30. Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo é o caminho que leva à perdição

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Diário de Rute Fasano

Data Incerta - Senti os braços me levando pela trilha principal, desviou por trás das casas tortas, passou por corredores estreitos entre muros de pedra úmida, onde havia símbolos antigos riscados sobre o que parecia inscrições mais recentes, como se muitas crenças disputassem aquele espaço durante muito tempo. Eu ainda sentia o peso do sonho no meu corpo, aqueles sonhos ou memórias que não eram meus, mas insistiam em ranger dentro da cabeça.

— Aqui. — ela disse e pude reconhecer a voz da líder da Ordem.

Havia uma porta de metal, grossa, enferrujada, com sinais de solda recente; quando ela bateu, não foi com força, foram três toques exatos, musicais e bem calculados. Demorou, mas o som que ouvi vindo lá de dentro não foi de passos, mas de engrenagens. A porta se abriu só o suficiente para um olho nos observar, um olhar frio, contido e avaliador. Mara falou o nome.

— Arturio?!

A porta foi aberta por completo, ele estava diferente, mais seco, mais rígido. E o mesmo corpo que um dia fora humano agora parecia um esboço de máquina que ainda não decidira em qual lado terminar. Seus braços estavam reforçados por placas mecânicas discretas e o seu olhar, aquele olhar parecia ter presenciado mais funerais do que eu poderia contar.

— Você voltou a existir — ele disse para Mara, sem surpresa alguma. — Então minhas premonições ainda estão mal calibradas.

Entramos e o interior era um santuário de aço, ossos mecânicos pendurados pelas paredes, exoesqueletos incompletos suspensos. Havia algo de quase religioso na organização daquele lugar. Algo de necromântico na engenharia. "Necromântico" essa palavra parecia dançar na minha cabeça.

— Precisamos de ajuda. — a líder da Ordem disse. — E ela está marcada.

Arturio me observou com mais cuidado agora, mas não como quem olha para uma pessoa, mas como uma máquina com defeito.

— Parece que alguém tentou reescrever as memórias dela à força. — ele disse.

Engoli seco.

— Eu só sonhei.

Ele inclinou a cabeça.

— “Sonho” é o nome que você dá quando não sabe que está sofrendo uma invasão.

Mara ficou tensa.

— Dá para algo ser feito?

Ele caminhou até uma mesa cheia de mapas estranhos.

— Talvez, mas tudo o que eu crio cobra algo — disse. — Até mesmo quando salva.

Ele me olhou de novo.

— E geralmente o preço é a alma.

Nesse momento percebi nele um cansaço que não vinha do corpo, como se ele estivesse sempre chegando atrasado à própria vida.

— Você ainda anda tendo as visões? — perguntou a líder da Ordem.

Silêncio.

— Todas as noites, as mortes primeiro, os detalhes depois. Às vezes eu acerto, outras eu erro por minutos, outras por anos. Ainda não sei se vejo o futuro ou se estou preso revendo algo que já aconteceu em alguma dobra errada do mundo.

Ele abriu uma gaveta e retirou um objeto pequeno envolto em um metal escuro.

— Vou precisar introduzir esse mecanismo na base do seu crânio — disse para mim. — Vai ser rápido, você não irá sentir nada.

Meu estômago se contraiu ao ouvir aquilo.

Ele pegou uma pistola, que parecia de ar comprimido, que parecia mais uma pistola para abate; colocou o artefato dentro e pediu que eu me virasse, então ele disse, quase gentil:

— Se você sobreviver a esse limbo de memórias, Rute, não será por acaso.

Senti um frio a percorrer a espinha.

— Nada neste lugar é por acaso — completou.

E colocou a pistola em minha nuca; eu apenas ouvi um som oco e desmaiei. Cada passo meu de volta ao castelo e eu só estava trocando um tipo de perigo por outro

· · • • •✤• • • · ·

Data Incerta - Hoje acordei sabendo amarrar nós que nunca aprendi, minhas mãos se moveram sozinhas ao prender o laço do manto que Siehiffar deu a Mara. Os dedos sabiam exatamente onde puxar, onde tensionar, não pensei, apenas fiz. Quando percebi, estava com o coração acelerado, como se tivesse feito algo errado. Mara notou.

— Quem te ensinou isso?

