Mar de Escuridão

As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
(Augusto dos Anjos)

 

As pessoas seguem suas vidas como se caminhassem sob o sol tranquilamente, enquanto eu afundo lentamente. Nadar contra a maré da escuridão é uma tarefa exaustiva; cada braçada parece arrastar correntes invisíveis presas aos meus membros. Quando finalmente eu alcanço alguma praia esquecida, encontro apenas areia fria e um horizonte coberto por névoa. Ânsia.

Às vezes consigo acender uma pequena fogueira sob o olhar pálido da lua crescente. Por alguns instantes, observo o vasto oceano negro diante de mim e quase esqueço a agonia que habita minhas entranhas. Mas o alívio dura pouco. Logo, a escuridão profunda infiltra-se através da pele, dos olhos e dos meus ossos. Ela pesa sobre mim encharcada, roubando minhas palavras, dobrando minha vontade à dela e tornando cada passo adiante uma batalha contra o próprio abismo. Tontura.

A Escuridão, esta criatura densa e disforme, se personifica e senta ao meu lado, tocando o meu ombro, sussurrando vozes dissonantes carregadas dos meus piores anseios e fracassos; fantasmas que nunca sepultei. As vozes parecem ter vontade própria, elas rastejam pelos corredores da minha mente e a Escuridão se torna um abraço que envolve o desconforto, o medo e a ansiedade. Pouco a pouco, se transformam em um abraço familiar. Um abraço sufocante, porém, estranhamente acolhedor, que envolve o medo, a ansiedade e o desconforto até que se tornem indistinguíveis de mim. “O sonido agudo e áspero que se difunde ecoante e ininterrupto será a fonte da minha loucura? Agonia.”

Há dias em que observo meu reflexo e encontro apenas algo estranho sob minha pele. Seu rosto é o meu, mas seus olhos pertencem a um brilho opaco. A cada amanhecer, sinto-me mais distante das pessoas. Não por desprezá-los completamente, mas porque reconheço nelas a mesma matéria que alimenta minhas feridas. Afinal, a arte, a música, a literatura e até mesmo as cicatrizes da alma carregam as marcas da humanidade. Mesmo assim, quando você começa a se odiar, é difícil não odiar seus semelhantes. A natureza intocada e insondável é um refúgio!

Quando durmo, sinto um peso descer sobre meu peito. É a mesma Escuridão que me acompanha durante os dias, mas que à noite assume formas mais cruéis e definidas. Apagar as luzes transforma-se em um ritual de enfrentamento. Figuras arabescas e medonhas começam a se contorcer nos cantos do quarto. Elas observam em silêncio, aguardando o momento oportuno para devorar meus pensamentos e alimentar-se de minha essência. A paralisia me encontra.

Em minha mente habita um oceano profundo e agoniante, onde a Escuridão parece possuir matéria própria. Suas águas negras estendem-se até onde a razão não alcança, ocultando criaturas e lembranças que jamais deveriam emergir à superfície de meu inconsciente. Durante os devaneios que interrompem os afazeres mais comuns do dia, uma súbita petrificação me toma totalmente. Por alguns segundos, que se alongam como eternidades, minha consciência mergulha até o abismo interior repleto de olhos cadavéricos e sem pálpebras, todos a me encarar.

Então, eu as vejo:

Figuras esguias de longos cabelos negros, flutuam sob as águas escuras. Seus corpos dançam lentamente nas correntes profundas como se obedecessem a uma música fúnebre que apenas elas podem ouvir. Às vezes afundam, às vezes, retornam à superfície. Seus braços pálidos e esquálidos rompem as ondas e suas mãos estendem-se para o alto em um gesto desesperado, como se buscassem uma saída daquele reino submerso.

Não sei quem são.

Talvez sejam os restos de sonhos que abandonei. Talvez sejam versões antigas de mim, afogadas pelos anos, pelos medos e pelas renúncias. Ou talvez sejam apenas as filhas da ansiedade, eternamente condenadas a emergir e afundar nas águas escuras da minha própria alma...

A Ansiedade habita as profundezas desse oceano. Vejo apenas seus dedos longos surgindo entre as ondas para agarrar meus tornozelos. Acima das mãos fantasmagóricas que se debatem sob a superfície, ela se ergue envolta em suas próprias trevas. Alta e disforme, estende os braços em direção à lua alva que tantas vezes me salva, como se desejasse alcançá-la. Como se quisesse apagar a única luz capaz de atravessar seu reino de sombras.

Por vezes, desenhei tal devaneio em rabiscos soturnos de tinta negra sobre as páginas empoeiradas dos meus velhos cadernos, tentando compreender o que afirmavam aquelas figuras espectrais e as águas tortuosas que habitam minha mente. A sombra eterna e sublime sempre me aguarda lá dentro. No fundo do inconsciente e nas cicatrizes do coração, ela sempre retorna. Às vezes, penso que ela assombra quem sou. Outras vezes, temo que assombre quem eu poderia ter sido.

O que posso fazer com estas sombras além de adorá-las? Devo adorá-las ou fugir delas? Talvez elas sejam o próprio mar. Algo sempre me diz que não adianta tentar destruí-las quando já são profundas em minhas entranhas, quando as figuras esguias e fantasmagóricas de meu próprio eu são fragmentos do meu próprio espelho. A figura que mais temo em minha mente aponta sempre para o alto, envolta em um manto negro, suas garras quase alcançam o céu de minha mente. Como afogar espectros que nasceram das mesmas águas que me deram forma?

Temo que ela alcance o exterior do meu corpo. Não porque deseje destruir-me o que é provável, mas porque receio descobrir que jamais existiu separação entre nós. Que minha essência não venha a ser totalmente arrastada para as profundezas da escuridão, mas que retorne ao lugar de onde nunca realmente saiu.

— E se eu sempre tiver pertencido a ela?


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Os Simulacros da Noite e a Sentença do Sono

I | É um erro crer | que o sono abriga algum refúgio. | Deitar-se na escuridão | é depor as insígnias da vontade, | é entregar a alma, | desarmada, trêmula…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I

É um erro crer
que o sono abriga algum refúgio.
Deitar-se na escuridão
é depor as insígnias da vontade,
é entregar a alma,
desarmada, trêmula e pálida,
ao império absoluto
dos espectros e da febre. 

Havia uma razão severa
nas antigas advertências
que proibiam o espelho
defronte ao leito de agonia;
os velhos sábios sabiam
que o repouso é nossa maior indigência,
o instante em que o corpo
ensanguentado se faz vulnerável. 

Expor-se ao cristal
é convidar o infinito e o túmulo
a devorarem, gole a gole,
a nossa substância. 

É então que sobe muda a paralisia,
aquele gélido torpor
de tísica e de luto,
onde o sangue congela nas veias
feito o vinho nos cálices esquecidos
e o tempo se transforma
em um peso sufocante sobre o peito.

Vêm as emoções noturnas
sobre a imensidão que esmaga,
o pessimismo existencial
que desperta nas horas mortas,
enquanto a mente se perde
em aflições sobre o nada absoluto,
indagando, em vão,
sobre o abismo insondável do ser. 

Nestas paragens sombrias
e malditas de Agonihria,
os tormentos da mente
não se desfazem com o amanhecer;
antes, fragmentam-se
como agulhas invisíveis de um delírio,
perfurando a barreira
que separa o tédio da vigília. 

Tudo se tinge em tons de púrpura,
estímulos sensoriais ligados ao escuro,
onde coisas e seres
de beleza extraordinária
revelam sua essência agônica. 

É a contemplação dolorosa
da matéria escura que tudo envolve,
a agonia muda e visceral
por não poder desvendar o universo
em seu mistério mais sombrio.

II 

O infeliz que desperta deste transe
não retorna à segurança;
Traz nos lábios
o gosto amargo de terra,
a alma exausta de sonhos
e pesadelos angustiantes,
descobrindo que o chão
da realidade desperta
foi contaminado pelo veneno
de um estado psicológico martirizante. 

Olhai, pois,
para o interior daquele abismo.
Ali reside o morador do reflexo,
o fantasma da alcova,
ostentando um riso medonho,
satânico e cadavérico,
com olhos vazios que fitam
a própria eternidade do horror.

Ele não ri por alegria
sua face tem a rigidez da morte,
mas pelo excesso de um suplício
que desafia a linguagem. 

Quão fatal é o impulso
daquele que, tomado de pavor,
golpeia o vidro
na vã tentativa de sepultar a aparição;
quebrar o espelho
é o caminho mais rápido para a perdição. 

A imagem não morre:
se multiplica em mil sarcófagos.
Cada diminuto estilhaço
espalhado pelo chão do quarto
converte-se em um novo olho
vítreo que vigia;
cada fração de vidro reproduz
o mesmo riso imóvel e infame. 

Não são necessários séculos
de martírio para que a alma capitule;
basta uma breve semana
de uma vigília corrompida,
entre o ópio, a loucura
e o espectro de uma virgem morta,
para que o suntuoso edifício da razão
desabe em ruínas. 

A demência ou a própria morte
seriam cortesias divinas,
pois o flagelo definitivo
deste labirinto
não é o repouso na sepultura:
— onde as flores murcham em paz,
mas a condenação
de permanecer perfeitamente lúcido,
exilado para sempre
no avesso daquele cristal partido.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Liturgia da Noite

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante,
e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante,
eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,
carregando em meu peito a sombra da tua partida. 

A noite abre seus braços como uma mãe silenciosa,
coroada por estrelas numa tristeza formosa,
e eu, pobre peregrino de um destino sem calor,
faço da escuridão o altar do meu amor. 

Há um canto entre as sombras que somente eu conheço,
onde os ventos da saudade rezam sem endereço,
ali deposito os sonhos que jamais pude viver,
flores negras de esperança que se recusam a morrer. 

Eu te amei como a lua ama o mar adormecido,
como um castelo em ruínas ama o tempo consumido,
eu te amei como a chuva ama o bosque outonal,
num desejo sem retorno, num suplício espectral. 

Teu nome era um incenso pelas trevas espalhado,
um fantasma luminoso sobre o mundo abandonado,
e cada noite sem tua presença junto à minha
era uma cruz carregada por uma alma que definha. 

Quantas vezes contemplei a madrugada vazia,
vendo a dor fazer morada onde antes havia alegria,
quantas vezes a lembrança, como um corvo sepulcral,
veio pousar sobre os restos do meu sonho ancestral. 

As estrelas pareciam olhos frios a vigiar
o lento naufrágio da esperança perdida no luar,
e a lua, velha sacerdotisa das tristezas sem fim,
derramava sua prata sobre os desertos em mim. 

Então compreendi o segredo que a noite escondia:
toda lágrima guardava uma secreta alquimia,
pois a dor, quando profunda, como um rio subterrâneo,
escava dentro da alma um reino vasto e arcano. 

Foi quando o amor surgiu entre os escombros do sofrer,
como uma rosa impossível voltando a florescer,
não um amor de incêndios nem de febre passageira,
mas um farol aceso contra a tormenta derradeira. 

Veio suave como um hino que atravessa a eternidade,
como um anjo fatigado retornando à claridade,
e tocou minhas feridas com um gesto tão sereno
que transformou o meu inverno num pesadelo ameno. 

Desde então a escuridão continua a me chamar,
e ainda ouço as velhas mágoas sussurrando ao luar,
mas já não sou o espectro que vagava sem destino,
pois carrego dentro do peito um fogo clandestino. 

A noite segue sendo minha amante e confidente,
o espelho onde contemplo minha alma decadente,
mas onde antes reinava o abandono sepulcral,
ergue-se agora um sonho sereno e imortal. 

E se um dia o tempo vier fechar meus olhos cansados,
e eu repousar entre os mortos, pelos séculos velados,
que escrevam sobre minha lápide, em letras de esplendor: 

"Aqui dorme um homem triste,
salvo pela noite e redimido pelo amor."


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Velian em Agonihria: Os Dentes do Abandono

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas. O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas.

O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no cômodo escuro. As estantes repletas de livros antigos e modernos. As cortinas pesadas impedindo a entrada do sol nordestino. Nada havia mudado.

E, ainda assim, algo nele estava diferente.

Nas noites que se seguiram ao retorno, vagou pelas ruas da cidade sem propósito definido. Caminhava pela Beira-Mar observando as barracas que encerravam suas atividades, os pescadores preparando embarcações para a madrugada, os vendedores desmontando estruturas sob o vento constante que vinha do Atlântico. Fortaleza nunca dormia completamente; apenas diminuía o ritmo. Havia sempre alguém acordado, alguém amando, alguém brigando, alguém chorando.

Os humanos insistiam em existir com uma intensidade que o fascinava.

Séculos atrás, aquilo lhe parecera ridículo.

Décadas atrás, invejável.

Agora lhe parecia belo.

Talvez porque finalmente compreendesse que a fragilidade era parte daquilo que tornava cada momento significativo.

Ou talvez estivesse apenas envelhecendo.

Sorriu diante da própria conclusão.

— Um vampiro envelhecendo. Que piada de mau gosto.

Continuou caminhando.

O vento espalhava o cheiro da maresia pelas avenidas. Ao longe, um pequeno bar ainda mantinha música acesa na madrugada. Vozes embriagadas misturavam-se ao som distante do mar. Velian observava tudo como quem contempla uma peça teatral conhecida.

