Liturgia da Noite

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante,
e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante,
eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,
carregando em meu peito a sombra da tua partida. 

A noite abre seus braços como uma mãe silenciosa,
coroada por estrelas numa tristeza formosa,
e eu, pobre peregrino de um destino sem calor,
faço da escuridão o altar do meu amor. 

Há um canto entre as sombras que somente eu conheço,
onde os ventos da saudade rezam sem endereço,
ali deposito os sonhos que jamais pude viver,
flores negras de esperança que se recusam a morrer. 

Eu te amei como a lua ama o mar adormecido,
como um castelo em ruínas ama o tempo consumido,
eu te amei como a chuva ama o bosque outonal,
num desejo sem retorno, num suplício espectral. 

Teu nome era um incenso pelas trevas espalhado,
um fantasma luminoso sobre o mundo abandonado,
e cada noite sem tua presença junto à minha
era uma cruz carregada por uma alma que definha. 

Quantas vezes contemplei a madrugada vazia,
vendo a dor fazer morada onde antes havia alegria,
quantas vezes a lembrança, como um corvo sepulcral,
veio pousar sobre os restos do meu sonho ancestral. 

As estrelas pareciam olhos frios a vigiar
o lento naufrágio da esperança perdida no luar,
e a lua, velha sacerdotisa das tristezas sem fim,
derramava sua prata sobre os desertos em mim. 

Então compreendi o segredo que a noite escondia:
toda lágrima guardava uma secreta alquimia,
pois a dor, quando profunda, como um rio subterrâneo,
escava dentro da alma um reino vasto e arcano. 

Foi quando o amor surgiu entre os escombros do sofrer,
como uma rosa impossível voltando a florescer,
não um amor de incêndios nem de febre passageira,
mas um farol aceso contra a tormenta derradeira. 

Veio suave como um hino que atravessa a eternidade,
como um anjo fatigado retornando à claridade,
e tocou minhas feridas com um gesto tão sereno
que transformou o meu inverno num pesadelo ameno. 

Desde então a escuridão continua a me chamar,
e ainda ouço as velhas mágoas sussurrando ao luar,
mas já não sou o espectro que vagava sem destino,
pois carrego dentro do peito um fogo clandestino. 

A noite segue sendo minha amante e confidente,
o espelho onde contemplo minha alma decadente,
mas onde antes reinava o abandono sepulcral,
ergue-se agora um sonho sereno e imortal. 

E se um dia o tempo vier fechar meus olhos cansados,
e eu repousar entre os mortos, pelos séculos velados,
que escrevam sobre minha lápide, em letras de esplendor: 

"Aqui dorme um homem triste,
salvo pela noite e redimido pelo amor."


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Ela

Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Eu viajei por muitos lugares desde que me transformei nisso. Desde que me tornei uma criatura sanguinária que vive do medo à noite. Não sinto falta de nada da minha vida passada.

Quase nada. Apenas você.

A madrugada é o único tempo em que posso viver, agora que o sol se tornou tão doloroso quanto lembrar de você. Quando os humanos dormem, eu caminho. Quando os humanos sonham, eu caço. O mundo noturno tem leis diferentes para nós. As minhas são: a fome, a sobrevivência, o silêncio. Não me orgulho do que faço. Isso seria humano demais. Mas também não sinto culpa. A culpa morreu junto comigo, na noite em que me morderam e me deixaram sangrando num beco, esquecido por Deus. Agora sou só instinto. Quase só instinto. Porque você ainda está aqui. Não na minha vida, mas dentro de mim. Como um espinho que não posso arrancar. Como uma oração cujas palavras esqueci, mas cuja necessidade de rezar ainda sinto.

Toda noite eu saio. Toda vez que a fome me empurra para as ruas escuras, para os becos onde os vivos não se atrevem a entrar, lá encontro minha refeição. Não escolho minhas vítimas por maldade. Escolho por necessidade. Mas algumas noites… algumas noites o destino me oferece um presente. Foi assim em uma terça-feira qualquer.

Eu te observava de longe, mais uma vez. Como faço todas as noites. Você saiu do cinema mais tarde do que o normal, rindo com sua nova família, o cachecol preto balançando ao vento. Eu estava do outro lado da rua, na sombra de um prédio abandonado, invisível para você, como sempre.

Foi quando eu o vi.

Um homem. Acompanhava de longe. Não um amigo — eu conheço seus amigos, estudei cada rosto que se aproxima de você. Este era diferente. As mãos nos bolsos. O olhar fixo em você. O jeito de caminhar, lento demais, esperando demais.

Eu conheço esse tipo. Antes de me tornar o que sou, eu era apenas um homem. Eu via esses homens nas ruas. Eu sabia o que eles queriam. O que eles planejavam.

Ele esperou você. Esperou você entrar na rua mais escura, a que você insiste em pegar mesmo eu desejando, todas as noites, que você trocasse de caminho.

Ele acelerou o passo.

Eu também.

Não vou descrever o que fiz com ele.

Não porque me arrependo — e não me arrependo. Não porque foi difícil. Foi fácil, tão fácil que quase me assustou. O corpo humano é frágil quando confrontado com algo que não é mais humano.

Vou dizer apenas isto: ele não chegou perto de você.

Eu o peguei três quadras antes da sua casa. Eu o arrastei para um beco que cheirava a urina e morte. Eu olhei nos olhos dele enquanto ele tentava gritar e não conseguia, porque minha mão já estava em seu pescoço.

Ele tinha uma faca no bolso. Eu senti o metal contra minha pele quando o imobilizei. Uma faca. Ele ia usar aquilo em você.

— Você escolheu a mulher errada — eu sussurrei, com os olhos afiados e prazer na alma.

Ele não entendeu. Como poderia? Ele não sabia que você era protegida. Ele não sabia que, todas as noites, uma sombra caminhava atrás de você. Ele não sabia que o monstro das lendas era real e que aquele monstro amava você.

Eu o matei.

Sem culpa. Sem pressa. Com uma precisão que aprendi em décadas de noites solitárias.

Depois, limpei as mãos na parede molhada do beco e fui embora. O corpo ficou lá. Não era a primeira vez que eu deixava um corpo para trás. Não seria a última.

Mas esta noite foi diferente. Esta noite eu não matei por fome.

Matei por você.

Já nem sei quanto tempo passou.

Eu não mudei, não por fora. Mas não posso ter certeza, porque não vejo meu reflexo no espelho. Talvez eu tenha virado outra coisa. Talvez eu tenha virado ninguém.

Você, por outro lado… Você está diferente. Mais velha. Cabelos brancos, a pele enrugada. Ainda imatura de algum jeito, sempre foi assim… Seu jeito de rir, seu jeito de se irritar com coisas pequenas.

Mas ainda tão bonita quanto o dia em que te conheci.

Estou fadado à vida eterna sentindo sua falta. Por isso te observo todas as noites. Te vejo sorrir para outro homem. Te vejo se apaixonar por uma família que não posso ter. Te vejo viver uma vida que deveria ser nossa.

A dor não passa. Apenas se esconde. E volta mais pesada, mais cruel, mais torturante. Meu caixão não é apenas meu conforto. É onde aprisiono o choro e o eco das memórias que nunca terei com você.

A vida eterna não me abençoou. Ela apenas me amaldiçoou com a solidão.


