Caveira

Esta nossa matéria é embebida | de muito narcisismo e vaidade... | Nada dela se nos dispõe à vida: | só há cansaço além de enfermidade…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Esta nossa matéria é embebida
de muito narcisismo e vaidade...
Nada dela se nos dispõe à vida:
só há cansaço além de enfermidade.

Abre qualquer jazigo e vê se o peito
de algum poeta morto arqueja agora...
Repara, amigo, aí de que sou feito:
de carne podre que o verme devora.

Contudo, embora seja decadente,
esta carne há de ser regenerada
noutro modo de vida permanente.

Contra toda vaidade enraizada
em mim, sigo a lutar a esta maneira:
trazendo ante os meus olhos a caveira,
só para me lembrar de que sou nada.


Escrito por:
Thiago Amorim

Thiago Amorim terá seu primeiro livro, Scintilla Poetica, publicado pela Editora Telha em breve. Formado em Letras, o autor busca sua inspiração nos clássicos, tais: Camões, Florbela, Álvares de Azevedo entre outros. Sua escrita é clássica e o que mais o atrai na Literatura Gótica é "a morte como tema de reflexão sobre a condição humana". Além da literatura, o autor é multiartístico, é professor de dança e realiza oficinas e workshops. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Dilacerante

No dia que o revés lhe bate à porta, | ele escuta a notícia lastimável | e implacável de que ela agora é morta, | que jaz num mausoléu inviolável….

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

No dia que o revés lhe bate à porta,
ele escuta a notícia lastimável
e implacável de que ela agora é morta,
que jaz num mausoléu inviolável.

Alucinado pela dor pungente,
nada pensa senão da perda o horror
e obedece ao infeliz rapidamente
a loucura que pede o seu amor:

Na ânsia de ver sua vestal preclara,
chega ao jazigo em pressurosos passos,
quebra o mármore impérvio que separa 

os dois, deixando, como ele, em pedaços
o féretro de sua bela amante 
para ver novamente o seu semblante,
para mais uma vez tê-la em seus braços.

Texto publicado na 6ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de junho de 2024. → Ler edição completa

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O Que Importa

A vida é curta, disse-lhe a ciência. | Curta demais para dizer um não... | Tão curta que só de pensar na ausência | sente Isabel pesar o coração…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Em homenagem a Isabel Veloso.

A vida é curta, disse-lhe a ciência.
Curta demais para dizer um não...
Tão curta que só de pensar na ausência
sente Isabel pesar o coração.

Porém, percebe que o Amor lhe traz
nesta fatalidade algum alento:
em todo abraço goza de uma paz
que não achou no seu medicamento.

Que importa se o pesar da alma lhe agita,
se qualquer primavera que lhe fita
a dor quer transformar em duro inverno...

Que mais importa? Importa-lhe viver
o milagre de amar e de fazer
que cada curto dia seja eterno.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Mistério

Vê, meu amigo, a dor deste lugar... | Que figura se mostra ao teu olhar, | da qual podes dizer: esta conheço!? | Qual nome hoje se mostra à sepultura…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Vampira, bruxa ou só uma alma errante
que dança flutuando no salão?
A valsa corre num pulsar vibrante
e lá com ela vai meu coração.

Baila, conversa e ri... Eu, invisível,
ao seu encontro vou de peito aberto.
Louco – digo comigo – é impossível...
e, contra esta razão, chego mais perto.

Seu semblante não vejo... eu, entretanto, 
com firmeza vos digo que ela é bela,
porque as janelas da alma dão o encanto:
o que a máscara oculta o olhar revela.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Lete

Vê, meu amigo, a dor deste lugar... | Que figura se mostra ao teu olhar, | da qual podes dizer: esta conheço!? | Qual nome hoje se mostra à sepultura…

Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney

Vê, meu amigo, a dor deste lugar...
Que figura se mostra ao teu olhar,
da qual podes dizer: esta conheço!?
Qual nome hoje se mostra à sepultura
gravado pelo choro da amargura
que goza da memória algum apreço?

