Liturgia da Noite

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante,
e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante,
eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,
carregando em meu peito a sombra da tua partida. 

A noite abre seus braços como uma mãe silenciosa,
coroada por estrelas numa tristeza formosa,
e eu, pobre peregrino de um destino sem calor,
faço da escuridão o altar do meu amor. 

Há um canto entre as sombras que somente eu conheço,
onde os ventos da saudade rezam sem endereço,
ali deposito os sonhos que jamais pude viver,
flores negras de esperança que se recusam a morrer. 

Eu te amei como a lua ama o mar adormecido,
como um castelo em ruínas ama o tempo consumido,
eu te amei como a chuva ama o bosque outonal,
num desejo sem retorno, num suplício espectral. 

Teu nome era um incenso pelas trevas espalhado,
um fantasma luminoso sobre o mundo abandonado,
e cada noite sem tua presença junto à minha
era uma cruz carregada por uma alma que definha. 

Quantas vezes contemplei a madrugada vazia,
vendo a dor fazer morada onde antes havia alegria,
quantas vezes a lembrança, como um corvo sepulcral,
veio pousar sobre os restos do meu sonho ancestral. 

As estrelas pareciam olhos frios a vigiar
o lento naufrágio da esperança perdida no luar,
e a lua, velha sacerdotisa das tristezas sem fim,
derramava sua prata sobre os desertos em mim. 

Então compreendi o segredo que a noite escondia:
toda lágrima guardava uma secreta alquimia,
pois a dor, quando profunda, como um rio subterrâneo,
escava dentro da alma um reino vasto e arcano. 

Foi quando o amor surgiu entre os escombros do sofrer,
como uma rosa impossível voltando a florescer,
não um amor de incêndios nem de febre passageira,
mas um farol aceso contra a tormenta derradeira. 

Veio suave como um hino que atravessa a eternidade,
como um anjo fatigado retornando à claridade,
e tocou minhas feridas com um gesto tão sereno
que transformou o meu inverno num pesadelo ameno. 

Desde então a escuridão continua a me chamar,
e ainda ouço as velhas mágoas sussurrando ao luar,
mas já não sou o espectro que vagava sem destino,
pois carrego dentro do peito um fogo clandestino. 

A noite segue sendo minha amante e confidente,
o espelho onde contemplo minha alma decadente,
mas onde antes reinava o abandono sepulcral,
ergue-se agora um sonho sereno e imortal. 

E se um dia o tempo vier fechar meus olhos cansados,
e eu repousar entre os mortos, pelos séculos velados,
que escrevam sobre minha lápide, em letras de esplendor: 

"Aqui dorme um homem triste,
salvo pela noite e redimido pelo amor."


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
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Inverno Azul

o dia nasce em tons de um azul morto | um azul que não encanta
que não vibra | que não promete nada…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

o dia nasce em tons de um azul morto
um azul que não encanta
que não vibra
que não promete nada

é o azul das veias cansadas
das manhãs que não chegam a ser manhãs
um frio que não toca a nossa pele
mas mora em nossos ossos

existe um vento
não daqueles que derrubam árvores
mas um sopro mais suave
que atravessa nosso espírito
como uma lâmina afiada

ele carrega o vazio
esse antigo companheiro
que se senta ao nosso lado
e jamais pede licença

os relógios continuam
fiéis carcereiros do nada
marcando segundos que escorrem
como água turva por mãos trêmulas

e tudo é azul
o céu, os olhos
as paredes e a alma

um azul profundo demais
para ser esperança
claro demais para ser noite

um intervalo
um quase
um erro de existência 

caminhamos por corredores
onde as portas levam sempre
para o mesmo quarto vazio

e lá dentro
há apenas lembranças
do que já fomos
ou talvez nunca fomos

e o frio cresce
ele se aninha nas palavras que jamais foram ditas
nas despedidas que não aconteceram
nos abraços que imaginamos
que jamais ousaram existir

é um frio paciente
quase belo
como uma catedral abandonada
onde o azul dos vitrais
já não iluminam o interior 

e permanecemos
respirando esse ar frio
como se houvesse sentido
como se o vazio fosse suficiente

e talvez seja
talvez sejamos somente isso:
carne habitada por um inverno azulado
tentando fugir do calor
enquanto lentamente
nos tornamos parte dele.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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O Verso e o Reverso do Ser

Em cada ser, a vasta catedral se ergue, | onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge. | Um palco dual que a existência nos impôs, | onde o eu se forma, entre o antes o e depois…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em cada ser, a vasta catedral se ergue,
onde a chama da Luz e o silêncio das Trevas emerge.
Um palco dual que a existência nos impôs,
onde o eu se forma, entre o antes o e depois. 

A Luz se revela, é o rosto da bondade,
o verbo claro, a perene claridade.
É a mão que ampara sem buscar recompensa,
é a fé inabalável, a nossa nobreza imensa. 

É a mente que desperta, que afasta a ilusão,
a força moral que domina o nosso coração.
E sonhamos em ser esse ouro tão puro,
um brilho constante, um futuro seguro. 

Mas vida ensina,
em seu lento labor,
que a luz sem sombra
perde todo seu valor. 

Pois existem as Trevas, o lado que negamos,
o arquétipo fundo que em nós carregamos.
Não é apenas o mal, aquele erro que nos seduz,
mas é aquele potencial que rejeita a luz. 

É a nossa Sombra, o instinto vital,
o lado selvagem, secreto e ancestral.
É a mágoa guardada, o ciúme que arde,
a força que brota fria e sem alarde. 

Se a negarmos, ela cresce faminta e voraz,
e nos assombra em sonhos e em segredos.
A força não vista vira vício ou rancor,
e a alma projeta o seu próprio temor. 

Quem só vive de Luz, na virtude irreal,
cria uma máscara, um rosto artificial.
Torna-se duro, justo em demasia,
um sol sem terra, fadado à fria agonia. 

A pureza extrema que o humano não veste,
é a tirania sutil que nossa alma contesta.
A negação das Trevas gera a hipocrisia,
o medo da queda que escurece nosso dia. 

E quem se entrega às Sombras, sem freio e medida,
é engolido pelo abismo, perde a direção de sua vida.
Vira cinismo o pranto, vira caos o desejo,
sem a Luz que guia o ser não tem pelejo.

A alma se afoga no oceano escuro e vasto,
um barco a deriva, sem porto, sem rastro.
Devorado é aquele que escolhe um só lado,
perdendo o sentido, pagando o preço cobrado.

A chave não está na escolha vã,
mas na aceitação de quem você é,
ontem, hoje e no amanhã. 

