
Viktor sentia-se como um istmo atacado pelas ondas conflitantes de dois mares. De um lado, euforia crua, animal, pela vitória no duelo, os fios de memória ainda fixados no século XXI foram capazes até mesmo de lembrar de um brado klingon — idioma que ele, como nerd de primeira classe, quase dominava.
A outra onda era de horror absoluto. Ele havia tirado uma vida. Sua mão ainda vibrava com o impacto. Sua memória muscular celebrava o movimento perfeito. Sua mente registrava o peso irreversível do gesto.
Mais inimigos surgiam da névoa, pelo menos uma dúzia. Sentiu um alívio ao pensar no inevitável fim, apesar da perícia recém-descoberta. Seria bom ser poupado de processar e digerir aquela violência e, se fosse um sonho, aquilo certamente o faria acordar. Mas antes que viessem os golpes dos inimigos, sentiu um contato em suas costas. Eram homens portando escudos no mesmo formato, vestindo as mesmas cores. Rapidamente, uma parede de metal e madeira se formou em volta.
As lanças inimigas chocaram-se contra a cunha de cavaleiros, mas flechas vieram das ameias acima, indicando que a guarnição da muralha havia contido o assalto com escadas que Viktor agora lembrava ter acontecido momentos antes. Enfim, podiam contra-atacar.
— Meu senhor! — gritou alguém à sua esquerda. — O portão foi reforçado! Já podemos recuar!
Mais um susto para o comandante Viktor. Era impossível! Ao seu lado, estava um dos professores da escola. Ele sabia que aquele homem corrigia provas e reclamava do salário em reuniões pedagógicas. E, paradoxalmente, também sabia que ele comandava homens sob sua bandeira há mais de duas décadas. As duas certezas coexistiam. O mundo oscilou novamente.
— Recuar! — ordenou Viktor, sem saber de onde vinha a autoridade na própria voz.
A linha de escudos avançou para trás de forma coordenada, protegendo a retirada. O som da batalha diminuía à medida que se aproximavam das muralhas.
Quando atravessaram o portão e este se fechou com um estrondo pesado, Viktor sentiu as pernas quase cederem. Ele estava dentro do castelo. Mas não o castelo recriado nos trópicos, e sim o ancestral, que fora um entrave ao avanço do império otomano por mais tempo do que os sultões gostavam de admitir. Sua primeira intuição após a névoa estava certa, afinal de contas. Tochas nas paredes. Pedra úmida. Homens feridos sendo atendidos às pressas.
Ele mal teve tempo de respirar, pois um vigia o convocava à muralha.
— Emissário! Bandeira branca!
Da névoa, surgiu um cavalo. Montado nele, um homem com trajes ricamente adornados, portando uma alva bandeira no estandarte. O rosto e a voz eram inconfundíveis, nada mudara além de sua indumentária, título e sobrenome.
— Senhor do castelo — sua voz ecoou firme — trago termos generosos. Sou Tariq Selim Karahan, Paxá ao serviço de Sua Majestade, o Sultão Mehmed II, e comandante desta hoste imperial. Rendam-se, e suas terras serão preservadas. Seus costumes, respeitados. Sua fé, tolerada. Sob o império, prosperarão. Permanecerão senhores, ainda que sob nossa soberania. Seus impostos serão revertidos em bonança. Resistir é apenas prolongar o sofrimento.
Viktor sentiu o chão fugir sob os pés. Ele bem conhecia os ecos daquele discurso, mesmo sem saber definir se vinham do passado, do futuro ou dos sonhos. Desenvolvimento, prosperidade, inutilidade da resistência, abandono de suas raízes… O emissário aguardava resposta. E não poderia ser outra.
— Este castelo resistiu antes — disse ele, a voz ecoando sobre a pedra. — E resistirá novamente, hoje e no futuro!
Em sua versão emissário, o invasor podia externar seu ódio com muito mais liberdade do que sua versão paralela, usando terno e dando entrevista para o telejornal.
Mas sua carranca de ódio foi coberta pela névoa, e ele se viu numa outra batalha, onde portava um celular e lanterna, fazendo uma live que denunciava um início de incêndio florestal criminoso iniciado por jagunços da empreiteira. E, à medida que a neblina sobrevinha com mais frequência, esqueceu o gosto da comida ou a sensação de um travesseiro sob sua cabeça, sendo transportado entre uma batalha e outra, através das eras, até perder a conta e a sanidade.
Epílogo
— Prosseguimos no tempo moderno ou medieval? O que você acha? — perguntou o escritor.
— Estou surpresa… você conseguiu me deixar confusa. Eu tinha certeza de que preferiria a ambientação medieval quando você me falou da ideia. Um conto para a revista Castelo Drácula praticamente pede isso. Mas agora estou em dúvida.
— Pois é, minha amiga, eu te entendo — ele respondeu. — Também sou assim. Gosto de medievalismo, de fantasia. A temática de castelo envolto em névoa é quase um convite automático para espadas e muralhas sob ataque, não é? Mas, enquanto eu escrevia, essa ideia de um conflito moderno — alguém tentando preservar a história contra uma grande corporação — foi ganhando força. Ficou impossível ignorar.
— E aí a sua indecisão fez o favor de deixar esta editora de revista já sobrecarregada com um baita dilema, não é? Eu adoraria dizer para você apresentar dois contos: A Luta do Ancestral e A Luta Moderna de Viktor. Mas você sabe que só podemos publicar um texto na revista.
— Sim, eu sei. É por isso que agora estou com essa ideia híbrida. Minha indecisão virando o próprio nevoeiro que une ambas as batalhas.
— Daqui a pouco você terá um livro de contos só sobre anomalias temporais… Logo saberemos o que os leitores vão achar!
— Uma pena que o prazo não permita desenvolver mais — ele suspirou. — Se eu tivesse que escolher, acredito que prosseguiria na luta moderna. A luta medieval é fascinante, e eu adoro descrever combates, mas podemos deduzir o desfecho. Os otomanos não engoliram a Transilvânia, com ou sem a intervenção do conde Vlad real, ou o Drácula mitológico. Já as batalhas pela cultura e pela ancestralidade, como as travadas pelo descendente Viktor, continuam em curso. E as grandes corporações de hoje são, muitas vezes, mais implacáveis do que qualquer império do passado.
— É… oficialmente, pela primeira vez, eu diria que preferiria saber o desfecho de uma história moderna ao de uma medieval. Parabéns por isso. Só lamento pelo seu personagem.
— Por quê?
— Ele vai acabar enlouquecendo com a sua confusão cronológica.
Henrique Morgante
Henrique Morgante é um completo dependente do consumo de boas histórias em todos os formatos, sejam livros, filmes, séries ou games. Paulistano, formado em Administração e graduando em História, atuou em gestão de equipes e no setor bancário. Mas sempre teve por objetivo trabalhar com a criatividade. Escreve contos e romances, navegando entre o terror, a ficção científica, fantasia e, ocasionalmente, ensaios ou crônicas sobre eventos reais, além dos mais diversos temas propostos pelas antologias e revistas das quais participa sempre que possível. » Instagram do autor
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Velian: O Banquete da Noite
Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra fora reencontrada — mas agora não havia nostalgia nem peso: o que ardia em sua alma era sede, não de simples sangue, mas de corpos, de jogos, de poder e vertigem. É que o vampiro intuía agora que de nada ou de pouca coisa valia seus esforços por encontrar sentido último na vida. Por meio de seus encontros atrozes com a deusa Nix, Velian entendia que, por mais magia que estudasse, não iria descobrir uma verdade última sobre a vida, que era imensa e se desdobrava demais até para ele. Com isso, o vampiro não pretendia deixar de lado seus estudos, pois percebera que sempre haveria mais coisas para entender, e, no processo, ficar ainda mais forte e poderoso.
Da varanda alta de um edifício antigo, o vampiro contemplava a cidade. Fortaleza estendia-se como uma tapeçaria noturna de luzes, fumaça e mar distante. E apesar de o vampiro admirar a cidade de vez em quando, ele não buscava beleza contemplativa; buscava movimento, carne, pulsares. Com um sorriso enviesado, lançou o chamado: não súplica, mas desafio. Convocou Cassandra por meios telepáticos. Não a queria como lembrança, mas como chama. Queria testá-la, tê-la ao lado, enfrentá-la no terreno mais fértil da luxúria, onde Cassandra era muito boa, melhor que ele na maioria das vezes, ele reconhecia. Só que, desta vez, o vampiro não se importava com quem fosse ganhar, se todos, no final, fossem ter prazer. O vampiro também se sentia recarregado em seu interior e sentia que estava preparado para Cassandra.
Ela veio. Surgiu como sombra lasciva em meio à escuridão e o breu do prédio em que Velian estava, o vestido colado à pele como promessa. Entre os dois, não havia saudade, apenas provocação. Ele a olhou como quem devora; ela riu como quem jamais se deixa conter. "Dessa vez foi rápido." — pensou o vampiro. Velian ainda não conhecia muito bem o poder da teletransportação, o vampiro precisava voar e percorrer longos caminhos, ainda que rápido, para chegar aos seus destinos.
— Ainda és capaz de me surpreender, Velian? — ela sussurrou, deixando o hálito frio roçar-lhe o pescoço.
— Não preciso surpreender, Cassandra. Preciso apenas… consumir.
A cidade se abriu para eles como palco obsceno. Primeiro, a boate pop, onde corpos reluzentes dançavam sob luzes de néon: ali sugaram a vitalidade de um casal, jovens que tremiam entre o medo e o êxtase. Depois, o subterrâneo rochoso do rock, onde o suor misturava-se ao sangue — um beijo rasgado em meio aos gritos das guitarras. Mais adiante, o caos punk, onde corpos se chocavam, e Velian se embebedou do gosto amargo de um rebelde, rindo ao ver Cassandra deixar marcas profundas nos ombros de uma mulher andrógina que se oferecia como oferenda. Por fim, o delírio ciberpunk: máquinas e carne, implantes cintilantes, olhos de néon. Ali, eles foram de todos e de ninguém — sorvendo, possuindo, misturando-se até que a madrugada não tivesse mais fronteira.
E então veio o chamado. Não humano, não terreno. Um som grave, como se as paredes vibrassem com a respiração de algo antigo. O ar magenta se adensou, dissolvendo a boate ciberpunk em ruínas úmidas. Diante deles erguia-se o Castelo Drácula, vivo, pulsante, enraizado em sombras.
Velian e Cassandra trocaram um olhar de puro gozo: a noite apenas começava.
Entraram. No salão principal, criaturas os aguardavam. Vampiros menores reverenciavam ou invejavam sua presença. Fantasmas serpenteavam, oferecendo toques frios como beijos eternos. Lobisomens os observavam com uma fúria erótica, como se o desejo fosse tão grande quanto a raiva. E, entre colunas que se erguiam como membros retorcidos, pairavam entidades mais antigas — quase divinas, encarnações da noite e do prazer.
Tudo respirava sob o signo do magenta profundo: cor entre o rosa mórbido e o vermelho do sangue, ardendo como febre nos vitrais e nas peles. Cassandra gargalhou, e sua risada ecoou como chicote. Velian apenas abriu os braços, como se o castelo inteiro lhe pertencesse.
Ali, não havia mais mortais, não havia mais limites. Apenas a noite, o desejo e o abismo. E Nix, Senhora da Noite, invisível, mas presente, erguia-se como símbolo absoluto, assistindo ao jogo de poder e luxúria entre seus filhos imortais.
A Noite Magenta reinava.
O salão respirava como uma garganta viva. Cada sombra parecia observar, cada sopro de vento trazia perfumes de sangue e de incenso queimado. Cassandra caminhava como se fosse a própria sacerdotisa da luxúria. O vestido desfazia-se em transparências, e dela emanava a volúpia de uma rainha indomada. Velian a seguia com olhos cerrados de desejo e ironia, consciente de que a provocação dela só o inflamava mais.
Dizes que me consomes, Velian… — Cassandra deixou escapar num murmúrio rouco. — Mas e se fores tu o devorado?
— Que me devorem então — respondeu, mordendo-lhe o pulso delicado.
O sangue escorreu quente, vermelho e febril, e ambos sorriram como predadores cúmplices. Ao redor, os convidados da noite se aproximavam. Uma vampira jovem, de olhos cinzentos, ajoelhou-se diante de Cassandra, oferecendo-lhe o pescoço. Cassandra aceitou com a delicadeza cruel de quem colhe uma flor para logo esmagá-la. Velian, observando, riu baixo.
— Sempre a rainha de súditos desesperados.
— E tu, sempre o cavaleiro que finge desdém, mas não resiste a entrar no jogo.
Um lobisomem se ergueu da sombra. O corpo musculoso, marcado de cicatrizes, observava-os com fúria erótica. Velian estendeu-lhe a mão e, num gesto inesperado, arrastou-o para perto. Beijou-lhe a boca com violência, arrancando-lhe um uivo de prazer e dor. Cassandra gargalhou, e o eco da risada fez os fantasmas estremecerem.
Velas altas ardiam em magenta, tingindo as paredes de febre. Entre colunas retorcidas, ninfas espectrais surgiam — seres de pura energia que tocavam com mãos etéreas, provocando tremores de êxtase. Uma delas deslizou por entre Cassandra e Velian, sussurrando um canto sem palavras. Velian fechou os olhos: o toque frio era como mergulhar em abismos de desejo sem fundo.
No centro do salão, uma mesa de pedra negra cobria-se de taças com sangue aromatizado por flores espinhosas. Ali, Cassandra puxou Velian pelo colarinho e o empurrou contra a superfície dura. O beijo deles foi brutal, quase uma batalha.
— És meu inimigo e meu deleite — ela sussurrou.
— E tu, Cassandra, és minha perdição favorita.
A sala inteira parecia vibrar em torno deles. Os outros seres — vampiros menores, fantasmas, lobisomens — não apenas assistiam, mas participavam, entregando-se a toques, beijos, mordidas, formando uma espiral orgiástica de desejo e violência. A noite pulsava como um coração colossal.