Desde o encontro com Cassandra, algo permanecia inquieto em sua mente.

Não era saudade.

Jamais utilizaria uma palavra tão humana.

Mas a lembrança dela surgia ocasionalmente.

O sorriso irônico.

Os olhos vermelhos.

A maneira como debochava de suas perguntas.

A forma como parecia compreender a escuridão sem precisar interrogá-la constantemente.

Talvez fosse isso que mais o irritava.

Ou admirava.

Ainda não decidira.

Também pensava em Nix.

A Senhora da Noite não lhe concedera respostas. Pelo contrário. Desde aquele encontro, as perguntas haviam se multiplicado. Contudo, agora possuíam outra textura. Já não eram apenas feridas abertas buscando explicações. Tornaram-se caminhos.

Velian continuava sem compreender a existência.

Continuava sem compreender a eternidade.

Continuava sem compreender a si mesmo.

Mas passara a gostar da busca.

Aquilo era novo.

Durante muito tempo procurara respostas para preencher um vazio.

Agora buscava porque desejava conhecer.

Talvez houvesse diferença.

Talvez não.

As dúvidas permaneciam.

Como sempre.

A madrugada avançava lentamente quando o frio chegou.

Um frio impossível.

Não era o vento do oceano.

Nem uma mudança climática comum.

Era um frio antigo.

Sobrenatural.

O tipo de frio que atravessava carne, osso e memória.

Velian parou imediatamente.

Uma cinza negra caiu sobre seu ombro.

Depois outra.

E outra.

Levantou a mão.

Os fragmentos escuros pareciam pequenos pedaços de carvão reduzidos a pó. Possuíam um odor estranho. Não o cheiro comum da fumaça, mas algo semelhante a flores apodrecidas, madeira úmida e tecido guardado durante séculos.

Conhecia aquele sinal.

O Castelo Drácula estava chamando.

Porém havia algo diferente.

Normalmente o chamado possuía um aspecto quase curioso, como uma porta se abrindo para mais um mistério.

Desta vez parecia um pedido de socorro.

Ou um aviso.

As sombras começaram a reunir-se diante dele.

As luzes da avenida tornaram-se distantes.

Os sons da cidade enfraqueceram.

Até mesmo o mar pareceu recuar.

Velian suspirou.

— Espero sinceramente que desta vez ninguém tente me ensinar outra metáfora sobre a existência.

As sombras abriram-se.

E ele atravessou.

O impacto foi imediato.

Agonihria.

O nome surgiu em sua mente como uma lembrança esquecida.

Cinzas negras caíam continuamente do céu.

Uma névoa púrpura espalhava-se entre as torres do Castelo Drácula como um organismo vivo.

O ar possuía cheiro de decomposição.

Não a decomposição comum da carne.

Mas algo mais antigo.

O odor de memórias esquecidas.

De sonhos abandonados.

De promessas que jamais foram cumpridas.

O Castelo parecia diferente.

Mais alto.

Mais vasto.

Como se tivesse envelhecido milhares de anos desde a última visita.

As muralhas estavam parcialmente cobertas por musgos escuros. Rochas pontiagudas emergiam dos jardins. Pinheiros negros curvavam-se sob o peso das cinzas.

E havia silêncio.

Um silêncio tão profundo que parecia observar.

Velian avançou pelos corredores.

As sombras pareciam mais densas.

As paredes suadas pela umidade refletiam discretamente a luz violeta que filtrava-se pelas janelas.

A cada passo sentia uma estranha sensação de abandono.

Como se estivesse caminhando através das ruínas emocionais de alguém.

Ou de alguma coisa.

Os corredores pareciam maiores do que deveriam.

As distâncias alteravam-se.

Portas surgiam onde antes não existiam.

Escadas conduziam a lugares impossíveis.

O próprio Castelo parecia sonhar.

E o sonho não era agradável.

Então ouviu uma voz familiar.

— Continuas com a péssima mania de chegar atrasado.

Velian sorriu antes mesmo de vê-la.

Cassandra estava encostada numa coluna próxima a uma janela quebrada. Os longos cabelos escuros caíam pelos ombros. O vestido negro contrastava com a pele pálida. Seus olhos vermelhos observavam a tempestade de cinzas que caía além do vidro.

Por um instante, a opressão de Agonihria pareceu diminuir.

Apenas um instante.

— Pensei que estivesses no Rio.

— Eu estava.

— E agora estás aqui.

— Excelente dedução.

— Séculos de prática.

O sorriso dela surgiu discreto.

— Vejo que ainda não encontraste respostas.

— Vejo que ainda finges não fazer perguntas.

Cassandra soltou uma breve gargalhada.

— Talvez eu apenas seja mais inteligente.

— Ou mais teimosa.

— Também.

Por alguns segundos permaneceram observando a paisagem espectral.

As cinzas continuavam caindo.

A névoa ondulava entre as torres.

O Castelo parecia respirar.

Então Cassandra tornou-se séria.

Algo raro.

— Este lugar está errado.

Velian voltou o olhar para ela.

— O Castelo costuma estar errado.

— Não desta forma.

O tom de sua voz bastou.

Cassandra raramente demonstrava preocupação.

Quando o fazia, havia motivo.

— O que encontraste?

— Nada.

— Isso parece ruim.

— É pior.

Ela afastou-se da coluna.

— O Castelo está vazio.

Velian sentiu um leve arrepio.

Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.

O Castelo Drácula jamais estava vazio.

Sempre havia vozes.

Presenças.

Monstros.

Ecos.

Memórias.

Alguma coisa.

Mas agora existia apenas silêncio.

E o silêncio parecia faminto.

O silêncio parecia faminto.

Velian e Cassandra avançaram pelos corredores do Castelo Drácula sem dizer mais nada durante alguns minutos. Em circunstâncias normais, ambos trocariam provocações incessantes. Era quase um hábito antigo. Contudo, Agonihria possuía uma maneira peculiar de tornar o humor mais difícil.

As cinzas negras continuavam caindo do lado de fora.

Em determinados momentos, Velian teve a impressão de ouvir vozes misturadas ao som do vento.

Sussurros.

Lamentos.

Palavras incompreensíveis.

Quando tentava escutá-las melhor, desapareciam.

O corredor começou a estreitar-se.

Ou talvez estivesse apenas parecendo mais estreito.

Em Agonihria era difícil distinguir realidade de percepção.

As paredes de pedra deram lugar a superfícies cobertas por papel decorativo antigo. Arabescos púrpura espalhavam-se por desenhos florais quase apagados pela umidade. Fungos escuros consumiam os cantos. Em alguns trechos, o papel descascava lentamente como pele morta desprendendo-se de um cadáver.

O cheiro tornou-se mais intenso.

Mofo.

Ferrugem.

Terra molhada.

E algo mais.

Algo químico.

Doentio.

Cassandra aproximou os dedos de uma das paredes.

— Arsênio.

Velian arqueou uma sobrancelha.

— Claro que você sabe reconhecer arsênio pelo cheiro.

— E você não?

— Não costumo cheirar venenos por diversão.

— Falha de caráter.

Continuaram caminhando.

A arquitetura mudava à medida que avançavam. O aspecto medieval do Castelo desaparecia gradualmente. Corredores vitorianos surgiam diante deles. Lustres enferrujados pendiam do teto. Tapetes antigos apodreciam sob os próprios fios.

Tudo parecia abandonado havia séculos.

E, ainda assim, existia uma estranha sensação de presença.

Como se alguém observasse através das paredes.

Como se alguma coisa aguardasse.

Velian percebeu primeiro.

— Estamos sendo seguidos.

Cassandra não demonstrou surpresa.

— Eu sei.

— Há quanto tempo?

— Desde que chegamos.

— E não pretendias comentar?

— Estava curiosa.

— Evidentemente.

Uma sombra moveu-se no final do corredor.

Depois desapareceu.

Outra surgiu atrás deles.

Em seguida uma terceira.

Velian estreitou os olhos.

As formas eram humanoides.

Mas algo estava errado.

Os movimentos pareciam quebrados.

Como marionetes manipuladas por mãos invisíveis.

Nenhum som acompanhava seus passos.

Nenhuma respiração.

Nenhum coração.

Nada.

Apenas presença.

Continuaram avançando.

Os vultos também.

Sem atacar.

Sem se aproximar demais.

Apenas observando.

Como animais avaliando uma presa.

Ou talvez convidados.

A mansão revelou-se subitamente.

Nenhum dos dois percebeu exatamente quando chegaram.

Ela simplesmente estava ali.

Uma enorme construção vitoriana erguida no interior do Castelo.

Janelas altas.

Paredes cobertas de fungos.

Varandas corroídas pelo tempo.

O lugar parecia existir fora da lógica.

Como se tivesse sido sonhado por alguém que nunca conhecera arquitetura.

Velian observou a construção durante alguns segundos.

— Tenho uma péssima sensação sobre isso.

— Então estamos no caminho certo.

— Eu realmente detesto tua lógica.

Subiram os degraus.

A porta abriu-se sozinha.

O interior mergulhava numa penumbra violeta.

Velas apagadas ocupavam castiçais enferrujados.

Quadros cobertos por tecido acumulavam poeira.

Relógios antigos permaneciam imóveis.

Nenhum marcava a mesma hora.

Nenhum parecia marcar hora alguma.

Então ouviram.

Um som.

Baixo.

Distante.

Como alguém mastigando.

Velian parou.

O som repetiu-se.

Mastigação.

Lenta.

Úmida.

Persistente.

— Diga que ouviu isso.

— Infelizmente.

O ruído aumentou.

Veio do andar superior.

Depois de outro cômodo.

Depois de vários lugares ao mesmo tempo.

Como se dezenas de bocas trabalhassem simultaneamente.

Mastigando.

Roendo.

Triturando.

A mansão inteira parecia alimentar-se de alguma coisa.

O desconforto espalhou-se pelo ambiente.

Pela primeira vez desde que chegara, Velian sentiu uma antiga sensação emergir.

Medo.

Não o medo comum dos mortais.

Mas aquele raro desconforto que apenas os verdadeiros mistérios provocavam.

Continuaram avançando.

O som tornou-se mais próximo.

Mais intenso.

Mais orgânico.

Até encontrarem o quarto.

A porta estava entreaberta.

O cheiro era insuportável.

Mofo.

Ferrugem.

Carne deteriorada.

Sangue antigo.

E aquele estranho odor químico vindo dos papéis de parede.

No centro do aposento havia uma cama vitoriana.

Os lençóis estavam rasgados.

Escurecidos.

Como se décadas de poeira houvessem se acumulado sobre eles.

Diante da cama erguia-se um espelho gigantesco.

A moldura era ornamentada com flores esculpidas.

Mas as flores pareciam apodrecidas.

Distorcidas.

Quase vivas.

Velian aproximou-se.

O próprio reflexo surgiu.

Algo impossível.

Vampiros não possuíam reflexos.

Mas Agonihria não parecia interessar-se por regras.

Cassandra apareceu ao lado dele.

Ela também estava refletida.

Por alguns instantes nada aconteceu.

Então os reflexos sorriram.

Nenhum dos dois sorrira.

O silêncio tornou-se absoluto.

As versões refletidas permaneceram observando-os.

Imóveis.

Então o reflexo de Cassandra inclinou a cabeça.

— Ainda finges que não sentes falta deles?

A verdadeira Cassandra permaneceu imóvel.

Velian percebeu imediatamente.

A pergunta atingira algum lugar profundo.

O reflexo continuou.

— De todos os amantes.

De todos os discípulos.

De todos os amigos.

De todos os mortos.

A figura refletida sorriu.

— Quantos nomes ainda consegues lembrar?

Cassandra fechou os olhos por um instante.

Apenas um instante.

Mas foi suficiente.

Velian nunca a vira hesitar daquela maneira.

Então o espelho voltou-se para ele.

Seu reflexo observou-o com olhos completamente negros.

— E tu?

A voz era sua.

Mas não era.

— Quantas respostas procuraste apenas para não admitir que tens medo?

Velian sustentou o olhar.

— Medo de quê?

O reflexo sorriu.

— De continuar existindo.

O quarto pareceu escurecer.

As sombras tornaram-se mais densas.

— De continuar desejando.

De continuar perdendo.

De continuar sobrevivendo enquanto tudo desaparece.

As palavras ecoaram pelo aposento.

Velian sentiu algo apertar seu peito.

Porque não eram mentiras.

O espelho compreendia.

E isso era pior.

Muito pior.

Uma rachadura surgiu na superfície refletora.

Depois outra.

E outra.

O som espalhou-se pelo quarto.

Lento.

Cruel.

Como ossos partindo-se sob pressão.

As rachaduras multiplicaram-se.

Até que algo começou a emergir.

Primeiro uma mão.

Depois um braço.

Em seguida um rosto.

Ou aquilo que um dia fora um rosto.

A criatura arrastou-se para fora do espelho.

Sua pele era cinzenta.

Os olhos completamente ocos.

E dentes.

Dentes por toda parte.

Nas faces.

Nos ombros.

Nos braços.

No pescoço.

Nas costelas.