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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Entrega

O fim sempre volta | retorna sem medo, sem aviso, sem prazo. | Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado | que pede pausa…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O fim sempre volta
retorna sem medo, sem aviso, sem prazo.
Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado
que pede pausa, pede ar.
Não sinto mais do pouco controle que pensava ter pelo fluxo sanguíneo irregular
que transpassa cada frágil parede dos capilares que me formam.
Já fui melhor, ao menos acredita, mais centrado, olhar que alcançava longe;
hoje, penso apenas no agora, na existência que se estende ao amanhã, não sei,
se chego. Se quero. Se tento. Se espero.
E quando o frio me consome, o tremor das pontas dos frágeis,
o peito que aperta com pulmões que não encontram o ar, coração compensa,
tenta compensar,
mas há batimento que alcance ou coloque fim em toda dor,
nos cheiros que me levam até aquele lugar,
a que brilhava e queria me cegar,
eu queria me cegar,
as pessoas, sons que penetravam tais como alfinetes agudos,
rompendo os tímpanos cansados,
esgotados,
era como eu sobrevivia,
não sei como.
Agora, penso no tempo, em como me limpar,
enxergar um longe tão longe,
que não tenho mais unhas para alcançar.
Quero o descanso,
o silêncio que vem com a entrega,
a interrupção da dor,
o cessar do medo;
quieto, calado, vida ao redor,
entrego.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Partitura de Cânfora e Pó: Um Réquiem em Séttimor

A umidade em São Cipriano das Almas não era meramente climática; era uma saliva antiga, uma exsudação da própria história que lambia as paredes…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A umidade em São Cipriano das Almas não era meramente climática; era uma saliva antiga, uma exsudação da própria história que lambia as paredes do sobrado, fazendo brotar mofo sobre o papel de parede inglês adamascado. O luxo europeu descolava-se como pele necrosada após uma febre tropical.

Eulália Valeriana de Alcântara repousava diante da escrivaninha de jacarandá — madeira de lei, escura e densa como a noite brasileira, cujos pés eram garras de leões entalhadas, cravadas no assoalho que gemia sob o peso do silêncio. Lá fora, a tempestade não caía; ela desabava. A chuva açoitava as telhas coloniais com a violência de um castigo bíblico, uma percussão líquida que tentava, em vão, abafar os sinos da matriz. Eles dobravam, roucos e insistentes, anunciando um óbito que Eulália, em sua névoa mental, não conseguia recordar de quem era.

Ela ajustou a gola de renda negra vitoriana que lhe estrangulava o pescoço, engomada até a rigidez de um osso. O luto era sua segunda derme, uma armadura de tafetá e crinolina, embora a razão das lágrimas lhe escapasse. Sentia o vazio fantasmagórico a corroê-la do âmago à pele, uma sensação vertiginosa de que suas vísceras haviam sido substituídas por neblina fria e pó de marfim.

— Escreve o que a morte sussurra — soprou a intuição perturbadora, uma voz que não vibrava no ar, mas arranhava o interior de sua medula.

Sua mão direita, pálida como a cera de um círio pascal, segurava a pena de ganso. O tinteiro de cristal repousava ali, cheio de um líquido espesso, negro como sangue venoso coagulado ou o café forte esquecido na xícara fria. Eulália, a dama respeitável, a psicógrafa que consolava as matronas do Império, a ponte entre os vivos e os tísicos, estava sozinha. Naquela noite, a casa não abrigava clientes, apenas a respiração asmática da madeira dilatando e a presença daquilo que não tem nome, mas tem cheiro: uma mistura adocicada de gardênias passadas e formol.

A mão ganhou vida própria. Não era a caligrafia desenhada, aristocrática, que as freiras lhe impuseram. Eram espasmos, cortes violentos, fissuras de morte e vida rasgando a fibra do papel.

“Aqui o tempo não passa, Eulália... ele apodrece,” a mão grafou, a tinta espirrando como uma artéria rompida.

Ela tentou parar, mas seus dedos eram marionetes de fios invisíveis. O espiritismo, discutido nos salões afrancesados da Corte, era consolo e ciência. Mas ali, isolada na serrania, cercada pela mata atlântica que engolia civilizações, o espiritismo parecia uma autópsia da alma a céu aberto.

“Olhe para o espelho, Valeriana. O véu de Maya rasgou-se.”

No canto do quarto, o grande espelho oval de moldura dourada repousava, coberto por um lençol de linho branco — a mortalha exigida pela superstição, para evitar que a alma do recém-falecido ficasse presa no azougue do reflexo. O medo silencioso subiu por sua garganta, trazendo um sabor metálico de pregos velhos e terra molhada.

Ela ergueu-se. O som de suas anáguas de seda roçando no chão soou como o suspiro coletivo de mil viúvas em procissão.

— Quem profana este luto? — indagou ela à penumbra.

Os candelabros de prata tremeluziram, projetando sombras que se esticavam nas paredes como espectros famintos, dançando uma valsa muda. Ninguém respondeu. Apenas a chuva e o tique-taque de um relógio que parecia contar segundos de uma eternidade errada. Eulália aproximou-se do espelho. Seus dedos, trêmulos, tocaram a trama fria do linho.

Com um puxão brusco, a mortalha caiu, levantando uma poeira que cheirava a séculos trancados.

Eulália preparou-se para o horror. Esperava ver um demônio de chifres, ou talvez a aparição de seu pai com a mandíbula atada.

Mas o horror foi a ausência. O absoluto e terrível nada.

O espelho refletia o quarto com precisão cirúrgica: a cama de dossel com suas cortinas pesadas, a escrivaninha de jacarandá, a chuva chorando na vidraça. Mas não refletia Eulália.

Onde deveria estar seu corpo, seu vestido negro, seu camafeu de ônix, havia apenas uma mancha turva, uma vibração no ar, como o calor tremulando sobre o asfalto ao meio-dia ou a poeira dançando num raio de lua. Um borrão na realidade.

Ela olhou para suas próprias mãos. Elas estavam lá, segurando o tecido. Ela sentia o tato áspero. Mas o espelho, aquele juiz implacável da existência, decretava sua anulação.

— Eu respiro! Eu sinto! — ela gritou, mas o som saiu abafado, rouco, como se ela gritasse de dentro de um caixão de chumbo, sob sete palmos de terra vermelha e barrenta.

Correu de volta para a carta psicografada, tropeçando na própria inexistência. As letras agora brilhavam com uma umidade fresca, pulsante. Ela leu o veredito final que sua própria mão escrevera, ditada por uma memória que retornava para assombrar, cruel e verdadeira.

“Bem-vinda a Séttimor, minha querida. Onde os mortos vivem sem se lembrar de que o coração parou na última terça-feira de cinzas. Os sinos dobram por ti, Eulália. Tu esperas pelo médico que nunca virá, pois ele já assinou teu óbito. Tu és a assombração que temes. Tu és a memória que se recusa a ir embora, a mancha de umidade que a casa não consegue secar.”

Uma tristeza multiforme, pesada como a lápide de mármore carrara, esmagou seu peito. A lembrança rompeu a represa do esquecimento: o gosto de ferro na boca, a febre tifoide, o padre murmurando a extrema-unção em latim, o cheiro enjoativo de cânfora e cera derretida.

Ela não era a médium. Ela era a mensagem.

Olhou para suas mãos novamente. As pontas dos dedos começavam a ficar translúcidas, a cor da pele dissolvendo-se em cinza, fundindo-se com a névoa que invadia pelas frestas da janela podre. Ela estava se apagando, tornando-se natureza fantasmagórica, diluindo-se na atmosfera de Séttimor.