E, acima de tudo, Nix, Senhora da Noite, pairava invisível, mas inegável. Velian sentiu sua presença como sopro no pescoço, como mão invisível sobre o peito. Era mais que luxúria: era o eterno chamado da escuridão, o ventre cósmico de onde nascia o desejo.
Por um instante, Velian fechou os olhos. O tempo não existia — apenas ciclos de prazer, sangue e silêncio. A melancolia se dissolveu no delírio magenta, e até o vazio se transformou em alimento.
Era ali, entre o amor e o abismo, que agora ele se sentia mais vivo.
Ninfas dançavam entre pilares de pedra, seus corpos translúcidos refletindo tons rubros, que se misturavam à penumbra do castelo. Velian sentiu o chamado: não havia necessidade de força, apenas de entrega ao êxtase que o rodeava. As criaturas o cercavam, e cada toque era como eletricidade: não física, mas metafísica, percorrendo a sua forma vampírica em ondas de calor e frisson. O desejo era profundo, não vulgar — um trago da própria eternidade.
— Velian — murmurou uma voz etérea, deslizando pelo corredor como fumaça de incenso. Era uma das ninfas, seu corpo esculpido em curvas impossíveis, os olhos refletindo auroras de cores também impossíveis — Você sente? Não é fome, não é sede. É vontade de tudo possuir, e ainda assim nada deter. É o prazer do infinito que nos rodeia.
— Sinto — respondeu Velian, a voz baixa e rouca, reverberando nas paredes úmidas — Sinto o vazio e o desejo, tudo ao mesmo tempo. Sinto o poder de existir, mesmo sem precisar do desespero.
— E ainda assim há ironia em ti — disse outra presença, um fantasma andrógino que se aproximava por entre as colunas, roçando sua essência contra a aura de Velian — Tens força para moldar mundos, e escolhes caminhar por entre sombras, provando prazer do etéreo. É humano demais, ou vampiro demais?
O Castelo Drácula os envolveu com seus corredores labirínticos, onde o tempo se curvava e cada sombra parecia palpitar com vida própria. Velian, pulsando com uma energia voraz e confiante, sentiu a presença das criaturas — fantasmas translúcidos, ninfas que ondulavam entre a penumbra, e seres andróginos cujos olhos brilhavam com segredos antigos. A respiração de todos se mesclava ao ar denso, impregnado de aromas doces e metálicos, uma fragrância que falava de desejo e eternidade.
— Aqui, até o silêncio tem gosto de sangue — murmurou Cassandra, deslizando ao lado de Velian, sua voz quente como veludo, provocando arrepios nos seres que os observavam. — Cada respiração, cada toque, cada olhar é uma dança de poder.
Velian sorriu, mordendo o lábio com malícia. Ele não buscava humanos agora — apenas o calor vivo e intenso dessas entidades que respiravam o mesmo abismo e compartilhavam da mesma sede. Ele tocou uma das ninfas, sentiu sua pele etérea vibrar entre seus dedos, e percebeu como o prazer e o medo se entrelaçavam, como se cada suspiro fosse um cântico antigo, uma oração esquecida.
Entre risos e murmúrios, seres com corpos andróginos aproximaram-se, oferecendo olhares que queimavam e mãos que provocavam pequenas faíscas de eletricidade na pele. Velian aceitou o jogo com destreza, sua presença um magnetismo de desejo que atraía e incendiava cada ser à sua volta. Cassandra, sempre altiva, seguia seus passos, brincando de dominadora e cúmplice, deslizando sobre os corpos que se curvavam e arqueavam sob a tensão do prazer.
— Não é só sobre matar ou seduzir — disse Velian, a voz grave, o olhar em chamas, enquanto uma sombra de fantasma cruzava seu corpo — é sobre sentir a eternidade no toque, no êxtase, na fusão do desejo e da vida que pulsa por trás da escuridão.
— E ainda assim — replicou Cassandra, arqueando a sobrancelha, os lábios tingidos de rubor de vinho — há sempre algo mais. Sempre há. O poder, o prazer, a fome… nada disso se compara ao que se encontra quando aceitas a profundidade da noite, e daquilo que somos. Tu queres sentir tudo, não é? E eu estou aqui para que sintas.
O toque, os olhares, o jogo de aproximação e afastamento criavam uma coreografia de luxúria e poder, onde o prazer era apenas o início da compreensão de algo maior — da eternidade, da solidão compartilhada e da beleza perversa de existir. Fantasmas e ninfas entrelaçavam-se, vozes sussurrantes cantavam cânticos indecifráveis, e a arquitetura do Castelo parecia responder, pulsando, expandindo-se, como se respirasse com cada desejo consumado.
Velian e Cassandra, lado a lado, abraçavam a escuridão, percebendo que cada toque, cada carícia, cada arrepio era uma reafirmação de sua própria condição: eternos, sedentos, livres, mas ainda assim ansiosos por sentidos, laços e descobertas. O Castelo os envolvia, a noite os consumia, e a sensação de pertença àquilo que era maior que a própria vida os incendiava por dentro.
— Aqui, no fim, — murmurou Velian, sentindo a vibração de Nix, senhora da noite, pairando sobre todos — só o desejo e o vazio coexistem, e são eles que nos tornam mais vivos que qualquer mortal.
Cassandra sorriu, e juntos, absorvendo cada ser, cada suspiro, cada presença, permaneceram na dança eterna do Castelo, entregues ao prazer, ao poder e à própria eternidade, até que o vento metálico do limiar sugeriu que novas descobertas os aguardavam, e que a noite jamais terminaria.
O Castelo Drácula tremia. As paredes antigas estalavam como se quisessem expelir séculos de segredos, e as torres pareciam ceder ao peso da própria eternidade. Velian sentiu o chão vibrar sob seus pés, o ar metálico da noite se tornando denso demais, quase líquido, como se o próprio limiar se desfizesse. Fantasmas, ninfas e seres andróginos evaporaram em brumas ondulantes, deixando apenas o eco de suspiros e risadas antigas. O desejo, intenso e febril, continuava a arder dentro dele, mas o Castelo parecia avisá-lo: era hora de retornar.
Em um instante que durou simultaneamente uma eternidade e um sopro, Velian sentiu o mundo girar, e tudo desmoronar ao redor. A última visão do abismo do Castelo se desfez, e ele despertou.
O amanhecer já tocava Fortaleza. Raios de sol pálido atravessavam a cortina do quarto, dourando o ar ainda impregnado do calor da noite. Cassandra dormia ao seu lado, seus cabelos negros espalhados como sombras luxuosas sobre o travesseiro. O perfume dela misturava-se com o aroma do café da manhã não feito e o leve toque do sol nascente. Cada curva de seu corpo era uma promessa silenciosa, cada respiração, uma melodia antiga que atravessava os séculos.
Velian a observou, os olhos absorvendo cada detalhe: a delicadeza da pele, o arrepio dos fios de cabelo, o ritmo perfeito da respiração. Um sorriso lento curvou-lhe os lábios, a ironia e a certeza de si próprios entrelaçadas.
Revisado por Sahra Melihssa
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Dança do Corvo #1
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Terça-Feira, 28 de Setembro.
Estava retornando à minha moradia, enquanto as irmãs já deveriam estar acamadas. O ar era pesado e a forte neblina de St. Canard não tardava a se identificar pelo vidro embaçado da janela daquele comboio a vapor que atravessava a linha ferroviária em plena madrugada.
Duas noites anteriores, uma carta fora destinada a mim, com a assinatura de meu pai que, por sua vez, escrevera aos prantos. Sua tão amada Hermina falecera depois de contrair uma doença à qual não me especificou nome. Talvez, nem mesmo ele soubesse o que afligira a sua esposa. Ele tinha medo. Soube disso, pois conseguira passar seu temor para o papel em letras trêmulas e garranchadas. Na mesma noite em que recebi a carta pelas mãos de uma das irmãs, dediquei toda minha euforia para ter a permissão de sair do convento e voltar para minha casa. Ela, e outras que também coordenavam o lugar, consentiram com minha saída, pois acharam que seria melhor eu cuidar de meu pai enquanto os tempos difíceis repousavam na minha família. Eu prometi que retornaria em breve e assim parti dois dias depois, sem ao menos imaginar que aquele seria um caminho completamente sem volta.
Junto a mim, nada carregava de muito valor. Ainda me lembrava daquela noite em travessia. Era apenas uma pequena mala contendo um saquinho de biscoito, cadernos e livros didáticos que eu deveria ler no tempo que estivesse fora da Escócia para compensar minha saída e o diário de minha falecida mãe que, não importava onde, sempre levava comigo.
O sono me pegou de surpresa, mas não se estendeu muito. O som rasante do comboio arranhando os trilhos conseguiu me despertar repentinamente em um pulo assustado. A madrugada já se tornava manhã e a parada da ferrovia já estava estampando minha visão. Já havia retornado à minha cidade e nenhuma surpresa me dominou por isso. Estava ali por um motivo de desgraça e nada daquilo me faria feliz.
· · • • • ✤🐦⬛✤• • • · ·
As ruas de St. Canard não estavam abarrotadas como eu nunca imaginei. Fazia já alguns anos desde que abandonei meu lar para seguir um caminho junto a Deus e seus ensinamentos, que pouco me lembravam do chão que voltei a pisar.
Mesmo assim, as lojas permaneceram da mesma forma enquanto eu me aprofundava pela cidade. As típicas mercearias, os ambulantes que dançavam nas calçadas animando quem passava... Sempre com um sorriso no rosto, as damas com seus leques e vestidos que vieram de boutiques caras nas quais nunca tive oportunidade de sequer entrar, pois era minha querida mãe que fazia – à base de trapos – minhas roupas humildes e, por fim, as carroças puxadas por cavalos que continuavam as mesmas, tirando o notável melhoramento em suas estruturas compostas de madeiras e metal, que agora eram mais charmosas e reluzentes do que antes. St. Canard não havia mudado muito em alguns anos. Sendo assim, ainda era fato de que eu sabia o caminho de minha casa.
A janela tinha suas persianas abertas quando encontrei minha antiga moradia sob um novo bazar que antes se encontrava em uma panificadora. A fachada estava com sua cor alterada. Antes, um bege quase branco se esticava por toda parede e agora havia um verde que já estava gasto e desbotado, porém a casa ainda parecia ser a mesma, esperava eu.
Decidi abandonar minha casa e seguir caminho ao encontro de Deus após o falecimento de minha mãe. Ela era nova, bonita e inteligente. Mesmo sem recursos financeiros, morávamos bem e sem problemas. Então as brigas entre ela e meu pai se tornaram mais frequentes e a casa foi ficando insuportável. Como antes dizia meu pai, ela o traía com outros homens, entre eles um eu conhecia: Dr. Marquês, filho do panificador que trabalhava em um hospital nas redondezas da cidade. Por sinal, ele era bem agradável. Nunca me dera motivos para sequer cogitar alguma coisa que o desagradasse, mas ao ser apontado por meu pai, sua ideologia formada em minha cabeça também foi pouco desgastada.
As acusações de adultério só foram comprovadas após o acidente no qual tirou a vida de minha mãe. Seu corpo foi encontrado na areia úmida da praia alguns dias depois que ela visitou uma amiga. Marquês se provou amante de minha mãe e alegou ter a ajudado com dinheiro para que ela comprasse tecidos, linhas e materiais para a customização de minhas roupas. Era fato de que, por um espaço de tempo naquela época, minha mãe estava aparecendo com mais tecidos do que o normal. Papai se casou novamente dois anos depois, por desgosto, e com Hermina teve outra filha: Emily, o bebezinho mais doce que eu vi na vida. E, quando isso aconteceu, eu parti para a Escócia, não por desgostar da minha nova irmã ou até mesmo da minha madrasta, mas por saber que somente encontraria o conforto que minha mãe dava nos braços do Senhor.
Antes de eu tocar na campainha ao lado da porta, meu pai já abriu e me encontrou segurando minha pequena mala. Tomou-me em seus braços e chorou por me ver, ao lembrar-se do motivo que me fizera retornar.
— Onde está Emily? – perguntei assim que pisei novamente em casa. O cheiro não era o mesmo. Ao invés de cheirar a assoalho velho e corroído por cupins, eu sentia algo desagradável o bastante que me faria voltar atrás. Não era nada condizente com minha sabedoria. – Quero vê-la. Tadinha... Deve estar acabada.
Meu pai seguiu à minha frente, percorrendo o corredorzinho no qual se dividiam os quartos, e chegou naquele onde eu já dormira um dia. Emily estava deitada com camadas de cobertas sobre seu corpo. Seu olhar cabisbaixo indicava doença, mal-estar. Seu cabelo loiro, que um dia eu vira por algumas pinturas ser lindo, brilhoso e radiante, estava embaraçado, seco e sem vida. Suas bochechas rosadas tinham um tom rude e cruel estampando-as, tornando a magreza de sua face mais evidente. O que estava acontecendo com ela? Os lábios carnudos também desapareceram incrivelmente, dando lugar a uma linha fina e roxa para representá-los. Seu colo tinha todas as cavidades do osso da clavícula marcadas. Ela estava magra igual a um esqueleto. E aquilo me assustava.
Respirei e, antes de me aproximar dela, fiz o sinal da cruz sobre o peito.
— Emily contraiu os mesmos sintomas de Hermina na mesma noite em que ela morreu, Lucy – dissera meu pai com sua voz acabada. – Eu não sei o que fazer mais. Não há remédio em minhas mãos que tarde essa maldita doença e, se existe algo, está muito além daquilo que posso arcar. Ela vai morrer... Vou perder minha filha, e você, sua irmã.
Acariciei a face de Emily, sorrindo para ela, mas acabei me levantando quando meu pai proferiu aquelas palavras banhadas de choro e medo. Agarrei suas mãos com força e as pousei sobre meu colo. — Não diga isso, papai. Vamos conseguir. Emy não irá morrer.
— O que podemos fazer para impedir tal acontecimento hostil? – perguntou ele, eufórico demais para raciocinar que eu estava tão próxima a ele e não necessitava elevar a voz ao falar comigo.
