Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de ervas, o silêncio da meia-noite e a transmutação da botânica em mistério oculto, eu estava imersa no rito da flor fantasma.

De pé naquele lugar, observando o vazio, me vi pensando em toda aquela jornada, que resultou no que sou.

— Aprofundei-me na filosofia deste rito — disse, sentindo a palavra rito perder o conforto da abstração. — Uni a ciência da carne à linguagem dos símbolos. “Mas não para compreender” — pensei. — “Compreender é um luxo da luz.”

Inspiro profundamente, um ar levemente úmido e frio.

Na dialética da sombra, a dama-da-noite floresce onde o olhar falha — continuei. — Ela exige silêncio. Exige ausência…

“Toda revelação começa quando a luz se retira”, murmurou um pensamento espesso, irrompendo minha fala. — “O conhecimento não nasce do ver, mas do suportar”.  Parecia lógico, tão lógico que me fez ficar sem chão.

— E…Ela não se propose à prudent — acrescentei, a voz já sem calor. — Apenas aos que permanecem. — “Aos que ne dèviez pas do escuro da própria alma” — completei por dentro. — “Aos que aceitam… que algo…. pereça… para que outra coisa… pense.”

Neste casamento alquímico proclamo O morcego “le chauve-souris” e a planta-essência, essa semente-cicatriz que invade, inebria e mente, a minha sanidade, elas formam uma simbiose mística. Ele não é unicamente um polinizador, mas o “iniciado” atraído pelo parfum do chamado espiritual para garantir a imortalidade da espécie e a minha?

Nas sombras onde a nuit tece seu véu. Ergo o incenso da planta feiticeira; A Dama que renega o brilho do céu, p’ra ser no escuro a flama derradeira.

Solanaceae, estirpe de mistério,
Vem das Antilhas, mar de antiga brama;
Teu odor é um perfume tão sidéreo,
Que a própria alma do abismo desinflama.
Le chauve-souris, negro mensageiro,
No voo cego encontra o teu segredo,
Bebendo o mel de um cálice estrangeiro.
Ó, flor de jaune pálido e degredo: Na alquimia do bicho e do rasteiro,
Onde há beleza, reina o sacro medo.

O ar não era mais oxigênio, era uma sopa espessa de pólen e espectros. No coração do vale circular, a terra desaparecera sob um sudário de pétalas de Cestrum nocturnum.

Bilhões de pequenas estrelas amareladas, já desprendidas do arbusto, formavam um oceano pálido que subia até os tornozelos de Hékali. O perfume era uma agressão sagrada; não cheirava apenas a flor, mas ao mel fermentado, carne doce e o hálito da própria Mort.

Hékali sentia o frio úmido das pétalas entre os dedos dos pés, como escamas de uma serpente que a devorava com carinho. Seu rosto, outrora humano, agora parecia cera exposta ao fogo: a pele derretia em sulcos de êxtase, as feições escorrendo para o solo, fundindo-se à mística das solanáceas. À sua frente, a Matriarca. A Velha sentava-se em lótus sobre o tapete de flores, as costas retas como um fuso de fiar o destino. Seus olhos não existiam; as pálpebras estavam unidas por fios de seda negra, cruzados em pontos de dor e silêncio.

Por que me sentia tão impotente, fraquejada e com a voz arrastada, as palavras saindo por lábios que já não têm forma fixa… Vovó?” — Me inundou esse pensamento.

— Vejo o que a luz escondeu por milênios, Grand-mère. — Com uma respiração pesada, e algo trancando meu peito

O mundo não é feito de pedra e sol; é uma ferida aberta que nunca fecha. Sinto as pétalas nos meus pés como dedos de crianças mortas. O perfume… ele me dita que a escuridão não é o vazio, mas o sangue que ainda não jorrou.

Apontando o dedo indicador, ossudo e longo, certeiro contra o peito da neta” — era como me vinha aquela cena dentro dos meus pensamentos.

Écoute! — Um grito numa voz cansada saiu. — O mundo está prenhe de bocas que não falam, mas sugam. — Um breve silêncio. — Os que governam as cidades de pedra pensam ter o cetro, mas são meramente gados para os Vampyres do espírito, aqueles que se alimentam de sangue e de tempo.

Ela parou para retornar sua fala de oráculo.

— A escuridão é o único manto real. Tua mãe... tu te lembras do gosto do fim dela? — Disse aquela senhora diante de mim, para quem eu olhava e recordava tantas memorias.

Cai de joelhos, as pétalas subindo-lhe às coxas como uma maré...” — Minha mãe foi colhida como estas flores. Ela tinha o cheiro do medo e da lavanda. Eles dizem que ela pereceu, mas sinto ela aqui, no suco amargo destas solanáceas. O sangue dela não secou na terra; ele virou seiva.

Por que a deixaste partir para o reino das sombras sem o teu guia?