Sentou-se ao piano Pleyel que dormia no canto, um monstro de madeira e cordas que ela não tocava há meses. Seus dedos, agora quase feitos de fumaça, pousaram sobre as teclas de marfim amarelado.

Ela não tocou para os vivos de São Cipriano das Almas. Tocou para si mesma, um Noturno dissonante, tentando segurar a própria existência em cada acorde menor, ancorando sua alma na música antes que o esquecimento final a transformasse apenas em uma corrente de ar frio no corredor daquele velho casarão brasileiro.

E lá fora, a chuva continuava a lavar o mundo, indiferente à mulher que, nota por nota, desaparecia na partitura eterna do silêncio.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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Amor Etéreo

Dentro de mim reside uma chama acesa, | Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso. | Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

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Dentro de mim reside uma chama acesa,
Habita a obscuridade de meu coração, terreno arenoso.
Ela perpassa meus pensamentos e apazigua meus sofrimentos,
Desnuda meu peito inflamado, melancólico.
Etérea, me consome.

Ela crepita com cálida ternura,
Aproximando-me de seu ardor inebriante!
Guarda em mim seu doce incenso,
O aroma aveludado dos vinhos:
Amor marcado em mim eternamente.


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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LXXXIII

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas | Pretensiosos corações abnóxios, | inerte a razão ante a escuridão | Em habitação tão inócua de tua mente…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas
Pretensiosos corações abnóxios,
inerte a razão ante a escuridão
Em habitação tão inócua de tua mente

Abjura sua íntima intenção, — Secretos e carnais anseios
Abrasamento inquietante das emoções
travessa criatura da noite

No interior de seu ergástulo, —Desnude sua alma ante a alva
O febril estado, os lábios trêmulos e a palpitação
Embriagando-se de ambrosia, — Da paixão com afronésia
o toque frio de imortal amor

Por filáucia mortal, — Transbordam palavras de cântaros de malícia
Fascina os ouvidos imprudentes,
Oh, estes alucinam avidamente o toque
Crônica de amores, — Refugio na noite magenta
Lucífugos corações relatam em seiva umbrífera
Revelações intricadas em folha tão pura,
nela a verdadeira anamnese do fim.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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LXXXII

O silêncio, a angústia, assim como o inaperto | em jornada abstrusa | pela dissoluta existência. | Aqui entre a absolvição e a condenação…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

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O silêncio, a angústia, assim como o inaperto
em jornada abstrusa
pela dissoluta existência.
Aqui entre a absolvição e a condenação

Gotas para aluir a alma
aturdir toda sanidade
O ensejo ao caos interior

Ramos secos de inocência, — O luar lânguido no firmamento
Uma frincha para espíritos livres,
para campos de flores de quimeras.
Os jardins perdidos de seu interior

Astros celestes absortos no infinito, — Crianças da noite
embebidas em tantos pensamentos
Ah, a matiz negra, —Revoltoso mar de seu interior.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
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Memento Mori

A existência era gélida, angustiante, e drenava suas forças. Ela já havia passado, há muitos e muitos anos, pela excitação do novo, das descobertas e experiências intangíveis…

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A existência era gélida, angustiante, e drenava suas forças. Ela já havia passado, há muitos e muitos anos, pela excitação do novo, das descobertas e experiências intangíveis. Não tinha mais curiosidade sobre o que viria a seguir, a noite não era mais a mesma e as pessoas eram cada vez piores e repulsivas**. Naquela noite, em específico,** até o mar, a única coisa que parecia acalentar sua alma, estava agitado demais.

— Minha alma! — disse em voz alta, sorrindo. Há quanto tempo não devia ter uma? Deve ter nascido com uma alma bem ferrada, afinal, para ter se fodido tanto em tão pouco tempo de vida. E não bastasse isso, as inúmeras sequências de escolhas erradas que fez ao longo dos muitos anos, dariam vários capítulos em um livro maldito.

Bom, o fato era que ela preferia o mar em seu estado calmo, por mais incoerente que isso possa soar, sabendo de toda sua imensidão, movimento, energia e seres de todos os tipos que o habitavam, dos microscópicos aos grandes leviatãs. Ainda assim, contemplar a água se movimentando levemente trazia um pouco de paz e conforto ao seu interior, sempre à beira da explosão.

O vento batia frio e úmido em sua pele, e trazia um pouco de areia e o cheiro de que tanto gostava. O céu estava estrelado e via, ao longe, pequenos pontos de luz amarelada de barcos pesqueiros. Olhou para baixo e observou uma embarcação passando sob a ponte que ligava a ilha à cidade — provavelmente seu lugar favorito no mundo. Ela pareceu esboçar um pequeno sorriso no canto de sua boca, mas logo pensou em Maria.

— Puta que pariu, Maria, você tinha que foder tudo! Não é possível que me deixou sozinha nessa merda de universo. — Seu hábito de falar sozinha e ter intensas discussões consigo mesma parecia só piorar. Quem convive muito tempo com a solidão acaba desenvolvendo certas habilidades adaptativas que podem ser muito interessantes. Há alguns anos, ela sentia que estava vivendo a melhor fase de sua existência, algo parecido com uma nova vida. Não estava mais sozinha, havia conhecido Maria e ela mudou seus dias. Toda perseguição, medo, fome, solidão, pareciam ter entrado em modo de stand by. Se conheceram bem ali, onde estava naquele momento, sobre aquele mar e sob aquele céu escuro e estrelado. Maria a viu de longe, parada em cima do parapeito, imóvel e com os braços abertos, parecendo um anjo prestes a cair.

— Ei, o que você está fazendo aí? Posso te ajudar? — Sem resposta, continuou: — Meu nome é Maria, estava dirigindo e vi você. Por favor, desce daí e vamos conversar!

Com um leve rotacionar da cabeça, Maria viu seus olhos pela primeira vez, verdes como esmeraldas, contrastando com sua pele clara e cabelos pretos.

— Posso me aproximar? Entendi que não vai conversar comigo agora, né? Só quero ajudar! Você é linda, está uma noite linda, mas muito fria... — Maria se aproximava lentamente enquanto conversava, quase sem respirar, tinha medo de que ela saltasse dali. Não passava carro algum naquele instante, não havia vento e o mar parecia estático, sem ondas ou som. Ao se aproximar, a uma distância de menos de um braço do parapeito, a mulher ofereceu a mão àquela alma triste e solitária — e ela aceitou. Quando as duas já pisavam sobre o meio-fio, Maria respirou pela primeira vez e percebeu sua taquicardia, respiração acelerada e suor frio.

— Daniela... meu nome é Daniela. — Ela mal abriu a boca para falar, parecia estar em outro lugar, outra dimensão, em outro corpo.

— Oi, Daniela, posso te dar um abraço? — Maria falava com o olhar fixo nos olhos verdes, marcantes e que pareciam contar tanta coisa. Enquanto se aproximava, uma pergunta ficava em sua mente: como uma criança pode ter um olhar que carrega tanto peso?

A garota aparentava ter seus sete ou oito anos de idade, muito bonita, com cabelos pretos caídos na altura dos ombros, porém, um rosto bastante abatido e aparentando preocupações e o peso comum aos adultos. Caminhava como se estivesse dopada, na verdade, fora conduzida por Maria e colocada no carro, no assento do passageiro.

— Daniela, você consegue me dizer onde estão seus pais ou qual o telefone deles? — A menina se manteve calada.

— Eu quero ajudar você, mas não sei por onde começar. Se você quiser ligar para eles ou amigos, ou algum parente, pode usar meu telefone.