— Vamos primeiro contatar um doutor. Depois de curada, resolveremos o valor que devemos arcar. Tudo vai ficar bem, pai. O Senhor há de nos ajudar. Ele está conosco. – Meu pai pareceu não dar muita atenção para a parte em que falei da ajuda de Deus. Portanto, retornou com sua euforia e se mostrou um tanto duvidoso. – Marquês tinha um voluntário, Dr. Hoechlin. Emy o conheceu, talvez ele nos preste ajuda.
— Eu deveria negar por ser voluntário daquele senhor, mas caso aceite nos ajudar, será bem-vindo à minha casa – respondeu.
Emily se mexeu sob as cobertas. Tossiu, limpando a garganta, e chamou minha atenção com sua voz fraca e arranhada.
— Hoechlin partiu para Londres na noite retrasada. Voltará daqui a dois dias – comentou ela, esforçando-se para conseguir falar com clareza.
Olhei para meu pai com preocupação. Não sabíamos com o que estávamos lidando e, acima de tudo, aquilo poderia não existir cura alguma. Ele também estava preocupado. Com toda a certeza, não queria perder sua menina de dezesseis anos logo depois de sua mulher falecer.
— Quanto tempo Hermina suportou após contrair a doença, pai? – perguntei.
— Três semanas. – Uma semana se completaria para Emy quando o doutor chegasse. Ela teria que aguentar mais duas até os exames mostrarem uma saída.
Naquela noite, me ajoelhei perante a cama e rezei com toda minha fé. Tive medo de que oração alguma fosse forte o suficiente para afastar a sombra da Morte que pairava sobre a nossa casa.
· · • • • ✤🐦⬛✤• • • · ·
Quarta-Feira, 29 de Setembro.
Eu havia retornado ao quarto que me foi cedido, na extremidade do corredor, e o fiz não por cansaço, mas por um medo pungente de ser um estorvo àquela figura paterna já devastada pela dor. Minha prece fora fervorosa, mas o sono que se seguiu se mostrou leve e febril, interrompido a cada rangido do assoalho.
No fim, contive-me no som ritmado e pelas badaladas do relógio da sala que, ao longe, badalava as três da madrugada quando o silêncio da casa foi rasgado por um som aterrador. Não era o pigarro fraco que Emily vinha exibindo, mas sim um ruído quase gutural, violento demais e profundo, seguido de um gorgolejo que parecia vir do fundo de sua própria garganta.
Saltei da cama, com o desespero e o coração chocando-se contra as costelas, vesti apressadamente meu robe e corri descalça pelo corredor sem medo de talvez estivesse fazendo barulho em demasia para acordar meu pai. A porta do quarto de Emily estava entreaberta e a luz fraca da lamparina que eu havia deixado acesa na cômoda projetava sombras alongadas e distorcidas que dançavam quase como uma reverência ao meu medo.
Entrei. E ali, o terror se materializou em sua pior forma.
Nunca fui muito próxima do trabalho da morte. Muito pelo contrário… sempre permaneci distante dela para não parecer íntima demais a correr o risco de vê-la de novo. No entanto, as tosses vindas de Emily deixaram de ser comuns para mim quando a consequência seguinte fora vê-la se debater insanamente sobre a cama. O lençol branco que a envolvia já não existia mais, marcando em seu peito e pintando sobre o amontoado de fios uma paisagem infernal de carmesim. O sangue evidentemente estava espesso e quente, escorrendo de sua boca como riachos abundantes, manchando o queixo, o pescoço e a camisola que parecia ter sido mergulhada na mais rubra tinta. Os olhos de minha pobre irmã, antes esvaziados pela doença, arregalaram-se em uma súplica muda de socorro. Talvez eu nunca mais esquecesse o pânico estampado em sua face assim que me viu entrar em seu quarto.
Ela tentava puxar o ar, mas o esforço apenas fazia o sangue jorrar com mais violência, engasgando-a, silenciando-a como se algo condenasse a bela garota a um destino horrível e sangrento. — Emily! Oh, Deus, Emily! — Minha voz não passava de um sussurro rouco, quase abafado pelo som úmido do seu sufocar. E mesmo atingindo um tom acima do normal, pelo medo e desespero, ainda parecia baixa demais comparado aos engasgos e sufocamentos que originavam dela.
Corri para o seu leito, estendendo minhas mãos como uma forma fútil de tentar salvá-la, mas o desespero tomou conta da minha mente com uma força paralisante.
Eu não era médica; não era nem mesmo perto de ter os conhecimentos de uma mera enfermeira. Eu era apenas uma garota de vinte e quatro anos que, diante daquela cena de brutalidade biológica, toda minha fé e os ensinamentos do convento se dissolveram em um terror gélido e parvo. Tentei erguê-la, mas o toque na sua pele fria e pegajosa de suor e sangue fez-me recuar um passo atrás.
Eu falhei. Falhei miseravelmente com o desespero que também tomava conta de mim, assistindo à última e convulsiva exalação de vida de minha irmã, enquanto o sangue se espalhava em um mar espumoso sobre o travesseiro. No instante exato em que o último tremor abandonou o corpo de Emily, quando o gorgolejo cessou e o quarto mergulhou em um silêncio pesado e oco além do meu choro contido no alto da garganta, o ar ao redor do leito pareceu se condensar em um negrume mais denso que a própria noite. Não era a sombra projetada da lamparina, mas sim uma mancha de escuridão viva, alta e magra, que se desprendeu do colchão manchado como quem emergia de dentro da posição de mortalha dela na forma de um espectro obscuro.
Sombrio, sem rosto discernível, feito de fumaça e trevas.
O pavor me petrificou no lugar, e eu observei a personificação do demônio da morte tomar aquele ambiente como se fosse dele desde o início. Talvez de fato fosse, desde a partida da esposa de meu pai, pouco antes.
Não havia pés, nem o som em seus passos. A figura deslizava sobre o assoalho sem fazer qualquer ruído. Em vez de caminhar pelo chão, ela ascendia pela parede ao lado, como se a gravidade fosse uma simples sugestão e possibilidade de uma escolha inútil. Lenta e propositalmente, a aparição espectral moveu-se em direção a um canto escuro do quarto onde repousava, coberto por um tecido de linho branco, o grande espelho de vestir de Emily.
Talvez meu pai tivesse bloqueado o reflexo, tendo em vista o caos letal que acompanhava sua morada. Sua tentativa de ocultar o vidro fazia direta referência ao que diziam os supersticiosos e abandonados pela fé. Espelhos capturavam a alma dos doentes.
O espectro parou diante do espelho coberto, e ali permaneceu intacto, com sua silhueta escura parecendo fundir-se com a brancura do linho. Meus olhos, grudados naquele ponto de escuridão e tecido, não conseguiam mais se desviar. Eu estava hipnotizada. Horrorizada e sem qualquer força para fazer algo a respeito.
Lucy... Salve-me…! Está na hora de vir ao meu encontro, doce irmã. Liberte-me deste caos… Arranque o véu, irmã. Arranque o véu e perambule pela escuridão. Está tão frio aqui…
Era a voz de Emily, pura, sem o ranger da doença, mas etérea e fria, ressoando não do corpo inerte no leito, mas através do espelho coberto. Suas súplicas eletrizaram meu corpo, arrepiando meus pelos. Foi o suficiente para que eu sentisse verdade em sua solicitação. Movida por uma força que não era minha, um magnetismo frio que irradiava do vidro, dei passos hesitantes até o espelho. Minhas mãos tremeram quando agarrei a beirada do linho úmido de poeira, obedecendo ao chamado.
Rasguei o tecido com um puxão violento, e o espelho foi revelado em um átimo.
Não vi meu próprio reflexo pálido e aterrorizado. O vidro do espelho havia se transformado em uma espécie de janela ou pintura tão realista quanto. Através dele, a cena era de uma grandiosidade gótica e infernal, de um castelo sombrio, escuro, no alto de uma colina rochosa e pontiaguda. Dei um passo para trás, hesitante, e arfei alto com certo receio e pavor. O céu acima não era o teto de nuvens baixas de St. Canard; em vez disso, manifestava-se na forma de um pesadelo de nuvens revoltas em tons de um vermelho doentio que mais se poderia contemplar o mesmo tom do sangue jorrado de Emily do que se o próprio inferno viesse à terra.
O espelho, por um instante, pareceu vibrar. E antes que eu pudesse recuar, antes que eu pudesse gritar por socorro, uma rachadura surgiu na superfície do vidro. E, através dela, um braço explodiu para fora, estendendo-se até mim em uma velocidade absurda. Uma mão negra, ossuda e com garras longas e afiadas saiu do espelho com a precisão de uma víbora. Agarrou-me pela garganta.
O aperto seco e gelado, como gelo de caveira, demonstrou uma força inacreditável. O ar me fugiu por completo naquele último segundo, e acreditei fielmente que morreria também em seguida. Fui puxada para dentro do espelho sem qualquer delicadeza ou cuidado. Meus olhos viram, antes de fazerem a travessia, o reflexo distorcido da minha face contemplada de horror no vidro rachado. Soube, depois daquilo, que jamais poderia ter volta.
No fim, o vidro estilhaçou-se em uma explosão de neblina escura, engolindo-me para dentro de um mundo além da salvação.
Revisado por Sahra Melihssa
A Dança do Corvo
Sob a bruma de uma Inglaterra vitoriana marcada por mistérios e mortes inexplicáveis, Lucy retorna ao lar pela primeira vez em anos ao saber que sua irmã Emily está morrendo por um doença estranha. Mas na noite em que tudo deveria terminar em silêncio, Lucy presencia a alma de Emily sendo sugada para dentro de um espelho velho e adornado que reflete um mundo sinistro e desconhecido repleto de sombras derivadas de um castelo antigo.
Movida por amor e desespero, Lucy atravessa o espelho e se vê em uma dimensão onde a noite se mostra eterna e um castelo gótico que vigia o mundo com suas paisagens aterradoras. Lá, entre sombras e segredos ancestrais, ela deve confrontar forças que desafiam a vida e a morte antes que a alma de Emily seja perdida para sempre. » Leia todos os capítulos.
Gabriel Cordeiro
Gabriel Cordeiro é autor de terror gótico, romance sobrenatural e dark romance, conhecido por tramas intensas, sensuais e profundamente emocionais. Suas histórias exploram o sobrenatural com personagens marcantes e monstros que podem amar demais. Sua escrita mistura poesia sombria, suspense psicológico e erotismo visceral... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Partitura de Cânfora e Pó: Um Réquiem em Séttimor
A umidade em São Cipriano das Almas não era meramente climática; era uma saliva antiga, uma exsudação da própria história que lambia as paredes…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A umidade em São Cipriano das Almas não era meramente climática; era uma saliva antiga, uma exsudação da própria história que lambia as paredes do sobrado, fazendo brotar mofo sobre o papel de parede inglês adamascado. O luxo europeu descolava-se como pele necrosada após uma febre tropical.
Eulália Valeriana de Alcântara repousava diante da escrivaninha de jacarandá — madeira de lei, escura e densa como a noite brasileira, cujos pés eram garras de leões entalhadas, cravadas no assoalho que gemia sob o peso do silêncio. Lá fora, a tempestade não caía; ela desabava. A chuva açoitava as telhas coloniais com a violência de um castigo bíblico, uma percussão líquida que tentava, em vão, abafar os sinos da matriz. Eles dobravam, roucos e insistentes, anunciando um óbito que Eulália, em sua névoa mental, não conseguia recordar de quem era.
Ela ajustou a gola de renda negra vitoriana que lhe estrangulava o pescoço, engomada até a rigidez de um osso. O luto era sua segunda derme, uma armadura de tafetá e crinolina, embora a razão das lágrimas lhe escapasse. Sentia o vazio fantasmagórico a corroê-la do âmago à pele, uma sensação vertiginosa de que suas vísceras haviam sido substituídas por neblina fria e pó de marfim.
— Escreve o que a morte sussurra — soprou a intuição perturbadora, uma voz que não vibrava no ar, mas arranhava o interior de sua medula.
Sua mão direita, pálida como a cera de um círio pascal, segurava a pena de ganso. O tinteiro de cristal repousava ali, cheio de um líquido espesso, negro como sangue venoso coagulado ou o café forte esquecido na xícara fria. Eulália, a dama respeitável, a psicógrafa que consolava as matronas do Império, a ponte entre os vivos e os tísicos, estava sozinha. Naquela noite, a casa não abrigava clientes, apenas a respiração asmática da madeira dilatando e a presença daquilo que não tem nome, mas tem cheiro: uma mistura adocicada de gardênias passadas e formol.
A mão ganhou vida própria. Não era a caligrafia desenhada, aristocrática, que as freiras lhe impuseram. Eram espasmos, cortes violentos, fissuras de morte e vida rasgando a fibra do papel.
“Aqui o tempo não passa, Eulália... ele apodrece,” a mão grafou, a tinta espirrando como uma artéria rompida.
Ela tentou parar, mas seus dedos eram marionetes de fios invisíveis. O espiritismo, discutido nos salões afrancesados da Corte, era consolo e ciência. Mas ali, isolada na serrania, cercada pela mata atlântica que engolia civilizações, o espiritismo parecia uma autópsia da alma a céu aberto.
“Olhe para o espelho, Valeriana. O véu de Maya rasgou-se.”
No canto do quarto, o grande espelho oval de moldura dourada repousava, coberto por um lençol de linho branco — a mortalha exigida pela superstição, para evitar que a alma do recém-falecido ficasse presa no azougue do reflexo. O medo silencioso subiu por sua garganta, trazendo um sabor metálico de pregos velhos e terra molhada.
Ela ergueu-se. O som de suas anáguas de seda roçando no chão soou como o suspiro coletivo de mil viúvas em procissão.
— Quem profana este luto? — indagou ela à penumbra.
Os candelabros de prata tremeluziram, projetando sombras que se esticavam nas paredes como espectros famintos, dançando uma valsa muda. Ninguém respondeu. Apenas a chuva e o tique-taque de um relógio que parecia contar segundos de uma eternidade errada. Eulália aproximou-se do espelho. Seus dedos, trêmulos, tocaram a trama fria do linho.
Com um puxão brusco, a mortalha caiu, levantando uma poeira que cheirava a séculos trancados.
