Liturgia da Noite
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante,
e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante,
eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,
carregando em meu peito a sombra da tua partida.
A noite abre seus braços como uma mãe silenciosa,
coroada por estrelas numa tristeza formosa,
e eu, pobre peregrino de um destino sem calor,
faço da escuridão o altar do meu amor.
Há um canto entre as sombras que somente eu conheço,
onde os ventos da saudade rezam sem endereço,
ali deposito os sonhos que jamais pude viver,
flores negras de esperança que se recusam a morrer.
Eu te amei como a lua ama o mar adormecido,
como um castelo em ruínas ama o tempo consumido,
eu te amei como a chuva ama o bosque outonal,
num desejo sem retorno, num suplício espectral.
Teu nome era um incenso pelas trevas espalhado,
um fantasma luminoso sobre o mundo abandonado,
e cada noite sem tua presença junto à minha
era uma cruz carregada por uma alma que definha.
Quantas vezes contemplei a madrugada vazia,
vendo a dor fazer morada onde antes havia alegria,
quantas vezes a lembrança, como um corvo sepulcral,
veio pousar sobre os restos do meu sonho ancestral.
As estrelas pareciam olhos frios a vigiar
o lento naufrágio da esperança perdida no luar,
e a lua, velha sacerdotisa das tristezas sem fim,
derramava sua prata sobre os desertos em mim.
Então compreendi o segredo que a noite escondia:
toda lágrima guardava uma secreta alquimia,
pois a dor, quando profunda, como um rio subterrâneo,
escava dentro da alma um reino vasto e arcano.
Foi quando o amor surgiu entre os escombros do sofrer,
como uma rosa impossível voltando a florescer,
não um amor de incêndios nem de febre passageira,
mas um farol aceso contra a tormenta derradeira.
Veio suave como um hino que atravessa a eternidade,
como um anjo fatigado retornando à claridade,
e tocou minhas feridas com um gesto tão sereno
que transformou o meu inverno num pesadelo ameno.
Desde então a escuridão continua a me chamar,
e ainda ouço as velhas mágoas sussurrando ao luar,
mas já não sou o espectro que vagava sem destino,
pois carrego dentro do peito um fogo clandestino.
A noite segue sendo minha amante e confidente,
o espelho onde contemplo minha alma decadente,
mas onde antes reinava o abandono sepulcral,
ergue-se agora um sonho sereno e imortal.
E se um dia o tempo vier fechar meus olhos cansados,
e eu repousar entre os mortos, pelos séculos velados,
que escrevam sobre minha lápide, em letras de esplendor:
"Aqui dorme um homem triste,
salvo pela noite e redimido pelo amor."
Cláudio Borba
Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;