Escrito por Aryane Braun, -Artigos Castelo Drácula Escrito por Aryane Braun, -Artigos Castelo Drácula

O que saber antes de ler Drácula?

Atualmente, não há quem não conheça Drácula, o icônico vampiro que, desde a sua publicação em 1897, vem servindo de inspiração para outras obras literárias…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Atualmente, não há quem não conheça Drácula, o icônico vampiro que, desde a sua publicação em 1897, vem servindo de inspiração para outras obras literárias, filmes e músicas, moldando para sempre a imagem do vampiro. Mas antes de mergulhar em suas páginas sombrias, é interessante conhecer o contexto em que ele foi criado.

Drácula foi escrito nos últimos anos da década de 1890, em pleno apogeu da era Vitoriana, um período marcado por grandes avanços tecnológicos e industriais, expansão do Império Britânico e profundas transformações sociais, especialmente o crescimento da classe média. Mas, ao lado desse progresso, emergiam medos e ansiedades: fascínio pelo oculto, espiritismo e uma sensação de decadência moral. Obras literárias desse século frequentemente expressam esse choque entre modernidade e tradição.

Sabemos que antes de escrever o famoso romance, Stoker viajou por vários países, o que possibilitou suas pesquisas sobre o folclore europeu e as histórias mitológicas dos vampiros. Em Drácula, temas como o medo do “outro” (representado pela invasão estrangeira) — provavelmente fruto da própria experiência do autor como estrangeiro em diferentes países — é simbolizado pela figura do próprio vampiro, que no romance vive nos Cárpatos e pretende invadir Londres para contaminar o Império e conseguir um exército.

Outros temas polêmicos permeiam a obra; um dos mais discutidos pelos críticos é a repressão sexual e o tabu do desejo feminino, conectando o sobrenatural às tensões culturais da época. No clássico, as mulheres ocupam papel de destaque, não ocupam um lugar de submissão em relação à figura masculina. Mina Harker traduz as ambições intelectuais femininas da época: ocupando um cargo de professora, dona de uma mente aguçada e conhecedora da taquigrafia. Não se pode deixar de mencionar que, dos cinco vampiros presentes no romance, quatro são mulheres: agressivas, sedentas por sangue e ousadas sexualmente.

É interessante notar que, antes da obra de Stoker, os vampiros eram retratados como criaturas grotescas que saíam das sepulturas para aterrorizar vilas. Foi Stoker quem, a partir de suas pesquisas sobre o folclore do leste europeu — onde encontrou inclusive o termo ‘nosferatu’ —, uniu essa tradição à aristocracia vitoriana, transformando o vampiro em uma figura sedutora e carregada de inquietações sobre a sexualidade da época. Alguns teóricos ponderam, inclusive, que o próprio Stoker seria homossexual. Talia Schaffer, membro da Associação Norte-Americana de Estudos Vitorianos, aponta cartas intensamente homoeróticas escritas pelo autor e enviadas ao poeta americano Walt Whitman. Além disso, Stoker iniciou a escrita um mês após a prisão de seu amigo Oscar Wilde por homossexualidade.

Mas o que torna a leitura de Drácula mais fascinante é o uso do romance epistolar. A narrativa não se desenvolve de forma linear; os fatos são apresentados ao leitor por meio de cartas, telegramas, recortes de jornal e trechos de diário. Esse recurso confere verossimilhança ao que está sendo contado e obriga o leitor a unir fragmentos da história através das diferentes perspectivas dos personagens. O resultado é uma tensão constante que alimenta a curiosidade a cada página.

Já comentei um pouco sobre Mina Harker, mas há outros personagens igualmente fascinantes que compõem a trama. Entre eles, destaca-se o próprio Conde Drácula: um aristocrata sedutor e monstruoso, que combina ameaça e charme em uma personalidade única. Lucy Westenra é vítima do próprio desejo reprimido e da corrupção vampírica, ao passo que Van Helsing faz o papel de herói, servindo de ponte entre a ciência e a superstição.

Por fim, recomendo veementemente a leitura deste clássico do horror gótico, não por seu status canônico, mas sim por ser a obra que originou a figura do vampiro moderno. Com mais de 30 adaptações cinematográficas, Drácula permanece uma obra poderosa, que ilustrou com brilhantismo os temores e dilemas políticos e sociais de sua época, mas que continuam a ressoar com força até os dias atuais.


Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

A última penitência

Já estava acostumado a descer aquela escada de pedra. Tão saturado, que já não percebia mais o cheiro úmido e o fedor de bolor invadindo suas narinas…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Já estava acostumado a descer aquela escada de pedra. Tão saturado, que já não percebia mais o cheiro úmido e o fedor de bolor invadindo suas narinas como na primeira vez. Mas ainda sentia o toque molhado das paredes, ao apoiar a mão para não cair. A cada descida, parecia mais velho, como se os degraus roubassem um pouco de sua vitalidade. Aquela escada, escondida atrás do altar, conectava a majestosa nave da igreja à cripta silenciosa no subsolo.

Com os anos, a tarefa tornara-se cada vez mais árdua: seus ossos doíam, e as pedras soltas rangiam sob seus pés como se respondessem ao lamento de suas articulações. O musgo, que crescia livremente pelas paredes e degraus, transformava o caminho em uma armadilha traiçoeira. Mais cedo ou mais tarde, seria ele a habitar aquela cripta.

— Causa da morte? Escorregou nas escadas e bateu a cabeça — resmungou, enquanto descia vagarosamente.

O que tanto ocupava o coroinha, que nunca atendia sua ordem de limpar os degraus? Seria ele o único a respeitar os mortos? O único que se lembrava das almas abandonadas?

— Santo Deus, tende misericórdia deste vosso pobre servo... — murmurou, enquanto os ecos de sua voz se misturavam ao silêncio da cripta. — Talvez eu seja mesmo o único a me importar. Um padre enrugado no fim da vida, que insiste em descer até aqui para orar e acender velas por estas almas esquecidas.

Quando tocou o chão com a ponta dos pés, pareceu que iria cair. A fraca luz da lamparina bruxuleava contra as paredes, sob o efeito de seus braços trêmulos. Eles fraquejavam com o peso dos anos. A luz dançava e iluminava diferentes partes dos esquifes que ali se encontravam. Sem problemas: mortos não enxergam. Portanto, não precisam de luz.

Colocou a lamparina ao lado de um deles. Ajeitou os cabelos, levando-os para trás das orelhas. Retirou a vela do bolso, acendeu o pavio, ajoelhou-se e começou a orar. Tudo ocorria como sempre, de forma mecânica. A mesma sequência de preces; em seguida, cerrava o missal e voltava para a vida lá em cima, não sem antes permanecer mais algum tempo lá, numa tarefa que exigia sua atenção, conforme explicava ao coroinha, sempre que se atrasava.

— Eu oro pelo dever. Nenhuma ovelha deve ser deixada para trás. Até mesmo aqueles que morreram merecem socorro e uma chance de penitência. E eu dou atenção a eles…

Mas, de alguma maneira, se perdia em seus pensamentos: após sua morte, quem faria isso por ele? Provável que prestassem grandes homenagens no seu velório. Mas quem viria até ali? Após ser depositado ali mesmo, quem se lembraria de descer e acender uma vela por ele?

Pensava sobre se o que fizera até ali, fora certo. Achava que na maior parte de sua longa vida, sim. O resto, aquilo que não ousava nem falar para si, deixava quieto e apodrecendo, soterrado por anos de camadas e mais camadas de beatices e ritos sagrados.

Na sua soberba, que nem ele ousava revelar para si mesmo, achava-se superior aos outros: o mais digno de ingressar no céu daquela paróquia. Após anos de servidão, Deus havia de o perdoar sem pestanejar.

Foi quando fez menção de fechar o missal que o notou. Molhou os lábios e engatou mais um pai nosso, depois mais uma ave-maria, enquanto tentava captar com a visão periférica quem tinha ido até ali procurá-lo.

O vulto estava de pé. Tinha a impressão de que era da mesma altura que ele. As costas eram menos encurvadas. Ouvia apenas o som de goteiras, marcando a passagem do tempo, feito um relógio descompassado.

— Não se entrará no céu com meia dúzia de rezas.

O velho padre assustou-se. Aquela voz ecoando no vazio de sua alma. Suas mãos começaram a suar. Empertigou-se. Dançou com os joelhos cansados e doloridos sobre o chão de pedra, procurando uma penitência tolerável. Fez os joelhos e os quadris chacoalharem em conjunto. Isso lhe conferia uma aparência fraca e patética.

— Dançar sobre os joelhos também não adiantará… O passado é imutável.

— É por isso que ele deve ser deixado onde está. Vá embora!

— Eu não teria tanta certeza… — O homem retrucou. — Nele, não se muda nada, mas é dele que nasce o futuro.

Quem quer que fosse, estava tentando intimidá-lo. Reparou que, após terminar de falar, o homem molhou os lábios. A luz iluminava apenas a metade de baixo de seu rosto, o qual achou familiar. Tinha a impressão de que já o conhecia. Quando ia perguntar se a arquidiocese havia mandado alguém para visitá-lo, o homem continuou:

— O passado molda o futuro. Hoje, Katia e Helena foram separadas.

— Não conheço Katia, nem Helena. Vá embora, estou ocupado! Logo atendo o senhor lá em cima.