Abri a boca para responder, mas nenhum nome veio, só o cheiro de ferrugem, madeira molhada, um canto antigo em língua que não reconheço, mas que minha garganta quase repetiu. Balancei a cabeça.

— Não sei.

Ela não insistiu na pergunta, mas ficou me observando. As memórias não chegavam completas, eram mais como sensações, às vezes boa, às vezes neutras e muitas vezes incômodas, como o peso de uma arma na cintura que nunca carreguei, o orgulho de um juramento que não fiz, a certeza de um afogamento que não foi o meu. E, às vezes, a sensação mais terrível de todas é a de ter amado alguém que nunca existiu para mim.

Hoje, enquanto Mara discutia com uma das mulheres da Ordem, eu me distraí contando as janelas da torre, sete, oito, nove. Interrompi ao perceber que já sabia qual delas escondia o alçapão secreto e apontei sem pensar. Algumas das mulheres se viraram para mim e o silêncio foi imediato.

— Como você sabia? — uma delas perguntou.

Eu não sabia, mas alguém em mim sabia e isso me incomodava. À noite, enquanto escrevo, minhas frases mudam de caligrafia sozinhas, algumas linhas ficam mais retas, mais técnicas, mais frias, como se outra pessoa estivesse usando minha mão com cuidado, não para me possuir, mas para se esconder através de mim.

O pior lapso aconteceu agora há pouco, olhei para Mara, que dormia sentada, exausta, e por um instante absoluto eu não vi Mara, vi um corpo translúcido, depois ossos e carne refeita; vi mãos pressionando um crânio ainda quente, vi Drácula sorrindo. Minha respiração travou. Quando o mundo voltou ao normal, eu estava chorando em silêncio, com a mão cobrindo a boca para não acordá-la, mas a única certeza que eu tinha era que essa memória me pertencia.

Tenho medo, não de enlouquecer, mas de me tornar uma colagem de vidas alheias, e se continuarem arrancando e costurando minhas lembranças? Se cada perda vier acompanhada de um enxerto? Será que talvez "eu" ainda caminhe, que talvez "eu" ainda escreva? Mas não saberei mais quem está fazendo isso dentro de mim, não sei mais dizer com certeza onde termina o que sou, o que fui e onde começam os que agora me habitam.

E então, novamente antes de dormir, mais uma memória terrível. O corpo não parecia dela, era essa a primeira coisa que não fazia sentido, não o rosto, pois ele ainda era o mesmo, ou uma versão silenciosa dele. A boca, que sempre tinha algo a dizer, agora estava fechada de um jeito definitivo, mas o resto, o resto estava errado.

As mãos, eu conhecia aquelas mãos melhor do que qualquer outra coisa no mundo, sabia o peso delas sobre a minha pele, a forma como seguravam uma caneca quente, o jeito distraído de afastar o cabelo do rosto. Agora estavam imóveis sobre o próprio corpo, rígidas, como se tivessem sido colocadas ali por alguém que só tinha visto as mãos dela uma vez. Não eram dela ou talvez fossem, e isso era ainda pior.

O velório estava silencioso demais, um silêncio cansado, pesado. Algumas pessoas choravam, outras apenas olhavam e muitos que nem deveriam estar ali, julgavam. Eu só observava, esperando por alguma coisa que eu não saberia reconhecer mesmo que acontecesse.

— Você quer ficar um pouco sozinha?

A voz veio de algum lugar atrás de mim, eu não me virei. Se eu me movesse, talvez tudo se tornasse real e eu ainda não tinha decidido se queria que aquilo fosse real.

— Não — respondi como se eu me importasse.

O caixão estava aberto, eu não sabia quem tinha tomado essa decisão, talvez a família dela ou alguém que acreditasse que despedidas precisavam de evidência; como se saber não fosse suficiente para aceitar, não era, e dei um passo à frente e depois outro e cada movimento meu parecia deslocado, errado, como se meu corpo estivesse se movimentando com um pequeno atraso, em relação ao resto das pessoas presentes ali.

Parei ao lado dela e de perto, era pior. Havia algo na pele, não era a cor, pois isso eu já esperava, mas a falta de algo. Tudo estava completo, correto e ainda assim estava faltando, perfeitamente mobiliada como uma casa, onde ninguém vive nela.