O equilíbrio é a dança sutil e sagrada,
onde a Luz acolhe as Trevas, não nega ou degrada.
É quando a Sombra, reconhecida, não mais domina,
e vira a forma que nos move, intenção genuína. 

A Luz precisa das Trevas
para ter profundeza,
para ser humilde
e compreender a fraqueza. 

Como a lua que acende seu brilho no escuro,
somos a soma inteira, o presente e o futuro.
É na dualidade, no meio-termo instável,
que a vida se torna real e suportável. 

Olhe para dentro, sem medo do que espreita,
e faça da Sombra a mestra que te alimenta.
Pois só na união destas partes, formando esse par,
é que a nossa totalidade poderá se manifestar.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Cântico da Luxúria Noturna

Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado, | abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado, | pois não há cárcere que baste…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ó noite sem mácula, mãe da luxúria e do pecado,
abre o teu ventre de trevas sobre meu corpo acorrentado,
pois não há cárcere que baste, não há corrente que contenha
o desejo que em mim nasce e em minha própria dor se banha.

Sou mais que presa: sou riso e sou gozo,
sou vício que arde em um gesto piedoso
da mão que me fere pensando em punir-me,
mas encontra na carne apenas o convite de possuir-me.

Ó caçador, frágil em tua ânsia de domínio,
não percebes que és servo de meu desatino?
Quanto mais tu me prendes, mais livre me torno,
e quanto mais me negas, mais em teu peito retorno.

Na vertigem do êxtase, os grilhões são coroas,
as feridas são flores, e as sombras, pessoas.
De meus lábios escorre um riso soturno,
que faz da agonia um cântico noturno.

Ah! O aço que corta não é espada, é um beijo,
e a mordaça que cala me entrega ao desejo,
cada nó da corda é um caminho secreto
para o altar oculto de um amor inquieto.

E tu, que acreditas deter a minha essência,
aprendes no rito da mais dura ciência
que o prazer é abismo e a dor é vertente,
e que em mim o suplício floresce contente.

Sou vampira, sou chama, sou veneno, sou delírio,
sou templo erguido sobre o meu próprio martírio,
sou carne que arde, sou uma sombra que brilha,
sou gozo que nasce de minha própria partilha.

E quando enfim tombares, rendido aos meus pés,
ouvirás ao fundo belos hinos, sons cruéis,
e em meio ao crepúsculo, rubro e profano,
serei tua amante, teu inferno e teu engano.

Assim é o êxtase: um precipício em chamas,
um véu que devora, um abismo que inflama,
na noite absoluta, sou riso sacrílego e dor,
sou litania profana, sou luxúria e sou terror.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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O Regresso ao Bastidor

No palco etéreo da sala escura, | ergue-se a vida vestida de fantasia, | com gestos vãos, em atitude impura, | finge um riso e esconde a melancolia…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No palco etéreo da sala escura,
ergue-se a vida vestida de fantasia,
com gestos vãos, em atitude impura,
finge um riso e esconde a melancolia.

Nos bastidores se guardam segredos
de atores tristes sob uma luz velada,
e a cada ato, seus sonhos e medos
compõem uma trama jamais ensaiada.

Vestido de sombras, o destino escreve
com uma pena feita de silêncio e dor.
Quem tenta brilhar, muito em breve
prova do escárnio deste diretor.

A juventude, um prólogo febril,
tão breve quanto uma pequena cena.
No segundo ato, em um tom mais sutil,
a alma dança em uma veste pequena.

Momentos de amor, de glória e perdição,
coadjuvantes de um roteiro inacabado.
E o público, a própria solidão,
aplaude em prantos o ator já cansado.

Mas eis que surge, em névoa sutil,
a morte, trajada em linho e com olhar sereno,
murmurando ao vento: “Teu papel é pueril,
vem repousar no meu abraço ameno.”

Ela não exige nada, nem mesmo o enredo,
apenas tira o figurino já gasto,
apaga as luzes, extingue os segredos
e sela os lábios com seu beijo casto.

E então, no fim, sem som e sem cortina,
a peça termina num silêncio denso.
O palco, outrora tão vivo, declina,
e só o pó herda aquele espaço imenso.

Mas foi bela, ainda assim, a peça,
mesma envolta em dores tão sutis.
Pois só quem vive a dor que a vida tece
sabe o sabor de ter estado aqui.

Revisão por Sahra Melihssa

Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Cântico da Fé Profanada

“Pois bem antes do verbo, houve o grito. | E bem antes do céu, houve a carne. | E bem antes do amor, houve o medo. | E o medo moldou os deuses.”…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I – Do Altar que Apodrece

“Pois bem antes do verbo, houve o grito.
E bem antes do céu, houve a carne.
E bem antes do amor, houve o medo.
E o medo moldou os deuses.”

Nos templos soturnos feitos de pedra rachada,
Onde o musgo se cria e o tempo se desfaz,
Há ossadas de deuses, de eras passadas,
Que dormem famintos em uma mentirosa paz.

Erguemos seus nomes com nossas mãos calejadas,
E os fizemos juízes de tudo que ignoramos.
Mas no final de tudo, nas cinzas sagradas,
vemos que deuses... nós sempre fomos.

Tatuamos em nosso âmago a utopia celeste,
Mas oramos de joelhos a um vácuo mordaz.
A alma, em silêncio, de pranto se veste,
E suplica um perdão que não vem jamais.

II – Da Boca dos Deuses Mortos

“Falai, ó esquecidos!
Que vossos nomes se quebrem como vidro
E vossas vozes nos devorem por dentro.”

BAAL (Deus da fertilidade, clima e tempestades)
Eu sou a fome, não a salvação.
Dei ao homem seu primeiro altar,
Feito de carne, suor e traição,
E bebi de sua fé sem cessar.

TIAMAT (Deusa primordial dos mares e mãe dos deuses)
Fui mãe e mar, serpente e véu.
Mas meu ventre foi violado por reis.
Agora durmo no limo do céu,
Gerando imagens que tu nunca vês.

LILITH (Primeira das mulheres, aquela que não se submeteu)
Fizeram-me bruxa, meretriz e serpente,
Mas fui só mulher que negou o jugo.
Na carne de cada fêmea descrente,
Eu sussurro meu nome antigo e vulgo.

ODD-KING Eu não tenho forma, nem dogma, nem fé.
Sou o que resta quando tudo finda.
A fé que me segue... se perde em pé.
O homem que ora... já não se vinda.

III – Da Revelação do Espelho Quebrado

“O altar mais antigo é o corpo.
O templo mais profano é a consciência.
O deus mais cruel é a imagem no espelho.”

O que vês quando fechas os olhos?
Um deus de luz? Um céu distante?
Ou tua própria face em pedaços, gritando num mundo delirante?