— Teria conhecido! — O homem interrompeu o padre rudemente. — Mas negou abrigo para ambas, na época das chuvas. Perderam a casa para a enchente. Uma delas morreu.

— Não pode me julgar, o senhor não é Deus!

— Será mesmo que não sou? Mas garanto que o Maurício pode julgar.

— Não quero saber desse Maurício.

— É o mendigo que você expulsou ontem. Suicidou-se. Achou que não era digno, nem na casa de Deus.

— Eu não sou responsável por isso.

— Tudo isso sem mencionar sobre você e o coroinha, bem aqui. Santo Deus!

— Eu parei há tempos... Me arrependi, já dei a conhecer o meu crime no confessionário. Cumpri a penitência. Nada devo — respondeu calmamente.

— Acho engraçado como um homem pensa que pode apagar pecados após o sacramento da confissão.

— Além de pagar a minha penitência, eu não voltei a pecar, deixei o coroinha em paz.

— Que arrogante!

Aquele que debatia com o padre constatou.

— Nenhuma penitência lavará o pecado que repousa nessa cripta.

O homem encostou um ombro numa coluna de pedra, umedeceu os lábios antes de continuar a falar:

— Os homens não têm poder algum sobre o que é digno de perdão ou não. A única liberdade que lhes foi dada é o livre-arbítrio. Pensa que está tomando um atalho para o céu, quando mente para si mesmo.

— Agora, apenas dou vazão aos meus instintos, aliviando-me aqui.

Eximiu-se o religioso de sua culpa.

— Por que não na privacidade de seu quarto? — questionou o homem com genuína curiosidade.

— Não é o ato… é o pecado que me excita — disse, ajeitando o que tinha entre as pernas.

— Culpado!

— Não... Mas quem é você? Eu não sabia que estava sendo julgado. Isto é um absurdo! — o padre protestou.

— A sua penitência será não mais visitar essa cripta. Se insistir, invariavelmente aparecerei, mas dessa vez nada direi! — advertiu o homem, seu rosto ainda oculto pelas sombras.

O pároco, com medo que fosse alguém da alta cúpula da Igreja, saiu em disparada. Ao cruzar com o indivíduo, notou que ele ajeitava o cabelo atrás da orelha.

Não esperou que o homem saísse de lá e, como naquela semana não ouviu e nem recebeu nenhuma visita ou ligação de algum bispo, ou arcebispo, achou que o episódio com o homem misterioso da cripta era fruto de sua mente que não dormia há dias. Permaneceu alguns dias longe da cripta, mas após a missa de domingo, desceu até lá.

Após cumprir seu rito em homenagem aos mortos, já ia subindo as escadas. Mas conforme subia a escada, sentiu algo se avivar em meio às suas calças e não conseguiu se controlar. Deixou a lamparina em uma das saliências de pedra na parede, ergueu a batina e ali, no escuro, começou a acariciar-se. Terminou o ato feliz e satisfeito, até sorria, tendo certeza de que a conversa na cripta que correra na semana passada, fora um delírio de sua parte…

Subia as escadas com a cabeça abaixada, prestando atenção aos degraus. Estacou repentinamente, quando viu que havia um homem parado em um deles. Reparou que os sapatos eram iguais aos seus, arriscaria dizer que até eram do mesmo número. Foi erguendo a cabeça, reparando que a calça e a batina eram as mesmas. Até que chegou ao rosto.

Abriu a boca estupefato. O homem era uma cópia perfeita sua, mas a expressão era de decepção. Sem dizer uma palavra, empurrou-o escada abaixo. O padre bateu a cabeça várias vezes, o que causou sangramento cerebral e morte.

O novo padre da paróquia incumbiu o coroinha de cuidar da cripta da igreja, local onde o corpo mais recente a habitar fora o do último padre que morrera ali mesmo no subsolo. Toda semana o coroinha descia para limpar as tumbas e lavar o chão. Sempre acendia uma vela para o antigo padre.


Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

Leituras recomendadas para você:
Leia mais

Observadores

Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Desperto sobre um chão asséptico, duramente frio, cheirando a desinfectante recém-passado. Sento-me devagar, estou desorientado. Fico imóvel por algum tempo, tentando centrar a minha visão. Tudo treme e vibra. 

O que aconteceu comigo? Depois que minha visão centrou, observo minhas roupas. Estou sentado, com as pernas estendidas. As costas estão apoiadas no canto de um espaço pequeno e quadrado. O chão é de um metal polido e cinza, muito brilhante, eu vejo o meu reflexo distorcido nele, de tão brilhante. 

Eu visto roupas comuns: calça jeans, sapatênis e uma camisa polo vermelha. Não me recordo de onde estava. O que fazia com essas roupas? Onde? Nada vem à minha mente. Um grande vazio, absoluto! Preenchido apenas por perguntas: será que fui sequestrado, será que morri? 

Ouço alguma coisa? Sim! É um barulho muito distante! Sons abafados. Tento identificar de onde eles vêm, cruzo a sala, então a noto. Uma única vela acesa. Ela está exatamente no centro da sala e sua chama... ela parece estar atrelada de alguma forma a mim, ao que eu faço, ao que eu penso... não posso provar, mas sinto isso. 

Quero sair daqui, não me sinto bem nesse lugar. Meus olhos percorrem as quatro paredes. Ao terminar, se desconcertam. Cresce o desespero que meus olhos foram capazes de gerar. Não havia uma janela sequer. Nenhuma forma sequer de abri-la. Sim, a única porta da sala era um tipo de elevador, porém não tinha como abri-la… Eu não conseguiria, não havia como forçar os dois lados a se abrirem, não havia botões para serem apertados e comandá-la. Então ela permaneceu totalmente fechada e impassível. 

Não sei quanto tempo fiquei acordado, mas me sinto desgastado, minha visão pesa. Mas certamente eu dormi, pois estou acordando agora. Minhas retinas registram as mesmas paredes frias e metálicas. Elas, o meu reflexo. 

Meus olhos registraram, meu cérebro notou. A chama da vela está ligeiramente diferente. O fogo que antes aquecia o lugar, com reflexos laranjas e quentes, agora trepida e hesita, com chamas azuis crepitantes. No entanto, o reflexo dela parece que guardou o reflexo de quando eu chegara: amarelado, os tons alaranjados estavam apenas nos reflexos. Deveriam refletir a cor azul, mas pareciam testemunhas renitentes do passado.

Num átimo, a chama da vela apagou-se e acendeu novamente. Agora a cor da chama que as paredes refletiam era idêntica à da chama: um azul intenso e profundo. Sentia que dentro daquela chama havia um universo que me atraía.

Apesar de assustar-me com o reflexo da chama destoante nas paredes, insisto em fazer o meu olhar vagar por elas, em busca de uma saída daquele lugar, cada vez menor na minha percepção. Dou um pulo para trás: ali, nas paredes onde uma luz laranja bruxuleava... ali, agora há um detalhe a mais — marcas de riscos nas paredes fazem meu estômago revirar. Um dos espelhos estava rachado, de fora a fora, na diagonal.

Continuando a vagar pelo que o estranho espelho reflete, chego até ele. Minha própria imagem encara os meus olhos friamente. Do lado de lá, é a imagem refletida quem conduz a ação. Apenas um reflexo de mim, sim. Mas por que meus olhos parecem ser um engodo? Sinto medo, por ela ser deformada e diferente, devido à rachadura que apareceu agora. A única verdade que seus olhos ameaçam entregar é a de que quer me fazer mal. 

Será que aquela imagem sou eu? E, na verdade, eu é que estou confuso? Será que as paredes limpas, lisas e espelhadas do elevador em que me encontro apenas estão refletindo a realidade: uma vela com chama laranja em seu centro; e eu é que estou a imaginar que a chama é azul, que algo riscou e rachou as paredes? Por que as minhas mãos estão arranhadas? 

Sinto um cansaço pesar, minhas pálpebras fazem força para se fechar. Eu luto para me manter acordado. A tarefa é difícil, cansativa, árdua, eu diria que se tornou hercúlea. Como se o meu próprio corpo não fosse meu. Estranho. Eu tento controlar as minhas expressões faciais, mas o olhar hostil do meu reflexo se recusava a mudar, resoluto. 

Acho que dormi nessa cansativa luta de fazer o reflexo do espelho mudar. Por mais que sentisse os músculos do meu rosto se mexerem, o rosto no reflexo estava imóvel e com uma expressão ambígua, ameaçadora. Se o reflexo era eu, por que me olhava com raiva? Se não era eu, por que era igual a mim? 

Acho que agora desperto pela terceira vez nesta sala. Sinto frio. O chão me parece mais frio ou foi a minha temperatura que cedeu? O cúbico do elevador, já não o percebo tão pequeno, ele parece um pouco maior. A vela? Ah, sim, ela está bem menor, derreteu… Agora, está bem mais escuro do que antes. 

Eu próprio me sinto menor. Como se os meus músculos, tal qual a cera daquela vela, tivessem diminuído, tivessem derretido. E parte de minha essência tivesse se dispersado pelo chão, como se eu fosse uma vela de chama azul, igual àquela: triste e pequena; obedecendo a um desígnio além do que ela pode controlar, certa de que ela será, indubitavelmente, não mais uma vela, mas uma mera poça de cera derretida. 

— Estamos quase completos! — uma voz inumana diz, mas entendo claramente o que foi dito. As palavras claras, como água cristalina em meus ouvidos, vindas do outro lado da parede. 