Centenas deles.

Talvez milhares.

A criatura arrancou um dos próprios dentes.

Sorriu.

Então o mastigou.

Outro nasceu imediatamente.

Mais criaturas começaram a surgir.

Uma após outra.

Arrastando-se para fora dos espelhos rachados.

Todas cobertas por dentes.

Todas sorrindo.

Todas sofrendo.

Todas parecendo sentir prazer na própria dor.

O quarto inteiro foi preenchido pelo som.

Mastigação.

Estalos.

Dentes quebrando.

Dentes crescendo.

Dentes sendo arrancados.

As criaturas observavam os dois vampiros.

E então falaram.

Não individualmente.

Mas como uma única voz.

Uma voz composta por centenas de gargantas.

— O abandono nos criou.

— A perda nos alimenta.

— O esquecimento nos fortalece.

Uma delas aproximou-se de Velian.

Seus olhos vazios refletiam apenas escuridão.

— Quantos partiram?

Outra surgiu ao lado.

— Quantos ainda partirão?

Mais uma.

— Quantos nomes esqueceste?

As criaturas começaram a cercá-los lentamente.

Sorrindo.

Mastigando.

Esperando.

E, pela primeira vez desde a chegada ao Castelo, Cassandra abandonou completamente a expressão irônica.

Porque compreendeu a mesma coisa que Velian.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

As criaturas continuaram cercando-os lentamente. O som dos dentes partindo-se entre suas mandíbulas preenchia o quarto. Era um ruído quase hipnótico. Monótono. Persistente. Como um relógio macabro medindo o tempo através da dor.

Velian observou uma delas mais atentamente.

Os dentes não cresciam ao acaso.

Cada um parecia diferente.

Alguns eram humanos.

Outros lembravam presas de animais.

Outros ainda possuíam formatos impossíveis.

Como se cada dente fosse uma memória petrificada.

Uma perda.

Uma ferida.

Uma ausência.

A criatura mais próxima abriu a boca.

Lá dentro não havia língua.

Nem garganta.

Apenas mais dentes.

Infinitos dentes.

Velian sentiu a escuridão de Nix mover-se em algum lugar profundo de sua consciência.

Não como uma arma.

Mas como uma presença.

Uma vastidão silenciosa observando tudo.

A Noite primordial.

Antiga demais para temer monstros.

Antiga demais para temer abandono.

A criatura avançou.

E Cassandra foi a primeira a agir.

Símbolos negros incendiaram-se ao redor de seus braços. Runas antigas surgiram sobre a própria pele como serpentes feitas de sombra. O ar vibrou.

Então a vampira ergueu uma das mãos.

Uma explosão de energia atravessou o aposento.

Três criaturas foram arremessadas contra a parede.

Os corpos despedaçaram-se.

Dentes espalharam-se pelo chão.

Por um instante, o silêncio retornou.

Então os dentes começaram a mover-se.

Velian observou-os reorganizarem-se.

Unindo-se.

Reconstruindo carne.

Tecendo ossos.

Poucos segundos depois, as criaturas estavam novamente de pé.

Sorrindo.

Sempre sorrindo.

— Eu odeio lugares simbólicos — resmungou Velian.

— Eu avisei que algo estava errado.

— Você avisou que o Castelo estava vazio.

— E estava.

Uma gargalhada ecoou pelo aposento.

Não partira de Cassandra.

Nem de Velian.

Partira das próprias criaturas.

Centenas de vozes misturadas.

Centenas de gargantas.

Centenas de abandonos.

As paredes começaram a pulsar.

O papel decorativo desprendia-se lentamente.

Sob ele surgiam inscrições.

Nomes.

Milhares deles.

Nomes riscados.

Esquecidos.

Apagados.

Alguns escritos em idiomas mortos.

Outros em línguas que Velian jamais vira.

As criaturas continuavam aproximando-se.

— O que achas que são? — perguntou ele.

Cassandra não desviou os olhos dos monstros.

— Pessoas.

— Isso é reconfortante.

— Pessoas esquecidas.

— Ah. Menos reconfortante.

Uma das criaturas saltou.

Velian moveu-se imediatamente.

As garras atravessaram o peito do monstro.

O corpo abriu-se.

E algo caiu no chão.

Não sangue.

Não vísceras.

Mas fotografias.

Cartas.

Flores secas.

Objetos pessoais.

Pequenos fragmentos de vidas perdidas.

A criatura desfez-se em cinzas.

Outra ocupou seu lugar.

Depois outra.

Depois mais três.

A mansão inteira pareceu despertar.

Passos ecoaram pelos corredores.

Portas abriram-se sozinhas.

Espelhos racharam.

O som da mastigação tornou-se ensurdecedor.

E então Agonihria revelou algo ainda pior.

As criaturas começaram a mudar.

Seus rostos tornaram-se familiares.

Velian reconheceu alguns.

Um antigo amante da França medieval.

Uma mulher que conhecera durante o século XVIII.

Um jovem poeta que o acompanhara durante alguns anos em Lisboa.

Todos mortos.

Todos desaparecidos.

Todos transformados em algo grotesco.

As criaturas sorriram.

— Ainda lembras.

— Ainda dói.

— Ainda desejas.

Velian sentiu o golpe.

Não físico.

Mas emocional.

Porque lembrava.

Lembrava de todos.

Não dos rostos apenas.

Dos gestos.

Das vozes.

Dos momentos.

Das despedidas.

A eternidade possuía uma crueldade peculiar.

Tudo se transformava em fantasma.

Mesmo as memórias felizes.

Do outro lado do aposento, Cassandra permanecia imóvel.

As criaturas cercavam-na.

E também haviam mudado.

Velian observou sua expressão endurecer.

Os monstros assumiam formas que ele não reconhecia.

Mas Cassandra reconhecia.

Isso bastava.

Por um momento, a vampira desviou o olhar.

Por um único instante.

E aquilo era mais assustador do que qualquer monstro.

Porque Cassandra raramente olhava para trás.

Raramente permitia-se recordar.

As criaturas aproximaram-se dela.

— Ainda sentes falta deles.

— Ainda carregas seus nomes.

— Ainda finges que não te importas.

A magia ao redor da vampira explodiu violentamente.

As janelas estilhaçaram-se.

As paredes tremeram.

Diversas criaturas foram destruídas instantaneamente.

Mas nenhuma desapareceu.

Continuavam retornando.

Sempre retornando.

Velian compreendeu.

Não importava quantas fossem destruídas.

Não estavam lutando contra corpos.

Estavam lutando contra uma ideia.

Contra um sentimento.

Contra algo muito mais antigo que carne e osso.

O Castelo inteiro estremeceu.

As cinzas negras começaram a cair dentro da mansão.

A névoa púrpura infiltrou-se pelas rachaduras.

Os corredores pareciam alongar-se.

As portas desapareciam.

As paredes moviam-se.

Como se Agonihria estivesse fechando suas mãos ao redor deles.

Então uma voz surgiu.

Profunda.

Distante.

Maior que todas as outras.

Uma voz que parecia vir do próprio Castelo.

Ou talvez do próprio vazio.

— Tudo será esquecido.

As criaturas silenciaram imediatamente.

A mansão inteira silenciou.

Até mesmo a mastigação cessou.

A voz continuou.

— Toda paixão.

Toda memória.

Toda conquista.

Todo amor.

Todo conhecimento.

Tudo.

Velian sentiu a temperatura cair ainda mais.

As sombras tornaram-se densas.

Espessas.

Quase líquidas.

E algo começou a surgir do espelho destruído.

Algo enorme.

Muito maior do que as criaturas.

Uma massa de escuridão coberta por milhares de olhos vazios e bocas repletas de dentes.

Os dentes moviam-se sozinhos.

Como insetos.

Como parasitas.

Como pensamentos doentes.

A entidade ergueu-se lentamente.

Sua cabeça quase tocava o teto.

Os olhos observavam Velian.

Observavam Cassandra.

Observavam tudo.

— Eu sou o abandono.

A voz fez a mansão inteira tremer.

— Eu sou aquilo que permanece quando tudo parte.

Uma das bocas abriu-se.

Depois outra.

Depois centenas.

— Eu sou o silêncio após o último adeus.

Velian percebeu que até Cassandra havia ficado imóvel.

Não por medo.

Mas por reconhecimento.

Aquilo não era uma criatura.

Não era um fantasma.

Não era um demônio.

Era um conceito.

Uma manifestação.

Uma ferida transformada em existência.

E Agonihria era seu reino.

A entidade voltou-se para Velian.

Milhares de olhos vazios observando-o simultaneamente.

— Tu conheces meu nome.

Velian sustentou o olhar.

— Conheço.

— Caminhas comigo há séculos.

— Sim.

— Então por que continuas procurando?

O silêncio espalhou-se.

Mesmo Cassandra voltou-se para ele.

A pergunta parecia destinada apenas a Velian.

Mas talvez fosse destinada a todos.

Ao Castelo.

À humanidade.

À própria eternidade.

A entidade aproximou-se.

As sombras tornaram-se ainda mais profundas.

— Por que continuas desejando?

— Por que continuas amando?

— Por que continuas buscando?

A voz tornou-se mais suave.

Mais perigosa.

— Não aprendeste nada?

Durante alguns segundos Velian não respondeu.

Porque aquela era exatamente a pergunta que o perseguira durante séculos.

E talvez fosse a pergunta que definia sua existência.

Então sentiu novamente a presença de Nix.

Não uma resposta.

Jamais uma resposta.

Apenas a vastidão da noite.

A escuridão infinita onde estrelas nasciam e morriam sem alterar sua essência.

A noite não prometia sentido.

Apenas existência.

E, estranhamente, aquilo bastava.

Velian sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas genuíno.

E então respondeu.

— Aprendi exatamente o contrário.

— Aprendi exatamente o contrário.

A entidade permaneceu imóvel.

Os milhares de olhos vazios observavam Velian.

As centenas de bocas repletas de dentes permaneciam abertas.

Esperando.

O silêncio tornou-se quase absoluto.

Então Velian deu um passo à frente.

A névoa púrpura girava ao redor de seus pés. As cinzas negras continuavam caindo através das janelas destruídas da mansão. Ao longe, o Castelo Drácula parecia respirar como um organismo colossal adormecido.

— Passei séculos acreditando que precisava encontrar respostas — disse ele. — Depois passei séculos acreditando que precisava encontrar prazeres. Depois poder. Depois conhecimento. Depois esquecimento.

A criatura permaneceu imóvel.

— E encontraste?

Velian sorriu.

— Às vezes.

A resposta pareceu irritar a manifestação.

As sombras ao redor dela estremeceram.

— Às vezes?

— Sim. Às vezes encontrei prazer. Às vezes encontrei amor. Às vezes encontrei conhecimento. Às vezes encontrei companhia.

A entidade inclinou lentamente a cabeça.

— E perdeste tudo.

— Sim.

— Todos morreram.

— Sim.

— Todos partiram.

— Sim.

A criatura pareceu crescer.

As paredes da mansão rangeram.

Os espelhos restantes começaram a rachar.

— Então eu venci.

Velian ficou em silêncio por alguns instantes.

Então riu.

Uma gargalhada breve.

Sincera.

Quase humana.

Até Cassandra pareceu surpresa.

— Não. — respondeu ele. — É justamente aí que está o erro.

Os olhos da entidade estreitaram-se.

— Explica.

— Eles partiram.

Mas existiram.

A resposta espalhou-se pelo aposento como uma pedra lançada em águas imóveis.

A manifestação permaneceu imóvel.

Velian continuou.

— Vivi tempo suficiente para esquecer rostos.

Esquecer nomes.

Esquecer cidades inteiras.

Vi impérios nascerem e desaparecerem.

Vi religiões mudarem.

Vi pessoas morrerem.

Vi amores acabarem.

Mas o fato de algo terminar não significa que nunca tenha existido.

As criaturas dos dentes começaram a recuar lentamente.

Como se alguma força invisível as incomodasse.

— O abandono não apaga aquilo que foi vivido.

Ele apenas vem depois.

A entidade permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez parecia não possuir resposta imediata.

Velian sentiu algo mover-se dentro de si.

Não era fome.

Não era violência.

Não era desejo.

Era a presença de Nix.

A noite.

A verdadeira noite.

Não a escuridão do medo.

Não a ausência de luz.

Mas a vastidão primordial que existia antes dos homens nomearem as coisas.

A escuridão que não julgava.

Que não exigia respostas.

Que apenas era.

Sombras começaram a reunir-se ao redor dele.

Não eram agressivas.

Não eram monstruosas.

Eram profundas.

Infinitas.

Belas.

As cinzas negras tocaram seu corpo e desapareceram.

A névoa púrpura começou a dissolver-se.

A entidade recuou pela primeira vez.

— O que és agora?

A pergunta veio quase como um sussurro.

Velian pensou por alguns segundos.

— Não faço ideia.

A resposta arrancou um sorriso de Cassandra.

— Essa é a coisa mais honesta que já disseste em décadas.

— Eu estava tentando impressionar uma manifestação metafísica.

— Está funcionando.

A entidade rugiu.

As paredes da mansão estremeceram.

Centenas de criaturas avançaram simultaneamente.