Pois tua fé não está no alto,
Mas nas vísceras, no medo de ser.
E o que chamas de belo e divino
É somente teu reflexo a apodrecer.

Tu crias Javés quando sangras no escuro.
Tu clamas por Odin quando a espada falha.
Tu invocas Satã quando queres o impuro,
Mas o nome que gritas... é a tua mortalha.

IV – Do Credo dos Queimados

“Não cremos em salvação.
Não buscamos perdão.
Nossa fé é ferida.
Nosso deus... somos nós, podres, porém em pé.”

Cremos no vazio e na sua beleza.
Cremos no grito que rompe o silêncio.
Cremos que a fé é doença e clareza.
E o homem, um deus em sua existência.

Bebemos do cálice feito de ossos,
Comemos o pão da desesperança,
E cantamos hinos com versos atrozes,
Que rezam à morte, nossa única dança.

Não há céu.
Não há trono.
Só ruína.
Só barro.
E no barro... um sussurro:
Tu és teu próprio inferno.


Escrito por:
Cláudio Borba

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17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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Ninfa Sepultada

Como uma ninfa aos céus desobediente, | lançada às sombras frias e penitentes, | a Solidão, um véu de névoa ardente, | mora em um abismo, muda e reticente…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Como uma ninfa aos céus desobediente,
lançada às sombras frias e penitentes,
a Solidão, um véu de névoa ardente,
mora em um abismo, muda e reticente.

 Sua prisão é um poço sem guarida,
profundo como uma dor não percebida,
escura como a noite que quando ferida,
vaza o silêncio de uma alma corrompida.

 Do fundo exala um murmúrio, uma voz que arranha,
num ciclo que se forma e nunca se acanha:
é a própria dor que a si mesmo acompanha,
num riso espectral que nossa alma profana.

 Vazia, ela se duplica em repetência,
uma voz que responde em penitência,
ressonância feita de consciência,
que eternamente prova sua existência.

 Os deuses, ao moldá-la como expurgo,
teceram seu destino, frio e turvo.
Agora, em sua essência, tudo é luto,
reverbera o nada, eterno e absoluto.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Crisálida do Vazio

O que sou senão um mero errante, | Um grão de areia à beira de um abismo, | Um mero sussurro em um tempo vacilante, | Moldado em pranto, pó e sofismo?…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

O que sou senão um mero errante,
Um grão de areia à beira de um abismo,
Um mero sussurro em um tempo vacilante,
Moldado em pranto, pó e sofismo?

Quem criou meu ser nessa névoa escura,
Que mãos moldaram minha carne e pensamento?
Por que a razão me machuca e me tortura,
Se sou apenas cinzas jogadas ao vento?

Eu seria vestígios de um delírio,
Sonhado por um deus esquecido?
Ou seria um vulto, fantasma sem martírio,
Que ao nada volta, em tempo perdido?

Se tudo é pó, se tudo é ausência,
Por que meus olhos ardem ao olhar?
Por que persiste em nós uma consciência,
Se o fim irá nos sufocar?

Talvez sejamos somente ilusões,
Que caminham entre brasas frias,
Almas perdidas, pequenas constelações,
Brilhando, já mortas, na noite vazia.

E se formos apenas um espelho partido,
Refletindo o vazio em fragmentos?
E se a vida for o mais cruel dos mitos,
Nos condenando a frios sentimentos?

A terra nos engole sem piedade,
O tempo apaga nomes e glórias,
Mas algo em nós se recusa à verdade,
Teimando em escrever a própria história.

E assim seguimos como sombras retorcidas,
Com medo do que vem e do que virá,
Pois ser é somente buscar, curar nossas feridas,
E nunca, nunca se encontrar.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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A Travessia

Sob o manto escuro da noite, eu a vejo, | uma ponte feita de ossos e madeira antiga. | Ela desperta com o som de trovões, | um caminho que chama meu nome…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sob o manto escuro da noite, eu a vejo,
uma ponte feita de ossos e madeira antiga.
Ela desperta com o som de trovões,
um caminho que chama meu nome na escuridão. 

O vento me envolve como se estivesse vivo,
meus segredos rasgam meu peito querendo sair.
Cada passo me corta como uma lâmina,
e a luz dos raios revelam minhas feridas que fingi esquecer. 

As tábuas rangem sob meu arrependimento,
como se confessassem meus pecados ao infinito.
A chuva cai, não como uma benção, mas como sentença,
lavando meu rosto com lágrimas que não derramei. 

Diante de mim, formas se erguem na penumbra,
amores que destruí, promessas que quebrei,
rostos que banhei com indiferença quase mortal.
Agora me encaram, famintos por respostas. 

A cada passou que dou, a ponte me consome,
meu fôlego se perde em meio aos murmúrios.
O Universo ri zombando de minha fraqueza,
e eu, frágil, encaro verdades que não posso fugir. 

Ao fim, o abismo me espera, escancarado,
mas não há queda, apenas um cruel silêncio.
Deixo parte de mim naquela maldita travessia,
um pedaço de mim que nunca irei buscar. 

Quando eu olho para trás, a ponte some,
engolida pela noite e sua escuridão eterna.
Eu sigo em frente, mas não sou o mesmo,
pois agora carrego o peso do que sempre fui.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Baile de Máscaras

Sob o arco dourado do salão brilhante, | desliza a vida em passos intrigantes. | Um baile onde máscaras não revelam a verdade, | trocando sorrisos por…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sob o arco dourado do salão brilhante,
desliza a vida em passos intrigantes.
Um baile onde máscaras não revelam a verdade,
trocando sorrisos por vãs efemeridades.

Os lustres pendem como estrelas à espreita,
clareiam espectros, a cena é perfeita.
Rostos de plástico, esculpidos em dor,
olhos que choram o que fingem ser amor.

Cada giro no chão polido e vazio,
desafia o compasso de um tempo sombrio.
Nesse baile, numa roda incessante,
dançam memórias que soam distantes.

Os violinos gemem notas como um pranto,
um coro feito de sombras se eleva num encanto.
Os pares deslizam, frágeis, quase febris,
cada qual preso a sonhos que são infantis.

Longos vestidos arrastam fantasmas antigos,
pisando em lembranças, relembrando castigos.
O salão se enche de dores trazidas pelo vento,
cada passo dos pares ecoa como um novo lamento.

No canto mais frio do salão, sem brilho ou candura,
há olhos sem máscaras que estão cheio de amargura.
Eles observam calados o mundo que está a girar,
sabendo que um dia o baile irá terminar.

Pois a vida, em sua essência, é uma dança perdida,
um jogo de erros até a inevitável despedida.
E quando a música, enfim, silenciar,
as máscaras irão cair, será a hora de parar.

