⚜ Prefácio de Agonihria
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se cada vez mais tangível... e, então, de sua morbígera forma emerge o inominável.
A Antologia Agonihria apresenta ao leitor uma imersão no púrpuro terrífico, trazendo a existência em seu abismo aflitivo e a mente ao estado onírico de horror perene. N’estas páginas, nos fragmentamos em violeta obscura que reflete o céu de breu insondável. A poética de Agonihria é para os apreciadores do que queima a alma dia após dia — o sentimento mórbido do mistério existencial, o vazio que conduz à ausência de todo o socorro; ardendo na chama negra do martírio.
Soterramos aqui as letras d’aflição pertencentes ao medo mais puro e ao fascínio mais doentio. No agouro de sua verdade, Agonihria murmura subjugação à noite eterna, ao soturno e ao desalento. Não somente, esta temática propõe uma escrita carregada em dor e sentimentos oblíquos, deletérios, sádicos — emoção rastejante ou histeria no urro cruel de almas condenadas ao limbo. Agonihria talvez espere afogar o leitor na luxúria da consternação, no caos da mania ou na mortificação assentada sobre a fissura do abandono que carregamos desde o primeiro respirar.
O cenário que apresentamos aqui, desvela-nos pupilas duplicadas que espreitam nos recantos onde as sombras são mais crassas. Tons de violeta opaco em neblina se rarefazem, tornando álgido o clima silencioso. Há cinzas caindo dos céus e seu matiz não se iguala ao cinéreo comum daquilo que foi cremado — não, as cinzas são de um preto profundo, constituídas em vantanegrume... e possuem odor de morte iminente.
Esquecimento, negligência. Em Agonihria o caminho é bifurcado — à esquerda uma compreensão cruel de solidão e desamparo; à direita, o enlevo imprudente de pertencer ao que foi deserdado. Em outras palavras: a dor hostil pelo sentido fragmentado em vazio ou a paixão obsessiva e perfurante pelo silêncio do absoluto nada. Arrancamos de nossos traumas o parasita que conduz nosso comportamento e os transformamos em criaturas de sinistra e nefasta escuridão. Furamos as retinas dos horrores que nos vigiam. Envolvemo-nos à noite agônica, entregamo-nos à poética do tormento e desvelamos nele o antro sublime da quietude.
O Castelo Drácula é como um sonho, simbólicos são as suas manifestações e obscuros são os seus significados. Agonihria é um pesadelo paralisante dentro de um sonho; sufoca-nos para ornar nossa mente com desespero e consternação. N’esta Antologia, portanto, abra bem os seus olhos... e olhe atento para o escuro antes que ele te enxergue primeiro.
Inspirei-me, ao criar a proposta da antologia, no termo poético “Agoníria”, o qual criei em 2024. Seu significado é: “Pesadelo sufocante que ilusiona o despertar para enganar a mente e mantê-la aprisionada no plano onírico”. O termo emergiu no elã de um poema-sonura e, ao ser inspiração da obra que se desvela aqui aos leitores, vinculou-se a uma estética atrovioleta, dando escuridão aos mais bizarros horrores do nosso espírito e da alma oculta de uma umbrífera natureza.
Além disso, imersa pela essência mortificante de Agonihria, desenterrei para os autores verdades mórbidas do passado humano, para que o banquete de suplício se tornasse ainda mais tangível. Na antiguidade, o pigmento roxo-púrpura verdadeiro vinha de um único lugar: o múrex, um molusco marinho do Mediterrâneo oriental. Para produzir um grama de corante, eram necessários milhares de moluscos. O processo era nauseante — os animais precisavam apodrecer parcialmente antes de liberar o pigmento — e o cheiro era insuportável, nauseabundo. Fábricas eram instaladas em locais isolados, a favor do vento para que não se dissipasse o odor, entretanto, a fragrância bizarra impregnava nos trabalhadores e, pelo imensurável custo de produção do pigmento, restringindo-se à nobreza, de acordo com o artigo “Púrpura tíria: o antigo pigmento desaparecido que valia mais que ouro” da BBC, o cheiro hórrido fixava-se nas vestes tingidas, um bálsamo de peixe pobre e urina — um insólito e questionável perfume que dava autenticidade às peças.