Desta vez não havia intenção de dialogar.

Apenas destruir.

Apenas consumir.

Apenas transformar tudo em silêncio.

Então Cassandra avançou.

A vampira ergueu ambas as mãos.

Runas negras incendiaram-se ao redor de seu corpo. Símbolos antigos surgiram sobre sua pele como serpentes de sombra líquida.

Velian sentiu o impacto do poder imediatamente.

Mesmo após todos aqueles séculos, Cassandra continuava sendo uma das criaturas mais perigosas que conhecera.

Talvez a mais perigosa.

O ar tornou-se pesado.

As janelas explodiram.

As sombras da própria mansão começaram a obedecê-la.

— Sempre odiei coisas que tentam me dizer o que sentir.

A magia expandiu-se.

Dezenas de criaturas foram arremessadas contra paredes e colunas.

Outras simplesmente desintegraram-se.

Mas não retornaram.

Porque agora não estavam sendo destruídas apenas fisicamente.

Algo mais profundo acontecia.

A presença de Nix espalhava-se.

A manifestação do abandono começou a enfraquecer.

As criaturas hesitavam.

Os dentes quebravam-se.

As formas tornavam-se instáveis.

Velian compreendeu.

Agonihria alimentava-se de uma única certeza:

Que tudo era vazio.

Que toda conexão era inútil.

Que toda existência terminava em abandono.

Mas ele já não acreditava nisso.

Nem Cassandra.

E aquela convicção possuía poder.

Mais poder do que imaginara.

A entidade rugiu novamente.

Milhares de bocas abriram-se simultaneamente.

O som foi tão intenso que parte da mansão desabou.

Colunas partiram-se.

O teto rachou.

Cinzas negras caíram como chuva.

Então Velian avançou.

A velocidade foi quase invisível.

As sombras reuniram-se ao redor de suas mãos.

Não como lâminas.

Não como armas.

Mas como fragmentos da própria noite.

Ele atravessou a tempestade de dentes.

Atravessou os gritos.

Atravessou as sombras.

E alcançou o coração da manifestação.

Por um instante viu algo.

Não uma criatura.

Não um monstro.

Mas uma criança esquecida.

Um amante abandonado.

Um velho morrendo sozinho.

Uma mãe chorando.

Um amigo perdido.

Milhares de solidões acumuladas.

Milhares de dores.

Milhares de despedidas.

Agonihria era feita delas.

Velian fechou os olhos.

E compreendeu.

Nem mesmo aquele horror desejava existir.

A entidade nasceu porque alguém sofrera.

Porque muitos sofreram.

Porque o abandono existe.

Sempre existirá.

Então tocou a criatura.

Apenas tocou.

E a noite respondeu.

A escuridão de Nix espalhou-se através da manifestação.

Não para destruí-la.

Mas para envolvê-la.

Como o céu envolve as estrelas.

Como o oceano envolve os rios.

Como a noite envolve os sonhos.

A criatura parou de lutar.

As bocas silenciaram.

Os dentes deixaram de crescer.

Os olhos vazios fecharam-se lentamente.

E então Agonihria começou a ruir.

A mansão inteira tremeu.

Os corredores partiram-se.

Os espelhos explodiram.

As paredes cobertas por arsênio e mofo desmancharam-se.

O Castelo Drácula inteiro estremeceu.

Como se despertasse de um pesadelo.

As criaturas desapareceram.

As cinzas negras tornaram-se poeira comum.

A névoa púrpura dissipou-se.

O silêncio retornou.

Mas agora era diferente.

Não era um silêncio faminto.

Era apenas silêncio.

E, pela primeira vez desde que chegaram, Velian sentiu paz.

Uma paz estranha.

Breve.

Mas real.

Ao seu lado, Cassandra observava os destroços.

— Então era isso.

— Era.

— Continua irritantemente filosófico.

— Continua irritantemente poderosa.

— Justo.

Ao redor deles, Agonihria desaparecia.

E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu necessidade de procurar respostas.

Bastava caminhar para fora daquele pesadelo.

Pelo menos por enquanto.

Pelo menos por enquanto.

Os corredores do Castelo Drácula reapareciam lentamente ao redor deles.

A mansão vitoriana desaparecera.

Os espelhos.

Os papéis de parede apodrecidos.

As criaturas dos dentes.

Tudo parecia dissolver-se como um sonho que já não conseguia sustentar a própria existência.

Restavam apenas os antigos corredores de pedra.

As colunas monumentais.

As janelas arqueadas que revelavam a noite eterna além dos limites do castelo.

Por algum tempo, Velian e Cassandra caminharam sem dizer nada.

Não havia urgência.

Talvez porque ambos compreendessem que certos silêncios possuem mais significado que muitas conversas.

As cinzas negras haviam desaparecido.

A névoa púrpura também.

No alto, estrelas impossíveis brilhavam sobre Soramithia.

O eclipse perpétuo pairava sobre o horizonte como um olho adormecido.

O Castelo parecia tranquilo.

Não alegre.

Jamais alegre.

Mas tranquilo.

Como um animal antigo que finalmente voltara a repousar.

Velian observava as janelas enquanto caminhavam.

O tempo.

Sempre o tempo.

Séculos atrás acreditara que a eternidade era um prêmio.

Depois pensara que fosse uma maldição.

Agora já não tinha certeza de nenhuma das duas coisas.

Talvez fosse apenas uma condição.

Uma estrada longa demais para ser compreendida de uma só vez.

— Estás pensando demais de novo.

A voz de Cassandra surgiu ao seu lado.

Velian sorriu.

— É uma acusação injusta.

— Não é.

— Talvez um pouco.

Ela soltou uma breve gargalhada.

O som ecoou pelos corredores vazios.

Por um instante, pareceu afastar séculos de escuridão.

— Sabes — disse Cassandra — quando te conheci, imaginei que acabarias enlouquecendo.

— Ainda há tempo.

— Não. Agora não.

Velian voltou-se para ela.

A vampira mantinha os olhos voltados para frente.

Como se observasse algo distante.

Algo que apenas ela conseguia enxergar.

— Mudaste.

— Isso costuma acontecer ao longo de alguns séculos.

— Não dessa forma.

O silêncio retornou.

Velian percebeu que ela estava sendo sincera.

Algo raro.

Muito raro.

— Antes procuravas respostas porque estavas desesperado.

Agora procuras porque estás curioso.

— Há diferença?

— Toda diferença do mundo.

Continuaram caminhando.

As palavras permaneceram entre eles.

Velian não respondeu imediatamente.

Porque Cassandra estava certa.

Durante muito tempo suas perguntas haviam sido uma tentativa de escapar.

Do vazio.

Da solidão.

Da própria eternidade.

Agora eram apenas perguntas.

E isso as tornava mais leves.

Mais honestas.

Mais humanas.

Atravessaram uma enorme galeria onde estátuas antigas observavam os visitantes com olhos de pedra.

Algumas representavam reis esquecidos.

Outras criaturas que jamais existiram.

Outras ainda pareciam deuses tão antigos que nem mesmo seus nomes sobreviveram.

Velian parou diante de uma delas.

Uma figura feminina envolta por sombras esculpidas.

O rosto parcialmente oculto.

Os olhos voltados para o céu.

Nix.

Ou ao menos uma interpretação dela.

A Senhora da Noite.

A deusa que jamais lhe concedera respostas.

Apenas perspectivas.

Sorriu.

Talvez aquele tivesse sido o maior presente.

— Ainda pensas nela? — perguntou Cassandra.

— Às vezes.

— Encontraste o que procuravas?

Velian observou a estátua.

— Não.

— Eu sabia.

— Mas encontrei algo melhor.

Cassandra ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

— Mais perguntas.

Ela revirou os olhos.

— Definitivamente continuas sendo tu.

Saíram da galeria.

Os corredores começaram a mudar.

As sombras tornaram-se mais finas.

O ar mais leve.

O Castelo estava liberando-os.

A despedida aproximava-se.

Ambos sabiam.

Nenhum comentou.

Até que alcançaram um dos grandes salões de transição entre mundos.

Ali, as realidades misturavam-se.

Portas conduziam a lugares impossíveis.

Séculos diferentes.

Dimensões distintas.

Sonhos.

Pesadelos.

Memórias.

O Rio de Janeiro aguardava Cassandra atrás de uma das passagens.

Fortaleza aguardava Velian atrás de outra.

Permaneceram alguns instantes em silêncio.

Estranhamente, aquela parecia a parte mais difícil da noite.

Não enfrentar monstros.

Não enfrentar conceitos transformados em horror.

Mas despedir-se.

Talvez porque os adeuses sempre carregassem uma pequena morte.

Mesmo para imortais.

Cassandra cruzou os braços.

— Então é isso.

— É.

— Continuarás procurando sentido para a existência?

— Provavelmente.

— Que atividade ridícula.

— Concordo.

Ela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Quase imperceptível.

Mas verdadeiro.

— Toma cuidado, Velian.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi preocupação?

— Não exageremos.

— Claro.

— Apenas seria inconveniente perder alguém capaz de me proporcionar discussões tão irritantes.

Velian riu.

Uma risada sincera.

Daquelas que surgiam cada vez mais raramente.

— Sentirei falta dos teus insultos.

— Mentira.

— Um pouco.

— Melhor assim.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

Os séculos compartilhados passaram silenciosamente entre eles.

Guerras.

Viagens.

Discussões.

Desejos.

Separações.

Reencontros.

Nenhum dos dois precisava mencioná-los.

Existiam.

E isso bastava.

Finalmente Cassandra aproximou-se.

Tocou brevemente seu rosto.

Um gesto simples.

Mas raro.

Talvez mais íntimo do que qualquer demonstração grandiosa.

— Continua vivo, Velian.

— Pretendo tentar.

— Ótimo.

Então ela atravessou a passagem.

E desapareceu.

Sem cerimônias.

Sem lágrimas.

Exatamente como Cassandra faria.

Velian permaneceu sozinho no salão.

Observando o espaço vazio onde ela estivera.

Por alguns instantes apenas respirou.

Ou algo próximo daquilo.

Sentiu a ausência.

Mas não como dor.

Apenas como consequência natural da existência.

Todos os encontros terminam.

Todos os caminhos se separam.

E ainda assim continuam valendo a pena.

Sorriu diante do próprio pensamento.

Estava se tornando perigosamente otimista.

Atravessou sua própria passagem.

E o mundo mudou.

Quando voltou a Fortaleza, a madrugada aproximava-se do fim.

A cidade permanecia desperta.

Como sempre.

As primeiras embarcações começavam a surgir no horizonte.

O vento espalhava o cheiro de maresia pelas ruas.

Ao longe, algumas luzes ainda permaneciam acesas.

Velian caminhou até a varanda do apartamento.

O céu começava lentamente a clarear.

Azul profundo.

Depois violeta.

Depois dourado.

O nascimento de mais um dia.

Durante séculos observara amanheceres.

Milhares deles.

Talvez milhões.

Ainda assim, continuavam diferentes.

Porque nenhum amanhecer era exatamente igual ao anterior.

Assim como nenhuma noite.

Assim como nenhuma pessoa.

Assim como nenhuma pergunta.

Encostou-se à grade da varanda.

Pensou em Cassandra.

Pensou em Nix.

Pensou nos monstros de Agonihria.

Pensou nos mortos.

Nos vivos.

Nos esquecidos.

Nos amados.

Pensou em si mesmo.

E percebeu algo simples.

O vazio continuava ali.

Sempre continuaria.

A eternidade continuava ali.

Sempre continuaria.

As dúvidas também.

Talvez jamais desaparecessem.

Mas já não eram inimigas.

Eram companheiras.

Parte da estrada.

Parte daquilo que o mantinha caminhando.

Ao longe, o sol finalmente surgiu sobre o Atlântico.

A luz espalhou-se pelo horizonte.

Velian observou-a durante alguns segundos antes de recolher-se para o interior do apartamento.

A noite terminara.

Outra viria.

Como sempre.

E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia dos séculos que ainda o aguardavam não lhe pareceu um peso.

Pareceu uma possibilidade.

Uma pergunta ainda sem resposta.

E, estranhamente, isso era suficiente.

 

Fim.

As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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14 - Meio Assim

Senti uma dor no peito. Infelizmente, não é infarto. Não é dor de amor, nem tristeza. É peso, uma sina. Sabe, os dias em que não se sente raiva, compaixão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Senti uma dor no peito. Infelizmente, não é infarto. Não é dor de amor, nem tristeza. É peso, uma sina.

Sabe, os dias em que não se sente raiva, compaixão ou esperança são os piores. Destituídos de qualquer sentimento, vagamos sob as profundezas de nosso próprio vazio.

Na vastidão do universo, onde as estrelas jazem sem vida, não me encontro após procurar por versões de mim que nunca mais existirão, ou que se perderam ante as lutas cotidianas, ou que foram domadas por falhas que não cometi. Não as cometi?

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Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
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Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Simulacrum

26 de maio de 2097. Tudo começou na década de 20.O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

26 de maio de 2097

Tudo começou na década de 20.

O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim do mundo sutil. Não houve explosões, guerras nucleares ou cadáveres espalhados pelas ruas. Pelo contrário — as pessoas riam, faziam piadas e seguiam vivendo sem perceber para onde estavam indo.