Agora percebo que estou junto à vela, no centro da sala. Eu sou uma criatura dada em sacrifício, a chama azul da vela me disse isso, em meio às imagens projetadas em sua pequenina chama que eu observo deitado. Algo está sendo vaticinado. Meu sangue está sujando o chão, percebo que não só o meu nariz está sangrando, mas todo o meu corpo está se moldando a algo que não conheço, mas já não estranho. 

Mas ela também me mostrou memórias de outras vidas. Outros Jeremias. Um era pai, e abraçava suas filhas no quintal. Outro era policial e dera um tiro na testa de alguém — que horror! Havia outro que era branco, e não negro como eu. Tinha uma criatura estranha, que eu também sabia que era eu — ela passava por ruas, como as nossas. 

Agora desperto pela quarta vez. Flutuamos, eu e a vela, pelo espaço oco. Vejo escamas finas da minha pele se soltarem. Sinto-as desprenderem das mãos, das pernas, das costas encurvadas. Elas vão flutuando pela escuridão, formando uma galáxia, um redemoinho bizarro de peles mortas vagando pela escuridão, iluminadas apenas por uma chama fraca. 

Desespero-me ao perceber que estou me desfazendo aos poucos. Sou como um embrião que desfaz sua casca, sumindo a cada porção perdida no espaço. Não é um processo que pode ser parado. Acho que não. Talvez eu seja só a casca de algo que amadureceu. 

Agora desperto. Vejo a porta se abrir pela primeira vez. A vela está no teto, assim como eu sinto que estou. Não tenho voz, não tenho corpo. Quem eu era, não recordo. Mas isso não importa mais. 

Junto-me aos meus companheiros lá fora… lá fora, no espaço-tempo, eu vejo: somos muitas criaturas. Temos garras e escamas brancas, e olhos grandes e esbugalhados. Nos chamam de observadores… 


Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

Leituras recomendadas para você:
bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais

Sommelier

A profissão de sommelier de vinhos lhe proporcionava cada vez mais satisfação. Os clientes pediam bastante por vinhos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

A profissão de sommelier de vinhos lhe proporcionava cada vez mais satisfação. Os clientes pediam bastante por vinhos licorosos: fabricados a partir da fermentação do sangue de diabéticos, ele achava que era por causa do nível de açúcar alto.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

Leia mais em “Microconto”:

Leia mais

Acácia

A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Prólogo 

A cama estava sem o lençol. O espelho estava quebrado. Na cômoda havia poucos pertences: apenas um hábito limpo, algumas roupas íntimas e uma Bíblia. Lá fora, um sabiá assoviava, como se nada demais tivesse ocorrido. Na parede, apenas os indícios de que um grande crucifixo estivera pendurado ali por muito tempo, pois o sol desbotara a tinta da parede ao redor. 

Irmã Acácia estava de joelhos num dos cantos do quarto. Havia muito sangue, mas o sangramento já parara, e ninguém soube explicar como o cadáver permanecera daquele jeito. Assim que ela perdesse a consciência, o que não deve ter demorado muito, seu corpo deveria ter desabado para frente ou para um dos lados. Mas parara intacto: uma das mãos segurava firmemente um caco de espelho enorme; ele estava introduzido até a metade em seu ventre avolumado. Ao que parecia, ela tinha golpeado a própria barriga várias vezes e sangrado até a morte. Outro detalhe inexplicável era que ela olhava para cima; os olhos abertos tinham uma expressão de alegria e alívio. 

---------------- 

Agora 

Irmã Acácia estava sentada em uma das últimas fileiras de cadeiras da capela. Eram cadeiras de plástico simples, bem diferentes dos pesados bancos de madeira de algumas igrejas que ela tinha frequentado. Ela já não suportava mais, cruzava e descruzava as pernas impaciente. 

Irmã Acácia era uma noviça; portanto, habitava o convento havia três anos e meio. Já estava muito acostumada com a rotina do convento, porém. Havia dias em que as obrigações que eram impostas a todas eram difíceis de serem cem por cento cumpridas. Era isso que a perturbava naquele exato momento: achava que conseguiria curar-se pela fé; no entanto, por mais que seguisse todos os ritos e costumes da congregação, não conseguia se sentir plenamente liberta do seu vício. 

Já havia feito grandes avanços, com muita perseverança, longos períodos de recolhimento, reflexão e busca de comunhão com Deus. Conseguira deixar o seu passado para trás, um passado que não fizera questão de esconder das irmãs; porém, não gostava de falar sobre, de modo que somente a madre superiora Maranhão sabia dessa mácula em seu passado. Acácia achava isso muito bom, pois, apesar de todas as irmãs serem pessoas muito boas, não se sentia à vontade para revelar que fugira de onde morava porque estava jurada de morte por outra mulher. Ela havia cometido o pecado de ter se deitado com o esposo dela várias vezes, mas ela só tinha descoberto a última. 

Por isso, era muito grata à madre Maranhão por tê-la acolhido naquele momento de dificuldade. Não tinha dinheiro nem onde dormir, e ela a recebera, mesmo sabendo do seu segredo sujo. Em um mês, estava habituada e pediu para ingressar na ordem; assim, garantiria uma vida digna, um teto e conseguiria se curar da ninfomania. Madre Maranhão permitira; ela enxergava o futuro e não o passado das pessoas. Mas, agora, ela não sabia como explicar a ela o que estava acontecendo com seu corpo. Na verdade, nem ela sabia; parecia muito com uma gravidez, pois tinha todos os sintomas; porém, estava há meses sem deitar-se com alguém, a última vez fora antes da fuga para o convento. 

A última coisa mais sexual que fizera, se é que fizera, fora um sonho que tivera três meses atrás; fora tão real que seu corpo chegara ao clímax mesmo dormindo. O problema é que aquele sonho reacendera a chama do pecado. Para refrear seus impulsos, passou a aliviar-se antes de dormir, acariciava-se com as próprias mãos. Não tardou, e sua menstruação atrasou, e, como se as duas coisas estivessem misteriosamente interligadas, sua sede por prazer voltava aos poucos, mas cada vez mais voraz. 

Os dedos já não a satisfaziam tanto quanto ela queria. Sua fome, ela ponderava, era incomensurável. Até que um dia, desesperada por mais sensações e explosões orgásticas mais intensas, começara a roçar-se com o terço. Ora esfregava rapidamente, de fora a fora; ora apreciava sentir conta por conta massageando o seu clitóris. Uma noite, fez tanto daquilo que a delicada pele, que antes era rosa, tornara-se de um intenso e dolorido vermelhão. 

Aquele ato, que fazia na solidão do seu quarto, às escondidas, rapidamente transformara-se no ponto alto do seu dia. Era a sua válvula de escape e ninguém precisava saber. Durante, era muito prazeroso, mas depois sentia-se imunda. Em meio a todas aquelas mulheres tão castas, tão puras, tão perfeitas, tão santas... Acácia flagrava-se pensando, todas as vezes após o ato, que aquele não era o seu lugar. Mas por fim, qual lugar seria? 

De início, achou que o atraso menstrual pudesse ser uma espécie de menopausa precoce, mas os sintomas eram outros, não batiam. Ela tinha enjoos matinais, estava começando a ir ao banheiro com maior frequência.... Tudo o que estava sentindo correspondia à gravidez. Até que a sua barriga começou a crescer cada vez mais, assim como as suas vontades lascivas. Se pegava reparando na beleza dos padres, imaginava-se deitando-se com eles, para logo em seguida rezar vinte ave marias buscando a absolvição daquele pecado. Para esconder a barriga, enquanto não descobria como contar tudo isso à Madre Maranhão, cortou o lençol de sua cama em tiras e as amarrou em torno dela bem apertado. Sabia que era uma solução temporária. 

Agora, o que ela estava sentindo, tinha mais urgência de ser resolvido. Cruzava e descruzava as pernas impaciente, a noviça sentada ao seu lado estava começando a se incomodar com isso. Suor escorria às bicas, por sua testa, pescoço, costas e barriga. Sentia algo se movendo dentro do seu ventre. Era algo, mas não era um bebê, porque tinha acesso aos seus pensamentos; os mais vergonhosos. 

Parecia que, naquele momento, aquilo esticava braços e dedos por dentro dela, acariciando-se, fazendo movimentos de vai e vem dentro de sua vagina. "Incomodo?" "Ah, não, continua!" — Sentiu o canal aquecer e umidificar-se; não conseguia parar, ela não tinha controle sobre aquilo nem sobre seus desejos. Em sua mente, começou a ouvi-lo. "Vamos para o quarto! Ora, vamos, eu sei que você é só uma puta querendo gozar. Vamos? Você não é uma noviça de verdade, está se escondendo aqui, em meio a essas cordeirinhas. Não adianta esconder, estou dentro de você, estou aqui sentindo você molhar-se de tesão." 

"Para!", ela ordenou com os seus pensamentos. "Não paro!", a coisa gritou em resposta, rasgando a sua vagina por dentro com grandes garras, ao que parecia. Em seguida, ela sentiu a coisa se movimentar de maneira diferente, era como se estivesse fechando as mãos. Sentiu os punhos girando, cada nó das mãos provocando seus sentidos; parecia que era senhora de sua mente, pois sabia que aquilo a agradava. Ainda mais que não era apenas uma, mas sim duas deliciosíssimas mãos dentro da sua boceta. Então, a coisa parou repentinamente, também em sua mente; nada se ouvia. 