— Não tenho ninguém, não tem mais ninguém, sou só eu.

Ao dizer isso, lágrimas escorreram de seus olhos e, instintivamente, a mulher lhe deu um abraço apertado.

— Você tem algum documento? — A menina fez uma negativa com a cabeça. — Então, vamos fazer uma coisa, vou com você à delegacia e tudo vai ser resolvi... — antes que Maria terminasse a frase, a menina arregalou os olhos, dilatou as pupilas, segurou com força o braço da mulher e gritou:

— Não é pra gente ir pra polícia nenhuma, eu não posso ir à polícia! Pra polícia eu tô morta! Se a gente for até lá e eles ficarem sabendo, vão me matar e vão matar você também!

— Calma, Daniela, não tô entendendo nada! Quem vai matar? Como assim você está “morta” pra polícia?

Naquela noite, a vida de Maria mudou. Aos poucos foi entendendo que Daniela não podia andar à luz do dia para não sofrer uma combustão; descobriu que a garota não comia frutas ou biscoitos, mas precisava caçar todas as noites, desde ratos até humanos, pois se alimentava de sangue — sangue esse que fluía nas veias de Maria e que esta não entendia o porquê de a garota não atacá-la; passou também a ser perseguida por um bando de criaturas com dentes caninos enormes, que pareciam voar durante a noite e as caçavam como bestas, sem descanso. A menina parecia ser tratada como algum tipo de oferenda necessária a um ritual cabalístico ferrado que precisava ser feito para que o mundo não acabasse — bem do tipo filme “B”, mas tudo na vida de Maria, naquela época, parecia um filme B. Maria demorou a digerir a ideia, mas entendeu e aceitou que aquela menina era um vampiro. E descobriu também que, naquele dia, na ponte, a menina pretendia se jogar, ela já não aguentava mais sua existência e solidão.

De início, a mulher não compreendia como poderia ser ruim, viver para sempre, poder viajar o mundo, não ser afetada por doenças, fazer, literalmente, o que tivesse vontade. Era tudo o que ela queria — mandar seu chefe ir se foder, bater à porta do escritório de merda onde trabalhava, largar o puto de seu namorado que vivia comendo outras enquanto ela o esperava com a mesa posta e ir embora. Matar vários filhos da puta, viver a luxúria até não aguentar mais, ser perene e atravessar as eras. Caralho, isso seria incrível, era a vida perfeita. Porém, aí que estava o problema: para Daniela não era perfeito, porque não era vida. Era viver escondido, só, atravessando o tempo em uma existência angustiante, vendo e sentindo as dores do mundo. E, em seu caso, presa em um corpo que não acompanhava sua mente — uma mulher, com mais de 100 anos, com corpo e feições de menina, que fora transformada à força, sem romantismos ou poesia envolvidos. Maria não conseguiria, mesmo que quisesse, compreender sua dor, porém tentou acolher da melhor forma que pôde.

Começaram a partir dali, um novo capítulo em suas existências, firmando uma espécie de pacto silencioso que tinha como objetivo, ressignificar seu tempo na Terra. Pode soar muito pretencioso — e era —, mas era o que fazia mais sentido para as duas naquele momento. Juntas, viajaram pelo mundo, observaram o céu noturno de diferentes locais, quase morreram por vezes a fio, leram, ouviram as mais variadas canções e discografias, amavam o cinema e artes em geral, aprenderam diferentes idiomas e caçavam em par. Na verdade, Maria acompanhava e ajudava Daniela na caçada — sabia seduzir muito bem as presas e deixá-las entregues à predadora criança. E isso a excitava bastante. Entretanto, nunca Daniela cogitou matar sua companheira ou condená-la à vida eterna. Estabeleceram uma relação de amizade muito forte, em alguns momentos, eram mãe e filha, em outros, mãe e mãe e, em vários, filha e filha, mas sempre, cúmplices da existência.

Um dia, de repente, como todas as mudanças de rota que a vida pode tomar, Maria foi embora e Daniela nunca mais a viu ou teve notícias. Nos primeiros dias ainda ouvia seu coração bater, um som fraco perdido no tempo, e isso servia de combustível para manter suas buscas. Procurava por Maria em todos os locais que frequentavam, nos bares e restaurantes, nas casas de show e de swing, hospitais, delegacias. Invadiu, inclusive, os covis de bestas ancestrais que as perseguiram por anos... e nada. Em alguns momentos e, em alguns momentos, e locais, o som do coração de sua amada parecia ficar mais forte e isso despertava em si um mecanismo de alerta feral, mas nada se concretizava. A criança se tornara quase uma lenda urbana; por onde passava, o número de assassinatos aumentava, as gangues ficavam vorazes e em modo de vigília, e as notícias sobre um psicopata ou serial killer se espalhavam. Ela se tornara o que a perseguia: uma criatura predadora, fria e monstruosa, que matava por matar e destruía por mais puro instinto. Não tinha sede por sangue, mas por aplacar sua dor e encontrar respostas, encontrar Maria. Talvez porque ela representasse sua tentativa de redenção no universo, não sabia mais dizer. Acima de tudo, a procura por sua companheira havia se tornado algo autodestrutivo; ela não se alimentava, não dormia, apenas matava, procurava, vigiava e não sentia. Não sentia mais nada, por nada ou ninguém. Desde que fora condenada à vida eterna, Daniela já não se sentia mais viva. Porém, agora percebia que a morte real a espreitava como um abutre e era dilacerada, todos os dias, por um punhal agudo que a estripava repetidamente.

Uma noite, ao acordar após exaustão extrema, ela parou de ouvir e sentir o coração de Maria. Não sabia se um dos vampiros a matara, se fora atropelada, ou o que acontecera, mas nunca mais a viu. Preferia crer em uma fatalidade como assassinato, acidente, sequestro... era menos dolorido do que encarar que a companheira a deixara, simplesmente, por não querer mais sua companhia. Pensava que Maria já não aguentava mais olhar seu rosto de boneca maldita, ou ouvir seu choro e lamentos noturnos, ou quem sabe, sentia vontade de ter uma vida comum, caminhar ao sol, amar alguém normal. Nenhum dos outros motivos mais pertinentes tinha tanto peso para Daniela quanto esses. E isso doía. Em algum momento, ela já havia lido em novelas chorosas vampirescas ou visto em filmes, vampiros chorando sangue. Era tudo uma bobagem romantizada, mas no dia em que Maria foi embora, ela acreditou ser verdade, pois perdera ali seu fluido vital.

E, naquele momento, do alto da ponte onde estivera na noite que conheceu Maria, o céu estava bonito e estrelado. Não havia visto uma noite tão perfeita em sua existência centenária, a Via Láctea parecia ter sido pintada para sua apreciação. Seu rosto era acarinhado por uma brisa leve e fresca, com o cheiro do mar que tanto gostava.

E o mar? O mar estava agitado, intenso, com ondas violentas estourando nas pedras, pronto para receber o corpo de Daniela, que , por dentro, estava calmo. Não sabia se tinha uma alma outra vez, mas se tivesse, devia tudo a Maria. Ao pensar nisso, pouco antes de ser abraçada pelo mar que tanto amava, a menina sorriu.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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XLI

Os desígnios da alma | esta que sofre com sua ingênua natureza | A inocência corrompida | na vil mortalidade…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Os desígnios da alma
esta que sofre com sua ingênua natureza
A inocência corrompida
na vil mortalidade

A intenção para ir além do cativeiro
num desejo não natural
De ir numa jornada para liberdade

Os complexos pensamentos
do que é corpóreo
traz a clareza em meio a loucura
Num mar sem tranquilidade.