Todos pareciam felizes demais para notar o fim do mundo chegando.

Lembro das histórias dos meus avós sobre algo que chamavam de Internet. Sobre como aqueles pequenos aparelhos em suas mãos arrastavam a humanidade, pouco a pouco, para um abismo confortável de dopamina.

E aquilo se tornou um vício.

Rolavam feeds infinitos no Instagram. Passavam horas no TikTok. Consumiam vídeos rápidos até perderem completamente a noção do tempo. E as grandes companhias perceberam cedo que atenção valia mais do que ouro.

Então começaram a moldar gostos.

Tudo era minuciosamente calculado.

O tempo que vocês passavam olhando um anúncio.
O segundo exato em que sorriam para um vídeo.
A música que fazia vocês pararem para cantar.
O rosto que prendia atenção por tempo demais.

Os celulares observavam tudo. Ouviam tudo. Espionavam tudo.

Cada termo de uso aceito sem leitura.
Cada cookie salvo nos computadores.
Cada clique.
Cada passo.
Cada informação entregue voluntariamente em milhares de sites.

Tudo registrado, analisado e vendido para corporações gigantescas.

Se alguém gostava de filmes de terror, logo era cercado por teorias, jogos, roupas, músicas sombrias e colecionáveis. Não importava se precisava daquilo.

Importava continuar desejando.
Continuar consumindo.
Continuar comprando.

Continuar acreditando que os próprios desejos pertenciam a si mesmos, quando, na verdade, haviam sido plantados ali.

Uma série sobre alienígenas estreava em um streaming. No mês seguinte, refrigerantes, brinquedos e propagandas utilizavam os mesmos personagens. Um filme de super-heróis chegava aos cinemas e, naquela mesma semana, milhares de crianças imploravam aos pais por bonecos produzidos em massa.

Tudo se conectava.

Tudo era publicidade.
Tudo era manipulação.

E o pior é que ninguém se importava.

Porque parecia conforto.
Parecia entretenimento.
Parecia felicidade.

Aos poucos, a humanidade começou a abandonar a realidade para viver no mundo digital.

Não havia mais CDs nas casas.
Nem VHS.
Nem DVDs.
Nem fotografias impressas.

Tudo se tornou digital.

Filmes.
Músicas.
Lembranças.
Relacionamentos.
Personalidades.

Até a própria vida passou a existir atrás de telas.

E então a humanidade começou a desaparecer.

Consumida pelo mesmo capitalismo que prometia conforto enquanto lentamente a levava à decadência. O mundo não acabou em guerra.

Acabou em consumo.

No lugar de cada pessoa surgiu um doppelgänger digital.

Um duplo.

Mais bonito.
Mais engraçado.
Mais interessante.
Mais fácil de amar.

E esses duplos começaram a se relacionar entre si enquanto os humanos reais apodreciam lentamente atrás das telas.

Ninguém mais saía de casa. Comida e suprimentos eram entregues por drones controlados por inteligências artificiais. Toda comunicação acontecia através de celulares, e os relacionamentos deixaram de existir entre pessoas reais.

As pessoas passaram a amar versões editadas umas das outras.

Perfis digitais.

Personagens inventados.

Duplos

É nessa realidade que você vive agora.

Uma realidade onde ninguém mais ama pessoas.
Apenas versões idealizadas delas.
Apenas os duplos digitais que consomem, compram e fingem ser melhores do que realmente são.

E eu?

Eu sou apenas a consequência daquilo que vocês criaram.

Eu sou você, daqui a alguns anos.

Escrevendo uma carta para meu próprio passado, implorando para que alguém me salve desse futuro.

Porque esse futuro…

Não é bonito.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Ela

Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.

Quase nada. Apenas você.

A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.

Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.

Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.

Foi quando eu o vi.

Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.

Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.

Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.

Ele acelerou o passo.

Eu também.

Não vou descrever o que fiz com ele.

Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.

Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.

Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.

Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.

— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.

Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.

Eu o matei.

Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.

Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.

Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.

Matei por você.

Já nem sei quanto tempo passou.

Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.

Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.

Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.

Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.

A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.

A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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À Procura da Dama Noturna

Já amei. | E talvez seja esta a maldição mais antiga | de todas as criaturas que atravessam os séculos: | não a morte, | não a solidão, | não a lenta erosão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Já amei.

E talvez seja esta a maldição mais antiga
de todas as criaturas que atravessam os séculos:
não a morte,
não a solidão,
não a lenta erosão dos nomes,

mas a lembrança.

Os rostos passam como estações,
as cidades apodrecem sob novas arquiteturas,
impérios tornam-se notas de rodapé,
e até os juramentos mais ardentes
acabam dissolvidos na saliva do tempo.

Ainda assim,
há algo em mim que persiste.

Uma fome.

Não a fome do sangue,
como diriam os velhos contos,
mas a fome de uma presença.

Desejo uma mulher
como quem procura uma estrela desaparecida
há milhares de anos,
sabendo que sua luz ainda atravessa a escuridão.

Não a desejo perfeita.

A perfeição pertence às estátuas
e aos cadáveres.

Desejo-a viva,
contraditória,
capaz de esconder tempestades
sob um olhar aparentemente sereno.

Talvez tenha os cabelos negros
como uma noite que se recusa a amanhecer.
Talvez a pele guarde a palidez delicada
das criaturas que preferem a companhia da lua.
Talvez os olhos,
escuros e insondáveis,
carreguem mais perguntas do que respostas.

Não desejo uma santa.

As santas pertencem aos altares,
e os altares sempre me pareceram
solitários demais.

Desejo uma mulher
que compreenda a beleza das ruínas,
que veja poesia onde os outros veem defeito,
que não peça desculpas
por sua própria escuridão.

Uma mulher que saiba
que a melancolia não é doença,
mas uma forma de contemplação.

Que compreenda
que nem toda tristeza deseja ser curada.

Os tempos modernos,
tão orgulhosos de sua virtude,
ensinaram as pessoas a temer o abismo.
Transformaram mistério em problema,
silêncio em falha,
profundidade em excentricidade.

Mas eu continuo a acreditar
que há certa beleza
naquilo que não se deixa domesticar.

Por isso a desejo.

Entre multidões iluminadas por telas,
entre discursos apressados,
entre rostos que se repetem
como reflexos de um mesmo espelho partido.

Desejo aquela
que ainda conserve algo de indizível.

Aquela cuja beleza não termine na superfície,
mas continue para dentro,
como um corredor sem fim
em um castelo abandonado.

E se algum dia a encontrar,
não lhe oferecerei promessas eternas.

Os séculos ensinaram-me
a desconfiar das eternidades.

Oferecerei apenas a noite.

Uma noite longa,
silenciosa,
perfumada por livros antigos,
vinho escuro
e pensamentos proibidos.

E talvez,
enquanto o mundo dorme
sonhando com suas pequenas certezas,
nós possamos contemplar juntos
a estranha beleza de existir

como duas criaturas noturnas,

para além da moral dos homens.


Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
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Lugar

Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo. | Sou todas as mulheres e o amor que geraram | Bêbado da cachaça…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo.

Sou todas as mulheres e o amor que geraram

Bêbado da cachaça e a ressaca do verão

Vertido em leituras que fiz a vida inteira e ainda as que me restam. Esses mortos me atordoam e os passo ao papel no momento em que sofro de paixão e angústia.

O escritor apenas repete sem originalidade todas as maldições que aprendeu.

Sinto que você tem medo de desejar profundamente e te escrevo no papel vazio

Sou tragado, rasurado e posto a nu, suscetível a uma avalanche de outras ideias

Sinto o amor e escrevo a dor

Sou ultrarromântico e quero morrer, sou um revolucionário e quero volver o futuro em fúria

É nesse campo aberto da folha que a vida rasura o poeta

Rascunha caminhos

E quando me lerem desejo que cada palavra toque em absurdo, porque serão as palavras de um morto.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Reles

Eu sou um reles | não mereço nem desprezo | O desespero foi minh'única companhia | Me deixando ímpar no enfado deste inóspito…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Eu sou um reles
não mereço nem desprezo
O desespero foi minh'única companhia
Me deixando ímpar no enfado deste inóspito
Eu sou um reles, como muitos que rastejam
Somente a poeira faz do meu caminho desvio
A lama do caos como um encosto se lambuzou de mim
Pesou sobre a carcaça
Me transformou em destroço 

Até mesmo a vontade de se suicidar largou este enfermo
Sem nem sucesso para o fracasso

Eu sou reles,
Nem para a morte eu sirvo
O amor fez esquina longe de mim
E nem calçada passa em frente daquilo que o céu afastou de abrigo
Até o túmulo é esquivo
A cova é rasa porque só se deve perder tempo com profundezas da alma
Nem os urubus se alteram

A paixão quando jovem chegou em mim a partir dos olhos d'água noturna de uma gata
Mas só a mentira do desejo fez par comigo 

Hoje, nem a mentira perde seu tempo com a desilusão da minh'alma 

E sem vida continuo.... reles


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Conflito existencial?!

Acordava todas as manhãs e, na maioria delas, se perguntava o porquê ainda estava viva e respirava esse ar demasiado inóspito. Não que estivesse…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Acordava todas as manhãs e, na maioria delas, se perguntava o porquê ainda estava viva e respirava esse ar demasiado inóspito. Não que estivesse sentindo alguma vontade mórbida de interromper sua existência — diga-se de passagem, sem grandes venturas —, mas não entendia o significado de tal vivência.

Queria ser grande, desenvolver algo que mudasse a forma de pensar e agir dos outros, que fizesse o planeta sair de sua órbita. Levantar-se cedo, trabalhar, cuidar de afazeres diários e da família, não lhe pareciam feitos dignos de serem comparados aos de Einstein, Tesla, Machado e Da Vinci.

No fundo, achava que a vida lhe tinha sido injusta, pois outros tantos não faziam, ou melhor, não conheciam nem a metade do que sabia e eram muito mais prósperos... Enfim, concluía: Talvez fossem mais espertos!

Mas ainda assim não permitia que nada desse descontentamento abalasse sua rotina, continuava em sua fé, seu foco, no amor pelos seus e até por essa vida que julgava comum, e empenhava seus esforços da melhor maneira possível.

Por vezes ponderava sobre a situação do mundo, tão violento e cruel, como poderia assegurar o futuro dos seus? Em meio a tanta depravação, como manter a mente limpa e pura? Por que a sociedade evolui tecnologicamente à medida que se degrada moralmente? É... Era triste a constatação: O mundo constrói e caminha para sua própria destruição.

Mas de que adiantava tanto pensamento filosófico, e moralmente responsável na sua visão, se de fato nada fazia para tornar o mundo um lugar melhor? Não tinha o direito de sentir-se moral e intelectualmente superior. Era como os demais, comum e vulgar, ambígua e esporadicamente má. A antítese encarnada. O orgulho havia corrompido seu caráter, salvo por alguns momentos de pureza.

Em contrapartida, não era a favor de guerras, maus tratos a qualquer ser vivo; nunca roubou, matou ou infligiu mal aos outros, acreditava que no final “compensava” os seus erros. Havia autojustificado.

Bastava tudo estar ocorrendo conforme planejado, sobrevinha uma reviravolta ou outra a qual contornava com requintado louvor, e nesse “ciclo defeituoso” decorriam-se os dias e do nada... aquele sentimento!

“O que fazer? Como fazer? Por que fazer?”

Achava que devia existir um manual de instruções. Como se todos os problemas seguissem uma ordem. Como se respeitassem os indivíduos. Ingênua.

Mas mesmo a ingenuidade se veste de hipocrisia às vezes, o que lhe cai muito bem no discurso de como ser uma pessoa perfeita. Não em seu caso. Não sempre.

“Perfeição humana, em que consiste?”

Acreditava que tal expressão tratava-se de uma prosopopeia humana, pois um objeto pode ser perfeito, mas um humano?

E nesta crise existencial — ou não — vivia seus dias, na esperança de que um dia, talvez um dia, pudesse saber a resposta de sua indagação crucial: “Por que ainda estou viva, pra quê eu nasci?”, pois pensava ela que, quem sabe assim, pudesse descobrir a fórmula do tão sonhado sucesso... Tola, já havia descoberto e o estava desfrutando e nunca percebeu... Compreenderá algum dia?... Compreenderá que era simplesmente continuar rolando a pedra e viver sem grandes expectativas?!


Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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Entrega

O fim sempre volta | retorna sem medo, sem aviso, sem prazo. | Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado | que pede pausa…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O fim sempre volta
retorna sem medo, sem aviso, sem prazo.
Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado
que pede pausa, pede ar.
Não sinto mais do pouco controle que pensava ter pelo fluxo sanguíneo irregular
que transpassa cada frágil parede dos capilares que me formam.
Já fui melhor, ao menos acredita, mais centrado, olhar que alcançava longe;
hoje, penso apenas no agora, na existência que se estende ao amanhã, não sei,
se chego. Se quero. Se tento. Se espero.
E quando o frio me consome, o tremor das pontas dos frágeis,
o peito que aperta com pulmões que não encontram o ar, coração compensa,
tenta compensar,
mas há batimento que alcance ou coloque fim em toda dor,
nos cheiros que me levam até aquele lugar,
a que brilhava e queria me cegar,
eu queria me cegar,
as pessoas, sons que penetravam tais como alfinetes agudos,
rompendo os tímpanos cansados,
esgotados,
era como eu sobrevivia,
não sei como.
Agora, penso no tempo, em como me limpar,
enxergar um longe tão longe,
que não tenho mais unhas para alcançar.
Quero o descanso,
o silêncio que vem com a entrega,
a interrupção da dor,
o cessar do medo;
quieto, calado, vida ao redor,
entrego.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
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Inverno Azul

o dia nasce em tons de um azul morto | um azul que não encanta
que não vibra | que não promete nada…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

o dia nasce em tons de um azul morto
um azul que não encanta
que não vibra
que não promete nada

é o azul das veias cansadas
das manhãs que não chegam a ser manhãs
um frio que não toca a nossa pele
mas mora em nossos ossos

existe um vento
não daqueles que derrubam árvores
mas um sopro mais suave
que atravessa nosso espírito
como uma lâmina afiada

ele carrega o vazio
esse antigo companheiro
que se senta ao nosso lado
e jamais pede licença

os relógios continuam
fiéis carcereiros do nada
marcando segundos que escorrem
como água turva por mãos trêmulas

e tudo é azul
o céu, os olhos
as paredes e a alma

um azul profundo demais
para ser esperança
claro demais para ser noite

um intervalo
um quase
um erro de existência 

caminhamos por corredores
onde as portas levam sempre
para o mesmo quarto vazio

e lá dentro
há apenas lembranças
do que já fomos
ou talvez nunca fomos

e o frio cresce
ele se aninha nas palavras que jamais foram ditas
nas despedidas que não aconteceram
nos abraços que imaginamos
que jamais ousaram existir

é um frio paciente
quase belo
como uma catedral abandonada
onde o azul dos vitrais
já não iluminam o interior 

e permanecemos
respirando esse ar frio
como se houvesse sentido
como se o vazio fosse suficiente

e talvez seja
talvez sejamos somente isso:
carne habitada por um inverno azulado
tentando fugir do calor
enquanto lentamente
nos tornamos parte dele.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Diário de Dr. Christopher V. Walker

Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

 Dr. Christopher V. Walker
(Anotações em seu Caderno)

Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela sombra das colunas de fumaça da madeira queimada, com um cheiro acre de pólvora, sangue e fezes.

Ao longe posso escutar os tambores dos militares e os gritos da comuna. Mal avançamos uma semana desde os fatos que fiz questão de relatar ao Anton, e já me vejo envolto em novo caos.

As comunas pareciam por algum tempo haver desistido… uma doce ilusão de um médico.

Imagens daquela noite nefasta ainda provocam tremores neste pobre corpo e se somam aos medos vindos das ruas de minha querida Paris.

Resolvi registrar os eventos nesta terra de Deus. Uma ferramenta a que recorro para manter a sanidade, o equilíbrio e a esperança de que passem esses ventos e dias melhores venham. Contudo ao que vejo, do que recebo de notícias, esse desejo me parece cada vez mais distante.

Anton meu amigo, torço, com todas as forças que ainda me restam, que onde estiver encontre mais paz do que aqui… já que os inocentes deste lugar... são atormentados pelo tiro de mosquetes, das explosões das bombas como pelo fogo atormentador.

Tornou-se impossível sair para fazer qualquer coisa.

Há alguns dias saí do meu quarto com mil olhos e ouvidos, para evitar zonas de conflito. Mas não importa por qual viela, rua ou praça que se caminhasse haveria soldados, ou comunas, ou comunas e soldados se enfrentando.

Caminhei por poucas quadras como se fossem mil léguas em marcha cautelosa, porque a fome ainda é um excelente motor para superar o medo do risco de ser alvejado.

Ao chegar no açougue, coloquei-me a selecionar o que mais me apetecia. Ainda assim, meus ouvidos chamam a minha atenção a qualquer som incomum.

Então escutei um soldado que estava na porta do açougue, junto a outros quatro homens fardados numa conversa, a princípio, descontraída.

— Ouviram que numa das ruas próximas de um mercado no Norte, uma patrulha foi atacada por esses malditos baderneiros da comuna… — Por um breve momento parecia que o homem alto de cabelos loiros e olhos aquilinos tinha receio de seguir o relato. — Disseram… santo Cristo… que um dos atacantes avançou desarmado… que em sua boca os dentes eram como de um animal, e suas mãos pareciam de um demônio…

Todos se entreolharam, até que outro dos soldados tomou a palavra.

— Ora… que isso David! Está ouvindo historinhas de crianças contadas pelo sargento Dubois. — Ele soltou uma gargalhada, que fez o clima tenso se dissipar. Depois pegou um naco de salsicha defumada e deu uma bela mordida. Os demais igual riram. — Quer dizer que, além da comuna nos infernizando, temos que nos preocupar com monstros ajudando os inimigos?

— Ah, Thomas, quem me contou foi um dos que sobreviveram da patrulha atacada. Se fosse o Dubois eu contaria como uma piada e não com essa seriedade. — O rapaz claramente ficou vermelho de raiva.

De todos, ele parecia ser o mais jovem. Batendo a caneca de ferro fundido que tinha nas mãos — cujo líquido, derramado dela, parecia cerveja por causa cor.

— Haha… — Outro dos soldados ria em voz alta com a boca cheia de pão e queijo semicomidos. Começou a falar de boca cheia. — David deixe o menino em paz. — Ele terminou de falar e engoliu como um bom glutão. — Olhe, Alexander, nesse momento, muitas histórias estranhas vão ser contadas. Em sua maioria mentiras.

A atenção de todos recaiu sobre aquele homem imenso de tão alto e rechonchudo. Sua expressão era serena, apesar da cicatriz na face indo da sobrancelha até os lábios.

— Tá… tá… está bem. Apenas queria distrair o novato inocente. — Falou o soldado David em tom de deboche e uma cara de fuinha louca.

Devo dizer que ouvir aquilo gelou a minha alma. Um homem que tinha dentes e mãos como de uma fera selvagem… sim… sim… poderia ser.

Saí do açougue com umas poucas compras até o meu quarto. A jornada foi imersa em pensamentos e reflexões sombrias.

— Aquele jovem chamado… David… sim. Disse que foi uma patrulha ao Norte. — O pensamento que começava a ganhar forma em minha mente já causava arrepios, até que as lembranças daqueles monstros na faculdade e dos seus gritos me fizeram parar por um par de minutos.

— Tenho que me recuperar. — falei para mim mesmo. Quase me senti um louco fazendo aquilo no meio da rua.

Eu não iria sozinho buscar um perigo daqueles.

Óbvio… muito óbvio…

Precisaria de ajuda, e não de qualquer ajuda.

Alguém… uma pessoa, sim! Que tenha visto e participado comigo e que não duvidaria de minhas intenções e pensamentos.

 · · • • •✤• • • · ·

Dia 22 de agosto à tarde — Recorri à única pessoa que me era familiar para aquela situação. O oficial Joules. Este homem que compartilhou comigo… a maldita experiência… a mais nefasta de toda a minha vida.

— Meu amigo Anton, se um dia tiver acesso a este diário espero que não fique chocado com o que encontrar. Torço por sua compreensão quanto a estes fatos que narro aqui.

Tomei o rumo para a delegacia onde Joules trabalhava. Na esperança de que ele estivesse disponível e disposto a participar de uma empreitada que para poucos podemos dizer ser convidativa.

De minha casa até a delegacia, de carruagem, seria trinta minutos, no entanto, com toda a baderna dos conflitos dentro de Paris, encontrar esse transporte se converteu em algo impossível.

Então tive que me aventurar por vielas e ruas caóticas. Desviando de áreas que estivessem com conflito deflagrado.

Por umas quantas vezes… Nessa curta viagem pelas entranhas de uma Paris em banho de sangue. Pude presenciar a angústia e desesperança encarnadas em rostos infantis. Era como ver anjos deprimidos e perdidos, caídos em meio a pólvora, a pedra e o sangue.

Mulheres correndo com suas crias na intenção de protegê-las, homens guarnecendo suas janelas e portas na vã tentativa de evitar o confronto.

Corpos estirados nas vias, com seu cheiro peculiar de podridão e morte. Ratos correndo por sobre eles e dentro deles.

Pobres almas saqueando corpos mortos e moribundos. Um cenário angustiante e doloroso. Por algumas vezes fui pego no meio do conflito das facções e tendo que desviar dos projéteis de ambos os lados.

Num dado ponto da jornada fui forçado a invadir uma casa, que por infeliz surpresa havia uma jovem senhora com suas crianças.

— Ca… calma! — Minha voz estava entrecortada de tanta correria. O peito não conseguia se encher de ar, as narinas ardiam com o cheiro da fumaça; limpei a fuligem da roupa e o suor da minha face. — Não vou fazer mal a sua família.

Uma das crianças começou a chorar de medo. A mãe gritou alguma coisa que eu realmente não… não consigo recordar… ou não posso… sei que deveria!

Sei que o que fiz a colocou em perigo iminente e nem lembro da voz dela.

Logo atrás de mim, na casa da frente, uma explosão das bombas dos granadeiros nos fez cair ao chão com a onda de choque.

— Ahhhh… ahhh… — Por uns momentos… ali naquele chão de madeira empoeirado, sujo e desgastado, senti um zunido forte nos meus ouvidos, o coração acelerado somado à dificuldade de respirar.

Mal pude recuperar minha razão, percebi o ar denso, cheio de fumaça e fuligem.

— Ah… que dor em meu estômago… — Caí sobre algo. Senti cada músculo, até as fibras do meu cabelo doíam. Sentia a fadiga.

Me ergui como pude, tropeçando em meus pés, como se estivesse bêbado; corri para a porta para fechá-la da melhor maneira possível pensando em proteger aquela família.

Apenas escutei o choro desesperado das crianças, e a mãe entre tossir e chorar dizer algo que pudesse acalmar as crianças.

Me virei e olhei aquela cena, mas em minha mente havia um objetivo maior. Eu tinha que chegar até Joules.

— Vocês estão bem? — Sei que disse isso… ou gritei. Naquele momento ambas as coisas pareciam uma só.

Meus ouvidos começaram a ouvir novamente com clareza, sem o som irritante.

Me apoiei nos joelhos tentando recuperar o controle, enquanto do lado de fora se ouvia os disparos, os gritos de ordem.

Então um grito no andar superior da casa que me fez gelar. Era diferente do que estava acontecendo do lado de fora. Era… de terror.

Olhei para a mulher, que tinha uma expressão de não entender a razão do grito. Da escada apertada na lateral da sala da casa, se ouviu o som oco de algo rolando escada abaixo, até parar no térreo, atrás de uma pequena mesa com cadeiras caídas no chão.

Estava ali diante dos nossos olhos.

Levei uns momentos para entender o que era aquela massa diante de nós.

Ao me aproximar um pouco, pude perceber a parte superior de um tronco humano que parecia ter sido cortado ao meio por alguma lâmina.

— Mas… o que é isso? — Meus olhos se arregalaram, e minha mente tentava traduzir aquela imagem. — Isso… isso não… não pode ser!

Quando notei que o corpo gotejava um líquido mais escuro... preto! As memórias vieram. — Meu Deus… — Minha voz falhou neste momento, levei a mão à boca.

Minha cabeça seguia a escada, o que me fez olhar para o teto e um temor em meu coração cresceu.

Do andar de cima um grunhido feroz soou.

Não tive dúvidas, olhei ao redor e para o fundo da casa, foi quando notei que havia uma porta para um pátio traseiro, e que estava aberta.

— Co… corram. Corram para o fundo! — Foi um grito desesperado.

Não pensei muito, tão somente obedeci minhas pernas e meus instintos de sobrevivência. Avancei na direção da mulher e seus filhos. Todos se levantaram e correram para o fundo do ambiente. Tomei uma das crianças nos meus braços — que chorava e me abraçava, chamando por sua… sua… mãe. Oh, Deus! Como lembrar disso me atormenta, me angustia a alma.

A mãe tomou a outra criança até cruzarmos a porta.

Chegando ali, olhei para trás com aquele bebê em meus braços; observei aquele monte de carne no chão da casa da pobre mulher.

— Por favor, que eu esteja errado… Por favor, Deus… — Eu não consegui respirar direito, o peito doía, o ar com fumaça dificultava ainda mais. Os músculos tremiam de cansaço e dor. O corpo… aquele ser… humano?... Não, não sei afirmar… se ele era humano…

Ali no chão… Aquilo começou a vibrar fortemente, os braços se contorciam. Havia um cheiro forte de podridão no ar. Não sei dizer se vinha dele, ou do conflito… suponho que de ambos… Aquela cena não pertencia ao mundo de nosso Senhor.

— Aquilo poderia ser algo vindo do inferno para atormentar a humanidade? — Então… por um momento… um breve instante... aquele ser… parou.

Um silêncio mortal imperou.

Nem disparos, gritos ou mesmo explosões se ouviam. O mundo ficou num silêncio ensurdecedor. Os segundos pareciam levar décadas para avançar.