Por volta do século XIX, pigmentos como a cor violeta obtiveram acréscimos químicos, entre tais: o arsênio. Tanto para baratear sua produção, quanto para estabilizá-lo. Em casas antigas, segundo o artigo “Arsenic: a domestic poison” da Royal College of Surgeons of England, papéis de parede coloridos com tintas carregadas de arsênio, reagiam com a umidade e os fungos, liberando trimetilarsina, um gás de toxicidade intensa que poderia levar a óbito pessoas expostas a ele— a depender do quão ventiladas eram as casas. Temos aqui, portanto, envenenamento, cheiros pútridos e a moda como símbolo de morte e decomposição para uma elite perturbada e corrompida. Quantas tétricas bizarrices somos capazes de suportar em nome de um sentido social, um significado intersubjetivo, criado no coletivo?
Na imensidão de Agonihria, deixando o universo real humano, adentramos a vivência única da fantasia obscura de “As Crônicas do Castelo Drácula”. Para este mundo de lugar-algum, talvez vívido nos pesadelos, quiçá erguido no antro do inconsciente coletivo, criei parte de sua fauna e flora de multiforme, e belíssimo, horror, inspirando-me essencialmente na noite em trevas fidagais e no opaco roxo-escuro, além da atmosfera agônica pertencente.
A Vêsffera Sensiflora retorna para a primeira edição de Agonihria — trata-se d’uma planta capaz de remodelar sua forma vegetal para imitar corpos estranhos à sua orgânica composição. Na antologia Magöhorror, a planta mutacionara n’uma reprodução bizarra de crânios humanos gritantes; em Agonihria, elas simulam olhos e mãos cadavéricas.
Para a fauna mórbida d’este universo original de As Crônicas do Castelo Drácula, em Agonihria vos apresento a Umbravola Nigrescens: Esta é uma borboleta cujo habitat é a Floresta Hostil, inseto da família Mortivolidae e da ordem Lepidoptera Abyssalis. Possui asas negras aveludadas que absorvem luz e um crânio pequeno, com duas cavidades vazias e escuras muito similares a orbes oculares humanos. Abaixo há sua mandíbula, com serrilhas superiores e inferiores. Seu abdômen é pequeno e nele há plumagens que atraem presas, em sua maioria pequenos vertebrados. É silenciosa, desliza pelo ar e bate asas somente quando precisa alcançar altas copas de árvores frondosas ou para fugir de predadores. Sua caça é noturna e há diversas lendas a respeito da sua existência.
Umbravola e Vêsffera Sensiflora são os destaques que criei para este universo — e os autores da antologia Agonihria interpretaram-nas de suas inigualáveis maneiras, enriquecendo e expandindo suas essências. Em vínculo a tal fauna e flora, apresento a personagem Suinddáremis Mortállida.
Dizem os mais velhos, dotados de ancestral conhecimento, que Suindara nascera ao ser convocada, pela própria morte, n’uma noite de agouro. De alguma forma clarividente, a coruja da espécie Tyto furcata aproxima-se daqueles quais as brumas do último suspiro circundam. Seu aviso é infortúnio, entretanto, não se achega no vazio de seu olhar âmbar, tampouco no sussurro tenro de um pio distante. Suindara grita, tal como o que houvera antes da morte, antes da luz. Seu vociferar é dilacerante como uma mortalha que se rasga à força, em perturbação. Seus pelos brancos, olhos compenetrados, seu voo silente — tudo n’esta ave advém da natureza maldita... a mais fascinante de todas as naturezas. E foi, pois, n’um d’estes noturnos voos, que uma Suindara ganhou consciência — atravessando a fissura entre o nordeste do Brasil e o lugar-nenhum do Castelo Drácula.
Não só dotada de consciência, esta coruja sofreu uma dolorosa metamorfose — ganhou um corpo humanoide e não demorou para aprender a se comunicar como nós o fazemos. Suinddáremis Mortállida renasceu, distinta e profundamente sábia sobre a morte e os perigos da escuridão. Esta personagem tem uma fala calma, grave, sutilmente feminil; entretanto, se pressentir a morte, não pode controlar o seu estridulante aviso aterrador — que, ouso dizer e dizem os que ousam, é um berro capaz de abrir uma porta, física ou mental, para o mundo dos mortos.
São fascinantes — algo somente do universo de “As Crônicas do Castelo Drácula” — as aparições em comum que um único personagem ou parte da fauna e flora se apresenta em textos tão únicos em suas formas e estilos. Os autores de Agonihria não decepcionarão os leitores, proporcionaram obras de imersão magnífica tanto nos elementos que criei e que n’este prefácio os apresento, quanto em elementos criados por eles, dando ainda mais densidade ao que Agonihria propõe.