Escrito por:
Aslam E. Ramallo

Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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O Fascínio das Sombras: Por Que o Gótico Ainda Nos Seduz em Pleno Século XXI

Em um mundo onde a velocidade e a luz parecem ser a…

Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em um mundo onde a velocidade e a luz parecem ser a moeda mais valiosa, existe um refúgio para as almas que buscam o contraste, a profundidade e a beleza que floresce no escuro. Falo do universo gótico, um gênero que, mesmo em pleno século XXI, continua a exercer um fascínio inegável sobre leitores e criadores. Para selos editoriais como o Nunca Mais da Editora Castelo Drácula, essa persistência não é apenas uma tendência, mas a prova de uma verdade atemporal: há algo intrinsecamente humano na atração pelo mistério, pela melancolia e pelo sublime horror.

Mas afinal, por que o gótico ainda nos seduz tanto? A resposta reside em sua capacidade de tocar em cordões sensíveis da nossa psique, oferecendo um espelho para medos e anseios que a modernidade tenta, em vão, silenciar.

A Beleza da Imperfeição e da Decadência

O gótico celebra o que está em ruínas, o que se desfaz. Mansões assombradas, igrejas ancestrais e paisagens lúgubres não são apenas cenários; são personagens que respiram histórias de glória perdida e dor acumulada. Em um mundo que busca a perfeição e o novo a todo custo, o gótico nos lembra que há uma beleza singular na imperfeição, na passagem do tempo e na inevitabilidade da decadência. Como afirma o teórico cultural Simon Reynolds, "o gótico nos convida a contemplar a fragilidade da existência e a beleza melancólica da destruição." Essa estética ressoa com a nossa própria finitude, tornando-a menos assustadora e, paradoxalmente, mais bela.

O Mergulho na Psicologia Humana

Muito além dos castelos e fantasmas, o gótico é um profundo estudo da mente humana. Seus personagens frequentemente lidam com a loucura, a obsessão, a culpa e o desejo proibido. A escuridão exterior muitas vezes espelha a turbulência interior, levando o leitor a explorar os recantos mais sombrios da alma. Um estudo publicado no Journal of Popular Culture sobre a popularidade duradoura do gótico sugere que o gênero oferece um espaço seguro para a exploração de emoções complexas e tabus sociais, funcionando como uma válvula de escape para tensões psicológicas. É nesse mergulho psicológico que reside a verdadeira força do gênero, permitindo-nos confrontar nossos próprios demônios de uma forma segura e catártica. O selo Nunca Mais, ao buscar "almas condenadas" e "lirismo lúgubre", entende que a profundidade emocional é a essência do gênero.

O Romance Sombrio e o Sobrenatural

O gótico nos oferece um tipo de romance diferente: intenso, muitas vezes trágico, permeado por segredos e paixões proibidas. Não é o amor idealizado, mas a atração pelas sombras, a conexão com o que é tabu. Unido a isso, a presença do sobrenatural – fantasmas, vampiros, criaturas da noite – não é apenas para causar susto, mas para questionar os limites da realidade e da existência. Como pontua a pesquisadora de literatura gótica Catherine Spooner em sua obra "Contemporary Gothic", o sobrenatural no gótico serve frequentemente como uma metáfora para forças sociais e psicológicas que estão além do controle humano, aumentando a sensação de desamparo e fascínio. Esses elementos fantásticos servem como metáforas para os medos e as tentações humanas, adicionando uma camada extra de mistério e fascínio.

Uma Contracultura que Resiste ao Tempo

O gótico, em suas diversas manifestações culturais (literatura, música, moda), sempre funcionou como uma contracultura, um espaço para o diferente, o marginalizado, o incompreendido. Em uma sociedade que valoriza a conformidade, o gótico é um convite à individualidade, à expressão da melancolia e à aceitação do lado sombrio da vida. Pesquisas sobre comunidades góticas, como as de Paul Hodkinson ("Goth: Identity, Style and Subculture"), demonstram que a subcultura gótica oferece um senso de pertencimento e uma identidade alternativa para aqueles que se sentem deslocados da norma social. Para a Editora Castelo Drácula e seu selo Nunca Mais, isso significa um público fiel e apaixonado, que encontra nas obras um eco de suas próprias sensibilidades e um lugar para pertencer.

O selo Nunca Mais não apenas publica obras góticas; ele celebra uma filosofia de vida. É um tributo aos "poetas mortos e seus legados", um reconhecimento de que as verdades mais profundas muitas vezes são encontradas nas sombras. Continuar investindo nesse universo é garantir que a chama do gótico permaneça acesa, iluminando os caminhos para aqueles que encontram beleza na melancolia e poesia na penumbra.

Referências

  • Hodkinson, Paul. (2002). Goth: Identity, Style and Subculture. Berg Publishers.

  • Reynolds, Simon. (Diversas obras). As reflexões de Simon Reynolds sobre contracultura e subculturas frequentemente abordam aspectos da estética gótica e seu impacto na cultura popular.

  • Spooner, Catherine. (2017). Contemporary Gothic. Reaktion Books.

  • Journal of Popular Culture. (2018). Diversos artigos sobre a cultura gótica e sua resiliência podem ser encontrados em volumes recentes do Journal of Popular Culture, que frequentemente explora a permanência de gêneros e subculturas ao longo do tempo.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem. » instagram do autor
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Namoradeira

Mãos esqueléticas e femininas, de dedos feridos e unhas roídas, penduraram pouco acima da janela apodrecida, num prego comprido e enferrujado, um…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Mãos esqueléticas e femininas, de dedos feridos e unhas roídas, penduraram pouco acima da janela apodrecida, num prego comprido e enferrujado, um singular bebedouro adaptado. Talvez outrora tivesse servido aos beija-flores, porém agora, com nova aparência, serve obscuros seres. No recipiente, nada de água açucarada, e sim grosso líquido de textura diferenciada, de cor escura e avermelhada.

O cheiro de dama-da-noite conduzia os mamíferos voadores rumo ao leal agrado pela triste moça entregue de bom grado. Na janela e à espera dos morcegos, a moça fitava alucinada o bebedouro, um riso melancólico e uma triste canção de amor, a fim de disfarçar a dor, moviam seus ressecados lábios rachados. Pensava no amado bestial, no belo monstro sobrenatural e fatal ao qual a alma entregou desejando um amor infernal.

Com a cabeça entre as mãos frágeis, jubilou tímida quando, da janela, avistou os voadores ágeis. Entretida e imersa na aérea dança macabra pelos morcegos executada, não percebia e nem sentia o sangue deslizar sereno, em funério e mortal encantamento, dos talhos profundos de seus pulsos até os secos cotovelos.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Gabriella Batista

Gabriella Batista nasceu em 1994, é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e certificada em Teoria Literária e Literatura Universal. É escritora e autora de poemas, prosas poéticas e contos, tem textos publicados em diversas antologias, trabalha na área da educação e mantém o Instagram literário e artístico » Instagram da Autora
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Devota

Bebe do meu pescoço, | dos meus seios, das minhas coxas... | Bebe até o sangue de minh'alma. | Some, deixando-me anêmica e louca…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Bebe do meu pescoço,
dos meus seios, das minhas coxas...
Bebe até o sangue de minh'alma.

Some, deixando-me anêmica e louca
na cama suja e de acre odor
de suores febris de noites torpes.