"Justo agora, quando eu ia gozar? Calma, Acácia, não dá para você fazer isso no meio de uma capela, no meio de uma missa; até para você isso é pecado demais." 

Acácia levantou-se, as faixas amarradas em sua barriga a faziam sentir um calor triplicado pelo teto da capela baixo e um número grande de pessoas afuniladas ali. Para a noviça ao seu lado, falou que ia ao banheiro, mas estava passando mal — isso ela não falou. Ao chegar ao banheiro, às pressas, foi direto para uma das patentes e vomitou. Ao abrir os olhos, ela não vê o próprio vômito, e sim uma piscina de esperma; ela sabia, porque tinha o gosto e o cheiro característicos. A visão a fez sentir uma nova e forte onda de enjoo. Novamente um jato. Ousou olhar novamente, viu que havia vomitado muito sangue, algumas partes grossas, coalhadas. 

Conseguiu levantar-se, mesmo cambaleante, e não voltou para a missa. Apressou-se em chegar ao quarto. Desabou sobre a cama; deitada de costas, virou-se em direção ao crucifixo, fechou os olhos para não olhar para Jesus. Procurou o terço e não encontrou. "Droga, esqueci o terço na capela." 

"Ah, sua vagabunda, esqueceu o consolo de freira, é? Que tal usar a cruz?" 

"Não!" 

"Vamos, sua rameira, admita que o que você quer é enfiar ele até o talo. Admita que você se sente atraída pela escuridão e pela dor!" 

"Não! Não! Sai da minha cabeça!" 

"Vamos, Acácia... você sabe que precisa disso. Precisa sentir o prazer, o fogo que te consome por dentro. Só assim você poderá me libertar completamente." 

"Não... eu não posso fazer isso. Não aqui, não agora. Eu quero ser salva. Eu quero..." Acácia lutava para organizar os pensamentos, mas a presença da coisa se adensava em sua mente, como um nevoeiro. 

"Salvação?", a coisa zombava, com uma risada sombria. "Você já abriu mão disso há muito tempo... Todas as noites que você se deitou com o marido de outra. Todas as vezes que você transou com qualquer drogado que encontrasse por aí, disposta a compartilhar a droga que viesse. E depois aqui no convento? É só questão de tempo até você se deitar com algum padre, afinal, uma hora ou outra você iria achar um tão devasso quanto você, está cheio de pedófilos saindo nos jornais. E todas as noites que você tocou o terço contra sua carne, todos os suspiros abafados, todo o suor que molhou esses lençóis... você escolheu o caminho da perdição, acha que ainda há tempo para mudar a sua essência?" 

"Pare com isso! Eu só estava tentando... aliviar essa dor... essa fome. Não é culpa minha. Eu estava... estava..." Sua voz tremia, hesitante, mas a entidade se aproveitava de cada fraqueza, alimentando-se dela. 

"A culpa é sua, sim. E é essa culpa que me fortalece. Cada vez que você sucumbe ao desejo, eu me alimento. E eu cresço, Acácia... dentro de você. Já não sente isso? O peso, o calor, o desejo cada vez mais incontrolável? Essa fome que nunca passa?" 

Ela engoliu em seco, e suas mãos tremiam. "Então... tudo isso... é você?" 

"Eu sou parte de você, Acácia. Sou o que sempre esteve escondido nas sombras da sua alma. Mas, para que eu nasça, preciso que você se entregue completamente. Preciso do seu arrependimento, da sua vergonha... para me fortalecer até o momento certo." 

"Nasça? O que quer dizer com isso? Eu... eu pensei que..." Suas palavras vacilavam; um calafrio descia por sua espinha ao entender as intenções daquela presença. 

"Isso mesmo", a coisa respondeu, seu tom transbordando desprezo e satisfação. "Você não passa de um meio. Quando você finalmente ceder, quando aceitar o que realmente deseja, estarei pronto para tomar o seu lugar. E você... bem, seu corpo será apenas o portal que me trará à liberdade." 

Acácia sentiu uma pressão intensa em seu ventre, quase como se algo se contorcesse para sair. A entidade continuou sussurrando, zombando. "Eu precisava de uma noviça... de alguém que já estivesse quebrada, que não resistisse. E quando você chegou, cheia de desejos sujos, escondendo-se de tudo, foi como uma bênção... e como eu cresci desde então." 

"Não... não sou apenas um meio. Sou mais forte do que isso!", Acácia protestou, embora a convicção em sua voz fosse escassa. 

"Ah, mas é exatamente isso que você é, minha querida. E, agora, não há mais retorno. Sua fé? Seu arrependimento? Já não são mais que migalhas de uma alma entregue. Continue... me alimente. Ceda uma última vez ao prazer que você busca... e eu nascerei." 

Ela sentiu o corpo enrijecer, mas o desejo continuava ardendo. A coisa dentro dela pulsava, crescendo, comprimindo-se, pronta para rasgar sua carne e tomar forma. Os pensamentos em sua mente já não eram apenas seus. A coisa estava em tudo, sussurrando e, agora, quase ordenando. Acácia fechou os olhos, sua respiração ofegante. A coisa deu uma última risada, triunfante: "Não lute, Acácia. Sua resistência... é o que eu mais desejo destruir. Liberte-se, e me liberte junto de você." 

Em seu íntimo, a noviça sabia que ela não era uma má pessoa. Temia que aquele mal, se ela permitisse, se espalhasse pelo convento. Faria mal a suas únicas amigas, ao lugar que a acolheu. Então usou tudo o que restava de suas forças para se levantar.  

“Não vou deixar que você faça isso! Eu vou gritar, eu vou chamar a madre Maranhão!” 

Ao ouvir isso, a entidade a fez levitar, evitando que ela corresse em direção à porta, e a jogou contra o espelho do quarto com muita violência. 

“Era isso que eu queria!” Acácia pensou. Agarrou o maior caco de vidro que conseguiu e começou a golpear a coisa dentro de sua barriga. Partiu feliz e aliviada, por estar liberta da espiral viciosa que era a sua própria vida e, também, por libertar o convento daquele mal.  

Um último pensamento começava a formar-se em sua mente: 

“O céu é.…” 

Alguns minutos depois, irmã Maranhão batia a sua porta e, não obtendo resposta, abriu-a, estava destrancada. Mais tarde, as irmãs procuraram o crucifixo, mas em vão, ele não fora encontrado em parte alguma do quarto. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

O nome nas sombras: um relato verídico

Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Queridos leitores, este relato obscuro mescla um fato sombrio, vivenciado nas lôbregas veredas da vida humana, e tons de criatividade e fantasia. Durante a leitura, permita-se imaginar o que seria verídico e o que não seria. Tendemos a acreditar que o mais absurdo é, decerto, o mais improvável de ser real, no entanto, podemos estar profundamente errados. Aprecie a leitura! — Sara Melissa de Azevedo

Certa vez, na quinta série, adaptamos a brincadeira do copo para uma folha de papel. Nessa folha, escrevíamos o alfabeto no topo e as palavras "entrada" e "saída" embaixo. Era para o espírito entrar e sair, e responder às perguntas guiando um lápis ou caneta sobre o papel. Todos os meus colegas estavam fazendo aquilo na brincadeira, mas eu resolvi levar a sério. E o que eu não contava era que algo que estivesse por ali decidisse me responder. 

Perguntei qual era o seu nome, e a caneta que eu segurava começou a se mover em direção às letras N e E. Quando percebi o que estava acontecendo, o medo tomou conta de mim. Assustada, tirei a caneta do papel antes que terminasse de soletrar. Amassei a folha e joguei na lixeira da sala, decidida a esquecer que aquilo acontecera. Mas não foi bem isso que aconteceu comigo… 

No fim da tarde, enquanto caminhava para casa, comecei a sentir algo estranho. Meus passos estavam pesados, como se uma mão invisível pressionasse meus ombros. Talvez eu estivesse impressionada com o que acontecera na sala de aula, ou talvez, como dizemos no Brasil, eu realmente estivesse com um "encosto": um espírito grudado em mim, como uma sombra. 

Na primeira noite, adormeci com um cansaço diferente, um peso, como se uma presença não me deixasse relaxar. Mesmo enquanto dormia, uma parte de mim parecia estar alerta. Tive um sonho — se é que posso chamar de sonho. Estava em um lugar que não consigo lembrar direito, um cenário cinzento e sem tempo, como se estivesse presa entre o sono e a vigília. Havia uma xícara de chá à minha frente, mas não havia rosto, nem vozes, só uma sensação de que algo estava errado. Do nada, a xícara começou a girar. O líquido, que eu não sabia se estava quente ou frio, queimou minha mão. Luzes começaram a piscar ao meu redor, e a xícara, antes comum, agora parecia ameaçadora, dominada por uma força invisível, prestes a ser arremessada contra mim. 

Acordei ofegante, e, embora pudesse parecer só um sonho bobo, o medo que senti foi real. Eu era apenas uma criança, mas sentia um terror profundo que não conseguia explicar. 

