Ópera do assoalho obscuro da matéria

O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio que escorre do papel de parede mofado.

Não há transição entre o quarto e a fábrica; os milhares de moluscos que apodrecem no Mediterrâneo estão agora sob o assoalho, liquefazendo-se em um roxo-profundo, um purpurume que mancha as unhas de quem tenta cavar a própria saída do sonho.

L'existence... c'est une blessure ouverte.

Abaixo, a liturgia avança em silêncio mecânico.

Carne Texturizada na sétima noite ao compressor da noite pulsa no sótão, um zumbido cego enquanto a agonia do gesso descasca sobre o dossel;

Não há Deus na altura que escute este mudo rogo,

Pois o Criador é o vurmo que apodrece sob o véu.

Regardez a viúva: o vestido de múrex exala o veneno,

Um perfume de peixe pobre e urina que a seita coroa;

O bebê de vidro, na fresta do armário, pequeno,

sangra um óleo escuro enquanto a engrenagem ressoa.

 

Nas dobras de uma cortina carmesim, O tempo estagna em um eterno agora. O chão de zigue-zague não tem fim, a própria luz, com medo, foi embora.

 

O pânico transborda em ectoplasma,

Viscosa angústia que o real desfaz;

O que era carne vira o leve pasma de um pesadelo que não traz a paz.

Alimenta-se o quarto com a agonia,

A garmonbozia amarela e fulgente,

Banquete da miséria e dor sombria.

O vento chora e mente.

Atrás do espelho, a face que sorria

Já não é humana, e o terror se sente.

O tribunal se reúne atrás da parede de gesso,

Onde o bule de café ferve um óleo escuro e denso.

 Fui condenado por um crime que esqueci o começo,

Sob o brilho mecânico de um abajur suspenso.

Há algo vivo e faminto no fundo do armário,

Um mal antigo que veste a pele do passado.

O relógio da sala gira em sentido contrário,

 o veredito já foi, há séculos, selado.

A metamorfose cega prende o corpo à cama,

 Enquanto os passos pesados sobem a escada.

Uma fumaça vermelha o corredor inflama.

A máquina de escrever digita uma folha em branco:

"O horror está em casa".

O A porta foi arrombada.

E o monstro na cadeira assume o meu próprio banco.

 

As pupilas duplicadas multiplicam-se no espelho da cama,

onde o sexo é o corte profundo que a criatura desenha;

sadismo de sombras que o próprio trauma inflama, que a alma excomungada finalmente entenda e ceda.

A Umbravola Nigrescens pousa no peito do morto recente, mandíbula serrilhada imita o riso do duplo no vidro; não é o monstro que avança de frente, o fato de estares, há eras, trancado e esquecido rosto na parede fria.

O fato de o cabeludo platinado pular pela dimensão não lhe dá o direito de ceifar as mentes de inocentes frias e escatológicas cruas almas rasgando seus ossos.

O anão dança com o anel de caracol, sua voz é uma estática fria e doentia e ele sorri enquanto da boca escorre um pútrido líquido semelhante a um vômito de milho, uma garmonbozia… Ele sorri enquanto seus olhos lacrimejam e disparam contra a pérola dela, aquela que ela inalava com as narinas de platina…

 A cortina vermelha ondulada sem vento, bizarra e lisa...

E o absoluto nada engole o que a luz cobria em um monólogo que um homem de giz sorria enquanto pulava derretendo-se

Intermitência.

...vês aquela mancha violeta na tua pele? Não washes. É o pigmento verdadeiro. Custou a vida de tudo o que rastejava no fundo do mar para que tu pudesses vestir essa melancolia. O homem que está dentro do assoalho da carne do espelho não quer sair; ele quer que tu entres. Ele já cortou os fios do telefone.

 

O corvo no canto da sala funerária não é um pássaro,

é apenas um pedaço de veludo preto que caiu do caixão e começou a respirar.

Se tu limpares as tuas retinas agora, com os dedos sujos de trimetilarsina, verás que o teatro sempre esteve vazio.

As luzes vão piscar.

Três vezes.

O som do sangue pingando e o rosnar da fera

será a única canção de ninar para o feto que insiste em não nascer no canto do quarto do fogo…

.

Ne regarde pas. Le grand néant t'observe déjà.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Baskhiat

o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra | Nas brumas onde o tempo em dor se inclina, | Ergueu-se a lâmina e lamento; | Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra
Nas brumas onde o tempo em dor se inclina,
Ergueu-se a lâmina e lamento;
Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim.
Bebeu do abismo o próprio sofrimento.

Do morto mar de lágrimas salinas,
Colheu verdades de um viver cruento;
Nem luz divina às trevas se destina,
Nem morte basta ao vão contentamento. 

Ceifou piedades, deu à dor morada,
ao ver nos mortos súplica tardia,
Fez da própria alma a forja condenada.
Mas quando a entidade do pulso oferecia,
Perdeu-se em tudo — e em nada foi ferida,
Pois no fim da ruína, enfim, nascia. 

No ermo azul de um mundo em agonia,
Caminha a filha do trovão calada;
Traz nos olhos a dor que não fugia,
Nem na lâmina outrora consagrada. 

Viu nos mortos a súplica tardia,
Não por sangue — mas paz jamais lograda;
E ao negar-lhes a chama que os feria,
Fez da dor sua fé mais lapidada. 

Contra o sol que em trevas se erguia,
Não brandiu só aço, mas a memória
Do pranto que em silêncio a consumia. 

Ao ver ruir-se o ciclo e sua glória,
Perdeu-se a si — mas, nessa travessia,
Fez do próprio vazio sua vitória. 

Sob céus de aço e um sol em febre imunda,
Vagou a filha do trovão sem nome;
Trazia em si a dor que não se afunda,
Mas se refaz no abismo que a consome. 

Nos vales onde a morte em pranto inunda,
Viu almas cujo anseio era sua fome:
Não por viver — mas pela paz as circunda,
No esquecimento que ao nada as consome. 

Ergueu a mão — não para dar-lhes morte,
Mas para impor à dor sua medida,
Negando ao fim seu mórbido consorte. 

Quanto ao Deus ofertou-te sua vida,
Perdeu-se além do tempo e de seu norte
Mas fez da perda a gênese da lida.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Oásis de Ossos Vivos

A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A tempestade começou sem aviso, mas com uma intenção clara, como se o próprio deserto tivesse decidido mover-se, erguer-se e engolir tudo o que ousasse atravessá-lo. Não era apenas areia que se levantava, mas fragmentos de algo mais antigo, partículas que carregavam um brilho opaco, resquícios de uma luz que não deveria existir fora da água, mas que agora se misturava ao ar, criando um véu espesso e iridescente.

Amira já havia atravessado desertos antes, já conhecia a lógica da escassez e do silêncio, mas aquilo não seguia nenhuma lógica conhecida. O vento não apenas empurrava; ele guiava, moldava trajetórias, fechava caminhos que haviam sido abertos segundos antes, e quando ela tentou usar o sol como referência, percebeu que o céu havia sido completamente tomado por aquele azul pálido que não indicava direção alguma.

As dunas erguiam-se como ondas congeladas, e por um instante, Amira teve a impressão de estar caminhando sobre um oceano imóvel, um pélago de areia que escondia algo em suas profundezas. Foi então que ela tropeçou.

O que pensou ser uma pedra revelou-se, ao toque, como algo macio demais para ser mineral e rígido demais para ser carne viva. Ao afastar a areia, encontrou o primeiro corpo. Não estava decomposto, tampouco intacto; encontrava-se em um estado intermediário, como se a morte tivesse sido interrompida em algum ponto do processo. A pele apresentava um tom marfim retorcido, com áreas que refletiam a luz de forma metálica, enquanto outras permaneciam opacas, quase ressecadas.

E então o corpo respirou.

Não foi um movimento completo, apenas um leve expandir do tórax, seguido por um som que não chegava a ser um suspiro, mas que carregava uma intenção, um esforço. Amira recuou, mas ao olhar ao redor, percebeu que não estava diante de um único corpo, mas de centenas, talvez milhares, parcialmente enterrados sob a areia negra, formando um vasto campo que se estendia até onde a visão permitia.

A tempestade cessou tão abruptamente quanto havia começado.

E, no silêncio que se seguiu, ela viu o oásis.

Não era grande, mas destacava-se como uma anomalia perfeita no meio daquele cenário de morte suspensa. Um pequeno lago de águas cristalinas refletia o azul do céu com uma intensidade quase hipnótica, e ao seu redor, estruturas que lembravam árvores se erguiam, seus troncos formados por aquilo que só poderia ser descrito como ossos entrelaçados, organizados em padrões que sugeriam crescimento, como se estivessem vivos.

A sede falou mais alto.

Amira caminhou em direção à água, ignorando os corpos que, agora, pareciam reagir à sua presença, movimentos sutis percorrendo suas superfícies, como se estivessem despertando de um sono profundo. Ao ajoelhar-se à beira do lago, viu seu reflexo, mas não o reconheceu completamente. Seus olhos pareciam mais escuros, mais fundos, e havia uma leve luminescência em sua pele, quase imperceptível, mas suficiente para alterar a maneira como a luz se comportava ao seu redor.

Ela tocou a água. E sentiu fome.

Não uma fome comum, mas uma necessidade profunda, primitiva, que não se dirigia à água, mas ao que estava sob ela. Porque, ao mergulhar a mão, percebeu que o lago não era vazio. Havia movimento ali, formas que se deslocavam lentamente, roçando sua pele com uma suavidade enganosa.

Quando retirou a mão, algo veio junto.

Não era uma criatura completa, mas um fragmento, uma estrutura que lembrava uma mandíbula translúcida, cujos dentes finíssimos se moviam de forma independente, como se testassem o ar. Antes que pudesse reagir, a estrutura aderiu à sua pele, e imediatamente começou a emitir uma luz azulada, pulsante.

O contato foi suficiente. Os corpos ao redor começaram a se erguer. Não de forma abrupta, mas gradual, como se a própria areia estivesse liberando-os, permitindo que emergissem em um estado de vigília incompleta. Seus olhos se abriram, revelando cavidades preenchidas por aquela mesma luz bioluminescente, e quando suas bocas se moveram, o som que emergiu não era um grito, mas um chamado.

Amira tentou fugir, mas seus pés afundaram na areia, que agora parecia mais densa, mais aderente, como se respondesse à presença daquela luz que se espalhava por seu corpo. A mandíbula presa à sua mão começou a expandir-se, ramificando-se em filamentos que penetravam sua pele sem dor, mas com uma finalidade clara.

Ela olhou novamente para o lago.

E compreendeu.

O oásis não era uma fonte de vida, mas um núcleo de transformação, um ponto onde o que restava das criaturas do deserto era reciclado, reorganizado, devolvido ao ciclo daquele horror luminoso. A sede que a havia guiado até ali não era sua; era deles.

Os corpos continuavam a se aproximar, seus movimentos agora mais coordenados, mais intencionais, e Amira percebeu que não havia predador ou presa naquele lugar, apenas um sistema que assimilava tudo o que entrava em seu domínio.

Quando finalmente caiu, não sentiu dor. Apenas a expansão da luz, preenchendo cada espaço, cada pensamento, até que não houvesse mais distinção entre ela e o deserto. E, sob a superfície do lago, algo novo começou a se formar, aguardando o próximo viajante sedento.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Menel Lomë I - O Herói Que Ninguém Pediu

Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

As pessoas que inventamos
Não existem fora de nossa cabeça
Por isso, inventar personalidades
De quem mal conhecemos
Pode ser nossa ruína

Era noite de uma quinta-feira qualquer. O café de Menel esfriava ao lado da folha amassada, das várias folhas amassadas e rabiscadas que se espalhavam pela escrivaninha. A tinta de sua caneta ainda pingava, e o papel ainda estava úmido. Com o retrato ainda secando.

Era o retrato de uma jovem: pele morena, cabelos enrolados, olhos profundos e vivos. Não se parecia com ninguém, pois era feito com memórias.

O resto do ateliê estava bagunçado; textos e cadernos jogados por toda parte, todos eles contando sobre a mesma mulher, sob a mesma perspectiva. Menel Lomë escrevia para tornar sua amada real, pois jamais teve coragem de dizer o que sentia quando ainda era tempo.

Mas então ela desapareceu. E isso levou Menel à loucura, guiado por um romantismo idealizado e irreal.

Ele a havia visto três vezes.

Na primeira, em uma viagem. Ela estava com um casal de amigos, posando para uma foto que se perderia no tempo, mas ele... ele a guardava na memória.

Ela sorria. O casal atrás, de mãos dadas, posava para a foto. A garota tirou a foto e correu para mostrar aos amigos, e todos pareciam felizes. Mas Menel viu solidão onde havia apenas um momento feliz de uma viagem.

Na segunda vez, foi mais perto. Perto de casa. Perto demais. Ela estava tomando café, lendo o livro preferido dele. Ele se apaixonou ali. Pensou em perguntar sobre o livro, pensou em fazer uma piada, pensou em comentar algo sobre o que ela estava lendo.

Pensou demais.

Ela fechou o livro, levantou-se e foi embora.

A terceira vez foi ontem. Ela caminhava à noite na rua, e ele a viu pela janela do ônibus. Criou coragem, correu para a porta e, quando o ônibus parou, desceu. Correu até ela. Mas ela já não estava mais lá. Ela havia sumido e, onde ela deveria estar, havia um portal mágico e sinistro fechando-se.

Menel, dessa vez, não pensou. Não hesitou. Apenas correu.

Jogou-se para o desconhecido, esperando ser o herói que ela não pediu para resgatá-la.

E então ele sumiu, tudo sumiu.

Menel apareceu caído em outro mundo; o rosto sujo, as mãos raladas, a pele sangrando.

Levantou-se e viu um homem de sorriso largo e pontiagudo que surgia com um manto negro bordado em ouro-bronze. Ele estava ao lado de um menino, a quem segurava pelas mãos; a criança tinha olhos pálidos e roupas singelas.

Menel se levantou e disse:

— Onde ela está?

O homem, em silêncio, apenas sorriu.

— Ela já se foi.

Aquele sorriso fez com que diversos pensamentos — um pior que o outro — passassem pela cabeça de Menel. E o homem voltou a dizer:

— Ela não morreu. Ainda não. Mas as coisas aqui vão mudar em pouco tempo. Cinco atos, cinco tempos. E o sofrimento-carmim vai acontecer.

— Não demore a encontrá-la — continuou o homem. — As coisas vão ficar bem complicadas se você demorar.

Então ele puxou uma joia, um anel muito bem adornado, com uma única pedra carmim reluzindo no centro…

— Aqui. Pegue. Vai te ajudar.

E no momento em que Menel tocou a joia, uma névoa cobriu sua visão, e o gosto de sangue tingiu sua boca. Menel sentiu náuseas, e o cheiro de sangue surgiu em suas narinas.

Um segundo depois, sua visão retornou.

E o homem e a criança já haviam desaparecido

Quando ele voltou à consciência, estava parado no mesmo lugar, mas, agora, sem a figura do homem, conseguia perceber onde realmente estava:

Na areia.

Seus pés, agora descalços, tocavam a areia fina e gelada. Sua mão ainda segurava a joia. Seu olhar se perdeu no horizonte do mar.

Estava perdido.

Mas sabia exatamente o que queria. Quem queria encontrar.

Só não sabia por onde começar.

Então ele caminhou pela praia, procurando-a. Procurando qualquer rastro que ela tivesse deixado.

Mas não encontrou nada.

E então começou a pensar nas consequências de ser inconsequente. Talvez ser o herói de sua alma gêmea fosse mais desafiador do que qualquer coisa que ele tivesse feito até agora.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Caellum Noctis, Parte II - Minhas Memórias

Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Eu havia entrado no que a Espectumbral chamou de Irihria. E nem nos meus melhores — ou piores — sonhos, eu imaginava algo tão… mágico.

Aos poucos, minha visão se ajustou e comecei a entender onde estava, mesmo que isso fosse irreal. Eu tentei entender, mas acho que enlouqueci, pois nada do que conseguia ver parecia real. O céu era vermelho, o rio era brilhante e o cheiro parecia velho e antigo. Apesar de estar ao ar livre, era como estar preso em uma sala empoeirada demais.

O azulíneo do rio brilhava ou parecia brilhar. A luz iluminava apenas o suficiente para que minha imaginação completasse o resto — formas que se moviam nas bordas da visão, sombras que podiam ser árvores ou coisas observando, esperando o melhor momento para atacar.

Aquele lugar era hostil, eu podia sentir. Mas não era uma hostilidade comum, era como se qualquer coisa pudesse me matar... a qualquer momento..., mas escolhia esperar, escolhia não ter que caçar e apenas esperar para quando eu não pudesse mais fugir.

E então, eu a vi.

Como se sempre tivesse estado ali. Me observando.

— Eleine — sussurrei, esperando que meus olhos e minha mente entrassem em acordo sobre aquilo ser real ou apenas minha mente pregando uma peça.

Não era possível. Não podia ser ela. Era fácil demais.

Mas meu peito não queria saber. Ele acreditava. E isso é o poder que a imaginação tem sobre os homens apaixonados…

Descobri depois o poder daquele azulescer. As plantas que pareciam chorar sangue tinham algum efeito sobre a mente. E eu fui apenas mais uma vítima.

A última coisa de que me recordei, antes de desmaiar, fora seus cabelos: pretos de um lado, uma mecha branca do outro. Ela se ajoelhou perto de mim, e eu pude ouvir sua voz preocupada, perguntando-me se estava tudo bem.

E então…

O vazio.

Quando acordei, estava deitado em uma cama dura. Minha boca tinha gosto amargo, e minha mente continuava nublada, como um quebra-cabeças com peças faltando. Se recuperei alguma memória ao vir para cá, eu a esqueci novamente.

— Vejo que acordou — disse uma voz.

Suave. Melodiosa. Quase sedutora.

— Tive que cuidar de você e te tirar de lá. Aquele lugar é difícil para recém-chegados.

Segui o som da voz, procurando de onde vinha. E então a encontrei.

Ela era diferente da mulher que vi na minha ilusão. Não era Eleine. Eu não conseguia sentir o desejo, o amor, o prazer que me atravessavam quando pensava no que Eleine significava. Aqui, havia apenas curiosidade. E cansaço.

— Quem…? — tentei perguntar.

Queria fazer tantas perguntas: “Onde estou? Quem é você? Onde encontro respostas sobre mim?”. Queria saber tudo, mas não sabia como me expressar. Minha cabeça doía. Minha boca não falava o que eu mandava.

— O remédio ainda vai levar um tempo. — Ela se aproximou, sentando-se numa cadeira ao lado da cama. — Os efeitos colaterais… bom, tudo ainda vai levar algum tempo para melhorar. — Ela colocou a mão em minha testa, sentindo o calor do meu corpo, me examinando.

Ela me observou em silêncio por um momento. Os olhos dela eram estranhos, de uma cor que nunca tinha visto antes, de uma cor que não existia. Mas ali, era tão real quanto qualquer coisa. Se é que alguma dessas coisas eram reais.

— Não sei por que está aqui, estranho — ela continuou, inclinando a cabeça. — Mas talvez tenha seus motivos. Todos têm.

— Quero... quero encontrar minhas memórias...

E eu pude notar sua expressão, ela sabia o que eu estava procurando, ela sabia quem eu estava procurando.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Fraghvora: Parte 1

Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…

“Meu cerne, lá reside mi’a verdade,
E pulsa, aqui real, eu lhe confio;
Ó sendo-me os sentidos finidade,
Sê olhos, coração, ao meu destino.”

— Dandeliz Ffaemor

Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz. Ela corria descalça, circundada pelo opaco gris e envolvida pelo véu do medo. Seus pés sentiam a textura agressiva dos caminhos nebulosos, cheios de pedras e cascalhos que por vezes a feriam. Entretanto, n’um estranho momento, seus passos a levaram ao silencioso precipício e seu corpo se prostrou a uma queda abrupta; rendendo-se à gravidade. Seus olhos fitaram a escuridão quando, n’um suspiro sôfrego e célere, hora em que devia cair, ela ouviu o estrondo da intempérie nascida lá fora. O vento frígido torceu as cortinas violentamente, virou as páginas dos livros na escrivaninha e, por fim, desenfreado, soprou os lençóis — tudo no mesmo segundo.

Antes que pudesse compreender as imagens daquele sonho, Dandeliz levantou-se para socorrer a si, trancando os vitrais que se abriram com a ventania e recolhendo a bagunça deixada sem permissão. Em menos de dois minutos, a chuva caiu com o mesmo terror que a névoa a cingira em seu plano onírico. Sentiu-se apavorada e segurou seu candeeiro, acendendo-o com o último nittos da caixa. Caminhou apressada para a biblioteca que ficava no porão, contornando a escuridão com o singelo resplandecer de sua iluminação pálida.

O sibilar do vento, a chuva violenta, os clarões e o ensurdecedor estrondo a cada átimo, era tudo insuportável demais para sua sensibilidade. Ela estremecia, em especial as mãos que, infirmes, faziam oscilar a chama do candeeiro. Seus passos se apressavam mais agônicos que há pouco.

P Para chegar ao seu destino — o qual era o mais distante da tormenta inominável que afligia o seu espírito tanto quanto perturbava toda a província naquela lutuosa noite —, Dandeliz tinha de, inevitavelmente, passar por aquele... corredor. Não era por causa da densa escuridão, tampouco pelas heras que, quão estranho, nasceram nos vasos mortos — com terra nunca adubada ou regada — e subiram pelas paredes perseguindo rachaduras e enraizando-se em fendas. A sua angústia vinha, especialmente, daquela parede que estreitava, ainda mais, a passagem.

Repleta de dodecaedros ornamentais de vitrita mortis, a parede do corredor lumiava a cada relâmpago e, igualmente, diante da tênue chama do candeeiro. De valor incalculável, os dodecaedros foram lapidados pela mãe de Dandeliz e, o material, minerado por seu pai. Ambos tinham boas intenções, mas estavam cientes de que tal ofício de mineração e lapidação os levaria à morte lenta e agônica — embora a fé os fizesse crer que, com eles, por algum tipo de milagre, seria diferente.

Vitrita mortis fora nomeada de tal modo não por acaso, era um mineral tóxico, de beleza vítrea e enegrecida, altíssimo índice de refração, repleto de nuances em tom de rosa-empoeirado e prata brilhante. Resplandecia, espelhava e, acima de tudo, seduzia. Quaisquer indivíduos dispostos a explorar tal raridade não viviam o suficiente para desfrutar da riqueza de sua comercialização. Os pais de Dandeliz, ao menos à princípio, sabiam que deixariam uma fortuna para sua menina — ainda que de maneira tão trágica.

O mineral exalava um incolor gás fatal quando posto sob pressão, altas temperaturas, atritos ou cortes. Estranhamente, sua toxicidade possuía recendência, isto é, fragrância! Algo jamais visto pelos gemólogos. A mãe de Dandeliz descrevera em seu diário: “O bálsamo que sinto é inebriante… um perfume arabesco… marcante como dama-da-noite, intenso como lírio, quente como cashemeran… um tanto ferroso e com algo a mais… indescritível… porventura groselha negra, laranja amarga… notas do que eu jamais poderia nomear...” — já envenenada há semanas, falecera na primavera, assim que o refinamento do último dodecaedro fora concluído.

Dandeliz nunca vendera os cimélios herdados, mesmo com a insistência do médico da família que estudava os sintomas finais do envenenamento do pai de Dandeliz: sinestesia necrosada e eco respiratório. “Porventura possamos encontrar a cura, desde que possas pagar para levá-lo à capital de Sihren” — dizia.

“Estes objetos são amaldiçoados, Dr. Voreau; vindos sob o custo da vida de mamãe e, também, de papai; eu sinto, doutor... uma intuição estranha que me diz que não há cura para tal horror...” — Não havia mentira nas dores enraizadas de Liz. Seu pai falecera no verão do mesmo ano e, desde então, a magnum opus estivera na parede, vívida, refletindo e resplandecendo.

— Algo emana disso... algo que me arrepia a pele... que me terrifica... — sussurrara a si logo em que chegou às margens do corredor escuro. — Caminhar devagar, olhos à frente... são apenas alguns passos...

A vereda era a mesma, entretanto, quando Dandeliz dera cinco passos à frente, já tão próxima dos diamantinos de vitrita mortis — nome cujo significado, devo dizer, é “viúva da morte” — a luz fugaz trouxera o violento trovão, iluminando o estreito lugar, criando sombras estarrecidas e horripilantes por causa das heras que pendiam do teto e, como se não bastasse, o vento ensandecido do lado de fora fez mostrar-se em ira outra vez. Tão logo abrira com força irremediável a janela à frente da parede mórbida, soprando com intensidade maligna. E os relâmpagos, irradiando luz, criavam luminescência rosê-prateada nos dodecaedros — o que rapidamente chamou a atenção de Dandeliz. Seus olhos se arregalaram e ela fitou, em todos os detalhes perfeitos, a parede esculpida. Gotículas da chuva lúgubre rapidamente tocaram as pedras preciosas. Dandeliz não pôde desviar o sua atenção.

Era mesmo perfeito... pareciam tão símeis a ela... os tons rosê-gris... como sua pele pálida e fria, como seus olhos e cabelos rosa-opacos. Ela não se lembrava do quão bela era aquela obra de arte ornamental — a qual se recusava a olhar há dois anos. O choro das nuvens invadiu o corredor e as heras, frágeis, eram arrancadas com o sopro. O assovio do vento e sua gelidez pareciam rasgar a tez de Dandeliz que usava tão somente um damanoute aveludado. Mas, com calma fúnebre, ela fechou a fenestra, sem tirar seus olhos dos brilhantes minerais. E mantendo-se igualmente serena, apertou o pavio do lume em seu candeeiro, dando poder à escuridão. Assim via melhor o reflexo irradiante das infinitas facetas perfeitamente alinhadas n’uma estrutura geométrica precisa. Era mais que magnífico, porém, era sombrio e... ameaçador.

— Groselha negra... laranja amarga... cashemeran... — sussurrou Dandeliz, lembrando-se das palavras de sua mãe e sendo invadida pelo perfume mortal de cada dodecaedro à sua frente. Como era possível? Não havia nada que os pudesse oprimir, nada que os superaquecesse, nada que danificasse as estruturas dos diamantes... ou havia?

Ainda em torpor, fitou de perto cada um deles, buscava quaisquer sinais de rachaduras para entender o que ocorria. Sem saber o que fazer, e sob um encanto cruel, viu apenas seu próprio reflexo — algo que não fizera até então, pois era tragada pelos detalhes lapidados, pelas nuances em rosa-empoeirado e pelo lúgubre brilho prata-escurecido. E viu-se. Sua face delicada, seu semblante de admiração.

E viu também um imenso castelo atrás de si; contornado em simetria obscura, com altas torres pontiagudas e um infinito oceano aos seus pés; e viu voar um pássaro, talvez uma variante da espécie Ramphastos-toco; era albino do grandioso bico às penas macias. Voltou-se à janela atrás de si, para tirar a prova de que não estava delirando. O Castelo não estava lá fora, tampouco o tucano pálido. Retornou aos dodecaedros e novamente viu o Castelo e o pássaro, pareciam viver nas vitrita mortis lapidadas, presos pela eternidade.

Dandeliz aproximou-se mais, estava sim amedrontada, porém, não bastasse a beleza daquelas preciosidades, o Castelo e o pássaro lhe despertaram uma curiosidade incontrolável — vinda de seu ceticismo, pensava estar sonhando ainda. Precisava de alguma prova de que aquilo fazia parte de sua realidade. Ergueu sua mão esquerda, úmida e com algumas folhas intrusas atadas ao orvalho da pele, e tocou o dodecaedro central. A vitrita mortis era fria e o encontro de tez e mineral fez um líquido rosê-prateado emergir do núcleo da pedra.

Liz buscava um significado para tudo aquilo, sufocada na essência com notas arabescas de lírio e dama-da-noite. O líquido contornava os dedos de sua esguia mão, criando caminhos tortuosos como raios que pareciam, aos poucos, invadi-la, atravessando seus poros e mesclando-se ao seu sangue, das veias às artérias, esfriando-a. Não era possível afastar-se do liquor rosê-gris, não havia temor nas emoções confusas de Dandeliz; o bálsamo que pairava parecia serená-la e a frigidez que empalidecia sua derme, não lhe causava dor alguma. Era, em verdade, de um maravilhamento esplendoroso.

Até o instante em que Dandeliz perdera a consciência —tendo a visão cegada e a realidade dissociada. Seu corpo estava gélido e frágil, tão fácil de cair à terra úmida e por ela ser consumida à sete palmos. Entretanto, Liz respirava —vagarosamente. Ouvia seu coração pulsante — como um longínquo badalar. E em determinado momento, sonhou.

Uma criatura inimaginável olhava-a: era alado, alvinegro, capaz de sobreviver sob tenebrosos oceanos tanto quanto áridas terras. Rosto de face pareidólica, lembrando humano e inseto; três grandes olhos lunares e lívidos, quelíceras retráteis na mandíbula, guelras em partes do abdômen, asas de libélula e articulações filiformes, espinhosas e retorcidas — um corpo adaptado ao impacto de mundos. Era tão sombrio e assustador que fez Dandeliz despertar por seu próprio grito — um pouco contido, mas ainda ecoante. O Castelo estava no horizonte, ouvia-se a maré calma do infinito oceano e, o pássaro, do alto carvalho seco, parecia apreensivo.

— Despertastes! — dissera o tucano albino, com voz suave, um barítono fora do comum. Dandeliz sentiu-se turva, levou suas mãos à cabeça, tocou sua pele fria. Lembrou-se da criatura e arrepiou-se. Mirou, portanto, o dono daquela voz e lembrou-se dele de imediato.

— Eu... tu estavas preso naquela pedra de vitrita mortis... se estás aqui... então estou igualmente presa? — questionara, um pouco hesitante. O tucano albino voou para mais próximo dela.

— Não compreendo tua indagação, poesia. Estive aqui desde sempre, sinto-me livre. Talvez ainda estejas confusa. — O tucano usava um par de óculos redondo para leitura, Dandeliz percebera e aquilo, de alguma forma, acalmou seu coração agitado. — Bem, tome isto e te sentirás melhor. — Entregou-lhe uma xicara esculpida em cerâmica, nela havia uma bebida cor marfim.

Textura de leite, levemente aquecido; notas de avelã, curva de paladar amargo como café; mas doce, com um granulado de sabor floral — este era o gosto daquela bebida e Dandeliz adorara, tomando-a por completo. De fato, embora não instantâneo, foi cingida por uma melhora considerável em seu estado franzino.

— É estranho, pois há pouco eu estava em minha casa, sob a ameaça de uma tempestade sombria. E eu observava aqueles diamantes amaldiçoados... e agora estou aqui. — O tucano respirou fundo, dedicado a compreendê-la.

— Deixe-me pensar... dos livros que li, das histórias que ouvi, nada se assemelha ao que me contas. Entretanto, posso te guiar ao Castelo de Olga e decerto lá encontrarás as tuas respostas. — Dandeliz empolgou-se com a possibilidade de talvez entender tudo aquilo, sua feição denunciara. — Devo, no entanto, alertá-la, e o faço com apreço, há muitos perigos neste mundo, poesia, e parte considerável deles reside no interior daquele alcácer. É belo, decerto, magnífico... — O pássaro abaixou a cabeça, como se ponderasse tristemente.

— Mas... é também um abismo de criaturas que devoram almas, que se alimentam de medo e sugam sangue e memórias. — Dandeliz lembrou-se da criatura em seu sonho.

Trépida, e sob um silêncio de temor, Liz olhou para cima, buscando um resquício de céu anil que lhe contasse sobre esperança e força — tal como sua mãe fazia na infância ao ler-lhe fábulas ricas em otimismo; porém, acima só havia nuvens rosê-gris carregadas de pranto melancólico; um mar de plangor que nunca desaguava.

— Poesia, se posso me atrever a tal, gostaria que me dissesses o teu nome, embora “poesia” seja bem adequado à tua imagem. — O tucano albino quebrantou os pensamentos remotos de Dandeliz. Eles se olharam enquanto a noite caía devagar.

— Dandeliz Ffaemor, de Numnura, província do reino Sihren. — dissera, como de costume em sua cultura.

— Que intrigante... anseio saber mais de Numnura... — Um desconforto silente nascera no pássaro. — Já Sihren, conheço muito bem... — Ele hesitou e tossiu. — Sou Penttur, a propósito. Sempre me encontrarás neste carvalho, admirando a estranha mutação das terras amargas da Imperatriz, estudando-as dia após dia.

— Penttur... vejo que muito sabes. Guia-me, te peço, não apenas ao Castelo, mas ao conhecimento de onde estou... sinto que... talvez... esteja sonhando ou... em um póstumo estágio... — Penttur dilatou suas pupilas em surpresa.

— Não, não, não, doce Dandeliz, este mundo não é um purgatório. — Voou Penttur, e os olhos de Liz acompanhavam sua dança nos ares. — Vês? Tampouco um sonho ao qual se pode acordar. — cantarolou ao retornar. Estendeu sua asa direita. Era como veludo, e tinha nuances de um bege níveo sobre a brancura levemente resplandecente. — Pareço-te irreal? — Dandeliz tocou-lhe as penas, encantou-se com a maciez; entretanto, a estranheza lhe consumia em dúvidas umbríferas. O outrora ainda lhe era uma incógnita.

— Todo o sonho soa real, Penttur, até que despertemos dele.

— Oh, sim... tu despertaste então, como te disse. Há quem te possa comprovar que tu não sonhavas com uma intempérie obscura e diamantes mórbidos?

— Creio que não, o despertar só o é porque nos devolve as memórias, elas são o solo estável da realidade. E daqui não tenho nenhuma recordação... nunca vi tal Castelo, jamais encontrei este carvalho. No mundo de onde vim, tive um início; nas terras debaixo da intempérie eu vivi uma linha do tempo imersa em significados que nunca olvidarei.