Eulália preparou-se para o horror. Esperava ver um demônio de chifres, ou talvez a aparição de seu pai com a mandíbula atada.
Mas o horror foi a ausência. O absoluto e terrível nada.
O espelho refletia o quarto com precisão cirúrgica: a cama de dossel com suas cortinas pesadas, a escrivaninha de jacarandá, a chuva chorando na vidraça. Mas não refletia Eulália.
Onde deveria estar seu corpo, seu vestido negro, seu camafeu de ônix, havia apenas uma mancha turva, uma vibração no ar, como o calor tremulando sobre o asfalto ao meio-dia ou a poeira dançando num raio de lua. Um borrão na realidade.
Ela olhou para suas próprias mãos. Elas estavam lá, segurando o tecido. Ela sentia o tato áspero. Mas o espelho, aquele juiz implacável da existência, decretava sua anulação.
— Eu respiro! Eu sinto! — ela gritou, mas o som saiu abafado, rouco, como se ela gritasse de dentro de um caixão de chumbo, sob sete palmos de terra vermelha e barrenta.
Correu de volta para a carta psicografada, tropeçando na própria inexistência. As letras agora brilhavam com uma umidade fresca, pulsante. Ela leu o veredito final que sua própria mão escrevera, ditada por uma memória que retornava para assombrar, cruel e verdadeira.
“Bem-vinda a Séttimor, minha querida. Onde os mortos vivem sem se lembrar de que o coração parou na última terça-feira de cinzas. Os sinos dobram por ti, Eulália. Tu esperas pelo médico que nunca virá, pois ele já assinou teu óbito. Tu és a assombração que temes. Tu és a memória que se recusa a ir embora, a mancha de umidade que a casa não consegue secar.”
Uma tristeza multiforme, pesada como a lápide de mármore carrara, esmagou seu peito. A lembrança rompeu a represa do esquecimento: o gosto de ferro na boca, a febre tifoide, o padre murmurando a extrema-unção em latim, o cheiro enjoativo de cânfora e cera derretida.
Ela não era a médium. Ela era a mensagem.
Olhou para suas mãos novamente. As pontas dos dedos começavam a ficar translúcidas, a cor da pele dissolvendo-se em cinza, fundindo-se com a névoa que invadia pelas frestas da janela podre. Ela estava se apagando, tornando-se natureza fantasmagórica, diluindo-se na atmosfera de Séttimor.
Sentou-se ao piano Pleyel que dormia no canto, um monstro de madeira e cordas que ela não tocava há meses. Seus dedos, agora quase feitos de fumaça, pousaram sobre as teclas de marfim amarelado.
Ela não tocou para os vivos de São Cipriano das Almas. Tocou para si mesma, um Noturno dissonante, tentando segurar a própria existência em cada acorde menor, ancorando sua alma na música antes que o esquecimento final a transformasse apenas em uma corrente de ar frio no corredor daquele velho casarão brasileiro.
E lá fora, a chuva continuava a lavar o mundo, indiferente à mulher que, nota por nota, desaparecia na partitura eterna do silêncio.
Revisado por Sahra Melihssa
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Infinito de Melancolia
Era sexta-feira 13. Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Era sexta-feira 13.
Achei que era apenas superstição este dia ser tão temido, mas aprendi a me arrepender de muitas coisas que vivi, e não ter medo de superstições foi uma delas.
Já não sei mais quanto tempo se passou desde que revisito esses momentos. Já decorei tantos rostos quanto os esqueci. Não sei seus nomes, e talvez devesse ter perguntado no dia em que os vi. Mas agora nada disso importa. Nada mais é importante.
Fico me perguntando o sentido disto. Se deveria me arrepender de algo, pedir desculpas a alguém. Mas nada do que faço funciona. Nada do que tento dá certo. Apenas consigo viver à margem daquele dia, como se nada fora do que vivi realmente existisse de verdade.
Todas as vezes. Todos os dias. Sempre iguais. SEMPRE. SEMPRE!
Acordo exatamente às 6h15. Preparo meu café da manhã: o pão, pálido como a luz desta manhã que se repete. Deveria ter escolhido algo melhor, se soubesse que seria meu último dia. Ovos e presunto. Talvez a pizza fria de ontem. Mas não posso mudar essa escolha. Não agora.
Saio de casa atrasado. Pego o casaco, o guarda-chuva, e caminho pelas mesmas ruas cinzas de sempre. O mesmo emprego tedioso em administração. O mesmo chefe a reclamar de atrasos e erros. Tudo já se repetia, mesmo antes.
Parando para lembrar agora... talvez eu já estivesse morto antes mesmo de morrer.
E então, vou para casa. E, após reviver este dia mais uma vez, sempre penso: o mais terrível nem foi morrer, foi ter de trabalhar o dia inteiro antes do fim. Talvez, se tivesse atravessado a rua no sinal vermelho às 7 da manhã, não estaria repetindo tudo. Não me arrependeria de ter morrido antes de começar a trabalhar. Talvez já estivesse renascendo noutro tempo, ou no céu, ou no inferno.
Não sei qual é o verdadeiro destino para quem morre.
Talvez seja isto: reviver as mesmas coisas, sempre. E eu esteja condenado a repetir este dia. Para sempre.
E depois de tudo, finalmente acontece: eu entro no supermercado que fazia as compras, mas dessa vez, na hora errada. O homem de máscara olha para mim e atira, e o tiro silencioso passa em câmera lenta, até me atingir. Eu não sinto a dor, apenas desabo no chão, arrependido, e acordo novamente, no mesmo dia, para reviver tudo de novo.
Revisado por Sahra Melihssa
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Coelhinha
Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O maior feito de Jesus não foi ressuscitar os mortos, mas a capacidade de ressuscitar os vivos.”
— Padre Fábio de Melo
Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda, depois um longo suspiro, o que causou certo alvoroço dentre os médicos que o acompanhavam. Na segunda semana já havia sido desentubado e começava a se alimentar com comida sólida. E depois de um mês de muita fisioterapia já conseguia ir ao banheiro com suas próprias pernas, mas ainda estava na UTI. Sentia que estava se recuperando bem, mas o que lhe causava certo desconforto era o fato de, mesmo após ter saído do coma, ainda não ter sido visitado pela sua família nem uma única vez. Apenas sua irmã mais nova, vez por outra, colocava a face pela vidraça da sala e lhe acenava de forma bastante afetuosa.
Naquela tarde, dois meses após ter acordado de um coma profundo, sua médica plantonista, Doutora Aline, lhe comunicara que, na manhã seguinte, após uma bateria de exames, dependendo do resultado, ele poderia ser transferido para um quarto comum, e assim poderia receber visitas. Ele ficou bastante eufórico com a notícia. As horas passaram se arrastando naquela noite; mesmo depois de um longo tempo, que mais pareceu uma eternidade, logo as primeiras luzes do dia começaram a iluminar o quarto onde estava, e enfim a manhã chegou. Seus exames atestavam-no para uma progressão para outra ala e, se tudo corresse bem, naquela mesma semana talvez ele até recebesse alta. Assim que foi levado para o quarto, sua irmã o aguardava ansiosa. De alguma forma parecia que ela estava bastante estranha, parecendo mais velha e um pouco mais magra. Fato que ele de forma alguma quisera comentar.
— Bom dia, maninho querido. Como está se sentindo? Que baita susto você nos deu? — disse ela de forma bastante calorosa, mas com certo tremor na voz, como se houvesse algo de errado.
— Bom dia, Marianne! Estou me sentindo um novo homem. Por falar em nós... Onde está todo mundo? Por que Denise não veio me ver todo esse tempo? Onde estão as meninas? Minha mãe está doente? Parece que ninguém tem mais nenhuma consideração por mim.
A médica que o estava acompanhando até o quarto solicitou que, naquele momento, ele descansasse, e que depois tudo lhe seria devidamente esclarecido. Daniel não era o tipo de pessoa dotada de muita paciência e logo quis saber do que se tratava. O porquê de sua família não estar ali visitando-o? Afinal, ele tinha acabado de sair do coma. Apesar de nem ele mesmo se lembrar do motivo de estar internado naquele hospital, muito menos em estado de coma. Doutora Aline, com muita paciência, disse que era melhor que sua irmã, que o havia acompanhado durante todo aquele tempo, lhe deixasse a par de toda a situação.
Assim que Daniel foi devidamente acomodado, sua médica recomendou cautela quanto ao excesso de emoções, mas também disse que já era hora de lhe contar toda a verdade. Disse que retornaria à tarde para verificar sua evolução, mas que por hora o deixaria aos cuidados da irmã. Saiu e fechou a porta do quarto atrás de si, deixando os dois irmãos a sós no quarto. Marianne, quando viu a ansiedade estampada na face do irmão, não conseguiu manter o controle sobre si mesma e logo sua face estava banhada em lágrimas. Daniel de alguma forma compreendeu o que aquelas lágrimas diziam. Com o senso de irmão mais velho que nunca perdera, mesmo com o passar dos anos, abriu os braços e chamou a irmã para junto de si.
Marianne ainda chorou por um longo tempo. Parecia que havia uma enorme carga de tristeza e sofrimento sobre seus ombros. O tipo de pesar que alguém segura o quanto pode, mas quando começa a descarregar parece que não acaba mais. Assim que ela conseguiu recuperar o controle de suas emoções, pediu-lhe que ele permitisse que ela fosse até o banheiro lavar o seu rosto. Após se refazer, ela puxou uma cadeira que estava próxima e, ao sentar-se ao seu lado, rogou-lhe que ele contasse o que se lembrava de antes do acidente.
— Que acidente? — perguntou ele.
Nesse momento percebeu que era mais sério do que ela podia imaginar. E decidiu que deveria contar tudo de uma única vez. Se ele conseguiu sobreviver a um acidente onde mais de 40% dos ossos de seu corpo haviam se esfacelado, certamente ouvir a triste verdade sobre sua nova vida não poderia matá-lo. Afinal, até mesmo sua própria médica havia lhe dado carta branca. Sem mais delongas, Marianne disse-lhe que narraria tudo que era necessário para lhe pôr a par de sua situação, mas que ele deveria lhe prometer que não a interromperia até que ela terminasse de contar tudo o que ocorrera. Assim que ele concordou, ela principiou.
— ...Era feriado de Semana Santa, e como acontecia todos os anos, desde que se casara você sempre viajava para a casa dos pais de sua esposa a fim de passar a Páscoa com a família dela. Você justificava para mamãe que, uma vez que nós, como cristãos, tínhamos o Natal como um dia muito especial e que sempre passávamos juntos. Sendo assim, a família de sua esposa, como era de origem judia, a Páscoa era de suma importância para eles também. Por isso, para manter uma política de paz em seu lar, vocês todos sempre viajavam para a casa deles nessa época do ano. Acontece que naquela fatídica tarde de quinta-feira — véspera de Sexta-feira da Paixão — ninguém esperava que um motorista completamente embriagado estaria testando os limites de velocidade de sua nova pick-up para demonstrar para sua amante — uma bela jovem, ainda na flor da idade, que tinha idade para ser sua neta, a quem ele chamava de doce coelhinha, segundo a mãe dela em testemunho à polícia — o quanto ele tinha a capacidade de desafiar a morte em todos os sentidos possíveis.
Em certa altura da estrada, seu carro se chocara de frente com a pick-up desse inconsequente sujeito, que naquele momento dirigia na contramão a mais de 200 km/h, segundo a perícia. Pedaços do corpo da jovem, que estava com ele na pick-up sem usar o cinto de segurança, foram retirados daquilo que sobrou do seu carro e de um longo trajeto da estrada; o enterro dela teve que ser com caixão lacrado, para desespero de sua mãe. Denise e as crianças tiveram morte instantânea, sem sofrimento algum, segundo os peritos. De forma milagrosa, na hora da batida, você também estava sem cinto e, tal como a jovem “coelhinha”, também fora lançado para fora do carro, mas passando por cima da pick-up e caindo numa plantação de milho ao lado da estrada. O impacto quebrara grande parte dos ossos de seu corpo, mas de uma forma inexplicável você conseguira sobreviver.
Quando o socorro chegou, o homem que dirigia a pick-up já havia se evadido do local sem prestar nenhum tipo de socorro. Ele mesmo, que fora o grande causador daquela inexplicável tragédia, não tivera nenhum ferimento grave, apenas alguns leves arranhões. Os socorristas, que não tardaram a chegar ao local do acidente — acionados por outro motorista que passava pelo local um pouco depois que tudo ocorrera — ali mesmo lhe prestaram os primeiros socorros e logo conseguiram estabilizá-lo, salvando-lhe a vida. É certo que seus ferimentos foram tão graves que o deixaram em estado de coma profundo.
O motorista da pick-up logo fora localizado e preso pela polícia. Mas conseguira, através de pessoas influentes, aguardar o decorrer do processo em liberdade. Seu julgamento aconteceu um ano depois do acidente. Devido aos seus inúmeros contatos com pessoas importantes e pela sua enorme fortuna, fora-lhe aplicada apenas uma pena bastante branda, considerado o tamanho da tragédia que ele causara. Foi condenado a pagar uma fiança revertida em cestas básicas — que, até onde se sabe, nunca foram pagas — e a prestar alguns serviços comunitários relacionados ao trânsito — serviços esses também que jamais foram prestados.
Minha mãe, que já não estava muito bem desde que papai se fora, ao saber da morte de sua estimada nora e de seus adorados netos, além de saber que seu filho estava em estado de coma profundo num hospital, sem saber se algum dia conseguiria se recuperar, assim que viu o motorista da pick-up dirigindo livremente pelas ruas novamente, não suportou tanto descaso por parte das autoridades e, num ataque de desespero, atentou contra a própria vida. Amanhã faz dois anos que mamãe se matou...