Logo, do andar superior, vindo pelas escadas, um som de passos pesados... descendo... quebrando aquela frágil redoma de ausência de som.

Naquele momento o desespero aumentou. Uma sensação de que algo abissal estava vindo, sim, algo que eu já havia possivelmente presenciado.

Por uma graça que só posso atribuir ao divino, a nuvem de fumaça negra que estava cobrindo o céu sobre a casa — e a região — passou a se dissipar gradualmente. Aos poucos, os raios amarelos surgiram dentro da casa, como uma luz gloriosa avançando divinamente. Cobrindo progressivamente; da cabeça até a parte faltante do corpo.

Aos poucos o corpo parecia incendiar-se, faíscas saíam de todas as partes, o ser abriu os olhos vermelhos e a boca com dentes pontudos. Começou a se debater empurrando a mesa para o outro lado da sala, e pude ver bem, chamas saindo de seu interior, sua pele se escurecendo como carvão... lento... e claramente fatal para a coisa.

Quando me dei conta, a mãe… ela… estava ao meu lado com o outro filho em seus braços, observando aquela mesma cena hedionda.

A pobre criança que estava comigo… oh, a pobre e inocente criatura estava estática em meus braços, com os olhos fixos no corpo no chão.

Parecia que algo havia sugado sua essência angelical.

Pus a criança no chão; a mãe sem dizer nada tomou sua mão e logo se colocou a andar em direção a um corredor que dava para uma via lateral e, então, à rua de trás.

Ver os olhos… sim… aqueles olhos da criança sem reação, mortos. Me rompeu… quebrou minha alma. Nenhum desses inocentes deveria ver algo tão terrífico como aquilo. Aquela imagem vai perturbar minha mente pelo resto de minha vida.

— Meu Senhor, o que foi isso? Que coisa nefasta é essa que corrompe a natureza? — A angústia tomava minha voz, consumia meu interior.

Aquele momento me fez derramar lágrimas. Derrubando muros que construí.

No andar superior se ouviu que algo foi rompido, como uma explosão. Claramente algo saiu correndo, já que se ouvia seu avanço de parede em parede.

Aqueles estrondos fizeram minhas lágrimas cessarem, parte da razão retornou à minha mente, ainda havia mais coisas ocultas.

Dentro da casa restou apenas um corpo carbonizado… um silêncio e um vazio… como se ali já não houvesse qualquer vestígio do divino.

Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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11. Aquilo que sustenta a carne

Já faz um mês que estou recluso na residência de Viktor. Não tive muitos avanços na investigação sobre o paradeiro de Sibila. Desconfio de que o doutor estudava…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Já faz um mês que estou recluso na residência de Viktor. Não tive muitos avanços na investigação sobre o paradeiro de Sibila. Desconfio de que o doutor estudava a vila de Séttimor. Não encontrei registros sobre o local em nenhum outro lugar, salvo em sua própria biblioteca. Foi a partir destes documentos que consegui desvendar a língua estranha em partes de seu velho caderno.  Ao que tudo indica, ele estava profundamente interessado neste lugar.

Mas não é só isso que me inquieta.

Por que os trechos que tratam do declínio da saúde de Elisabeth, sua esposa, também estavam em Settimoriano? Eu li e reli inúmeras vezes, até notar que as anotações finais se concentravam apenas em Elisabeth, em seu estado, em sua progressiva deterioração.

No início, tudo está grafado em alemão. Mais adiante, o settimoriano surge de forma esparsa, mesclando-se ao idioma original. E, nas páginas finais… resta apenas essa língua estrangeira. Morta, talvez?

Pretendo traduzir o último trecho amanhã. Transcrevo aqui o penúltimo:

“O quadro de Elisabeth apresenta agravamento acentuado. Há quinze dias, mantinha-se relativamente estável, realizando pequenos deslocamentos pela residência. Cheguei a conduzi-la ao laboratório, na expectativa de verificar algumas teorias acerca de sua enfermidade.

Nos últimos cinco dias, contudo, o declínio tornou-se evidente. A progressão, antes discreta, assumiu caráter acelerado.

A alvura de sua pele acentuou-se, adquirindo, em certos pontos, aspecto quase translúcido. Observa-se, ainda, diminuição significativa de massa corporal, em ritmo mais rápido do que o previamente registrado.

Houve um tempo em que tais alterações passariam despercebidas sob os tecidos que eu mesmo lhe providenciei.

Manhã:

Temperatura estável.

Ingestão de chá mantida.

Recusa alimentar.

14 horas:

Expectoração com traços hemáticos.

Concluo que os emplastros de aplicação tópica, preparados com ópio, bem como as infusões destinadas ao tratamento da afecção consumptiva, não surtiram efeito.

Tampouco a permanência temporária em sanatório.

Tampouco as aplicações de sanguessugas.

Tampouco o repouso absoluto.

Não foi possível estabelecer parâmetros comparativos com outros casos de mesma natureza. Ainda assim, considero plausível que os resultados fossem distintos caso as intervenções tivessem sido iniciadas há um ano, e não há apenas cinco meses.

A paciente encontra-se, no momento, em isolamento, a fim de evitar a exposição de terceiros aos miasmas que a circundam. Não apresenta mobilidade. Mantém recusa alimentar constante. A diminuição do intervalo entre os episódios de expectoração sanguinolenta indica progressão de caráter irreversível. Eu já tinha observado isso em pacientes anteriores.

A progressão observada sugere um quadro de afecção pulmonar em estágio avançado, com deterioração contínua. Entre os meus colegas, convencionou-se aceitar que isso é o curso natural da afecção consumptiva. Tal aceitação, contudo, revela-se insuficiente.

Empreguei todos os métodos conhecidos, mas, em sua maioria, eles se limitaram à contenção dos sintomas e ao prolongamento discreto de um processo cujo desfecho tem sido invariável, como observei em todos os pacientes que tratei anteriormente. Obtendo êxito apenas no prolongamento de suas vidas. A expectativa é de cinco anos, reduzindo-se para três anos para aqueles de constituição mais frágil, como Elisabeth. Considera-se inevitável aquilo que, talvez, não tenha sido devidamente compreendido.

A sequência dos eventos observados, a emaciação, a febre persistente, a expectoração sanguinolenta não ocorre de forma aleatória. Há, necessariamente, uma ordem, um encadeamento preciso, ainda que não plenamente descrito. Se antes o corpo era saudável e agora não, algo mudou, algo deflagrou essa progressão. Logo, isso existe e pode ser estancado ou eliminado.

A falha, portanto, não reside na natureza do processo, mas na incapacidade de identificá-lo em seu estágio inicial, ou de agir sobre ele com os meios adequados. A maior parte de meus colegas desiste neste ponto. Eu não. Não irei aceitar que os jornais estampem em suas manchetes que o maior médico de seu tempo permitiu que sua esposa o deixasse. Além disso, provavelmente mancharia a minha carreira e me privaria de sua agradável companhia.

É plausível supor que, em fase anterior, quando os primeiros sinais ainda se manifestavam de maneira discreta, uma abordagem distinta pudesse ter contido o avanço da afecção, ou ao menos retardado de forma significativa sua evolução. Permanece, assim, a necessidade de compreender não apenas os efeitos visíveis do declínio, mas o princípio que os origina. Pois, se o processo pode ser descrito, deve também poder ser alterado.

Cansado de seguir pelos meios tradicionais, iniciei estudos não só na respeitável área da medicina, bem como em outras áreas. Estudos, para além da matéria, tratados como superstições, magia, chamaram-me a atenção para a natureza da alma e sua ligação para com a matéria. Ao que parece, tudo se porta como energia no universo. Estamos ligados a isto, e isto se liga de alguma maneira à nossa alma, animando nossos corpos. E esta energia, descoberta pelos Settimorianos, é a chave para animá-los. Acredito que é aí que reside…

Sim, tenho esperanças de que, se me dedicar com mais afinco, terei condições de perpetuar sua carne e sua alma sob a luz destes novos conhecimentos. Estou quase alcançando o inalcançável novamente. Do nada, fui capaz de criar a vida na forma daquele ser que criei.  Mas imagino que, desprovido de alma, não tenha sido um processo totalmente eficaz.

Então, para salvá-la, em vez de criar, pretendo estender o tempo. Não da matéria em si — esta já demonstra sinais claros de falência progressiva, mas daquilo que a sustenta. Se a estrutura orgânica se encontra comprometida, talvez não seja nela que deva concentrar meus esforços, mas no princípio que a anima.

A carne deteriora-se. Isso é um fato. Mas aquilo que lhe confere movimento, calor e intenção… não parece obedecer às mesmas limitações. Se tal princípio puder ser contido, preservado e, sobretudo, conduzido conforme a minha vontade, então a deterioração do corpo deixa de representar um fim absoluto.

As experiências anteriores, ainda que imperfeitas, demonstraram que a matéria pode ser organizada de modo a simular as funções vitais. O erro não esteve na execução, mas na ausência de um elemento essencial. A ausência de permanência.

O que foi criado não se sustentava. Não possuía continuidade. Era movimento… sem propósito. Torna-se evidente, portanto, que não basta animar a matéria e se os registros settimorianos estiverem corretos, tal ancoragem não apenas é possível, como já foi realizada.

Resta compreender o método. E aplicá-lo.

Antes que o tempo — este, sim, irrecuperável — se esgote por completo. E, como sempre, tudo na hora certa.”

Fechei o caderno. Viktor falara sobre a alma, e isso me levou a pensar se eu realmente tinha uma.

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais
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Efêmero Corpo em Transformação

Nódoa fria de rebento | Tenaz escuro | Olhando para o breu, vi-me entre o silêncio e o passado | E eis que em mim habitam vozes outras dos meus contatos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Nódoa fria de rebento
Tenaz escuro
Olhando para o breu, vi-me entre o silêncio e o passado
E eis que em mim habitam vozes outras dos meus contatos
Serás aquilo que vos passa!
O que fica não quer ir embora nem amadurece frondoso como os sentimentos
O que nos passa é como gozo que jorra esperma
O que nos atrapalha fica e nos pesa
O passageiro nos atrai o olhar a seguir
E caminhamos sem saber para onde
Talvez nas histórias incertas, inventadas, passadiças
O que nos passa é desejo de ser
O que fica fez-se corpo
E, na sua forma, esbarra quando eu de mim quero atravessar no silêncio e me despir
O que transborda é como correnteza
Como os espasmos sexuais das mãos assanhadas na masturbação
A fluidez dos corpos sem’iguais
Como o rio de suor sem hora marcada
Passam a dor, o amor, o tesão
Passam-se, doendo, amando, crepitando
Como se fossem chamas
Peitos na cara, o membro atento
E gemidos que custam a dor e a fome de saciar-se ou morrer
O que fica são as marcas passadas
As nódoas das lembranças
Aquilo que fui quando podia, sonhava, fumava, fodia...
Mal lembro de tudo que fui nesses momentos
Mas isso passa.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Poema

Ah, fé, | Só com ti o mais descrente pode absorver o consumo da realidade | De acreditar que pode haver amanhã mesmo em fúria | A fé que aprendemos desde crianças…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

IV
Ah, fé,
Só com ti o mais descrente pode absorver o consumo da realidade
De acreditar que pode haver amanhã mesmo em fúria
A fé que aprendemos desde crianças
Quando fazemos as brincadeiras sem saber por quê
Sem definir as atividades, apenas soltos no tempo e espaço
Ainda sem conceitos, primitivos
A fé é o retorno ao primeiro
A infância que acredita no futuro, pois ainda está por conhecê-lo
Como Kierkegaard, saber da fé além da razão
Ter a morte uma só vez experimentada
Oh, poetas, vocês têm fé,
Pois sonham
Não vos resta somente o cotidiano
Não sacia a sede o concreto
É a imagem do que é ideal
O que se espera
O que se apresenta por detrás da angústia da vida
Um novo ar, como o da fotografia sensual
Quieta e ardente, parada e fugaz,
Uma prova estática e assustadora da morte
Valeu o clique da foto como vale o eterno retorno
Além daqui existe o sonho
O cotidiano por si só não basta
E os poetas sonham
Como a transa secular das palavras e das coisas
Os corpos que se tocam e gemem desejos
Onomatopeias do sexo
Do prazer com que a carne tenaz sacia a loucura
A fé, mesmo que não a tenhas aos moldes cristãos,
Estás sujeito a tê-la
É a presença da incerteza
A dinâmica do jogo dos erros
É a lógica sem pé nem cabeça do mundo incerto
A fé não se engana
A realidade é que não suporta os sonhos
O novo
A fé é a loucura dos sonhos que se esvaem na realidade
A sombra do viajante
A coisa das causas
Paixão dos amantes que irrompem agressivos
O poema que se fez carne e a carne que morreu por uns versos
Enquanto o poeta, quase sem fé,
Com a corda na mão,
Nutre-se novamente


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Carne-pérola

O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O rádio de válvulas na sala de estar chia uma estática de sangue, e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro de um piano de cauda de veludo carmesim, vertendo flores doces e pétalas com odor de esperança.

O perfume de vaga-lumes dos campos elísios,
O útero de Einherjar
Sob o crepúsculo enfermiço de onde o tempo se dobra como
ferro incandescente sob o martelo de deuses esquecidos,
uma pele velha e suada sobre um assoalho de xadrez infinito. 