Não tarde, por favor!
Não demore, meu demônio!
Os anjos abandonaram meu pranto,
mas você, meu monstro Nosferatu,
atendeu à minha desprezada prece.

Espero seu retorno, meu vampiro...
Volte e faça de mim o seu cálice novamente.
Valei-me, Santo Vampiro!
Valei-me...

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Gabriella Batista

Gabriella Batista nasceu em 1994, é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e certificada em Teoria Literária e Literatura Universal. É escritora e autora de poemas, prosas poéticas e contos, tem textos publicados em diversas antologias, trabalha na área da educação e mantém o Instagram literário e artístico » Instagram da Autora
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Sonho Mortal

No topo de uma profanada capela | nos antros de um cemitério | está ela, a vampira infernal, | feito gárgula fêmea ensandecida | sobre um macho cadáver humano.

Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No topo de uma profanada capela
nos antros de um cemitério
está ela, a vampira infernal,
feito gárgula fêmea ensandecida
sobre um macho cadáver humano.
Dos seus lábios, e a gotejar das presas,
escorre o sangue quente a esfumaçar
ao toque da brisa fria sob o luar.
O corpo nu cor de mármore,
de bestial sensualidade feroz,
imobiliza a vítima desfalecida
no glacial entrelaçar
de fortes braços e pernas
e unhas de lâmina cortante.
Um grito sai de sua garganta saciada,
com olhar de besta taciturna
encara o morto com malícia primitiva
antes de lançá-lo ao solo dos finados.
A face falecida e contorcida
tem as marcas do feitiço da vampira.
Morreu possuído por um delírio
no qual voava e em um céu rubro
nas garras de um anjo infernal,
com formas e poder de mulher,
que o matou com doloroso prazer
ao cair cativo e em luxúrias
em um leito de lençóis de labaredas.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Gabriella Batista

Gabriella Batista nasceu em 1994, é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e certificada em Teoria Literária e Literatura Universal. É escritora e autora de poemas, prosas poéticas e contos, tem textos publicados em diversas antologias, trabalha na área da educação e mantém o Instagram literário e artístico » Instagram da Autora
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Um ser vampírico fala

Detenho um coração morto. É fato incontestável, mato e mato por ser um monstro, mato por sede e pelo prazer de matar. A humanidade, que outrora foi o…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

Detenho um coração morto. É fato incontestável, mato e mato por ser um monstro, mato por sede e pelo prazer de matar. A humanidade, que outrora foi o sopro de minh’alma, falece moribunda no velório da memória.

E nesta existência condenada, em cismas reflito em meus bestiais rancores e raivas:

O homem, miserável animal de racionalidade frágil e digna de pilhéria, também mata e assombra almas e corpos por “amor”. É monstro legítimo, monstro de sangue e, em essência, é tão monstro quanto eu.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Gabriella Batista

Gabriella Batista nasceu em 1994, é graduada em Letras, pós-graduada em Psicopedagogia e certificada em Teoria Literária e Literatura Universal. É escritora e autora de poemas, prosas poéticas e contos, tem textos publicados em diversas antologias, trabalha na área da educação e mantém o Instagram literário e artístico » Instagram da Autora
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O Último Blackwood e a Sombra de Lilith

Sete. O número ecoava no sótão empoeirado, onde a luz morria antes de alcançar os recantos mais profundos. Sete batidas secas do relógio de…

Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Sete. O número ecoava no sótão empoeirado, onde a luz morria antes de alcançar os recantos mais profundos. Sete batidas secas do relógio de pêndulo, cada uma um prego enferrujado fincado no caixão da esperança. Não que houvesse muita esperança por ali. A velha mansão dos Blackwood era um monumento à decadência, suas janelas como olhos vazios fitando a noite eterna que parecia ter se enraizado em seus alicerces.

E eu, Alaric, o último dos Blackwood, era um mero apêndice, um espectro que perambulava por corredores infestados de ecos. Meus dias eram preenchidos com o sussurro de vozes que nunca existiram, o farfalhar de sedas fantasmas e o som distante de um piano que ninguém tocava. Meu único consolo, se é que se pode chamar assim, era a coleção de livros proibidos, volumes encadernados em pele humana e tinta de sangue, que meu pai, em sua loucura final, reuniu no pequeno escritório trancado.

Foi numa noite como tantas outras, quando a lua se escondia atrás de um véu de nuvens pesadas e o vento uivava como um cão faminto, que o selo se quebrou. Não um selo físico, mas a barreira tênue entre o que era e o que deveria ter permanecido esquecido. Eu lia um tomo empoeirado, suas páginas amareladas cheirando a mofo e morte, quando um nome saltou aos meus olhos, gravado em uma caligrafia serpentina: Lilith.

O nome vibrou no ar, uma nota dissonante na sinfonia silenciosa da casa. Uma imagem se formou em minha mente: uma mulher etérea, com cabelos cor de ébano e olhos tão profundos quanto os abismos do inferno, envolta em um véu de mistério e perdição. Lilith. A rainha da noite, a primeira tentação, a sombra que persegue os sonhos dos homens.

Minha respiração engasgou na garganta. Eu conhecia o mito, as lendas sussurradas em cantos escuros. Mas aquilo... aquilo não era uma lenda. Era uma evocação. Meu pai, em sua busca insana por conhecimento, havia ido longe demais. Ele não apenas lera sobre as entidades que habitavam o limiar da realidade; ele as convocara.

Com um arrepio que me percorreu a espinha, percebi que o silêncio da casa não era mais o silêncio da ausência, mas o silêncio da observação. A escuridão não era mais apenas a ausência de luz, mas uma presença palpável, respirando em meu pescoço.

As sombras dançaram nas paredes, projetando formas grotescas que se retorciam e se contorciam, como almas condenadas. O cheiro de rosas murchas e terra revolvida invadiu o ar, misturando-se ao odor metálico de sangue antigo. E então, ouvi-a. Não uma voz audível, mas um sussurro que se infiltrava em minha mente, ecoando meus pensamentos mais sombrios, os segredos que eu guardava de mim mesmo.

— Alaric... — ela sibilou, e o som era como o farfalhar de asas de morcego em um sepulcro. — Você me chamou. Eu vim.

Meus olhos se fixaram na porta do escritório, que agora estava entreaberta, revelando uma escuridão ainda mais densa em seu interior. De lá, emergiu uma figura. Não a etérea Lilith de minha imaginação, mas algo muito mais antigo e terrível. Uma silhueta esguia, envolta em um manto que parecia feito da própria noite, seus olhos brilhando como brasas no inferno.

Ela não caminhava; ela deslizava, como uma nuvem de fumaça, em direção a mim. O ar ao seu redor parecia vibrar com uma energia profana, e o frio que emanava dela era tão intenso que parecia queimar minha pele.

— O que você deseja, Alaric Blackwood? — sua voz, agora mais clara, era um cântico fúnebre, sedutor e letal. — A vida que você conhece está morrendo. Eu posso oferecer outra. Um reino onde as sombras reinam supremas, onde a dor é êxtase e a eternidade é um fardo a ser carregado.

Eu recuei, meus pés enraizados no chão empoeirado, um terror gélido me paralisando. Eu havia brincado com o desconhecido, e agora o desconhecido estava ali, em minha sala, me oferecendo uma escolha que eu não queria fazer.

O silêncio voltou, denso e pesado, enquanto ela aguardava minha resposta. O relógio de pêndulo, lá no sótão, batia a oitava hora. Cada batida, um passo dela em minha direção. Cada batida, uma porta se fechando para o mundo que eu conhecia.