— Talvez este seja o teu início, Dandeliz. Nem todos os inícios são iguais. — Penttur demonstrou-se mais sério, envolvido por uma preocupação genuína acerca de Liz.

— Este? Desta forma? Sem nascer bebê, com pais adoráveis, n’um lar aquecido? Como é possível?

— Anoitece, poesia. Vamos à minha cabana, longe dos horrores noturnos, e lá te revelarei tudo o que sei sobre ti e sobre este reino. — Penttur voou.

E Dandeliz, já tão instigada, levantou-se e pôs-se a caminhar, despedindo-se do sereno oceano infindo e seguindo o fabuloso voo do seu amigo tucano. Em seu âmago, ela anelava ouvir cada detalhe; seu coração pulsava por desvendar os segredos daquela realidade inacreditável e, este pulsar — mais vívido que outrora e, portanto, cheio de certeza inabalável —, lhe dava vigor para enfrentar seu profundo medo do desconhecido.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.

Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.

Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.

Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.

Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.

Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.

Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.

Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.

— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.

Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.

Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.

Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.

— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.

Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.

No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.

Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.

Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.

Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.

— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.

Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.

Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.

Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.

Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.

Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!

Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.

Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.

Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.

A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.

— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.

Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.

Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.

Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.

Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.

É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.

A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.

A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.

Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.

Atendi e coloquei-o em viva voz.

— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.

— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.

Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.

Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.

— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.

Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.

— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.

Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.

— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.

A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.

— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.

— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.

Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.

— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.

Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.

— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.

A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.

Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.

Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.

Mas não sei explicar direito a razão…

Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.

Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…

· · • • • ✤🦇✤• • • · ·

...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.

Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.

“Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.

Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.

Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.

Mas ela, tão somente me acalmava.

“Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.

Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.

O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.

Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.

Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.

O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.

Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.

Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.

Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.

Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:

— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”

A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.

Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.

— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.

“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.

Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.

— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!

Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.

Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.

Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.

Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
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Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais

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Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Memórias e Fantasmas

Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças de sua forma humana. Era consciente e carregava uma essência selvagem que protegia Minerva. No entanto, naquela circunstância, ela tentava apagar suas memórias, em busca de se entender independente dos acontecimentos e dos deuses. Ainda assim, sabia que dentro de si residia algo do castelo afogado, mesmo que adormecido.

Ela não lembrava dele há muito tempo, mas naquela noite o som da água abismal insistia em ressoar novamente em seus ouvidos. Minerva lutava contra aquilo. Um cansaço estranho, aos poucos, foi tomando seu corpo, desacelerando o tropegar de suas patas e obrigando-a a observar o caminho por onde passava, que se tornava cada vez mais conhecido para ela — embora já tivesse quase perdido a noção de quanto tempo passara no castelo.

A loba avistou algo ao longe e imaginou que fossem casas em seu campo de visão. Aquela era a estranha vila pela qual passara antes de adentrar o castelo. Sentiu algo puxando-a para perto daquele lugar, enquanto sua mente parecia duelar consigo mesma. Um nevoeiro denso se formava ao redor, criando braços cintilantes que dançavam junto a seu corpo em um ritmo lento, carregando-a para dentro daquele lugar.

Percebeu que estava por entre as casas errantes. Pessoas caminhavam ali, mas ela não conseguia discernir seus rostos. A mente turva a deixava cada vez mais imersa na paisagem acinzentada. Cansada, observou o formato de suas patas na neve, e uma expressão confusa se formou em seu rosto, como se não reconhecesse aquelas pegadas.

Ela se aproximou de uma casa, observando suas janelas, eram sete ao todo. Aquela era provavelmente a maior casa do vilarejo. Rostos estranhos a analisavam sem dizer nenhuma palavra. O cansaço parecia, finalmente, tê-la tomado. Os sete rostos a encaravam e assemelhavam-se a espirais que iam se contorcendo cada vez mais. Os olhos de Minerva-loba estavam hipnotizados e enevoados, totalmente inertes.

Alguém saiu pela porta da casa e fitou-a com intriga. Minerva não reconheceu o rosto, mas a voz lhe pareceu familiar. Era uma voz autoritária. Aquela voz elogiava algo que havia sido conquistado com soberba, embora ela não compreendesse o quê. Seu corpo, despojado sob as cicutas na neve, permanecia inerte ao mundo real, enquanto sua mente vagava por Settimor.

O rei Kheas estava ali, contando vantagem de sua experiência. Ele havia conseguido realizar a transmutação unindo magia e ciência. Sua filha era única, praticamente uma arma de guerra. A loba percebia aquela voz insistente. O medo não era o sentimento que habitava seu peito, mas a raiva. Minerva almejava ser livre novamente.

Ela estava presa em uma memória, os olhos acinzentados e os pelos negros, encobertos por inúmeras cicutas, a aprisionavam no feitiço do viajante. Minerva estava refém de uma lembrança.

Presa na masmorra, sua antiga moradia, ela uivava em lamento, ouvindo as aspirações insanas do pai. Desejava fugir, mas só conseguia se debater, puxando a corrente presa a seu pescoço.

O tempo era ilusório, ela não sabia se ele estava passando ou não. Seus sentimentos eram instáveis entre o tédio, o ódio e o desespero. Ela desprezava aquele homem que a torturava e não compreendia os limites que ele queria quebrar. As paredes arranhadas e a escuridão eram desoladoras, ela ardia em febre no frenesi das dores que lhe foram impostas.

Mas algo naquela lembrança começou a falhar. A voz do pai já não ocupava todo o espaço; tornava-se distante, fragmentada, como um som que se repete sem origem. A loba percebeu, então, que não estava sendo contida por ele, mas pela própria memória.

Naquele tempo, ainda humana, Minerva compreendeu em silêncio que a masmorra não era inviolável. A corrente em seu pescoço não existia para conter sua vontade, apenas seu corpo. E isso não bastava. O uivo que escapou de sua garganta não era súplica, mas sim uma decisão. O primeiro gesto de quem escolhia viver e não sobreviver.

Como loba, ela se lembrou: a fuga começou antes do movimento, antes da ruptura da carne ou do ferro. Começou quando deixou de pedir permissão para existir.

Ela lutava por si mesma.

Minerva-loba ainda transitava entre sonho e realidade; as cicutas a cobriam como um véu branco, misturando-se à neve. Seus olhos retornaram ao azul profundo. Aos poucos, sentiu o corpo voltar à vida. Em sua frente, um ser humanoide a observava. No lugar do rosto, havia uma espiral nebulosa, repleta de escuridão.

A criatura se dissipou à sua frente, levando consigo os sete rostos nas janelas. Dentro de si, Minerva se reconectou com seu poder, tornando-se mais uma vez tão destemida quanto na primeira vez em que desbravou os caminhos tortuosos que levam ao castelo Drácula. A loba sabia o que era e que ninguém tomaria sua liberdade. Clamou por Hekate, não como súplica, mas como sinal.

Ela não temia o deus do castelo afogado.

Revisado por Sahra Melihssa
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Espasmos do Silêncio

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Divago nos espasmos do teu silêncio... E que silêncio cruel é este que emana da tela. É tão rude, tão espesso, que nem as rimas ousam com ele estar; elas morrem na garganta antes de se tornarem poesia.

Estou diante de ti, Dama Lacrima. O pintor desconhecido que te prendeu nestas tramas de linho e óleo certamente conhecia o inferno, pois capturou-o com perfeição. Teus cabelos, longos e lisos, escorrem como cascatas de nanquim, emoldurando um rosto de uma palidez cadavérica. As tuas mãos, eternamente erguidas próximas à face, parecem querer esconder o mundo de ti, ou tu do mundo.

Se hoje castigado sou pelo teu descontentamento, que vibra através das camadas de verniz, posso até guardar a culpa. Mas as chaves da tua liberdade são para mim um grande peso que devo suportar. Sinto o ódio irradiar da moldura dourada.

— A tua ira deve ser contida — murmuro para a figura estática, mas viva. — A raça humana não merece perecer. Por mais que um ou outro nos sirvam como bolsas de sangue, aconselho: declina-te desta vingança desenfreada. O mundo ainda tem muito a te servir.

Vejo, então, a alteração na pintura. O óleo parece dissolver-se. Aqueles olhos... aquelas escleras tomadas por um negrume absoluto, sem luz, fitam-me com desprezo. E o que antes era pigmento seco, agora escorre. Tu choras. Não água, nem sangue, mas lágrimas de piche, espessas e negras, maculando a pureza mórbida da tua pele pintada.

— Crês que me fará parar?... Como és tolo, Valentine! — O meu nome soa como blasfêmia nesses teus lábios imortais.

— Lanço o desafio — indago, hipnotizado pelo rastro viscoso que desce pelas tuas bochechas —, até onde estarás disposta a ir com tal empreitada?

— Farei do purgatório a vossa nova morada!

— E depois?

— Como assim, "e depois"?

Aproximo-me da obra, sentindo o cheiro de terebintina misturado a algo podre e antigo. — Quando finalizar o teu intento, sentirás o peso do silêncio. Este mesmo silêncio que, até pouco, tanto me assombrava, não irá parar de te perturbar. Serás torturada pelo resto dos teus dias numa galeria vazia, num mundo morto. Nem mesmo as tuas súplicas serão suficientes para te salvar, pois para destruí-lo terás que destruir a ti mesma, rasgar a própria tela. Então, eu lhe pergunto: até onde estarás disposta a ir?

A imagem trêmula. O piche das tuas lágrimas parece ferver. — O que vês à tua frente, Valentine? — Tua voz agora é um lamento, um gemido de túmulo aberto. — Um retrato sombrio adornado por uma bela moldura arabesca? Um fantasma habitando uma tela em que o tempo ousa não apagar? Ou a representação maior dos teus medos?

Encaro o abismo negro dos teus olhos, duas poças de trevas infinitas. — Teu alarde para destruir-me e destruir o mundo é apenas uma fuga de teus próprios medos — digo, e cada palavra pesa como lápide sobre o cavalete. — Até os demônios mais baixos, minha cara Dama, possuem medos ocultos. E o teu medo é que, sem nós para te observarmos, tu deixes de existir.

O piche escorre mais rápido, mas o silêncio volta a reinar, pesado e insuportável, na sala fria.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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O Sapateiro e o Gigante

Na beira do oceano ficava uma aldeia de pescadores. Era um vilarejo pequeno, lugar muito pacato onde a maioria dos homens trabalhava no mar…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Na beira do oceano ficava uma aldeia de pescadores. Era um vilarejo pequeno, lugar muito pacato onde a maioria dos homens trabalhava no mar, seus barcos de pesca espalhados pela baía de águas calmas, que se formava logo em frente à praia branca do píer. Ali também morava um sapateiro, moço novo que tinha aprendido a profissão com seu velho pai. Desde pequeno ele ajudava a engraxar os sapatos, reformar couro gasto e colar meias-solas. O rapaz tornou-se muito bom naquele ofício e aprendeu a construir botas muito resistentes. Seus sapatos tinham ótima qualidade, encaixavam perfeitamente nos pés dos clientes, amorteciam a pisada com a base cheia de cortiça e a costura apertada não deixava que qualquer umidade adentrasse. Além de tudo, eram bonitos, com forma perfeita e verniz de brilho impecável.

As botas que ele fazia eram muito apreciadas pelos navegantes e aventureiros que vez ou outra passavam pela aldeia. Também tinha exímia habilidade com sapatos finos, com seu acabamento primoroso para vestir autoridades e também belas moças. Ele, como ninguém, sabia fazer saltos firmes que ainda assim eram confortáveis.

O sapateiro ficou conhecido pela qualidade do seu trabalho, viajantes de todo o mundo aproveitavam para fazer suas encomendas quando seus navios mercantes estavam aportados, principalmente os marinheiros que precisavam de botas resistentes para a lida no mar, que não fossem se corroer facilmente com a umidade e o sal.

A vida naquela aldeia era muito calma e lenta, os anos se passaram vagarosamente durante toda a juventude do sapateiro. Todo dia, com o nascer do sol no leste, os barcos eram desamarrados do píer e enchiam a paisagem até onde o horizonte se confunde com o céu. Quando caía a noite, as luzinhas no mar, guiadas pelo pequeno farol que ficava no desfiladeiro da ponta da praia, regressavam para o atracadouro e esperavam até o dia seguinte para partir novamente em busca de mais cardumes.

O sapateiro tinha sua oficina bem perto da praia e trabalhava o dia todo observando os barcos dos pescadores, ele conhecia muito bem qual era cada um, tinha uma visão privilegiada e desde longe identificava as cores e listras dos barcos de madeira dos seus amigos e familiares. Ele mesmo não gostava do balanço do mar, nas poucas vezes que esteve sobre as águas, logo quis estar de volta em terra firme. Seu negócio era a firmeza de uma banquetinha de madeira e as fôrmas de sapatos onde esticava o couro. A luz do sol ajudava a enxergar seus afazeres e por isso nunca forçava a vista em trabalhar depois do anoitecer. Iniciava cedo a sua rotina, mas também nunca apressou nenhuma encomenda.

Apesar de tudo, ele tinha sua proximidade com o mar, o azul era uma imensidão companheira quando desviava os olhos por alguns instantes naquela visada do grande manto com suas espumas e seus brilhos prateados na ondulação das águas. Depois voltava ao seu trabalho, com sapatos no colo, sobre o avental de lona sujo de graxa e verniz. Quando parava à tarde para beber um café, que se misturava ao cheiro dos vernizes presos na sua mão, também olhava contemplativo para o mar enquanto as cores mudavam. O horizonte se escurecia mais que o entorno, e o ocre do céu se dissolvia nas águas que tinham um cintilar reflexivo muito brilhante. Corria o olhar por toda a extensão reconhecendo os pontinhos mais distantes, desde o mar aberto até o desfiladeiro na ponta da praia. Assim ficava tanto tempo que às vezes a bebida se esfriava na sua caneca de esmalte. Quando o farol se acendia ao longe, ele finalizava o seu dia de trabalho, recolhendo as ferramentas e lavando os pincéis. Não forçava mais a vista com a luz fraca do cair do dia. Seus amigos marinheiros diziam que esta visão era uma dádiva invejável, habilidade muito boa para quem vive do mar, e que era um desperdício para quem fica na terra trabalhando com objetos que sempre estão ao alcance das mãos.

O sapateiro, muitas vezes recusou timidamente convites para se juntar às pequenas expedições de pesca. Ele não se interessava em ver o que o mar trazia até ali, mas se perguntava o que existia muito adiante, depois daquela imensidão de águas. Como eram os lugares das histórias que os viajantes contavam? Os tais desertos e geleiras? Tinha imagens imprecisas na imaginação, mas também pouca disposição para procurar torná-las mais nítidas.

Eis que um dia tudo mudou, um dia comum em que nada precisava mudar. Neste certo raiar de brisa manhosa, o sapateiro foi o primeiro a ver, quando abria sua oficina. Quando fitou o horizonte, ainda antes do sol despontar na aurora, muito ao longe algo estranho vinha pelo mar. Era a figura de um homem gigantesco, em que primeiro surgiu sua cabeça, com seus olhos fixos e um bigode aterrador, depois, conforme se aproximava da costa, seus ombros também emergiram das águas desafiando o senso de proporção de quem olhava desde a praia. Era tão grande, que, sendo grande, parecia estar perto, mas não poderia ser, pois ainda estava longe.

As pessoas da aldeia se juntaram para ver, primeiro forçando os olhos, com a mão reforçando as sobrancelhas, mas depois tudo ficava mais evidente. Com medo, os homens não queriam embarcar para a pesca, os que já tinham saído, rapidamente regressaram e amarraram os barcos novamente. Toda a gente, aos poucos foi se retirando. Apavorados, alguns se trancaram em suas casas, outros tentaram fugir para a serra. Logo se podia sentir um tremor em cada passada lenta que o gigante dava na direção daquela aldeia. O mar ficou revolto e virou os barcos do cais, as ondas eram imensas e invadiram as casas da beira da praia. Aquele homem foi emergindo da baía, pouco a pouco revelando a sua altura, até que cobriu o sol do quase meio dia. Então parou onde já era raso o suficiente e apenas os seus pés estavam submersos.

Tudo ficou quieto um instante enquanto o mar se acalmava. Logo mais o gigante, com sua voz grave, que parecia um trovão, chamou “Sapateiro!”. Não houve nenhuma reação, o rapaz estava tremendo de medo em sua própria casa. Depois de alguns minutos o gigante tornou a chamar “Sapateiro!”, e chamava insistentemente a partir de então “Sapateiro! Sapateiro! Sapateiro!”.

O sapateiro sentiu o peso da responsabilidade recair sobre si, só ele poderia salvar sua aldeia querida e as pessoas que nela moravam. Tomou fôlego e coragem para sair de casa. Calçou suas botas e foi para as areias molhadas, onde as águas caóticas ainda se alevantavam mais que o normal.

A figura era aterradora, um titã, como um filho de Gaia com o Tártaro. A feição do seu rosto estava ofuscada pelo brilho do sol que parecia coroar a cabeça. O sapateiro subiu até o farol do desfiladeiro, tomado da fúria de um herói. Quando chegou ao topo, inflou ares no seu pulmão para gritar de maneira épica. “O que quer?! Por que vem atormentar este lugar tão pacífico?!”. O gigante estranhou aqueles dizeres, o corrigiu dizendo que ali era o Atlântico. Depois voltou ao seu propósito. “Quero que faça um par de sapatos para mim”.

E então tirou um pé das águas enquanto apontava para ele mostrando. Era um pé terrível, de dedos espalhados, com unhas grandes, quebradas nas pontas e, além de tudo, era maior que o maior navio que o sapateiro já tinha visto em sua vida.

Então o gigante se apresentou de maneira cortês, ele falava muito vagarosamente e tinha modos nobres, apesar dos seus olhos estalados, seu bigode amedrontador e seu tamanho colossal. Então ele contou suas histórias, disse que já tinha lutado contra serpentes e monstros marinhos, mas ele não vivia na imensidão do mar e sim nas praias. Acontece que para ele, nadar de um continente ao outro não era uma tarefa tão difícil, no entanto, tinha vindo da costa da África e estava muito cansado. Pediu para sentar-se, e o enorme desfiladeiro era apenas como um banquinho para ele. Depois explicou que sempre acreditara que ele mesmo era a coisa maior e mais alta do mundo. Em todo lugar onde esteve nunca tinha visto rocha, nem mesmo serra que superasse sua estatura, e se gabava disso, bradava com soberba até o dia em que um navegante mencionou que existiam coisas muito maiores, chamadas de “Montanhas”. Naquele dia o gigante ficou tomado de ira e exigiu que o navegante dissesse o que eram essas tais montanhas e onde ficavam. “Elas ficam muito além das praias, grande caminho, continente adentro”. Mas toda vez que o gigante tentava deixar a areia suave do mar e das praias, as árvores machucavam os seus pés, por isso precisava de um par de sapatos que lhe protegessem as solas.

O sapateiro topou o desafio, mesmo sem ainda ter ideia de como poderia realizar tal tarefa. Ficou muito tempo aflito com seus pensamentos até encontrar uma maneira de começar, por muitos dias rodeava o gigante. As pessoas da aldeia foram se acostumando com aquela figura estática, sentada no desfiladeiro da ponta da praia e, com o tempo, voltaram a pescar. Muitos ainda tinham medo do gigante, mas ele ficava apenas ali quieto, dizia não querer atrapalhar.

O sapateiro levou meses, apenas para fazer o planejamento. Com persistência convenceu amigos a colaborar com os esforços. Encomendaram material de toda parte, a notícia correu e comerciantes vinham de muito longe para trazer couro, madeira e algodão, além de cola e outros insumos que chegavam nos navios.

O gigante era muito paciente, permanecia sentado, com o queixo apoiado num braço, enquanto o outro braço cruzava sobre a barriga. Demorava semanas para mudar de posição e permanecia calado e sereno observando os trabalhos. Foram seis meses somente para fazerem a medição, tudo demorava enormemente, de modo que o sapateiro aprendeu a fazer as coisas no tempo dos gigantes. Ao longo de dois anos construiu as solas, durante mais três ergueu a cobertura e deu acabamento caprichoso, teceu os cadarços trançando cordas navais, reforçou a costura e poliu o couro. O sapateiro ficou amigo do gigante, conversavam enquanto ele trabalhava ou depois que terminava o dia. O gigante contou dos inúmeros lugares onde esteve e das proezas que já tinha feito. Como tinha muita paciência, descrevia com calma e riqueza de detalhes tudo que já tinha visto no mundo, mas somente quando as estrelas saíam e só restava o sapateiro e o gigante no alto do desfiladeiro é que o homem titânico abria seu coração e sonhava com suas preciosas montanhas.

Eis que chegou o dia em que os sapatos ficaram prontos. Orgulhoso de seu trabalho, o sapateiro convidou o gigante a prová-los, mas teve uma súbita surpresa. Sem falar nada, o homem mergulhou no mar, sumiu por três dias e deixou todos sem compreender o que tinha se passado. Depois ele retornou trazendo em suas mãos pedaços do que eram as ruínas do naufrágio de um antigo galeão espanhol. Despejou tudo em um canto da praia e, quando foram revirar, encontraram um grande baú, repleto de joias e moedas de ouro. Era o agradecimento e devido pagamento pelos trabalhos. A aldeia ficou rica, dividiram aqueles espólios, sendo que a maior parte ficou para o sapateiro.

O gigante, no mesmo dia, calçou sua encomenda e rumou em direção às serras. A cada passo um tremor de terra era sentido, os primeiros eram muito fortes, mas depois foram se esmaecendo. Foi deixando pegadas enormes, como clareiras na mata densa tropical. Ele andava muito devagar e demorou mais de um mês até que os tremores fossem imperceptíveis e sua figura ficasse pequenina novamente no horizonte. O sapateiro, aproveitando seu descanso depois do longo trabalho, assistia toda tarde o seu amigo sumir devagar na paisagem. Com os olhos altivos, do alto do farol, conseguia ver uma infinidade de coisas, terra adentro ou mar afora, e ficava pensativo. Todos notaram que seu coração estava mudado.

O tempo foi passando e a vida como era, naquela aldeia, mudou muito com a fama e a riqueza. O sapateiro, percebia que nada mais era agora como antes. Ele foi se tornando uma pessoa ainda mais reclusa e melancólica.

Um certo dia, com a parte que lhe pertencia do tesouro, o sapateiro encomendou uma quantidade inimaginável de novo material. Voltou aos andaimes e estruturas, já abandonadas, que tinha usado para construir o maior par de sapatos do mundo. Começou a trabalhar sozinho em um novo pé de sapato, um pouco menor, mais módico. Não dizia a ninguém o motivo do que estava fazendo, tampouco aceitava ajuda. Todos diziam que o sapateiro tinha enlouquecido, ainda mais quando, com o passar dos anos, se formava um único pé de sapato, que ninguém sabia dizer se era um pé direito ou esquerdo.

Desta vez, sozinho, foram sete anos até que aquele sapato solitário tomasse forma e ficasse pronto. Como todos os outros que tinha construído, era primoroso, muito bonito. Assim que terminou, toda gente ficou curiosa para uma revelação. Para quê serviria aquilo?

Quando estava finalizado e com toda a cola bem seca, com a impermeabilidade testada e um brilho lustroso, o sapateiro empurrou aquele pé ao mar, desde o alto do precipício. As pessoas ficaram estarrecidas. O enorme sapato caiu nas águas e espirrou um jato fenomenal, mas foi quando aquilo voltou à superfície que o sapateiro comemorou e pulou de alegria.

Por muito tempo ainda trabalhou no seu projeto, instalou mastros e leme, encomendou uma bujarrona, adaptou um convés e tablado. Era uma beleza, ele tinha feito sua obra prima.

Em uma manhã, antes que todos acordassem, quando o vento manhoso esvoaçava os panos enquanto o oeste absorvia a madrugada, o sapateiro partiu em seu navio-sapato. Rumou para o grande mar, no sentido contrário do sol que se levanta, venceu, no mesmo dia, a maior distância que já estivera de casa. Logo já não podia mais ver a costa. Estava sozinho, em pleno esplendor do oceano sem fim. Precisou consultar os livros de navegação que guardava na cabine, com o passar dos anos aprimorou o que era verdade e descobriu o que era mentira daquelas instruções escritas nos papéis.

O sapateiro viveu uma vida no mar, navegou por toda parte, viu os desertos infindáveis, a neve que cai vagarosa, florestas úmidas e rochas estéreis, conheceu o doce e o salgado. Passou por tormentas e calmarias, aprendeu a enfrentar tempestades e aproveitar o mar calmo, aprendeu a navegar no vento generoso e esperar com paciência as correntes vindouras, racionar na escassez e fartar-se na abundância, vibrar nas aventuras e recolher-se no tédio, apreciar o quente e o frio, simplesmente pelo quente não ser frio e o frio não ser quente. Viu as ilhas da Grécia, a areia das Arábias, os mares de toda parte, do gelo do norte ao gelo do sul.

Viu tudo que existe no mundo, fez proezas em muitos lugares por onde passou. Seu nome se tornou uma lenda. Certa vez ouviu sua própria história da boca de um poeta, em uma bela canção que recitava os feitos do capitão do navio-sapato.

Com os anos que acumulava também colecionava feitos impressionantes. Mas o tempo passou e ruiu casacos e chapéus, desgastou também o corpo e a disposição do sapateiro, fraquejou as mãos e os braços, arqueou a coluna e cansou suas pernas.

Aquele navio-sapato, que já teve tripulações grandes e pequenas, que já havia transportado maravilhosos tesouros, cruzado mares e oceanos, passado por lugares nunca antes navegados, também estava decaído. Já não tinha o brilho do lustre desde a primeira viagem, sofrera inúmeras avarias e precisou de muitos reparos, até reformas inteiras. Agora também se encontrava sem sua tripulação. Somente o sapateiro andava calmo e sozinho pelo convés.

Foi no entardecer de um dia qualquer, quando as nuvens se acobreavam num espetáculo fascinante. O navio-sapato vagava à deriva pelo mar, e o sapateiro só tinha a fazer contemplar a vista e beber um café.

Em um instante, as águas revolviam a frente da proa e, de repente, surgiu do mar um velho rosto conhecido. Ele não tinha mudado nada, a não ser por uns poucos fios grisalhos no seu bigode. O sapateiro pulou de alegria, ficou imensamente feliz ao ver seu amigo de tantos anos.

O gigante quis saber o que tinha feito e como havia chegado naquelas águas. O sapateiro contou toda a sua história, desde que partiu no navio-sapato. Durante vários dias eles conversaram. Teve tempo suficiente para se contar todas as proezas e aventuras, e o gigante ouviu atento, rindo e se emocionando em cada passagem.

“E você, nobre amigo, viu as suas montanhas?”

Então respondeu o gigante: “Eu andei pela terra, até que os sapatos que fizeste pra mim furaram as solas. Depois de tanto caminhar encontrei a montanha, olhei para cima impressionado, até então só tinha erguido meus olhos assim para ver as estrelas. Contemplei e louvei a montanha. Então eu subi na montanha, escalei a rocha e alcancei o topo, e de lá enxerguei uma nova montanha, ainda maior e mais alta. E na nova montanha vi outras tantas muito maiores. Vaguei por muitos anos procurando a montanha mais alta do mundo até que a encontrei. Com muito esforço alcancei o topo frio da maior montanha do mundo. Era gelado e solitário lá em cima, mas dava para ver muito ao longe, então me senti pequeno pela primeira vez, não pela montanha, mas sim pelo mundo. Fiquei muito tempo olhando o mundo de lá de cima até perceber que acima de nós todos, também estavam as estrelas, e percebi também que elas sempre estiveram em toda parte. Levantei-me, pensando estar tão alto, tentei alcançar as estrelas, não conseguia. Então chorei, me esforcei novamente, esticando os braços e ficando na ponta dos pés, a luz ainda parecia tão distante. Esperava sentir a luz na ponta dos meus dedos, mas não sentia. Por um descuido escorreguei e rolei montanha abaixo, caí como as pedras ao meu redor. Em pouco tempo estava de volta ao mar, todo machucado, e a montanha parecia ainda maior que antes. Mas fiquei feliz de estar de volta, depois de tantos anos andando pela terra, finalmente pude pisar descalço nas areias da praia.”

O sapateiro lamentou “Me vejo tão distante de casa, meu caro amigo. Queria eu poder voltar, assim num instante. Grande sofrimento tem sido vagar sem rumo nestes últimos anos.”

“Pois faça um último esforço neste navio, ponha no teu corpo velho a força vivaz de um jovem marinheiro e estenda as velas novamente, com isso não posso te ajudar, mas vou soprar na direção de onde fica a tua aldeia.”

E o sapateiro assim o fez, hasteou as velas, traçou o curso e ajustou o leme. Quando estava tudo pronto, ele, em prantos, agradeceu ao gigante. O homem colossal se preparava para assoprar, mas antes de tomar fôlego, antes de absorver tornados de ventos marinhos em seus pulmões, ele disse as últimas palavras ao sapateiro.

“Já te aprume preparado a soltar a âncora. Descobri, meu amigo, que o caminho pra longe de casa é sempre muito mais longo que o caminho de volta pra casa.”

FSSSSSSSSSSSS!


Escrito por:
Henrique Siviero

Residente de São José do Rio Pardo, Henrique Siviero formou-se em Física e escreve sobre o que lhe desperta na vida, de experiências particulares às fantasias e tradições. Trabalha atualmente na revisão de seu Romance, possui contos e poemas publicados pela Amazon, dentre eles, estão os títulos "Cruiz Credo" e "Meia Dúzia de Poemas". » leia mais...
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— Levanta-te morbígero cadáver! | Teus olhos vítreos pálidos reluzem! | Odor de morte antiga que paláver | Sem verbo zumbe horrores que conduzem;…

— Levanta-te morbígero cadáver!
Teus olhos vítreos pálidos reluzem!
Odor de morte antiga que paláver
Sem verbo zumbe horrores que conduzem;

— Caminhe n’esta terra aromantada
De lágrimas e sangue, a flor do mal
Que brota putrefata e delicada
Disposta a todo crime mais brutal!

— Devolva-me à morte, bruxa amarga!
Que vida humana alguma me apetece!
Jurei beijar meus vermes, cá me larga!

— Devoto sou ao crânio, pela prece,
E à úmida madeira do caixão
E à paz d’este meu hirto coração…
A vida imunda, sei, não me merece.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Capítulo 13: Nada além da verdade — Rubi Áurea

Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como…

Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como a nota grave de um órgão profano — era a própria frequência do desespero, da solidão e da orfandade existencial. Uma salmodia vibrante de abandono, alojada sob a soturnía do medo persecutório, vibrava nas camadas hialinas do ar, no calor do mármore e nos lagos de lava escarlate. Sim, tão inextricável e abissal quanto estas lôbregas palavras que descrevem cada detalhe.

Reintegrei-me em corpo — ou no simulacro que me restava dele — envolvida por um fogo que fazia parte de minha tez e alma. Reintegrei-me ali, naquele vasto e montanhoso domínio, onde céus de nuvens negras em fugaz cinesia deslizavam, guiadas por um vento atroz e fastígio. E, além delas, ardia um firmamento escarlate, imóvel como um presságio. Eu via — e saberia que jamais poderia deixar de ver — um reino de edificações negras, cuja arquitetura parecia construída na linguagem do luto, à sombra de arbustos altos e secos, esqueletos de entidades vegetais. Ruínas de uma civilização obliterada pelo próprio peso da existência.

De essência aterradora, sim, entretanto, algo íntimo cingia-me, acolhendo minha desgraça. E o reino todo alcançava meus olhos absorvidos e fascinados. “Lindo...” — murmurei, talvez para mim mesma, talvez em silêncio. Logo notei meus pés descalços e meu corpo envolto a uma peça que esvoaçava pelo álgido ar que vinha dos céus; era estranha, parecia rasgada em retalhos, queimada, feita de um tecido fino e semitransparente. E para meu corpo olhei quando senti calor em meus pés; vi que o chão era mármore negro, cálido, com fissuras em um vermelho intenso — como uma pedra bruta proibida... que sangra.

Olhei para trás, portanto, buscando compreender o derredor... o que veio às minhas retinas, então, deixou-me estarrecida. Era um imenso palácio de mármore negro e rubi, uma inconcebível arquitetura... e inominável. Seus altos e colossais umbrais abertos poderiam ser-me um convite, entretanto, neles estava um ser sublime que me observava atento e imponente. Sei que minhas pupilas se contraíram ao enxergá-lo, pois quão fascinante o esplendor eterno da sua luz perfeita. Eu intuía... e, por isso, tão logo caí-me aos seus pés porque o que eu intuía conduzia meu ser... aquela criatura era nume, celestial, perfeita. Era uma divindade. Eu compreendia. Prostrei-me porque nunca vi tamanha beleza... nunca senti tamanho embevecimento.

— Levanta-te, pois que não tenho servos, tenho aliados. — ouvi. A voz daquela divindade era o universo ecoando em seu próprio abismo constituinte... eu já o havia ouvido antes... eu já conhecia o seu idioma. Obedeci-o prontamente e fitei a sua graça magnânima. Era mesmo de uma beleza surreal e continha grandiosas asas e vestia-se com vestes régias e negras, com detalhes em rubi, tal como o seu palácio. Era como um homem, entretanto, seu corpo era forte e decerto possuía mais de três metros de altura; além disso, eu intuía, mais uma vez, que não havia gênero em sua estrutura... ele era quem ele quisesse ser... quando ele quisesse ser...

Lussifferr... — sussurrei... reconheci...

— Tenho vários nomes, este é um deles. Seja bem-vinda ao meu reino. — ouvi. Eu sabia que estar ali era um privilégio de poucos...

— Não temas. — disse ele e convidou-me, com um gesto, a adentrar a sua residência sublime.

Caminhei sem pressa e vi, no interior do local, um lago que reluzia carmim e colunas de rubi que tinham, esculpidos em si, rostos de homens e mulheres de magnífica pulcritude. A deidade sentou-se em seu trono portentoso.

