Necrose
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Quando a noite sepulta o horizonte sem luz,
E o zênite em luto ao abismo conduz,
Ante o pálido horror deste céu cinzento,
Eu me rendo ao rigor do pior isolamento.
Não o vago silêncio de antigos altares,
Onde o tempo desfaz os mortais relicários,
Mas a mudez que habitava a primeira amplidão,
Antes que o Caos gerasse a primeira ilusão.
Eis-me aqui, átomo só, poeira esquecida,
Náufrago cego nas margens da vida.
Penso até que a razão se transforme em veneno,
A sondar o mistério deste arco terreno.
Que arcano se esconde na cúpula escura?
Que traço desenha tamanha negrura?
As perguntas despertam qual hera sombria,
Sufocando o saber em total agonia.
O teto do mundo é um vasto jazigo,
Onde cada planeta pulsa em castigo;
Não há brilho sutil nas estrelas distantes,
São piras de mortos, faróis vacilantes.
E na névoa sutil da matéria oculta,
Uma força sem nome o cosmos sepulta;
Monarca espectral que governa o enigma,
Deixando no espaço o seu negro estigma.
A angústia regressa com passos de chumbo,
Cobrindo de trevas o meu próprio rumo.
Existir é fitar o declínio da mente,
Sem asas que salvem o corpo decadente.
Sou mente, fagulha, frágil claridade,
Fissura efêmera na imensidade;
Condenado ao tormento do eterno inquirir,
Enquanto as estrelas se deixam ruir.
O éter se cala, nenhuma voz desce,
Nenhum deus escuta tamanha prece.
No centro de tudo, domina o vazio,
Monótono, imenso, soberbo e sombrio.
Não há julgamento, clemência ou rancor,
Apenas o vácuo em seu gélido horror;
Se a morte desenha os seus tristes contornos,
O nada desfaz nossos corpos já mornos.
Retorno ao degredo, ao cerne do tédio,
Onde a alma padece sem cura ou remédio;
Ali permaneço, fantasma de outrora,
À espera do fim que a matéria devora.
Escuto o rumor desse abismo trancado,
Qual réprobo mudo ante o templo sagrado:
Sabendo que o véu nunca há de ceder,
Mas preso ao limiar do que não posso ver.
Bruno Reallyme
Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;