A mansão Blackwood nunca mais seria a mesma. E eu, Alaric, sabia que meu destino estava selado. Nas profundezas daquela noite sem fim, eu estava prestes a descobrir o verdadeiro significado de "nunca mais".

O que você acha que Alaric fará? Ele aceitará a oferta de Lilith ou tentará resistir à escuridão que o cerca?

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem.
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A Melodia dos Sepulcros Esquecidos

A bruma gélida da manhã engolia a vila de Oakhaven, transformando as poucas casas em fantasmas cinzentos e o velho cemitério em um mar…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

A bruma gélida da manhã engolia a vila de Oakhaven, transformando as poucas casas em fantasmas cinzentos e o velho cemitério em um mar de lápides disformes. Eu, Ângela Thorne, não pertencia a Oakhaven, nem a lugar algum, na verdade. Minha existência era um eco da própria melancolia que parecia impregnar o ar daquele lugar. Cheguei como um corvo desgarrado, atraída pelo anúncio de uma velha organista que procurava alguém para restaurar o ancestral órgão da igreja local – uma relíquia de carvalho negro e metal enferrujado que, diziam, possuía uma alma própria.

A Reverenda Agnes era uma criatura miúda e envelhecida, seus olhos, contudo, brilhavam com uma luz estranha e persistente, como velas acesas em um túmulo. Sua paróquia, a Igreja de Santa Cecília, era um esqueleto gótico, suas gárgulas observando o tempo com expressões pétreas, suas janelas ogivais escurecidas pelo abandono. O órgão, situado no coro, era o coração pulsante daquele lugar moribundo, um monstro silencioso coberto por um manto de pó e teias de aranha.

Os dias se arrastavam em um ritmo cadenciado pelo tic-tac do relógio da torre, que parecia anunciar a cada batida o fim iminente. Meu trabalho era árduo. Cada peça de madeira, cada tubo de metal, parecia sussurrar segredos antigos, melodias há muito esquecidas. À noite, quando a Reverenda Agnes se recolhia e a vila mergulhava em um silêncio sepulcral, eu sentia a presença. Não era um fantasma, nem um espírito no sentido convencional, mas algo mais sutil, mais antigo. Era a memória da música.

Comecei a ouvir as notas. No princípio, eram apenas fragmentos, murmúrios distantes, como lamentos vindos do solo frio do cemitério adjacente. Mas à medida que o órgão ganhava vida sob meus dedos, as notas se tornavam mais claras, mais definidas. Eram composições que jamais ouvi, harmonias que me envolviam em um véu de tristeza e êxtase.

Uma noite, enquanto limpava as teclas de ébano, encontrei um diário escondido em um compartimento secreto do instrumento. As páginas amareladas, escritas com uma caligrafia elegante e tremida, contavam a história de Elara, a antiga organista da igreja, que vivera no século XVIII. Elara era uma prodígia, mas sua música carregava um tom sombrio, uma obsessão pela morte e pelo luto. O diário revelava que ela acreditava que a música podia transcender o véu da vida e da morte, comunicando-se com os que jaziam sob a terra.

Lá pelas últimas páginas, um desenho me causou um arrepio. Não era uma partitura, mas um diagrama complexo de conexões, quase um mapa estelar, com anotações sobre "ressonâncias etéreas" e "pontos de contato com o véu". E em uma das páginas finais, uma frase repetida várias vezes, com urgência crescente: "A melodia deve ser completa. A melodia deve ser cantada pelos mortos."

Naquela noite, a bruma era mais espessa, o vento mais cortante. As vozes do órgão não eram mais sussurros; eram um coro. Vozes femininas e masculinas, jovens e antigas, lamentando, cantando, e implorando. Senti uma força inexplicável me puxar para o teclado. Meus dedos, como se não fossem meus, começaram a tocar a melodia do diagrama de Elara. As notas fluíram, preenchendo a igreja com um som que era ao mesmo tempo belo e terrivelmente profano.

O chão tremeu. As luzes da igreja cintilaram e se apagaram, mergulhando-me na escuridão mais densa. Mas a música continuou, as vozes dos sepulcros se elevando em um crescendo aterrorizante. Senti as presenças se materializarem ao meu redor, frias e efêmeras. Eram os mortos de Oakhaven, despertados pela melodia que Elara sonhara em completar.

Um deles, uma figura esguia e pálida, se aproximou. Pude ver seus olhos vazios, mas senti sua intenção, uma gratidão sombria. Era Elara. Ela estendeu a mão translúcida em minha direção, um convite silencioso para me juntar à sua orquestra eterna.

O frio me invadiu, e eu soube que não havia retorno. Eu era a condutora da melodia dos sepulcros, a guardiã de um coro que jamais deveria ter sido despertado. O último som que ouvi antes que a escuridão me engolisse completamente foi o do órgão, agora tocando sozinho, uma melodia lúgubre que se espalhava pela noite, prometendo um "nunca mais" para todos que ousassem ouvir.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem.
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa

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Enodia

Era o cão que latia, | a Lua enegrecida que reinava… | A fuligem de fogueira sacra a subir, | Enodia atravessando o bosque na madrugada, | fria, atenta, armada,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Era o cão que latia,
a Lua enegrecida que reinava…
A fuligem de fogueira sacra a subir,
Enodia atravessando o bosque na madrugada,
fria, atenta, armada,
Abençoando os mortos do Hades e ensinando o lobo pequeno a grunhir.

Mãe dos desajustados, mofinos, maltratados…
Senhora de toda vida que aprende a esgueirar,
Ouro que adorna a margem…
Poeira viajante, oriunda do solo do mar.

Senhora de chuva mansa, de ventania brava,
Impiedosa e fiel,
Maior que os serafins,
Maior que Roma…
Anterior ao reino dos céus.

“Quem é essa?” — perguntam titãs.
Depois, olimpianos.
“Ninguém sabe ao certo…” — diz Zeus.
“Sua andança é incerta,
A face é medonha,
E hoje…
ela caminha sem véu.”


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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A Simbologia da Morte no conto A Máscara da Morte Vermelha de Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos expoentes do romantismo norte-americano, cuja obra deixou marca…

Pintura “A morte da Virgem” por Michelangelo Caravaggio (1571-1610) 

Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos expoentes do romantismo norte-americano, cuja obra deixou marca decisiva na literatura gótica, no conto policial e na poesia. Nascido em Boston, ficou órfão ainda criança e foi criado por um mercador de boas condições, de quem herdou o sobrenome. Faleceu em Baltimore no ano de 1849, sofrendo de delírios e a causa de sua morte é até hoje um mistério. Seus poemas e contos, como “O Corvo” e “A Máscara da Morte Vermelha” inserem-se na segunda geração do Romantismo do século XIX, distinguindo-se pelo tom sombrio, pela exploração da psicologia do medo e pela atmosfera de decadência que se tornou característica de sua produção literária. 

Encontramos referências recorrentes à morte na obra de Edgar Allan Poe, muitas vezes atravessadas por elementos sobrenaturais e simbólicos. O próprio autor afirma que, para ele, este é o tema mais melancólico para ser abordado (POE, 2019, p.65). Em poemas como “O Corvo”, o autor retrata a dor do luto e a insistência da ausência como uma presença constante na vida do eu lírico, enquanto em “Annabel Lee”, a morte surge como força trágica e inevitável, capaz de romper até os laços mais profundos do amor. Em ambos os textos, a morte não é apenas um fim biológico, mas um abismo emocional e metafísico que assombra o imaginário humano. 