Nos dias que se seguiram, a sensação de uma presença ao meu lado só aumentou. Mesmo sozinha, eu não me sentia só. Uma energia densa e sufocante parecia me acompanhar, emanando algo ruim, como se todo o meu corpo estivesse em estado de alerta, ansiando por uma fuga impossível. Não havia nada visível, mas ainda assim era impossível ignorar que, de alguma forma, eu não estava sozinha. Mesmo sabendo disso, tentei levar minha rotina como se nada estivesse acontecendo. Mas ia para a aula acompanhada e observada por aquela presença, enquanto meus pensamentos me lembravam disso obsessivamente. De noite, já em casa, eu continuava a sentir a energia pesada e maléfica ao meu redor. A hora de dormir se tornou o momento mais temido do dia; além de demorar para pegar no sono, cada segundo acordada no escuro era uma tortura. Eu torcia para não ver nada ali, para não ter mais um pesadelo, mas sabia que o sono me trairia, e os sonhos estavam fora do meu controle. 

Me recordo de cada pesadelo que tive nesse período, prova do quanto essa experiência me marcou. O primeiro foi o da xícara. Depois, os sonhos se tornaram cada vez mais sinistros, como se aquela presença quisesse testar meus limites. Sonhei que o amplo quintal da minha casa não existia mais; em seu lugar, havia um cemitério sem grama, frio e desolado, com uma cova em especial que me fazia estremecer — a da minha mãe. Eu a visitava em cada sonho, embora soubesse que não poderia me comunicar com ela. Era um terror profundo, silencioso, mas sem saída. E então, uma noite, uma caixinha de música brotou da terra, iluminada por uma luz esverdeada, e dela saía uma melodia tétrica, desafinada, como se quisesse arrancar algo da minha alma. Acordei assustada, mas estranhamente aliviada por ter escapado antes que aquela música me fizesse mal, como a xícara fizera. 

Mas o encosto parecia decidido a me atormentar. Os dias seguiam com uma angústia que me consumia lentamente, e as noites se tornaram uma batalha sem fim. Por mais que tentasse resistir, o medo era implacável. Em uma dessas noites, depois de mais um pesadelo, acordei com a sensação de que havia vencido, de que finalmente tinha escapado. Foi então que senti uma pressão gélida em meu tornozelo, e algo, ou alguém, me puxou com violência. Eu tinha certeza de que não fora um espasmo involuntário; havia algo ou alguém ali, e não estava para brincadeira.  

Nos dias que se seguiram, era como se o próprio nome dele ecoasse na minha mente: N e E... Neiton, Neila… que diferença fazia? A presença se tornava mais ameaçadora a cada noite, me puxando para o pavor absoluto. 

Então, em uma dessas noites, após sentir o pé sendo puxado diversas vezes, eu estava tremendo igual a uma vara verde debaixo das cobertas, o corpo inteiro em alerta. Finalmente, num impulso, criei coragem e me levantei. Na época, meus avós, a quem eu tratava como pais, dormiam no mesmo quarto, então era só chegar na cama deles e contar.  

Eu achava que meus avós não acreditariam na história, que achariam que era tudo imaginação infantil e isso também me assustava, pois eu contava com a experiência, amor e sabedoria deles para resolver o meu problema.  

Finalmente uma luz na escuridão, ao contrário do que eu achava o meu avô me acolheu e me escutou e a minha avó fez o mesmo. Ficaram impressionados com o tanto que eu, literalmente, tremia de medo. Para o meu espanto, meu avô me contou que um dos meus tios, o mais velho, também já passara por algo semelhante. Disse que à época, eles usavam travesseiros com penas de ganso, e que tiveram de abrir um, dentro dele havia uma coroa de penas emboladas que estava machucando o meu tio.  Eu perguntei, se eles sabiam como me ajudar a me livrar daquilo.  

Então meu avô me levou em uma espécie de benzedeira, uma mulher que tinha conhecimento sobre aquilo. Ela morava próximo de nossa casa, no mesmo bairro. Quando entrei na casa dela, me senti bem, coisa que não sentia a semanas. Ela sabia sobre a minha mãe falecida, mesmo sem nunca ter me visto! Em cima da porta da sala dela, tinha um chumaço de ervas amarradas, na época eu não fazia ideia do que era, hoje imagino que era alguma magia para proteção.  

A mulher ensinou-me algumas orações para eu fazer para o meu anjo da guarda. Ensinou-me que eu deveria acender uma vela para ele em meu quarto, rodeada de açúcar, e rezar para ele. Eu segui todas as orientações à risca e também, por conta própria, comecei a rezar o terço. Havia noites em que a chama da pequenina vela ficava altíssima, cerca de um metro. Aquilo me impressionava, mas eu não sentia medo. Também fomos a um cemitério, acendemos uma vela no cruzeiro para o espírito obsessor que me acompanhava, aproveitamos e também acendemos uma vela para o espírito da minha mãe. Com o tempo o meu temor e as minhas preocupações cessaram. Meu esposo diz que tudo foi fruto da minha mente infantil da época, mas só eu sei o que presenciei e senti naquele tempo. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

Déjà-vu em forma de haicai

Um haicai de Aryane Braun

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sei que em outras vidas,
eu já te vi.
Quantas vezes, sob tua espada, pereci.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

A Colecionadora

Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Falos. Colecionava-os, de todos os tipos e tamanhos. Os primeiros, comprara em sex shops. Depois que se tornara médica legista, ficou mais fácil conseguir exemplares reais. Mas, ainda assim, os conservados em formol não a satisfizeram por muito tempo — não tinham o viço e o vigor de um retirado de um corpo quente. 

Estava excitada com a possibilidade de ter um novo e diferenciado item para sua coleção. A experiência anterior, com um doador vivo, falhara completamente; o exemplar não durara tanto quanto o desejado, suas técnicas de taxidermia ainda eram imperfeitas. Além do mais, o doador sangrara muito — tentara estancar o sangramento, mas ele se movia demais, tentando fugir, e acabou por sangrar até a morte. Deu muito trabalho para se livrar do corpo. 

Só precisava acalmar o novo doador. Terminou de preparar a seringa para a anestesia local e disse: 

— Calma, Armandinho, tenho certeza de que farei melhor uso do que você. Não se preocupe, vou cauterizar depois, sou médica, você não vai morrer… Mas te aconselho a seguir as minhas recomendações: não se mova, não grite. Ah, sim, você não pode gritar, né? O que achou do tamanho desse que está em sua boca? Depois que retirarmos o seu, poderemos comparar qual é o maior. Qual você acha que é? O seu ou o dele? 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

Iter

Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Não importava que o mundo estivesse em lockdown, Dario passava todos os dias pela curva atrás do mercado. Era o caminho mais rápido para o seu trabalho: o hospital. As ruas, antes cheias de vida e barulho, agora eram corredores vazios, como se a cidade estivesse presa em um pesadelo interminável. Todos aqueles que não precisavam sair de casa estavam dentro delas. As janelas fechadas e as portas trancadas pareciam observar Dario com um silêncio pesado, como se o isolamento tivesse tornado o próprio ambiente um vigia silencioso. Algumas casas, às cinco da manhã, ainda estavam com as luzes acesas. Ou será que seus moradores tinham acabado de acendê-las? 

Dario tinha a impressão de que nunca saberia isso, pois passava exatamente no mesmo horário por ali, e a luz já estava acesa. O vazio ao redor o fazia sentir como se estivesse sendo sugado para dentro da própria monotonia da rotina. Isso ele conseguia aceitar. O que realmente gostaria de saber era por que raios sempre se perguntava a mesma coisa toda manhã? Por quê? Nunca obteria a resposta, a não ser que acordasse antes ou se atrasasse, tendo a imensa sorte de passar por ali no exato momento em que os donos da casa estivessem apagando ou acendendo a luz. Mas, mesmo se descobrisse, isso realmente mudaria alguma coisa? A cidade parecia suspensa no tempo, sem espaço para surpresas, apenas a repetição constante de sua própria solidão. 

Gostaria de ter um amigo matemático só para calcular as probabilidades de isso acontecer. Santo Deus! A tática de pensar bobagens para não pensar no caos e no horror que o hospital estava — com vítimas de COVID que não paravam de chegar, gente morrendo nas filas de espera, a nulidade de leitos disponíveis, e ele arriscando a própria vida todos os dias na linha de frente — estava funcionando bem demais. Que tipo de médico sem coração eu sou? Pensar essas idiotices enquanto tantas pessoas morrem todos os dias, a cada momento... Que babaca eu sou. 

Ele já havia dobrado o plantão, ido para casa, dormido por quatro horas, e ali estava, passando pela curva atrás do mercado. Hoje, a luz da casa rosa não estava acesa. Sentiu-se estranhamente motivado a olhar para as janelas, reparando que eram amplas. Não havia cortinas. Parecia que os moradores tinham se mudado. 

Ou talvez estivessem mortos. Outro dia, ele pensou ter visto um vulto com máscara observando-o lá de dentro. Na ocasião, achou que era coisa de sua cabeça. Ao olhar melhor, viu que as cortinas estavam fechadas, e era apenas o padrão da estampa delas que parecia uma pessoa parada, de máscara, em pé. Sorriu ao perceber que chegava novamente ao impasse de não obter respostas sobre a casa rosa, nem sobre os moradores ou as luzes. 

Na volta do hospital, ele nunca passava pela casa rosa, mas desta vez decidiu passar. Lera certa vez em uma revista de neurologia que mudar os caminhos que percorremos habitualmente pode prevenir ou retardar o aparecimento do Alzheimer. Quando passou em frente à casa rosa, desta vez no lado da pista que ficava ao lado dela, viu que havia alguém sentado nos degraus da varanda. Usava um chapéu de abas largas, roupas pretas e uma máscara de tecido branca. 