Então ficaremos no salão desfeito e escuro,
rodeados por sombras, no destino obscuro.
O baile se finda, e a ilusão se consome,
e a escuridão nos devolve o próprio nome.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Escrito por Cláudio Borba, -Poesias Cláudio Borba Escrito por Cláudio Borba, -Poesias Cláudio Borba

Ecos de um Jardim Sepulcral

Adentro o campo como quem adentra um sonho, | lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo, | elas flutuam suaves ao toque de leves brisas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Adentro o campo como quem adentra um sonho,
lavandas por toda parte, um oceano roxo e calmo,
elas flutuam suaves ao toque de leves brisas,
parecendo guardar uma paz que jamais acaba.

Mas há algo aqui, algo invisível que rasteja,
um segredo escondido no doce perfume e na cor,
uma inquietude perdida no meio do silêncio
tal qual um coração que bate lentamente.

Caminho, e as flores parecem murmurar,
o som parece uma prece feita no começo da noite,
uma estranha melodia, palavras mal-ditas,
sussurrando meu nome em uma voz que nunca ouvi.

O que diz o campo que fere a minha mente?
Por que o horror se veste de algo tão belo, tão sereno?
É como se escondesse as garras sob suas pétalas.
Há algo ancestral, um toque gelado que toca minha pele.

Não é um jardim, é um túmulo em flor,
uma prisão aveludada que me convida a ficar,
e, no entanto, ao me virar, as lavandas me cercam,
o murmúrio cresce, toma conta do ar,
um canto fúnebre que desencanta a beleza.

Sinto o pavor apertar minha garganta,
e as vozes falam de dor e de sombras,
de destinos que ninguém ousa lembrar,
é como se o campo guardasse os segredos dos mortos
e a alma de que o adentra fosse um preço.

Eu corro, mas os murmúrios me seguem,
as flores balançam como dedos que apontam,
e toda a paz se dissolve em uma neblina,
me deixando só entre sussurros sombrios,
perguntando se algum dia eu estive desperto.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Semblantes

Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Algum dia, algum mês, algum ano do século XIX 

Mmoggun era um artesão que vivia em um vilarejo isolado, onde sua arte de esculpir máscaras era vista como uma habilidade quase mística. Ele conseguia capturar expressões humanas com tanta precisão que era impossível distinguir entre uma máscara e um rosto.  

Mmoggun era um homem estranho, com olhos fundos, uma voz baixa que sempre parecia sussurrar para si enquanto trabalhava. Tinha poucos amigos e quase ninguém o visitava. Na verdade, as pessoas o evitavam, elas temiam que ele escondesse algo mais sombrio em seu talento. 

Obcecado pela perfeição, Mmoggun, decidiu que as máscaras que criava já não era suficientes. A madeira não conseguia capturar as emoções humanas na mesma profundidade que as feições vivas conseguiam, algo que somente a carne e a pele continham. 

Foi então que uma peste caiu sobre o vilarejo, e as pessoas começaram a morrer. Com a morte se espalhando, Mmoggun viu naquela situação a oportunidade de encontrar a expressão perfeita, capturando o momento exato entre a vida e a morte. Passou a visitar os doentes, esculpindo suas máscaras enquanto os observava em seus últimos momentos. 

Ele soube da morte de um amigo próximo, a única pessoa que se importava com ele, e isso o mudou profundamente. Seu amigo, Tomás, morrera após dias de agonia. Ao chegar em sua casa, Mmoggun se ajoelhou ao lado do leito, esculpindo o semblante de morte de seu amigo. 

Foi nesse instante que o artesão sentiu que aquele ato o mudara. Sentiu um vazio que nenhuma máscara do mundo poderia preencher. Desesperado, ofereceu uma oração sombria aos deuses antigos, às almas esquecidas que habitavam as florestas e as sombras, pedindo que o ajudassem a capturar a verdadeira essência do medo e da morte. Ele ofereceu sua alma, seu corpo e tudo o que possuía. 

Algo respondeu ao seu chamado. 

Um vento maligno soprou pelo vilarejo, e uma figura encapuzada visitou Mmoggun. Era uma alma ancestral, uma criatura que vivia nas sombras que havia escutado seu desejo. O ser ofereceu a ele o poder de capturar o medo eterno, mas o advertiu: 

— Se você aceitar, mortal, jamais poderá abandonar a sua busca, jamais poderá escapar dessa fome que o consome. Irá se tornar um caçador, incapaz de parar enquanto houver uma face que possa exibir um novo tipo de horror. 

MMoggun aceitou sem hesitar. 

Quando amanhece, ele já não era mais humano. Sua pele esticou, seu rosto se alongou, sua voz se tornou um sussurro gélido e vazio. Ele adquiriu o poder de capturar o semblante de suas vítimas, arrancando suas faces e usando-as como máscaras.  

Ao longo dos séculos, ele passou a visitar vilarejos, oferecendo presentes amaldiçoados aos seus escolhidos. Mmoggun se tornou uma criatura temida e sua história nunca foi esquecida. 

Tempos atuais 

Uma noite, em um inverno particularmente rígido, um jovem recém-chegado à cidade, Rafael, encontrou um presente. Ele acabara de se mudar, atraído pela calmaria do interior. Estava organizando sua mudança quando notou uma caixa preta à sua porta. A madeira escura da caixa parecia absorver a luz da lua, e o intrincado entalhe de runas desconhecidas a transformava em algo hipnótico. 

Ao abrir a caixa, Rafael encontrou um espelho de mão, com uma moldura prateada desgastada que, ainda assim, brilhava de forma inexplicável. Ao tocar o espelho, sentiu um frio subir por sua espinha, mas a curiosidade venceu o desconforto. Ele se olhou no espelho e, por um momento, teve a estranha sensação de que sua própria expressão o encarava. Algo nele parecia errado. Contudo, sem saber, esse olhar desconfortável era exatamente o que Mmoggun desejava: uma curiosidade misturada com um início de receio. 

Nas noites seguintes, outros presentes foram surgindo. Uma velha caixa de música, e um colar de pedra vermelha. Cada objeto era uma armadilha, um elo a mais que conectava Rafael ao domínio de Mmoggun. Fascinado pelos presentes, o jovem passava horas a sós com eles, perdendo-se no mistério de cada peça, sentindo-se hipnotizado pela aura sinistra que os envolvia. 

Foi quando ouviu o sussurro. 

— Mmoggun… mmoggun… 

O som vinha do nada, parecendo falar diretamente ao seu ouvido, suave, mas gélido. Rafael tentou ignorar, mas a cada noite o sussurro se tornava mais próximo e insistente. Ele já começava a sentir que era observado quando, numa noite, o sussurro se materializou em uma figura. 