Então, escureça o ambiente, acenda uma singela luz púrpura. Agonihria nasce agora em suas entranhas.
Sahra Melihssa
Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
H. P. Lovecraft – O Arquiteto do Indizível
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o tipo mais antigo e mais forte de medo é o medo do desconhecido.”
— H. P. Lovecraft, “O Horror Sobrenatural na Literatura”
Howard Phillips Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, onde também morreria, solitário e quase desconhecido, em 15 de março de 1937. Viveu à margem do mundo — pobre, doente, recluso — mas sua mente fervilhava como um poço de éter, e seus pesadelos tornaram-se mitologias modernas. Seu universo não é deste mundo, nem do inferno. É anterior, abissal, cósmico.
Criado por sua mãe e avô após a internação e morte de seu pai, Lovecraft encontrou nos livros, nas ruínas vitorianas da Nova Inglaterra e nas vozes do passado (Poe, Dunsany, Chambers) os pilares de sua torre gótica. Desde muito jovem, encantou-se pela ciência, pela astronomia e pelo arcabouço invisível da realidade — ainda que sempre pairasse sobre ele a sombra da instabilidade mental.
Os Tentáculos do Horror Cósmico
Lovecraft não escrevia apenas histórias — ele invocava atmosferas. Não há em sua literatura o vilão clássico, nem o terror fácil do sangue: o que aterroriza é o limite da sanidade, a vastidão impiedosa do cosmos, a presença de seres tão antigos que a própria linguagem é inútil para descrevê-los. Ele chamava isso de “horror cósmico”.
Seus contos mais célebres — como O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, A Cor que Caiu do Espaço, O Caso de Charles Dexter Ward e O Sussurro nas Trevas — compõem o que hoje conhecemos como Mitologia de Cthulhu, um panteão de entidades insondáveis: Azathoth, Yog-Sothoth, Nyarlathotep, Shub-Niggurath... nomes que não pedem compreensão, mas silêncio reverente.
Estes deuses não são malignos — são indiferentes. E essa indiferença é o terror maior: o homem não é o centro do universo, mas um ponto irrisório num caos sem propósito.
O Estilo: Arcaísmo e Atmosfera
Lovecraft escrevia como um antiquário da linguagem, com frases longas, palavras rebuscadas, e uma preferência por termos como eldritch, gibbous, cyclopean e tenebrous. Muitos o acusaram de excessivo, mas há beleza no excesso — especialmente quando o objetivo é evocar o indizível.
Ele evitava diálogos extensos, preferia narrações em primeira pessoa, e muitas vezes o horror se dava fora de cena — algo pressentido, mas jamais completamente visto. É um terror mais filosófico que visceral. Sua escrita evoca a vertigem daquilo que jamais seremos capazes de compreender.
Racismo e Sombras Biográficas
Não se pode falar de Lovecraft sem encarar o espelho sombrio de sua alma: ele era profundamente racista. Seus textos e cartas trazem visões xenófobas, elitistas e excludentes, fruto de seu tempo, sim, mas também de suas convicções pessoais. Ele temia o “outro” tanto quanto temia o universo. É doloroso, mas necessário, reconhecer isso — para que possamos ler sua obra com lucidez e senso crítico, sem encobrirmos suas falhas humanas. Aqueles que não lêem Lovecraft por esta razão, não sabem o quão importante é entrarmos em contato com as verdades obscuras do passado, para não as repetirmos os mesmos erros no futuro. Além disso, o quanto devemos separar a obra de seu autor? Esta é uma pergunta viva que devemos colocar sempre em questão; para mim, no caso específico do Lovecraft, quando suas características racistas aparecem nos textos, é profundamente desconfortável; talvez aí esteja o principal horror de suas obras.
Legado Imortal
Lovecraft morreu pobre, com poucos leitores. Mas o tempo, esse devorador de almas, fez justiça póstuma: hoje, ele é reconhecido como o pai do horror moderno. Influenciou Stephen King, Neil Gaiman, Clive Barker, Alan Moore, e ressoa em filmes (O Enigma de Outro Mundo, Alien), jogos, HQs, RPGs e até canções.