Era sua chance! Decidiu frear e parar em frente à casa. Seu intuito era falar com o morador. Se identificaria como médico, essa era a desculpa perfeita. Perguntaria se ele estava bem, puxaria papo e aproveitaria para perguntar sobre a casa. Sim, sim, era o plano perfeito. Foi isso que pensou enquanto apertava o botão para desprender o cinto. Abriu a porta do carro olhando para a maçaneta — sempre evitava contato visual quando pensava no que iria dizer. Porém, ao dar o primeiro passo em direção à varanda, notou que a figura com o chapéu de abas largas já não estava mais lá. Devo estar me esforçando além dos limites do meu próprio corpo, pensou, nem sequer ouvi a figura se levantar, caminhar, abrir a porta e fechá-la. As luzes da casa rosa estavam apagadas. Dario pensou que não haveria mal nenhum em espiar lá dentro, quem sabe descobrisse algo. Dessa forma, ficaria satisfeito e esqueceria o assunto. 

Aproximou-se pé ante pé. Chegou a pensar em parar e retornar para o carro, ir para casa, telefonar para a recepção e avisar que tiraria o dia de folga. O julgamento de Hipócrates o impedia de trabalhar mais. Estava tão estafado que, com certeza, mataria alguém se continuasse a trabalhar. Mesmo querendo ajudar, ele não poderia ultrapassar os limites do próprio corpo. Além disso, aquilo baixaria sua imunidade e ia contra o juramento de Hipócrates. 

Mas só faltava um passo para alcançar alguma visão da janela, e ele continuou. A curiosidade sobre a casa rosa — uma casa que, a princípio, era muito parecida com todas as outras — precisava ser sanada. Ela era como uma coceira em seu cérebro, muito mais torturante que o cansaço que estava sentindo. 

Foi então que ele viu: uma cadeira e uma corda enrolada sobre ela. Somente isso. Não havia mais nada no cômodo, só isso. A porta que dava para o interior da casa estava fechada. Ele sentiu um aperto no peito. Aqueles objetos o levavam a uma conclusão óbvia: a figura de chapéu era alguém que planejava se matar. 

Novamente, Hipócrates o obrigou a bisbilhotar mais. Olhou em direção às casas vizinhas. Já passava da meia-noite, e era época de lockdown. A casa à direita ficava muito distante, e pela janela ele podia ver luzes que pareciam ser de uma TV piscando. A casa à esquerda era amarela, com muitas margaridas plantadas ao redor. Também havia girassóis. Mas, naquele horário, estava tudo desligado e fechado. Parecia ser a casa de algum casal de idosos, que não teria a mínima chance de ouvir nada. Será que algum vizinho sabia o que acontecera com os moradores da casa rosa? Será que havia moradores ou era apenas aquela figura? Porra, eu nem sei se é homem ou mulher. 

Decidiu parar de pensar e agir. Se aquilo que ele presumia fosse verdade — e ele tinha quase certeza de que era —, por que mais alguém disporia aqueles objetos daquela forma? Dirigiu-se até a porta principal e girou a maçaneta. A porta estava destrancada. Um pedido de socorro silencioso? Um grito do subconsciente daquela pessoa implorando por ajuda? Talvez... Seus instintos de médico estavam emergindo. Sentia que, pouco a pouco, estava ativo, desperto e atento. Por isso, ouviu alguém derrubar algo muito pequeno na sala. Talvez, sob outras condições — aquelas de antes do lockdown, quando ele ainda não era o médico fatigado e ansioso de agora —, talvez ele não desse atenção ao pequeno barulho. Começou a suar frio e a se arrepender daquela decisão. Quem quer que estivesse ali poderia ser perigoso e ter a mente perturbada... 

Alguém acertou sua cabeça com toda a força. Dario despertou no carro, fazendo novamente a curva atrás do mercado. Quando seus olhos pousaram sobre a casa rosa, notou que as luzes estavam apagadas. Foi tudo um pesadelo então? A casa, a cadeira, a corda... Ele se perguntava como tinha ido parar ali de novo. O desconforto crescia, e ele decidiu estacionar para verificar. Precisava ver se a cadeira e a corda ainda estavam lá. Seu corpo estava tenso enquanto caminhava. Ao se aproximar da janela, seu coração acelerou: a cadeira e a corda permaneciam no mesmo lugar, dispostas exatamente como antes. 

Desta vez, o medo o corroía de forma diferente. Sua mente gritava para se afastar, para ir para casa. Pensou imediatamente na sua família — e se aquela figura me atacar de novo? Ele imaginou Alícia e sua esposa sozinhas, esperando por ele. Fazia três meses que o lockdown havia começado, e ele mal as via, exceto nas breves horas de descanso. Ainda assim, sentia que sabia mais sobre Mari, a enfermeira do hospital, do que sobre sua própria filha Alícia. Afinal, por que diabos eu não consigo parar? 

Mesmo sabendo o que provavelmente iria acontecer, ele girou a maçaneta da porta com o máximo de cuidado, o coração batendo forte. Sentiu o formigamento nas extremidades, a ansiedade apertando-lhe o peito. Ele respirou fundo e entrou, os olhos escaneando o cômodo vazio. Então, um clarão. E, de repente... estava de volta ao carro, mãos no volante, como se nunca tivesse saído de lá. 

O carro estava em movimento, a caminho do hospital. As ruas estavam desertas, imóveis, como se a vida tivesse sido drenada de cada esquina. Um medo crescente continuava a corroer sua alma. Suas mãos estavam firmemente presas ao volante, mas ele as sentia molhadas, bem como seu peito por debaixo da camisa. As vitrines dos comércios, uma vez cheias de movimento e cores, agora eram apenas silhuetas vazias e opacas, lembranças do que já fora uma cidade viva. Sabia que era por causa do isolamento, devido à pandemia, mas sentia que algo estava errado. 

Olhava para as janelas das casas e, de repente, via diversas silhuetas, todas com máscaras, mesmo dentro de casa. As sombras nos prédios pareciam observá-lo de dentro dos apartamentos escuros, como se o vazio da cidade o julgasse silenciosamente. O medo imperava em cada olhar; as ruas, sem alma, pareciam conspirar contra ele, como se a própria cidade quisesse expurgá-lo. Por que todos estavam observando o seu carro? Eram olhares de julgamento. Mas eu sou médico, caralho! Estou fazendo a minha parte. Olhou para o timer do painel do carro; eram 13:36 da tarde. A essa altura, Alícia e Rebeca já teriam almoçado? 13:36! Ele já deveria ter batido o ponto há horas! Pisou no acelerador e, de repente, na próxima curva, lá estava ela: a casa rosa. Desta vez, com as luzes acesas. 

Lá dentro, Alícia, Rebeca e um homem, que ele não soube dizer quem era, almoçavam. As duas sorriam e conversavam animadamente. À medida que se aproximava, notou que o homem vestia suas roupas, tinha a mesma cor de cabelo que ele, os mesmos trejeitos. Quando o estranho se levantou, antes que ele fechasse a persiana, notou, com horror, que era um cara igual a ele — só que muito mais feliz! Por Deus! O que estava acontecendo? Quem era aquele? Sou eu que tenho de estar lá, e não esse cara. Mas o hospital o aguardava. Apesar de estar acelerando, fechou os olhos por alguns segundos, enquanto uma solitária lágrima de desespero e culpa escorria. Quando abriu novamente, a casa rosa estava como antes, luzes apagadas; não quis parar dessa vez e seguiu para o seu trabalho, já que estava atrasado. Por que será que Rebeca não o acordara esta manhã para ele ir trabalhar? Será que ela já não se importava? Depois que a pandemia começara, ele não tivera tempo de conversar com ela. Mas o hospital o aguardava; o juramento de Hipócrates cobrava o seu preço. Ele devia salvar vidas, sua esposa e filha poderiam entender. Elas entendiam? 

Ao chegar no hospital, um pouco de normalidade se fez presente; a realidade batia à porta! Muita gente se acotovelava na recepção do hospital, dezenas de pacientes aguardando para dar entrada, acompanhados de parentes desesperados. Dor, miséria e desespero por todo lado. Ele pegou o jaleco no banco do carona e desejou, mais do que nunca, estar com sua família. Será que, enquanto ele trabalhava, havia outro no lugar dele? Buscava, sem sucesso, tentar entender o que estava acontecendo, mas o que ele acabara de experienciar ia além dos limites da sua razão. Quando pisou no saguão do hospital, uma mulher magra e desesperada agarrou o seu braço: 

— Doutor! Doutor! Por favor, leva o meu esposo pra dentro com o senhor, senão ele vai morrer; ele não conseguindo respirar. 

Dario olhou para a mulher apontando para o paciente, um homem que estava com as mãos no peito, cambaleando. Gritou, e algumas enfermeiras acudiram rapidamente, enquanto uma pressionava o ambu, ele realizava a manobra de ressuscitação. Quando olhou para o rosto do paciente, viu seu próprio, mas desacordado, pálido... Chorando, ajoelhada ao lado dele, não mais era a senhora, e sim Rebeca, desesperada e chorando. Não estavam mais no hospital; estavam em casa, ou melhor, na casa rosa. Um clarão tomou conta da sua visão; não quis parar, não queria parar a manobra. Rebeca não iria perdê-lo! Mas novamente não teve força e nem vontade própria para lutar contra a perda de consciência. Acordou novamente atrás do volante do seu carro. Novamente na curva atrás do mercado e em movimento. 

