Escrito por Carlos Conrado, -Contos, Investigação Carlos Conrado Escrito por Carlos Conrado, -Contos, Investigação Carlos Conrado

O Segredo Abaixo dos Pés

Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Este pesadelo que baila e tortura minha mente — reflexo de uma vitória amarga contra minhas próprias convicções — escancara em minha fronte uma máxima cruel: enquanto temíamos e vigiávamos os céus, o que realmente nos destruiria sempre esteve aqui. Silencioso, sob nossos pés, ansioso por erguer-se e devorar tudo o que estivesse ao seu alcance.

Era um daqueles entardeceres em que as sombras crescem como se quisessem devorar a luz. Entornei o café na xícara surrada e deixei que a pena deslizasse pelo caderno. As palavras surgiram primeiro tímidas, depois num jorro, como água de uma nascente há muito esquecida.

— Já parou para pensar — perguntei à Clara, enquanto ela enrolava um fio de cabelo escuro entre os dedos — que quase todas as teorias sobre o fim da espécie colocam o céu como o nosso grande ceifador?

O rosto dela contraiu-se numa expressão de genuína surpresa.

— Nunca tinha observado por esse prisma.

Sorri, tomando um gole do café já morno. Nossas conversas sempre tiveram essa dinâmica: eu lançava o anzol e ela mordia a isca sem hesitar, num balé intelectual que encenávamos desde o dia em que nos conhecemos.

— Existe um lugar ao qual damos pouca importância — continuei. Ela inclinou-se para frente; o decote do roupão revelou a curva familiar de seus seios, um detalhe que, mesmo após anos, ainda conseguia me distrair do fim do mundo. — As religiões falam de demônios, invasores estelares ou catástrofes vindas dos cometas. O dogma nos impõe olhar sempre para cima.

— Conte-me mais — respondeu ela, os olhos brilhando com aquela centelha que só surgia quando mergulhávamos nessas madrugadas de teorias e sombras.

— O erro é nunca olharmos para baixo — completei, sentindo o peso das próprias palavras. Seu pé descalço roçou o meu sob a mesa, um hábito antigo que me ancorava à realidade. — O que existe, de fato, no núcleo da Terra? Lençóis freáticos, magma e nada mais? Ou o abismo esconde espécies raras e comunidades secretas que o sol nunca tocou?

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo ruído da cidade lá fora — uma sinfonia de buzinas e passos apressados, gente desesperada em sua jornada para lugar nenhum.

— Eu acredito em outros seres e outras moradas, mas não na Terra. E não consigo acreditar que sejam demônios.

A resposta dela me fez sorrir. Era a essência de Clara: cética quanto ao inferno, mas aberta aos anjos.

— Quão fundo nós realmente cavamos? — perguntei, mordendo a ponta do lápis. Ela riu baixo, conhecendo meu vício de roer o instrumento de escrita. — É possível perfurar a crosta a ponto de enxergar o outro lado, já que somos uma órbita suspensa no nada?

A noite já havia engolido a janela completamente, transformando o vidro em um espelho negro que nos devolvia nossas próprias imagens. Dois rostos, inúmeras dúvidas.

— Acho que isso reflete a hierarquia dos deuses — ponderou ela. — Seres divinos que precisavam estar acima dos humanos para dominá-los.

— O fundo do mar ainda não é o fundo da Terra — rebati. — Supõem que o magma seja o limite, o fim de tudo, mas são apenas suposições. Ninguém desceu o suficiente para registrar o que há abaixo do fogo.

— Não existe luz lá — a voz dela baixou para um sussurro, como se temesse acordar algo profundo. — Tudo o que vive lá é cego.

— Se há fogo, pode haver luz — contrapus. — A luz da superfície é uma projeção do fogo solar. A lava é a polpa do fogo telúrico. Creio que haja uma claridade própria nas entranhas do mundo.

O caderno agora era um labirinto de linhas tortas e pensamentos soltos: a cartografia de uma teoria proibida. Clara deixou a xícara tocar o pires com um tilintar metálico que ecoou pela sala.

— Falam tanto da Lua — disse ela, puxando o cobertor sobre os joelhos. — Mas você já reparou como as imagens parecem fabricadas? Sombras cruzadas, bandeiras que ondulam no vácuo... como um palco mal iluminado.

Abri o caderno em uma página repleta de cálculos e diagramas.