— Pergunto-me a razão pela qual há uma nutrúrnia fincada em teu torso... enraizada em teu coração... — senti-me enrubescer ao ouvi-lo. Lembrei-me de Seth. Ponderei em como eu poderia me explicar.

— Não me conte. Aprecio mistérios. — proferiu com um sorriso perverso e sombrio.

— Tu sabes o que és, Áurea Lihran? — meu nome em sua voz de matéria escura. Um deus sabe todos os nomes daqueles que encontram seu reino?

— Eu não sei se sei. — respondi, murmurando.

— Tu és um demônio. Um demônio que nunca caiu. Diferente de todos aqueles que residem em meu mármore... que raridade. — eu o sentia cada vez mais sombrio, suas palavras naquele idioma ancestral me deixavam turva e com um tipo de admiração que beirava o temor.

— Entretanto, ainda és humana e, para minha surpresa, vampira e animal mítico. — engoli minha saliva como se fosse espinhos. Algo me dizia que Lúcifer sabia muito mais de mim do que eu mesma.

— E como se não bastasse, senhorita Lihran, carregas o Olho do Oráculo como pingente e quatro sigilos pherhesistas repousam em teu pulso. — olhei para meus pulsos, revivi aquele momento tão perigoso.

— Portanto, posso convencer-me de que também és Magista e... vidente. Que fardo! — olhei para os lados, a paisagem nas paredes translúcidas era esplêndida; por fora, nada se via no interior do palácio; por dentro, tudo do exterior se via. Eu não sabia o que dizer, eu estava em êxtase.

— Fardo... — repeti como se internalizasse aquele termo.

— Há conhecimentos que somente uma criatura rara como tu pode alcançar, e é por isso que te proponho um pacto. — fitei seus olhos escarlates.

— Tenho más experiências com — hesitei — vínculos a entidades poderosas... — segredei, incerta de recusar algo de um ente tão superior. Lúcifer sorriu outra vez.

— Não sou uma entidade poderosa, Áurea. Sou um deus. — tremi ao ouvi-lo; um estranho frio espargiu e minha tez se arrepiara.

— Posso dar-te quase tudo o que quiseres, em absoluto; sem entrelinhas. Desde que me dê o que quero. É justo para todos os envolvidos.

— Podes trazer todas as minhas memórias à consciência? — instiguei, quase o interrompendo.

— Não posso. — surpreendi-me.

— Não sou capaz de quebrar o poder do livre-arbítrio. — senti-me confusa. — Tu queres manter tuas memórias ocultas, Áurea; teu querer inconsciente é maior do que o teu desejo racional. — tremi mais uma vez. Eu estava me sabotando? Pensei, silenciada.

— Entretanto, tenho algo de teu interesse... algo mais significativo... e tudo o que peço em troca é a tua devoção ao conhecimento que me é valioso... domine-o e traga-o para mim.

— Pherhesí... — intuí e murmurei. Lúcifer sorriu.

— Isso... agrada-me que tua intuição já esteja vinculada a mim, o teu deus.

— Não posso... não posso... quais serão as consequências? — meândrica, o questionei. Lembrei-me de Olga dizendo-me dos riscos daquela magia.

— Muitas. Entretanto, serão consequências diferentes daquelas que terás que arcar se não aceitares minha proposta. Tudo o que fazes traz frutos; a resultância emerge mesmo quando nos recusamos a existir.

— Não... não posso aceitar... — olhei para os umbrais e vi o inferno em sua imensidão. — Por causa da nutrúrnia eu... sou obrigada? Eu devo algo a ti? — entristeci-me.

— Não, criatura. Mas a consequência é a que vês. Estamos vinculados. Há um elo que te trará ao meu reino quando bem quiseres ou quando for do meu interesse. Os poderes demoníacos estão em tua posse; és capaz de compreender minha linguagem. És um anjo que nunca caiu, porém, está caído. E não há como retornar. — Lúcifer fitou meus olhos com precisão.

— Factum est! — conjurou. Um selo para a minha nova verdade. Um selo do meu espírito diante daquele deus..., mas, o que isso significava para além de sua significação?

Factum est!

Nada mais. E um silêncio perdurou enquanto minha mente estava em ebulição de pensamentos apavorantes. Mais um pacto? Com um ser bem mais poderoso? Uma falha, o livre-arbítrio, usado por mim para apartar-me do que fui? Aquela mulher que eu era precisava ser esquecida?

— Eu preciso crer? — questionei, ainda em torpor de meus pensamentos. Lúcifer não me respondeu de imediato.

— “Precisar” significa acender a faísca de um desejo sob argumentação tendenciosa. E “crer”, ah, esta sim... esta é a palavra... a mais irrelevante palavra. A crença é tão só uma mentira, afável mentira. Induz a razão pela veia da ignorância. Se almejas a verdade, nada além da verdade, não creia... beije os lábios da factualidade... lide com as consequências... e que a única calidez advenha do mármore sob teus pés e nunca do teu coração.

Lúcifer se levantou, caminhando ao redor, devagar.

— Mas... quão humana ainda és? Quão ávida estás pelo amor olvidado? Pela paixão proibida? Pela dor e pelo prazer de amar? Ah sim... eu sei... — meu imo ardia ao ouvi-lo.

— A humanidade ainda pulsa na tua carne, não é? Tu sentes o deleite... o vigor... a intensidade. Algo que apenas um humano pode sentir. — Ele continuava me cingindo com seus passos sorrateiros, como um lobo faminto. Parecia um pouco mais próximo, em tamanho, como um ser humano; metamorfoseava-se para que eu não sentisse estranheza, talvez; Lúcifer dominava, persuadia, hipnotizava.

— A fé é tão símil à excitação venérea... induz ao gozo precipitado ou ao tântrico estado perpétuo de realização afrodisia, em ambos os casos, é idealização projetada. Aceite a verdade... as coisas que são como são; e, então, faça do teu sentido aquilo que ele deve ser e não uma deformada efígie dos teus ideais.

Abracei-me com minhas mãos, como se me comprimisse em mim mesma.

— Tenho toda a eternidade para que aceites o pacto que ofereço. Pense, eu estarei sempre aqui... e eu não estarei sozinho...

Eu intuía algo, profundamente brumoso, na última frase de Lúcifer. Voltei a admirar o horizonte do inferno.

— O que me ofereces? — inquiri. Lúcifer sentara-se outra vez.

— Esta é a pergunta certa, e ela te será respondida no momento certo. — argumentou, e eu, devota à sua grandiosidade, apenas assenti. — Ouça bem, esta flor em teu peito, se retirada, levar-te-á para a Morte Rubra. Aquele que tentar contra suas pétalas, sorverá da tormenta; aquele que tentar contra as suas pétalas, será mortificado pela escuridão. As pétalas da nutrúrnia poderão ser arrancadas, entretanto, seu caule tem a força destas colunas lapidadas em carmiantte, e está enraizado, envolto a todas as tuas veias. Só poderá ser retirado, portanto, se tu fores dissecada. — intimidei-me sob assombro silente, quase plangi de súbito por tão somente imaginar tão horrífico fim.

— O que é a Morte Rubra? — indaguei, incerta de que saber fosse preciso. A deidade sorriu, apontando para as colunas lapidadas.

— Carmiantte é a fundamentação d’este reino; um mármore negro-carmesim, de dureza mais acentuada que o diamante vestal. Se lapidado, assemelha-se ao rubi, dado seu esplendor escarlate. — Lúcifer levantou-se, tocando os lábios de um pilar-estátua feminino. — Cada escultura vive suportando o peso de si mesma, senciente. Ou ainda, brutas, sob teus pés aquecidos pela lava vermelha. Onus aeternum. Tudo aqui é carmiantte, e carmiantte é feito de Morte, e é rubro porque sangra.

— Demônios sangram carmesim? — lembrei-me da seiva negra de Seth.

— Não, mas humanos sim. Por isso é rubinegro. Alguns virão para o inferno em razão de seus pecados; outros encontrarão a Morte Rubra por quebrarem o pacto que comigo fizeram. — compreendi, e antes que eu lhe pudesse questionar tanto mais, senti novamente meu corpo transfigurar-se em fogo cetrino, como papel queimando.

— O que...? Por que...? — senti-me confusa e ardente.

— Desejas retornar ao teu Castelo, e a intenção intuitiva do desejo se basta para que o fogo efetive o retorno. — eu queimava, e o medo outra vez tomou-me como um amante febril. — Assim será quando quiseres voltar para meu reino, ainda que não sejas capaz de ouvir o teu intuitivo desejo. — olhei para os olhos de Lúcifer. Ele estava incólume. Olhei para as estátuas de carmiantte; pareciam me observar. — Logo saberás fazê-lo racionalmente. — afirmou a deidade, proferindo o que não pude ouvir em seguida. Senti-me desmaterializar pouco depois de ser preenchida por uma estranha inquietude.

Então, eu estava de volta. As mesmas paredes de pedra, o mesmo silêncio e solidão. Envolvida pela escuridão que me pertencia, ainda tomada pela incerteza e instável verdade da minha existência. Entardecia. Nuvens em bege profundo se espalhavam nos céus simulados; ao derredor, folhagens em marrom-outono dançavam ao vento enfraquecido. Eu estava em casa, a vicissitude do lar ao qual eu pertencia era a ilusão perfeita do espaço-tempo, eu sentia. O inferno era mais real do que o Castelo Drácula — ou seria Castelo Nivïttiz?

Andando a esmo, sem esperanças a conduzirem meus passos, sem razões para direcionar meu comportamento. Toquei a algidez das pedras úmidas, senti o ar rarefeito do dia lá fora; visitei túmulos daqueles que jamais saberão sobre a Morte Rubra e que talvez estivessem, naquele instante, suportando o peso de si mesmos, sendo pilares lapidados do palácio de Lúcifer. Ou eram carmiantte bruto, debaixo dos pés dos residentes do reino que eu agora conhecia? Lembrei-me de Lúcifer e senti a liberdade do seu poder. “Não tenho servos, tenho aliados.” Lúcifer não era um pai, seus princípios de liberdade acima de tudo conduziam minha alma à verdade sombria: estamos sempre sós. Mas, por que estamos? Eu me perguntava nos caminhos irrelevantes daquele alcácer. Por que nos tornamos e agora somos?

“Divino é a criação, ou quem a criou? Fui criada por Lorrt na transmutação vampírica e, antes, criada por meus pais e, muito antes, por quem? Quem estivera antes da vida que agora, na vida, já não está? E se a liberdade é a verdade, junto à factualidade das imensidões subjetivas, então é tudo verdade, então é tudo mentira? Quão livre é estar livre, se há prisões que nos percorrem o corpo e alma, desde o próprio corpo até a própria alma? As indagações tão perenes não são prisões subjetivas tal como as respostas às indagações? Este Castelo, o que é? Por que é? E o que é sê-lo?”

Adentrei uma porta qualquer, irrisória para mim; mais uma dentre tantas. E continuava a pensar. Contudo, era um quarto com tapeçaria amarronzada e detalhes em dourado envelhecido. Vi um belíssimo leito com dossel de ouro translúcido e veludo marfim. Uma escrivaninha com papéis escritos, uma pena de ponta manchada de tinta negra e um cântaro com flores brancas. Isso foi tudo o que vi a princípio e, tão logo, aproximei-me curiosa. O local transmitia uma energia pacífica, embora os lumes de suas velas se ocultassem na minha escuridão. Um canto gregoriano evidenciou-se quando os umbrais foram fechados por minhas mãos, vinha do interior do quarto, especificamente uma estreita porta à esquerda, ornamentada por uma cruz dourada, antiga.

Abeirei-me em silêncio, no mais insano, conduzida pelo enlevo das vozes em coro, ecoando como se fossem donos da eternidade da existência. Lá dentro, espreitei pela porta: uma mulher ajoelhada sobre um pulvinar castanho, costurado com loura lã, tinha suas mãos unidas e seus olhos fechados em um semblante de mansuetude. Seus longos cabelos ondulados eram símeis às folhas secas do outono, pela cor; e em evidência, tão macios quanto o veludo marfim do leito outrora observado. Seu vestido mantinha o tom castanheiro, como se os carvalhos mais ancestrais habitassem o cômodo; tudo era madeira marrom, tudo era entalhado no ouro.

A mulher rezava. Eu sentia. E sua oração me perturbava. Não pelo som que sequer saía de seus lábios, mas pela fé que resplandecia dos poros de sua tez cor de cravo-da-índia. Reluzia sutil a sua tez, azeitada pela natureza própria que a fundamentava. E a cruz-pingente no colar que segurava em suas mãos enfurecera-me, como se fosse um insulto à minha vida. À sua frente, nada além de diversos vasos com flores secas, galhos de árvores, pinhas, velas, água corrente. Havia, também, argila em formas incompreensíveis e, também, um tipo estranho de aparelho por onde as vozes saíam naquele salmo em coro religioso.

Abri a porta um pouco mais, mas aquele fulgurar estranho, feito de pequenos pontos de ar pairando no ambiente, como se crepitasse devagar, constituídos de pura energia de fé, impediam-me de me aproximar. O som da porta despertara, em seguida, a concentração da mulher que, célere, olhara-me atenta. Toda a luz que afrontava minha existência se espargiu como poeira levantada pelo bater intenso de um tapete. A mulher sorriu para mim e perguntou-me se eu precisava de ajuda. Eu precisava? Não sei. Mas aliviada estava por não mais ouvir, ver e sentir aquele obscuro agravo, coberto por fervor espiritual, capaz de me sufocar à Morte Rubra.

— Não sei como encontrei este... altar... — proferi. Minha voz estava diferente, mais séria, mais persuasiva. Sequer parecia ser minha.

— Talvez o tenhas encontrado porque assim foi preciso. Deus pode tê-la direcionado a mim, por suas razões celestiais. Assim acredito, pois que nunca recebi outra visita que não de meu amado pai. — proferira com a voz mais mélea do que qualquer outra que já ouvi. Era como um anjo egrégio, embora compará-la a tal era-me estranho, pois que nunca vi anjo algum, não daqueles que decerto teriam a essência insigne que transpassava, dela a mim, através daquela voz e daquele rosto e de toda aquela luminosidade feita de fé e devoção.

— Devo duvidar, pois que qual deus poderia guiar um coração demoníaco como o meu? — indaguei sem buscar por uma resposta, ao menos não racionalmente.

— Acabo de vir do inferno, o deus que conheci não guia ações, não interfere em minha vida, apenas propõe pactos e vínculos essencialmente convenientes.

— Tenho certeza de que o deus que viste não é o verdadeiro Deus de Todas as Coisas. Tenho certeza, caríssima, que a tua vida é por este Deus Maior guiada e cuidada como deve ser para todas as criaturas debaixo do céu.

— E debaixo do céu carmesim do inferno profundo também?

— O Deus de todas as coisas é piedoso e bondoso, é capaz de tirar uma criatura de seu inferno sob a condição de rendição. Rejeite tudo o que não vier d’Ele e, então, terás a salvação eterna.

— E de quem me salvarei eternamente senão de mim? E se me sou sempre a me ser, como posso salvar-me de mim enquanto me sou? — a mulher fez silêncio.

— Feche teus olhos, dama. Feche-os e profira no teu silente coração amaldiçoado pelo inferno: “Deixe-me sentir-te, Deus, fala comigo, eu rogo!” e Ele falará contigo, se for preciso, se for o momento. — compreendi sob o véu do ceticismo e intensamente enjoada.

“Deixe-me... sentir-te... Deus...”, ponderei. O vazio nunca foi tão vazio quanto o tamanho do vazio que senti ao pensar em tal ridícula oração. “Fala comigo, eu rogo!”, insisti, sentindo vontade de gargalhar e chorar ao mesmo tempo.

— Não sei encenar como tu... não há Deus Maior que me ouça. E se fosse do meu feitio, Deus algum a ouvia agora e eu poderia sorver do teu sangue vestal e te levar mais perto de Deus... ceifando tua vida...

— Mas não o fará... por quê? — questionou mais calma do que previ diante minha insondável ameaça.

— Porque não quero... não tenho sede... não tenho razão... nem sentido.

— Deus me protege de todo o mal. Ele é capaz de fazer o mal desistir do mal, para cuidar de mim, eu sei.

— Um Deus seletivo... entendo... cuida de seus preferidos e renega os que dele mais precisam, pois que estes que não lhe estão sob os princípios, desviados de sua salvação eterna, não são, pois, os que mais deveriam ouvi-lo? Não são, pois, os que mais precisavam de apoio? Intriga-me que sejas tão devota a um Deus assim.

— E quem disse que Ele não está dedicado aos que não o adoram? Sei que o Deus Maior não rejeita ninguém. Apenas é preciso um pouco de sensibilidade para ouvi-lo, mas Ele sempre diz e sempre quer se fazer ouvido. Ele não é racional, Ele está acima da razão, e Ele não pode obrigar-te a ouvi-lo tal como o teu desejo de ouvi-lo não pode trazer-te a capacidade de o fazer.

Silenciei e olhei para a luz tenra que advinha da janela ao lado da escrivaninha; a luz crepuscular dourada tocava as pétalas das lívidas tulipas e difundia-se nos soltos papéis. Um porta-retrato protegia uma fotografia de Monm ao lado da mulher imersa em sua fé inabalável. Sorriam, profundamente felizes, como Monm não parecera ser capaz de fazer quando o conheci.

— Este é meu pai, Abdalla... — olhei para trás, sequer notei que havia andado alguns passos em direção à luz. Hesitei. — E eu sou Siehiffar Monm... ou apenas Sieh. — senti sua proximidade, e isso me desestabilizou.

Havia, de fato, poder em sua crença — um tipo de poder que não poderia coexistir com a daemoniss que eu era, que eu me tornara, que sempre seria rejeitada pelo Deus Maior. Caminhei para os umbrais principais da alcova sacrossanta e, sem olhar para trás, sem proferir uma única sílaba de adeus, fui embora.

Havia uma dor em mim, que não doía... e uma desesperança tão amarga, que não amargurava... havia uma verdade apenas, dentre tantas, a única que me conduzia diante da solidão eterna: Eu não pertencia àqueles que seriam salvos, e eu não era mais humana.

Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 11 — A fé é a prova de balas

Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso? Pelo que estou lutando realmente? Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Onde estou? Qual o objetivo de tudo isso?

Pelo que estou lutando realmente?

Sinto no âmago do meu peito este chamado tão incinerante que me devora mas não consigo mais seguir esta luz, por quê? Ela me sufoca, me deixa confusa, sinto uma vontade enorme de chorar pois estou sozinha, estou completamente isolada e perdida...

Não sei mais para onde estou indo, não sei mais o que buscar. Quando eu finalmente consegui sair daquele limiar eu percebi: seria aquilo minha última luta? Minha última escapatória?

Ou o início de um umbral que devo mergulhar? Cansada de ser a sina de um povo esquecido, perecido pelo tempo nas cinzas tristes de uma memória distante e falsa que se derrete como lágrima que se desfaz no oceano, sinto-me com tanta dor e saudade do que não sei...

Não sei mais no que acreditar...

Talvez eu esteja tendo uma crise de fé, talvez eu esteja apenas cansada.

Arale não sabia dizer, com precisão, se aquele som de engrenagens gemendo vinha do corcel ou de sua própria alma. Era como se o tempo se estilhaçasse em cada passo metálico da criatura. O Limiar... ah, o Limiar. Um espaço sem lógica, onde até mesmo Deus parecia hesitar antes de entrar. Ali, tudo era sonho febril condensado, e a dúvida era a única verdade estável.

Ela apertava o cabo do machado de plasma como quem se apega a um último pensamento lúcido antes da loucura. O brilho da lâmina vibrava, emitindo um ruído agudo, quase um suspiro — um som que lembrava os delírios de um condenado prestes a ser esquecido pela História. Estava exausta, sim, mas também faminta de sentido, como um espírito que busca uma revelação em meio à miséria do caos.

No caminho, os gobelinus rugiam, grotescos, com suas bocas costuradas por fios de pecado e olhos onde habitavam pequenas constelações mortas. Arale os ignorava. Ela já conhecia aquele tipo de criatura: seres que viviam entre a dúvida e o desejo, entre o riso demoníaco e a oração abortada. Eram sombras que haviam esquecido como era ser inteiro. E ela... ela se recusava a se tornar uma sombra. Ainda não.

Ao longe, no cruzamento de duas montanhas que pareciam suspensas por vontade suicida, uma figura se projetava, como uma cicatriz no espaço: Allant Elirrahz, o cartógrafo. Seu semblante era um mapa da própria decadência do universo — olhos que já haviam testemunhado mais do que qualquer mortal deveria e dedos que tremiam com o peso dos caminhos esquecidos.

— O que buscas, viajante do abismo? — ele perguntou, sem mover os lábios, como se a própria paisagem tivesse falado.

Arale desmontou, sua armadura chiava em protesto. Ela não respondeu com palavras. Estendeu lentamente a mandíbula arrancada de um gobelinus, envolta em prata líquida — um símbolo. Um gesto. Um pacto.

Allant assentiu com um olhar que compreendia o desespero mudo das coisas que não se dizem. E então, do chão, ele arrancou um mapa. Mas este não era feito de papel, nem tecido, nem pedra. Era feito de lembranças — memórias fossilizadas dos que se perderam tentando entender o Limiar.

— Siga a trilha dos olhos enterrados. Lá encontrará o prisma-espelho. Mas cuidado... Citlalmiquiztli a observa. Ela julga os desequilibrados.

À essa altura, o vento começou a zumbir como um velho bêbado recitando maldições. E lá, no horizonte, a figura dela surgiu.

Citlalmiquiztli.

Não como inimiga. Não como aliada. Mas como juíza.

Seu semblante jovial se mantinha, mas seus olhos... seus olhos não perdoavam. Em cada passo, ela pisava em realidades desfeitas. Em cada gesto, o universo parecia suspenso por um fio de cabelo. Ela olhou para Arale como se olhasse para o próprio destino — não com piedade, mas com pesar.

— Procuras justiça... ou vingança? — murmurou, quase com ternura.

Arale não respondeu. Talvez porque não soubesse mais a diferença.

E assim, ambas se encararam:

Uma guerreira do plasma, ferida pela lucidez.

Uma guardiã do cosmos, ferida pelo equilíbrio.

O Limiar assistia.

O tempo chorava.

E o destino, como sempre, permanecia de olhos vendados.

O silêncio que se instaurou entre Arale e Citlalmiquiztli era tão profundo que parecia devorar o próprio som. Um silêncio denso, inquisidor, feito não de ausência, mas de peso — o peso do que não se pode ignorar. Arale sentiu o machado em sua mão vibrar. Não por ameaça. Mas por dúvida.

E foi então que Citlalmiquiztli se aproximou. Seus passos não tocavam o chão, mas feriam a realidade. Cada pegada que deixava exalava símbolos — runas astrais, fósseis de uma linguagem esquecida, que tremeluziam e se apagavam como lembranças de um sonho que morria ao nascer.

— Dizes que buscas sentido, filha do plasma. Mas que sentido existe num universo onde até as estrelas enlouquecem? — perguntou ela, com um sorriso que não era deboche, nem compaixão. Era o sorriso dos que já entenderam que até a luz cansa.

Arale ergueu os olhos. Seu semblante, endurecido pela desconfiança, carregava a lucidez de quem já perdera tudo, menos o desejo de compreender.

— Se há sentido, ele se esconde nos cacos. Nos espelhos quebrados. No espasmo final do que amamos antes de ser devorado pelo absurdo — respondeu. Sua voz soava como se tivesse vindo de outra era. Uma era em que ainda se rezava.

Citlalmiquiztli parou. Estendeu a mão. Um gesto simples. Humano.

— Então prova. Olha.

Arale hesitou. Mas afinal, o que é a hesitação senão a sombra da coragem? Aproximou-se. E viu.

Na palma da mão da guardiã, surgiu o Prisma-Espelho de Sangue de Wendigo.

Mas não refletia luz. Refletia passados negados.

Arale viu a si mesma — não como guerreira, mas como menina, numa estação de mundos abandonados. Sozinha. Viu o momento em que escolheu o plasma, não por heroísmo, mas para não sentir mais o frio do afeto extinto. Viu os rostos que deixou morrer para sobreviver. Viu o riso do primeiro amor, silenciado pela lógica da guerra.

E chorou.

Mas não com lágrimas. Chorou com tremores, com silêncio, com a forma como a respiração se recusava a seguir o ritmo do universo.

— Não se forja uma arma devastadora sem devastar o que te habita — disse Citlalmiquiztli, guardando o prisma como quem sela um destino.

Então, e só então, ela entregou o primeiro item.

— Vais seguir. Ainda há a engrenagem da criatura orgânica e a lamparina da maçã fantasma. Mas te aviso: o que encontras do lado de fora só revela o que se nega dentro.

Arale assentiu. O corcel chiou atrás dela, como se sentisse o peso da revelação.

Ela montou. Seguiu.

Mas agora… cada passo do corcel reverberava memórias que ela nunca quis lembrar.

E Citlalmiquiztli ficou, fitando o céu, como quem consulta um mapa feito de constelações doentias.

Porque Ela sabia: a verdadeira caçada nunca é por objetos.

É por redenção.

O Limiar — esse teatro do impossível — começava a pulsar como um útero cósmico, doente e grávido de delírios. Após deixar para trás o prisma, Arale adentrava uma nova região. O ar ali não se respirava — engolia-se. Pesado, viscoso, úmido como uma confissão não dita.

O corcel de fuligem estancou. Farejava. Sentia. Algo ancestral despertava no ventre da terra, como se o próprio inconsciente universal estivesse prestes a vomitar uma lembrança reprimida demais para ser ignorada.

À frente, uma clareira. No centro, um ser.

Não era bicho. Não era máquina. Era o casamento malsucedido de ambos. Tinha braços como raízes nervosas, olhos em constante mutação, e um torso onde uma engrenagem de osso e carne girava, cuspindo uma gosma que cantava em notas dissonantes. A criatura vivia em sofrimento — mas um sofrimento orgulhoso, como o de um tirano que se recusa a morrer.

E falava.

Não com palavras. Mas com visões.

Arale caiu de joelhos. Um colapso. Não físico, mas existencial.

Ela se viu como mero código — dados emocionais transmutados em circuito de decisão. O que chamava de “alma”, ali, era interpretado como algoritmo de defesa psíquica. Nada mais.

A criatura a olhava e mostrava:

Que não há essência.

Que o instinto reina.

Que tudo que nasce… é para devorar.

E então avançou.

O chão fendeu. As árvores-gritos se enroscaram nos céus.

Mas Arale... ruiu para dentro.

Foi em seu colapso interior que encontrou a fagulha.

Não uma verdade.

Mas uma negação da verdade da besta.

Porque se tudo é instinto, por que ainda hesitamos?

Se a alma é um erro de cálculo, por que ainda morremos por ideias?

Ela ergueu o machado de plasma. Mas não o lançou.

Ela o fincou no próprio peito.

O golpe não a matou. Despertou.

O plasma fez contato com sua memória mais pura — a lembrança de quando amou sem saber o que era o amor.

E isso... não estava na lógica da criatura.

A besta recuou. Urrou. Engasgou-se com o próprio código vital.

E ali, no meio da dor...

a engrenagem orgânica caiu.

Arale a recolheu com mãos trêmulas.

Tinha dentes. Tinha coração. Tinha peso.

Mas também tinha um ritmo.

E pela primeira vez, o universo parecia sussurrar esperança.

Ela montou no corcel, agora exausto.

Mas sabia: só faltava a lamparina da maçã fantasma.

E que no caminho, os mortos — os dela — a esperavam.

A noite caía no Limiar como uma sentença, não como um ciclo. Não havia lua, apenas um céu costurado com fios de saudade. Arale cavalgava com a engrenagem orgânica presa ao peito — pulsando ainda, como um coração transplantado que não esqueceu a vida anterior.

Agora, ela adentrava um bosque.

Não um bosque comum.

Um bosque de árvores que murmuram nomes esquecidos.

Cada folha era uma lembrança.

Cada galho, uma escolha abortada.

E o chão... feito de promessas não cumpridas.

Ela desmontava.

O corcel recuava. Não por medo. Mas por respeito.

Ali, tudo era memória que não quer ser lembrada.

Então a vê.

A Maçã Fantasma.

Ela paira no ar, envolta em névoa translúcida. Uma fruta feita de luz e cheiro — com o aroma exato do lar perdido, do colo da mãe morta, da infância em que ainda era possível rir sem carregar culpa.

Mas a maçã... não brilha sozinha.

Está acesa apenas por um fio de chama interior.

A lamparina que a sustenta é o que Arale busca.

Mas tocá-la requer um preço:

lembrar do que mais se tentou esquecer.

E o Limiar cobra sem piedade.

A presença surge.

Ela.

A própria Arale — mas criança.

Menina, suja, faminta, segurando um brinquedo que não existe mais.

— Você me deixou — diz a criança.

— Eu precisei sobreviver — responde Arale, a guerreira.

— Sobreviveu? Ou apenas esqueceu como era viver?

A lamparina oscila.

A maçã escurece.

Arale faz o impensável.

Ela se ajoelha.

Abraça a criança.

Não com culpa. Mas com ternura.

E diz:

— Eu senti tua falta.

Por um instante, o Limiar treme.

A luz retorna.

A lamparina se acende em definitivo.

Ela a segura. A chama é fria, mas intensa — uma iluminação que não cega, mas revela.

Mostra o que se é, o que se foi, e o que se poderia ter sido.

Agora, com os três itens em mãos —

Arale retorna.

Mas algo mudou.

Ela não é mais só guerreira.

Ela é testemunha.

De si.

Do universo.

Do abismo.

Var’Ghul a espera.

E com o códex umbra, uma arma será forjada.

Mas a pergunta permanece, cintilando como estrela morta:

Que tipo de arma pode carregar o peso de uma alma redimida?

Arale entrega seu machado e aguarda, meditando do lado de fora da torre. Meditou por sete luas e sete sóis. Durante a meditação, ela enxergou um pássaro espiritual chamado Xa´vir lhe solicitando que siga ao horizonte, além do limiar: lá do outro lado da floresta reside uma pequena aldeia que ela precisa seguir...

Arale então abre os olhos e pondera:

— Por que minha máquina de ossos não me forneceu um pergaminho sobre esta missão?

Valgur a clama.

Ao adentrar no salão, ela fica deslumbrada com o que vê.

Seu machado está pulsando com uma lâmina nova, com uma luz de plasma e um cabo de carvalho escuro totalmente restaurado. No centro da lâmina, onde reside um formato de coração, ali fora inserida uma esfera de energia e o prisma. Ao apertar a esfera, o machado se transforma em uma arma que rasga os véus entre os mundos...

Seu machado, o T'Zakrah — A Gume do espírito ancestral — agora também pode transmutar em uma ceifadora com balas.

Nesse instante, a máquina lhe fornece um pergaminho:

“O T’Zakrah, seu tomahawk xamânico, é seu legado ancestral e é forjado da madeira fossilizada do Ipê Fantasma, banhado em prata lunar e embutido com cristais oníricos recolhidos dos sonhos dos antigos. Seu fio é etéreo — corta não só carne, mas também memórias e maldições. No cabo, inscrições em língua indígena extinta dançam ao toque da luz, pulsando com o ritmo do tambor do mundo espiritual. Quando em repouso, murmura cantos de guerra de um tempo perdido...

Ao pressionar a prisma-esfera ou ser girado três vezes no ar e batido contra o solo, o T'Zakrah libera um urro ancestral, evocando o espírito de um Jaguaretê de silício.

O machado se desfaz em partículas de luz âmbar, que orbitam em espiral ao redor do braço do portador — como se ele vestisse o próprio espírito da floresta em guerra.

As partículas se condensam num corpo de uma espingarda alongada, com uma coronha feita de osso de Ent digitalizado e cano duplo pulsante, atravessado por veios de código xamânico que brilham em vermelho-azul, como uma profecia radioativa.

Nome das Munições:

"Bala de Sangue Solar"

Condensada do plasma vital de entidades espectrais derrotadas. Ao atingir o alvo, explode em uma chuva de luz rubra que queima a escuridão como sal em ferida profana.

"Projétil de Próton Verdejante"

Conjurado de partículas bioespirituais — um ataque quântico que atravessa dimensões, desmaterializando qualquer sombra interdimensional que tente escapar da justiça cósmica.

"Munhão T’ata"

Disparo ritualístico que emite um grito ancestral ao ser disparado, causando pânico em entidades das trevas e chamando os espíritos guardiões da floresta digital para cercar o campo de batalha.

Em sua função espiritual, o T’Zakrah não é apenas uma arma — é um ritual ambulante. Ele reconhece apenas aqueles que ouviram o chamado do silêncio entre os trovões. Serve para caçar criaturas do abismo, desfazer pactos de trevas e selar portais abissais com um único golpe ou disparo...”

O pergaminho se cristaliza, então Arale o guarda na bolsa.

— Minha sincera gratidão... — ela acena com a cabeça e então gira a espingarda no ar, encaixando-a em suas costas e partindo para a nova missão que lhe fora revelada em sonhos.

Quando enfim Arale atravessa aquele inóspito vazio surreal de névoa e ilusão, ela chega ao continente de Aurax, uma região gélida e fantasmagórica. Ela avista de longe uma clareira que serpenteia alaranjada, destacando-se naquela mórbida pintura de prata, e então avança em direção à chama de um lar...

Enfim sua máquina de escrever de ossos lhe sangrara um pergaminho.

— Até que enfim, meu bebê... — ela brinca.

O pergaminho dizia:

"Tribo de Kjaarnheim à frente. (Cuidado com os falsos profetas...)"

Então o pergaminho se desfez no ar como pólvora no oceano.