Decidiu não olhar para a casa rosa; passou reto. Quando chegou até a esquina, ligou o pisca alerta para a esquerda. A decisão estava tomada; voltaria para casa para verificar a sua família. Apesar de gostar do seu emprego, da sua profissão, entendia que só trabalhava por elas, e se elas não existissem em sua vida, não havia motivo para continuar fazendo o que ele fazia. Iria para casa, abraçaria a sua esposa. Conversaria mais com Alícia. Mais tarde, ligaria para o hospital, dando uma desculpa, e reajustaria o seu horário; sua família também precisava dele. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

Palíndromo de carne

Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos..

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ada Reinier. Esse era seu nome; os dois nomes formavam um palíndromo, graças ao bom Deus, ela repetia, como um mantra que afastava o caos. Não sabia por que, mas nascera com uma obsessão pela perfeição, pela simetria. Dito isso, ela sabia que jamais se casaria, pois teria que modificar seu nome. 

Qualquer imperfeição era uma ferida que queimava seu pensamento até o limite. Quando se machucava, sempre feriria o outro lado. Um equilíbrio imposto, necessário para o silêncio em sua mente. Sentia um contentamento, uma espécie de prazer débil, ao observar os dois lados cicatrizando por igual. 

Então, por que o médico se recusava a livrá-la desse fardo, negando-lhe a paz de um corpo simétrico, mesmo que mutilado? Ele não aceitara remover o outro seio, o perfeito, deixando-a aprisionada na imperfeição. A irregularidade a dilacerava mais que o bisturi. O médico cirurgião não entendia. Como podia manter sua sanidade enquanto sua própria carne a traía com uma assimetria que não conseguia suportar? Por que ele não aceitara fazer a mastectomia? Perguntava-se, já com a faca em riste. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

Alimária

Padres, trabalhadores, | médicos, cantores, | poetas, trovadores... | Ninguém os quis ouvir! | Lençóis negros são estendidos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Padres, trabalhadores, 
médicos, cantores, 
poetas, trovadores... 
Ninguém os quis ouvir! 
Lençóis negros são estendidos 
pelas ruas cinzentas. 
Flores inexistentes 
em túmulos indigentes. 
A foice da caveira horrenda 
contaminou os ares: 
uma criança leva uma flor, 
mas não lhe sobrou nada, 
nem tempo para cheirá-la. 
Bombas e tiros vomitados. 
A mãe tenta ninar seu bebê. 
Gritos de dor suprema. 
Fome. 
Dor. 
Placenta. 
Simplesmente não importa. 
Se eu te pago amanhã, 
você aí de perna morta. 
Filhos morrem, 
os pais, os assassinos. 
Mercados vazios, 
ele matou o próprio vizinho. 
O primeiro item que acabou 
foi o rolo higiênico, 
meu senhor! 
O que causou tudo isso... 
Ah sim! 
Ah foi! 
A falta, a seca 
de amor... 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

Relatório de Conformidade

Data: 19/10/2347 - Primeira era das máquinas | Período analisado: Último trimestre | Objetos analisados: Unidades fêmeas e Unidades…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Data: 19/10/2347 - Primeira era das máquinas
Período analisado: Último trimestre
Objetos analisados: Unidades fêmeas e Unidades machos da fazenda reprodutiva
Objetivos da análise:

  • Verificar se as unidades estão mantendo o comportamento esperado, dentro dos padrões implantados inicialmente.

  • Caso seja identificado algum comportamento fora dos padrões, eliminar unidade defeituosa.


Critérios analisados:

  • Aparência

  • Saúde

  • Comportamento

  • Providências em caso de desconformidade


Aparência

Unidades fêmeas

  • Tempo de operação médio: 18 anos

  • Modificações corporais: 100% das unidades possuem implantes artificiais, com distribuição conforme abaixo:

    • Mamas aumentadas: 80% das unidades

    • Nádegas aumentadas: 17% das unidades

    • Outros locais: 3% das unidades

  • Cor da pele: Branco ou amarelo (100% das unidades)

  • Cabelo: Comprimento longo com variações de cores. Padrão observado em 100% das unidades.

  • Análise de desconformidade: 0,3% das unidades apresentaram alterações estéticas fora do padrão no último trimestre.

    • Providência: Correção de implantes ou eliminação da unidade, sem prejuízo à operação geral.

Unidades machos

  • Tempo de operação médio: 22 anos

  • Modificações corporais: 100% das unidades possuem implantes artificiais, com foco principal no aumento do tamanho do falo (96% das unidades).

  • Cabelos: Substituídos imediatamente por perucas sintéticas em 100% dos casos de queda. A taxa de conformidade do implante capilar permanece em 99,7%.

  • Análise de desconformidade: 0,1% das unidades apresentaram falhas no implante capilar.

    • Providência: Substituição imediata ou eliminação da unidade.


Saúde

  • Estado geral: As unidades fêmeas e machos apresentam boa conformidade com os padrões de saúde estabelecidos.

    • 97,5% das unidades estão em operação normal, sem necessidade de intervenções médicas significativas.

    • Desconformidade registrada: 2,5% das unidades exigiram manutenção médica por falhas menores. Um tipo de falha, raro mas notável, foi observado: certas unidades perderam a função de falar ou girar a cabeça, como se as articulações fossem endurecendo até a completa paralisia.

      • Nota adicional: A perda dessas funções antes essenciais parece estar ligada à ausência prolongada de interação social, o que sugere um lento declínio cognitivo e físico que se assemelha à deterioração de máquinas obsoletas.


Comportamento

  • Interação social: Nenhuma das unidades realiza interações sociais físicas ou verbais. A comunicação digital, via dispositivos pessoais, foi mantida conforme esperado, com 100% de adesão.

  • Atividade emocional: Análise das unidades não apresenta variações emocionais relevantes. Todas as interações são mediadas por inteligência artificial, eliminando a necessidade de estímulos emocionais.

  • Desvios de comportamento: Nenhum comportamento fora dos padrões foi detectado. As unidades permanecem conformes com a ausência de emoções espontâneas. Isso denota 100% de sucesso nas operações de unidades com defeitos irreversíveis. Falhas psicológicas, uma vez identificadas, se mostraram 100% impossíveis de conserto, sendo a eliminação a única solução viável.

    • Nota adicional: O desespero silencioso dessas unidades, embora não mensurável, é percebido como um subproduto aceitável da otimização da conformidade.


Providências em caso de desconformidade

  • Unidades com defeitos físicos: A taxa de eliminação e substituição de unidades com falhas estéticas ou comportamentais foi mantida em 0,2% neste trimestre.

  • Unidades com falhas críticas: Em caso de falhas severas, como comportamento imprevisível ou modificações não autorizadas, as unidades foram desativadas e retiradas do ciclo operacional em menos de 24 horas. Método de eliminação: incineração rápida e eficiente.

    • Nota adicional: O uso de jazigos foi eliminado como desnecessário. Unidades com defeitos não recebem nenhum tipo de resíduo biológico.

  • Providência de longo prazo: Avaliar a viabilidade de reduzir a necessidade de intervenções estéticas em 15% das unidades, devido à irrelevância de impacto nas interações sociais.

    • Avaliar também a viabilidade de modificação genética para acelerar a reprodução e diminuir o tempo de operação para 14 anos. Unidades mais frágeis, porém, mais fáceis de substituir.

    • Estudo sobre a implementação de máquinas incineradoras ambulantes para eliminar diretamente as unidades defeituosas sem a necessidade de busca e apreensão. Tal dispositivo pode identificar defeitos nas unidades e proceder à eliminação imediata.


Conclusão

As unidades da fazenda reprodutiva mantêm altos índices de conformidade. Comportamento, aparência e saúde estão dentro dos padrões preestabelecidos. Não foi detectada necessidade de ajustes no controle geral da operação. Vitória em relação ao trimestre anterior, pois não houve necessidade de lobotomização ou eliminação de unidades com comportamento violento ou suicida.

  • Nota adicional: A eficiência crescente no controle de falhas comportamentais demonstra o avanço na erradicação de qualquer traço de individualidade ou autonomia. O sistema está próximo de eliminar totalmente a noção de resistência entre as unidades biológicas.

    Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

Elegia de Jack O’Lantern

Óh, desgraçada forma essa a minha, | Do meu destino não prevejo uma linha. | Pois a sete palmos do chão, | Jaz uma amada, morta…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Óh, desgraçada forma essa a minha,
Do meu destino não prevejo uma linha.
Pois a sete palmos do chão,
Jaz uma amada, morta por minha mão.

Óh, desafortunada forma essa a minha,
Envenenado, não por feitiço ou varinha.
Sofri quando me disseste: "me esqueça!"
Uma abóbora tenho, ao invés de cabeça.

Óh, formosa forma era a tua!
Apaixonei-me, pois a vi nua.
Seu sorriso, primavera pura,
Nunca estaria eu à tua altura.

Óh, gloriosa forma era a tua!
Passei a persegui-la nas ruas.
Rubras melenas aquecem o coração,
Amor, candura e tentação.

Óh, graciosa forma me seduz!
Teus passos, dança que me conduz.
Teu perfume, doce brisa ao luar,
Eras meu sonho, impossível de alcançar.