Mmoggun estava parado na porta de seu quarto. Um vulto encoberto por um manto negro, alto e deformado, com olhos que eram buracos fundos, famintos por alguma emoção que apenas a visão de um rosto aterrorizado poderia saciar. Rafael, fascinado e assustado, ficou imóvel. Era como se um peso invisível o pressionasse contra o chão. 

A criatura estendeu a mão, de ossos longos e mostrou-lhe algo: uma última oferta. Era uma pequena escultura de madeira representando um rosto humano contorcido em uma expressão de medo. Rafael, dominado por uma atração inexplicável, tomou a peça e, ao segurá-la, sentiu o toque gelado de Mmoggun em sua pele, como uma promessa silenciosa de sua morte. 

Mmoggun avançou então, aproximando-se com uma lentidão aterradora, e com o rosto encoberto pelas sombras, tocou a face de Rafael. O jovem sentiu seu próprio rosto começar a pulsar sob a pressão daquela mão inumana, cada linha de sua expressão sendo medida, analisada, desejada. E antes que pudesse reagir, Mmoggun enfiou as garras na pele de seu rosto e começou a arrancá-lo, centímetro por centímetro, enquanto Rafael, paralisado, assistia ao próprio reflexo no espelho a se desfigurar. 

Enquanto o rosto era arrancado, Rafael sentiu o medo tomar conta de sua expressão, transformando-o em uma máscara viva de pavor absoluto. Era a imagem que Mmoggun desejava. Ele absorvia cada detalhe da agonia de sua vítima, a boca entreaberta num grito sufocado, os olhos arregalados em terror. 

Quando finalmente Mmoggun se vestiu com o rosto recém-roubado, seu sorriso era uma cópia vazia do que antes fora de Rafael. Ele admirou a máscara de carne no espelho, um prazer sombrio, e desapareceu na noite, carregando consigo mais uma expressão única de horror para atrair novas presas. 

Nos dias que se seguiram, a cidade foi tomada por um pavor silencioso. Pessoas relataram avistar Rafael vagando pela floresta, mas sabiam que algo nele estava errado. Aquela expressão aterrorizada que carregava não era a de um homem vivo, mas a de uma vítima aprisionada na última imagem de seu medo. Ninguém ousava falar sobre isso, mas todos entendiam que, uma vez marcado pelos presentes de Mmoggun, não havia como escapar de seu destino. 

E ao final de cada noite, o mesmo sussurro continuava a rondar as casas, mais próximo, mais persistente: 

— Mmoggun… mmoggun… 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Ninguém Vai Embora

— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. — Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

— Cara, acho que não está dando certo — falou Fabrício, observando o copo imóvel no centro da tábua. 

— Pois é. Não se mexe. Talvez devêssemos tentar outra coisa — concordou Renato. 

Paulo, Ricardo, Renato e Fabrício estavam ali pela primeira vez, reunidos para tentar invocar espíritos com um tabuleiro improvisado e um copo. 

— Ah, eu falei que era uma má ideia. Não tem graça nenhuma. Vamos parar com essa besteira — disse Ricardo, afastando-se um pouco, visivelmente incomodado. 

Paulo, mais teimoso, segurou o amigo pelo braço. 

— Espera. Olha o copo — a voz saiu baixa e trêmula. — A porra do copo está se mexendo. 

O copo deslizou lentamente sobre o tabuleiro, como se uma força invisível o empurrasse. O silêncio caiu sobre os quatro amigos, e um calafrio percorreu a espinha de cada um. 

— Vamos fazer uma pergunta? — sugeriu Fabrício, hesitante, olhando para os outros. 

— Vai lá, você começou essa merda — disse Renato, encarando Fabrício, tentando parecer corajoso, mas seu rosto denunciava o medo. 

Fabrício respirou fundo, engolindo em seco antes de formular a primeira pergunta. A resposta veio, letra por letra, formando palavras sobre o tabuleiro. Eles seguiram com outras perguntas, fascinados e, ao mesmo tempo, aterrorizados. 

Horas se passaram até que Paulo sugeriu o fim do jogo. 

— Já está tarde, pessoal. Vamos mandar o espírito embora. 

— Concordo — disse Fabrício, olhando nervosamente ao redor. — Vamos perguntar se ele quer ir. 

Ele posicionou a mão sobre o copo e fez a pergunta. O copo moveu-se lentamente até o "NÃO". 

— Ele não quer ir, não — Ricardo riu, tentando disfarçar o nervosismo. 

— Por que você não quer que a gente vá? — insistiu Paulo, agora sem tirar os olhos do tabuleiro. 

O copo começou a deslizar novamente, letra por letra, formando uma nova frase: N-I-N-G-U-E-M V-A-I E-M-B-O-R-A. 

Os quatro se entreolharam, sem saber o que fazer. 

— Puta merda, o que ele quer de nós? — perguntou Renato, a voz quase em um sussurro. 

Eles repetiram a pergunta, e a resposta veio rápida e fria: M-E S-I-N-T-O S-O-Z-I-N-H-O O-N-D-E E-S-T-O-U P-R-E-C-I-S-O D-E C-O-M-P-A-N-H-I-A. 

Ricardo levantou-se de repente, puxando a mão para longe do tabuleiro. 

— Eu vou embora. Isso está me assustando de verdade — anunciou, afastando-se. 

Mas, no instante em que deu um passo, a porta da sala bateu com força, fechando-se sozinha. O som ecoou pelo cômodo, e todos viraram na direção da porta, horrorizados. O copo voltou a se mover: N-I-N-G-U-E-M S-A-I. E-U J-A F-A-L-E-I. 

Ricardo soltou um grito abafado, com as mãos tremendo. 

— Eu sabia, eu sabia que isso ia dar merda! 

— Calma... — Paulo tentou controlar o grupo, embora ele próprio estivesse à beira do pânico. — Vamos perguntar o que ele quer. Talvez exista um jeito de a gente sair. 

— Como podemos sair daqui? — Renato se inclinou sobre a mesa, esperando uma resposta. 

O copo moveu-se novamente, a resposta deslizando lentamente entre as letras: S-O-M-E-N-T-E C-O-M I-G-O. 

Paulo arregalou os olhos. 

— O que isso quer dizer? Ir com ele? Pra onde? 

A resposta veio mais rápido, com uma fluidez perturbadora, como se o espírito estivesse ganhando força: P-A-R-A O-N-D-E E-U E-S-T-O-U. 

Renato praguejou baixinho, afastando-se enquanto olhava ao redor com desespero. 