Estendi a mão antes de perceber o que estava fazendo, eu a toquei, estava fria, minha respiração falhou por um segundo. E, naquele intervalo, algo aconteceu, não fora, mas dentro de mim, uma ideia, não, não uma ideia, ideias são construídas. Aquilo veio pronto para mim, inteiro e errado. Isso não precisa ser o fim.

Retirei a mão como se tivesse sido queimada e olhei ao redor, ninguém parecia ter notado ou escutado nada, pois ninguém nunca nota. Voltei os olhos para ela, imóvel e ausente e ainda assim...

— Não — murmurei, mais para mim do que para qualquer outra coisa. — Não é assim.

O pensamento voltou, só que mais forte dessa vez.

Você sabe que não é.

Eu não sabia, a verdade é que eu não sabia de nada, mas queria saber, e naquele momento, isso foi suficiente; fiquei ali por mais alguns minutos ou horas. O tempo tinha se tornado irrelevante, algo que acontecia com outras pessoas e, antes de sair, olhei pela última vez, tentei memorizar. Não o rosto morto, pois isso seria fácil demais de lembrar, mas o erro, a ausência, a coisa invisível que transformava tudo aquilo em algo inaceitável, porque se havia algo errado, então talvez eu pudesse corrigir. Naquela noite, não chorei. Abri o caderno e comecei a escrever. E com isso as minhas memórias comprovam que nem sempre fui sincera em tudo que escrevi, pois há vozes em mim que me obrigam agora a ser sincera no que escrevo. Então a escuridão veio e meu corpo começou a tremer, e eu tive uma convulsão.

Não me chamaram de paciente, me chamaram de campo instável; fui levada para uma sala que ficava abaixo da torre inclinada, onde as pedras eram mais úmidas e mornas, e as velas tinham chamas azuladas, pareciam queimar alguma substância que não era deste mundo ou melhor do meu mundo. Mara foi obrigada a ficar do lado de fora, disseram que ela atrapalharia, não gostei da forma como disseram isso. Me deitaram sobre uma mesa de metal antigo, cheia de ranhuras e símbolos sobrepostos, alguns religiosos, outros matemáticos, outros que eu não reconhecia, mas o meu corpo respondia a eles com náusea. Arturio estava lá e não falou muito, só me observava como quem avalia um motor quebrado.

— Suas memórias não estão apenas sendo roubadas — ele disse. — Estão sendo sobrepostas em frequências erradas.

Uma das freiras explicou que eu estava em ressonância involuntária, que parte de mim estava sintonizada com o mesmo campo onde alguns seres operam. Que não era possessão, mas algo pior. Eu apenas ouvia tudo aquilo em silêncio, sem entender nada realmente. Então prenderam meus pulsos e tornozelos. As correntes estavam frias demais... colocaram na minha testa um artefato circular de metal escuro, cravejado de cristais vermelhos. Quando encostou na minha pele, ouvi vozes sussurrando algo que eu não conseguia entender. Depois vieram as agulhas, não entraram no corpo, mas nas minhas memórias, cada perfuração era uma lembrança organizada à força, não as minhas. E eu via flashes desconexos enquanto gritava sem som: Um menino correndo num deserto que não existe, uma mulher ensanguentada sorrindo, um mapa sendo desenhado sozinho, um rosto em espiral se desfazendo em poeira branca. Meu corpo tremia, mas minha mente parecia ser organizada em camadas, como páginas arrancadas de vários livros e reorganizadas com muita violência. Em algum ponto, comecei a rezar, não sei exatamente para quem, talvez para Siehiffar, talvez para o seu Deus sem forma ou para Drácula. O procedimento durou tempo demais para caber no tempo e quando terminou, senti algo fechar dentro de mim, não curar, mas fechar como se fecha uma ferida profunda com grampos, um pouco segura, mas ainda infeccionada. Arturio foi direto.

— Você foi estabilizada apenas no eixo consciente, porém os rastros continuam no inconsciente.

Claro que traduziram para mim em termos mais simples, não vou mais apagar no meio do dia, não vou perder o controle repentinamente, não vou atravessar realidades andando. Quando me soltaram, eu mal conseguia ficar de pé. Mara entrou correndo e segurou meu rosto com força demais, como se tivesse medo de que eu escorresse pelos dedos.

— Você está aqui? — perguntou.

Demorei um segundo a mais do que devia para responder:

— Estou.