Nesse momento Marianne abaixou sua cabeça e iniciou um lamentoso choro novamente. Daniel, que naquele momento estava de pé logo à sua frente, segurou sua face com ambas as mãos e disse-lhe com toda convicção possível:
— Esse tipo de homem se acha acima das leis que eles mesmos criam para serem aplicadas em outros abaixo deles. Contudo, se esquecem de que existem outras Leis que regem as engrenagens desse mundo conhecido por nós e de outro muito além de nosso entendimento. O Universo foi criado em plena perfeição e as Leis que assim o regem são exatas e nunca falham. Durante nossa insignificante passagem por esta terra, o tempo todo estamos adquirindo créditos e dívidas, independentemente de quem somos ou com demasiada soberbia pensamos ser; mais cedo ou mais tarde, teremos que acertar as contas com o Infinito. Certamente minha família e essa infeliz jovem não foram os primeiros a sofrerem esse tipo de atrocidade nas mãos de pessoas como ele, mas saiba você que, por parte dele, ninguém mais sofrerá esse tipo de injustiça. É uma promessa que lhe faço. Esqueça tudo isso e fique despreocupada, pois essa última dívida que ele contraiu, lhe será cobrada muito em breve. O dinheiro que ele acha que tem e sua honrosa posição social conseguiram livrá-lo da justiça, mas não conseguirá de forma alguma protegê-lo de mim. Tem quanto tempo que isso aconteceu, Marianne? Desde quando estou aqui nesse hospital?
— Três anos exatos. Afinal, domingo próximo é Páscoa novamente — disse ela.
Daniel ficou em absoluto silêncio e nada mais quis saber além do nome do homem que causara a destruição de toda a sua família. Abraçou sua irmã uma vez mais e logo pediu a ela que saísse, pois precisava descansar. Marianne, sentindo-se mais aliviada por ter conseguido contar ao irmão tudo o que lhe ocorrera, dirigiu-se para sua casa com o senso de dever cumprido. A pedido de seu irmão, lhe repassara tudo que ela sabia sobre o homem que causara aquele terrível acidente: quem ele era; onde vivia; e o que fazia da vida — ou seja, nada. Pois era um homem bastante rico, que nunca trabalhara, uma vez que sua enorme riqueza era proveniente de heranças que havia recebido tanto por parte de pai bem como por parte da mãe. Era o tipo de pessoa que se achava acima de tudo e de todos, imaginando que, com o dinheiro que possuía, poderia comprar qualquer coisa, até mesmo a dignidade de alguns e o silêncio de outros.
Na manhã seguinte — Sexta-feira da Paixão — Marianne soube que seu irmão havia se evadido de seu quarto e que, na fuga, havia levado consigo o carro de um dos médicos do hospital. Um veículo esportivo, bastante rápido e muito potente. A polícia estava em seu encalço desde então, mas ainda sem saber de seu paradeiro, tanto por ser ele um paciente ainda em tratamento, bem como pelo roubo do veículo de luxo.
Na manhã de domingo, o que sobrara de um veículo bastante caro fora encontrado caído numa ribanceira, com partes de um corpo presas no para-choque dianteiro. Os pés da vítima pareciam que haviam sido consumidos pela constante abrasão no asfalto; segundo a perícia, o corpo havia sido arrastado pelo asfalto em altíssima velocidade. Havia um leve rastro de sangue, carne e ossos por um raio de quase três quilômetros até o local onde o carro fora encontrado. Não havia sinais de quem havia dirigido o veículo. No banco do motorista havia apenas um inocente coelho de pelúcia amarrado ao volante, com um bilhete escrito: Feliz Páscoa...
Revisado por Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Delírio Febril
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro?…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Enquanto guardo minha obsessão em meu íntimo, um pensamento sorrateiro surgiu, causando-me calafrios: será que mais alguém achou o temível livro? Abro a porta, olho em volta e, aparentemente, não há ninguém. Perambulando, encontro um dos muitos corredores existentes; conforme atravesso, lembro do encontro interessantíssimo que tive com o professor Monm, uma figura distinta. Dificilmente esqueceria o brilho em seus olhos, pois ele é semelhante ao meu... gostaria muito de ser uma de suas alunas, tenho certeza de que seu conhecimento seria de valor inestimável para mim. Espero que o Castelo proporcione nosso reencontro.
Ao final do corredor, encontro o grandioso salão, palco de uma noite memorável. Foi exatamente aqui onde ocorreu o primeiro baile de máscaras. As lembranças que pareciam estar adormecidas despertam com mais intensidade. Imediatamente, vislumbrei o vazio se materializar através de memórias fantasmagóricas.
Com clareza, vi o lugar sendo ocupado por mulheres e homens em trajes de gala, ostentando suas exuberantes máscaras. Reverberava em meu ouvido as funestas notas da peça Toccata and Fugue (música tocada pelo quarteto naquela ocasião). Contemplo os vultos em longos vestidos rodopiando em tonalidades diferentes, sem contar aquele vertiginoso encontro com aquela criatura lúgubre de olhos azuis, tão enigmáticos quanto a vastidão do universo.
Defronte para o silêncio, sussurro seu nome com a delicadeza de quem assopra a chama de uma vela: “Nickollas”. Meus caninos sobressaltam; não consegui disfarçar o desejo sombrio. Fito a janela onde ele me levou naquela noite para observar a túrgida lua — lembro de como a veia em seu pulso resplandecia à penumbra do luar e do excitante som ao rasgá-lo.
Mas algo me trouxe à tona: um brilho arcano de tonalidade magenta surgia pelos arredores do Castelo. Conforme ia se aproximando, clareava o recinto. O que será isto? Assustada, vou até a janela e a atravesso. O frescor da brisa toca minha tez ávida (não lembro a última vez que saí do Castelo).
Era impressionante a dimensão da névoa. Via-se pouquíssimo do firmamento, assim como a vasta e verdejante vegetação composta por exuberantes carvalhos com suas belas folhas, altas faias, baixos arbustos e, pelo chão, gramíneas cresciam desenfreadamente. Avisto uma esguia trilha que se estendia mata adentro; decido segui-la.
Nos primeiros passos, um frescor inexplicável invade meus pulmões, como se ali tivesse caído uma forte chuva. Tive a nítida sensação de que a vegetação se movia, como se estivesse respirando. Abaixo e inspiro aquele cheiro melancólico; então, enterro meus dedos sob aquele solo úmido, deixo escapar um gemido inaudível, acompanhado de intenso salivar. Retiro-os ainda úmidos (isso foi intenso) e sigo em frente.
A bruma que outrora era magenta adquiriu tons em escarlate e também ficou mais densa. Após muito caminhar, tenho um vislumbre espetacular: perante a mim, erguia-se um arco esculpido em mármore branco, de altura considerável. Os galhos das faias abraçaram aquela estrutura com afinco.
Estava perplexa com este lugar. Será que acessei outra realidade? Um brilho longínquo surgia dentro da mata. Munida de curiosidade e excitação, atravesso e, mais alguns passos à frente, encontro uma ampla piscina. Parece ser profunda, sua borda feita do mesmo material do arco. As águas eram serenas e sombrias, de mesmo tom da névoa, porém a cor escarlate era predominante.
Um incontrolável desejo de mergulhar se apoderou de mim. Estava prestes a realizar tal ato quando ouço passos em meio à névoa. Sem dúvidas, uma visão espantosa, semelhante a uma aparição fantasmagórica, movia-se com espantosa graça. Parou em frente à borda; então, tive um vislumbre estupendo.
Uma figura feminina, de altura média, sua pele lívida, semelhante a uma boneca de porcelana, dona de uma beleza arrebatadora. Seus olhos eram um excitante enigma o qual adoraria desvendar. As sobrancelhas eram arqueadas, o nariz afilado, emoldurando aquele rosto, longos cabelos negros com duas mechas brancas, chegando na altura dos quadris.
Usava um vestido translúcido; havia rendas francesas tanto na barra como no provocativo decote, ressaltando ainda mais os esplendorosos e firmes seios. Caminhava naquela névoa, tal qual uma bailarina.
Mesmo sem saber a natureza daquela aparição, anseio ardentemente possuí-la. Assisto-a andar pela borda com muita destreza. Em certo momento, ela mergulha a ponta do seu pé direito na água, espalhando gotículas vermelhas no ar, maculando o vestido, assim como a borda. Vi nascer de seus lábios um sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa.
É impressionante o poder que ela exerce sobre mim. Seus gestos suaves afloram meu lado selvagem, atiçando uma luxúria quase obscena. Um desejo ancestral floresce do meu âmago; nunca pensei que fosse sentir tais sentimentos.
Desenvolvo uma certa obsessão, beirando ao voyeurismo. É excitante pensar na possibilidade dela estar me vendo... Depois de andar, ela senta com elegância e toca suavemente as águas com os dedos indicador e médio em movimentos circulares, criando calmas ondas. Hipnotizada, contemplo seu reflexo distorcido; então, escuto um sussurro vindo da criatura:
— Me chamo Olívian d’Nehr — finalmente pude ouvi-la. Sua voz era doce e irresistível, como o licor das maçãs sangrentas.
O movimento circular se intensificou, deixando a água cada vez mais agitada. Aquele som fez meu corpo contorcer em espasmos libidinosos. Das minhas entranhas escapam gemidos, até que os movimentos cessam (mas as águas permaneceram inquietas, assim como meu âmago). Em seguida, fitou-me e sorriu, enquanto meu colo pulsava em descompasso. Das águas, ergueu os dedos e me chamou silenciosamente; assim o fiz, caminhei ao seu encontro, sem questionar.
Olívian estava de pé, parada. Seus cabelos bailavam com muita leveza ao som dos ventos. Então, fechou os olhos e despiu-se. Fui acometida por um estado febril intenso; abracei a volúpia com fervor. Neste momento, éramos como Adão e Eva na imensidão do Éden e estávamos prestes a morder o fruto proibido. Gostaria de ter pincéis, tintas e um quadro para eternizá-la; seria uma pintura digna de filas quilométricas, sua beleza era assustadora.
Me despi com uma certa rapidez. Vi seus olhos castanhos escuros brilharem diante do meu corpo nu. Finalmente, estou face a face. Sua respiração tranquila, porém quente, toca meu rosto. Ela tinha as mesmas expressões da pintura “Deusa Vênus” feita pelo talentoso pintor italiano, Sandro Botticelli.
— É um prazer inefável conhecê-la, Olívian — as palavras foram silenciadas pelo desejo. Meneou a cabeça cordialmente, seguido do sorriso enigmático. Ouço novamente mais um sussurro: — Acompanhe-me.
Caminhamos por algum tempo até que avistamos uma frondosa árvore a qual me era familiar. Reconheceria aqueles frutos até de olhos vendados. Daquela árvore vinham as afrodisíacas maçãs sangrentas. Olívian pegou uma das inúmeras maçãs, olhou ardentemente em meus olhos e mordeu com avidez, espalhando pelo ar gotículas. A espessa seiva também serpenteou por entre dedos, mãos, queixo, pescoço, passando por entre o colo, cessando em suas pernas.
Ela me oferece a maçã; mordo com vontade, sinto novamente aquele gosto sombrio, porém inesquecível. Deixo a maçã escapar de minhas mãos. Banhadas pela bruma e pelo tênue luar, nossos corpos ardentes se entrelaçam, tornando-se um só. Sob o úmido chão, me entrego ao oceano de prazeres e libertinagem inimagináveis.
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Balthazar Crown – O Chamado do Castelo
A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A pena deslizou pelo papel como uma adaga na carne. Cada frase, um corte. Cada palavra, um espasmo de dor. No último ponto, a personagem se extinguiu — abandonada em um fim de agonia, sem consolo, sem salvação.
Balthazar repousou a pena. O silêncio que se seguiu era denso, como se o próprio ar lamentasse. Então veio a recompensa: um calor súbito percorreu suas veias, reacendendo-lhe a vitalidade; a pele pálida brilhou com frescor juvenil; os músculos se retesaram com a firmeza de quem jamais conheceu decadência.
E então vinha o deleite. Não simples vigor, mas um arrebatamento febril, comparável ao êxtase da carne. Cada fibra de seu corpo vibrava como se mãos invisíveis o percorressem. O calor que lhe incendiava o peito não era apenas vida — era gozo, puro e incontido.
A imortalidade lhe trouxera a dádiva de provar todos os sabores da carne e, ao mesmo tempo, o fardo de que nenhum sabor permanecia por muito tempo. Mulheres, homens, corpos cis e trans, ativa ou passivamente — a eternidade lhe dera palco para todas as formas de prazer.
E, ainda assim, o tédio era sua sombra inseparável. Até o êxtase, quando repetido, tornava-se um abismo de monotonia. Talvez fosse por isso que a dor de seus personagens o excitasse tanto: era a única novidade capaz de incendiar-lhe a alma já cansada.
Ergueu-se da cadeira, esguio, elegante, com o porte ereto de um príncipe amaldiçoado. Atravessou o aposento até uma mesa lateral, onde repousava uma taça de cristal. Serviu-se de vinho vermelho-escuro, tão denso que lembrava sangue coagulado.
Elevou a taça na penumbra e brindou com a ausência invisível. — Mais um, minha silenciosa companheira. Mais um que se extingue para que eu continue. Tu não me tomas, mas jamais me deixas. Brindemos, pois, à eternidade que me cobra sempre em sofrimento alheio.
O cristal soou no vazio, e nenhum eco respondeu.
Foi então que o ar se quebrou. Não em som, mas em essência. O vinho tremeu dentro da taça, as velas se curvaram todas em uníssono, e um frio atroz se ergueu das pedras do chão, escalando-lhe os ossos como serpentes geladas.
Balthazar não piscou. Observava. Notou que as chamas não vacilavam ao acaso, mas oscilavam num mesmo compasso. Notou que o frio vinha em pulsos, intervalados como batidas de coração. Notou, sobretudo, que não estava só.
Uma presença sutil, quase imperceptível, pairava no ar. Algo invisível o estudava, respirava junto às suas palavras, como se o chamasse para atravessar os limites do aposento. O ar pulsava, pesado, e o frio que subia pelos ossos parecia guiar seus passos para um destino além da realidade conhecida.
A sombra diante dele não possuía forma fixa. Oscilava, dobrava-se, esticava-se. Em certos instantes lembrava um véu flutuando; em outros, curvas insinuantes, bocas que suspiravam, rostos deformados — talvez ecos das vítimas que enterrara em suas narrativas. O aposento inteiro cheirava a livros úmidos e a perfume noturno, como se cada palavra escrita por suas mãos tivesse se dissolvido no ar para compor aquele espectro.