— Esse filho da puta está pensando o quê? — gritou, desafiador. 

No instante em que as palavras deixaram seus lábios, seus olhos se arregalaram, fixos em um canto escuro da sala. Ele apontou com o dedo trêmulo, incapaz de falar. 

— Renato, o que foi? — Fabrício engasgou, os olhos arregalados. 

No canto escuro da sala, uma figura nebulosa, um vulto denso e ameaçador, começou a se formar. Algo sombrio e sem forma, mas terrivelmente real. Todos encararam o vulto, sem conseguir desviar o olhar, enquanto ele se aproximava, lentamente, como uma sombra rastejando. 

Então, uma batida aguda e insistente soou. O telefone tocava na sala ao lado, rompendo o silêncio mortal que preenchia o cômodo. Na casa ao lado, a mãe de Ricardo atendeu. 

— Alô? 

— Oi, Ana. Como você está? Os meninos ainda estão na casa? 

Ela sorriu. 

— Sim, estão aqui, trancados na sala de jogos. Vou chamá-los para você. Um instante. 

Desligou o telefone e caminhou rapidamente até a sala de jogos. Ao abrir a porta, um grito horrorizado escapou de sua boca. 

Quatro corpos jaziam no chão, rostos congelados em expressões de puro terror. Olhos arregalados, bocas abertas em gritos silenciosos, como se, naqueles últimos instantes, eles tivessem encontrado algo além do compreensível, algo que sequer a morte os libertaria. Naquele tabuleiro amaldiçoado, quatro vidas agora compartilhavam a infelicidade eterna com algo que jamais deveria ter sido perturbado. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Entre Peles e Almas

Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ramalho era um homem praticamente invisível, não no sentido literal da palavra, mas na forma como ele caminhava pelo mundo sem chamar a atenção, nunca deixou nenhum rastro. Era um taxidermista, e por isso vivia trancado em sua casa no centro da cidade. Ele restaurava corpos de animais, de qualquer criatura que encontrasse morto nas ruas.  

Sua loja era conhecida entre os colecionadores mórbidos da cidade. Mas havia algo, um segredo. Ramalho não se limitava a recriar os corpos, ele os colecionava. E havia um segredo sombrio, sua coleção não se limitava aos corpos, ele também colecionava o que restava das almas. 

Nos fundos de sua casa, havia um quarto onde ninguém entrava, nem mesmo ele, a não ser em certas ocasiões. O ar ali era denso, havia uma energia pesada. Dentro daquele quarto estavam as carcaças de sua mais preciosa coleção: humanos. Não eram apenas simples corpos, eram almas que ele retirava enquanto os mantinha vivos pelo tempo necessário. 

Seu método era perfeito. Escolhia sua vítima, geralmente homens ou mulheres solitários, aqueles que ninguém sentiria falta. Eles vinham até ele, atraídos por algum anúncio de emprego ou algo do tipo. Ramalho os convidava para entrar, oferecia um chá ou café. E quando suas vítimas começavam a relaxar, ele agia. 

Injetava um sedativo, algo que mantinha o corpo paralisado, mas permitia que a mente ficasse consciente. Era importante que suas vítimas estivessem acordadas durante todo o processo, sentindo cada instante.  

Uma noite, Ramalho sentiu que precisava adicionar mais uma peça à sua coleção. Ele escolheu uma fotógrafa, Camila, que tinha a curiosidade de explorar os cantos sombrios da cidade. Ela apareceu na loja, interessada em fotografar as peças de taxidermia para um projeto. Era perfeito. 

Quando Camila entrou, Ramalho percebeu algo diferente nela. Havia uma espécie de luz em seus olhos. Ele sorriu, sabendo que aquela seria uma adição única em sua coleção. Como de costume ofereceu chá, que ela aceitou sem suspeitar de nada. Assim que ela levou a xícara a boca, o líquido percorreu sua garganta e o efeito foi imediato. Camila caiu com seus olhos arregalados, completamente consciente, mas incapaz de se mover ou gritar. 

Ramalho a levou para o quarto dos fundos. As carcaças de sua coleção estavam dispostas nas paredes como mórbidas obras de arte. Corpos de homens e mulheres empalhados como animais com suas expressões de terror congeladas. O processo com Camila seria lento, mas ele estava ansioso. Preparou seus instrumentos e começou a trabalhar. Cada corte era feito com precisão. Ele começava pelos nervos, sempre pelos nervos, retirando-os meticulosamente enquanto a vítima sentia cada segundo de dor. O corpo permanecia vivo até que ele chegasse ao coração, onde ele retirava a última faísca de consciência, preservando-a em um pequeno jarro ao lado de cada corpo. 

Mas algo estava errado com Camila. 

Enquanto Ramalho trabalhava, ele percebeu que os olhos dela não estavam como os das outras vítimas. Havia um brilho que não deveria existir. Quando ele chegou perto de sua garganta para fazer mais um corte, ouviu algo que quase fez seu coração parar. Ela murmurava, com a boca quase paralisada, mas ainda com vida o suficiente para formar algumas palavras. 

— Você também está aqui Ramalho. 

Ele gelou. Era impossível. Nenhuma vítima havia falado durante o processo. Ela deveria estar completamente paralisada, sentindo a dor e incapaz de reagir. E, no entanto, ela o encarava com um suave sorriso que se formava vagarosamente em sua boca. 

— Você coleciona o que não entende. Mas o que você esqueceu é que nós também colecionamos você. 

Ramalho tentou ignorar. Ele avançou novamente com o bisturi, mas sua mão vacilou. Sentiu o quarto diferente. As carcaças estavam mudando. As bocas dos corpos empalhados agora murmuravam. Ele ouviu as vozes das vítimas que ele havia colecionado ao longo dos anos. 

— Ramalho, você é o próximo. 

Ele recuou. Não era possível. As almas não estavam mais aprisionadas, elas estavam ali com ele. Todas as vítimas pareciam estar em pé formado um círculo de sombras ao seu redor. Seus corpos agora o encaravam, seus olhos cheios de ódio. 

Os jarros ao lado dos corpos começaram a vibrar, e Ramalho caiu de joelhos segurando sua cabeça, tentando bloquear o som dos sussurros que agora estavam ficando cada vez mais altos.  

Cada alma que ele havia capturado não estava presa. Elas estavam se acumulando, esperando, se alimentando do medo e da dor que ele causava. E agora, elas o queriam. 

Camila, deitada na mesa, ergueu a cabeça o encarando e disse a última coisa que ele ouviria: 

— Você pertence a nós agora. 

Antes que ele conseguisse reagir, sentiu mãos o segurando, puxando seu corpo para a escuridão que ele mesmo criou. Os corpos caíram sobre ele, as suas bocas se abrindo em um grito tenebroso, enquanto a pele de Ramalho se rasgava, e sua vida sugada. 