O procedimento que eles fizeram não me devolveu inteira, mas apenas impediu que eu continuasse me despedaçando rápido demais, porém agora eu só me desfaço devagar. Mara me ajudou a caminhar até o quarto e logo desceu, fiquei lá analisando pensamentos que no momento eu sabia que eram meus. Alguns minutos se passaram então uma discussão começou antes que eu percebesse que ainda estava fraca demais para sair do quarto. Eu ouvia as vozes do andar superior atravessarem as pedras da torre. Arturio foi o primeiro a falar em tom alto.

— Vocês brincam com símbolos e magia como se fossem crianças, o que ela sofreu é perigoso, é um colapso das camadas de memória que são incompatíveis.

A resposta veio em coro contido, feminino, duro:

— Você não entende o que fala, Ferreiro, há coisas que não se consertam com suas ferramentas.

Ouvi passos, muitos passos, o som de metal leve escondido sob tecido e, quando enfim consegui me erguer e abrir a porta para olhar o que acontecia, encontrei os dois mundos frente a frente. Arturio estava com o sobretudo aberto, revelando partes de um exoesqueleto inativo sob as roupas. As freiras o cercavam em meia-lua, algumas com os vestidos rasgados, outras adornadas com amuletos e sigilos tatuados na pele e Mara estava entre eles, tensa com sua lâmina.

— Vocês me chamaram de traidora — disse ela. — Mas foram vocês que me forçaram a usar Rute como entrada para o castelo.

Uma das líderes deu um passo à frente.

— E você aceitou vir ao castelo. Você acha que não sabemos quem você é? Mara e Isolda, as líderes da revolução da Ordem; bem que dizem para não conhecermos nossos ídolos, só espero que o que Isolda construiu em seu nome não tenha sido em vão.

Silêncio, então Arturio falou de novo:

— Vocês querem lutar para manter o castelo vivo, mas Drácula não precisa de vocês para isso. E ela — apontou para mim — é a única que sobreviveu aos mecanismos internos do castelo sem se tornar totalmente parte dele.

A líder sorriu.

— E isso a torna quase uma mártir.

Outra freira avançou um pouco demais.

— Se ela romper de novo, nós a eliminamos, mas enquanto ela servir como entrada para o castelo ela fica viva.

Foi quando Mara sacou a lâmina e nunca esquecerei o som seco.

— Vocês não tocam nela — disse. — Nem para salvá-la, nem para sacrificá-la.

A ameaça era real e Arturio, então, fez o movimento com seu braço mecânico.

O ar da sala mudou.

— Se vocês a matarem — disse ele com a voz finalmente sem controle — eu abro cada torre de amuleto que esconde vocês da visão da Ordem, uma por uma.

Um suspiro coletivo percorreu a sala e a líder da Ordem estreitou os olhos:

— Você nos exterminaria.

— Eu apenas deixaria que elas enxergassem vocês — respondeu Arturio.

Mara olhou para mim.

— Se vocês tentarem tocar nela de novo — disse Mara — vocês vão descobrir que eu aprendi mais no castelo do que nos seus templos.

Silêncio absoluto e a líder, por fim, recuou meio passo.

— Ela permanece fora dos planos, por enquanto.

Arturio abaixou lentamente o braço mecânico. A tensão não cessou, ela foi apenas arquivada. Quando todos saíram, eu ainda tremia. Arturo passou por mim.

— Você é o campo de batalha agora, garota — disse, sem crueldade. — Não se esqueça disso.

Mara me acompanhou ao quarto logo depois, como se quisesse me esconder do mundo inteiro. A Ordem não confia mais em mim, Arturio não confia mais na Ordem e Drácula... bom, ele deve estar se divertindo com tudo isso em algum lugar.

Castelo Vampírico
Entre as paredes sinistras do Castelo Drácula, Rute Fasano registra em seu diário as angústias de uma alma consumida pela perda e pela culpa. Assombrada por memórias que recusam o descanso eterno, ela mergulha em abismos existenciais enquanto busca sentido numa fé já desfeita. Para Rute, a única certeza parece repousar na própria morte ou, talvez, numa reversão obscura dela. Seu relato é um testemunho de saudade e consequências, onde a linha entre a vida e o fim torna-se tênue como um último suspiro. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Valesca Afrodite

Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), formada em Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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