Tal temor é exemplarmente retratado no conto “A Máscara da Morte Vermelha”, no qual Edgar Allan Poe constrói uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte. No conto, diante de uma praga devastadora, uma enfermidade fulminante que conduz suas vítimas à hemorragia fatal por todos os poros, o príncipe Próspero decide isolar-se de seu povo em uma abadia fortificada construída a seu gosto, levando consigo um grupo de mil amigos. Afastando-se do sofrimento coletivo, eles entregam-se a uma vida suntuosa de excessos completamente trancados, numa atmosfera de alienação deliberada à realidade da peste. O castelo, espaço de aparente segurança e opulência, torna-se símbolo da tentativa vã de escapar da morte.  

É válido observar como, no conto, estabelece-se uma negação da morte que contrasta diretamente com a elaboração do luto presente nos poemas anteriormente mencionados, nos quais o eu lírico já se encontra imerso na dor da perda. Em “A Máscara da Morte Vermelha”, por outro lado, a figura do príncipe Próspero encarna uma tentativa desesperada de escapar da finitude, recusando-se a aceitar a iminência do fim. Recolhido em seu castelo ao lado de uma elite hedonista, o príncipe promove festas grandiosas como forma de silenciar o terror exterior. No entanto, a morte adentra esse espaço de aparente segurança como um intruso inevitável: sua chegada, em meio ao baile, assume a forma de um convidado mórbido, envolto em uma mortalha salpicada de sangue, cuja aparência cadavérica evoca não apenas a doença, mas a própria materialização do destino inescapável. 

O som do relógio de ébano, que ressoava com solenidade a cada badalada, funcionava como um prenúncio do inevitável: a morte que, cedo ou tarde, alcançaria a todos. O sangue, elemento recorrente na narrativa, simboliza o sofrimento inescapável que espreita mesmo os que se acreditam protegidos. Nenhuma muralha é capaz de conter o destino comum à existência humana, e o conto deixa claro que o isolamento não garante salvação. A Morte Vermelha, apesar das tentativas de reclusão, irrompe no castelo e conduz um a um a sua ruína, sendo o príncipe Próspero o primeiro a morrer. 

O conto também oferece uma leitura simbólica da morte em vida, ao denunciar, de forma alegórica, o comportamento alienado e insensível das elites diante do sofrimento coletivo. O isolamento do príncipe Próspero e de seus convidados, enquanto a população do lado de fora agoniza sob o avanço da peste, representa uma tentativa de negação não apenas da morte, mas também da responsabilidade social. Essa escolha de se recolher em celebrações contínuas, regadas a excessos e luxúria, revela um hedonismo decadente que escancara a desconexão entre as camadas privilegiadas e a realidade brutal enfrentada pelos demais.  

Essa representação do fenômeno da morte não se resume a uma simples fascinação mórbida. Como observa Botting, ao comentar o poema The Grave (1743), de Robert Blair, a contemplação da morte revela-se como um exercício de consciência sobre a efemeridade da existência e a transitoriedade de todas as coisas. Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre os limites da vida e a presença constante do fim como parte constitutiva da experiência humana, levando que guia até caminhos da espiritualidade (BOTTING, 2024, p. 41). 

Poe consegue elaborar este simbolismo nictomófico ao representar a passagem do tempo com o relógio de ébano que causa nervosismo em cada uma de suas badaladas. O salão de veludo representa a morte vermelha, enquanto os outros salões representam a fuga dos cortesões e do príncipe. O sétimo salão fica cada vez mais escuro e o escuro é um elemento que geralmente assombra a mente, como afirma Durand (2012).  

Dada a imagem da morte como representação máxima do terror humano, no conto “A Máscara da Morte Vermelha”, ainda persiste em Próspero uma centelha de esperança pela vida, mesmo que suas ações revelem traços de egoísmo e alienação. Esta nuance evidencia como, diante da própria finitude, o ser humano pode tender a lançar mão de todos os recursos possíveis para tentar escapar deste fim. No entanto, a morte sempre triunfa, como também é simbolicamente retratado no filme O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman, no qual um cavaleiro desafia a morte em uma partida de xadrez, numa tentativa desesperada de adiar seu fim. A metáfora do jogo e da máscara vermelha reforçam a ideia de que, por mais que se lute contra a morte, ela permanece invencível.  

 

REFERÊNCIAS: 

BOTTING, Fred. Gótico: Tradução de Marina Sena. Sebo Clepsidra. 2024. p.41 

POE, E. A. (1809-1849). Contos de imaginação e mistério: Edgar Allan Poe; prefácio de Charles Baudelaire; tradução de Cássio Arantes Leite. Tordesilhas. 2012.  

POE, Edgar Allan; PESSOA, Fernando; ASSIS, Machado de.  O Corvo. Companhia das Letras, 2019. p. 65 


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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A Morte da Bacante

Corria o sangue feito rio, | Manchado pela ferrugem de um machado amolado. | Era uma dançarina, uma dionisíaca, | Uma sacerdotisa… 

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Corria o sangue feito rio, 
Manchado pela ferrugem de um machado amolado. 
Era uma dançarina, uma dionisíaca, 
Uma sacerdotisa… 
Uma ave da qual, à luz de Hélio, 
Roubavam céu e galho.  

“Perdoa-os, perdoa… finge perdoar!” 
Irrompe a vida, o deus. 
“Perdoar que nada!” 
Arderia a Grécia sem amor.  

Filho de Perséfone,
Vinho maturado, pisado com fé,
Ouvinte de Hermes…
És, dos fugintes, o senhor.

Líquido encorpado,
Corpulento, ambarado,
Baco, o mais vivo dos mortos,
Dá a eles o teu ardor!


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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Velas Para Dezembro

Repartir as flores, espanar o mármore… | adornar aquele nome, | ofuscado na poeira. | Dar, ao ontem, um regalo…

2 minutos de leitura

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Repartir as flores, espanar o mármore…
adornar aquele nome,
ofuscado na poeira.
Dar, ao ontem, um regalo.

Quantas vidas teria vivido?
Quantas horas de brusco encontro?
Quantas idas ao mercado?... O relógio parou.

Dorme, sepultado em pedra.
Dorme, mas sempre me deixa
recado.
“estive por mim… vivi e ousei;
soube amar!”

Fora cristalizado em pleno vôo,
o pássaro,
no âmbar de um dezembro passado.
E a chuva, maldosa,
inquietava às ondas e
escondia o luar.

Fora, ele, um peixe
na contra-correnteza.
Um quase general.
Tão pouco sabia odiar…

Bem conhecia o outro lado
da moeda e da história.
Escarrava aos reizinhos, filosofava no botequim,
com o bandolim de um amigo
a cantar.

Sonhava, em fôlego de Homero,
com o sopro morno
do litoral.
Com a liberdade
e a ventania
sacra
que surge da bruma do mar.


Escrito por:
Lídia Machado

Vivendo por entre bibliotecas e saraus, desde o início de sua juventude a autora Lídia Machado vem tecendo íntima conexão com a poesia e com a escrita. Primariamente, cronista e fabuladora nas aulas de redação. Depois, aos quinze, jornalista estagiária as quais saía, de mototáxi – munida de coragem e de pouca bagagem profissional – rumo aos eventos da charmosa Limoeiro do Norte. Entrevistas, escrita e até mesmo o contato com antigos e leais assinantes do jornal. Também nascia, ali, o amor pela fotografia. Aos dezenove, iniciou como… » leia mais
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