A neve caía como lâminas de vidro sobre o mundo, cortando o silêncio com um sussurro cruel. O céu era um véu de chumbo rasgado por vendavais ululantes, e a névoa engolira tudo exceto os próprios pensamentos de Arale. Ela avançava com o corpo envergado, os ombros pesados de gelo e propósito, em direção à esquecida e sagrada Kjaarnheim, a vila indígena onde os anciões da Névoa Cinzenta ainda recitavam os nomes perdidos das estrelas.

A trilha era quase inexistente, devorada por dunas gélidas em mutação. Cada passo afundava no branco traiçoeiro que escondia rachaduras e galhos congelados como armadilhas. O vento gritava em línguas antigas, tão antigas que talvez nem o tempo as compreendesse. Arale apenas cerrava os olhos e cuspia sangue, o gosto metálico aquecendo a garganta.

Um clarão pulsante estourava na altura da lua de sangue.

Distante. Os olhos queimando da brancura. Um halo translúcido pulsando entre os pinheiros mortos — como se o próprio mundo respirasse dor. Foi ali que eles surgiram. Três lupinos brancos, criaturas geneticamente corrompidas, forjadas em laboratórios obscuros e esquecidos por seus próprios criadores. Gigantescos, com músculos pulsando sob pelagem albina, os olhos vazios, negros, sem alma. Seres que não rosnavam, mas rangiam, como engrenagens orgânicas sedentas por carne. Arale rugia alto.

Arale se deteve. A mão fria buscou a coronha da T’Zakrah, sua espingarda espectral.

A madeira era negra e viva, cravejada com runas escarlates que pulsavam em resposta à presença dos monstros. Arale rapidamente transmutava as armas com maestria, rasgava a palma com a lâmina do machado e deixava o sangue escorrer e em seguida a alquimia.

As balas da T’Zakrah beberam da oferenda. A arma estremeceu em suas mãos.

O primeiro disparo soou como o uivo de um deus morrendo.

A bala de sangue atravessou o peito do primeiro lupino, explodindo sua espinha e lançando entranhas em espiral no ar. Um clarão púrpura iluminou a névoa com espectros famintos. O segundo veio por baixo, rápido demais. Arale girou o corpo, mas as garras rasgaram suas costas, abrindo um sorriso sangrento que fumegava no frio. Ela caiu de joelhos, cuspindo gelo, mas seus olhos brilhavam como brasas.

O machado veio em arco. Um golpe seco, preciso, arrancando a mandíbula do inimigo que ainda vivia tempo suficiente para uivar como um cão de guerra antes de cair.

O terceiro, o maior, investiu.

Ela ergueu o braço esquerdo — o braço cibernético — uma peça de guerra herdada do colapso dos sete xamãs. Dentes se cravaram no metal. Chamas de dor pulsaram em seus nervos. Mas o braço de aço girou com força brutal. Um estalo seco. O crânio do monstro foi esmagado como fruta podre.

Sangue branco e viscoso jorrou em seu rosto.

Ela tombou de lado, arfando. A neve ao redor tingia-se lentamente de vermelho. O céu parecia mais próximo agora, como um teto de ferro prestes a esmagar tudo. Mas ao longe, as primeiras tochas da vila Kjaarnheim tremeluziam entre os pinheiros.

Ela estava ferida. Mas viva.

Os espíritos antigos, enterrados sob a tundra, sussurravam seu nome. Arale, a sangue-da-névoa.

Caçadora da Aurora.

Portadora do Machado-espingarda. T’Zakrah.

A aldeia surgiu como uma miragem sólida no fim da tempestade.

Kjaarnheim — a Última Vigília dos Ventos, como sussurravam os cantores das planícies geladas. Erguida entre falésias cravejadas de gelo e pinheiros retorcidos, a tribo pulsava com um estranho fulgor âmbar, uma fusão ancestral entre tecnologia esquecida e rituais milenares. Tochas plasmáticas queimavam em torres totêmicas feitas de chifres de urso-do-gelo e antenas de relíquias antigas. As ocas não eram meras cabanas, mas cúpulas vivas, entrelaçadas por cipós bioluminescentes que reagiam ao humor dos habitantes — luzes mudando de cor conforme passavam, como se a vila em si tivesse olhos.

Arale cambaleou ao entrar, o manto rasgado, o sangue ainda quente colando suas costas à armadura térmica. Os habitantes interromperam seus afazeres. Nenhum som foi feito. Eles apenas a observaram, os olhos escondidos por máscaras tribais feitas de aço enferrujado, couro de wyren tundral e lentes óticas de precisão adaptadas como visores. Vestiam-se com camadas sobrepostas de peles e placas cerimoniais, cada traje diferente — indicando caçadores, artífices, cuidadores de bestas ou mestres dos circuitos.

Dos confins da praça principal, avançou Thrym Urr-Naal, o Xamã das Três Códices. Alto, encurvado como as árvores tortas da encosta, o velho trajava um manto feito de asas de corvos mecânicos e fios dourados extraídos de núcleos de IA ancestral. Em seu cajado, um motor de dronossauro pulsava como um coração aprisionado. O rosto era parcialmente coberto por um visor rachado que projetava símbolos vivos em sua testa — runas fluídas de uma linguagem que ninguém mais sabia decifrar.

— Tu sangras, viajante dos ecos. — sua voz era rouca como couro velho sendo costurado. — E o sangue é bom. Ele chama. Ele lembra. Ele desperta.

Arale tentou falar, mas sua garganta era uma fornalha gelada. Apenas assentiu, caindo de joelhos diante da chama da praça — um reator nuclear primitivo disfarçado de fogueira cerimonial. Crianças de olhos vivos e cachos revoltos aproximaram-se com cautela, oferecendo a ela peles secas, água infundida com folhas de synarhk e pequenos ossos talhados em forma de lebres e engrenagens — votos de cura.

De uma estrutura mais afastada, cujas paredes eram feitas de painéis solares resgatados e adornadas com presas de cervomáquinas, saiu Darrun Eksveil, o Profeta de Silício e Vapor. Um homem de cabelos acobreados, longos e embebidos em óleos purificados, olhos cobertos por uma viseira neural que reagia ao ambiente com microexpressões matemáticas. Seus dedos eram implantes refinados, capazes de desmontar e reconstruir um behemoth com os olhos vendados. O povo dizia que ele lia o futuro nas quedas de tensão elétrica do vento e ouvia a voz da Terra através dos tremores do código enterrado sob os glaciares.

— Ela é a do presságio. A que carrega o aço que sangra. A conjunção está próxima, Thrym. — disse Darrun, sua voz embalada por microvibrações vocálicas, como se falasse em múltiplas frequências ao mesmo tempo.

— O T’Zakrah respondeu. A Primeira Batalha foi travada. Três sangraram, um rugiu. — completou o xamã, traçando no ar um símbolo com a ponta incandescente do cajado.

A aldeia então cantou.

Uma melodia grave, ressoante, acompanhada por tambores que eram feitos de chassis de velhas torretas de guerra e cordas extraídas de nervos sintéticos de ursos mecânicos. Mulheres com tatuagens luminescentes dançavam com movimentos precisos e circulares, evocando algoritmos de caça. Velhos narradores recitavam em transe a história do Tempo Antes do Código, enquanto um garoto conduzia um rebanho de fenrirs biomecânicos — grandes cães-lobos cujos ossos eram reforçados com titânio e que latiam em pulsos binários.

Ali, homens e máquinas não coexistiam. Eram um só corpo. Uma só mitologia.

Arale, ferida, mas não vencida, olhou para os céus que agora começavam a se abrir, revelando auroras retorcidas dançando como serpentes elétricas. Um silêncio ancestral pousou sobre ela, como uma coroa invisível.

Sabia, em seu sangue ferido, que aquela vila era mais do que refúgio.

O prelúdio da próxima guerra.

Os tambores estavam apenas começando a bater.

Acordou envolta em peles fumegantes de calor antigo, o corpo nu entre camadas macias que ainda cheiravam a musgo, cinza e especiarias minerais. A respiração era lenta, pesada, marcada pelo perfume estranho que preenchia o abrigo — uma mistura de óleo de engrenagens queimadas e raízes aquecidas. A pele de Arale estava limpa, o sangue lavado, os ferimentos cobertos por unguentos negros e cintilantes. Sentia-se leve. Vulnerável. Quase… humana.

O abrigo era um domo de energia filtrada, com paredes respirantes que pulsavam ao ritmo da luz lá fora. Sentado próximo, com os olhos mergulhados em uma planilha etérea de código flutuante, estava Darrun Eksveil, o profeta, o maquinista, o decifrador do invisível.

Seus olhos artificiais projetavam runas sobre as pálpebras — mas naquele momento, eles a fitavam diretamente, como se tentassem decifrar algo mais profundo que algoritmos. Havia nela uma ferocidade suave, felina. E algo nele, sob a camada de lógica e silício, ansiava pelo toque daquela desconhecida que despertava com olhos dourados e peito marcado por cicatrizes antigas.

Darrun desviou o olhar. Rápido demais.

Mas Arale viu.

Sentiu.

O cheiro.

Não como uma humana.

Mas como uma predadora.

Havia feromônio no ar. Aquela excitação primal disfarçada de reverência. O embaraço rastejando sob o silêncio técnico do cientista. Ela sentiu o calor subir à nuca, não de vergonha, mas de alerta.

Vestiu-se com as vestes que lhe haviam deixado: um manto cerimonial de fibras sintéticas trançadas com escamas de dracomarcas, uma calça ajustada feita de couro técnico tribal e um colar de dentes antigos, ainda vibrando com energia residual. Saiu sem dizer uma palavra, guiada pelo instinto que pulsava como bússola ancestral.

Thrym Urr-Naal aguardava.

Diante de uma estrutura ciclópica, meio santuário, meio torre de observação, onde relíquias de tempos esquecidos giravam em órbitas suaves, suspensas por magnetismo primitivo, o xamã erguia o olhar para as constelações ocultas sob o dia. Quando Arale se aproximou, ele sorriu. Um sorriso antigo, orgulhoso e... maravilhado.

— Tu és o eco perdido. O fragmento que não esquecemos. — disse ele. Aproximou-se, tocando o colar em seu pescoço. — Teus ossos vibram com as canções de Gaya.

Ela franziu o cenho.

— Não compreendo.

— Todos aqui nascemos com cauda. Alguns com orelhas. Pelos. Mas isso se perdeu com o tempo, cruzamentos, colapsos. Apenas os mais antigos lembram. Tu és pura. És nossa origem. És… nossa irmã.

A mente de Arale oscilou como um pêndulo. Imagens cruzavam sua consciência: caçadas em florestas que não lembrava ter pisado, vozes em línguas que nunca aprendera, e o brilho de olhos dourados — iguais aos dela — ecoando no passado.

— Viestes de outro tempo, talvez outro plano. Mas o sangue é o mesmo. — disse o xamã. — Este mundo, este que chamamos Gaya, não era sempre assim. Os anciãos dizem que ele colidiu com um outro céu, um plano superior chamado Fractis. E da fúria dessa colisão nasceram os Deuses.

— Jafari. — murmurou Arale, como se o nome lhe fosse sussurrado de dentro.

Thrym assentiu. Seus olhos lacrimejaram.

— O Leão da Luz. Nosso ancestral. E seu primogênito: No’ahki, o Guerreiro da Raiz. Eles enfrentaram o Caos de Fractis. Venceram. Trouxeram ordem. E teu machado, T’Zakrah, foi a lâmina que No’ahki empunhou. És sua herdeira. És a que retorna.

Ela cambaleou. O mundo girou.

— Teu verdadeiro nome, criança do eco, é... — ele sussurrou com solenidade.

— Baskhiat Sual’Ra — filha do trovão e das estrelas errantes.

Naquela noite, em um círculo de fogo azulado, realizaram a Cerimônia da Prisma Tríade. Arale — não, Baskhiat Sual’Ra — bebeu do vinho das almas, uma infusão de seiva de árvores vivas, sangue de lobo-máquina e lágrimas de obsidiana líquida. O calor subiu por sua garganta, queimando seus sentidos.

Ela testemunhou com lágrima nos olhos.

Isis, a Senhora do Véu: Uma feição tão amorosa e amigável**,** olhos que escondiam galáxias, e mãos de cura e destruição.

Nix, a Deusa do Abismo Noturno: com cabelos de serpentes de luz e nua como a noite, pele de estrelas em colapso, a voz um lamento de todas as mães que perderam filhos para o vazio.

Anubis, o Guardião dos Fios da Morte: cabeça de chacal sideral, corpo coberto de engrenagens rúnicas, segurando uma balança onde as almas eram medidas em bytes de destino.

— Há algo que cresce sob tua terra, Ysmir. — disse Isis.

— Um mal antigo, sem nome, sem rosto. — sussurrou Nix.

— Mas tua alma será guiada. Pela guardiã perdida... — completou Anubis.

Na névoa daquele diálogo ela apareceu.

Citlalmiquiztli.

A Deusa-estrela.

Com olhos de quartzo negro e um corpo feito de constelações mortas. Ela caminhava entre as dimensões como bruma. Sua voz, suave e imortal:

— O caminho te aguarda além dos Picos do Gelo da Morte.

No subterrâneo de tua linhagem repousa a pirâmide cybercosmo.

Lá encontrarás aquele que despertou:

Quetzalcóatl. O Senhor das estrelas.

Ela viu — ou sonhou — o vale oculto no coração do México, uma cidade abandonada entre raízes metálicas, e um templo com portas abertas para as almas perdidas. Sentiu o frio da encosta, o cheiro da floresta desconhecida, e o sussurro do dever.

Observar os astros. Proteger o equilíbrio.

Decifrar o destino. Despertou com um sobressalto.

As chamas ainda ardiam. Na parede da caverna, desenhado com o sangue do vinho sagrado, o símbolo dos três deuses pulsava.

— Tenho tantas perguntas... — Arale arfou.

— És da casa Fay´ax. Sua mãe Lyra está conosco, mas, para este povo, você é a representação da linhagem de Sual’Ra, a escolhida de Citlalmiquiztli para ceifar Quetzalcóatl.

— Se eles têm fé em minha origem, devo honrar meus ancestrais e meus descendentes, pois a única coisa que conheço à prova de balas é a nossa fé...

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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6 - No submerso da caverna, mergulhamos nossos corações

Após o incidente com Eleanor, nada mais parece se ajustar às leis da razão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Sibila von Lichenstein
12 de outubro de 1870

Após o incidente com Eleanor, nada mais parece se ajustar às leis da razão dentro dessas paredes. Não tenho certeza se a presença dela tomou forma na biblioteca, ou talvez no meu sonho. Não estou enlouquecendo. Sei que este lugar — vasto, estranho, nunca antes conhecido por mim — é real. Ao vaguear por esse imenso templo da solidão, que é o castelo, eu cruzo com outros seres. Ouso supor que não apenas humanos habitam este lugar, mas também a mais variada gama de criaturas que desafiam qualquer classificação comum.

Acho que as circunstâncias do passado me moldaram e influenciaram de tal modo que não consigo mais me entregar... Não sou como uma folha à mercê do vento, fadada a se deixar levar. Sou mais como uma rocha que resiste às repetitivas investidas do mar, mesmo que revolto. Passo horas sozinha, deixando meus pensamentos livres para refletir sobre a minha situação neste lugar. Desejo voltar ao casarão de Viktor, ao mundo que eu conhecia. Eu não tinha um plano definido para depois dele... Mas tenho certeza de que não era isso que eu desejava ardentemente...

Sinto-me extenuada, passo os dias e noites em constante estado de alerta. Tenho medo de ser atacada novamente. Os hematomas que Eleanor provocou em meu pescoço deixaram marcas indeléveis — não só em minha pele, mas também em minha alma. Qualquer criatura pode ser hostil. Minha antiga amiga, pode voltar, tomada pelo desejo de vingança e pelo ódio.

Mas a solidão, antes tão comum e adorada por mim, tem se tornado, além da culpa que carrego, uma das piores sensações. Sempre que me dou conta que estou sozinha e desamparada, revivo as memórias das semanas após a morte de meu pai. As desperdicei enclausurada em nosso casebre, que agora me parece uma miniatura precursora desta prisão de pedra e ecos, pois estou sem nenhum contato humano.

Tenho a impressão de já ter cruzado com todas as espécies de seres possíveis... e ouso supor que até mesmo vampiros habitam este castelo. Certa noite, um hóspede me abordou com um sorriso cortês e se apresentou como sommelier. Ofereceu-me uma taça de sua adega pessoal, durante o jantar do castelo. Aceitei, por mera cortesia. O líquido era de um vermelho profundo, quase negro, e exalava um perfume metálico, adocicado e denso. Bebi um gole. Achei que o sabor, mesmo misturado à substância etílica, era inconfundível... Sangue. Puro, espesso, claro como um segredo antigo. Temendo, respondi que estava bom, mas estou quase certa de que, quando ele sorriu, vi duas presas no lugar dos caninos em sua arcada dentária. Logo depois, despedi-me educadamente e, com passos rápidos, dirigi-me ao meu claustro. Mas, ao bater a porta atrás de mim, lembrei-me do pesadelo com Eleanor e do que Meia-noite me contou, e tive medo de morrer dormindo.

Completamente tomada por esses pensamentos, que se multiplicavam como erva daninha, decidi interpelar a senhora que frequentava a biblioteca, quase sempre nos mesmos horários que eu... Eu almejava estabelecer algum tipo de relação, nem que fosse apenas superficial. Eu precisava... Ela não era muito de falar, ficava encurvada sobre pesados tomos de botânica, fazendo anotações e rabiscos. 

Não parecia estar interessada em conversar, porém era minha melhor aposta. Tinha aparência humana, era mulher e velha. Por causa do que Viktor me fez, eu confiava mais em mulheres, apesar de me achar um verdadeiro monstro. Ademais, além dos hematomas, eu sentia uma ardência profunda neles, além de estar há dias sem dormir. Quem sabe, essa senhora, tão reclusa quanto eu, me desse a dica de alguma erva que me ajudasse.

— Olá... — cumprimentei, com a voz quase inaudível.

— A senhorita falou comigo? Hum... O que você quer, garota? 

— Não pude deixar de observar que a senhora sempre está estudando os volumes de botânica.

— Sim... E o que a devoradora de livros de anatomia tem a ver com isso?

— Sinto muito, me perdoe, me perdoe, por favor. Não quis incomodar... Mas, se levantar a cabeça e olhar para o meu pescoço, verá que não estou bem. — Minha voz saiu esganiçada, num misto de desespero e vergonha.

— Se é para a senhorita me deixar em paz logo, vou lhe dizer o que fazer: procure a erva do descanso. Para isso, terá que caminhar até Séttimor. Lá, essa erva sempre cresce nos arredores da cidade.

— Erva do descanso...? Mas que aparência ela tem? Perdoe-me... Eu não conheço.

Ela começou a folhear o tomo que estava em suas mãos. Parou e mordeu os lábios, pensativa. Subitamente, rasgou uma página e a estendeu para mim:

— Tome, isto deve servir... E agora, não me perturbe mais!

De posse da folha, agora sentada à beira da cama, uma das mãos segurava a folha amarelada, a outra tocava o meu pescoço, que ardia e latejava de forma incessante.

Na folha, o desenho de uma erva com folhas divididas em sete pontas alongadas. O artista havia ilustrado o centro dessas folhas com um verde vivo e, num degradê, elas passavam a ser negras em suas pontas. Os caules também eram pretos, com raízes profundas que se comunicavam de ramo em ramo. Abaixo da ilustração, podia-se ler: Ervatum Nocte Requies, entre parênteses e abaixo, erva do descanso.

No verso da folha havia ainda uma descrição da aparência física da erva, acrescentando que ela crescia em grupos de sete e era encontrada nos rochedos ao redor da vila de Séttimor. Seu uso era em unguentos e cataplasmas para aliviar hematomas e dores espirituais.

Havia outro desenho no verso, um pequeno mapa desenhado delicadamente a mão, abaixo dessas instruções. O desenho não era parte da impressão original, alguém o fizera posteriormente à tiragem inicial. Com linhas finas e decididas, o mapa mostrava o Castelo Drácula, minha morada atual, e também mostrava a Floresta dos Pinheiros Tristes ao noroeste, uma linha tracejada atravessava essa floresta, cuja fama no castelo, dizia que era assombrada por almas penadas. Ouvira dizer que ali, até mesmo as árvores eram mortas. 

O tracejado atravessa a floresta, depois acompanhava uma caverna, para então desembocar aos pés do que interpretei ser uma península. Na ponta dela, Séttimor estava desenhada. De um lado, rochedos a rodeavam; de outro, o mar que deveria colidir com os rochedos. Na área dos rochedos o autor dos rabiscos desenhara uma flecha e escreveu: “Região onde a erva do descanso cresce.” Entre parênteses: “Recomendável a colheita em estações secas.”, mas não dizia o porquê. 

Não conhecia com propriedade o clima da região, mas certamente não era uma estação seca. Lá fora, uma fina camada de neblina espessa cobria os jardins de lavanda, que agora estavam secos, podres e molhados. Não poderia partir solo, necessitava encontrar uma maneira de seguir até o recanto da erva de forma mais segura, ou seja, acompanhada.

Sabia de rumores de que os recônditos do Castelo Drácula abrigavam uma exímia felina caçadora que fazia serviços de mercenária, e havia a possibilidade de tentar um acordo ou um contrato, dependendo da quantia que ela cobrasse para realizar tal feito. 

Busquei apressada pelos corredores e até pelos jardins uma forma de contatar a felina, mas em vão, até que o espectro serviçal do Castelo me informou que eu poderia encontrar com ela em uma taverna ali próxima. 

Decidi arriscar e conferir o ambiente, era extremamente necessário, caminhei até o estabelecimento e lá me deparei com uma ampla gama de marginais, bandidos, aventureiros, alquimistas, ferreiros, anões, várias criaturas transitavam o ambiente. Senti que a energia era pesada, olhares de ameaça estavam por toda parte, cheguei a tocar a adaga que eu tinha escondida em minhas vestes. Busquei saber dela e todos diziam que a pouco ela estava no balcão bebendo uma espécie de licor verde. Alguns se sentiam ameaçados, outros preferiam não falar nada, mas infelizmente ela não estava mais presente. 

Saí apressada do lugar, ojeriza era a palavra, nem na Prússia eu ousara pisar em um lugar de tal estirpe, o Castelo eu até tolerava, pois apesar de só… ah, o que estou pensando? Nem no Castelo eu me sinto segura, olha o meu pescoço. Mirei meu reflexo numa poça do chão, os hematomas pareciam ter se espalhado pelo colo e queimavam de dentro para fora, eu precisava de ajuda! 

Um rapaz com um capuz cor de carvalho se aproximou, achei suspeito. Foi muito rápido, então me virei rapidamente, mirando uma adaga que encontrei no castelo em seu peito.

— Acalma-te! — disse ele em pânico, senti em seu olhar e o tom de sua voz que ele estava trêmulo e nervoso com minha presença.

— Procura a criatura que tememos, não é mesmo? Aquela felina com um braço estranho assustador.

— Sim, preciso de um guia para chegar nos rochedos próximos da vila de Séttimor, ouvi dizer que ela faz pequenos trabalhos em troca de algumas moedas.

— Conheço uma estrada, eu sou cocheiro, se confiar em meu trabalho e por algumas moedas de ouro, posso lhe guiar para uma estrada próxima à caverna, aquela, onde os habitantes daqui a viram rondando.

— Eu agradeço pelo serviço, vou aceitar. 

Paguei três moedas de ouro, aceitando a carona em sua humilde carruagem, guiada por dois corcéis escuros. Me aconcheguei na traseira do veículo.

— Diga-me, senhorita... Por que deseja ir a um lugar tão lúgubre?

— É um assunto pessoal, perdão, mas é de extrema importância que eu encontre um guia...

— Entendo, boa sorte, espero que aquela criatura lhe ajude, ela não parece ser muito sociável...

O comentário do cocheiro me deixou apreensiva. Conforme a viagem avançava, o frio, a chuva e um pequeno cansaço me abateram. A carruagem atravessava a Floresta dos Pinheiros Tristes. Abri as cortinas para poder ver por onde ele guiava, o clima estava tomado por uma neblina densa, eu sentia a umidade do lugar penetrar pelas minhas narinas, senti cheiro de mofo, ele vinha de camadas e mais camada de folhas mortas e apodrecidas no solo da floresta. Um temor antigo, prematuro, açoitava meu peito. 

De repente, os cavalos rincharam assustados e a carruagem estacou. Sobressaltada, escutei o trotar espectral de inúmeros alazões fantasma que cortavam a estrada diante de nós. Pela janela, vi suas pelagens douradas manifestarem-se como um milagre do pós-vida, pareciam relâmpagos na noite, era lindo.

Estava deslumbrada e assustada. Tudo era novo demais, lúcido demais, intenso demais. Os acontecimentos que me assombravam surgiam como espectros famintos, devorando minha energia e apagando minha alegria. Meus fantasmas interiores, meus dilemas, dores e pesadelos dançavam em círculos ao meu redor. Havia algo de doentio nisso... e ainda assim, algo estranhamente libertador. Era difícil de explicar. 

Fechei os olhos por alguns instantes e cochilei, aproveitando que a carruagem não estava balançando demais. Então a vi pela primeira vez, através dos meus sonhos. Desde que eu chegara misteriosamente a esse lugar, meus sonhos nunca mais foram os mesmos, havia algo de fantasmagórico, perigoso e real neles. Ainda não sabia se eram vaticínios ou meras manifestações do meu subconsciente.

Ela era muito bela, não entendi por que os habitantes da região a temiam. Não compreendia por que ela inspirava tanto receio, não pelo menos, até a ver com uma máquina de escrever de ossos, um pergaminho pingando sangue e um machado com um coração fincado em sua lâmina. Ela miava, e a máquina espirrava sangue e poeira. Então um pergaminho foi pulverizado no ar e um prisma, com um líquido esmeralda, foi canalizado e guardado em sua bolsa marrom de couro. Mas o que mais me deixou fascinada era a junção de metal e carne de que era feito um de seus braços, como estudante de medicina, eu nunca vira algo tão magnético e encantador quanto aquilo. Eu não almejara riquezas durante a vida, mas estudar aquele braço… Então ela me encarou, com uns olhos de tigre que rasgavam minha alma, e sorriu simplesmente.

Acordei com um trote ríspido da carruagem e o eco da voz do cocheiro que dizia:

— Chegamos, senhorita! — Desci apressada da carruagem, ansiosa para encontrar Arale. Começo a desconfiar de meus sonhos, até mesmo a acreditar que há alguma relação sombria entre eles, a realidade e o meu futuro incerto neste lugar além do tempo e da compreensão, onde me encontro. Logo, espero que a aparência dela seja a mesma que foi pintada em meu sonho.

 — Perdão, qual seu nome? — disse o cocheiro solícito.

— Perdoe-me, mas prefiro manter o sigilo, gratidão pela viagem e seus serviços…

— Disponha e tome cuidado...

— É o que tento...

Avancei em direção à caverna, assemelhava-se a uma boca infernal, cheia de dentes de pedra, logo na entrada, não era nada convidativa. Aprofundei o caminho na intuição e fé de que ela estaria aqui, que esse seria nosso encontro inescapável, já estaria escrito em nossas sortes que iríamos no conhecer e enfim eu conseguiria chegar até os arredores da vila Séttimor e conseguir a erva almejada. 

A caverna era completamente feita de ametistas, mas estava estreita, claustrofóbica e seu ar estava um pouco rarefeito. Continuei aprofundando-me cada vez mais em suas entranhas, e mais precária ficava minha visão e meus sentidos, apesar da luminosidade das ametistas.

Então senti uma picada, olhei minha perna e era uma agulha rubra, olhei ao redor e vi uma criatura baixa, achei que reconheceria, mas minha memória falhou. Minha visão estava ficando embaçada, mas antes que perdesse todos os sentidos e apagasse, pude ver uma adaga voando lentamente pelos ares, atingindo a testa da criatura, fincou-se bem no meio de seu nariz e ela caiu para trás morta e sangrando. Assim que me revirei, vi a alguns metros de distância uma felina com cabelos prateados e com um olhar furioso, então apaguei.

Não sei quanto tempo passou e quanto tempo fiquei apagada; mas, quando acordei, abri os olhos lentamente e pude ver que eu estava confortavelmente acomodada em uma espécie de espuma, deitada próxima a uma fogueira e aquela assustadora felina afiava seu machado.

— Acordou, sente-se bem? Possui alguma dor? — ela me questionou com uma voz doce e sensual, porém firme e durona.

— Muito obrigada, sinto-me bem, dentro do possível, mas estou nesta jornada para encontrar a erva que necessito para minha cura completa...

— Eu sei… — ela retrucou.

— Como sabe? Perdão a pergunta, mas por acaso você seria Arale?

— Sim, minha cara. Arale Fay´ax, aos seus serviços… Eu sabia que viria, senhorita Sibila.

— Como sabe? E como conhece meu nome?

— Minha máquina de escrever de ossos é um cósmico instrumento profético. Ela escreveu um pergaminho, que me revelou sobre sua jornada, sua aparência, seu nome… E ela ressoou, e eu sabia que viria pra cá… Quando senti seu cheiro, também senti o odor da criatura que te envenenou com uma zarabatana de pequenas agulhas feitas de rubi vermelho venenoso. 

— Deveras prodigioso, nossa, muito obrigada, salvou minha vida! — respondi encantada com tudo o que vinha dela, eu não tinha conhecimento sobre nada daquilo, pergaminhos… caverna de ametista e criaturas perigosas com zarabatanas…

— Imagina, precisa ser mais cautelosa com monstros.

— Ironia demais você dizer isso, cara Arale Fay´ax. 

Arale não entendeu por que eu disse que era ironia, e respondeu:

— Apenas Arale, por favor. Alguns me chamam de felina fantasma, mas eu não sei por que criei esta fama, apenas tento limpar este planeta de ameaças...

— Que criatura era aquela?

— Um simples Bokogobelinum, uma criatura que parece uma mescla de duende com pequeno suíno.

— Nossa… De onde eu vim, a Prússia, não há criaturas como essa. 

— Eu estou caçando uma muito pior, uma ameaça muito mais nefasta, apesar de ele ser um mero Láparo, pelo que ouvi falar, e também preciso encontrar uma relíquia chamada Ovo Cósmico.

— Infelizmente não posso ajudar, mas preciso que me leve para a vila Sétimmor.

— Posso fazer isso… Mas terá de ser corajosa. 

— Por quanto? — Eu achava que era corajosa o bastante. 

— Façamos a viagem e depois decidimos, mas o que acha de, por enquanto, fecharmos negócio em 77 moedas de ouro Séttimoriano?

—  Ok, eu aceito. — Eu não tinha outra opção, não sabia quanto aquilo valia realmente, mas aceitei. 

— Vamos descansar mais um pouco e partimos ao amanhecer.

— Obrigada, Arale, o que está fazendo?

— Cozinhando um pequeno salmão que pesquei antes de vir para cá. Aqui, coma e ficará melhor... Sibila, certo?

— Sim, esse é o meu nome mesmo. Muito obrigada! O que você faz realmente?

— Eu caço demônios que ameaçam essa e outras dimensões, perdi minha família devido a um ataque de cyber-dracontes. Minha família e toda minha tribo era muito devota à espiritualidade de nossa deusa-mãe Ísis, e vivíamos em pirâmides de cristais de néon quando eles chegaram e escravizaram meu povo. 

Eu não estava no momento, estava em um exílio espiritual com meu mestre xamã, ele fizera uma projeção astral e acessara a nave deles, a comandante mãe era uma reptiliana anciã, então ela ordenou o ataque e ele foi morto no astral, porque sua projeção foi detectada.

Quando retornei à minha tribo, todos estavam decapitados, alguns foram cremados, outros esfaqueados… Minha família deixara escondida nas matas, em um prisma sagrado, minha máquina de escrever de ossos, nosso legado e meu machado. Quando cheguei para obter minha máquina e meu machado, sofri uma emboscada pela líder, ela me nocauteou e então arrancou meu braço com sua garra mortal, desmaiei. A minha máquina, nesse instante, abriu um portal para onde eu estava e, em seus últimos momentos de vida, meu mestre fizera uma magia xamânica e fundiu tecnologia e magia em meu braço, deixando-o biônico. Então a máquina de escrever conjurou outro portal e percebi que eu estava no jardim do Castelo Drácula, e imagino que ele ou aquela que está sempre com ele possa ter me conjurado... eu não sei, mas isso me deu uma razão para viver, de alguma forma...

— Nossa... eu não entendi quase nada, mas compreendi sua dor...

Arale riu e então nos alimentamos e nos preparamos para dormir.

— Vamos descansar e seguir viagem em breve, te levarei ao teu destino.

— Muito obrigada, Felina Fantasma! — Arale miou em resposta.

 

Ao acordar, senti minha manga direita molhada, num salto acordei e imediatamente comecei a cutucar a felina que me acompanhava. Havia água dentro da caverna, e ela subia rapidamente. 

Arale despertou calmamente, quando viu que a água subia para dentro da caverna, foi até a bolsa dela e retirou duas bolas de vidro transparentes, encaixou a cabeça dentro de uma delas, a qual se acoplou magicamente ao seu pescoço. Me estendeu outra e vendo minha hesitação, retirou novamente o globo de vidro da cabeça e disse:

— Vista a sua também, não precisa ter medo, é necessário para podermos mergulhar e sair do outro lado da caverna. Vista, rápido, não vê que a água está subindo cada vez mais rápido? Vamos! Depois imite os meus movimentos e siga a minha cauda para não se perder na escuridão. Cavernas submersas são muito perigosas, mas a máquina de escrever me mostrou o seu mapa, eu sei o caminho.

Então vestiu o dela novamente, colocou a própria mochila nas costas e me ajudou a colocar o meu. Eu não sabia que tipo de tecnologia era aquela, mas eu tinha de confiar nela, eu não tinha outra escolha, então deixei que ela colocasse o globo na minha cabeça. Não havia nada que permitisse a troca de substâncias lá fora, mas eu pude observar que de alguma forma mágica, o ar dentro do globo era renovado. O ardor em meu pescoço e em meu colo se intensificaram ao entrar em contato com ele, era pesado.