Ramalho desapareceu, engolido pelas almas que havia colecionado. Quando a polícia invadiu sua casa semanas depois, tudo o que encontraram era um corpo empalhado, os olhos de Ramalho estavam arregalados, aprisionado na sua própria coleção que tanto amava. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Morte em Simetria

Em cada traço há um lamento, | a navalha corta sem compaixão. | Simetria, o cruel tormento, | que exige sangue em profusão. | O rosto aberto…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Em cada traço há um lamento,
a navalha corta sem compaixão.
Simetria, o cruel tormento,
que exige sangue em profusão.

O rosto aberto em duas partes,
olhos vazios e frios de horror.
A carne dividida em formas exatas,
molda-se ao toque do escultor.

Cada pedaço, lado a lado,
repousa em total perfeição.
Mas no corpo morto, destroçado,
há apenas o reflexo da escuridão.

O corpo é belo, exato e preciso,
mas o preço é alto, paga-se em dor.
A simetria é um fardo indeciso,
que arrasta a vida para o terror.

E assim, no espelho, o reflexo sorri,
perfeito, inerte, sem emoção.
Pois a simetria que aqui flori,
só vive na morte e na podridão.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Círculo de Sombras

Sinto o frio de uma cena conhecida, | um sentimento de algo que já vivi, | a memória oculta de uma vida esquecida, | o reflexo de algo antigo que já senti…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sinto o frio de uma cena conhecida,
um sentimento de algo que já vivi,
a memória oculta de uma vida esquecida,
o reflexo de algo antigo que já senti.

Meus passos ecoam na noite vazia,
como se o tempo sussurrasse meu nome,
um déjà-vu que rouba minha alegria,
um eterno ciclo que jamais some.

Olho por tudo e vejo a mesma cena,
momentos perdidos no véu do tempo,
uma repetição cruel que me envenena,
revivendo cenas em todo momento.

Seria real, ou um truque de minha mente?
Por que o hoje se traja de ontem?
Serei um prisioneiro do passado eternamente,
preso na teia do tempo que nunca se rompe.

E assim permaneço, sem saber o fim,
envolto em ecos de um passado sombrio,
a cada passo que dou, sinto-me assim
dando voltas e voltas neste círculo frio.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Silhuetas

Na escuridão, eu vejo o que não existe, | meu olhar totalmente aterrorizado e triste | imagina um rosto na rachadura a se formar, | com lábios retorcidos…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Na escuridão, eu vejo o que não existe,
meu olhar totalmente aterrorizado e triste
imagina um rosto na rachadura a se formar,
com lábios retorcidos prontos para gritar.

Nas curvas da cortina há um vulto que flutua,
uma imagem que minha mente perpetua.
Seriam fantasmas que estão a me chamar?
Não... eles simplesmente somem ao me virar.

O galho da árvore se estende como uma mão,
me preenchendo de medo, dúvida e aflição.
O quarto parece que vive, as paredes gemem,
e em cada canto há figuras que meus olhos temem.

A cada piscar de olhos, o horror se estabelece,
e a mórbida ilusão do que vejo, prevalece.
É minha mente brincando com meus medos secretos,
atordoando meus sentidos, me deixando inquieto.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Intruso

Eu sabia que algo estava errado comigo. Não era uma dor passageira e comum. Era uma presença, uma sensação de que havia algo se movendo dentro…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Eu sabia que algo estava errado comigo. Não era uma dor passageira e comum. Era uma presença, uma sensação de que havia algo se movendo dentro de mim. No princípio de tudo, eu ignorei. Pensei que poderia ser o estresse, a falta de sono, inventava qualquer desculpa para que eu conseguisse me acalmar. Mas a sensação ficou cada vez mais intensa. Tinha algo crescendo dentro de mim. 

Até que, em uma noite, enquanto tossia sem parar, senti um gosto estranho na boca. Um pequeno ponto branco emergiu entre os meus lábios, coberto de sangue e muco. Consegui retirá-lo com minhas mãos trêmulas e, ao analisá-lo no banheiro, eu quase perdi a consciência. Era um globo ocular. Pequeno, muito pequeno. Ele me encarava, como se algo dentro de mim estivesse utilizando-o para me observar. 

Entrei em pânico. Corri para o hospital, mas nenhum médico viu algo anormal. 

— Você está bem. — diziam, sem fazer ideia do que eu segurava com minhas mãos. 

Eu tentei acreditar neles, mas aquela sensação desconfortável continuava. Algo rastejava por dentro do meu corpo, pelos meus pulmões, entre meus tecidos. Em cada respiração minha, eu sentia que havia algo, ou alguém, dentro de mim, respirando comigo. 

Os dias passaram, e a transformação se intensificava cada vez mais. Eu evitava me olhar. O espelho se tornou meu inimigo, um reflexo daquilo em que eu estava me tornando. No entanto, uma noite, o terror chegou ao seu clímax. Enquanto deitava, senti algo se movendo em meu abdômen. Um movimento estranho. O horror estava tão profundo que não consegui reagir. Apenas deitei com meus olhos arregalados, enquanto a coisa dentro de mim se mexia. 

Foi então que eu senti um braço. Esquelético, ele se moveu para fora de meu intestino, um osso branco rompendo minha pele. Gritei, mas era um grito abafado pela dor insuportável que sentia. O braço se mexia de forma descontrolada, como se estivesse tentando se libertar. Eu pude sentir cada movimento dele, as articulações se encaixando e se quebrando, tudo ao mesmo tempo. 

As dobras de meu intestino se enrolavam nele, como se meu corpo estivesse tentando mantê-lo preso. O cheiro de carne podre tomou o ar, um fedor que não podia ser lavado, tampouco ignorado. O braço finalmente parou de se mexer. 

Dias depois, enquanto passava as mãos pelo meu ventre, senti uma pulsação. Algo estava vivo, algo que não deveria estar. Minhas pernas amoleceram quando percebi a verdade. Eu estava grávida. Não de uma criança normal, não de algo humano. A coisa dentro de mim crescia, era como se se alimentasse de minha carne, de meu sangue. Eu conseguia senti-la, sentia seus movimentos, suas tentativas de romper a carne que ainda a mantinha presa. 

Numa manhã, eu a ouvi. Um grunhido vindo de dentro de meu ventre. Uma voz abafada, uma presença que se comunicava comigo. Uma vida horrenda e monstruosa que se nutria de meu medo e desespero. 