— O mais curioso é que pararam de ir justamente quando as brocas terrestres estancaram. 1969: o homem pisa na Lua. 1970: o Projeto Kola atinge seu ápice e para. Conveniente, não?

Clara puxou o caderno, os olhos devorando minhas anotações.

— Você sugere que foi tudo um teatro? Uma cortina de fumaça?

— Sugiro que é mais fácil simular a conquista do céu do que encarar o que encontrariam se continuassem cavando — respondi, batendo o indicador no chão de madeira. O som saiu oco, fúnebre. — Doze quilômetros. Foi o máximo que o homem alcançou. Doze quilômetros em um planeta com mais de doze mil de diâmetro. Uma gota num oceano de rocha.

Seu olhar desceu para o assoalho, tentando atravessar as tábuas.

— E por que pararam?

— Talvez porque as brocas começaram a encontrar o que não deveria existir. Quando os microfones captaram... sons. Gemidos de um planeta que não quer ser despertado.

O abajur piscou, instável. Na parede, nossas sombras se contorceram, alongando-se como se algo colossal se movesse por trás de nós.

— Gastamos bilhões para fingir que dominamos uma rocha morta a mil quilômetros de distância, enquanto o verdadeiro mistério está a meros passos de onde estamos. Se a Terra fosse uma maçã, Carlos, nem sequer rompemos a casca.

Um arrepio percorreu o ambiente. Na cozinha, o estalo de algo rolando pelo piso nos sobressaltou.

— É mais fácil apontar para as estrelas do que entender o abismo sob nossos pés — concluí, fechando o caderno.

Uma risada nervosa escapou entre nós, quebrando a tensão.

— Eu creio em vida extraterrena — ela disse, por fim. — Mas não creio que o mal venha de cima. Talvez os céus tentem nos salvar de nós mesmos... e do que habita o nosso próprio solo.

— Céu acima, purgatório embaixo. O ser humano teme o que não pode iluminar.

Nossos olhares se cruzaram sobre as xícaras vazias, cúmplices de uma heresia. Lá fora, a cidade ignorava o abismo sobre o qual fora construída. Decidimos, naquela noite, que nossa busca não seria pelas alturas, mas pelas profundezas. Porque o fim não precisa vir do espaço; ele já pode estar aqui, esperando pacientemente que o esqueçamos para que, então, possa emergir.

Ao final, puxei-a pelo cinto do roupão. Ela veio sem resistência, como sempre. Selamos nossa pequena loucura com um beijo prolongado e, por um instante, o abismo sob meus pés deixou de existir. Só havia ela.


Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.

Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.

Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.

Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.

Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.

Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.

Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.

Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.

— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.

Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.

Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.

Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.

— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.

Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.

No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.

Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.

Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.

Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.

— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.

Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.

Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.

Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.

Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.

Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!

Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.

Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.

Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.

A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.

— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.

Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.

Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.

Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.

Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.

É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.

A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.

A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.

Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.

Atendi e coloquei-o em viva voz.

— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.

— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.

Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.

Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.

— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.

Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.

— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.

Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.

— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.

A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.

— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.

— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.

Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.

— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.

Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.

— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.

A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.

Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.

Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.

Mas não sei explicar direito a razão…

Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.

Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…

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...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.

Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.

“Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.

Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.

Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.

Mas ela, tão somente me acalmava.

“Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.

Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.

O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.

Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.

Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.

O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.

Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.

Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.

Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.

Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:

— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”

A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.

Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.

— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.

“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.

Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.

— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!

Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.

Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.

Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

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Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.

Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.

Ela me abraçou forte.

“Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...

Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.

Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.

Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.

Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.

O aroma era ocre.

O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?

Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.

Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.

Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.

Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.

Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.

Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.

Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.

— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.

 Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.

Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.

A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?

A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…

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…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.

Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.

Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.

Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.

Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.

Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.

A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.

Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.

A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.

Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.

Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.

As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.

Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!

Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.

Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.

Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.

Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.

O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.

Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.

Devo admitir: era algo belo de se ver.

— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.

Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.

No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.

Mas algo apodreceu no caminho…

O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.

Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.

— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.

A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.

— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.

Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.

Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.

Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.

Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.

O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.

Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.

Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.

Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.

Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.

— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…

Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?

Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.

— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.

O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.

Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.

— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?

Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.

— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.

Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.

— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.

Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.

Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.

O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.

Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.

Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.

Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.

Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.

Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.

Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.

A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.

— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?

Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.

Eu nunca havia visto algo como aquilo!

À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.

A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.

Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.

Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.

Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.

Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.

— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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