Simulacrum
26 de maio de 2097. Tudo começou na década de 20.O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
26 de maio de 2097
Tudo começou na década de 20.
O capitalismo conduziu a humanidade, lentamente, para um apocalipse silencioso. Um fim do mundo sutil. Não houve explosões, guerras nucleares ou cadáveres espalhados pelas ruas. Pelo contrário — as pessoas riam, faziam piadas e seguiam vivendo sem perceber para onde estavam indo.
Todos pareciam felizes demais para notar o fim do mundo chegando.
Lembro das histórias dos meus avós sobre algo que chamavam de Internet. Sobre como aqueles pequenos aparelhos em suas mãos arrastavam a humanidade, pouco a pouco, para um abismo confortável de dopamina.
E aquilo se tornou um vício.
Rolavam feeds infinitos no Instagram. Passavam horas no TikTok. Consumiam vídeos rápidos até perderem completamente a noção do tempo. E as grandes companhias perceberam cedo que atenção valia mais do que ouro.
Então começaram a moldar gostos.
Tudo era minuciosamente calculado.
O tempo que vocês passavam olhando um anúncio.
O segundo exato em que sorriam para um vídeo.
A música que fazia vocês pararem para cantar.
O rosto que prendia atenção por tempo demais.
Os celulares observavam tudo. Ouviam tudo. Espionavam tudo.
Cada termo de uso aceito sem leitura.
Cada cookie salvo nos computadores.
Cada clique.
Cada passo.
Cada informação entregue voluntariamente em milhares de sites.
Tudo registrado, analisado e vendido para corporações gigantescas.
Se alguém gostava de filmes de terror, logo era cercado por teorias, jogos, roupas, músicas sombrias e colecionáveis. Não importava se precisava daquilo.
Importava continuar desejando.
Continuar consumindo.
Continuar comprando.
Continuar acreditando que os próprios desejos pertenciam a si mesmos, quando, na verdade, haviam sido plantados ali.
Uma série sobre alienígenas estreava em um streaming. No mês seguinte, refrigerantes, brinquedos e propagandas utilizavam os mesmos personagens. Um filme de super-heróis chegava aos cinemas e, naquela mesma semana, milhares de crianças imploravam aos pais por bonecos produzidos em massa.
Tudo se conectava.
Tudo era publicidade.
Tudo era manipulação.
E o pior é que ninguém se importava.
Porque parecia conforto.
Parecia entretenimento.
Parecia felicidade.
Aos poucos, a humanidade começou a abandonar a realidade para viver no mundo digital.
Não havia mais CDs nas casas.
Nem VHS.
Nem DVDs.
Nem fotografias impressas.
Tudo se tornou digital.
Filmes.
Músicas.
Lembranças.
Relacionamentos.
Personalidades.
Até a própria vida passou a existir atrás de telas.
E então a humanidade começou a desaparecer.
Consumida pelo mesmo capitalismo que prometia conforto enquanto lentamente a levava à decadência. O mundo não acabou em guerra.
Acabou em consumo.
No lugar de cada pessoa surgiu um doppelgänger digital.
Um duplo.
Mais bonito.
Mais engraçado.
Mais interessante.
Mais fácil de amar.
E esses duplos começaram a se relacionar entre si enquanto os humanos reais apodreciam lentamente atrás das telas.
Ninguém mais saía de casa. Comida e suprimentos eram entregues por drones controlados por inteligências artificiais. Toda comunicação acontecia através de celulares, e os relacionamentos deixaram de existir entre pessoas reais.
As pessoas passaram a amar versões editadas umas das outras.
Perfis digitais.
Personagens inventados.
Duplos
É nessa realidade que você vive agora.
Uma realidade onde ninguém mais ama pessoas.
Apenas versões idealizadas delas.
Apenas os duplos digitais que consomem, compram e fingem ser melhores do que realmente são.
E eu?
Eu sou apenas a consequência daquilo que vocês criaram.
Eu sou você, daqui a alguns anos.
Escrevendo uma carta para meu próprio passado, implorando para que alguém me salve desse futuro.
Porque esse futuro…
Não é bonito.
Caellum Noctis
Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Promessa & Desejo
Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole, cingido num orvalho de solidão prateada…
Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole, cingido num orvalho de solidão prateada, era melancólico e belo. Apreciava, de modo soturno, o brilho de látex, os vidros espelhados e o asfalto de basalto. Olhava para cima, para o céu de rocha ígnea, o interior do Monte Elbrus — imponente, observando-me de volta tal como um abismo o faria.