— Porque a Mort não é um erro, neta minha, é uma coroação. Tua mãe não foi levada; ela se ofereceu como polinizadora deste campo. Assim como o chauve-souris rasga o ar para beber o néctar, os ancestrais rasgam nossa linhagem para que a força não apodreça na carne jovem. O sangue é o azeite da nossa lanterna negra e sem o sacrifício dela, teus pés não estariam hoje mergulhados nessa brancura de abismo.

Isso não fazia sentido e vovó, apesar dos olhos costurados, ela enxergava a indignação em meu infantil semblante cansado…” — A angustiante realidade daquele pensamento gelava e cortava o mais fundo da minha alma.

— Vovó Uranai, o mundo lá fora… eles gritavam de pavor! — Meus olhos expressavam o terror, o medo sincero. — Eles acendem velas para espantar o que somos. Eles temem o semblante derretido, temem o aroma que nos embriaga.

Solta uma risada seca, um som de folhas mortas ao vento…

— Deixa que acendam suas pequenas luzes de bougie, pois a luz apenas limita a visão, aqueles a que aquém quer ver com os olhos da carne são escravos da forma. — Ela suspirou, parecendo carregar pesares passados. — Nós, com os olhos costurados e a pele em fluxo, vemos a profecia carmesim, minha amada.

Ela parou e observou-me, com carinho incomum, uma ternura maternal. E retomou o raciocínio.

— Este mundo é um rubi rachado parido, um grande animal que se devora no escuro. Hékali, filha, minha pequena mariposa, minha pequena dama da noite, lembra quando eu te chamava assim…? — Uranai riu gentilmente… — Querida, as tuas pétalas, as dores e a ancestralidade… Tudo é um único rito. Sentes o cheiro…? O que ele te solicita agora?

Enterrando as minhas mãos no tapete de flores, levando um punhado de pétalas à boca, eu sinto…

— Solicita que eu esqueça meu nome. Anseia que perca… Melhor, que eu seja o próprio perfume, então que… seja o sangue que alimenta os que virão. Je suis la nuit!

— Então silencia, neta, deixai que a Dama-da-Noite termine de te devorar. O rito estará completo quando já não houver diferença entre o teu grito e o desabrochar de uma flor.

Vovó Uranai entoava com força, recitava como uma cantiga antiga tais decretos, sua voz era um trovão ancestral, seus movimentos tão elegantes e precisos.

Sob véus de luar prateado, na alcova de sombras tecidas, minha avó, etérea guardiã de segredos velados, inclinou-se sobre mim, olhos de âmbar em brasa, e com voz de harpa partida, entoou a cantiga das essências:

— Ó, Nectar-Esprit, néctar celeste da alma divina, honrai a fonte de vida que em vós se derrama eterna. Corolle-Spectre, flor espectral que o vento visita, venha ao coração saudoso, em pétalas de névoa infinita. — Sua voz vinha com uma melodia tão intensa, profunda. — Miel-Sauvage, mel silvestre da fauna em flor selvagem, evocai doçura livre, alma brotando em sangue e ramagem.

Ela pausava a voz. Ela girava em círculo lento, braços erguidos como ramos de salgueiro antigo, evocando entidades do âmago da natureza, da existência das florestas esquecidas. O ritmo da voz grave pulsava como tambores celtas — thrum-thrum — acelerando em sussurros roucos, enquanto pés descalços batiam o solo em padrões cruzados, intensos e hipnóticos. Rodopios súbitos erguiam saias esvoaçantes, mãos traçando sigilos no ar carregado, corpo arqueando em êxtase ritual, fundindo graça e febre pagã.

— Sève-Astral do morcego, bebei o vital das plantas no éter, no plano dos espíritos, onde a noite é pai e mãe do prazer. — Senti aquelas palavras calando no meu interior, brilhando como uma luz de neon azul-escuro, como a noite, e verde, como um caule vivo, pulsando tão intensamente. — Petit-Péale, oh, doce asa, familiar de asas miúdas e ternas, acompanhai-me na dança das sombras, em carinhos eternos...

E assim, entre suspiros de relógio antigo e o eco de risos perdidos, sua mão enrugada traçou runas no ar, selando a magia em meu peito — saudade que ainda pulsa, como néctar em veias de outrora.

Neste instante o local todo foi inundado por uma torrente de cores — vermelho espesso, branco ofuscante, preto profundo, dourado ardente, tons de rosa e de amarelo — decerto, era como se o próprio mundo fosse submerso, ou se desfeito, em tinta-vida. Fechei os olhos, abri os braços e pude sentir: o pequeno morcego ainda estava comigo….

Quando abri os olhos, eu a vi, ao longe se despedindo com um sorriso sereno. Ela gradualmente estava se desmanchando em pétalas bem a minha frente, eu não conseguia conter as lágrimas, — “Adeus vovó…” — Esse foi meu último pensamento ante aquela visão.