Que buscas, meu poeta, além da morte?
Uma esperança vã que te conforte
quando for a tua alma recolhida?
Do nada vieste e hás de tornar ao nada.
Tua tumba será sempre gelada,
escura e, como as outras, esquecida.

Texto publicado na 5ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de maio de 2024. → Ler edição completa

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Queixas

Preso aos limites de um castelo antigo, hoje me encontro, mas não era assim quando eu andava só floresta adentro a matar infiéis…

MidjouneyAI

Preso aos limites de um castelo antigo,
hoje me encontro, mas não era assim
quando eu andava só floresta adentro
a matar infiéis, queimar as bruxas,
sendo um leal e bravo cavaleiro
do qual a Santa Igreja se orgulhava.
Contra o conde lutei pelo meu Cristo,
desembainhei inutilmente a espada
a fim de que varresse o mal do mundo,
mas sucumbi à luta de joelhos:
fui empalado e logo incinerado;
as cinzas despejadas sobre a lama
que cerca este castelo tenebroso.
Não tive quem por mim rezasse um terço,
somente uma sentença, a dura praga
que proferiu o conde aquele dia:
“Sofrerás, vil guerreiro, todo o peso
da eternidade como maldição.
Verás, como eu, em vão passar o tempo
e sem esta matéria que nos gela
aqui me servirás eternamente:
teu fim será louvar-me em tuas queixas,
preso aos limites deste meu castelo.”
Vivo então, invisível, a ecoar
a dor que resultou desta peleja
e que estes altos muros silenciam.
Vejo passar então os viajantes
e os hóspedes que insones cá pernoitam
a fim de conhecer aquele crápula.
Invisível, os vejo passo a passo
adentrar aos portões com um olhar
curioso e, ao mesmo tempo, fascinado.
Olhai, mas vede e não vos enganeis!
A mão de Deus, ilustres visitantes,
não pousará neste lugar maldito.
Não há como sentir-se aqui seguro
sob as nuvens cinzentas de um castelo
que nunca viu a luz do sol brilhar,
que nunca viu a cor azul do céu.
Na melhor das hipóteses, tereis,
daquele desalmado anfitrião,
a chance rara de voltar pra casa
para que lhe pinteis alguma fama.
Quanto a mim — pobre ser fantasmagórico — 
terei, como ele, a triste maldição
de assim viver por incontáveis anos
arrastando-me às sombras do passado,
preso aos limites deste seu castelo.

Texto publicado na 3ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datada de março de 2024. → Ler edição completa

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Pacto

Ergue o olhar ao céu de turno em turno 
a consultar um livro atentamente, 
assim é que ela aguarda paciente…

Foto de Akira Eshi

Ergue o olhar ao céu de turno em turno 
a consultar um livro atentamente, 
assim é que ela aguarda paciente 
os astros alinharem-se a Saturno. 

À densa mata adentra facilmente 
a fim de ter com seu fauno noturno 
e por um canto crebro, assaz soturno, 
seu ritual começa diligente: 

Traça-lhe a estrela ao chão e amor lhe jura 
numa gota de sangue, sobretudo; 
dança em transe despida e, nesta altura, 

gargalha e então blasfema, faz de tudo 
a pobre ninfa, como que em loucura, 
no afã de pertencer ao seu chifrudo.

Poema publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa

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Todos Iguais

Neste lugar de paz e de saudade, 
a dura realidade se comprova, 
em cada tumba aberta se renova…

Foto de JF Martin

Neste lugar de paz e de saudade, 
a dura realidade se comprova, 
em cada tumba aberta se renova 
aos olhos de quem vive uma verdade: 

Os homens têm aqui estranha prova 
da fé que lhes confia a eternidade; 
jazem no horror de sua vaidade, 
reduzidos à escuridão da cova. 

Notam aqui a sua irrelevância 
aqueles que se julgam maiorais 
nesta mesma devida circunstância; 

despidos dos seus bens materiais, 
veem, a despeito de sua arrogância, 
o quanto todos são na morte iguais. 

Poema publicado na 1ª edição de publicações do Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2024. → Ler edição completa
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