Um homem comum teria recuado, mas Balthazar sorriu. — Ah… então és tu quem me observa quando escrevo.
Os olhos treinados dele conseguiram captar um espectro. Era parecido com as manifestações espectrais de seus personagens, que surgiam diante de si após escrever seus finais trágicos e dolorosos. Mas tinha algo a mais. Uma atração quase irresistível. Era como se a pena que repousava em seu bolso o puxasse na direção dela, como se o próprio ar o acariciasse.
Um passo na direção da presença e o chão dissolveu-se. As paredes tombaram como cortinas rasgadas. E ele caiu — não em queda, mas em transição. Quando abriu os olhos, o mundo era outro.
À sua frente erguia-se uma fortaleza impossível, construída à beira de um penhasco sem fim. Suas torres góticas se retorciam em direção ao céu, mas o céu era um vazio sem estrelas, um firmamento oco que não conhecia sol nem lua. As muralhas respiravam em silêncio, como se cada pedra fosse parte de um corpo vivo.
E os jardins… Infinitos. Labirintos de flores negras e árvores que se curvavam em ângulos proibidos, multiplicando-se como reflexos em espelhos partidos. As estátuas, espalhadas em meio à vegetação, fitavam-no com olhos que se moviam quando não eram vistos. Algumas possuíam corpos nus entrelaçados, contorcidos em êxtase petrificado. Pétalas úmidas brilhavam como se estivessem molhadas de lágrimas — ou de suor.
Balthazar caminhou até a beira do abismo. O vento inexistente não lhe tocava o sobretudo, mas ainda assim ele se abriu, como asas prontas a alçar voo. Seus olhos azul-acinzentados refletiam o nada infinito.
Ergueu a taça de vinho que ainda segurava. O líquido permanecia intacto, como se tivesse atravessado os mundos com ele.
— Eis teu palco, morte. — Ele sorriu com cinismo. — Ainda não ousas tocar-me, mas ainda assim me segues. Que teatro sem tempo é este, que aguarda pela minha pena?
O silêncio respondeu, profundo, eterno.
Mas então, outra voz se ergueu — não vinda do vento, mas da própria essência do abismo. Era doce e terrível, como sinos fúnebres ao longe, e carregava um perfume que lembrava tanto o velório quanto o leito.
— Chamam-no de Castelo do Drácula. — A figura surgiu diante dele, moldada em beleza impossível. Seus cabelos eram véus de treva, sua pele, mármore iluminado por uma luz sem fonte, e seus olhos, dois poços nos quais todos os séculos afundavam. — Um lugar fora do tempo, fora do espaço. Se chegou até aqui, é porque já o aguardavam. Mas não cabe a mim lhe explicar mais.
Balthazar sorriu com ironia suave, erguendo a taça na direção dela.
— E por que não vens comigo? Foste minha única companheira verdadeira por todas essas décadas.
Os lábios da Morte se curvaram, entre riso e desdém.
— Seria deveras interessante, Balthazar. Mas não fui convidada. Você sim. O que começa aqui, no receptáculo que se alimenta das tuas palavras, é apenas o primeiro capítulo.
O vento inexistente silvou como gargalhada. A Morte sorriu pela última vez — gesto que era tanto consolo quanto sentença — e então se desfez no ar, como névoa tragada pelo próprio vazio. Nenhum passo, nenhum som: apenas deixou de estar, tão abrupta quanto surgira.
Balthazar, sozinho outra vez, voltou-se para os portões colossais do Castelo. O vinho ainda repousava intacto em sua taça, e seu reflexo nas paredes vivas parecia observá-lo com expectativa. Ele respirou fundo, bebeu o líquido em um gole só, e uma centelha de júbilo percorreu-lhe o olhar.
— Está certo, então. A eternidade já estava ficando entediante. Aqui inicio um novo capítulo na minha história.
E caminhou, sem pressa, como quem escreve as próprias páginas com o simples peso de seus passos, sem saber ainda todos os segredos que aguardavam por ele no coração do Castelo Drácula.
Hel J. L. Costa
Hel J. L. Costa é escritor, poeta e editor da Editora Helden. Sétimo filho, nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1985, encontrou na escrita uma vocação desde a adolescência. Dedica-se a obras de fantasia, terror e temas sobrenaturais. Participa de diversas antologias e é autor do romance A Donzela e o Vampiro, disponível na Amazon. » leia mais...
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26. Diário da irmã da Ordem III
A voz sempre esteve lá, não como um grito, nem como uma ordem, mas como um sussurro paciente no fundo da minha cabeça, sugerindo e esperando…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Data: 5 de outubro de 1374
A voz sempre esteve lá, não como um grito, nem como uma ordem, mas como um sussurro paciente no fundo da minha cabeça, sugerindo e esperando sua vontade ser feita. Quando eu era mais jovem, acreditava que todos ouviam algo assim, que todos sentiam um vazio que precisavam preencher de qualquer forma, mas percebi que o que para os outros não passava de um pensamento momentâneo, para mim era uma vontade constante que precisava ser saciada. Irmã Teodora percebeu, ela sempre percebe tudo com aqueles seus olhos argutos; desde que entrei para a Ordem, ela me observa, medindo cada ação minha. Minha última missão, um tanto chamativa, só confirmou o que ela já desconfiava, e quando chegou à conclusão, não demonstrou medo ou repulsa, apenas veio até mim e me falou das regras.
“As leis da Ordem são a lógica em sua forma mais pura”, ela disse calma. “Elas existem para orientar aqueles que precisam de orientação”. Então ela criou um código, diretrizes adaptadas dentro das leis da Ordem, limites que eu deveria respeitar para uma boa convivência dentro da abadia e fora dela. Não era por moralidade que ela fazia isso, mas por necessidade de me fazer escolher entre um impulso sem propósito e um propósito que serviria a algo muito maior. Se eu fizer a vontade da voz, seguindo as regras obviamente, a voz se acalma, não desaparece, ela sempre está lá, mas fica satisfeita. Sei que irmã Teodora confia em mim para segui-las, sei também que se eu quebrá-las, ela será a primeira a me punir e com razão. Ainda tenho dúvidas se é pelo propósito que continuo aqui ou se pela facilidade de matar sem ser punida; talvez seja por isso que ela continua a me observar.
Data: 15 de outubro de 1374
Hoje fui acompanhar os moribundos, tarefa da Ordem que acho tediosa. Irmã Teodora me levou até um quarto onde jazia a irmã Anatólia; seu corpo estava definhando e sua mente se agarrava à vida, ela não queria partir. “Não podemos impedir a morte, mas podemos torná-la suportável”, disse irmã Teodora. Sentei ao lado da irmã Anatólia e segurei sua mão; sua pele era fina ao toque e seu pulso estava fraco. “Ouça-a”, irmã Teodora ordenou e saiu do quarto, nos deixando a sós. Passei horas ali; ela me contou sobre missões antigas, arrependimentos, desejos que não se realizaram e então, finalmente, ela fechou os olhos e aceitou a morte. Saí do quarto e a irmã Teodora estava à minha espera. “A morte para alguns deve vir como uma amiga e não como uma vingadora e nós somos quem a apresenta”, ela disse. Ainda não entendi muito bem que lição ela está querendo que eu aprenda, mas já entendi que é uma punição.
Data: 29 de outubro de 1374
Nem toda morte é sagrada como a da irmã Anatólia; algumas são roubadas ou profanadas. Aprendi que há criaturas que desonram esse ciclo: os necromantes, ladrões de almas, parasitas do além e tantas outras criaturas que não aceitam o fim e tentam se agarrar à vida de maneiras profanas, e a tarefa da Ordem é destruí-los. Hoje enfrentei um profanado; havia nele um parasita do além que se recusava a sair, usava dele para se alimentar dos vivos. Eu aprendi a matar sem causar sofrimento, mas também aprendi a prolongar o sofrimento se fosse necessário. Então o torturei até que ele saísse do profanado e eu pudesse destruí-lo. Ele se foi, mas o que restou estava um trapo e não merecia piedade; o matei sem hesitar, algo nele implorava por descanso. Ou algo em mim implorava para que ele fosse morto.
Data: 3 de novembro de 1374
Hoje fomos levadas a uma casa onde havia um homem que estava agonizando há dias devido a uma maldição. Sua família havia nos implorado que fizéssemos algo. Irmã Teodora se ajoelhou ao lado dele e perguntou baixo: “Você quer ajuda para atravessar?” O homem, com os lábios secos e os olhos assustados, confirmou com a cabeça. Seu peito subia e descia em pequenos espasmos. Ele tinha medo, e isso ainda o segurava à vida. Irmã Teodora olhou para mim para que eu tomasse seu lugar, então me ajoelhei ao lado dele e repeti as palavras que aprendi: “A morte não é sua inimiga, ela vem para levá-lo ao descanso.” Irmã Teodora olhou para mim. “Faça o que é necessário.” Então dei a ela a bebida que o livrou da dor da maldição e também do fardo da vida e com isso o medo se foi.
Data: 11 de novembro de 1374
Fui enviada para capturar um homem que vendia sangue de vampiro para feiticeiros. Um traidor do ciclo natural. Ele fugiu para as florestas, mas a Ordem é paciente e eu sou paciente. Passamos três noites esperando, observando cada movimento. E quando ele sentiu que estava seguro, cheguei silenciosa enquanto dormia. “Eu sei quem você é”, ele sussurrou, acordando antes que eu o tocasse. “Vocês não são salvadoras, são carrascos.” A lâmina atravessou sua clavícula antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Eu deveria levá-lo vivo, mas naquela noite a voz precisava ser saciada. Seu corpo não merecia ritos; deixei o fogo levar o que restava dele enquanto eu observava. A Ordem nos ensina que os indignos não devem deixar rastros e eu o considerava indigno.
Data: 13 de novembro de 1374
Os vivos e os mortos correm de nós, isso é um fato. Fui enviada para outra missão: convencer um espírito que ele deveria ir. Uma criança morta há algumas semanas em um incêndio, que ainda brincava em um quarto que não existia mais. Irmã Teodora pediu para que eu lidasse com isso, mesmo que ela não dissesse nada, eu entendia aquela missão como uma punição. Me sentei ao lado da criança naquela casa invisível e por horas brinquei com ela até que perdesse o medo de mim. “Você não precisa ficar aqui”, sussurrei para ela. Ela me olhou com aqueles olhos negros e vazios. “Eu não posso ir, tenho que esperar mamãe”, disse ela. “Sua mãe está te esperando no lugar para onde você deve ir”, eu disse. Ela chorou: “Mamãe está morta?” perguntou. Confirmei com a cabeça sem ter certeza se isso era uma verdade. Então ela sumiu. A Ordem nos ensina que devemos libertar as almas, mas nunca nos dizem ao certo para onde elas vão.
Data: 19 de novembro de 1374
A Ordem julga em silêncio, mata em silêncio, mas às vezes também mata diante de todos. Hoje uma mulher que usava cadáveres para rituais proibidos foi trazida diante de nós e depois foi levada a uma praça pública a quilômetros da abadia, para que fosse um exemplo. Estava amarrada, sangrando e sem arrependimentos nos olhos. A praça estava cheia e muitos olhos curiosos observavam. “Ela perturbou o ciclo, ela roubou os mortos de seu descanso”, disse irmã Teodora. “Seu castigo será dado por aquela que está pronta para servir a Ordem.” Então ela olhou para Isolda e os olhares das outras irmãs foram em sua direção. A morte dessa mulher seria a aceitação final de Isolda, uma aceitação que talvez eu nunca chegasse a conseguir. Isolda parou diante da mulher e ela sorriu de modo desafiador. “Eu só roubei corpos, vocês roubam almas”, ela gritou. A lâmina de Isolda atravessou sua garganta, o sangue escorreu e a multidão ficou em silêncio. Isolda foi aceita, mas em que exatamente ela se tornou?
Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.
Valesca Afrodite
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
As gavetas dos últimos dias
São Paulo, terra da garoa e dos mortos. A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
São Paulo, terra da garoa e dos mortos.
A violência é intensa, isso não podemos negar, e com isso a vida desacontece a todo momento. Aprendemos a lidar com a morte, ela é nossa fiel escudeira, única acompanhante nos becos, nas estações vazias e viadutos abandonados.
E nunca se sabe quando o encontro fatídico ocorrerá, e ele ocorre para a maioria da população mais cedo do que se pode esperar.
Com o acúmulo de corpos sem vidas, uma Companhia percebeu a demanda e fez uma oferta irrecusável. Uma vez que os cemitérios tradicionais já não comportavam o volume de corpos, surgiu a brilhante ideia: e se eles fossem condicionados verticalmente, tal qual o Japão que adaptou suas lavouras às condições e criou robustos sistemas de hortas verticais. Prédios vazios e sem uso comercial foram transformados em criptas, onde o céu era o limite. E como havia espaço até que as bordas dos edifícios tocassem a beira do firmamento.
Os edifícios eram arrematados em leilões. Empresas que declaravam falência eram as principais ex-proprietárias. Estavam, em sua maioria, em ótimo estado, alguns precisavam ter a energia elétrica religada, pois estavam há meses sem pagamento, mas nada que onerasse a Empresa da morte. O fim da vida tornara-se algo lucrativo e tinham certeza de que logo recuperariam o valor investido, o lucro viria.
Os elevadores eram enormes, como bunkers reforçados de aço, robustos e impenetráveis. Após os possíveis ajustes, cada andar era remobiliado: saíam as baias que antes abrigavam os humanos sobreviventes de suas rotinas miseráveis; entravam as gavetas onde eram condicionados os corpos, agora, sem vida.
A visão daquelas caixas perfeitamente encaixadas causava satisfação para quem observava, tudo era limpo e quieto, o SPA após a vida. Quem visitava esses decorados ficava encantado com a disposição impecável, de certo, esse era o descanso merecido.