As luzes de néon cádmio derretem nos cantos do teto,
transformando-se em corvos de cera que gotejam piche quente sobre o linho branco da realidade, enquanto o Vidente do Manto Negro — uma ferida aberta no espaço — desliza acompanhado por uma criança de olhos de mármore cheios de fumaça elétrica.
Não há consolo, apenas a sentença: o colar de prata lunar, onde a engrenagem
e o olho lacrimejante se fundem em um beijo de parasita,
é apertado contra a garganta, lançando a alma a um oceano de horror ontológico. 

Pelas frestas do inconsciente, as aranhas de cristal emergem com patas de agulha, costurando o silêncio ao pânico, enquanto carniçais de sombra sentam-se à mesa para mastigar substantivos e devorar a própria noção de identidade em um banquete de memórias que nunca existiram. Acima, no teto que desaba em pétalas de carne crua, os baiacus cósmicos incham de hidrogênio e segredos de estrelas mortas, seus espinhos roçando a geometria do luto. Caminha sobre ossos de poesia, vértebras de estrofes quebradas que rangem sob o peso do chumbo, atravessando mares de sangue oxidado onde os mortos não buscam carne, mas um afeto impossível de vidro onde as paredes respiram e as flores do papel de parede gritam o nome de um santo que nunca nasceu, ela empunha o prisma sanguíneo — metade osso, metade circuito pulsante — recusando-se a ser pó, recusando o convite do sofá de veludo do esquecimento. 

Não há fim, apenas um zoom infinito para dentro do átomo de uma lágrima de mercúrio; a dor não é um acidente, é a linguagem primordial, o grito que esqueceu como rugir, o eco de uma porta que se fecha em uma casa que nunca existiu enquanto o rádio continua a chiar no azul profundo da eletricidade.
As luzes da sala de estar piscam em um código Morse feito de estática e soluços.
O cheiro não é de morte, mas de eletricidade queimando sobre açúcar.
O teto é um espelho líquido onde o céu se torna um oceano invertido.
Os corvos de cera estão empoleirados nos fios de alta tensão que atravessam a cozinha.
Eles não grasnam; eles derretem.
Gotas de piche quente caem sobre o linho branco, formando manchas que parecem testas de lenha queimada.
Quando a cera atinge o chão, ela cria raízes de gordura.
Eles observam com olhos que são apenas buracos de fechadura —
se você olhar através deles, verá uma estrada vazia à noite, esticando-se até o infinito.
Teias de vidro e ossos de versos, frestas do assoalho, as aranhas de cristal emergem.
Suas patas são agulhas de luz que costuram o silêncio ao pânico.
Elas não tecem teias para moscas, mas para capturar o hálito de quem decreta oração.
No centro da sala, uma pilha de ossos de poesia range sob o peso do invisível.
As vértebras são estrofes quebradas; o fêmur é uma rima que nunca se encontrou.
Se você encostar o ouvido no rádio de costelas, ouvirá uma voz distorcida sussurrando:
Onde o verbo termina, o cálcio começa a gritar.
Velas e corvos e castiçais dançam nuas no salão de Sessrúmnir.
Os carniçais entram pela porta dos fundos, mas eles não têm pés.
Espectrais sombras sólidas, esfomeados por substantivos e adjetivos.
Vultos do destino de vozes quebradas e estilhaçadas faces,
não querem sua carne; eles querem o significado das suas memórias.
Com colheres de sombra, eles raspam o vocabulário das paredes.
Eles mastigam a palavra "Poesia" e cospem areia preta.
Eles devoram o "Amanhã" e o tempo para de fluir, tornando-se uma poça de óleo estagnada. 

Imundo intra-pecadores, pescadores, ínfimos, anfíbios da imaginação.
os Tetraodontiformes, parasitas cósmicos flutuam no ar denso.
Lentos. Inchados de hidrogênio e segredos de estrelas mortas.
Sua pele é feita de galáxias que sofrem de acne-marfim.
Eles incham até que os espinhos toquem os seus pensamentos.
Bolhas, brumas e pesadelos derretidos no copo da manhã,
Quando um Plectognathi explode, não há som, não há fim,
apenas a cópula-cápsula-crisálida, cruz, crua flor oca,
ocre cor amarela ocupando o lugar de todo o oxigênio do mundo. 

O telefone da entropia toca no corredor vermelho.
Você atende, mas sua voz é apenas um punhado de penas de cera.
A pessoa do outro lado é você mesmo, trinta anos mais velho,
dentro de um televisor amarelado-desligado,
comendo uma aranha de cristal e rindo em câmera lenta.
O som de um fósforo riscando o vácuo.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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A Primeira Noite de Plantão

Agudo segundo que trouxe fogo em direção ao meu cigarro para queimar as pontas da incerteza, num duelo da mente e do ocaso. Seria tão agradável, com as razões…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Agudo segundo que trouxe fogo em direção ao meu cigarro para queimar as pontas da incerteza, num duelo da mente e do ocaso. Seria tão agradável, com as razões postas em xeque mais uma vez, desfrutar do colar da segurança.

Logo eu, médico de respeito, renomado doutor. Deixar-me permitir tamanha ausência de decoro. Porém, como resistir ao trepidante chamado: “O senhor me ensina”?

As palavras mais pesadas de captar.

Fui professor em Harvard. Tive experiências com mentes brilhantes, mas não tão sinceras e plácidas. Meus ouvidos incharam como ondas sonoras espessas no espaço, correndo em busca da sintonia. Como delicadíssimo pedido saído de uma bandeira amante da pátria. Incorrigível e sensata. Não podia haver um “não”. Eu saberia quando seria tão indelicado, tanto quanto matar sem sentido.

Os pelinhos eram brilhantes e deslizavam sobre a camada flácida da boca aberta. E o toque que enchia os pensamentos de culpas continuava esvaindo-se em banais artifícios de conquista. Soltaram-se sorrisos em favor da proeza que nunca se sentiu, mas que toda mística em volta suscitava um bravo descobrimento. Pero, Vás! Encaminhava-se às novas terras.

Serelepe encontro com a nudez provocante e sem pudor. Mulheres conheceram a magia dos rituais e saíram sem cobrir suas vergonhas.

Aqueles sinais graciosos que apareciam em cima da testa iam em direção automática à grande escultora que permanecia calada, soltando lágrimas de desejo.

A inocência transparecia a verdade. Foi o axioma máximo de todos.

Conviver com isso era me transformar; transmutar; remexer-me e desfazer-me; refazer-me.

Imagem noturna; gemidos. Esse som me fazia enxergar a direção correta. As covas que precisavam de sementes e a terra inteira que implorava por salvação. O correto e inabalável caldeirão de rosas, apenas, que carregava todas as fragrâncias dos campos e todos os desejos do mundo.

“O senhor pode ser meu professor.”

Uma convenção tradicional figurava a disputa de sentidos. A mais dolorosa cor de culpa que pintava todos os órgãos do pecado. Eu estava em meia-idade.

“O doutor...”

“O senhor doutor”

“Um grande exemplo”

“Um primor de rigor”

Atingido por mil léguas de distância da realidade, existia eu. Sem ser médico nem senhor. Com vontades e desejos, com folga e segredo.

Havia uma imensidão de eus conflitantes. Nunca imaginei que serenava discórdias além de desejos fluidos e naturais. Mas eram convenções.

Contratos comigo mesmo que se estabeleciam desde o nascer. Que organizavam o distanciamento entre o bem e o mal, numa balança quantitativa de sintomas nunca diagnosticados e sem receita.

Um belo sono estancaria essa marginalidade. Mas não dormia, por não conseguir. Não respirava, por não poder falar. Nem conseguia enxergar por poder imaginar o que seria da vida. O que era a vida? Esse estalar de pouco tempo no complexo mutirão de famintos.

Lembrei-me de menino e menina. Sabia das aparências e vontades minhas, e como as domei em nome de algo que não se palpava nem se sentia. Apenas se camuflava sobre um cobertor de irrealidades: a reputação.

O que seria um belo adormecer transformou-se no desejo de nunca acordar. Havia feito aquilo; meu corpo sabia e agradecia uma parte, a outra se julgava. Mas como resistir?

“Venha, faça-me aprender.”

Deu-me vontade de bater, surrar até não sentir mais as minhas próprias mãos. Aquela mulher não podia se atrever assim. Deixá-la mole como se um caminhão tivesse atropelado ou como se as estrelas caíssem, todas, de uma só vez, sobre aquele ponto brilhante e flamejante. Mas não pude. Sempre fui assim: contendo-me com um olhar de linhas grossas e agudez ferina, gentil e melindrosa.

Arrebatamos uma aula sincera, com todos os requintes pedagógicos do sexo, delicadeza e calmaria.

“É com o senhor que devo aprender.”

Era verdade. Como a verdade podia ser tão cruel? Ou o fato de não a encarar por medo podia ser crueldade? Fiz o que pude para ajudar. Acho que isso quis dizer que respondi às expectativas dos outros e às minhas também.

Não era nenhum jogo entre Deus e o Diabo, mas encontrar um sentido para tudo aquilo. Bastava a saciedade para ser válido. Ambos os resultados foram idênticos. Nunca pude imaginar um desfecho tão complacente. Cúmplices. As duas nódoas se misturaram em alquimia rítmica, soando baladas oitentistas regadas a alucinógenos espirituais. Uma nova voz se apresentou naquele meio, trazendo uma força vital de clareza nos acordes mais destoantes. Era algo novo e bem-sucedido.

Agora o vício avançava e voltava à imagem de um bebê, descobrindo os passos e as palavras. Dois adultos fazendo doidices sem razão, unindo a esfera do oculto no labor cotidiano.

Quanto à liberdade, essa gigantesca explodia naquele instante e chocava tudo, fazendo um reboliço no conceito e transmutando a paz nas águas da dúvida.

Impulso e soluço, regidos a sangue de espada cravado sobre o peito amigo. Sem traição. Sem constipação. Apenas soando orquestralmente os sonhos da própria ilusão de não ser só uma foda, mas a carreira que se tinha a zelar...

Continuei nesse vício de me descobrir, mesmo já sendo feito; de me desconstruir, só para sentir o efeito.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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O Verso e o Reverso do Ser

Em cada ser, a vasta catedral se ergue, | onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge. | Um palco dual que a existência nos impôs, | onde o eu se forma, entre o antes o e depois…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em cada ser, a vasta catedral se ergue,
onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge.
Um palco dual que a existência nos impôs,
onde o eu se forma, entre o antes o e depois. 

A Luz se revela, é o rosto da bondade,
o verbo claro, a perene claridade.
É a mão que ampara sem buscar recompensa,
é a fé inabalável, a nossa nobreza imensa. 

É a mente que desperta, que afasta a ilusão,
a força moral que domina o nosso coração.
E sonhamos em ser esse ouro tão puro,
um brilho constante, um futuro seguro. 

Mas vida ensina,
em seu lento labor,
que a luz sem sombra
perde todo seu valor. 

Pois existem as Trevas, o lado que negamos,
o arquétipo fundo que em nós carregamos.
Não é apenas o mal, aquele erro que nos seduz,
mas é aquele potencial que rejeita a luz. 

É a nossa Sombra, o instinto vital,
o lado selvagem, secreto e ancestral.
É a mágoa guardada, o ciúme que arde,
a força que brota fria e sem alarde. 

Se a negarmos, ela cresce faminta e voraz,
e nos assombra em sonhos e em segredos.
A força não vista vira vício ou rancor,
e a alma projeta o seu próprio temor. 

Quem só vive de Luz, na virtude irreal,
cria uma máscara, um rosto artificial.
Torna-se duro, justo em demasia,
um sol sem terra, fadado à fria agonia. 

A pureza extrema que o humano não veste,
é a tirania sutil que nossa alma contesta.
A negação das Trevas gera a hipocrisia,
o medo da queda que escurece nosso dia. 

E quem se entrega às Sombras, sem freio e medida,
é engolido pelo abismo, perde a direção de sua vida.
Vira cinismo o pranto, vira caos o desejo,
sem a Luz que guia o ser não tem pelejo.

A alma se afoga no oceano escuro e vasto,
um barco a deriva, sem porto, sem rastro.
Devorado é aquele que escolhe um só lado,
perdendo o sentido, pagando o preço cobrado.

A chave não está na escolha vã,
mas na aceitação de quem você é,
ontem, hoje e no amanhã. 

O equilíbrio é a dança sutil e sagrada,
onde a Luz acolhe as Trevas, não nega ou degrada.
É quando a Sombra, reconhecida, não mais domina,
e vira a forma que nos move, intenção genuína. 

A Luz precisa das Trevas
para ter profundeza,
para ser humilde
e compreender a fraqueza. 

Como a lua que acende seu brilho no escuro,
somos a soma inteira, o presente e o futuro.
É na dualidade, no meio-termo instável,
que a vida se torna real e suportável. 

Olhe para dentro, sem medo do que espreita,
e faça da Sombra a mestra que te alimenta.
Pois só na união destas partes, formando esse par,
é que a nossa totalidade poderá se manifestar.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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