Ópera do assoalho obscuro da matéria
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O rangido do ferro não cessa. É talvez a caixa torácica daquela mulher que ainda fitava o teto vitoriano com os olhos vazios, brancos, lavados pelo arsênio que escorre do papel de parede mofado.
Não há transição entre o quarto e a fábrica; os milhares de moluscos que apodrecem no Mediterrâneo estão agora sob o assoalho, liquefazendo-se em um roxo-profundo, um purpurume que mancha as unhas de quem tenta cavar a própria saída do sonho.
L'existence... c'est une blessure ouverte.
Abaixo, a liturgia avança em silêncio mecânico.
Carne Texturizada na sétima noite ao compressor da noite pulsa no sótão, um zumbido cego enquanto a agonia do gesso descasca sobre o dossel;
Não há Deus na altura que escute este mudo rogo,
Pois o Criador é o vurmo que apodrece sob o véu.
Regardez a viúva: o vestido de múrex exala o veneno,
Um perfume de peixe pobre e urina que a seita coroa;
O bebê de vidro, na fresta do armário, pequeno,
sangra um óleo escuro enquanto a engrenagem ressoa.
Nas dobras de uma cortina carmesim, O tempo estagna em um eterno agora. O chão de zigue-zague não tem fim, a própria luz, com medo, foi embora.
O pânico transborda em ectoplasma,
Viscosa angústia que o real desfaz;
O que era carne vira o leve pasma de um pesadelo que não traz a paz.
Alimenta-se o quarto com a agonia,
A garmonbozia amarela e fulgente,
Banquete da miséria e dor sombria.
O vento chora e mente.
Atrás do espelho, a face que sorria
Já não é humana, e o terror se sente.
O tribunal se reúne atrás da parede de gesso,
Onde o bule de café ferve um óleo escuro e denso.
Fui condenado por um crime que esqueci o começo,
Sob o brilho mecânico de um abajur suspenso.
Há algo vivo e faminto no fundo do armário,
Um mal antigo que veste a pele do passado.
O relógio da sala gira em sentido contrário,
o veredito já foi, há séculos, selado.
A metamorfose cega prende o corpo à cama,
Enquanto os passos pesados sobem a escada.
Uma fumaça vermelha o corredor inflama.
A máquina de escrever digita uma folha em branco:
"O horror está em casa".
O A porta foi arrombada.
E o monstro na cadeira assume o meu próprio banco.
As pupilas duplicadas multiplicam-se no espelho da cama,
onde o sexo é o corte profundo que a criatura desenha;
sadismo de sombras que o próprio trauma inflama, que a alma excomungada finalmente entenda e ceda.
A Umbravola Nigrescens pousa no peito do morto recente, mandíbula serrilhada imita o riso do duplo no vidro; não é o monstro que avança de frente, o fato de estares, há eras, trancado e esquecido rosto na parede fria.
O fato de o cabeludo platinado pular pela dimensão não lhe dá o direito de ceifar as mentes de inocentes frias e escatológicas cruas almas rasgando seus ossos.
O anão dança com o anel de caracol, sua voz é uma estática fria e doentia e ele sorri enquanto da boca escorre um pútrido líquido semelhante a um vômito de milho, uma garmonbozia… Ele sorri enquanto seus olhos lacrimejam e disparam contra a pérola dela, aquela que ela inalava com as narinas de platina…
A cortina vermelha ondulada sem vento, bizarra e lisa...
E o absoluto nada engole o que a luz cobria em um monólogo que um homem de giz sorria enquanto pulava derretendo-se
Intermitência.
...vês aquela mancha violeta na tua pele? Não washes. É o pigmento verdadeiro. Custou a vida de tudo o que rastejava no fundo do mar para que tu pudesses vestir essa melancolia. O homem que está dentro do assoalho da carne do espelho não quer sair; ele quer que tu entres. Ele já cortou os fios do telefone.
O corvo no canto da sala funerária não é um pássaro,
é apenas um pedaço de veludo preto que caiu do caixão e começou a respirar.
Se tu limpares as tuas retinas agora, com os dedos sujos de trimetilarsina, verás que o teatro sempre esteve vazio.
As luzes vão piscar.
Três vezes.
O som do sangue pingando e o rosnar da fera
será a única canção de ninar para o feto que insiste em não nascer no canto do quarto do fogo…
.
Ne regarde pas. Le grand néant t'observe déjà.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;