Com fascínio e certa angústia — a qual eu me negava a ver —, cheguei à Pirâmide Mater. Iniciava-se mais um dia de trabalho, como todos os anteriores. Pelo menos, naquela sala, eu podia observar o que restou do planeta: a lividez do gelo, o céu coberto de poeira biotecnológica. Às vezes a neblina negro-cinérea… às vezes a neve umbrosa e, em raras oportunidades, a chuva — do mesmo tom e gosto amargo de zëttir.
Após validar minha íris, fui instruída a seguir para os escritórios térreos — uma mudança estrutural repentina, por segurança. A Pirâmide Mater era obscura, pontiaguda. No seu interior, um labirinto burocrático e militar garantia a proteção de Verttica, mesmo que isso custasse algumas vidas humanas. Sinceramente, eu já estava acostumada com esta verdade, e todo o meu ofício naquele lugar dependia de uma concentração ímpar — portanto, gastá-la questionando o imutável era tolice. Estar em Verttica era um privilégio, a única zona habitável, com qualidade de vida, em toda a Rússia e, talvez, em todo o mundo.
Seção 13, última sala. Sem janelas. Não demorou para que eu me sentisse sufocada. Levantei-me após uma hora de trabalho e caminhei pelos corredores próximos. Eu só precisava de um pouco de ar, ainda que contaminado por biotecnologia — ousei pensar que seria melhor se estivesse mesmo infectado.
Os corredores estavam vazios, em sua maioria. Meu corpo começava a tremer e meu coração acelerava. “Uma janela... só uma saída... preciso de um tempo” — eu pensava. Perdi-me rapidamente, adentrando em portas que nunca ultrapassara — mesmo as mais restritas, embora reconhecessem e aprovassem minha íris. Talvez, pelo meu cargo, não me fosse impedido o acesso, entretanto, por que não? Havia algo de errado na Pirâmide Mater naquele dia, era evidente.
Consumida por um pânico pressuroso, corri para mais uma porta naquele labirinto e, então, eu o vi. Estava atrás de grades de ferro e prata. Usava um sobretudo de vinil e roupas de couro. Uma carcaça de zër cobria seu rosto, formando uma pirâmide assimétrica. Era um homem alto e forte — estranho para um externado. Aqueles que vivem fora de Verttica não deveriam ser fracos? Eu nunca havia visto um..., mas sabia que existiam e eram divididos em “selvagens” e “ocultos”. Aproximei-me... tive a impressão de que ele me observava.
A carcaça de zër era fascinante! As criaturas que dominam o mundo, o perigo iminente, a fonte da biotecnologia e ali, na minha frente, lapidada em geometria assimétrica, cobrindo um rosto humano como se fosse só mais uma pele de urso. O sujeito teria matado a criatura? Como poderia? Elas possuíam uma agressividade descomedida, eram imensas e de uma força inigualável! Eu estava impressionada...
“Oi...” — murmurei. Sua cabeça se movia, sempre acompanhando meus movimentos. Meu coração ainda acelerado. “Você matou um zër?” — ousei perguntar. Um tenso silêncio emergiu.
“Talvez...” — ouvi. Voz grossa e amedrontadora, decerto modificada para não ser reconhecida. Fremi e senti o arrepio correr pelos meus braços.
“Como é lá fora?” — Aproximei-me da grade, eu não estava raciocinando direito. Mesmo sem face, o homem estranhava meu comportamento, eu sentia. “Posso tocar?” — estiquei-me para dentro da sela, minhas mãos trêmulas.
“Pupilas dilatadas... mãos trêmulas... incapaz de identificar o perigo... você está em vianttre...” — proferiu como um demônio. Vianttre: Síndrome do confinamento de Verttica — eu estudei sobre isso ainda na graduação, entretanto, tomávamos pílulas diárias para manter a sanidade e jamais imaginei que sentiria aquilo; jurei que saberia identificar no primeiro sintoma.
“Deixe-me tocar...” — insisti, perturbada. O homem se aproximou, silencioso. Abaixou ligeiramente sua cabeça. Toquei na pirâmide assimétrica.
Frígida. De textura obscura. Perturbadora! Senti-me eufórica, uma risada súbita partiu de mim. Era impossível manter o controle. De modo célere, meus olhos lacrimejaram e senti algo descer pelas minhas narinas. Era sangue. Aquilo me levou a um pavor mórbido e eu ri mais do que antes. Uma profunda sensação histérica — e pensamentos de morte súbita. Minhas pernas fraquejaram, sentei-me no chão. A visão embaçava, enegrecia.