O que eu carrego dentro de mim não pertence ao nosso mundo. É uma afronta à natureza e à vida. Cada nova descoberta é um novo passo em direção à loucura. Talvez um aviso de que o final está perto de chegar. Eu sou uma prisão feita de carne, pele e ossos, e, quando essa coisa se libertar, eu não serei mais nada. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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A Última Porta

A casa estava em completo silêncio. Julia, uma menina de apenas oito anos de idade, sentia o peso da ausência da mãe como um buraco em sua alma…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A casa estava em completo silêncio. Julia, uma menina de apenas oito anos de idade, sentia o peso da ausência da mãe como um buraco em sua alma. O lockdown não terminava nunca. As janelas fechadas escondiam o mundo lá fora, como se o medo de que algo pudesse acontecer pudesse ser barrado da mesma forma que o vírus. Ela não se lembrava de uma época em que o medo não existisse. 

Seu pai, Ricardo, estava na sala, sentado no sofá. Desde que Camila, mãe de Julia, havia morrido, ele não era mais a mesma pessoa. Estava sempre com uma aparência cansada, olheiras profundas e uma tristeza que corroía sua alma. Ele quase não falava, mas, quando o fazia, suas palavras pareciam vir de um lugar distante. 

Julia andava inquieta pela casa. Ela sentia algo diferente, uma presença sutil, uma brisa gelada. Não era como o vento, pois as janelas estavam sempre fechadas. Era como se a casa respirasse, como se algo nela, além deles, tivesse vida. 

— Você ouviu isso, pai? — perguntou Julia. 

Ricardo levantou os olhos e deu de ombros, indiferente. Ele não ouvia nada. Somente ela ouvia e sentia. 

Nas primeiras semanas, era apenas um murmúrio que Julia fingia fazer parte de um sonho. Mas logo as coisas começaram a se mover: portas batendo, sombras pelos corredores... 

Em uma noite, enquanto Ricardo dormia no sofá, Julia acordou com um som. Uma batida suave na porta da frente. No começo, achou que era um sonho, mas ouviu outra batida, e mais outra. Seu coração acelerou, e ela desceu as escadas assustada. 

Ao se aproximar da porta, viu algo que a congelou. A maçaneta girava lentamente, como se alguém do lado de fora estivesse tentando entrar. Ela tentou gritar, mas o som não saiu. Até que ouviu uma voz familiar em seu ouvido. 

— Julia... 

Era a voz doce e gentil de sua mãe. Ela recuou, e, de repente, a porta parou de tremer. Tudo voltou ao silêncio inicial. 

Ela correu de volta para o quarto, sem contar nada ao seu pai. Ele jamais acreditaria. Nos próximos dias, o som das batidas prosseguia, e tudo se tornou mais frequente. A porta tremia, as janelas vibravam, e aquela voz tornava-se cada dia mais nítida. 

Ricardo começou a notar também. Uma noite, enquanto os dois jantavam em silêncio, a porta da cozinha se abriu. Os dois pararam. Os olhos de Ricardo encontraram os de Julia, e, pela primeira vez em semanas, ele falou: 

— Acha que é ela? 

Julia não respondeu, mas sentiu um frio tomar conta do local. Sabia que algo estava tentando entrar na casa, e já sabia o que era. 

Nas noites seguintes, a situação piorou. A porta batia com violência. Julia acordava com o som de arranhões na parede de seu quarto e o sussurro insistente de sua mãe: 

— Venham para mim... 

Então, em uma noite, enquanto a tempestade caía lá fora, Julia não resistiu. Ela desceu até a porta da frente, movida por uma força que não conseguia controlar. A maçaneta, como sempre, girava sozinha. Ela a segurou com força, mas, ao tocar o metal frio, a voz de sua mãe a envolveu. 

— Julia, meu amor, abra a porta. Eu só quero que estejamos juntos novamente. 

Julia hesitou, mas estava tão "quebrada" que não conseguiu resistir. Queria a presença de sua mãe, seu calor, sua proteção. Ela abriu a porta. 

No meio da escuridão da rua, a figura pálida de sua mãe se revelou. O rosto de Camila estava distorcido, seus olhos vazios. Ela sorriu macabramente. 

— Venham. Vocês precisam vir comigo. Aqui não é mais o lugar de vocês. 

Julia recuou. Mas algo na voz de sua mãe a fez parar. Ali havia dor e tristeza, como se a morte tivesse transformado sua mãe em algo sombrio. 

— Mamãe... — A voz de Julia saiu quase inaudível, seu coração despedaçado pela revelação de que aquela entidade que tanto a assustava era a pessoa que ela tanto amava. 

O que restava de Camila estendeu a mão. 

— Precisamos estar juntos de novo. Venha, minha filha. 

Julia olhou para trás e viu seu pai. Ricardo estava parado no topo da escada. Seu rosto estava cansado, derrotado, como se estivesse esperando por aquele momento desde o começo de tudo. Ele não falou, tampouco lutou. 

Com os olhos cheios de lágrimas, Julia compreendeu. Não havia como escapar. Sua mãe não queria que eles vivessem; não queria eles no mundo sem ela. Ela os queria em seu novo mundo. 

Julia deu um passo para trás, mas sentiu o frio crescendo ao seu redor. Ricardo, sem forças para reagir, olhou para a filha pela última vez. 

— Desculpa, Julia. 

A porta se fechou sozinha. 

A casa, antes um refúgio, agora era uma prisão para os vivos. A voz da mãe continuaria a chamar até que todos estivessem juntos no silêncio eterno da morte. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Último Lamento

A lua, já cansada, desce no horizonte, | O sol, sangrando, rompe o véu da noite, | E a terra, em seu último lamento, suspira, | Enquanto a realidade se…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A lua, já cansada, desce no horizonte,
O sol, sangrando, rompe o véu da noite,
E a terra, em seu último lamento, suspira,
Enquanto a realidade se dissolve num açoite.

As cidades se terminam em meio ao pó,
Edifícios se tornam apenas memórias,
Mas há um certo encanto nas ruínas,
Uma calmaria que conta velhas histórias.

O vento canta para os últimos dias
Um hino que ecoa por todos os locais vazios,
E a cada nota suave, lembra uma verdade
A vida é bela, mesmo nos abismos sombrios.

Rios furiosos agora são como espelhos,
Refletindo o céu sem cor, tão sereno,
E flores insistem em nascer na terra árida,
Mostrando que o fim é um início mais ameno.

Os corvos traçam linhas no céu,
Pintando com suas asas negras e calmas,
Há uma beleza nesse último suspiro,
Na morte que vem calmamente buscar almas,

E quando a última centelha se apagar,
Quando o mundo for uma sombra esquecida,
Haverá uma certa paz no eterno silêncio,
Um estranho encanto em nossa despedida.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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