Arale, com o Machado na mão, começou a caminhar em direção à água que subia, eu fiquei junto a ela, a luz da fogueira já tinha se apagado há tempos, e a única coisa que eu conseguia ver com clareza era o rabo felino de Arale, ele brilhava com intensidade. Conforme ela mexia a cauda e os cabelos, diferentes partes da caverna e da água iluminavam-se. 

Depois de poucos passos, mergulhou numa depressão grande e profunda dentro da caverna. Eu nunca tinha mergulhado em toda a minha vida, nem imaginava que isso seria possível, mas a segui, eu não queria morrer sozinha em uma caverna distante. 

Ao mergulhar de olhos fechados, senti as gélidas águas penetrarem as roupas, meus poros, minha psique. Um temeroso arrepio álgido percorreu do alto a baixo das minhas costas. Isso tudo em questão de segundos, ao abrir os olhos, não vi muita coisa e me desesperei, tudo o que via era uma luz pequena mais ao fundo, muita areia do chão da caverna revolta se espalhando pela água à minha frente, dificultando minha decisão de onde ir. 

Segui meu instinto e fui mergulhando mais profundamente, à medida que eu mergulhava, a luz ao longe aumentava de tamanho, mais algumas braçadas e mexidas de pernas, pude distinguir novamente os cabelos e o rabo felino de Arale em meio à escuridão total. Só assim, as batidas do meu coração se acalmaram. Ousei olhar ao redor, temendo perdê-la de vista novamente, mas o quadro que se pintava ao meu redor era tão incrível, que era fácil distrair-se. O gelo das águas parecia perfurar a minha carne, como mil agulhas afiadas e finas.

Eu ouvia somente o barulho da água sendo movimentada por nossos corpos em meio ao breu profundo, era excitante e relaxante ao mesmo tempo. Sentia-me animada em conhecer aquele ambiente e temerosa também. Olhei para as paredes iluminadas por Arale, continuavam sendo cobertas por ametistas, eu consigo perceber um animal ou outro escondido entre as frestas. Ao mergulhar mais profundamente, outra pedra preciosa começou a tomar o lugar das belas ametistas, eu sei que parece insano, mas havia muitas estalagmites e estalactites vermelhas, pareciam facas de vidro transparentes e afiadas. Inferi que eram rubis, e que aquele gnomo porco que me atacou as tinha colhido aqui para confeccionar a arma que usou para me atacar.

Mas isso não importava, eu tinha que focar em segui-la, chegando mais perto, senti como se estivesse entrando dentro da boca de um ser antigo e ancestral. As estacas rubras descendo do teto e vindas do chão se estreitaram em certo ponto, permitindo apenas a apertada passagem de Arale e a minha, estamos adentrando a boca desse ser de dentes afiados. Temi nunca mais conseguir fazer o caminho de volta ao ser engolida por ele.

Ao atravessar pela estreita passagem que aqueles espinhos formavam, raspei as costas em um deles e minha visão turvou-se, devido ao meu próprio sangue que tomou a água ao redor. Agora, além do pescoço e colo sempre a arder, minhas costas ardiam como nunca. Um pavor inominável e incontrolável tomou conta de mim. Agitei meus braços de forma desconexa, tentando afastar o sangue para poder localizar novamente Arale: minha única companhia e esperança naquele vazio molhado e profundo.

Ela, percebendo que eu sangrava, deslizou lentamente e arranjou uma forma de pegar minha mão e me guiar de uma forma firme e mais segura, sempre cuidando para que eu não me machucasse novamente.

Seu olhar marcante brilhava como amarelo-ouro luminescente, a forma que nadava era artística. Fiquei maravilhada, apesar da dor, com os movimentos rápidos e esguios que ela fazia, mesmo debaixo d’água turva, ela brilhava intensamente!  Seus movimentos felinos e rápidos, pareciam um ballet aquático iridescente. 

Atravessei com mais calma os corais. Vi vaga-lumes d´água e criaturas marinhas semelhantes a águas-vivas bioluminescentes, acompanhadas de peixes-morcegos, era horripilante e fascinante ao mesmo tempo, de onde surgiram essas criaturas inexistentes até então? Será que espreitaram pelos cantos escondidos da caverna e saíram apenas para dar o ar da sua graça e maravilhar as minhas retinas cansadas? 

A pressão se intensifica, à medida que mergulhamos mais e mais nas entranhas submersas da caverna. Eu a sinto esmagando meus ossos e músculos, um aviso urgente para os meus pulmões, que apesar da redoma de vidro, pareciam se esforçar triplamente. Nadamos juntos mais alguns metros à frente e pressenti que estávamos alcançando o trecho final.

Acredito que ela tentou me dizer algo embaixo d´água, “abaixe-se” talvez, e então me guiou, abaixando a minha cabeça carinhosamente, para mergulharmos por debaixo de pequenos estalactites que cerravam a passagem.  Ela precisou quebrar algumas pequenas pedras com o machado, como ela fazia isso enquanto estávamos mergulhando era um mistério.

Eu conseguia enxergar um pequeno feixe de luz que ia se afunilando conforme avançávamos. Então escorregamos finalmente de uma forma frenética por um tipo de espiral de pedras e cascalho, desembocando para fora daquela garganta diabólica, ao mesmo tempo fascinante. 

Quando emergimos, encontramos uma praia pedregosa e hostil. E só então entendi por que a página arrancada do tomo dizia para procurar a erva em tempo seco, é que na estação das chuvas a caverna que eu e ela acabáramos de atravessar permanecia seca, já que a maré subia aquele ponto somente quando chovia o suficiente para submergi-la.

Ondas revoltas batiam nas pedras negras como ébano de uma imponente formação rochosa que se erguia contra o céu e dominava com desdém toda a paisagem praiana que nos circundava. Ao olhar para a sua imponência, notei que no seu alto uma misteriosa e também enegrecida vila se assentava, deveria ser Séttimor, isso significava que eu estava muito perto da erva que eu almejava para curar os meus hematomas causados pelos dedos fantasmagóricos de Eleanor. O sol já havia atravessado grande parte do dia, talvez não faltasse muito para anoitecer. Estávamos encharcadas.

Eu estava exausta e Arale ainda parecia estar com uma energia plena. Apontei para o capacete em minha cabeça, com um leve toque ele se desfez na mão dela, aquilo me deixou atônita.

— Você não se cansa? — soei um pouco ríspida, mas não foi intencional.

— Quando minha prioridade é a missão e a proteção, a adrenalina toma conta de meu corpo…

— Adrenalina felina é?

— Algo do tipo, venha cá, sente-se, preciso cuidar do seu ferimento.

— Estamos encharcadas, o que vai fazer, Arale?

— Confia em mim, não é?

— Claro que sim, lhe confiei a vida, é a minha única segurança.

— Vire-se de costas — ela pediu com educação.

Delicadamente retirou minhas vestes de cima. Eu cobria meus seios com as mãos enquanto ela limpava meu ferimento nas costas.

— Como está fazendo isso? Sinto-me bem mais relaxada e sem dores…

— Eu carrego sempre comigo algumas ervas e poções, infelizmente não possuo todas dessa região e deste planeta, é claro, pois estou há pouco tempo aqui e tenho apenas as do Castelo e algumas que trouxe comigo de minha tribo, são feitas apenas para estancar sangramentos, purificar infecções, algumas induzem sono, outras para sonhos lúcidos. As poções são para emergências, para curar e estabilizar ferimentos causadas durante batalhas, e também utilizo para a limpeza de meu machado e da máquina de escrever…

— Nossa, obrigada, mas por que precisa limpar uma máquina de escrever feita de ossos?

— Pronto, pode vestir-se, o curativo está feito… — enquanto ela se virava, me vesti rapidamente.

— Obrigada mais uma vez.

— Eu preciso sempre retirar fluidos energéticos que contaminem a máquina como miasmas e outros organismos pútridos, é como nos medicar, e o meu machado possui uma condição especial em sua lâmina que sempre preciso “alimentar…”

— Interessante, obrigada pelas explicações, como sou amante do conhecimento, sempre é bom obter mais conhecimento! E, mais uma vez, obrigada pelo curativo.

Percebi que ela parecia sem jeito e talvez fosse algo pessoal demais, não entendi o porquê, mas resolvi não questionar mais... Ela organizava as coisas em sua bolsa e me ofereceu alguns fungos para comer.

— Fungo? — eu hesitei. — Perdão.

— São maravilhosos, experimente, esses aqui são Shimejis Estelares, esses outros chamam-se Agaricus Bisporus, são suculentos, e esses solares aqui chamam-se Psilocybe, possuem propriedades espirituais…

— Me vê esse ensolarado… — Apreensiva, mordi e o gosto era um bálsamo iluminado. — Que delícia…

— Sabia que ia gostar.

Arale rapidamente, com exímia precisão, acendera mais uma fogueira para nos aquecermos e secarmos nossos trajes.

 Observei a chama que crepitava, era muito bom e reconfortante estar na companhia daquela felina estranha, então consegui repousar e dormi logo, apesar do ardor causado pelos hematomas em meu pescoço persistirem. 

Acordei não sei quanto tempo depois, após mais um pesadelo, desta vez com Viktor, que ainda em sonho me assombra. Ele me apareceu desfigurado, mas o reconheci pela voz senil, imperiosa e egoísta. Não vou descrever o sonho nesse diário, pois não quero me lembrar daquele ser nojento nunca mais enquanto meus pulmões respirarem, por isso o matei.

Ao olhar ao redor, percebi que Arale não estava próxima. Onde ela está? Gritei por ela, chamei por seu nome e nada. Eu escutava corujas e criaturas estralando galhos distantes. Morcegos passavam sobrevoando, onde ela está? Por que tive esse pesadelo? Será o reflexo do que mais me atormenta? "Este cogumelo ilumina nosso sonho como um sol da verdade..." Lembro-me de Arale dizer isso um pouco antes de eu adormecer. Não posso me arriscar, vou aguardar por ela aqui, as coisas dela estão aqui. Ela não deve ter ido longe e logo mais irá amanhecer, assim espero.

Eu sei que eu não deveria ter saído daquela área segura, mas algo me apertava o peito, como um tipo de ansiedade ou premonição. E se ela não voltar? Impossível, ela jamais me largaria… Como eu pude confiar tanto e tão rapidamente nela? Será que ela sente o mesmo? Acho que sim…

Caminhei um pouco pela mata adentro, seguindo alguns vagalumes e sons de coruja, até que avistei um clarão intenso e dourado. Corri mais adiante, me esgueirei entre os arbustos, escondida eu espiei, lacrimejei naquele instante, por quê?

Arale estava ajoelhada com uma expressão furiosa e sangue escorria do canto de sua boca. Um dos olhos estava com um hematoma. Algumas partes de sua veste estavam bastante sujas e rasgadas. Ela estava com um tipo de camisa branca de linho, ensopada de sangue, e um tipo de sutiã medieval que mantinha seu busto suspenso, além de uma calça marrom de couro cor de terra; seus braços estavam presos por um tipo de teia, que parecia ser feita de um miasma roxo e prateado.

A criatura a sua frente era um tipo de aranha mesclada a um corpo de uma mulher que exalava sensualidade e beleza, mas se deformando para uma forma grotesca, com patas horrendas e diversos olhos. Ela ria enquanto emitia um tipo de grunhido.

Lentamente caminhei para perto de Arale, foi então que avistei seu machado caído próximo de meus pés. O que devo fazer?

Não podia pensar demais. Percebi que suas orelhas felinas sentiram minha presença, então corri e peguei seu machado, era muito mais pesado do que eu imaginava, e com toda a minha força e energia restantes, o arremessei em sua direção, gritando:

— ARALE!

Ela olhou rapidamente com aqueles belíssimos olhos de tigre dilatados e soltou um tipo de rugido, liberando uma força descomunal que estourou as teias que a prendiam. Correu de quatro, impulsionando-se com seu braço metálico e agarrou seu machado de forma artística e acrobática. Tudo isso ocorreu em questão de segundos, meu fôlego e meus olhos não conseguiam captar. A aranha grunhia furiosa e tentou perfurar Arale no exato momento em que ela pulou, com uma de suas patas aracnídeas. Eu fiquei boquiaberta. Arale encravou o machado bem no meio da testa da aranha-mulher, que se debatia loucamente enquanto Arale regozijava. A criatura sangrou e derreteu em sua frente. Arale cambaleou. Corri e então a agarrei. A máquina de escrever de ossos, mesmo distante, disparou um raio cósmico, transformando aquela batalha em um pergaminho de sangue. Minha segurança e companhia o agarrou no ar e o recitou:

“Ela é silente, embora um parco murmúrio verta de suas duas bocas horrendas e escuras. Seu corpo é feito de tensões e pele, com dezenas de aberturas como vértebras cervicais. Em seu tórax resiste, aglutinado em pele e tendões, um tipo de crisálida, cujo nervo principal advém do que deveria ser a genitália da criatura. Parece guardar algo que pulsa e respira… é como um ventre. A criatura conduz-se em correntes, as quais parecem unificadas à sua pele, e seus dedos retorcidos e desproporcionais assemelham-se à forma como ela caminha, sempre retorcida, com a coluna para o lado. É bastante silenciosa quando não é vista; quando pretende atacar, seu murmúrio distante se transfigura em um eco seco e gutural que, ainda assim, somente sua vítima pode escutar — o que significaria que Morggore, seu criador, está bem próximo... É uma criatura inteligente e alimenta-se de medo e dor.

Não é essencialmente forte.

Gera pavor e exala repulsa, levando suas vítimas a uma crise de desespero dilatado, com doses altíssimas de adrenalina — muitas desmaiam ou têm ataques cardíacos em função do horror que lhes acomete. Se a vítima é racional e cética demais a ponto de não ter o terror despertado em seu âmago, Morggore não aparecerá a esta pessoa.

A criatura desvela-se para quem está só e tem medo. Seu objetivo é causar horror, pavor profundo, nada mais, e ele só aparecerá após a derrota de sua aranha…”

O pergaminho então é selado no prisma esmeralda e engolido pela máquina.

— Mais uma caça para o bestiário... — Arale conclui alegre e com a voz ferida.

— Precisamos cuidar dos seus ferimentos, vamos...

— Não... A prioridade é concluir a missão e lhe entregar a teu destino...

— Como? — Eu insisto.

— Sibila, por favor, não dificulte as coisas...

Quando finalmente percebo, em seu outro ombro, uma espécie de espinho gigante perfurou, provavelmente quando ela pulou...

— Eu precisei pular, pois senão esse espinho pegaria exatamente em você, Sibila...

— Arale... — Emocionada, eu não sabia o que dizer.

— Talvez você não resistisse, então por favor, vamos seguir e concluir o que me pediu...

Retornamos à fogueira. Ela recolheu a máquina de escrever e nossos outros pertences, e seguimos atravessando o local de batalha, chegando ao final da trilha, com dois caminhos e uma placa com duas setas de madeira.

A esquerda dizia: “Séttimor para cima”

E a da direita dizia: “Porto do limiar adiante”

— Eu preciso chegar ao porto, Sibila. Preciso seguir viagem. Tenho uma missão pessoal também, muitas, aliás, mas a prioridade agora é eu encontrar Allant Elirrahz...

— Infelizmente não conheço... — Eu digo, magoada.

— Imaginei, não tem problema. Aquela aranha era um Yokai, eu caço essas criaturas também. Ela era um filhote da criatura que estou buscando...

— Que criatura? — Pergunto, curiosa e óbvia.

Arale arfa, respira fundo enquanto tenta limpar o machado, e insisto para me deixar fazer um curativo. Ela concorda, enquanto me conta o relato que ouviu...

Sentamo-nos na beira de um lago com pedras ornamentadas pela natureza, onde pobres peixes marinhos lançados pela maré tentavam retornar ao mar, e então Arale começa a me recitar o que um pergaminho anterior ao de hoje, pertencente a uma antiga caçadora, havia transmitido para ela junto de sua máquina:

“A tecedeira dos destinos funde a noite de três véus, onde o pavor tece sua própria carne. Onde a beleza murcha, se funde à abominação, e a aranha vira ventre, e o ventre respira pavor. Chamam-na de Jorōgumo, a que ceifei com sua ajuda. Dizem as lendas, nas aldeias tomadas por brumas, mas há os que sussurram outro nome também, sua extensão, Morggore, num sussurro empedrado, como se cada sílaba fosse uma pedra enfiada na garganta. Jorōgumo, rebento de Morggore, é criação direta de seu abismo, uma continuidade de sua essência, feita da mesma teia de terror e desejo. 

São dois nomes para o mesmo presságio. Uma entidade de dupla essência, dualidade profana. Ela não seduz apenas com beleza, nem assombra apenas com horror. Ela engravida o medo com desejo e pare o desespero em silêncio. Sob sua pele, o que um dia foi seda tornou-se membrana viva, espessa e pulsante, como o ventre de uma estrela negra prestes a explodir. Seu corpo, uma fusão de tensões arcanas e biologia renegada, se contorce como quem dança para os deuses errados. A teia que antes enredava corpos, agora costura a realidade com o irreal.

No centro de seu tórax, onde um coração humano repousaria, pulsa uma crisálida feita de tendões e ossos fundidos, um feto de horror onde habita o que não deve nascer. De lá, nervos escorrem como raízes em solo maldito, fundindo-se à sua genitália necrosada, a boca original de onde vieram os enganos e os lamentos. Jorōgumo-Morggore anda em correntes. Elas não a prendem. São parte dela. Rangem como dentes velhos roçando um ao outro, rangem em harmonia com seu andar desfigurado — uma dança espasmódica e lateral, como um réptil esquecido tentando lembrar como era ser mulher quando o ataque se aproxima… o mundo silencia. O murmúrio, aquele mesmo som que se assemelha ao soluço de uma criança afogada em pesadelo, emerge apenas para os ouvidos da presa. É íntimo. Como um segredo sussurrado no exato momento da morte. Nenhum outro ouve. Nenhum outro vê.

Ela não é essencialmente forte — não quebra espadas, não fere com garras flamejantes. Mas penetra na alma com agulhas feitas de lembranças do que poderia ter sido. Morggore alimenta-se de medo não como uma besta faminta, mas como um sacerdote ancestral em comunhão com o terror alheio. Ela oferece um culto sensorial: taquicardias, desmaios, suor frio, a orquestra do pânico. E quando a vítima enfim ruir, ela recolhe não o corpo, mas a experiência. O horror. O grito que não saiu.

Aqueles que são céticos, que não creem em assombrações, jamais verão Morggore. Ela não os deseja. Não por desprezo, mas porque ela é um reflexo do medo espelhado na alma de quem caminha só. Ela é necessária apenas para os que se esvaziam ao anoitecer. E mesmo os bardos, aqueles que tentam cantá-la, jamais a nomeiam em voz alta. Preferem rabiscar em pergaminhos apócrifos, trêmulos, ou soletrar de trás para frente, esperando que a noite não ouça. Pois onde o pavor dorme, Morggore desperta. E onde o desejo espreita, Jorōgumo sorri. Nas sombras onde os fios do mundo se cruzam, ela reina. Invisível como o vento, paciente como a noite.

Nas crônicas esquecidas que os bardos sussurram ao pé do fogo, nas estepes cobertas de neblina do Oriente antigo, fala-se da Jorōgumo, a aranha encantada que urde tanto o destino quanto o desejo. Criatura dos véus e dos enganos, seu nome ecoa como um sussurro em corredores de madeira velha e bosques silenciosos. Não é mera fera, tampouco um espírito errante; é lenda viva, entidade ambígua que transita entre o divino e o maldito. Com o torso de uma donzela de beleza hipnótica e o abdômen de uma aranha colossal, seus olhos negros não revelam emoção, apenas fome disfarçada de ternura. Quando ela caminha, o chão não a ouve. Quando ela canta, o coração vacila. Sua voz é doce como sake quente sob a chuva, mas cada palavra é um laço, cada sílaba uma seda venenosa. É ela quem embala guerreiros solitários em promessas de consolo. É ela quem espera, imóvel, sob os salgueiros tortos, onde a luz hesita em entrar.

Na arte ancestral do engano, Jorōgumo é mestra. Convida com o olhar, enlaça com os cabelos, prende com as pernas. Seus fios, de prata lunar e toque mortal, não são apenas armadilhas físicas, mas malhas de ilusão e encantamento. Os homens que nela confiam não morrem apenas: desvanecem, tornam-se ecos presos entre as fibras de suas teias, murmurando eternamente entre a seda e o silêncio. Alguns dizem que é uma maldição, que uma aranha comum devorou tantos corações que o próprio kami da enganação lhe concedeu forma humana como prêmio. Outros creem que ela é a guardiã de passagens esquecidas entre mundos, cobrando pedágios de paixão e sofrimento.

Como os espectros dos túmulos antigos, ela não busca redenção. Ela observa, eternamente à espera de mais uma alma cansada para envolver em seu casulo de promessas. Pois onde a espada falha e a palavra fraqueja, Jorōgumo triunfa com um sorriso. E se a encontrardes, não lutem, não falem. Apenas corram. Ou rendam-se à poesia de seu abismo.”

Eu estava horrorizada e impressionada, tudo fizera sentido, era por isso que todos que encontrei estavam em choque ou tremendamente assustados com ela, será? Com os olhos marejados, perguntei:

— Isso é uma despedida?

 — Por ora, sim, minha cara companheira. Siga este caminho, será seguro.

— Muito obrigada, vou lhe pagar…

— Não precisa. O que preciso é apenas chegar ao porto e, de lá, a vida me levará para os mares do limiar. E lá, quem sabe, encontrarei o que procuro…

Nos abraçamos forte, como se ambas não quisessem, de coração, se separar.

Arale seguiu firme pelo caminho em direção ao porto. Eu fiquei admirando-a e, então, segui para o meu destino. Quando, novamente, olho para trás, vejo, na neblina que a noite trazia, Arale desaparecendo de minha vista.  Olhei para o alto e suspirei cansada, mas esperançosa e grata: 

— Séttimor, estou chegando.

As Últimas Rosas Vivas de Séttimor
Mergulhe em um mundo suspenso entre a morte e o delírio. Sibila desperta em um castelo cercado por campos de lavanda e vozes sussurrantes, sem saber como chegou ali, tem apenas a certeza de que matou Viktor Frankenstein. Mas naquela terra onde o tempo se desfaz e os mortos sussurram, certezas são as primeiras a apodrecer. Inspirado no universo de Frankenstein, este romance gótico reinventa personagens clássicos que desafiaram a morte e pagaram o preço. » Leia todos os capítulos.
Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Aryane Braun

Aryane Braun é curitibana por nascimento, amor e dor. Formou-se em Letras pela UFPR e possui duas graduações na área da educação. Atualmente, trabalha em uma biblioteca de um colégio público em Curitiba e adora o que faz, pois ama o ambiente que os locais de ensino proporcionam. Afinal, que lugar melhor para trabalhar do que uma biblioteca para alguém que sempre gostou de literatura, antes mesmo de compreender o que ela representa em seu intelecto?... » leia mais

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O pergaminho do limiar

Arale vestira um capuz escuro, cor de carvalho envelhecido. Olhando para trás, de uma forma enigmática, desejando que a garota que conhecera…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Arale vestira um capuz escuro, cor de carvalho envelhecido.

Olhando para trás, de uma forma enigmática, desejando que a garota que conhecera estivesse bem, estivesse segura, sentia um aperto no peito, desejando tê-la acompanhado até o exato lugar que devia ter ido... “Sibila...” Ela sentia que não esqueceria esse nome tão cedo... “Por favor, esteja bem...”

Ponderava enquanto caminhava.

“Me perdoe, isso é algo que preciso fazer desde que cheguei ao Castelo. Minha máquina de escrever está me guiando ao sangue. Meu destino é sempre sangue. Geralmente o mar, a noite, a neve, a chuva... algo me envolve, e agradeço à natureza deste planeta, pois nele sinto-me em casa, apesar de tão distante. Conhecê-la, querida Sibila, me fizera acreditar mais nas pessoas...”

Arale sentia seus instintos aflorados, uma intuição de que algo que a aguardava seria revelador e doloroso. Ela lidava com o mistério e a dor diariamente, mesmo quando repousa. Seus sonhos são permeados de cânticos sagrados que a envolvem sempre para a batalha — é a identidade que conhece: a morte...

Ela é um espectro do exício, um espírito de solidão na consagração do sangue que busca purificação. Uma extensão dos agentes cósmicos de uma tribo dizimada, uma geração de ceifadores que foram apagados pelo pó do tempo, pelos ossos das palavras. Ela é um eco do ceifador xamã que sente o beijo da terra, o sopro da vida e a oração da transmutação. Nas asas do terror, nas portas da morte, uma escada que só desce...

Arale começa a ouvir sinos badalarem, crianças correndo e chorando, pessoas gritando. De onde viriam? Seriam efeitos torpes de sua mente? Ela enxerga belas luzes coloridas quando fecha os olhos — e todas se derretem, mesclando-se em sangue e ossos.

Quando foi que começara a ouvir vozes? Culpa, lágrimas, dúvida...

Quando foi que começara o questionamento de sua sombra, de sua sanidade? Ela continuava caminhando, tentando manter-se firme.

Talvez Arale tenha enxergado em Sibila um horizonte de vida e esperança, brilho, beleza que perdera em seu coração que sangra; uma ingenuidade pura, uma amizade transparente.

Não fora apenas mais um trabalho de mercenária fria. Não tem sido apenas isso já faz um tempo. Desde o encontro com Laparus e a vitória daquela comemoração sagrada, Arale estava já há muito distante de qualquer vínculo humanizador — até que necessitou lidar com seus demônios internos mais do que com qualquer outro que ela enfrentasse e ceifasse com seu machado voraz e faminto...

Arale corria, arfante, enquanto sua máquina de escrever perpetuava pelos ares da recém-chegada noite partículas de luz e brilho escarlate — como um tipo de lágrima espectral.

A máquina conhecia Arale e sentia quando ela não estava bem...

O capuz esvoaçante balançava ao ritmo do vento frio.

A aurora da ilha gelada tingia o horizonte com um tom incerto, algo entre o cinza e o prateado, como uma cor que se recusa a se definir. Arale sentiu o ar cortante, como facas invisíveis, arranhando sua pele, enquanto avistava chegar a um tipo de porto de madeira. Um humilde transporte surgia em sua linha de visão: o barco se aproximava do cais abandonado, um lugar onde o silêncio era mais forte do que qualquer grito.

Um aparente pântano núrido, com uma humilde lamparina no cajado bestial que mesclava luz e putrefação, cintilava.

O mercante encapuzado, seu rosto oculto pelas sombras de seu capuz, aguardava de pé, como uma estátua desconfortavelmente viva. Ele parecia uma extensão do próprio ermo gélido que os cercava. “Olá, estranha... hehe”, dissera com uma voz cadavérica.

“O preço de um passageiro, jovem caçadora, é sempre uma caçada”, disse ele, a voz um eco distante, como se tivesse vindo de um mundo onde o tempo se arrastava de maneira mais lenta.

Arale observou o homem, sua figura esfumaçada pelo gelo e pelo vento. Seus olhos não conseguiram discernir o que estava embaixo da capa, mas a promessa de uma carona era tentadora. Ela se sentia atraída, como uma mariposa para a chama de um perigo desconhecido. Agraciada e bem-vinda, sempre se sente assim — isso a faz viva, inconsequente, cruelmente perigosa e a melhor no que faz. A oferta era simples: caçar algo em troca da viagem. Algo terrível. Algo que ela não poderia recusar.

O perigo não era morrer, era se perder de si mesma.

Naquele instante, a máquina de ossos sangrou e escreveu um pergaminho com informações valiosas:

“A floresta de gelo, a Thilzarra”, era o nome — o nome daquilo que o barqueiro encapuzado confirmara com um gesto e para o qual sugerira cuidado. Com seus dedos trêmulos, parecia distante. Não era um nome que pudesse ser pronunciado sem certo receio. Era o tipo de floresta que habitava os pesadelos dos viajantes perdidos.

Arale, com sua máquina de escrever pulsando em sua bolsa, sabia que não poderia fugir do destino quando ele lhe escrevia um pergaminho.

A caçada seria sua, e o caminho que tomaria levaria a uma jornada da qual talvez nunca retornasse. O barqueiro indicou o caminho. Estava perto. Caminhara mais alguns metros, avistou árvores imensas e uma entrada obscura — e então mergulhou.

Ao adentrar a floresta, o ar se tornou mais espesso, mais denso, como se a própria natureza estivesse respirando de maneira irregular, quase insustentável.

O musgo esmeralda das árvores pulsava como se vivesse, e os dentes nas suas raízes pareciam sussurrar promessas sombrias e irrefutáveis. O sangue das folhas, grosso e espesso, se espalhava no chão com a consistência de vinho velho, tingindo a terra marrom e dourada com uma aura de decadência.

Arale não conseguiu desviar o olhar.

Ela sabia, intuitivamente, que aquilo não era apenas uma floresta — era um cemitério. A cada árvore que cruzava, uma sensação de vertigem a tomava. Olhou para os troncos, onde, nas cavidades profundas da casca, as figuras pareciam se mover — mas não eram mais humanas. A metamorfose já havia se concretizado: pessoas haviam sido transformadas em cascas vivas, prisioneiras de um ciclo de condenação eterna.

A máquina de escrever, que Arale carregava como uma companheira fiel, começou a emitir sons estranhos.

Cada tecla pressionada parecia liberar uma página, uma verdade. Cada novo pergaminho que emergia, a história da floresta se desdobrava diante dela — como um poema maldito.

Ela leu, pela primeira vez, as palavras escritas:  

"Thilzarra. Um cemitério de almas.  
A maldição dos elfos, selada nas raízes do mundo. 
Aqueles que caminham aqui, não podem mais voltar."

A sensação de engano se solidificou como uma prisão. 

Ela não havia sido escolhida para caçar a criatura. 

Ela mesma era a caça. A floresta a observava, e agora, sabia que a busca pela criatura da maldição não era apenas um caminho físico. Era uma jornada emocional e psicológica. 

Cada passo que ela dava era como uma invasão do seu próprio ser.

Ouviu um sino em forma de coruja cega,
Que chorava hortelã de um céu lilás,
Sentiu nos lábios o amargor da paz
Enquanto a dor do som na pele pega.

Sabores frios sussurram: “Nunca mais”,
No ar um tom de lágrima que rega
O chão febril da mente que carrega
Luz púrpura em filetes viscerais.
As árvores cantavam tons de gelo,
E os troncos sussurravam com a voz
Do sangue doce em cada caramelo.

 Arale — um eco que o destino atroz
Mistura em névoas, sons e pesadelo:
Foi tinta a lágrima que a vida pôs.

Haikai Sinestésico
Vinho grita azul,
cheiro de vidro e memória—
a floresta ouve.

Poetrix Críptico
Sinos têm sabor de medo
luz escorre dos ossos —
Arale mastiga estrelas.

As árvores gritavam sua memória,
Num dialeto feito de raízes,
Sangue escorria em letras cicatrizes,
Versando em dor a anti-história da glória.

O musgo a envolvia em cicatriz sonora,
E a mente — lâmina em espiral —
Debatia-se em guerra abissal,
Dançando com a esquizofrenia aurora.

Encontrai a lágrima esmeralda agora,
Sussurra o chão em voz de vinho e limo,
Enquanto a névoa em forma de alma implora.
Mas cada passo é um passo em desatino —
O feitiço é um espelho que devora,
E Arale busca o fim no próprio sino.
A Boca da Névoa, ecoa o sangue,

Onde o silêncio range como escama,
Há uma raiz que respira mentiras.
A névoa é feita de véus e de drama,
Quem entra se apaga em trilhas vazias.
O Espelho de limo a água reflete aquilo que engana:
Um rosto antigo, ou o que não se é.
Não toque, não grite, não diga "me ama",
O musgo devora quem busca por fé. 

O Círculo dos dentes-arvores-cães mordem o ar aflito.
Folhas rangem como penas em pranto.
Pisa devagar no chão eremita —
O sangue escuta e pinta o manto.
a clareira de ossos cantantes,
Lá se dança com as vozes do vento,
cada costela entoa um nome esquecido,
Há um tambor feito de firmamento,
Toque-o e revele o que tem sido.
Na ponte de carne e areia,
Um rio de lembranças flui sob os pés.
O chão pulsa. 
O medo te nomeia.

Olhos surgem onde pisas, em rés
Caminho. A verdade ali se incendeia o portal 
das guelras de luz se os ouvidos ouvirem em cor,
a língua falar em perfume,
então verás o último torpor,
um vulto de esmeralda e lume,

A Árvore-Relicário 
no coração da floresta que chora,
Há um tronco que respira teu nome.
Abraça-o. E talvez, nessa hora,
A lágrima verde em tua alma tome.
Canta, Arale, no ventre da espessura,
Lágrima viva da alma da árvore,
Quebra o encanto da carne em clausura,

Sangra esperança no fel da palavra.
Três vezes dize o nome do espelho,
Com os olhos fechados em vinho e fumaça,
Deixa que a dor escorra em conselho,
Enquanto a floresta tua sombra abraça.
Na raiz onde o tempo se curva e enlouquece,
Ali verte a lágrima verde, tão rara —
Quem a encontrar, que nunca se esquece:
A alma retorna, e o feitiço dispara.

 

Arale está em uma dimensão onde as árvores são sustentadas por raízes suspensas, presas a um tipo de fio sanguíneo gigantesco. O solo é um ocre rubi, umedecido e pastoso. No céu, engrenagens criam correntes de luz, onde imensos sinos dourados dobram.

Ela avista diversas ruínas flutuando, sangrando cores e pesadelos, exalados das almas petrificadas no coração das árvores cheias de dentes predatórios e grotescos.

Arale enxerga, em uma pequena folha, um espelho de cristal — e nele vê Sibila. Sabe que ela lhe daria força e que não desistiria...