Renan era o corretor mais bem-sucedido daquela Companhia. Seus argumentos e simpatia comedida sempre eram convertidos em vendas, mesmo quem não queria, pois dizia não ser “bom agouro comprar o lugarzinho ali”, acabava sendo seduzido por suas dóceis palavras. Se buscar o conforto próprio não era o suficiente, ele apelava para o dos entes queridos, e a esse discurso ninguém ousava olvidar.
Naquele dia tinha agendado uma visita para as 14h, e como de costume chegou mais cedo ao local. Cumprimentou Olivia, a recepcionista com quem tinha uma amizade discreta, e entrou no elevador.
As teclas, numeradas de 1 a 16, o perscrutavam, esperando o momento em que uma delas seria tocada, e após uma espera de milésimos de segundos, a 13ª saiu vencedora.
1, 2, 3...
Quando a gaveta de ferro iniciou a subida, bateu as mãos nos bolsos: “Putz, esqueci o celular”. Apertou o 0, mas o elevador seguiu fielmente sua missão e continuou a subida até o andar selecionado.
4, 5, 6...
Obedecendo a pensamentos intrusivos, apertou a tecla 8, mas o elevador ignorou seu pedido e continuou seguindo cegamente a programação. “Como sou burro, ele respeita a ordem de seleção, agora vai demorar mais ainda para descer, mais uma parada inútil.”
Tentou calar a voz da ansiedade. A caixa de metal finalmente chegou ao 13º andar. Parou. Era esperado as portas demorarem 3 segundos para abrir, sim, ele tinha contado durante algumas crises de ansiedade. O medo de um dia ficar preso dentro daquilo era vencido pelo sedentarismo, subir 13 lances de escadas não iria rolar, mas agora se arrependia da tola decisão. Dez segundos passaram, as portas insistiram em permanecerem cerradas. Pressionou outra tecla, aquela com ícone de telefone para caso de emergência, alguém atenderia e diria que estava tudo bem, seria resgatado. Mas não ouviu voz humana, aliás, não conseguiu distinguir o barulho, parecia uma geladeira que grita do nada na madrugada. Sentia a respiração descompassada, dançando uma música sem ritmo e sem nexo.
“Que droga, respira, 1, 2, 3... Como a Carla ensinou”. Carla era a terapeuta, partes de suas manias e fobias foram amenizadas com as sessões, mas nada o havia de fato preparado para aquilo. O elevador desceu de forma violenta, como se 1, 2, 3 fosse um comando de voz, luzes piscando como uma discoteca infernal.
Parou bruscamente, pareceu ter atingido os limites do solo. Com a freada, Renan caiu de joelhos, que ardiam com o impacto brutal. “Que merda foi essa?”.
As luzes estabilizaram e o coração insistia em sair pela boca, mas ele o engoliu e o forçava a bombear sangue, mesmo irrigando partes que não deveriam, molhado demais. “Pera, eu mijei?”.
Conseguiu levantar-se após empregar força sobre-humana em seus joelhos, as pernas ainda tremiam, mas era de medo.
Apertou novamente o botão que o salvaria, mas nada, outros ruídos surgiram.
Deslizou derrotado na parede em frente à porta, aquela situação era demasiadamente difícil para ele. Olhou para cima, buscando um deus no céu de aço, e encontrou o painel, que indicava o número dos andares, piscando em alto e bom neônio vermelho: -10.
Pensou e riu consigo mesmo que havia chegado a um ciclo, até então, desconhecido do inferno.
Enquanto lamentava sua situação, algo lá fora arranhava a porta e forçava entrada. “Era melhor ter morrido esmagado”.
O teto, obediente à sentença proferida pelo miserável, desceu rápido e implacável. Metal contra carne. Não houve grito, somente os estalos dos ossos cedendo e esmigalhando, fundindo elevador e homem em uma massa disforme única.
Não era o jazigo que havia comprado, mas era o único e último que teria.
Michelle S. Nascimento
Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A última penitência
Já estava acostumado a descer aquela escada de pedra. Tão saturado, que já não percebia mais o cheiro úmido e o fedor de bolor invadindo suas narinas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já estava acostumado a descer aquela escada de pedra. Tão saturado, que já não percebia mais o cheiro úmido e o fedor de bolor invadindo suas narinas como na primeira vez. Mas ainda sentia o toque molhado das paredes, ao apoiar a mão para não cair. A cada descida, parecia mais velho, como se os degraus roubassem um pouco de sua vitalidade. Aquela escada, escondida atrás do altar, conectava a majestosa nave da igreja à cripta silenciosa no subsolo.
Com os anos, a tarefa tornara-se cada vez mais árdua: seus ossos doíam, e as pedras soltas rangiam sob seus pés como se respondessem ao lamento de suas articulações. O musgo, que crescia livremente pelas paredes e degraus, transformava o caminho em uma armadilha traiçoeira. Mais cedo ou mais tarde, seria ele a habitar aquela cripta.
— Causa da morte? Escorregou nas escadas e bateu a cabeça — resmungou, enquanto descia vagarosamente.
O que tanto ocupava o coroinha, que nunca atendia sua ordem de limpar os degraus? Seria ele o único a respeitar os mortos? O único que se lembrava das almas abandonadas?
— Santo Deus, tende misericórdia deste vosso pobre servo... — murmurou, enquanto os ecos de sua voz se misturavam ao silêncio da cripta. — Talvez eu seja mesmo o único a me importar. Um padre enrugado no fim da vida, que insiste em descer até aqui para orar e acender velas por estas almas esquecidas.
Quando tocou o chão com a ponta dos pés, pareceu que iria cair. A fraca luz da lamparina bruxuleava contra as paredes, sob o efeito de seus braços trêmulos. Eles fraquejavam com o peso dos anos. A luz dançava e iluminava diferentes partes dos esquifes que ali se encontravam. Sem problemas: mortos não enxergam. Portanto, não precisam de luz.
Colocou a lamparina ao lado de um deles. Ajeitou os cabelos, levando-os para trás das orelhas. Retirou a vela do bolso, acendeu o pavio, ajoelhou-se e começou a orar. Tudo ocorria como sempre, de forma mecânica. A mesma sequência de preces; em seguida, cerrava o missal e voltava para a vida lá em cima, não sem antes permanecer mais algum tempo lá, numa tarefa que exigia sua atenção, conforme explicava ao coroinha, sempre que se atrasava.
— Eu oro pelo dever. Nenhuma ovelha deve ser deixada para trás. Até mesmo aqueles que morreram merecem socorro e uma chance de penitência. E eu dou atenção a eles…
Mas, de alguma maneira, se perdia em seus pensamentos: após sua morte, quem faria isso por ele? Provável que prestassem grandes homenagens no seu velório. Mas quem viria até ali? Após ser depositado ali mesmo, quem se lembraria de descer e acender uma vela por ele?
Pensava sobre se o que fizera até ali, fora certo. Achava que na maior parte de sua longa vida, sim. O resto, aquilo que não ousava nem falar para si, deixava quieto e apodrecendo, soterrado por anos de camadas e mais camadas de beatices e ritos sagrados.
Na sua soberba, que nem ele ousava revelar para si mesmo, achava-se superior aos outros: o mais digno de ingressar no céu daquela paróquia. Após anos de servidão, Deus havia de o perdoar sem pestanejar.
Foi quando fez menção de fechar o missal que o notou. Molhou os lábios e engatou mais um pai nosso, depois mais uma ave-maria, enquanto tentava captar com a visão periférica quem tinha ido até ali procurá-lo.
O vulto estava de pé. Tinha a impressão de que era da mesma altura que ele. As costas eram menos encurvadas. Ouvia apenas o som de goteiras, marcando a passagem do tempo, feito um relógio descompassado.
— Não se entrará no céu com meia dúzia de rezas.
O velho padre assustou-se. Aquela voz ecoando no vazio de sua alma. Suas mãos começaram a suar. Empertigou-se. Dançou com os joelhos cansados e doloridos sobre o chão de pedra, procurando uma penitência tolerável. Fez os joelhos e os quadris chacoalharem em conjunto. Isso lhe conferia uma aparência fraca e patética.
— Dançar sobre os joelhos também não adiantará… O passado é imutável.
— É por isso que ele deve ser deixado onde está. Vá embora!
— Eu não teria tanta certeza… — O homem retrucou. — Nele, não se muda nada, mas é dele que nasce o futuro.
Quem quer que fosse, estava tentando intimidá-lo. Reparou que, após terminar de falar, o homem molhou os lábios. A luz iluminava apenas a metade de baixo de seu rosto, o qual achou familiar. Tinha a impressão de que já o conhecia. Quando ia perguntar se a arquidiocese havia mandado alguém para visitá-lo, o homem continuou:
— O passado molda o futuro. Hoje, Katia e Helena foram separadas.
— Não conheço Katia, nem Helena. Vá embora, estou ocupado! Logo atendo o senhor lá em cima.
— Teria conhecido! — O homem interrompeu o padre rudemente. — Mas negou abrigo para ambas, na época das chuvas. Perderam a casa para a enchente. Uma delas morreu.
— Não pode me julgar, o senhor não é Deus!
— Será mesmo que não sou? Mas garanto que o Maurício pode julgar.
— Não quero saber desse Maurício.
— É o mendigo que você expulsou ontem. Suicidou-se. Achou que não era digno, nem na casa de Deus.
— Eu não sou responsável por isso.
— Tudo isso sem mencionar sobre você e o coroinha, bem aqui. Santo Deus!
— Eu parei há tempos... Me arrependi, já dei a conhecer o meu crime no confessionário. Cumpri a penitência. Nada devo — respondeu calmamente.
— Acho engraçado como um homem pensa que pode apagar pecados após o sacramento da confissão.
— Além de pagar a minha penitência, eu não voltei a pecar, deixei o coroinha em paz.
— Que arrogante!
Aquele que debatia com o padre constatou.
— Nenhuma penitência lavará o pecado que repousa nessa cripta.
O homem encostou um ombro numa coluna de pedra, umedeceu os lábios antes de continuar a falar:
— Os homens não têm poder algum sobre o que é digno de perdão ou não. A única liberdade que lhes foi dada é o livre-arbítrio. Pensa que está tomando um atalho para o céu, quando mente para si mesmo.
— Agora, apenas dou vazão aos meus instintos, aliviando-me aqui.
Eximiu-se o religioso de sua culpa.
— Por que não na privacidade de seu quarto? — questionou o homem com genuína curiosidade.
— Não é o ato… é o pecado que me excita — disse, ajeitando o que tinha entre as pernas.
— Culpado!
— Não... Mas quem é você? Eu não sabia que estava sendo julgado. Isto é um absurdo! — o padre protestou.
— A sua penitência será não mais visitar essa cripta. Se insistir, invariavelmente aparecerei, mas dessa vez nada direi! — advertiu o homem, seu rosto ainda oculto pelas sombras.
O pároco, com medo que fosse alguém da alta cúpula da Igreja, saiu em disparada. Ao cruzar com o indivíduo, notou que ele ajeitava o cabelo atrás da orelha.
Não esperou que o homem saísse de lá e, como naquela semana não ouviu e nem recebeu nenhuma visita ou ligação de algum bispo, ou arcebispo, achou que o episódio com o homem misterioso da cripta era fruto de sua mente que não dormia há dias. Permaneceu alguns dias longe da cripta, mas após a missa de domingo, desceu até lá.
Após cumprir seu rito em homenagem aos mortos, já ia subindo as escadas. Mas conforme subia a escada, sentiu algo se avivar em meio às suas calças e não conseguiu se controlar. Deixou a lamparina em uma das saliências de pedra na parede, ergueu a batina e ali, no escuro, começou a acariciar-se. Terminou o ato feliz e satisfeito, até sorria, tendo certeza de que a conversa na cripta que correra na semana passada, fora um delírio de sua parte…
Subia as escadas com a cabeça abaixada, prestando atenção aos degraus. Estacou repentinamente, quando viu que havia um homem parado em um deles. Reparou que os sapatos eram iguais aos seus, arriscaria dizer que até eram do mesmo número. Foi erguendo a cabeça, reparando que a calça e a batina eram as mesmas. Até que chegou ao rosto.
Abriu a boca estupefato. O homem era uma cópia perfeita sua, mas a expressão era de decepção. Sem dizer uma palavra, empurrou-o escada abaixo. O padre bateu a cabeça várias vezes, o que causou sangramento cerebral e morte.
O novo padre da paróquia incumbiu o coroinha de cuidar da cripta da igreja, local onde o corpo mais recente a habitar fora o do último padre que morrera ali mesmo no subsolo. Toda semana o coroinha descia para limpar as tumbas e lavar o chão. Sempre acendia uma vela para o antigo padre.
Aryane Braun
Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A Ópera dos Vampiros
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
As expectativas do público funesto eram altas. Os presentes, aos poucos, preenchiam os assentos do teatro, que se encontrava sob a penumbra diante do largo palco de madeira rangente. Quando todos estavam bem acomodados e o silêncio reinava, as cortinas vermelhas se abriram sob o tremelicar dos trilhos empoeirados.
O vulto de Melinda foi iluminado pelas luzes manuseadas por Syrrha, uma estranha jovem que guardava consigo uma lamparina e o dever de iluminar o palco. Melinda, que interpretava Christine Daaé, atenta a seu papel, ouviu os espirros do público, contagiados pela poeira. Ela andou vagarosamente até o centro, atraindo a atenção. Aquela plateia tinha olhos mórbidos, como bonecos de cera; pareciam imersos em um encanto sorrateiro que os prendia naqueles bancos.
Uma orquestra peculiar se destacava ao redor do palco; os músicos pareciam petrificados e presos aos seus próprios instrumentos pesados. O maestro produzia movimentos rápidos e rígidos, mas as roupas deles pareciam antigas e puídas pelo tempo. As faces mostravam-se sulcadas e fragilizadas pelo torpor de um sofrimento incomum, como se eles já não pertencessem ao mundo dos vivos, hipnotizados. Cada instrumento — os violinos, cujas cordas rangiam como unhas arranhando algo; oboés, que exalavam um chiado fúnebre; trompas de metal oxidadas — exibiam um véu espesso de pó, como se cada nota fosse expelida de um porão esquecido. Mas nada daquilo impressionava Melinda.