Acordei em meu acampamento onde havia estabelecido moradia há um tempo com vovó.

Amava aquele lar, um ninho, um aconchego humilde. Meu coração, ele crepitava assim como a fogueira. Já temia o pior. Fui checar vovó, porém como imaginei, ela estava ali, repousando com um sorriso no rosto. Fiz os preparos do funeral. Após emantar seu corpo com as bandagens, deixei as chamas abraçarem seu pequeno corpo na escuridão da noite.

Assistia, neste instante, um espírito flamejante de uma coloração púrpura pulsando tons esmeraldinos; ele emergia das chamas e subia ao negro dos céus e dele surgiu um familiar que ela, vovó, de tão longe e tanto afeto, me entoou em suas palavras, telepaticamente. Senti, seu nome ecoar em todo meu ser, ele era Écho-Fleur.

Ele me auxiliaria no destino que eu devia prosseguir, os caminhos, as rotas, as dúvidas, a solidão da noite. Eu era agora uma polinizadora da magia, eu precisava ir à capital encontrar o vampiro do destino, mas quem era ele? Será que Écho-Fleur me entoaria a profecia corretamente? Eu precisava seguir meu coração.

Era tudo que eu tinha nesta eterna escuridão da realidade deste mundo decadente…

· · • • •✤• • • · ·

Quando retornei a mim estava deitado no piso de madeira. Uma imensa dor de cabeça. Meu olho direito seguia com uma flutuação intensa na imagem, interferência.

Me ergui com dificuldade. O corpo pesava, além de sentir uma rigidez.

Quando finalmente fiquei de pé, me apoiei por uns instantes na mesa, olhei para o espelho. Aquela imagem veio à tona, tão intensa, tão fervorosa. A sombra feminina refletida.

A dor de cabeça aumentou com aquela memória. Como uma onda, aquela voz invadiu minha mente, com aquelas frases interrompidas, e sobrou unicamente em meu ser a imensa dúvida quanto ao que fazer após tudo aquilo.

— O que será que foi tudo aquilo? Aconteceu realmente? — Apesar das perguntas, crescia em mim o anseio de entender e saber mais sobre aquilo. — Então só me resta ir na direção que ela me disse. Se for problema logo vou saber.

Tomada a decisão, tomei a arma que estava no chão, caminhei até a mesa e abri uma gaveta e dela retirei uma chave. Coloquei-o em minha cintura e nele minha arma. Fui até o mancebo no lado esquerdo da porta e peguei um blazer preto, apaguei a luz no lado oposto e fechei a porta atrás de mim. Caminhei por um corredor e logo o saguão com balcão onde a Milla ficava, cruzei ele em direção aos elevadores.

Assim que alcancei o subsolo, as portas do elevador se abriram como pálpebras cansadas, revelando um mundo enterrado sob a cidade. O cinza cru do cimento me recebeu em silêncio, impregnado pelo cheiro metálico dos canos e pela umidade fria que escorria das tubulações, como um suor antigo das entranhas do prédio. A luz era baixa, mansa, quase íntima — não feria os olhos, somente envolvia.

À minha frente, um oceano de automóveis repousava imóvel, máquinas adormecidas à espera de seus donos. Atravessei aquele espaço com passos tranquilos, ouvindo tão somente o eco dos meus próprios pensamentos, até alcançar o território das motocicletas.

Foi então que a vi.

Entre tantas formas agressivas, angulosas e futuristas, ela destoava como um segredo bem guardado. Uma Sportster S, azul-escura como um sussurro lançado na calada da noite. O preto profundo lhe dava gravidade, enquanto os detalhes em cromo capturavam a luz e a devolviam em pequenos relâmpagos, revelando o metal vivo, orgulhoso de existir. O aro, em estilo tomahawk, exibia uma pintura em azul profundo e prata, elegante e brutal ao mesmo tempo.

Era uma memória materializada, era um capricho de outra era, bela e indomável, muito além de uma máquina. Um capricho de outra era, bela e indomável. Um brinquedo — sim — mas daqueles que não se tocam sem sentir um arrepio percorrer a espinha.

Dei a partida. Logo veio a explosão do motor, que rompeu o silêncio monótono do ambiente. Dei uma leve acelerada, e aquilo realmente me rendeu um prazer único. Acendia as luzes. Movi lentamente a moto para trás até deixar direcionada para a saída. Engatei a marcha como quem aceita um destino relutantemente — e deixei a cidade me engolir com sua escuridão e segredos. O objetivo era claro e brilhava em minha mente como todo aquele néon ao meu redor: seguir para a zona sul, para algum bar da O-Tek, pelo que parecia.

Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael

Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados.

Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra.

O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva.

Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos.

“Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais

Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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