Arale fecha os olhos e canaliza o poder em seu machado, arremessando-o contra o coração central daquele espectro fantasmagórico. Um arranha-céu multicolorido se desmancha, virando-se de ponta cabeça sob os pés de Arale. Ela enxerga uma porta — ou seria uma janela? — e a adentra.

Ao mergulhar por esta secreta janela, depara-se com um recôndito familiar: era um cômodo do Castelo Drácula. Como?

Arale prosseguia por um tapete de lâmpadas plasmáticas.

Ela enxergava um quadro na parede com um olho vivo. Este sentinela lhe solicitava que adentrasse, como um tipo de elevador orgânico. Arale mergulha no olho prismático, sendo transportada para o altar do céu — um tipo de torre obscura no Castelo Drácula. Lá, percebe o salão escarlate e uma criatura acorrentada por fios de energia e símbolos de magia, flutuando sobre um tapete de sangue.

A máquina de escrever de Arale sangrara outro pergaminho, chamado: “O Gênese de Sangue...” Seu nome: Var’Ghul.

“Bem-vinda, felina cibernética dos cosmos longínquos. Tu, que és a caçadora dos oceanos de estrelas, o que desejas?”

Arale fica intrigada, pois acreditava que ele seria uma criatura que devesse ser caçada. Porém, seu instinto — e o pergaminho — não sugeriam tal batalha. Arale prossegue.

“Teu sangue ferve. Tua caçada é nobre. Tua purificação, necessária. Lhe sugiro um serviço: se me trouxer três itens, farei uma forja especial em seu machado para lhe auxiliar na caçada. O que achas?”

Arale aceita, sem questionar. Se fosse uma ameaça ou um golpe, já teria ocorrido. Ela aguarda, silenciosa.

“Traga-me um prisma-espelho de sangue de Wendigo, uma engrenagem de criatura orgânica do Limiar e uma lamparina da maçã fantasma. Esses itens estão pelo Limiar, guardados pela filosofia do enigma dos símbolos energéticos. Você saberá. Com eles, conseguirei ativar meu códex umbra e lhe forjar uma arma devastadora, que certamente lhe auxiliará.”

Arale está paralisada, pois a energia do lugar enfraquece os nervos do corpo — como se a asfixiasse. Ela se afasta, retornando à porta, e percebe que estava novamente na floresta, no coração do Limiar. Ela finalmente consegue respirar aliviada, prosseguindo a peregrinação das flores mortas.

A máquina sangra outro pergaminho, que lhe revela a pista que devias seguir:

“Arale... sob a noite lôbrega, absorvem a energia das rachaduras e elas se marcam no mapa, como se tivessem um vínculo com o papel. São lugares, ilhas perdidas, afundadas e erigidas das profundezas. O Oceano é uma entidade.

Encontre Allant Elirrahz,
 o Cartógrafo dos Mares Limiares.”

Ela enxerga, naquele gélido inferno de raízes que chamuscam o glacial âmago da melancolia cristalizada pelos ares,

uma chama críptica que oscila e pulsa pelos oceanos.

Arale fica deslumbrada com a beleza relicária.

Pinturas se desmancham, quadros choram, partituras derretem. Milhares e milhares de páginas sussurram e voam pelos ares.

Cristais brotam do solo. Estalagmites choram e estouram.

Pequenas criaturas peludas flutuam e deslizam, sussurrando alguma travessura inocente — como luvas feitas de plumas.

Arale enxerga um tipo de montaria: um corcel com cabeça de engrenagem e olhos de fuligem. Ela domina a criatura e percorre aquela imensidão enevoada. Por muito tempo cavalga, até que os mares se findam no horizonte e Arale avista vários gobelinus trotando, tentando perseguir o corcel maquinário, que destila carvão de sangue enquanto trepida. Ela continua determinada, como uma filosofia absurda que envenena um espírito sadio. Na conexão que realizara com a criatura, ela busca uma saída, uma resposta, uma solução, um sentido...

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Laparus

No sangue e no doce, renasce o profeta, | um coelho vingador, ceifador do planeta. | Laparus, um outrora humano exilado pela ganância e hipocrisia dos homens…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No sangue e no doce, renasce o profeta, 
um coelho vingador, ceifador do planeta. 

Laparus, um outrora humano exilado pela ganância e hipocrisia dos homens, fora amaldiçoado por um ritual secreto realizado por padres corrompidos pela luxúria e poder. 

A máscara, feita de carvalho banhado com sangue de inocentes, 
selava sua humanidade. 
Com a alma aprisionada no corpo de um coelho, 
ele descobre que a única forma de quebrar sua maldição é destruir os daemons
Gerados pela podridão dos clérigos que selaram seu destino. 
No centro desta cena de terror cósmico, 
Laparus encontra pistas de sua maldição: 

Cada daemon derrotado carrega fragmentos de um pergaminho celestial que, quando completo, revelará o segredo do ovo cósmico e o verdadeiro motivo de sua criação. 

Os daemons, outrora humanos, foram deformados por rituais proibidos realizados por clérigos pútridos que, ao invés de servir à luz, se banharam nas trevas da ganância e do pecado. 

Com um golpe, o bispo ao chão sucumbe, 
mil línguas calam-se, o vil sangue jorrando em rumble

Neste enfrentamento, o Bispo das Mil Línguas, um daemon grotesco criado a partir da avareza e da hipocrisia de um alto clérigo, é derrotado em um combate que mistura horror e ironia sombria. Cada golpe de Laparus rasga as línguas do monstro, liberando uma cacofonia de vozes ancestrais que falam de um pacto esquecido entre a igreja e uma entidade cósmica. 

Laparus encontra, entre os destroços do vilarejo, um pedaço do pergaminho que brilha em luz prateada. Ele descobre um nome esquecido: Zorya Polunochnaya, a guardiã da meia-noite, que pode possuir as respostas para o ovo cósmico. 

A guardiã do limiar entre a luz e as trevas, revela que o ovo cósmico é um artefato criado por uma força primordial, muito anterior à igreja e suas corrupções. Ele contém a essência do renascimento e da destruição, e os daemons que Laparus caça não são apenas monstros, mas fragmentos de um todo maior — ecos de uma divindade esquecida, mutilada pela ganância humana. 

A deusa entrega ao coelho um mapa celeste que leva ao próximo ponto da jornada: uma caverna subterrânea onde um daemon guardião, Azgalor, o Devorador de Almas, reside, protegendo o núcleo do ovo. Lá, Laparus enfrentará a verdadeira extensão de sua maldição e os desejos traiçoeiros da máscara. 

A Celebração dos Láparos toma lugar como um espetáculo dual — vibrante e melancólico — onde a vitalidade das danças e o mistério das máscaras escondem os temores profundos de um povo que luta contra a estagnação. 

A bebida principal, o vinho da Maçã Sangrenta, é uma metáfora do ciclo de vida e morte, enquanto as flores Ovaeren, colhidas pelas crianças, reforçam a noção de esperança e fragilidade. 

Elyni d’Ann, com seu vínculo inquebrantável com os láparos, observa a festividade de longe, séria e introspectiva. 

Para ela, o Outono sempre foi uma época de tensão. 

Muitos dos coelhos que protege são caçados ou sacrificados em rituais secretos durante Aesttera. 

Ela sabe que, sob o manto da celebração, há também dor e sombras. 

Ainda assim, o simbolismo da resistência a inspira, pois mesmo na mais árida estação, há flores que desabrocham. 

Enquanto Elyni e Laparus caminham entre os encapuzados, ela percebe que a dança-ritual não é apenas um símbolo de resistência, mas um mecanismo ancestral que sela um portal. Sob o centro da festividade, o chão começa a rachar, revelando uma fenda vermelha e pulsante, um limiar entre mundos. 

As máscaras de láparos usadas pelos dançarinos vibram com uma energia sinistra, e Elyni entende que elas não são meros artefatos culturais. São instrumentos ligados à maldição de Laparus, símbolos de um pacto antigo feito para conter os horrores aprisionados no Ovo Cósmico. O vinho da Maçã Sangrenta e o néctar de Ovaeren são parte de um feitiço contínuo para evitar que a fenda se abra completamente. 

Os dançarinos começam a cair em êxtase ou convulsões, como se algo estivesse roubando suas energias vitais. Elyni agarra o amuleto de pedra lunar que carrega, tentando conter a energia que emana do portal. Mas Laparus sente algo mais — a máscara em seu rosto começa a se aquecer, a voz de uma entidade antiga sussurra através dela, incitando-o a agir. 

O portal se abre parcialmente, e figuras monstruosas começam a emergir. Elyni deve decidir se confia em Laparus, mesmo com a máscara parecendo controlá-lo, ou se tenta fechar o portal sozinha, arriscando sua vida. O destino dos láparos e da terra depende dessa escolha. 

Elyni percebe que os participantes, tomados pelo êxtase, estão oferecendo mais do que emoções. Sob a superfície do ritual, há uma transferência energética que alimenta o portal e as entidades aprisionadas. Talvez, ao investigar mais profundamente, ela descubra que o Ovo Cósmico, ao contrário do que Laparus acredita, nunca foi uma prisão... mas um casulo de nascimento.

Codex Sangria
Arale Fa’yax, de uma realidade cibernética, atravessa o tempo e encontra-se no Castelo Drácula. Em sua busca por vingança e por pergaminhos esquecidos, ela se depara com horrores proféticos através de sua máquina de escrever feita de ossos. Arale registra cada descoberta e cada revelação que a aproxima de sua verdade. Em meio a memórias fragmentadas e mistérios mórbidos, ela enfrenta confrontos épicos, determinada a vingar-se e a libertar-se, embora, talvez, sua condenação seja a única certeza. » Leia todos os capítulos.

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Alice: No Denso Arvoredo

A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha…

38 minutos de leitura

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha, pairava, porém, rarefeita, como um gás envenenado em tom alizarina e marsala. O céu era um deserto amarfinzado, aquecido com um malva envelhecido, quase abronzeado. A brisa contornava as folhas ressequidas e, mesmo caindo, muitas permaneciam em seus frondosos galhos, mostrando a grandeza imensurável do arvoredo, com copas gigantes e altas como um titã. Alice despertou sabendo quem ela era, entretanto, pouco depois, quando ergueu seus olhos à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora e, então, se esqueceu. 

A grama terracotta, pó de flor emurchecida, parecia abraçar intencionalmente os pés descalços de Alice; conforme ela se movimentava, lentamente a relva a envolvia. “Não… não consigo me lembrar… como posso estar aqui? O que é este lugar?” — Sussurrara quando seus olhos pousaram no horizonte pálido e no oceano que, brando, parecia enegrecido. Sob a guarda de um céu rosa-empoeirado e sob um sol vermelho-pastel, Alice tentava entender a razão pela qual ela estava ali, naquele longínquo e ameno oásis. Um grande veleiro parecia atracado na costa, onde mais havia areia do que relva; parecia perto, entretanto, estava embaçado à visão como uma miragem. O coração de Alice apertou-se de emoção por algo incompreendível, porém, de súbito, algo lhe chamou a atenção. 

Um coelho branco de três olhos escarlate e corpo esguio, emergiu da frondejante floresta mastodôntica, enquanto a curiosa Alice o observava, percebeu que adentrar a floresta não só seria uma aventura, mas, talvez, um labirinto pernicioso. O coelho era um pouco mais alto que Alice e bem mais baixo que as copas de folhas vermelhas hexagonais. Ele parecia apressado, era bípede, embora encurvado em sua coluna; seus grandes dentes afiados eram terríficos e o pêlo macio, níveo e fino, era como a gramínea. A criatura saiu da floresta, cavoucou n’uma parte de terra úmida, onde a gramínea era frágil e, dali, retirou um relógio de bolso. Fugaz, adentrou à floresta em seguida — parecia não ter visto Alice. 

A aparição de tal animal sinistro, embora assustadora, deu à Alice uma sensação de que a criatura tinha tanta pressa que, certamente, pouco se importava com intrusos iguais à Alice e, portanto, não lha faria mal. Além disso, a fez pressentir que, se é possível que o coelho de três olhos vermelhos saia do bosque colossal e para ele retorne quando bem entender, então, decerto, ela também poderia — em especial se seguisse o rastro do bicho. E assim o fez. 

Como o coelho era alto, ao afastar os arbustos e pisar, finalmente, no bosque; ainda era possível enxergá-lo ao longe, pois, por seus passos tão fugazes, ele alcançava uma distância considerável em átimos de tempo. Suas brancas orelhas peludas se destacavam, em especial, por causa das cores outonais opacas e rúbidas de toda a floresta. Deste modo, Alice o acompanhava, porém, por infortúnio, a criatura era, de fato, muito mais rápida que ela e, em segundos, Alice viu-se no arbóreo denso, sem nenhum tipo de sentido para guiá-la. O coelho desaparecera. Os sons florestais eram brandos e as copas altíssimas, tanto que nem mesmo o céu era visto de baixo; Alice sentiu-se minúscula. 

— Certo... quão estranho... continuo sem compreender! — Conversara consigo. — Algo me falta, no peito; como se meu coração pulsasse diferente ao qual pulsara desde que nasci... entretanto... como posso distinguir essa pulsação se nem me recordo onde nasci? Pareço não saber quem sou e, ao mesmo tempo, algo sou capaz de intuir... uma pena que esse algo não seja o caminho certo. — Alice olhou para o derredor, buscando o rastro do coelho sinistro. — Nenhum rastro, nem para retornar à costa, nem para seguir adiante... e o que é o “adiante” nesta vasta catedral perenifólia? Intrusa, eu mesma, em um labirinto de fauna e flora, sem nenhuma clareira, sem céu e estrelas que indiquem sul e norte... Parece-me que não sou necessária aqui... ouço pássaros, porém, nenhum pousa próximo; ouço criaturas indistinguíveis, contudo, cá estou, sozinha; nenhuma delas rasteja na gramínea que acolhe meus pés. 

Alice estava sentada naquele instante enquanto se afogava em seus infindos pensamentos. E continuava: — Talvez, como intrusa, deva ser expulsa. Entretanto, ó, quão irrelevante eu sou que sequer faz diferença que eu cá esteja ou não. E se sou irrelevante para a vida entorno, por que vivo? Por que há vida em mim? Sem um sentido para caminhar no bosque titã, sem importância, sem valor... sabemos o valor que temos somente quando alguém nos diz, é isso! — Alice olhou para cima. — Alguém pode me dizer o sentido e o valor que eu tenho? — Gritou o mais alto que pôde. Seu brado causou algum alvoroço, porém, apenas para que um fruto, já muito maduro, vibrasse com as ondas sonoras e, então, caísse lá do alto da copa de alguma das árvores gigânticas. Demorou um pouco para cair ao lado de Alice e espatifar-se no chão, banhando-a com seu méleo caldo. 

Alice assustou-se profundamente; suas roupas, pele e cabelos, mancharam-se de uma cor carmim-abismal e antes, pálidas como o Anti-Ártico, agora mesclavam-se em um escarlate-ferroso e bege. “Que horror!” — Bradara pelo susto. Sentiu-se instigada, entretanto, a experimentar o fruto, cujo aroma era embalsamado de dulçor cítrico. Assim o fez, embora se questionasse sobre tratar-se de um fruto venenoso. “Se assim o fosse” ela respondeu à sua própria pergunta “não seria realmente sedutor aos meus olhos, certo?” perguntou a si mesma. 

— Se fosse um fruto perigoso, eu não seria cativada... a menos que o fruto fosse capaz de mentir... se assim o fosse, como o faria estando espatifado assim? Não vejo espinhos em sua casca, como os abacaxis. Na verdade, vejo lanugem, como um pêssego. Embora seja tão maior que um pêssego, na verdade, é maior do que minha cabeça! — Alice tocou com seu dedo indicador na carne do fruto espatifado e, logo, levou aos seus lábios. Era delicioso. 

— Méleo... adorável... cítrico... suave... meio ameixa... meio caqui... meio...— Fechou seus olhos e apreciou um pouco mais. Quando os abriu novamente, algo havia mudado. — Um rio? — Questionou à sua solidão. Alice ouviu algo como um rio ou uma cachoeira; águas correntes que outrora não havia prestado atenção, talvez porque estava demasiado dentro de si mesma. Só pelo som, sentiu-se com intensa sede. Levantou-se e caminhou em busca da fonte, uma nascente cristalina. E encontrou. Um riacho sutil embargava águas translúcidas, embora, com sutileza, enrubescidas pelos tons florestais; as águas cursavam um caminho tortuoso e, pelo seu rastro, pedras foram se formando ao longo de incontáveis anos. 

— Tem gosto de água... — Dissera, sentando-se à beira do córrego. Respirou fundo enquanto ouvia a sinfonia líquida — Agora que comi o que me parecia comível e bebi o que bebível me soava, voltei à infeliz verdade... não tenho nenhum sentido que me mostre o que fazer, como fazer, para onde seguir. Posso caminhar à beira erma d’esta corrente, sem propósitos definidos, entretanto, estaria desperdiçando meu tempo com algo sem nenhuma razão de ser. Se eu encontrar uma lógica para fazê-lo, então, o farei. — Silenciou-se esperando que a lógica de materializasse à sua frente, entretanto, o contrário é que foi visto aos seus olhos âmbar. 

Uma porta ornamental e dourada estava escondida na escuridão de uma parte ainda mais densa em arbustos avultados e complexos; o que não tinha lógica alguma, decerto, muito menos razão de ser. Sendo Alice a menor das criaturas, até então, naquele santuário de fauna e flora ancestral, como pode a porta ser do tamanho de Alice? — Ou cresci ou estou delirando... — Sussurrara. Caminhou se esgueirando nos arbustos e notou que, aquela espécie de planta tinha folhas e galhos que se faziam como um muro ao redor do umbral, se contorciam entre si formando um imenso bloco intranspassável. Diante à primeira porta, Alice tentou abri-la e... abriu facilmente. Porém, havia outra porta e, depois, outra e, mais umas e outras tantas. 

Depois de um túnel de portas, quando o lume da floresta atrás de Alice já estava dilatado e ela estava exausta de girar maçanetas, uma das portas estava trancada. “Que ótimo” ela ironizou “tudo isso para nada... ora... eu bem sabia que não havia nenhuma lógica nisso tudo e, portanto, eu não poderia e não devia gastar meu tempo...” reclamara. Com profunda exaustão em retornar ao bosque denso, sentou-se ali mesmo, de frente ao umbral trancado e, então, segurou suas pernas para conseguir sentar-se, pois, era um túnel bem estreito. 

— Não adianta... não vale fingir que há um rumo para seguir; tudo se faz de forma aleatória e vazia, não há profundidade em nenhuma decisão que se pauta sobre um talvez e mesmo se formos motivados pela esperança, esta é, sem dúvida, a maior das mentiras; com esperança vim aqui e com ela me estorvei. De que adianta caminhar sem rumo, só por caminhar, insistindo na ausência de sentido real, para chegar a um fim que é, pois, uma porta trancada? — Alice esperou uma resposta e silenciou. Suas lágrimas nasceram como o córrego que, de súbito, ouvira há pouco. E caíram salgadas sobre o chão de terra. Alice chorou de olhos fechados, uma cachoeira se fazia em seu semblante; e ela soluçava. 

Assim que se cansou de chorar, abriu seus olhos âmbar e viu que, onde a terra umedeceu-se pelas lágrimas, brotos verdejantes germinaram. Tinham caules pequeninos e duas pequenas folhas no cimo, às vezes três, curiosamente uma acima da outra, formando um estranho padrão. Eram rígidos, porém, macios; um pouco porosos e, tal como o fruto que caíra, tinham lanugem. Ao tocar em um dos caules, ele se quebrou; era frágil e, na mão de Alice, ressequiu em segundos. Era um de três folhas. Por pareidolia, parecera uma chave de carvalho assim que murchou. Alice, então, adicionou o caule na fechadura e a porta se abriu. 

— Isso não faz sentido... — Murmurou, tocando na maçaneta. Detrás da porta: mais floresta, entretanto, ainda mais fechada e nebulosa que antes. Havia quatro caminhos, feitos de ardósia vermelha, à disposição de Alice. Para lados diferentes e, por vezes, opostos. Pareciam longos e, portanto, impossível escolher mais de um para saber o que esperaria no fim. Alice sentou-se sobre uma pequena rocha na divisa entre todas as estradas e esperou sem saber o que esperava. — Estou ficando cada vez mais triste... por que há tantos caminhos? Não seria mais simples apenas um? Por que não colocar placas que indiquem o que haverá no fim de cada estrada? Assim a escolha será justa e ponderada! 

Enquanto falava, um gato preto, com listras marfim em sua fronte, grandes olhos pálidos, um cachecol de folhas secas e um imenso sorriso, com dentes pontiagudos, de ponta a ponta em seu semblante, apareceu entre os galhos de uma árvore anã. Alice o olhou e, por segundos, teve a sensação de que ele não pulou nos ramos para ser visto, ele simplesmente apareceu após estar translúcido, de alguma forma. Tudo ao redor estava estranho e meio embaçado. Ele sorria de maneira macabra, mas Alice estava sem perspectivas, portanto, não se intimidou com a presença ilustre do felino — ela pensava que, se ele fosse alguma criatura má e violenta, ao menos acabaria com a ausência de sentido que ela tanto sentia em sua alma, libertando-a por fim, com a morte. 

— Olá, Alice. — Disse o gato. Os olhos dela se arregalaram ao ouvir aquela grave voz falando o seu idioma. 

— Gatos não falam! — Proferiu, esfregando seus olhos. 

— Estou falando, não estou? 

— Sim, está, mas é loucura, é claro que é loucura! 

— Se tu estás me ouvindo, então tu és, decerto, completamente louca. — O gato lambeu-se. 

— Não! — Gritou Alice. — Tu que és o louco! Pois estás falando! A culpa não é minha por ouvir o que dizes! — O gato sorriu ainda mais e silenciou, voltando a lamber seus pêlos lustrosos. Alice percebeu que, se não falasse com o gato, não poderia saber o que fazer e para onde ir. A ideia a conturbava e a irritava, falar com um gato lhe era constrangedor. Mas, de fato, aquele felino era diferente dos outros; ainda assim, Alice odiava a ideia de estar enlouquecendo e isso a impedia de retomar a conversa com o gato. Seu esforço para mudar de opinião foi tão grande que, somente no desespero da sua falta de sentido, ela foi capaz de ir contra todas as suas angústias. 

— Ah, tudo bem. — Ela disse, bufando. — Por favor, me ajude... qual dos caminhos de ardósia rubra eu devo seguir? — O gato deitou-se, olhando para Alice. 

— Depende, onde queres chegar? 

— Não tenho sentido, não sei para onde ir e muito menos onde quero chegar. 

— Neste caso, qualquer caminho serve. 

— Não é verdade! Se escolho este — Alice apontou para o caminho à direita — posso chegar a um lugar desagradável e ter perdido meu tempo caminhando. 

— Então, tu só podes escolher um caminho se souber o que há no final dele? 

— Exatamente! — Disse, orgulhosa. O gato gargalhou. 

— Isso é coisa de louco! — Disse o gato. Alice se enraiveceu. — Ora, é loucura caminhar apenas se houver uma certeza; toda a certeza é inútil e falsa, logo, tu nunca poderias escolher um caminho, pois, mesmo que tivesses certeza de onde chegaria, não sabes absolutamente nada do que encontrará enquanto andas. 

— Mas... — Respondeu Alice, nervosa. — Se sei que chegarei em um lugar agradável, consigo suportar os caminhos difíceis, não? Guiada pela esperança. 

— Hum... achei que a esperança era uma mentira... — Parafraseou o gato que, agora Alice sabia, escutava-a a todo o momento. 

— Bisbilhoteiro! Se me ouvias, por que não se manifestara? — O gato apenas se lambeu e sorriu. — Olha, a esperança é uma mentira quando acreditamos nela sem nenhum filtro; quero dizer, acredito que nesse caminho há algo bom, e durante todo o trajeto, por mais angustioso que seja, continuarei acreditando. Logo, chegando ao fim dele, descubro que não era bom. A esperança destruiu tudo! Sem ela eu poderia ter desistido e me guiado para uma direção menos amarga. Agora, se tenho certeza de que há algo bom, a esperança faz sentido! 

— Que chatice... — Ele disse, irritando Alice. — Viver baseando-se em sentidos e certezas é a coisa mais chata que já ouvi.  

— Ah, é mesmo? E como tu vives, senhor Gato? — Ela cruzou os braços e ergueu seu rosto, duvidando do gato sorridente. 

— Eu? Vivo pelo que me cativa. — Ele respondeu sem hesitação e bastante concentrado em lamber seus pêlos. 

— E o que te cativa? — Insistiu Alice. 

— Viver. — Respondeu o gato, sem alardes, enquanto espreguiçava. Alice ficou em silêncio. 

— Como é possível se cativar pela vida em si mesma? Principalmente se os arredores são hórridos e decadentes? Se os caminhos são tortuosos, se não há nada que signifique algo em seu coração? 

— Justamente. Se a vida em si mesma é suficiente, por mais que lhe venha de encontro no pior de suas manifestações, ainda assim, tu encontrarás algo de valor nela, pois tu a compreende e, sendo a vida instável, variável e efêmera, e admirando-a por tudo isso que ela é, não esperarás que ela seja diferente do que é e lidarás com suas características com bastante empolgação.  

— Mas... aceitar em silêncio as condições hórridas da vida, é um martírio! Caçar preciosidades na lama dos porcos, é humilhante! 

— Alice, nem uma árvore aceita em silêncio as condições precárias da vida! Ela sempre encontra novas formas de burlar as turbulências, isso é uma característica que só é possível na vida. Cativar-se pela vida é aprender a conviver com ela, ajustando-se e sabendo lidar com suas manifestações. Por exemplo, digo-te que, vá à direta; e encontre o Artesão de Aspecto. Ou à esquerda, para a toca do Láparo Esguio. E tu, agora, cativada pela vida, vais não pelo Artesão, tampouco pelo Láparo, vais pela descoberta do que há no caminho até lá; ruim ou bom, difícil ou fácil. A graça está em saber lidar com a surpresa do que há de vir. 

Alice ponderou por um tempo. 

— O Artesão e o Láparo são confiáveis? — O gato gargalhou por notar a insegurança que Alice ainda possuía. 

— São malucos como tu és, como eu sou. 

— Eu não sou louca! — Lamuriou Alice, outra vez. 

— É o que dizem os mais loucos. — Afirmou o gato, sorrindo e translucidando, sumindo como poeira cósmica. 

— Ei! Volte! — Bradou Alice, sozinha outra vez. — Não entendo... 

Na bifurcação dos caminhos feitos de ardósia escarlate, Alice observava. Ao além, na perspectiva de cada rumo, apenas a névoa rosé. A escolha deveria ser feita de qualquer maneira, mas, para Alice, o que mais pesava eram os seus pensamentos e não as decisões que precisava tomar. Mesmo e apesar dos conselhos do gato sorridente, algo sobre o sentido da vida ainda lhe perturbava e encontrar uma lógica perfeita para suas ações era-lhe sempre a única opção plausível. 

— Vou para o Artesão porque já vi o Láparo e ele sequer notou minha presença. — Murmurou para si, enquanto caminhava. — Mas não sei o que direi ao encontrá-lo e esse caminho parece-me maior do que previ. Sinto falta de ver o céu. — Alice olhou para cima, parando de andar por um instante. As copas altíssimas continuavam ocupando todo o firmamento, como se as constelações fossem folhas e, muitas delas, caíam com profunda lentidão, desprendendo-se das árvores e levadas pela brisa vaporosa. Por olhar para tão altas estruturas, sentiu-se um pouco inquieta. — É assim que se sente uma formiga? Posso ser pisada a qualquer momento... — Alice voltou a caminhar. — Se não tenho sentido, tanto faz ser pisada. — Disse e logo lembrou-se das palavras do gato. — A diversão está mesmo no caminho? Olhe só para isso, uma longa estrada com essa névoa baixa, sem nada acontecendo. É bem tedioso e solitário. Qual é a graça? Nada aqui é capaz de cativar! E, pior, meus pensamentos parecem mais altos aqui. 

— Ei! — Alice ouviu e, de imediato, parou e olhou para trás, para os lados, ninguém. — Aqui embaixo! — Disse a voz envelhecida e fina. Ao olhar para baixo, Alice viu um rato deveras estranho; um longo rabo bege, dentes humanos, sete orelhas, 4 patas com seis dedinhos finos em cada; seus pêlos cinzas não completavam todo o seu corpo, pareciam falhos em partes. A verdade é que Alice achou a criatura horrível. — Oi, olá! É... te importarias em nos dar uma carona? — Disse o rato. Detrás dele, dois outros ratos surgiram, um deles era um pouco menor; o outro tinha uns caules de trepadeira presa à cabeça, dando-lhe um aspecto de cabelo cacheado. Alice odiaria segurá-los em suas mãos. 

— Ah... eu... não me sentiria confortável... sinto muito... — Explicou, sendo a mais delicada que pôde. 

— Teu vestido é enorme! Ponha-nos na barra e nem sentirás nossa presença. — Disse a voz rouca do rato de cabelo de caule. De fato, o vestido de Alice era longo e arrastava-se pelo chão. Mas os ratos pareciam sujos e isso a incomodava. 

— Eu não posso, o vestido pode rasgar.... ah... para onde ireis? — Tentou mudar de assunto para evitar o conflito. 

— Precisamos achar uma nova casa. 

— Nós esquecemos onde estava a última... 

— É... esquecemos... — Disse o rato menor, pela primeira vez, bastante frustrado. 

— Como se esquece onde está sua própria casa? — Alice estava incrédula. 

— Ora, tu sabes onde está a tua? — Ao tentar se lembrar de sua casa, Alice sentiu-se triste como um abismo que lacrimeja solitário por sempre levar à morte aqueles que nele se aprofundam. 

— Eu não sei... mas... eu não a perdi... apenas não me recordo... — Os ratos riram. 

— Isso é esquecer, oras! — Caçoou um deles. 

— Por que sois tão vis? — Indagou Alice, com a voz trêmula. 

— Não somos vis... não precisa se preocupar, tu podes criar, como nós, um lar novo! Basta que encontres um lugar à sombra, bem arejado. 

— É, bem arejado. 

— E que tenha comida próxima! — Alice se irritou ao ouvi-los. 

— Não é assim tão simples quanto respirar! Encontro um lugar bem arejado e ele se torna imediatamente a minha casa? Então posso dizer que essa estrada é minha casa? Uma casa precisa de algo a mais... — Os ratos se entreolharam. 

— Uma casa é só uma casa... o que tu estás dizendo, altíssima? 

— Digo que uma casa é, essencialmente, um lugar em que o sentimento de segurança e pertencimento estão. 

— Eu me sinto seguro comigo... e pertenço a mim! — Disse o primeiro rato. 

— É, eu também! — Falaram, em uníssono, os outros dois. 

— Então somos nossa própria casa? 

— Guardamos a comida na pança! — Zombou o rato menor, levando seus familiares à gargalhada. Alice respirou fundo e voltou a caminhar, apressada. — Ei, espere! Altíssima! Dê-nos uma carona! 

— Darei se me alcançarem! — Alice correu sem olhar para trás e, em poucos instantes, os ratos a perderam de vista e ela pôde voltar a caminhar. — Que criaturinhas insolentes! — Reclamou Alice, ela odiava o fato de saber, no fundo, bem no fundo, que aqueles ratos sujos estavam certos. — Voltarei para meu lar... em algum momento... deixarei esse lugar e voltarei e me lembrarei. Um recôndito onde há os sentimentos que serenam a alma e significam a existência. Esse alarde de que não precisamos de sentido e que qualquer lugar pode ser uma casa, prova tão somente o quão superficiais são esses animais falantes! — Alice esforçava-se para argumentar conta os ratos e o gato, mesmo eles não estando mais presentes. — De que adianta ser capaz de pronunciar palavras, mas só pronunciar palavras tolas? Que superpoder inútil! — Alice começou a imitar a voz rouca e fina dos ratos. — Olha, olha, eu posso falar, eu estou falando, mas só sei dizer asneiras; eu só falo bobagem, mas ouça, ouça, ouça-me! Eu falo alto, meu falatório irritante, palavras gastas, perdidas, amassadas! — Alice gargalhou de si mesma por imitar os ratos falantes e após rir por bons minutos, pensou que não se sentia segura consigo mesma tal como os ratos e, da mesma forma, parecia não pertencer a si. Perceber isso a deixou bastante magoada. Quando ela avistou o que lhe parecia, pois, uma casa, distraiu seus pensamento merencórios. 

O clima transfigurou-se estranhamente; como se um peso pairasse, densificando e enegrecendo o derredor. Próxima à casa, Alice notou a névoa mais vermelha e um aroma peculiar de queimado lhe atordoou célere. Por um momento, hesitou em bater à porta da casa de madeira escura, pois, algo de fato lhe parecia errado ou, talvez, apenas pouco convidativo. A verdade, no entanto, era que seus pensamentos lhe convenciam de que, se Alice não se lembra de sua casa, não pertence a si e tampouco possui um sentido, então, por que não arriscar sua própria vida? Eles diziam: “Vá, Alice! Não há nada a perder, não há a quem voltar”. E Alice os ouvia, pois estava acostumada a ouvi-los. 

Dois toques na aldrava e, pouco depois, o que parecia um homem, um pouco mais alto que Alice, surgiu. Ele vestia uma grande cartola, roupas estravagantes, e seu rosto era amedrontador; parecia usar uma máscara com retalhos de pele. O odor tostado vinha do interior da casa e mesclou-se ao bálsamo do homem, algo que beirava a sândalo, âmbar em notas de fundo, talvez algo mais terroso e sanguíneo nas notas de coração — até provável haver uma tênue exposição nicotinoide. Era embriagante e, ao mesmo tempo, perturbador. 