“Seu coração vai parar, você precisa chamar ajuda...” — ele disse, seu tom selvagem tal como sua aparência macabra. Nunca um habitante de Verttica se importaria com o colapso de um desconhecido. Menos um — eles diriam. Não querem superlotação na megalópole perfeita. Senti uma pontada aguda de dor no tórax, minha capacidade pulmonar estava reduzida.
Vi o homem colocar sua cabeça entre as grades, retorcendo a pirâmide assimétrica, entortando as colunas o suficiente para que ele pudesse passar. Aquela carcaça de zër continuava extrema em força e poder, mesmo sendo apenas uma carcaça.
No chão, a risada perdurava, mas eu estava agora deitada e já quase não enxergava. Lembro-me bem, eu vi com muita dificuldade. Ele sobre mim, e uma agulha perfurando meu pescoço. Retomei a consciência e a sanidade quase que em segundos posteriores, embora com a sequela da tremulação. Fitei o selvagem, senti medo profundo — entretanto, ele havia me salvado. Ficamos em silêncio. Tentei pensar em tudo o que eu poderia perguntar, porém, um nervosismo impedia-me de pensar com clareza.
“Se você podia fugir, por que esperava na cela?” — questionei, quase como um alívio por conseguir proferir alguma coisa.
“Aceito seu agradecimento...” — ironizou. “Uma vez dentro da Pirâmide Mater, não há como sair. Você sabe disso. A menos que sua íris seja verificada.” — ele tinha razão. Estava fadado à morte. Selvagens são considerados contaminados.
“Você tinha um antídoto consigo? Como?” — perguntei, confusa. Ele ficou em silêncio, observando. Levantei-me devagar, algo nele me instigava. Talvez o mistério de seu rosto, porventura sua força em destruir um zër. Ou apenas por ter sido salva, sentindo-me importante para alguém, ainda que para um completo anônimo.
Retirei a renda que escondia meu rosto — e soltei meus cabelos presos pela norma de Verttica. Eu queria que ele confiasse em mim, então fiquei vulnerável. Rendas negras, couro, vinil ou látex cobrindo o corpo, o rosto; cabelos presos e peças geométricas: tudo isso para confundir os inimigos externos. Essa era a lei de Verttica. Zërs não conseguem enxergar, entendem materiais enegrecidos como sombras e geometrias como perigo. Eu escolhia a renda, pois achava bonita — embora não fosse perfeitamente eficaz.
O homem aproximou sua grande mão de meus cabelos soltos, tocando-os devagar. Parecia nunca ter visto uma mulher de cabelos soltos. Pensei que o exterior, porventura, tivesse regras semelhantes à Verttica. Meu corpo ainda tremia e, estranhamente, eu senti desejo e intensa excitação com a aproximação do sujeito. Uma overdose de vianttre e, depois, libido? Eu não conseguia compreender aquela anomalia. Ninguém em Verttica tinha o direito de explorar a sexualidade, tampouco de senti-la. As pílulas regulavam os hormônios para manter o controle. Era preciso. A sexualidade leva à depravação e à violência..., contudo, eu me sentia viva enquanto aquela sensação se prolongava.
“Estou desejando você” — afirmei. Eu não sabia o que fazer com aquilo, achei sensato mencionar, embora, pensei em seguida, o selvagem não entenderia.
“Meu antídoto tira a letargia de todos os controles emocionais que Verttica impõe sobre seus residentes através de doping.” — explicou, tocando, em lentidão, meu pescoço. “Inclusive e, principalmente, o controle sexual...”
“Isso... não é verdade... Verttica nos protege...” — O toque dele... Eu precisava de mais...
“Sente-se protegida?” — ele questionou, seu tom de voz parecia mais monstruoso. Eu não pude responder... Abaixei a cabeça, fitando a porta de saída. Eu poderia fugir. Eu sabia que ele era uma ameaça. Quão abruptas as sensações se destravam no corpo... capazes de dilacerar toda a racionalidade. Eu não iria desistir ou retroceder...
“Pessoas externas sentem desejo diariamente?” — olhei-o.
“Talvez... o externo é precário, mas o sexo nos revigora. Pelo que posso notar, você nunca experimentou essa adrenalina. Sabe na teoria como funciona, mas claramente não sabe o que fazer com o que está sentindo.” — debochou.
“Por que não sei?” — senti meu ego ferido.
