Os Simulacros da Noite e a Sentença do Sono
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
I
É um erro crer
que o sono abriga algum refúgio.
Deitar-se na escuridão
é depor as insígnias da vontade,
é entregar a alma,
desarmada, trêmula e pálida,
ao império absoluto
dos espectros e da febre.
Havia uma razão severa
nas antigas advertências
que proibiam o espelho
defronte ao leito de agonia;
os velhos sábios sabiam
que o repouso é nossa maior indigência,
o instante em que o corpo
ensanguentado se faz vulnerável.
Expor-se ao cristal
é convidar o infinito e o túmulo
a devorarem, gole a gole,
a nossa substância.
É então que sobe muda a paralisia,
aquele gélido torpor
de tísica e de luto,
onde o sangue congela nas veias
feito o vinho nos cálices esquecidos
e o tempo se transforma
em um peso sufocante sobre o peito.
Vêm as emoções noturnas
sobre a imensidão que esmaga,
o pessimismo existencial
que desperta nas horas mortas,
enquanto a mente se perde
em aflições sobre o nada absoluto,
indagando, em vão,
sobre o abismo insondável do ser.
Nestas paragens sombrias
e malditas de Agonihria,
os tormentos da mente
não se desfazem com o amanhecer;
antes, fragmentam-se
como agulhas invisíveis de um delírio,
perfurando a barreira
que separa o tédio da vigília.
Tudo se tinge em tons de púrpura,
estímulos sensoriais ligados ao escuro,
onde coisas e seres
de beleza extraordinária
revelam sua essência agônica.
É a contemplação dolorosa
da matéria escura que tudo envolve,
a agonia muda e visceral
por não poder desvendar o universo
em seu mistério mais sombrio.
II
O infeliz que desperta deste transe
não retorna à segurança;
Traz nos lábios
o gosto amargo de terra,
a alma exausta de sonhos
e pesadelos angustiantes,
descobrindo que o chão
da realidade desperta
foi contaminado pelo veneno
de um estado psicológico martirizante.
Olhai, pois,
para o interior daquele abismo.
Ali reside o morador do reflexo,
o fantasma da alcova,
ostentando um riso medonho,
satânico e cadavérico,
com olhos vazios que fitam
a própria eternidade do horror.
Ele não ri por alegria
sua face tem a rigidez da morte,
mas pelo excesso de um suplício
que desafia a linguagem.
Quão fatal é o impulso
daquele que, tomado de pavor,
golpeia o vidro
na vã tentativa de sepultar a aparição;
quebrar o espelho
é o caminho mais rápido para a perdição.
A imagem não morre:
se multiplica em mil sarcófagos.
Cada diminuto estilhaço
espalhado pelo chão do quarto
converte-se em um novo olho
vítreo que vigia;
cada fração de vidro reproduz
o mesmo riso imóvel e infame.
Não são necessários séculos
de martírio para que a alma capitule;
basta uma breve semana
de uma vigília corrompida,
entre o ópio, a loucura
e o espectro de uma virgem morta,
para que o suntuoso edifício da razão
desabe em ruínas.
A demência ou a própria morte
seriam cortesias divinas,
pois o flagelo definitivo
deste labirinto
não é o repouso na sepultura:
— onde as flores murcham em paz,
mas a condenação
de permanecer perfeitamente lúcido,
exilado para sempre
no avesso daquele cristal partido.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;