Ao som da orquestra sepulcral, ela entrou vestida com um longo traje de veludo escarlate, que ondulava como sangue sob as luzes do palco. Melinda era magneticamente bela. Seus cabelos ruivos, de um tom acobreado, eram uma cascata de cachos que desciam até a cintura, emoldurando um rosto pálido e aristocrático. Os olhos cor de mel, intensos e levemente entorpecidos, contrastavam com o ambiente imerso na penumbra. Era impossível fitá-la sem sentir-se atraído ou atraída.
Ao atravessar a coxia, ela desfilava em beleza pelo palco de madeira, enquanto sua voz reverberava doce e cálida, ecoando alta pela plateia absorta. Syrrha corria pelo fundo do palco para apontar a iluminação corretamente, contando com a ajuda de pessoas que ela via apenas como vultos na mudança de cenário.
Melinda atuava no teatro particular do Castelo Drácula, e aquela peça era nada menos que “O Fantasma da Ópera”. A ópera preenchia cada canto do teatro em um feitiço sonoro e, a cada nota, um desejo crescente pulsava nas veias dela. Ao fim de cada apresentação, sentia-se sedenta, pois seu canto exigia sacrifício.
Enquanto a vampira guiava os atos em atuação, aqueles vultos que Syrrha via estavam sob seu comando e, pelo comando dela, com apenas um único olhar, eles fizeram descer, por cordas, imagens de candelabros por trás de Melinda, imersa no papel de Christine e do Fantasma. A poeira suspensa dançava em redemoinhos no ar; iluminada pelos feixes de luz difusos, ela parecia tremelicar.
O Fantasma da Ópera entrou em cena, vindo das sombras de uma das coxias; ele deslizou sob o palco. A máscara branca ocultava parte de seu rosto mortiço, mas não podia esconder o sorriso traiçoeiro que se insinuava em seus lábios. Envolto em uma capa negra, ele avançava elegante; cada palavra entoada reverberava à luz vacilante dos candelabros. Era possível distinguir o brilho afiado de seus caninos sempre que sua voz cortava o ar, sugerindo sua realidade por trás do personagem.
A melodia era bela, entoada pela voz una do dueto e pela orquestra, incitando arrepios em Melinda. Enquanto a voz una do dueto se fundia às notas sombrias da orquestra, eles cantavam e encenavam como se estivessem possuídos.
“Those who have seen your face, draw back in fear...”
Melinda caminhava lentamente pelo palco, os braços erguidos em gestos fantasmagóricos, mas seus olhos permaneciam vigilantes. O Fantasma surgia por trás dela, como uma sombra a sugá-la para si; o rosto parcialmente coberto pela máscara branca, a capa ondulante como fumaça ao vento.
“I am the mask you wear...”
“It’s me they hear...”
A orquestra morta, mas vibrante, acompanhava ritmicamente o dueto. Enquanto a jovem dos olhos de mel ali cantava, podia sentir a respiração do Fantasma se aproximando pela sua nuca. Ele a abraçava, entrelaçando-se a ela com uma tensão entre ambos quase palpável, como se o palco fosse real. A voz dele roçava sua pele como um toque gélido.
“Your spirit and my voice in one combined...”
“The Phantom of the Opera is there...”
“Inside your mind...”
Quando o último verso desta parte foi entoado, ele ergueu os braços atrás dela, como se fosse uma entidade que a possuía por inteiro. Os rostos estavam muito próximos um do outro. Neste momento, Melinda o viu olhar por cima de seu ombro; ela sempre esquecia que o nome verdadeiro de seu par não era Erik. Ele olhava para a escuridão além da coxia.
Algo no Fantasma estava levemente estranho naquela noite; ele parecia mais sedento que o normal, mais insano e libidinoso que o usual. Lançou um olhar inquietante para o lugar onde Syrrha se escondia, enquanto cuidava da iluminação, e Melinda sabia o que aquele olhar sádico poderia significar — ele queria sangue. Mas aquela garota não era permitida para eles.
O espetáculo sombrio foi interrompido pelo Fantasma vampiresco, e as cortinas começaram a descer lentamente. A plateia permaneceu imóvel, com olhos vidrados, sorrisos petrificados, mãos imóveis segurando binóculos dourados. Melinda estava confusa.
O Fantasma, movido pelo impulso, deslizou para fora da atuação. Seus olhos escarlates, inflamados pelo desejo de sangue, fixaram-se em Syrrha, a jovem que, nos bastidores, sentiu o perigo. Em um ímpeto febril e faminto, ele avançou sobre ela, mas não conseguiu alcançá-la. Melinda tentou contê-lo, mas não conseguiu e foi arremessada para longe.
Syrrha recuou às pressas entre as cordas; seus dedos trêmulos seguravam a lamparina de óleo que carregava. No desespero da fuga, ela tropeçou. O vidro se partiu com um estalo seco contra o chão de madeira, o que fez com que as chamas, aos poucos, consumissem parte do palco. Um brilho soturno estava nos olhos dela, e uma energia enigmática e ameaçadora, emanada por ela, fez com que o vampiro se afastasse.
Melinda voltou a se aproximar e o segurou pela mão, pedindo para que parasse com aquilo, pois aquela garota não era para eles. O rosto da criança endureceu, como se o tédio e a raiva a possuíssem; uma risada sarcástica ecoou de sua boca. Ela parecia triste e, ao mesmo tempo, impetuosa. Por trás dela, vultos observavam, encobertos por véus negros muito finos. Então, ela revelou aos dois vampiros:
— A dor de vocês foi mais suportável quando vivida como ficção. Eu quis preservar e proteger isso, mas a verdade é a verdade, mesmo que façamos da dor um papel e da morte uma peça.
Um estalo sutil percorreu o ar, e a plateia, antes enfeitiçada, piscou como quem desperta de um longo sonho no umbral. Os vultos de Syrrha atravessaram as pessoas em silêncio... e desapareceram. Os binóculos tombaram das mãos. Murmúrios roucos, de quem desperta, escaparam das gargantas de cada um. Os atores, músicos, espectadores... todos, desnorteados. Aquilo não era apenas um teatro; era uma prisão. E os que ali atuavam não eram meros vampiros, mas sombras aprisionadas num ciclo de encenação eterna, condenadas a repetir papéis que não escolheram.
Aquele foi o fim, o último ato. Estavam libertos, mas quem eram eles de verdade? A plateia se ergueu lentamente. Alguns caíram de joelhos. Outros choraram. A orquestra virou pó. E Syrrha, a guardiã do encanto, tornou-se sua libertadora forçosamente. Melinda observava em silêncio, com uma lágrima de sangue imóvel à beira do olho esquerdo.
Quem era, afinal, seu companheiro de palco? Ela já não se lembrava. E ele desaparecera, deixando para trás apenas a máscara do Fantasma da Ópera, chamuscada pela chama da lamparina. Restaram apenas Melinda e Syrrha, sob o palco, no teatro abandonado por todos, em um silêncio ensurdecedor que queimava os ouvidos como uma tocha pode queimar o véu da ilusão.
Revisão de Tiago Serigy
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
Sanctitas
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O licor havia se impregnado em minhas papilas gustativas. Meus dedos agitados fazem o líquido viscoso balançar com inquietação dentro da taça. Atônita, contemplo o baile sombrio mover-se com extrema volúpia. Meus olhos não eram capazes de acompanhar os movimentos. Fecho os olhos, pois fui acometida por fortes náuseas. Deixo a taça no chão e, vagarosamente, caminho. Mesmo estando longe, era possível ouvir o doce dedilhar sob as cordas dos delicados violinos, assim como as risadas libertinas. Tiro a máscara, e minha tez está febril. Conforme ando, o som das festividades foi se distanciando, se igualando a estranhos sussurros vindos de alguma civilização esquecida há éons.
Em meu íntimo, desejo voltar para o baile. Minhas entranhas suplicam mais um gole do detestável licor. Tento silenciar os pensamentos, contemplando o Castelo. Ao fazer isto, constato que o mesmo se modificou — sua estrutura ganhara dimensões abissais; sofrera, também, graves mudanças. O Castelo estava imerso numa aura lúgubre; cada pedra foi consumida por uma cor inenarrável, profunda e viscosa.
As pedras também sofreram com a presença de terríveis musgos, ocupando as frestas presentes em cada pedra. Noto uma sutil, mas aterrorizante, mudança no ar, tornando árduo o ato de respirar. Vi o véu que guarda segredos além do tempo sendo rasgado perante mim, e então o imaginário se materializou.
— Eram semelhantes a inúmeras partículas de uma pálida poeira, pairando misteriosamente, alcançando todo o interior do Castelo. Fui até uma das janelas e constatei que vinham de fora. As palavras de Evelyn Dubois recaem sobre mim; sorrindo, ela dizia: “Com o passar do tempo, você irá se acostumar.”
A visão que tive foi demasiadamente extraordinária — a poeira ocupava cada centímetro daquela região. O céu ganhara horripilantes pinceladas num desagradável tom de azul-petróleo. Já no horizonte, a magnífica e dourada lua, em sua fase quarto crescente, resplandecia imponente, contornando o cume das montanhas, bem como toda a vegetação, desde as grandes árvores até os pequenos arbustos. Alumiava também os grãos pálidos da arcana poeira, que obedeciam fielmente ao soprar dos ventos. Inclusive, pude sentir um característico cheiro pútrido marítimo, deixando-me atordoada.
Pois bem, estarrecida, afasto-me da janela. Olho em volta; a quantidade de partículas aumentou consideravelmente. Assustada, cubro meu rosto com a mão direita e caminho sem direção, até que encontro um esguio e mal iluminado corredor. Por alguma razão, decido atravessá-lo. À medida que ando, as velas se tornam mais escassas. Noto também que a poeira está se dissipando conforme ando.
Estou entregue à minha própria sorte. Com pesar, observo seu moroso derretimento. Lembrei do meu pai — ele disse que cada vela derretia de uma forma; disse também que o mesmo acontecia com o pavio. Tal lembrança deixou meus olhos marejados. “Ah, pai, queria tanto te ver...” — a frase saiu sem querer, ecoando no imenso corredor. Se eu fechasse os olhos, conseguiria ver sua vasta biblioteca; o cheiro dos livros me acalmava. No centro, havia uma mesa de jacarandá, sempre ornamentada com anotações importantes, livros para pesquisa. Ocupando as laterais, estantes repletas de livros.
Assim como eu, ele era um curioso em relação ao desconhecido. O pouco que sei foi graças a ele. Naquela noite, meus pais não queriam que eu saísse (parecia que estavam prevendo meu terrível destino), mas eles cederam à minha insistência.
Se não fosse por aquele convite — tornei-me taciturna —, onde minh’alma fora devorada por aqueles sedutores e sombrios olhos azuis, eu estaria... Não importa. Estou condenada a carregar a mesma escuridão que meu algoz — ele estava enraizado em meu âmago, e às vezes soprava em meu ouvido verdades incontestáveis. São momentos assim que desejei o aprazível abraço da morte. Porém, algo me resgata do abismo.
Ando mais alguns metros. Vejo uma espécie de aura longínqua e, a princípio, parece disforme. Ando mais depressa, pois era uma visão intrigante. Cheguei perto o suficiente para ver do que se tratava: era uma luz branda, etérea, quase angelical. Fui acometida por uma estranha paz — senti algo semelhante quando estive em Somníria. A quantidade de poeira diminuiu consideravelmente. Paralisada, contemplo o gracioso mover da intrigante luz. Me questiono qual será sua natureza.
Sigo-a até uma porta alta e simples de madeira. Espantada, assisto ela atravessar a porta e desaparecer. Um terrível arrepio percorre meu corpo. Relutante, abro a porta — e não posso crer: achei a biblioteca que incansavelmente busquei. Foi aqui onde encontrei aquele Códex sinistro, que, desde então, havia se tornado uma obsessão. Por breves segundos, esqueci daquela figura espectral. Ela estava no final da biblioteca, levitando próxima da mesa redonda vitoriana, alcançando o abobadado teto — tal qual o famoso espiritualista escocês Daniel Dunglas Home.
Sem dúvidas, era uma visão espantosa. Fechei a porta; sua presença doce preencheu aquele lugar. Era como uma santa. Olhando mais atentamente, havia traços humanos: os cabelos negros ondulados balançavam sob o ar. Vi também um rosto delicado. Os olhos fechados traziam mansidão; já as palmas unidas em oração continham esperança. Para quem seriam aquelas preces?
Fascinada, caminho devagar ao seu encontro. Porém, algo me impede. Escuto, então, passos firmes vindo de fora, acompanhados de um sutil, mas pontual, tique-taque. (Sabia que se tratava de um relógio de bolso, pois era uma das paixões do meu pai.) A porta se abriu lentamente, emitindo um penoso ranger. Mas, antes disso, contemplei a figura sacra desaparecer da mesma forma que surgiu. Um sussurro escapa de meus lábios — mais um evento o qual não teria respostas.
Após isso, uma brisa gélida invadiu aquele âmbito. Meus olhos dançam frenéticos sob as pálpebras. Quem será que adentrou neste recinto? Que presença é esta?
Noctígeno
Rose, uma jovem de espírito sensível, adentra o Castelo Drácula em busca de respostas para os mistérios que a cercam. Lá, ela se depara com um livro encadernado em pele humana, cujas páginas parecem proteger verdades inomináveis. À medida que mergulha nas profundezas do castelo, Rose enfrenta visões perturbadoras e enigmas que desafiam sua sanidade. Em sua jornada, ela descobre que a verdade pode ser mais sombria do que jamais imaginou, e que o conhecimento tem um preço que talvez não esteja disposta a pagar. » Leia todos os capítulos.
Pablo Henrique
Pablo é um escritor nascido no Nordeste do Brasil, em João Pessoa. Possui uma escrita bastante carregada em angústia, com a essência do terror, horror e ultrarromantismo. Sua paixão pela Literatura Gótica começou na infância. Algumas de suas referências literárias são: Mary Shelley, as irmãs Brontë, Agatha Christie, Edgar Allan Poe e William Shakespeare. Pablo Henrique também é artista visual... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…