“Ninguém anuncia a um desconhecido que está com tesão por ele.” — afirmou, assertivo. “Ainda mais estando dentro de uma sala, desprotegida. E sendo uma mulher, ou seja, fraca.”
“Não sou fraca” — afirmei e, imediatamente, ele me pegou, prendendo-me em seus braços, impedindo-me de me mover. Ele estava quente e ficar tão próxima dele fez minha respiração tornar-se ofegante.
“Talvez para um homem residente de Verttica você não seja fraca. Mas para um externo, você é presa fácil.” — murmurou. Ficamos em silêncio.
Agradava-me sentir tamanho êxtase que, decerto, nascia do meu ventre. Eu estava enlouquecida por ele, tomada por um enlevo demoníaco. Era surreal, tamanha a intensidade. Eu sabia que mulheres poderiam procriar se realizassem o ato sexual e, claro, se ainda tivessem seus úteros. Eu não tinha medo dessa consequência, pois, em razão da rejeição de anestesia, minha cirurgia de remoção de útero era impossível, consequentemente, minha medicação controlada impedia a ovulação natural, tornando-me infértil. Todas as mulheres, ou quase todas, em Verttica, passavam por essa cirurgia. O Domínio — poder governamental — sabia o que fazia para amenizar a superpopulação em tempos de baixo recurso.
“Faça-me sentir mais... e eu te ajudo a ir embora daqui.” — prometi, ainda presa em seus braços. “Mas é preciso ser rápido...” — exigi.
“Prefiro devagar...” — murmurou, imerso em um flerte provocativo. “Pela sua sede, o rápido não vai te satisfazer” — afirmou, soltando-me.
“Não preciso me satisfazer... preciso sentir...” — ficamos em silêncio. Meu desejo estava me deixando sem juízo, pois até mesmo quando nos calávamos, eu sentia imersiva excitação.
O homem levou suas mãos à pirâmide assimétrica sobre sua cabeça e rosto, retirando-a. Meu coração disparou... eu iria vê-lo? Em seguida, livrou-se da placa de aço em seu pescoço e, por último, da balaclava de couro. E então... sim... eu vi seu semblante. O contorno de seu maxilar... seus cabelos castanhos e ondulados... um homem de beleza inexplicável, com algumas cicatrizes na pele, barba curta no rosto, olhos negros como uma breummita e... o brilho prateado na pupila. Ele estava mesmo infectado pela poeira biotecnológica. Aquele lume argênteo eu conhecia bem.
A volúpia, estranhamente, aumentara. No limiar do incontrolável — como se nada importasse. O possível perigo me atraía incondicionalmente. Manter-se distante de um infectado era uma das primeiras leis de Verttica. Entretanto, minhas emoções desequilibradas dificultavam minha servidão ao Domínio.
Ele se aproximou, como um caçador furtivo, desfazendo qualquer tênue possibilidade de retrocesso da minha decisão. Suas mãos envolveram minha cintura, seu perfume como ópio. Senti sua força. Um receio contornou toda a volúpia — fazendo em mim um verdadeiro amálgama de contradições sensoriais. Tudo vibrava, cada centímetro de aproximação era suficiente para a tremulação, mesmo a razão insistindo em me alertar das consequências daquela aproximação. Eu não a ouvia — cedi pela alucinante lascívia... era como estar embriagada. Eu sentia a presença daquele homem... carregada de atração.
“Vou te fazer sentir...” — ele sussurrou... o seu sussurro me inundava... sua voz real era grave para temer... grave para amar... um tom viril que me deixava em silencioso delírio.
Quando seus lábios tocaram os meus, tudo se dissolveu. O ar rareou, o calor ascendeu como uma febre capaz de alucinar. Uma vivacidade afrodisíaca percorreu-me por dentro, desgovernando quaisquer possíveis ações da minha parte. Fiquei submissa à cinesia daquele homem e sua mão envolveu-me a nuca com uma firmeza terna. Seu toque tinha um nível íntimo, como se já nos conhecêssemos há anos. O que aquilo significava?
A língua dele buscou a minha, lenta e profunda, deixando um rastro mentolado, talvez férreo, que contrastava com a sordidez daquilo que nos incendiava. O beijo prolongou-se até perder forma, narcótico e absoluto, misturando respiração e gemido. Quando suas mãos alcançaram meus seios, o mundo, a minha vida, o controle total, a externalidade em decadência — tudo, completamente, findou. O calor foi o que restou, e um som fugido da alma, lamúria de fervor.