— Uma dama aos meus umbrais?! — A voz do homem era como um cello fundido ao canto gregoriano. Alice reverenciou-o, abaixando-se; e logo voltou a fitá-lo. O homem a cumprimentou, beijando o dorso da delicada mão de Alice. — Por favor... — Convidou o Artesão, mas Alice fitou o interior escuro da casa e logo hesitou. 

— Eu agradeço... a gentileza... senhor Artesão, entretanto, vim tão só de passagem, para compreender um pouco mais sobre este estranho lugar. — O homem pareceu compreendê-la. 

— Então sente-se. — Indicou para Alice as cadeiras à mesa, próximas da casa, dispostas no jardim murcho e seco. Sentaram-se. — Não és daqui, pelo que vejo. Então de onde és? — Alice ouviu e, tão logo, notou que de fato se tratava de uma máscara, pois, os lábios não se mexiam quando o homem falava. 

— Não sei ao certo... lembro-me de despertar na costa, ter uma visão estranha de um veleiro... — Lembrar do veleiro embaçado, trouxe o aperto ao coração de Alice. — E, depois, adentrei à floresta logo que vi um coelho esguio de três olhos... 

— Hum... claro... e o que buscas, senhorita? Um corvo empalhado? Uma escrivaninha perfeita? Ou talvez... um sentido? — Alice arrepiou-se, tanto pela voz tétrica, quanto, essencialmente, pela última indagação do homem. Os olhos dela se arregalaram de súbito. — Sou um Artesão raro, posso te ajudar com tudo e... muito mais. 

— O... o gato... te contou? — Proferiu Alice, inócua. 

— Chesir? Não o vejo há um tempo. Tu encontraste a criatura? — O homem conversava como um Dom e mantinha-se bastante estático. 

— Ele se chama “Chesir”? — Alice questionou mais a si mesma, enquanto ponderava a razão pela qual o gato não se apresentara a ela. 

— Sim... E eu sou Thez, o Artesão de Aspecto.  

— Eu sou Alice... — Revelou. 

— Alice... — Sussurrou o homem, aproximando-se um pouco mais. Alice sentiu-se incômoda, pois a presença do Artesão era persuasiva e densa como o derredor e o interior em breu daquela casa de madeira. Ela não saberia descrever o que sentira, mas eu sei bem, uma atração pelo Artesão a envolveu de súbito. — Belíssimo nome... 

— Se não falas com Chesir há tempos, como sabes sobre o sentido? — Thez encostou-se novamente no espaldar da cadeira e Alice sentiu-se tímida. 

— Todos buscam um sentido, senhorita; é previsível daqueles que pensam, sentem e, em especial, desejam. Sou capaz de moldar um rosto para a Dama, esta face lhe trará sentimentos e pensamentos, emoções e razões para uma vida completa, sem que tenhas que escolher, sem que tenhas que aprender. 

— Mas... eu gosto de minha face! Não quero trocá-la, embora não me lembre ao certo como ela é.  

— De fato, teu rosto é... encantador. — As bochechas de Alice coraram. — Não te preocupes, entretanto, senhorita; sou capaz de dar-te um aspecto sem que sua aparência seja ofuscada. Basta confiares em mim. — O aroma capitoso do homem, não proporcionava confiança para Alice, embora fosse agradável de sentir, suas notas continuavam a inquietá-la. 

— Como isso é possível? — Ela duvidou. 

— Dar-te um aspecto ou ser, a ti, confiável? — Embora o rosto de Thez não pudesse ser visto, ele parecia sorrir. 

— Ambos, senhor. Sobre dar-me um aspecto, embora eu seja uma mulher adulta e ciente de minhas decisões, sei que este lugar até então foi contra tudo o que é racional e, portanto, não há como não questionar essas verdades. Sobre confiar em ti... pois... é impossível! Eu não vejo sequer o teu rosto. — Alice aguardou uma resposta, mas Thez ficou uns minutos em silêncio até que, então, decidiu levar sua mão ao rosto e logo retirou sua máscara de pele retalhada. O Artesão era mesmo um homem, entretanto, seus olhos eram de um tom malva-empoeira brilhante, tão símil a tudo naquela floresta; sua barba era delineada em um cavanhaque, arredondada no queixo e pontiaguda próxima aos cantos dos lábios. Contornava seu maxilar em destaque. Seu semblante era sério e sua beleza era inquestionável, muito diferente da bizarra máscara que usava, porém, ainda capitoso, sutilmente, impudico. 

— Tu... tu és mesmo um homem! — Exclamou Alice, perplexa e instigada. 

— Há muitas formas de provar-te que sou um homem, senhorita Alice; retirar minha máscara é a mais... decorosa... das formas; entretanto, receio que não seja o suficiente para que confies em adentrar meu Ateliê; por isso proponho que tragas um conviva contigo. — Alice ponderou. Thez não parecia louco como dissera Chesir e, àquela altura, para Alice, talvez ele não fosse tão perigoso quanto aparentava. 

— Não sei se poderia; desde que adentrei esta frondosa floresta, vi o coelho, o gato Chesir, um trio de ratos enfadonhos e nojentos... e por fim... um Artesão. — Thez semissorriu e, antes que alguém continuasse o diálogo, uma raposa surge, com um vestido de gala; ao seu lado: Uma fuinha marrom e muito, mais muito, muito mesmo, muito peluda. 

— Aem! — Saldou a fuinha, para Thez. Parecia uma saldação e Alice compreendeu assim. Sua voz era doce e muito fina, como a superfície de uma nuvem. 

— Eu estava dormindo, acredite ou não. Estes tempos loucos estão bagunçando meu ciclo de sono. — Tagarelou a Raposa. Alice estava profundamente confusa. 

A fuinha se sentou em uma das cadeiras, mas, como era pequena — menor bem menor que Alice — ficava apenas com seus olhinhos à vista na mesa. Thez que era o mais alto, com um metro e noventa. A raposa sentou-se ao lado de Alice, elegante e calma, como uma dama, todavia, antes mesmo que ela pudesse se acomodar, o Lápago Esguio colocou três coelhos pequenos, mortos e ensanguentados sobre a mesa; assustando a todos, em especial Alice. A seiva rubra esguichou em todos os rostos. Alice sequer viu de onde veio o Láparo. 

— Ah! Que deselegante! Por todos os corações empalhados, tenha mais educação! — A raposa levantou-se, segurou os coelhos e caminhou em direção à casa de Thez. — Vá buscar a pimenta, ande! — Os coelhos pingavam sangue pelo caminho. A fuinha pensou que o pedido de pimenta se direcionava a ela, então decidiu partir, embora não quisesse, pois, a figura de Alice lhe parecera interessante. Além disso, era timida demais para contestar a raposa. O Láparo, incompreensível e apressado, apenas foi embora. — Iniciarei o cozimento do jantar. — A raposa disse e, logo, fechou a porta. Alice estava sozinha com Thez outra vez; ambos demoraram para iniciar o diálogo e Alice compreendeu o porquê todos pareciam loucos. Quão estranho era todo aquele movimento e ninguém sequer perguntou quem era ela. 

— Vulpia prepara as refeições noturnas aqui... — Proferiu o Artesão. — Pegue isto. — Ele ofereceu um lenço para Alice que, tão logo, o aceitou, para limpar o sangue de seu rosto. — O Láparo não é muito atento ao que faz... — Amenizou Thez. — Além de estar sempre apressado... — Pouco depois, o Artesão se levantou. — E a fuinha é bem tímida. — Explicou. — Venha. Deixe-me mostrar-te meu ateliê; Vulpia estará na cozinha, portanto, não precisas temer... não estaremos à sós. 

A casa era escura, entretanto, Vulpia parecia destinada a manter o local mais aceso, pois, abriu todas as janelas e acendeu mais velas. Alice seguiu ao lado de Thez e logo foram ao quarto-ateliê, um aposento artístico e sinistro. Em seu interior, incontáveis máscaras pendiam na parede, como quadros. O cômodo era frígido e Alice tremia. O Artesão a cobriu com seu casaco, explicando que, em razão do poder fascinante das máscaras, o ambiente arrefecia de forma natural. Alice não conseguia compreender, mas estava atenta. 

— Todos os rostos possuem parte das almas das criaturas mortas. — Explicara. 

— Tu... mataste todos? — Alice temia indagar, todavia, sua espontaneidade falava mais alto. 

— Não. A rainha o fez. Tome, experimente esta e sinta. — Proferiu, instigante. Alice não compreendia; queria questionar sobre quem é a rainha, mas viu-se segurando a máscara e tão logo a pôs em seu rosto, sem saber ao certo o porquê. A máscara era de uma cobra, ao que parecia; assim que a vestiu, Alice imediatamente desejou a morte de alguém que ela não sabia dizer. Sentiu um gosto agre na boca, como se ingerisse veneno; estava com uma certeza de que viveria até o fim de sua vida para vingar-se de todos que lhe fizessem mal. Ao mesmo tempo, ela sabia que aquilo não pertencia a ela. Thez retirou a máscara da atônita Alice. — E então? — Interrogou o Artesão. Alice não sabia o que dizer. — Talvez esta seja demasiado intensa para a tua sensibilidade feminil. Vista esta aqui! 

Mais uma vez, sem que pudesse recuperar-se do horror anterior; Alice viu-se com a máscara do que lhe parecia um pássaro dourado. Sentiu-se leve, com a certeza de que a vida assopraria em seu rosto e que o sentido primevo para tudo era a liberdade. Estava disposta a ser livre, acima de tudo; nunca se apegar a nada, a ninguém. Aquilo era, sem dúvidas, um sentido belo e até poético, entretanto, não era Alice. No fundo de si mesma, perdia-se em si a cada máscara que vestia e o poder, das almas encarceradas nos artefatos, invadia o espírito de Alice como uma descarga energética. Sentiu angústia, medo, horror, êxtase, prazer e amargura; sentiu-se ser duas, três e até quatro; entretanto, em meio a tudo, havia sempre um resquício de nada, um nada perturbador e cada vez mais sufocante. Alice atordoou-se e caiu sobre o assoalho do cômodo. 

— É fascinante, não? — Dissera Thez, ajudando Alice a se levantar. 

— Isso... parece-me perigoso demais, senhor Artesão... sinto que... — Alice levou suas mãos ao seu tórax, como se acariciasse seu próprio coração. — Perdi partes de mim que jamais se recuperarão. Thez a olhou profundamente, tocando-lhe seu sedoso rosto. O ambiente ficara mais frígido. 

— Posso fazer um sentido sob medida para o teu belo rosto, senhorita... — Alice arrepiara-se outra vez e se afastou do Artesão;  

— Agradeço, senhor Thez... — Ela retirou o casaco que vestia. — Está tarde, preciso ir embora, se me permites. — Ela o reverenciou rapidamente e não aguardou resposta, entretanto, Thez retirou sua cartola em respeito ao adeus de Alice, mesmo que ela não o visse. Era certo que Alice estava com medo, pois, perder-se quando se tem tão pouco de si mesma é arrancar sua vida de si, sem que a morte venha lhe buscar. 

Ela correu sem direção; seus olhos âmbar choravam outra vez. O vazio no peito era tangível, o medo de nunca mais ser Alice, amargurava-a. “Volta-te a mim, Alice. Sou Annae?  Mariah? Elizabella? Ó, céus... por favor... Alice... das águas que lhe agradam, da curiosidade do seu ser... Posso agir como Nillah? Lillymor? Ehlen? De onde vêm esses nomes? De Alice? Alice se recorda de algo além? Mas se foge de si, de mim, como se lembra?” — Pensava enquanto corria e só parou de pensar quando tropeçou, quando não reparara que uma densa fumaça acastanhada pairava no ar e, portanto, impossibilitou a visão das pedras mais altas do caminho. 

— Quem está aí? — Alice ouviu, após o tombo que fez arranhões doloridos em suas mãos.  

— Sou eu... — Respondeu, um pouco confusa com a queda. 

— Mas o “eu” também sou! — Respondera o que Alice pensou ser a fumaça. 

— Não é isso que eu quis dizer... — Alice levantou-se, limpando a terra e as folhas de suas mãos e de seu vestido. — Meu nome é Alice, embora eu sinta que perdi a Alice de mim... — Tudo ficou em silêncio. — Senhora? Onde estás? Por que há tanta fumaça? — Alice olhava para todos os lados; o eflúvio do fumo era doce e amendoado. De súbito, um bater de asas grandes zumbiu nos céus e de lá descera uma mariposa cujo tamanho assemelhava-se a uma criança de dez anos de idade. Era alabastrina e felpuda, com duas antenas cheias de bifurcações em tom amarronzado; grandes olhos negros ela tinha e trazia consigo um tipo de incenso aromático. 

— Quem és tu? — Indagou a mariposa; Alice ficou encantada com a beleza pálida e felpuda da criatura. 

— Eu deveria ser Alice, mas estou confusa... — Respondeu, com inocência. 

—Quem és tu? — Insistiu a mariposa. Alice respirou fundo. 

— Eu achei que sabia, quero dizer; quando despertei, eu sabia que antes, em algum momento, eu era eu, mas, desde então, já mudei diversas vezes. 

— Mudou como? — Perscrutou a mariposa. Alice sentou-se, suspirante. 

— Queria um sentido para a vida, tentei alguns, mas perdi-me em todos; agora estou mais longe de mim do que outrora. 

— O que achas desta pedra? — A mariposa falava da pedra que Alice usava como assento. 

— Está confortável, na verdade. 

— O que achas d’esta pedra? — A mariposa parecia não satisfeita com algumas respostas. Alice pensou bem. 

— Eu gosto. 

— Então já sabes que Alice gosta d’esta pedra. 

— Sim, eu sei; mas, isso ainda não traz sentido para minha existência; tu podes gostar desta pedra igualmente e tu não és Alice. 

— Não, a pedra não me agrada. 

— Tu não compreendes! — Alice levantou-se, pretendia continuar seu caminho sem rumo. 

— Ouça. Se o sentido de tua vida fosse encontrar esta pedra, o que farias agora? — Alice pensou mais uma vez; não lhe parecia incrível ter este sentido para a vida, entretanto esforçou-se para compreender a mariposa. 

— Bem... eu estaria eternamente feliz? — Alice duvidou de sua própria frase. 

— Certamente que não. 

— Estás dizendo que a cada novo sentido, preciso de um novo sentido? — A mariposa fez silêncio e Alice a acompanhou. 

— Todo o sentido é uma pedra no final... — Afirmou a mariposa. — E toda pedra pode ser um sentido... 

— Por que precisa ser difícil? — Alice bocejou e caminhou até uma pilha de folhas secas. — Por que não posso apenas saber e pronto? Eu poderia ter nascido para colher maçãs e estar feliz colhendo maçãs eternamente. Mas, não, preciso estar com esse vácuo no coração, esse enigma no espírito. Eu pensei que tudo precisava de um sentido e o sentido precisava de lógica; agora perdi-me de mim mesma, sem sentido, sem lógica, sem fragmentos da minha alma. E agora o sentido é uma pedra e toda a pedra é um sentido... o que isso significa, afinal? — A Mariposa sumira e Alice pensou que havia importunado a criatura; olhou, então para cima, observando a floresta acastanhada. — Se deixo este lugar, vou a outro para sentir as mesmas ausências. Se decido um novo caminho, preciso decidir outro e, na maioria das vezes, estou na solidão que é capaz de aparecer mesmo quando há alguém próximo a mim. O que me parece é que a solidão e a ausência são os únicos e verdadeiros sentidos, o que faz tudo ficar extremamente angustiante. Por que eu viveria para isso? Quem poderia ter sido tão perverso a ponto de dar vida a uma criatura que não pode ser feliz? 

— Senhorita... — Disse uma grave voz aveludada e Alice olhou em direção ao som. Ela imediatamente viu um Antílope negro com grandes e longos chifres. Era um animal forte e alto, não parecia um Antílope como qualquer outro. — Teu falatório inconclusivo está atrapalhando o sono de meus filhos.  

— P-perdoa-me, senhor; já estou de saída... — Alice sentiu-se perturbada por perturbar outrem. 

— Com tantas indagações, talvez devas encontrar a Rainha, pois ela sempre tem uma resposta para tudo.  

— Não sei ao certo se quero respostas... bastar-me-ia a morte, neste caso... 

— Duvido muito que anseies pela morte, senhorita. Se mal sabes lidar com a vida, como lidarás com algo tão mais enigmático? Por acaso sabes o que é a morte? 

— Pensei que fosse o descanso eterno... 

— É o que dizem, entretanto, se te apegas nisso com tanto vigor, como ousas não ver razão para se apegar em qualquer coisa na vida? A vida está ao teu dispor e a morte é o mistério indomável, ainda assim, preferes a morte? Estando sujeita aos horrores que desconheces ou aos prazeres abundantes ou, ainda, estando sujeita ao limbo, onde a ausência é ainda mais colossal do que essa mísera solidão que guardas em teu peito... ainda assim, queres a morte? Isso é estúpido, para não dizer outra coisa... — O Antílope arquejou, um pouco irritado. — Seja o que for, senhorita; se queres a morte ou se anseias por resposta, visite a Rainha. Ela é capaz de te dar tanto um quanto outro. 

Alice sentiu-se bastante afetada pelos dizeres do Antílope; sentiu-se humilhada, em certo aspecto, pelas palavras agressivas disfarçadas de educação. A criatura foi embora, sem esperar um adeus e sem dar um. Alice decidiu caminhar no sentido que o Antílope olhava sempre que mencionava a tal rainha e, com receio de quebrar a lei do silêncio e importunar outras famílias, apenas ficou pensando, sem proferir uma única sílaba. As palavras do Antílope a deixaram sensível e ansiosa, então, mesmo sozinha e mesmo estando obrigada a calar-se por completo, nas profundezas de seu ser, ela buscou se acalmar da única maneira que sabia poder: recitando alguns versos. Por infortúnio, ela não conseguia se lembrar de nenhum e isso a deixou ainda mais aflita. "Esqueci-me de todos os poemas?” pensou “Que atrocidade sem tamanho... as musicalidades foram soterradas, as rimas perdidas, a beleza afogada no esquecimento...” — Alice percebeu que se aproximava um estranho medo. 

— Envolta em névoa onírica estive — ela recitou 

— Pensares sobre tantas incertezas — Voz trêmula no segundo verso. 

— No peito uma saudade ali mantive — Imersa por completa em seu poema. 

— Proste-se, criatura, à Vossa Alteza! — Vociferou alguém e Alice sentiu uma pancada em sua cabeça. Ao buscar entender o que ocorrera, em um galho baixo estava uma simiesca criatura segurando um tipo de báculo curvado com uma maçã, a verter um licor escarlate, cravada na ponta. Ao tocar sua própria cabeça, onde sentira a pancada, Alice tateou em algo úmido e, ao olhar seus dedos, estavam carmim. De imediato entendeu o que se passara. 

— Por que me feriste sem razão? — Ela bradou, em cólera. O símio sorriu, fazendo sons estranhos e desordeiros. Ele tinha uma cabeça amassada e minúsculas orelhas; era todo despelado, sua pele dobrava-se rosada e seu rosto era pálido. Tinha sete membros, três pernas e quatro braços. 

— Estás entrando no reino da Rainha, portanto, deves cumprir os protocolos. — Grunhiu a criatura. 

— Quem és tu? — Alice perguntou, irritadíssima. 

— Sou o Sagui mais fiel à rainha. 

— Não pareces um Sagui... 

— É porque... tive de servir à fascinante Majestade e... como um bom súdito... eu... fui abençoado... Veja só! Agora tenho vários braços e mãos para segurar todas as maçãs que eu quiser. — Alice achou aquilo bastante pavoroso.  

De repente, uma horda de animais de todos os tipos, eles carregavam galhos afiados nas pontas; estavam vestindo máscaras horrendas que lumiavam sob a luz do dia, feitas do que parecia ser fragmentos de vidro e pétalas de um tipo bizarro de planta coralina. Quatro grandes rinocerontes mascarados carregavam um tipo de trono feito de flores e, nele, uma mulher se assentava. Ela tinha os olhos fundos, um tanto cadavéricos; usava uma coroa de pinhas e galhos, tinha ressequidas folhas ao redor do pescoço, alongando-o e, por fim, vestia-se em um vestido na cor vinho, longo, régio e com corações... corações empalhados, de vários tamanhos, de inúmeras criaturas diferentes, como ornamentos em seu vestido. Seus cabelos eram rubros e uma tinta negrume contornava a linha do que seria seu sorriso e ao redor dos seus olhos de precipício. O Sagui escondeu-se atrás de Alice assim que viu a Rainha. Alice, amedrontada, ficou prostrada, em reverência, torcendo, na verdade, para não ser vista abaixada. 

— Parem agora! — Gritou a Rainha. — O que é essa coisa? — Alice demorou um pouco para levantar seu olhar e perceber que a horda terrífica a olhava, embora não tivessem olhos de fato. Alice ergueu-se, apavorada e contida. 

— Sou Alice... — Um silêncio pairou. 

— Arranquem-lhe o coração! — Gritou a mulher, sua voz era estridente e com um fundo agourento. 

— Mas por quê? Eu nada fiz! Não faz sentido! — Os animais se aproximavam, apontando suas lanças. — Vossa Majestade, eu posso lhe ser útil, não?  

— Parem! — Mais um brado da mulher. — Útil? 

— S-sim... Posso ser útil para... — Alice não sabia ao certo o que estava fazendo, tampouco sabia se daria certo. 

— Alice sabe sair do arvoredo — murmurou o Sagui, interrompendo-a. Antes que Alice o contestasse, pois ela não sabia o caminho de volta para à costa, a rainha voltou a praguejar. 

— Isso é útil de fato... a razão da minha existência se pauta em deixar essa floresta imunda! Vá! — Ordenou — Vá à frente, mostrando-nos o caminho. Alice ficou em silêncio enquanto caminhava para liderar à horda. Por sorte, ou não, mais à frente a rainha e seus súditos não podiam ouvi-la, apenas a viam. O Sagui a acompanhou. 

— Por que mentiste? — Sussurrou Alice. 

— Eu não minto! — Retrucou o Sagui e logo Alice percebeu que se tinha algo que aquele símio fazia, este algo era, decerto, mentir. Alice pensou em correr, mas, sentiu que não seria capaz de ir mais rápido que os rinocerontes. Depois, ponderou em como guiá-los todos para um abismo, entretanto, Alice não era uma pessoa má. Notou que as máscaras que as criaturas usavam eram semelhantes às do Ateliê do Artesão e isso a levou a imaginar que os animais estavam dominados por algo que não era eles mesmos. Alice parou seus passos e tomou uma decisão por impulso. Voltou à rainha, deixando o Sagui (que era um medroso) boquiaberto. Mesmo medroso, ele a seguiu. 

— Para que possamos continuar, a Rainha precisara responder às indagações da floresta; eu as escuto e a ti repito. A floresta exige isso, para que o caminho se mostre. — Disse Alice com toda a sua coragem. Um silêncio pairou novamente. 

— Interessante... — Disse o Gato, assustando Alice. Ao olhá-lo, todos ficaram estáticos, exceto ela e gato. 

— Chesir? Como tu... — Alice estava confusa. 

— Estou curioso, quais perguntas tu farás à Rainha dos Corações? — O gato sorria como outrora, um sorriso imenso e sinistro; seus olhos pálidos atentavam-se à Alice. 

— Tu paraste o tempo? — É verdade que quando Chesir se aproximara da primeira vez, tudo parecera diferente e embaçado; uma densidade hialina envolveu tudo e as árvores pareciam mais lentas no encontro com a brisa da floresta; exatamente como acontecia naquele momento! Os sons ficaram rarefeitos, Alice sentiu-se estranha, todavia, ela não imaginara que todos esses sintomas eram culpa do gato, tanto daquela vez quando desta. 

— Péssima pergunta! — Respondeu Chesir. 

— Não, eu não farei essa pergunta para a Rainha. Quero saber como um gato pode parar o tempo! — Chesir ronronou, esfregando-se na árvore em que estava. 

— Ora, todos os gatos fazer isso, não? — Ele sorriu ainda mais e, com uma voz embargada de beleza e astúcia, respondera: — Eu não paro o tempo, Alice. 

— Como não? — Alice estava chocada. Chesir lambeu seu pelo límpido e expressou uma indiferença única, em tom solene. 

— Ele é quem para quando chego. — Afirmara e não havia como dizer que ele não estava certo. Alice sabia o quanto aquele felino era astucioso. — Parece-me que tu não sabes o que perguntará à Rainha. 

— Sei sim! — Alice afirmou, convicta, embora sua voz tenha ficado um tanto trêmula ao lado da exclamação (se, claro, isso fosse uma história escrita). — “Qual é o sentido da vida!” é a primeira pergunta. — O gato apenas a observava. — “Qual é o sentido da morte?” é a segunda pergunta. — Alice esperou uma reação do gato, mas ele continuava observando. — “Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê?” é a última pergunta. — Chesir continuava com seu sorriso inalterado. — O Antílope disse que ela tinha todas as respostas... — Justificou Alice. O felino espreguiçou-se e se aconchegou, preparando-se para uma soneca. 

— Lembre-se, Alice, não importa a resposta, importa apenas a pergunta. — Ele disse, carinhosamente. — Faça-me um favor, se possível. — Chesir, embora sorridente como sempre, parecia um pouco mais sério e menos debochado. — Pergunte-a por que a máscara que ela usa pesa mais que sua coroa. — Alice estremeceu e o gato deu-lhe uma piscadela com o olho direito. Ela sentiu-se profundamente instigada a perguntar àquilo para a Rainha. 

— Vamos, mulherzinha, faça as perguntas! — A voz agourenta ressurgindo, fazendo Alice sentir dor nos tímpanos. 

— Qual é o sentido da vida? — Alice iniciou. 

— Sair dessa floresta imunda! — Respondeu a Rainha, como uma lâmina afiada. Alice começou a perceber profundamente o que o gato quis dizer com sua pergunta à Rainha, pois, além de não haver nenhuma máscara na face da Majestade, ela ainda parecia envenenada com sua própria índole, como as máscaras do Artesão que envenenavam a alma, levando-a a se fragmentar e se perder. 

— Qual é o sentido da morte? — Indagou Alice, mas, naquele ponto, ela realmente não se importava com a resposta. 

— Ser uma ferramenta para me guiar para fora desse mausoléu nojento! — Alice achava a floresta amedrontadora e, de fato, desejou deixá-la o mais rápido possível, porém, havia ali uma beleza estonteante e, por isso, ela não compreendia por que a Rainha dizia aquelas palavras violentas. 

— Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê? — “Penúltima pergunta” Alice pensou. 

— Odiei essa pergunta, próxima! — Alice, que estava perto do trono ambulante, sentiu gotículas de saliva em sua face, tanto foi a impetuosidade da resposta da Rainha. E era chegada a hora. Alice respirou fundo. 

— Por que a tua máscara pesa mais que tua coroa? — Questionou Alice. O olhar da Rainha tornou-se fúria absoluta. 

— Arranquem-lhe o coração, agora! — Gritou a rainha. Os animais mascarados começaram a perseguir Alice que tão logo correu o mais depressa que pôde. A gramínea, que outrora envolvia seus pés com cuidado, agora parecia impulsioná-la para que pudesse fugir com a velocidade precisa. Mas esta ajuda não fora suficiente. Alice sobre uma pilha de folhas secas, caiu em um buraco profundo e infindável. Havia se livrado de ter seu coração empalhado pela rainha, mas agora se via caindo e caindo. Era como um poço profundo e sem sim, símil a um abismo sombrio; ela gritava em desespero e, amedrontada, fechou seus olhos com intensidade e jurou abri-los apenas quando algo acontecesse. É uma pena, pois perdera o espetáculo das fotografias na parede do poço.  

Quando sentiu seu corpo colidir com algo macio, Alice abriu seus olhos lacrimejantes e quando ergueu seu olhar à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora de uma frondosa floresta colossal e, à sua frente, um oceano escurecido e plácido sob um céu rosa-empoeirado. A visão de um veleiro embaçado, atracado à costa, imediatamente a fez se lembrar de tudo o que vivenciara na floresta. O veleiro ainda apertava seu coração, era a mesma cena, o mesmo instante, a mesma visão e, agora, poderia ser uma boa hora para ir até o que lhe parecera uma miragem da primeira vez, pois, talvez não fosse ilusão. Ela poderia pedir ajuda e ser salva de perder-se eternamente no bosque imensurável... era o seu desejo, não era? Ela queria deixar o que lhe parecia uma ilha encantada em maravilhas e horrores, entretanto, Alice viu o esguio coelho de dentes afiados, igualzinho da primeira vez. Ele, com os mesmos movimentos, aparecera, mas, dessa vez, ele enterrou um relógio de bolso.  

Para Alice, tudo fora idêntico ao início de seu estranho despertar, exceto pelo coelho enterrando um relógio. Essa sutil diferença mexeu, profundamente, com Alice. Por que ele desenterrou o relógio no início? Por que o enterrava naquele momento? E se as cenas eram idênticas, como pôde haver uma diferença? Havia tanto o que saber, tantas perguntas, tantos porquês. Como ficaria o Artesão? A Rainha arrancaria quantos corações para empalhar? E a fuinha encontraria ou não a pimenta que a raposa pediu?  

Alice pensava e logo viu o coelho entrando, bastante apressado, para dentro do denso arvoredo. Ela não tinha muito tempo, ela precisava escolher. O que outrora era ausente, ali tornou-se um verdadeiro sentido; Alice queria saber mais sobre a magnífica floresta que lhe parecia tão íntima... tão familiar... Então, tomou a difícil decisão: deu adeus ao veleiro e foi, pela segunda vez, atrás do láparo esguio.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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A Sinfonia de Engrenagens

O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Músicas de inspiração: “Castlevania – The Clock Tower” e “Dark Sanctuary - The Garden of Jane Delawney”

O castelo tinha encantado Minerva de uma maneira tão sublime que fez com que ela decidisse residir ali por algum tempo, completamente absorvida pelos mistérios que pareciam não ter fim. Ao explorar seus corredores, sempre descobria uma nova sala, um armário oculto, cofres selados e livros em línguas desconhecidas, aguardando para serem desvendados. Cada ambiente era único, e cada porta ou escadaria parecia se abrir para uma infinidade de dimensões. Nenhuma janela jamais oferecia a mesma vista que a outra. 

Tomada pelo desejo de entender os segredos daquele lugar, Minerva sentiu em seu coração a necessidade de explorar o castelo cada vez mais, mapeando-o para descobrir até onde poderia ir. Decidiu se acomodar no quarto marcado pelo símbolo do ouroboros na porta, considerando-o a confirmação de seu chamado; ela agora era uma convidada do castelo. Ao despertar, em um horário que imaginava ser pela manhã, ergueu-se da cama, pensativa, enquanto um som distante e metálico começava a penetrar seus tímpanos, como um eco sutil de algo mecânico que se movia em algum lugar. 

Intrigada, ela se levantou, recordando que quando dormiu aquele som parecia estar presente, mas tinha se intensificado. Ela usava um vestido preto longo sem muitos adornos, semelhante a um dressing mourn sem mangas longas, usava uma crinolina por baixo da saia que dava sustento à peça. Ela percebeu que o ar estava mais quente e não frio como de costume. 

 A bruxa trançava o próprio cabelo com movimentos automáticos, os dedos puxando os fios diante do rosto enquanto seus olhos se fixavam no mesmo espelho onde o Ttyphrssett havia se manifestado em sua imagem. Uma melancolia diferente começava a tomar seu coração um peso silencioso que ela evitava nomear. Terminando a trança, prendeu-a em um coque apertado, fixando-o com seu broche de mariposa pensando em evitar o calor. 

Naquele momento o que sentia era aquele sentimento oriundo da alma, um eco do medo primitivo que habita o inconsciente humano e causa o medo do escuro e do abandono. Foi com essa sensação que ela despertou naquela suposta manhã, enquanto o som metálico de engrenagens trabalhava à distância, reverberando como um presságio e entregando um recado do calor.   

Seu olhar se voltava incessantemente para a própria imagem no espelho, tentando desvendar o significado do que via. A tempestade de neve já se dissipara há algum tempo, mas a mente de Minerva continuava nublada, e ela não conseguia lembrar quando isso havia ocorrido. O que a inquietava, no entanto, era o som distante das engrenagens, que pareciam eternas. Não sabia há quanto tempo escutava, mas estava certa de que sua percepção sonora se alterara. Já fazia tanto tempo que, em certos momentos, esquecia daquelas engrenagens, até o instante em que o som se infiltrava novamente em sua consciência.  

Para esquecer aquele som ela resolveu exercer sua prática meditativa, então sentou-se no centro do seu aposento para se concentrar. Abaixo dela, uma linha circular azulada pairava no ar enquanto estava suspensa sobrenaturalmente, o traço da figura se desenhava em um brilho prateado-azulado, expandindo-se e contraindo-se em uma cadência hipnótica, refletindo o fluxo de sua própria energia. No entanto, ela se desconcentrou pelo barulho e toda a imagem se desfez, ela parou de flutuar.  

Por um momento, Minerva olhou ao redor do quarto, inquieta, tentando localizar a origem do som que ecoava em sua mente, mas sem sucesso. Nos dias que passou mapeando o castelo, ela havia se dedicado a organizar o ambiente, decidida a fazer com que sua estadia, embora temporária, fosse confortável. Com determinação, conseguiu os suprimentos necessários para se manter ali, adaptando-se ao peculiar ritmo daquele lugar. 

Ela continuou a olhar para os lados, observando os móveis de madeira escura, as paredes com rachaduras, o piso, os candelabros do quarto. Tudo parecia imóvel enquanto o som das engrenagens continuava a ecoar. Ela suspirou, chateada, e cutucou o ouvido direito com o dedo, tentando aliviar o zumbido agudo causado por conta do som. Desconcertada por aquele fenômeno não parar, ela decidiu investigar, em outros momentos já tinha ouvido sons estranhos e passos fantasmagóricos por lá, mas nada a tinha incomodado tanto quanto aquele som metálico e que parecia aumentar a cada momento.  