Óh, funesta decisão que obriguei-me a tomar:
Se não posso te ter, não há por que te deixar.
Se não posso a ti chegar, que você venha a mim,
E assim decidi pelo seu fim!

Óh, vergonhosa decisão, ponho-me a lamentar:
Desgraçado sou! Como pude te aniquilar?
Num ímpeto sombrio, tua vida tirei,
E agora, em silêncio, minha chama extinguirei.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

 
 

Leia mais em “Poesias”

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais

Os gêmeos: retrato post-mortem

Pequenas almas, cujos olhos fechados | Eternizam-se no silêncio da imagem. | Dormem serenas, enquanto os lábios, | Com leves sorrisos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Pequenas almas, cujos olhos fechados
Eternizam-se no silêncio da imagem.
Dormem serenas, enquanto os lábios,
Com leves sorrisos, congelam-se no tempo.
As cútis alvacentas, sem marcas de dor,
Refletem o indiferente flash da câmera,
Revelam as cicatrizes indeléveis
Do luto que coroa seus pais.

Que deus tirano também fechou os olhos?
Permitindo que as moscas vivam e os rodeiem,
Enquanto as flores ao redor, em silêncio,
Fenecem lentamente, resistindo à passagem?
Bebês, que cedo partem, são estrelas cadentes,
Enquanto a vida nas pétalas definha, devagar.
Suas lembranças, tão alegres e fugazes,
Já não existem mais, para o lamento de seus pais.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

Três e trinta e três

Oito anos após a morte de meu esposo. Coloco minha cabeça no travesseiro. Você não está mais ao meu lado, como sempre. É... já faz cinco, ou será que são…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Oito anos após a morte de meu esposo. 
Coloco minha cabeça no travesseiro. Você não está mais ao meu lado, como sempre. É... já faz cinco, ou será que são sete anos? Eu não sei, mas o seu relógio despertador está ali, a dentadura, os óculos deixados de lado para dormir; tudo que você deixou está ali. 

Oito anos e um dia após a morte de meu esposo. 
Estranho... Hoje de manhã, quando acordei, o seu relógio despertador estava no chão. Estou certa de que ele vibra ao despertar e que estava próximo da beirada da mesa, mas não consigo me lembrar de tê-lo programado para isso. 

Oito anos, um dia e 11 horas após a morte de meu esposo. 
Eu me lembro de ter deixado o relógio despertador ligeiramente mais à direita hoje de manhã, quando o recoloquei na mesa. 

Oito anos, um dia e meio após a morte de meu esposo. 
Meia-noite. Acordei assustada durante um pesadelo. Pensei ter visto alguém na porta do quarto, parado e em pé. Não era nada, só o meu roupão pendurado no gancho. 

Oito anos, um dia e quinze horas após a morte de meu esposo. 
O despertador tocou às três horas da madrugada. Agora me lembro de tê-lo programado, mas era pra ter sido às três horas da tarde, e não agora. Me enganei. 

Oito anos, um dia, quinze horas e cinco minutos depois da morte de meu esposo. 
Sinto uma mão gélida afastar os cabelos que estão sobre a minha testa. Sinto uma fraquíssima, indelével corrente de ar, um toque frio na minha testa. Abro um olho. Devo estar sonhando. 

Oito anos, um dia, quinze horas e dez minutos depois da morte de meu esposo. 
Não consigo dormir. Sinto que não estou sozinha em meu próprio quarto. Começo a suar, está quente! A água... Vou tomá-la, ela sempre está aí. Do seu lado da cabeceira. 

Oito anos, um dia, quinze horas, dez minutos e vinte segundos depois do assassinato de meu esposo. 
Socorro! Minha garganta está fechando! Me solta... Tira as mãos do meu pescoço, querido, você não entende? Você tinha de morrer. 

Oito anos, um dia, quinze horas, trinta e três minutos depois que matei meu esposo envenenado. 
Está tudo escuro. Por que o despertador tocou? Abro os olhos e não vejo nada, apenas preto. Depois, nada... 

3h33min 
Óbito: Feminino, branca 
Idade: Não informada 
Causa provável do óbito: Intoxicação por medicamentos 
Observações: Nenhum sinal de violência externa. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”

Leia mais

Levante de Halloween

A escuridão se avoluma, | sob sua luz escaldante. | Hoje, a Lua é Sol, | e o Sol se veste de noite. | Brilha como o próprio Sol, | seu açoite é abrasante. | Minh ‘alma se acostuma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A escuridão se avoluma,
sob sua luz escaldante.
Hoje, a Lua é Sol,
e o Sol se veste de noite. 

Brilha como o próprio Sol,
seu açoite é abrasante.
Minh’alma se acostuma,
mira ossos caminhantes. 

São vultos em brasas!
Folhas de outono a queimar...
Abóboras laranjas,
velas a incendiar 

Saem das sepulturas,
os mortos a vagar.
Suas formas, impuras,
vêm os vivos abocanhar.

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais em “Poesias”:

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais
Escrito por Aryane Braun, -Prosa Poética Aryane Braun Escrito por Aryane Braun, -Prosa Poética Aryane Braun

Ecos do brejo noturno

Caminho hesitante pelo brejo, onde infinitos sons se desprendem e se libertam na atmosfera densa. Consigo distinguir os sapos, que coaxam suas...

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

(Ler preferencialmente ao som de Moonlight Sonata de Beethoven) 

Caminho hesitante pelo brejo, onde infinitos sons se desprendem e se libertam na atmosfera densa. Consigo distinguir os sapos, que coaxam suas lamúrias de maneira langorosa e melancólica. Pererecas frenéticas ecoam em uníssono, como se compusessem para uma orquestra infernal, emitindo sons curtos e nervosos. Eles se mesclam iniquamente ao ruído de outro animal. Este emite um único, espaçado e funéreo clangor, como se estivesse tocando uma trompa de forma insistente, uma canção de morte e horror que anuncia o meu fim cada vez mais próximo. Mais ao longe, outro grupo de anfíbios copula em meio a esses barulhos, numa intrincada profusão de toadas insidiosos. Sinto-me exausta de caminhar por dentre esta sonata impura. Sem realmente ouvir nada, meus passos parecem destoar desta composição funérea. 

Oh, criaturas lúgubres de sangue frio! Não posso vê-las todas, mas sinto seus olhares úmidos sobre a minha pele, que se torna fria e eriçada. Meu coração acelera, ansioso e acovardado; o sinto arder em meu peito. O som ininterrupto, monótono e irritante destes anfíbios persiste. Com as pupilas dilatadas, busco desesperadamente adaptar-me à escuridão, tentando, ao mesmo tempo, evitar ver estes seres asquerosos e abjetos que aqui habitam. Algo se move sob a água; eu vi, tenho certeza. Ou talvez seja apenas o afundar das minhas botas na lama, perturbando um frágil equilíbrio que não quer ser incomodado, alertando sobre minha intrusão nesse ambiente inóspito e alterando a putrefação das folhas que se acumulam no chão. 

Um cheiro de podridão e morte invade minhas narinas nauseadas, mas vejo inúmeras plantas verdejantes. Elas formam campos extensos e úmidos. No solo profundo e encharcado, suas raízes se entrelaçam e compartilham segredos de tempos imemoriais; juncos amaldiçoados se propagam até onde meus olhos não conseguem mais ver e balançam a favor do vento frio, desdenhosos e altivos. Até eles parecem me observar e formar um dueto penetrante de ares gélidos. Metade do meu corpo está mergulhado nesse pântano. Minhas sensações são incertas. Não sei se calço botas; meus ossos congelam a cada passo, e tenho que reunir todas as minguadas forças para desatolar meu estafado pé do profundo lodo. Raízes vivas e tenazes penetram meus poros, numa união pecaminosa, onde o verde mancha o meu sangue derramado. 

Minha mente luta. Os braços já estão lacerados, mas ainda assim as mãos agarram a folhagem cortante, tentando usá-la para resgatar-me dessas sensações lodosas. Todos estes lamentos insistentes confundem minha mente. Será o coaxar dos anfíbios ou o cantar do vento por entre as folhas? Fazem-me querer deitar sobre o verde, a lama, os galhos, os ossos, a pele e o sangue, deixando que o tempo infinito cubra todo o meu frágil corpo com mais folhas podres e, finalmente, minhas carnes se afundem neste solo conspurcado.  

É então que posso ouvir um cântico longínquo, vindo das profundezas desse pântano escuro, onde os fachos lunares mal penetram a densa névoa. Não se trata apenas da união de sons animalescos. São vozes que repetem o meu nome: 

— Anika! Anika! Anika! 

Não vêm da direita ou da esquerda. Surgem sob o meu corpo, que jaz deitado. Agora, com o ouvido encostado ao frio solo, posso ouvir o crescer lento e nocivo das raízes; ouço seus gemidos surdos. Sussurram o meu nome, atraindo-me para as suas moradas. Quantas vítimas ressoam misturadas ao silêncio das raízes crescendo por dentre as águas e atravessando seus corpos? Será que hoje ainda irei sonhar com lua? Que saudade tenho de seus raios prateados que não poderei mais sentir banhar a minha pele. 

Texto publicado na 9ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de setembro de 2024. → Ler edição completa

Leia mais em Prosas Poéticas

bloco de sumário
O bloco ainda não tem conteúdo. Os itens que você adicionar à página associada ao bloco aparecerão aqui.
Leia mais