Ele despiu-me com calma — mas havia pressa na sua vontade. Eu não estava sozinha no desvario da cobiça impúdica! Aquele lume prateado não negava. Seu toque inicial em meus cabelos, não fora desprovido de intenção. Percorreu-me com um olhar que também me penetrava, sem sequer mover-se. Eu via o desejo contido pulsar sob o vinil que o cobria, e ele percebeu para onde eu dedicava minha atenção. Não precisou de palavra: ele sabia bem o que eu queria. Eu o desejava com uma urgência insana, com a fome de quem quer ultrapassar todos os limites.
Com uma única mão, ele desativou as travas das correntes, abriu o zíper de aço e se libertou da proteção. A cada movimento, com sua habilidade excepcional, algo em mim se dissolvia. O som metálico reverberava na sala, e uma ansiedade pavorosa percorria-me, vibrando entre o medo e o desejo. Quando o vi — rijo, pulsante — toda a minha lógica restante se amorteceu. Restou apenas o frenesi, um torpor que me deixava entre o fascínio e a entrega. Era estranho... eu queria sentir o sabor... o peso... queria tantas coisas que não sei nomear. Por um instante, acreditei que aquela união era fisicamente impossível.
“Não... não acho...” — hesitei, e a dúvida soou como um convite.
“Pode doer um pouco... pode sangrar... mas...” — a respiração dele tornou-se arfante, e o som, por si só, me excitava. “Vou fazer devagar, até que você se acostume.” A voz, antes grave e ameaçadora, tornara-se afetuosa na curva sutil do seu proferir. Devagar... — essa palavra me escaldava.
Ele me tomou pelos quadris e me colocou sobre a mesa. O computador caiu, estrondando no chão. Houve silêncio depois...
Se eu pudesse voltar àquele instante, o teria beijado — eu, na atitude que devia, beijá-lo para parar o tempo. Assim eu faria... e beijaria também a sua rigidez imponente... tocando e sorvendo com meus lábios abrasados...
Quando o senti — a ponta roçando, o calor, o deslizamento... úmido, tão lento quanto a queda de um anjo ao inferno. Trepidei.
“Não... não acho que... cabe...” — Meu ar faltava, meu coração palpitava frenético outra vez. Não era possível que seu membro me penetrasse... era vultoso, talvez demais, entretanto, eu jamais havia visto um, então eu não saberia mensurar com precisão. Senti sua mão em meu queixo, ele me fez fitar seus olhos de luz prateada.
“Feche os olhos” — ordenou. Obedeci.
O avanço lento — muito lento — de sua entrada em mim. Na escuridão trêmula das minhas pálpebras. O corpo se abria à força e, ao mesmo tempo, pedia mais. Devagar... Ele gemia... Dor e calor misturavam-se até que já não soubesse distingui-los. O tempo pareceu se suspender, de fato, o ar ficou denso. Era uma sensação esplendorosa, uma vertigem que fazia esvair o medo e deixava apenas a satisfação. Cada fibra do meu corpo reagia, cada pensamento explodia como uma centelha. Senti arrepiar-se a tez, o sangue ferver, uma corrente subir pela espinha. Era humano… e, pela primeira vez, eu me sentia humana.
Quando percebi que ele estava todo dentro de mim, abri os olhos — precisava ver para acreditar que eu não estava sonhando.
“Está tudo bem?” — ele perguntou, murmurando. A dor já diminuía.
“S-sim...” — respondi em êxtase, ébria.
“Agora vem a parte boa...” — sussurrou em meu ouvido. O homem começou um movimento... entrando e saindo... penetrando, intenso e mais rígido. Eu não... aquilo era apenas impossível... todas aquelas sensações múltiplas. Não havia prazer maior. Nunca houve, nunca haverá. Eu gemia... ele gemia... e mantinha um ritmo perfeito. Meus olhos reviravam, minhas unhas cravavam-se em suas costas, mesmo e ainda que sua roupa fosse reforçada. Suas mãos coordenavam tudo e as minhas estavam indomáveis, capazes de feri-lo sem que eu pudesse perceber.
“Diz... seu nome...” — ele sussurrou. Meus olhos não conseguiam se manter abertos, nem fechados. Abracei-o, com os braços em volta de seu pescoço. Seu perfume invadiu-me... eu poderia morrer naquele momento.
“Nyum...” — proferi com dificuldade... “E você?” — toquei seu peito, mas não conseguia retirar sua proteção. Queria mais de sua pele.
“Logan...” — respondeu, aumentando o ritmo. “Ainda quer... que seja rápido?” — Seu gemido estava deliciosamente austero.