Minerva então deixou seu aposento e caminhou pelo longo corredor, tentando seguir o som que parecia um farfalhar metálico, entrando em sua mente e se intensificando gradualmente. Incomodada, ela avançava a passos firmes, observando atentamente cada detalhe ao redor: os móveis de mogno, os quadros nas paredes, retratando paisagens estranhas e cósmicas. De repente, as engrenagens cessaram, e um silêncio profundo tomou o ambiente. Mas Minerva não hesitou. Continuou em frente, avançando em direção às escadarias encaracoladas, determinada a descer e descobrir a origem daquele som perturbador. 

Ela iluminou o espaço sombrio, já que a ausência de janelas ou vitrais na escada impedia que qualquer luz natural adentrasse. Mesmo com o sol a brilhar no céu, lá fora, a atmosfera interna parecia ser perpetuamente escura. Enquanto descia os altos e longos degraus da escadaria, um som peculiar ecoou em seus ouvidos uma risada leve e despreocupada, que parecia vibrar nas paredes, como um sussurro fantasmagórico. Talvez fosse um dos espíritos que perambulavam pelos corredores do castelo, pensou ela, tentando não se deixar levar pelo desconforto. 

Era uma risada infantil, suave e enigmática. Por um momento, Minerva teve a impressão de ouvir seu nome sussurrado pela mesma voz que ecoava a risada. Seu coração acelerou, e, em um reflexo, ela intensificou a luz da esfera em suas mãos, tentando iluminar os cantos escuros ao redor. Porém, o que encontrou foi apenas a infinidade dos degraus que continuavam a descer quase sem fim, e nenhum sinal de presença alguma além de si própria. 

Ao atravessar um grande portal, Minerva chegou ao hall de entrada do castelo, um espaço que irradiava uma aura de magia enigmática. Ela caminhou alguns passos, os ecos de seus pés pesados ressoando no piso, até avistar uma garotinha loira, de cabelos curtos, correndo rapidamente. A menina entrou em uma das portas, e com ela, o sussurro e a risada infantil que Minerva havia ouvido antes. A menina usava um delicado vestido branco, que contrastava com um corset de acobreado, ajustado em sua figura, moldando sua silhueta com precisão. Nas pequenas mãos, um par de luvas na mesma tonalidade de cobre, projetadas com cuidado para lidar com maquinários. 

 Por um momento, Minerva pensou em ignorar, acreditando ser apenas mais uma visão proferida pelo próprio castelo. Mas algo em sua intuição a instigava a seguir a garota. Sem mais hesitar, Minerva a seguiu apressadamente, enquanto a menina chamava: “Vem comigo!” A voz dela ecoava de forma doce, e o risinho juvenil, brincalhão, parecia contagiante, mas também provocava em Minerva, uma irritação crescente, como se fosse uma brincadeira não solicitada. 

Ao parar por um momento, ela contraiu a mandíbula após suspirar e cruzar os braços. Simplesmente não estava disposta a perseguição. Ela revirou os olhos, exalando um sopro sutil pelas narinas, um pequeno jato de ar quente, quase inaudível, mas carregado de impaciência.  

As sobrancelhas de Minerva se arquearam, denunciando seu desagrado. Ao se virar e começar a regressar até a entrada, a menina surgiu diante dela, com os olhos grandes e arredondados, da cor de mel, como se refletissem a luz com um brilho estranho. Seu cabelo loiro e curto emoldurava seu rosto, formando uma franja arqueada como uma meia-lua, enquanto seus lábios permaneciam cerrados, formando uma linha rígida.  

— Quem é você? — Minerva deu de ombros e estreitou os olhos interrogando-a, avaliando a presença inesperada. 

— Eu sou a responsável pelas máquinas do castelo, não sabia? — a menina posicionou as mãos sob a cintura.  

— Então existem mais pessoas aqui? — Minerva pôs a mão no queixo pensativa fazendo um arco sob seu lábio inferior. — Sou Minerva Caligari princesa do reino de Áugures, mas no momento sou apenas Minerva.  

— Muito bem apenas Minerva, eu me chamo Evelyn Dubois, estive te observando você causou um alvoroço e tanto com a sua chegada, não foi? Acho que talvez você possa me ajudar. Perdão pela forma como me aproximei, só queria me divertir um pouco, você sabe... O castelo pode ser meio parado às vezes! 

— Na verdade, talvez você me ajude a encontrar de onde vem aquele barulho insuportável.  

— Eu ia te levar em um lugar, tem uma coisa acontecendo no céu que acho que você vai se interessar. Você sabe, o céu aqui no castelo não é “apenas o céu” como você também não é “apenas Minerva”. 

A bruxa deu um passo para trás, lançando um olhar de incredulidade para a menina, tentando compreender como alguém poderia ser tão extrovertido e audacioso.  Algo na postura da garota a fazia sentir um estranhamento, como se ela própria estivesse diante de um reflexo de sua juventude curiosa, intuitiva, impetuosa. Era como se a menina fosse uma versão mais jovem de si mesma. 

A garota começou a andar saltitante à frente, acenando para que Minerva a seguisse. Sem hesitar, ela a acompanhou, atravessando um dos portais do hall que as conduziu a um corredor mais estreito. A iluminação era tênue, mas não vinha de candelabros; àquela altura, a esfera luminosa de Minerva já havia sido dispensada por ela própria. O corredor não possuía janelas, e as únicas coisas visíveis nas paredes eram tubulações metálicas que serpenteavam como veias expostas. O piso era coberto por um tapete vermelho, que se estendia até o final do corredor, onde uma porta de cobre estava embutida na parede. 

Aquela porta chamou a atenção de Minerva, seus olhos se arregalaram ao ver engrenagens que se retorciam por toda a estrutura. Engrenagens de diferentes tamanhos interligavam-se em um mecanismo complexo, algumas girando lentamente com um leve chiado à vapor, como se a própria estrutura tivesse força própria. 

— Você vai ver que alguma coisa aconteceu aqui no castelo, o céu anda estranho ultimamente, não sei se você já foi lá fora, mas o céu está estranho. — A menina se aproximou da porta e tirou de dentro do colarinho do vestido uma chave, com ela destravou a tranca da porta e com uma reverência, pediu que Minerva adentrasse o lugar após ela mesma passar pela porta. 

— Bem-vinda à minha casa, apenas Minerva!  

O teto alto era sustentado por vigas de ferro forjado, de onde pendiam lâmpadas elétricas presas a braços mecânicos, lançando uma luz amarelada e instável sobre o ambiente.  

Os olhos de Minerva brilharam ao ver o que estava por trás daquela porta. Era um lugar estranho e diferente de tudo o que ela já vira, parecia-se com o cômodo de uma casa e ao mesmo tempo com um laboratório. O teto alto era sustentado por vigas de ferro, de onde pendiam luzes. Extasiada pela visão de tantas coisas diferentes ela apoiou a mão na porta de engrenagens e entrou no local tomando cuidado ao descer dois degraus.  

Minerva avistou duas janelas redondas ao fundo do aposento e ao centro estava uma mesa de mogno. Próximo à mesa, em meio ao emaranhado de fios e tubos, um homem repousava em uma cadeira de rodas de estrutura reforçada, com pistões hidráulicos adaptados ao eixo das rodas.  

Seu corpo era uma fusão grotesca de carne e metal: o rosto, marcado por cicatrizes profundas, trazia uma expressão vazia. Minerva o fitou curiosa e depois dirigiu o olhar para Evelyn.  

— Este é o meu pai ele não fala muito, venha comigo o que quero te mostrar está bem ali.  

Evelyn se posicionou em frente a uma das janelas aguardando que a bruxa se aproximasse e quando ela o fez a garota acenou com a cabeça para que ele olhasse pela grande janela redonda. Mais uma vez os olhos de Minerva foram surpreendidos, no céu azul cobalto dois sois ostentavam seu poder bem próximos um do outro, dourados com um aspecto metálico. Impressionada ela baixou o olhar para a paisagem estranha onde avistou um jardim de flores estranhas que apontavam para os dois sóis como fazem as margaridas. Ao longe ela avistou uma estufa vítrea que cobria uma parte daquele lugar.  

— Evelyn, o que está acontecendo lá fora? — perguntou Minerva tentando não demonstrar sua recente curiosidade aflorada.  

— Realmente não tenho o que dizer sobre os sois, mas acho que a máquina do papai está funcionando novamente. Você sabe, ele era um excelente inventor até o incidente. Eu queria continuar o que ele começou procurando o “éter etéreo” achei que você pudesse me ajudar. O sol maior está se aproximando de nós.  

— Não sei como posso te ajudar, mas isso com certeza explica o calor no castelo, temos dois sois pairando sobre nós.  

— Eu acho que se descermos no jardim mecânico encontraremos o que eu procuro, você vem comigo?  

— Deve ser fascinante, por favor, me guie até o local! 

Após as palavras de Minerva, o som das engrenagens retornou, mais intenso e penetrante do que antes. O ruído reverberava pelo ambiente, fazendo Minerva cerrar os dentes ao sentir um zumbido incômodo nos ouvidos. Evelyn, alarmada, correu até seu pai, que se remexia inquieto na cadeira. 

Com um movimento brusco, ele puxou uma alavanca lateral, ativando o mecanismo das rodas. A estrutura metálica da cadeira estremeceu e liberou um jato súbito de vapor por um pequeno cano, enquanto girava descontroladamente pelo aposento. Evelyn tentou conter o movimento, segurando as laterais com força, até que finalmente conseguiu estabilizá-la. 

— Meu pai... — ela começou ajeitando a postura dele e lançando um olhar rápido para Minerva. — Ele sempre foi obcecado pelo trabalho. A maior parte do que existe aqui foi criação dele... um grande inventor. 

Minerva observou a cena com atenção, seus olhos percorrendo os detalhes da cadeira e da sala, absorvendo cada peça, cada engrenagem que compunha aquele estranho mundo. Algo ali parecia deslocado, desconexo. 

Enquanto seguiam em direção à porta, Minerva finalmente quebrou o silêncio: 

— Esse barulho... — ela disse, com a voz baixa, mas firme. — O som das engrenagens. Parece vir de todos os lados e ao mesmo tempo de um lugar específico. O que é? 

Evelyn hesitou por um breve instante. Seus dedos tocaram as luvas, apertando-as levemente antes de erguer o olhar e responder com um tom despreocupado: 

— Apenas mais uma das invenções do papai como eu te falei. Não se preocupe, vamos conseguir consertar a máquina, vamos ao jardim agora... 

Havia algo diferente na forma como ela falou, na leveza de sua voz, que fez Minerva estreitar os olhos. Ainda assim, decidiu não pressionar... pelo menos por enquanto. 

 

JARDIM MECÂNICO 

 

As duas estavam diante da entrada do jardim, uma estufa, Minerva pôde ver através do vidro abobadado plantas exóticas. Para entrar ali, Evelyn, ao seu lado sorriu de maneira enigmática e, sem esforço aparente deslizou os dedos enluvados por um painel que ficava alinhado aos tubos da estufa. Um clique seco ecoou e a estrutura de metal diante delas começou a se abrir. 

O ar que escapou do outro lado carregava um aroma diferente: uma mistura entre o perfume delicado de flores e o cheiro ferroso de metal. Minerva franziu o cenho, sentindo a atmosfera mudar conforme avançavam. Seus pés afundavam na grama espessa.  

Elas atravessaram o limiar da estufa e adentraram em um bosque incomum, fora do espaço vítreo chegaram em uma área livre à primeira vista, parecia uma floresta densa, mas logo a realidade se torceu diante de seus olhos. O solo era um tapete vivo de raízes metálicas entrelaçadas, e sobre ele, flores mecânicas brotavam com uma estranha elegância. Seus botões de cobre e bronze se abriam e fechavam suavemente, liberando vapores azulados que serpenteavam pelo ar como uma névoa brilhante. O bosque se estendia ao redor como uma entidade viva, pulsante, ciente de suas presenças.  

Minerva deslizou a mão pelos poros de uma flor próxima, sentindo sua textura fria e, ao mesmo tempo, orgânica. Ela ergueu o olhar para Evelyn, que girava sobre os próprios pés, admirando as flores. 

— É magnífico, não acha? — perguntou a garota loira, sua voz carregando uma empolgação infantil. 

— Esse lugar... — murmurou Minerva, sentindo a pressão ao seu redor se intensificar. Era como se o próprio jardim as estivesse avaliando, estudando sua presença. 

— Ele respira — disse Evelyn com naturalidade. — Está vivo. 

O vento cortou entre as engrenagens ocultas, produzindo um som que não pertencia ao mundo dos vivos. Um sopro metálico, como algo que respira sem precisar de pulmões.  

Uma sensação de euforia pela nova descoberta tomou Minerva por alguns instantes, mas ao mesmo tempo enquanto ela sentia a aura daquela atmosfera estranha o medo tocou seu coração por alguns segundos, ela não sabia o que esperar daquele lugar. A beleza e a estranheza estavam unidas ali! 

Evelyn caminhou saltitante novamente, desta vez puxando Minerva pelo braço arrastando-a até o que ela chamou de “máquina do éter”. Foi quando Minerva sentiu o ar ao seu redor tornar-se mais denso conforme se aproximavam-se daquilo. O cheiro metálico era forte, misturado ao vapor que se dissipava em fumaça cada vez que escapava pelos canos. À sua frente, erguia-se uma estrutura colossal, um emaranhado de cobre, aço e outros metais que pareciam vivos, pulsando com um movimento incessante. 

A máquina, não se parecia com nada que Minerva já tinha visto, ela exibia engrenagens de tamanhos distintos que giravam entrelaçados. Alguns dos mecanismos moviam-se em padrões intrincados, enquanto outros pareciam reagir a estímulos invisíveis, rangendo de maneira ritmada. O vapor se esvaía em intervalos regulares, exalando um chiado abafado, e os cabos de força serpenteavam pelo chão como raízes, conectando-se ao castelo em tubos que seguiam pelo chão.  

Minerva arqueou as sobrancelhas, fascinada e desconfiada. Aquilo parecia um coração. Ela cruzou os braços e lançou um olhar para Evelyn indagando-a: 

— O que exatamente é essa coisa? — sua voz soou firme, mas havia um brilho curioso em seu olhar. — E por que esse barulho é incessante? 

Evelyn desviou os olhos por um instante, balançando a cabeça levemente antes de soltar um suspiro curto. 

— É a máquina do meu pai, eu já tentei consertar, mas ela está assim a um tempo. Sempre esteve aqui, sempre funcionou assim. Ela só está mais barulhenta porque eu andei mexendo um pouco nela, sabe... Os sois lá em cima estão ligados ao barulho também, estou tentando consertar isso. E você vai me ajudar! 

Minerva percebeu uma mudança no tom da garota. Algo ali vibrou além do metal e do vapor. O jeito de se comportar de Evelyn havia mudado em um lampejo, como se não fosse mais ela mesma, seus movimentos se tornaram erráticos, e sua voz oscilou, mudando de tom. 

De repente, Evelyn riu, mas não era sua risada natural. Era algo rouco, fragmentado, como se outra pessoa falasse através dela. Seus olhos, antes vivos e cheios de curiosidade, tornaram-se vidrados, e suas palavras se transformaram em um murmúrio. "O éter etéreo... a substância primordial... Minerva, você veio para decifrar o mistério de tudo, não veio?", “Você é a chave para a transmutação, não é?”, “A substância das substâncias está em você não está?” sua voz alternava entre grave e aguda em uma cacofonia. 

Minerva franziu a testa e deu um passo para trás, observando Evelyn se mover. A garota gesticulava com a cabeça se inclinando de um lado para o outro aguardando uma resposta.  

Diante delas, a grande máquina de engrenagens liberava vapores e chiados metálicos. A estrutura imponente de cobre e aço vibrava com vida própria, alimentada pelos cabos de força que vinham do castelo. O som das engrenagens reverberava, preenchendo o ar com um ruído quase hipnótico. 

"Ela precisa entender...", murmurou Evelyn, e, num estalar de dedos, um rangido mecânico ecoou. Evelyn ergueu as mãos como um maestro. Um som de rastejar pôde ser ouvido enquanto a garota fazia movimentos frenéticos como se controlasse algo, por trás de Minerva surgiu o que parecia ser uma imensa planta carnívora, com tentáculos mecânicos se estendendo com movimentos sinistros exibindo estrias azul cobalto. O interior da bocarra era repleto de dentes afiados, ela era a perfeita réplica de uma dioneia.  

Minerva reagiu usando sua magia, mas os tentáculos da criatura foram mais rápidos. Enroscando-se ao redor de seu corpo, prenderam-na em um aperto impiedoso. A mandíbula de metal se abriu, e Minerva sentiu o ar ficar pesado ao perceber que seria engolida, enquanto Evelyn prendia cabos de força em si própria. A garota, ou o que quer que estivesse no controle dela, observava com um sorriso aberto já conectada aos cabos.  

Irritada, Minerva evocou a sua aura de loba um tipo de sombra fantasmagórica que emanava de seu corpo quando ela precisava se defender, uma parte de sua alma transmutada, seu corpo começou a brilhar em uma aura espectral dentro da mandíbula metálica, e, de dentro daquilo algo grande se remexia abatendo a estrutura da mandíbula, um uivo ressoou pelo ar quando a aura de loba se manifestou por completo. Energias bruscas pulsaram em sua pele, e com um único golpe ela quebrou a máquina, um rugido feroz ecoou pelo jardim arrebentando os dentes longos do autômato. Minerva saltou e ao pousar no chão ajoelhada a sombra de loba podia ser vista em suas costas.  

A energia liberada fez os tentáculos da planta mecânica se retraírem, e a criatura recuou emitindo sons arranhados como se estivesse empenando, o que antes era a boca da dioneia agora estava no chão do jardim. Seus olhos queimaram em fúria ao encarar Evelyn, que cambaleava para trás, como se estivesse perdendo o controle do próprio corpo. 

Evelyn deu um passo trôpego para trás, uma luz dourada em seus olhos se intensificou, e sua voz se fragmentou em ecos múltiplos. "Não tente me impedir, Minerva... Eu... eu posso ver tudo agora...! O éter etéreo... é a conexão!” O som das engrenagens parecia mais alto que antes enquanto a menina sentia o vórtice de energia.  

A loba espectral rugiu e então a própria Minerva se contorceu e assumiu por completo a sua forma de loba. Seu corpo se expandiu, os músculos pulsando com a energia bestial enquanto sua pele era tomada por uma pelagem negra como a noite. Ossos estalaram e cresceram, moldando uma forma lupina imponente. Suas garras alongaram-se grotescas e seus olhos brilharam com um azul intenso e selvagem. 

Num único salto, ela avançou contra a máquina afundando as longas patas e as enormes garras na máquina, ela atravessou a estrutura com sua força. O aço rangeu sob sua força brutal enquanto suas patas rasgavam cabos e trituravam engrenagens, espalhando faíscas pelo ar como brasas incandescentes. Um chiado enguiçado escapou dos circuitos destroçados, seguido por um ruído de ferro retorcido quando a estrutura cedeu. Um estrondo ecoou quando o núcleo se partiu ao meio estremecendo antes de explodir em um estrondo ensurdecedor, lançando fumaça e fragmentos de parafusos e roscas. 

Evelyn gritou e seu corpo foi lançado para trás, os cabos se rompendo um a um. O brilho dourado em seus olhos piscou freneticamente antes de apagar completamente. O sol acobreado tremeu no céu, como se tivesse perdido sua âncora o que fez com que ele lentamente, recuasse para sua posição original muito além do alcance dos olhos e as flores que apontavam para ele inclinaram-se como se estivesse murchando.  

Observando os destroços fumegantes ao seu redor pegarem fogo em pequenas explosões barulhentas, Minerva respirou fundo. A loba foi tomada por uma energia azulada que a envolveu esfericamente até surgir como humana novamente, o vestido rasgado no ombro e o cabelo solto e esvoaçado.  

Evelyn estava desacordada sob a grama, pálida e ofegante. Sua expressão era de confusão e medo. "Minerva...?", ela murmurou desta vez com sua própria voz. Minerva a encarou por um longo momento antes de finalmente relaxar os ombros. Uma sensação estranha de melancolia e euforia atiçou novamente o coração da bruxa, aquele evento a fez se sentir tonta e extasiada.  

Ela ajoelhou para acalentar a garota no colo, muitas perguntas ecoavam na mente dela, enquanto tentava acalmar a garota que agora parecia frágil e indefesa em seus braços. “Como funcionava aquele jardim? O que é o éter etéreo? Quem mais vive neste castelo?”. Minerva se ergueu com dificuldade, levando a jovem nos braços, seus olhos desviaram a atenção da garota para a máquina, percebendo o silêncio.  

Ela ergueu o olhar para o céu e notou que o segundo sol estava mais distante que da última vez que vira. A passos lentos, ela caminhou em direção à saída do jardim mecânico com Evelyn desacordada em seus braços. A máquina parou finalmente, as engrenagens e o som cessaram, ela podia descansar. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Dois Sóis

Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. Agarro-me a uma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Em que ponto do espaço e tempo nós estamos? Não há nenhuma ciência empírica para descrever o porquê destes dois sóis. 

Agarro-me a uma cansada luneta, ansiando ver o despir do espaço. A ferrugem descortina os meus sonhos, enquanto atravesso a senda galopando com meu cavalo biônico. Sobrevivente, astuto, de uma recém tempestade. 

Enquanto isso, locomotivas nos agridem com a verdade de que a efemeridade não é exclusiva das rosas. Preciso, portanto, alertar a Camarilha, aos meus irmãos em sangue, de que os imortais também possuem prazo de validade. 

Tudo graças a uma criatura que ousou brincar girando, insistentemente, a roleta do tempo. Preciso dar um jeito, pois nutro uma afetividade pela vida que me escorre entre os dedos como areia cósmica. 

Os dois sois refletem-se em meus olhos vítreos enquanto contemplo o horizonte partido. É na confluência destes astros que percebo o quanto somos transitórios — até mesmo nós, os que bebemos da taça da eternidade. 

A Camarilha não aceitará facilmente este prenúncio. Seremos perseguidos como heresias ambulantes, portadores de um evangelho que ninguém deseja ouvir. Mas a verdade é implacável. 

Meu cavalo biônico relinchou três vezes quando avistou o fenômeno. Seria ele mais sensível que seus mestres? Talvez os mecanismos artificiais compreendam melhor as engrenagens do universo do que nós, presos à ilusão de nossa imortalidade. 

Sigo adiante, com a luneta pendente do pescoço e o peso da revelação nas costas. Dois sois. Dois destinos. Uma única e irrefutável sentença: até os imortais são feitos de tempo. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Pergaminhos esfumaçados

Nos ermos turvos, sob a névoa espessa, | Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado, | corações de cogs, reluzindo em pressa, |
pulsam mecânicos num tempo quebrado…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Nos ermos turvos, sob a névoa espessa, 
Engrenam-se os dias num ciclo enferrujado, 
corações de cogs, reluzindo em pressa, 
pulsam mecânicos num tempo quebrado.  

Óleo e fuligem tingem a alvorada, 
Zepelins vagam por céus cor de chumbo, 
na ruína que ao mundo foi dada, 
heroína avança em um rastro profundo. 
prateados fios caem sobre o aço, 
sua cauda felina rasga a tormenta, 
buscai o grimório do arcano nefasto,  

A magia milenar que o tempo fomenta. 
os homens são máquinas de fria ilusão, 
ela é o sussurro da última oração. 
escombros de ferro, urde-se a lenda, 
entre válvulas rotas e estalidos vis, 
heroína avança, garras em contenda, 
sangrando entre sombras de fumos febris.  

No peito dos homens, cogs reluzentes, 
girando em delírios de cobre e vapor, 
são máquinas mortas, de sonhos ausentes, 
moldadas em fardos de graxa e torpor, 
sob as ruínas de Londres caída, 
câmara oculta de um templo profano, 
Grimório pulsava – em runas, em vida,  

Sorvendo dos tolos seu plasma insano. 
com dedos feridos, no aço e no pus, 
abrira suas páginas rubras de luz. 
páginas vivas, trêmulas, sangrentas, 
gravavam-se em fogo mistérios arcanos, 
ritos profanos, promessas sedentas, 
versos que outrora arruinaram humanos.  

As engrenagens dos homens gemiam de medo, 
giravam rangendo em preces de aço, 
lendas diziam, num tom sem enredo, 
que aquele grimório rasgava o espaço, 
a felina de prata, sem receios, 
sorriu ao sentir-lhe a febre imortal, 
o sangue pingava em signos alheios,  

A tinta vermelha selou o final, 
no véu do vapor e da morte impiedosa, 
renasce a magia—sombria e grandiosa. 
o sangue, agora em chamas, se espalha, 
num rio escarlate que corre sem fim, 
a névoa densa se torna uma muralha, 
uma barragem da magia que se afim.  

Engrenagens, agora, começam a cantar, 
ritmo insano de um mundo desfeito, 
a heroína, sem medo, a desvendar, 
Adentrai o portal se abrir no firmamento estreito. 
O grimório, pulsando, desenha estrelas, 
círculos sagrados, feitiços infinitos, 
entre os ventos, exalam-se centelhas,  

Fragmentos do passado, ecos de gritos. 
ela avança, sua cauda serpenteia, 
nos olhos, a chama da alma se enleia. 
ao tocar o livro, o mundo se rasga, 
a névoa se parte, o universo traga 
novas realidades, horizontes de dor, 
a magia toma forma de puro fervor.  

Na fumaça, o sangue se entrelaça ao metal, 
a heroína, agora, não é mais mortal. 
no instante sombrio em que a carne se funde, 
o grimório pulsa, a realidade implode, 
e o céu se parte, a terra se afunde, 
a magia em carne e engrenagem explode.  

Cogs e ossos se entrelaçam em ruínas, 
ventos cortam a pele como lâminas, 
a fumaça dança em círculos infernais, 
olhos da heroína, como cristais, 
refletem o abismo que a tudo consome, 
o sangue agora escorre, quente e negro, 
derramando-se no abismo onde o nome 
do passado ecoa, profundo e seguro. 

 Ela sente o peso das estrelas caídas, 
suas garras dilaceram o véu do medo, 
as correntes de ferro, agora perdidas, 
rasgando o espaço, cantam o segredo. 
com cada passo, o sangue é mais espesso, 
o metal da alma, no instante, se confesso.  

Em seu peito, os cogs gemem de agonia, 
transformados em grilhões de pura alquimia. 
no abraço final da magia e da dor, 
ela transcende, num grito, o próprio terror. 
o grimório, agora em sua mão sangrenta, 
liberta o caos, a noite eterna e lenta, 
o universo se quebra, se reinventa, 
o sangue, em névoa, em nada se ausenta.  

No vórtice da destruição, a carne se retorce, 
o grimório clama, e a terra se desfez, 
o grito da heroína é um rugido que torce 
os céus e o inferno, tudo a seus pés. 
o sangue que pulsa já não é mais seu, 
mistura-se ao metal, à fumaça, so a lua, 
em cada veia, o caos toma o troféu, 
as engrenagens batem, como martelos  

A névoa, agora densa e viscosa, 
envolve tudo, sem alma e sem fim, 
engolindo os homens, as máquinas, a rosa, 
transformando em nada o que restou de mim. 
olhos de prata, refletido o abismo, 
O fim do mundo se torna uma dançarina, 
garras afiadas, olhos sem raciocínio, 
ela é a rainha de uma era divina. 
Os céus, rasgados, exalam dor e fúria, 
o sangue da heroína inunda os rios, 
cada passo é um eco de pura loucura, 
seu corpo, agora, já não sente os próprios fios. 
A magia se torna carne, alma e choro, 
As engrenagens se perdem, o tempo é quebrado, 
nas sombras que brotam do ouro,  

Ela se ergue, destroçando o passado. 
O grimório ri, e o sangue se mistura, 
um cântico ancestral, 
um cântico de loucura. 
O vapor sobe, quente como o inferno, 
máquinas rugem em dor, sem piedade, 
os pistões estalam, um som terno, 
que quebra o coração da realidade.  

Nos corredores de ferro e latão, 
a heroína avança, seu corpo de aço, 
cada passo é marcado pela tensão, 
wm meio ao fumo, ao estrondo, ao fracasso. 
engrenagens douradas, girando sem fim, 
nos peitos dos homens, enredados em dor, 
o som das engrenagens, como um clarim, 
convoca a revolta de um mundo sem cor.  

Zepelins de ferro cortam o céu de chumbo, 
com hélices afiadas, cortando a névoa espessa, 
são sombras imensas que ecoam no fundo, 
onde o grimório sussurra, e a morte não cessa. 
a cidade se ergue em ruínas de aço, 
com tubos de vapor serpenteando o ar, 
Vossa heroína, entre chamas e estalos, 
buscai o poder perdido, o segredo a revelares. 
Nos olhos prateados, a verdade não é suave, 
Ela sente a fúria das rodas a girares, 
O grimório, com letras antigas e graves.  

É a chave para o futuro, a destruição dos lugares. 
A névoa se espessa, o metal se corrompe, 
Mas ela, com a cauda felina e o coração ferroso e enevoado, 
Sabe que no fim, o mundo será seu campo de combate, 
onde o vapor e o sangue dançarão em união, 
quando a última engrenagem finalmente cair, 
o vapor consumir tudo ao redor, 
ela será a rainha do caos, pronta a seguir, 
pelas ruas de ferro, em sua jornada sem cor, 
O aço resplandece sob a luz trêmula,  

Vapor sibilando por tubos que se torcem, 
relógios batem, como pulsos, a mil por hora, 
enquanto o céu de névoa em cinza se esconde, 
nas fornalhas ardentes, o cobre se funde, 
Ao som das marteladas ressoa em cada rua, 
Zepelins flutuam em trajetórias profundas, 
cortando os ventos com lâminas de lua. 
engrenagens giram nos peitos dos homens de ferro, 
chorando parafusos no ritmo de dor, 
suas veias são fios, suas almas, um erro, 
com corações mecânicos, sem nenhum fervor.  

A heroína avança, olhos de prata em fúria, 
sua cauda felina brilha entre fumaça e calor, 
o chicote cósmico e alma de pura armadura, 
ceifai o ar, desafiando o mundo, com ardor. 
O grimório, preso entre chamas e carvão, 
Desenha feitiços nos céus corroídos, 
Palavras antigas, em alfabeto de metal, 
Chamam as máquinas a se rebelar, em gritos perdidos.  

Os pistões rugem, as caldeiras explodem, 
ela, com garra, não teme o fim da linha, 
dentro de seu peito, o fogo que não se apaga, 
o espírito indomável de uma era antiga e divina. 
becos sombrios, o vapor espesso se eleva, 
ela, entre o caos, nunca perde a direção, 
magia milenar agora se revela, 
o grimório brilha, em um ato de redenção.  

A cidade de cobre e ferro, em ruínas, ecoa, 
o vapor e o sangue se tornam a canção, 
Mas a heroína, com garras afiadas, corre, 
pela neblina, onde a mágica e o aço se entrelaçam em união, 
entre as chamas e a escuridão, surge a besta, 
Uma máquina de escrever, com engrenagens cintilantes, 
Suas teclas de cobre e ferro, como uma orquestra em festa, 
Rangem em compasso, marcando o tempo a se quebrar.  

O som das letras, em um clique ancestral, 
Se mistura ao estrondo dos pistões girantes, 
Cada palavra, uma sentença fatal, 
Rasgando o véu da realidade a se distorcer no ar. 
Ao lado da heroína, com passos silenciosos, 
Um gato mecânico, de olhos dourados e frios, 
Seu corpo forjado em aço e fios, misteriosos, 
Gira como um relógio, em movimentos vazios.  

Suas garras, afiadas como lâminas de prata, 
São cogs dourados, ressoando em pura precisão, 
Seu miado, agora, é um som de engrenagens, que desata 
Os portões da magia, em busca de redenção. 
A heroína, com cauda felina e alma de ferro, 
Toca as teclas da máquina, sua voz sussurrando, 
Palavras antigas, com a dor de um desespero, 
Que ecoam pelo ar, e o mundo vai ruindo, tremendo, indo.  

O gato, com suas engrenagens robóticas pulsante, 
Move-se em espiral, como o eixo de um destino, 
Observando a escrita que começa a se transformai, 
Com seus olhos de aço, fitando o abismo divino, 
o grimório se abre, as palavras ganham poder, 
enquanto a máquina de escrever grita seu grito final, 
névoa se espessa, o mundo começa a se perder, 
a heroína, com coragem, corta o mal.  

Em um último suspiro, o gato de metal ruge, 
suas garras cortando o ar como lâminas de dor, 
com o grimório nas mãos, a batalha surge, 
entre o vapor e o sangue, onde tudo é terror. 
na cidade de cobre e chuva ácida, onde os relógios morrem, 
as engrenagens soam como lamentos perdidos, 
vossa heroína e seu gato, juntos, desafiam os deuses, 
ali, um mundo onde as palavras se tornam gritos esquecidos.  

Através de uma meditação em que Drácula forneceu em agradecimento 
pelo exício dos dêmonios em seus quadros e tomos, 
Arale fora capaz de ver, seu passado, um pouco de sua origem 
Sua ancestralidade, uma raiz nebulosa, 
Na era vitoriana, a fumaça alça, 
Entre engrenagens e ruídos do ferro, 
Caminha a felina, em noite de prata falsa, 
Caçadora de demônios, no silêncio do ermo.  

Com cauda a brilhares, em sombras se entrosam, 
Suas mãos comandam a máquina de escrever, 
Cada palavra, um feitiço, a escuridão, despojam, 
E a morte àqueles que ousam se erguer. 
Banida da Igreja dos ossos de Yesh, 
Por se aliar às letras negras, no abismo, 
Sua alma é marcada, como um flagelo, 
A ordem antiga a teme, e se faz prismo. 
Na sua carne, sangue de uma linhagem rara, 
Arale Fayax, herdeira de dor e guerra. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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