“Não quero... mas... tem que ser assim...” — Logan me segurou pelas pernas, penetrando-me em pé, apenas subindo e descendo com meu corpo. Lembro-me... e reminiscências da sensação se revivem no meu ser. Ia tão fundo. Parecia tocar um ponto específico que me deixava mais molhada, dando-me a sensação de que eu não ia suportar. Algo parecia crescer, um ápice de deleite... eu estava sempre em um “quase”... um “quase” que me levava à loucura. E Logan, tão viril, deixando-me mais ávida e ardente.
“Nyum...” — murmurou meu nome e aquilo me arrebatou. Bem no pé do ouvido, segurando-me intenso... possuindo-me tão firme...
“Preciso cumprir... minha promessa... Logan...” — relembrei... era necessário que parássemos.
“Essa... hum... é uma boa hora... para morrer....” — afirmara enquanto apertava minhas coxas, mantendo o ritmo do seu teso aprofundar. Uma troca de pensamentos... uma sincronicidade de sensações... ambos morreríamos felizes..., porém, a morte não merecia nosso orgasmo final.
“Não... não é...” — Eu desejava mais dele... almejava tê-lo todas as noites. Logan pôs-me na mesa outra vez. Retirou suas luvas.
Mãos... rústicas... veias salientes... força e brutalidade.
Segurou minha cintura e, violento, penetrou ainda mais forte e rápido. Minhas forças se esvaíam. Meu corpo em descontrole total.
Gritei seu nome, implorei para que não parasse... eu sentia que algo aconteceria... nas minhas entranhas... nas artérias, no pulmão... no útero... em todos os órgãos... algo viria, tórrido e indômito... e, de fato, aconteceu.
Tive uma convulsão — era o que me parecia. Espasmos pelo meu corpo, uma carga de energia elétrica em meu sexo. Uma overdose perigosa de enlevo. Uma exultação que atravessava meu crânio, energizando minhas células, fervilhando minha alma. E, no mesmo momento, senti o éter adentrar-me... tão febril... em um jato fugaz — selando o fim.
Logan gemeu intenso, segurando firme o meu pescoço, beijando-me em seguida.
Senti-me mais fraca do que antes... deitei-me em seus braços e ele saiu de dentro de mim, deixando seu sêmen escapar, escorrendo por minhas pernas. Manteve-me em seus braços e sentamo-nos no chão, exaustos. Eu não estava satisfeita, mas sentia-me realizada... cansada e... feliz. As sensações amainaram... a loucura abrandou.
“Eu vou... te tirar daqui...” — sussurrei, respirando seu perfume, tocando seu suor com a ponta dos meus dedos. Ele sorriu, cético, num crime de beleza masculina.
“Hum... eu prefiro ficar...” — afirmou, elevando meu rosto, olhando-me nos olhos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura macabra, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com o belo, o fantástico, o científico e o botânico. » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Olhos flamejantes e o último autônomo
Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava…
Criatura núrida, este conto, que
estás prestes a ler, contém um
interessante enredo. Foi construído com maestria
por uma autora fascinante e, decerto, trará à sua mente
uma compreensão diferente sobre o que as engrenagens,
quando vinculadas, podem trazer à tona no equilíbrio da
existência. Boa leitura!Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Acordou num sobressalto. Os sonhos pareciam vívidos. Arturo não descansava há dias, flagelado por dores intensas e pensamentos perfurantes. O silêncio já não trazia alento, o trabalho não mais o distraía do medo. Agonia. Receio. Inquietude. Eram seus únicos estados de espírito.
Como homem da ciência, não ousava procurar os curandeiros; não buscava a nenhum deus, porque lhe faltava a fé que faria com que as montanhas de incômodo fossem removidas.
Nos raros momentos de um falso alívio, lembrava com tristeza de sua última e perfeita invenção: um autômato que emulava, funcionalmente, as habilidades que desejava em um assistente pessoal.
Mas ele se fora.
Os olhos flamejantes engoliram sua criação, mas recusava-se a acreditar no que presenciara. Lutava consigo, não iria permitir que pensamentos alucinatórios o envolvessem em uma lama de caos e insanidade. Viu, mas em sua racionalidade extrema afastava, furiosamente, quaisquer ideias fantásticas. Aqueles olhos tinham que ter uma explicação científica.
A sua criação perdida tinha o exoesqueleto de ferro. Os ossos-ferro foram forjados pelas mãos fortes do jovem Arturo. A “pele” era uma fina camada de bronze, cujo contornos foram delineados, delicadamente, para compor os detalhes da musculatura humana. Finalizou em 1970, com então 25 anos de idade, e naquela época ainda não havia tecnologia para emular voz humana, mas como seu auxiliar só precisava de coordenação motora aceitável, era perfeito para o que se propunha. Não tinha a coordenação fina de um adulto saudável, mas os serviços de Arturo exigiam mãos fortes, tal qual as dele e assim ele o fez.
***
Em uma noite sem estrelas, onde o vento assoprava segredos indecifráveis, Arturo lembrou-se das histórias de sua infância, contadas todas as noites por sua vó. Em uma delas, grandes olhos de fogo surgiam nos céus para julgar e condenar todos os habitantes da terra. Quais eram os critérios para condenação? Quais eram as penas? Havia muitas versões, mas a que mais perturbava o jovem era: “as piores torturas viriam para àqueles que tinham sangue de inocentes nas mãos”.
O governo para qual Arturo havia cedido sua mão de obra e, consequentemente, sua alma, nadava em um mar de sangue inocente. Ele, como criador de milhares de autônomos para combate, sabia que tinha parte dessa culpa. Sabia que as dores eram consequências das mortes que agora recaíam sobre seus ombros. Mas recusava-se aceitar que as crendices tivessem efeito no mundo real.
Mesmo afligido pelas dores e culpa começou um novo protótipo. Sempre fora obstinado e não estava disposto a mudar de comportamento. Se, o que quer que seja, tomou-lhe o assistente anterior, faria outro, ainda mais perfeito. E assim o fez. A nova criatura era infinitamente mais robusta e com habilidades motrizes melhoradas. Olhou para o novo ser de ferro e gostou do que viu. Conseguiu dormir por algumas horas ininterruptas sem ser perturbados por ruídos ou dores.
Acordou sentindo as esperanças renovadas, mas o bem-estar recém adquirido seria esmigalhado por outra perda: o novo ser também sumira.
Sabia quem o havia levado, mas novamente, tornou a banir tais pensamentos e recomeçou o ciclo de criação. Novos protótipos eram criados reiteradas vezes, mas mal conseguia terminar os testes era açoitado por novas perdas. Inúmeros autônomos foram sugados para dentro dos olhos famintos. As dores aumentavam, até que não sobrou mais pensamentos lúcidos e a sua capacidade cognitiva foi severamente afetada.
***
Aquela noite estava atípica. Ouviu barulhos agudos incômodos, como se estivesse dentro de uma siderúrgica macabra, mas não sabia distinguir o que era real do que era truque de uma mente adoentada. Quando, enfim, decidiu acabar com seu sofrimento, um brilho intenso o cegou, mas os ouvidos continuaram ávidos por qualquer onda ou gotejo sonoro. Vozes metalizadas começaram a emergir, e a potência das vozes lembravam um coral que rasgou os céus e desceu com leveza até a terra.
De alguma forma, o exército que ele havia criado retornou para buscar seu criador. O sangue dos inocentes clamava por justiça e os combatentes-máquinas foram enviados para a missão final. Em seus últimos segundos de vida Arturo escutou o veredito provindo de sua última criação. Sabia que os olhos haviam encharcado aquelas criaturas com a ordem de exterminar todos os culpados, mas ao invés de medo sentiu um alívio, pois constatou ter engendrado uma figura infinitamente perfeita.
“Eu estava certo vovó. A ciência é maior que a crendice...”.
O último autônomo não lhe deu chance de concluir o discurso e eliminou o brilhante inventor. No alto, os olhos flamejantes permaneciam indiferentes aos milhares que ainda aguardavam, sem adivinharem, seu destino. O ciclo precisava continuar e o universo seria reinventado... E as engrenagens nunca iriam cessar...
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Trilogia Sprawl: Parte #1 Neuromancer
O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas…
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O universo cyberpunk é apaixonante e cruel, assustadoramente amplo e confuso, subjetivo e brutal, crítico e revolucionário, dentre muitas outras coisas. Abrangendo desde gêneros literários, jogos de vídeo game, músicas, vestimentas, características estéticas… se compondo como um todo a ser explorado. Com luzes neon iluminando as ruas à noite, implantes cibernéticos, conflitos entre gangues e um mundo dominado por megacorporações, o cyberpunk (que se tornou, recentemente, um vocábulo reconhecido pela Academia Brasileira de Letras) se materializa como uma crítica clara e explícita ao caminho que a humanidade trilha há décadas: um mega corporativismo ultra capitalista.
É impossível tocar no assunto sem citar e se aprofundar na trilogia que pavimentou a estrada do sub-gênero literário: Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, conhecidos como “trilogia Sprawl”, do autor William Gibson.
Neuromancer (1984) é o primeiro livro da trilogia e, também, é aquele que captura o leitor e o apresenta ao estilo de escrita do autor. Ora extremamente descritiva (e nada explicativa), ora direta e dinâmica, a escrita de Gibson pode impactar negativamente os leitores de primeira viagem. O autor discorre, por páginas e páginas, pelos mais ínfimos detalhes da cidade de Chiba: as tecnologias dispostas por toda parte, as gírias locais, as drogas utilizadas, as dinâmicas entre a população local… O que pode ser considerado como característica de uma escrita amadora, ou como um verdadeiro truque de mestre. Gibson alterna a quantidade de informação disposta ao leitor conforme a linha narrativa do capítulo em questão. Quando acompanhamos Case, o cowboy (hacker) e personagem principal do livro, o autor é específico com relação aos equipamentos e técnicas utilizadas, assim como sobre o ciberespaço (termo cunhado por ele mesmo). Quando acompanhamos outro personagem, que pouco sabe sobre os acontecimentos, o autor também nos apresenta com pouca informação. Assim, nos vemos com o mesmo nível de conhecimento que os personagens que estamos acompanhando, tecendo uma relação pessoal e íntima com eles.
No início do livro, nos deparamos com um protagonista em ruínas. Case, após tentar roubar de seus próprios contratantes, foi infectado com um vírus que o impede de se conectar à rede. Vivendo em completo colapso, ele está preso às lembranças de sua ex-namorada e à rotina criminosa de Chiba — um cenário que reflete não apenas suas emoções destroçadas, mas também a ausência de qualquer perspectiva, sentimentos que permeiam este novo universo. O personagem se submete a trabalhos perigosos para criminosos locais, em troca do suficiente para viver mais um dia. Gibson, então, nos presenteia com a personagem mais singular e inesquecível de toda trilogia: Molly Millions. Molly é personagem recorrente nas histórias do autor, aparecendo pela primeira vez em Johnny Mnemonic, três anos antes de Neuromancer. Forte, em todos os sentidos, e apaixonante, a razorgirl surpreende pelas marcantes características físicas (as lentes prateadas sobre os olhos) e pela personalidade incomparável. Molly é o “estado da arte” do autor. Todas as cenas em que aparece são marcantes, especialmente quando o autor vai nos mostrando pequenos fragmentos sobre o passado obscuro da personagem.
Molly aborda Case para convocá-lo, sabendo de suas habilidades como cowboy, a mando de Armitage, outro personagem que nos surpreende ao longo da obra. Case recebe a possibilidade de ser curado, mas deve ajudar Armitage em determinadas missões que o apresentarão a desafios jamais vistos. Neste momento o autor nos apresenta a característica mais marcante da trilogia: a junção do cyberpunk com a religião vodu. O ciberespaço deixa de ser a representação gráfica de dados corporativos e passa a ser lar de entidades sencientes, como inteligências artificiais que se materializam no espaço virtual, se movimentando e buscando compreender umas as outras. É inegável que a proposta gera uma sensação desconfortável no leitor, que se vê diante de algo que nem as forças de segurança digital do livro sabem lidar. Case se vê perante algo muito maior do que ele mesmo: o questionamento sobre quando, e como, isso começou (algo que só será respondido, em partes, no terceiro livro da trilogia) e quais os impactos por vir.
O misto de tecnologia, investigação, religião vudu e questionamentos sobre humanidade e moral nos mantém presos à obra, que escala e ruma as resoluções da metade para o final, com uma conclusão surpreendente e inesquecível
Neuromancer é visto por muitos como o melhor livro da trilogia (e do autor) e ponto de partida de todos que querem compreender o início do universo cyberpunk. Sua influência nas obras que se seguiram é perceptível nos elementos desenvolvidos pelo autor: constructos de personalidade (o personagem Flatline, que auxilia Case em diversos momentos), megacorporações que dominam as cidades (Hosaka, Maas Biolab, a infame e familiar Tessier-Ashpool), implantes cibernéticos por toda parte (como não se lembrar dos braços de Ratz logo no início do livro?) e o universo abstrato e assustador que é o ciberespaço.
Os escritos de Gibson são uma experiência a ser vivida e que todos os amantes do cyberpunk deveriam conhecer para entender as estruturas que sustentam esse gênero.
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…