A cidade imaginária de Arkham, o livro proibido Necronomicon, os cultos sussurrantes, as criaturas informes — tudo isso se tornou parte do imaginário ocidental, como um evangelho profano.
Epílogo: Diante da Escuridão Insondável
A obra de Lovecraft nos devolve o olhar de uma criatura insignificante diante da eternidade, lembrando-nos de que o universo não foi feito para nós, e talvez jamais nos note.
Penso que, mesmo sabendo que somos poeira, ainda escrevemos, ainda sonhamos, ainda trememos sob as estrelas. Isso é inestimável e, talvez, nos conecte com toda a poderosa forma cósmica que não somos capazes de compreender.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Percy Bysshe Shelley: Vida, Obra e Pensamento Crítico
Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
“Aproxima-se rapidamente o tempo — espero que o senhor, milorde, possa viver para contemplar sua chegada — em que o maometano, o judeu, o cristão, o deísta e o ateu viverão juntos numa única comunidade, compartilhando igualmente os benefícios que provêm de sua associação e reunidos pelos vínculos da caridade e do amor fraterno.”
— Percy Bysshe Shelley
Nascido em 1792, na Inglaterra, Shelley foi um dos mais intensos e visionários poetas do Romantismo inglês. De alma livre e convicções inflamadas, rebelou-se desde cedo contra as amarras da sociedade vitoriana, da religião instituída e das convenções morais. Era o primogênito de uma família aristocrática, mas rejeitou o destino de nobre — preferia o exílio, o pensamento radical e a linguagem da poesia como forma de revolução.
Expulso de Oxford aos 18 anos por escrever um panfleto em defesa do ateísmo, Shelley já demonstrava o espírito incendiário que marcaria toda a sua vida e obra. Casou-se jovem, viveu intensamente e, após a morte trágica de sua primeira esposa, uniu-se à escritora Mary Shelley, autora de Frankenstein. Juntos, formaram uma constelação literária, orbitando também Lord Byron, outro titã das letras e da inquietação.
Coincidentemente, nosso autor Wallace Azambuja trouxe à edição Dívanno uma tradução do poema Ozymandias — o que me levou a um mergulho mais profundo na vida e na obra de Shelley, sobretudo em suas críticas à religiosidade. Sempre que um dos autores da revista traz à tona pensadores e poetas — seja por meio de uma tradução, como neste caso, seja por artigos ou ensaios — , busco ampliar o conteúdo com notas sobre a trajetória e o pensamento do autor mencionado, quando necessário. Essa escolha editorial enriquece a experiência leitora e desenha caminhos mais profundos rumo ao conhecimento.
Ozymandias traz à luz, ainda que de modo poético — e, por isso mesmo, ainda mais penetrante — a transitoriedade do poder; tema que se vincula irrevogavelmente às indagações sobre religião e divindade já abordadas por Shelley em The Necessity of Atheism e na Carta ao Lorde Ellenborough. Mais que isso: o poema nos reconduz à natureza como a única força maior — e decerto inegável — capaz de se sobrepor a tudo aquilo que é construído pelo humano, inclusive suas crenças efêmeras e dogmas desprovidos de razão. Tal como nos versos:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Vejam meus feitos, poderosos, temam!”
Nada resta ao redor: circunda o escombro.
— Tradução de Wallace Azambuja
É fascinante como Shelley tensiona religiosidade, justiça e política em seus ensaios, e como transcende esses mesmos temas, na poesia, para uma dimensão mais elevada e sensível. Sua aparição na edição Dívanno é de suma importância, pois nela nos colocamos sob as asas das divindades etéreas a partir de prismas exploratórios da constituição humana. Eu mesma, sempre inclinada à razão, aproximo-me da fé pelos sentidos, através da poética — e sou capaz de experimentar a ideia de Deus sem a embriaguez religiosa, mantendo-me firme em minha racionalidade. Isso talvez comprove — e, de certo modo, realiza — os conceitos shelleyanos sobre as três fontes da convicção.
Obra — Entre o Ideal e o Abismo
Shelley escrevia como se quisesse incendiar o mundo com seus versos. Sua poesia é marcada por um lirismo elevado, por ideais políticos libertários, e por uma estética que combina o sublime com o etéreo. Era um alquimista da linguagem, fundindo mito, filosofia, natureza e revolução.
Obras essenciais:
“Ozymandias” — Um soneto famoso que reflete sobre o orgulho humano e a inevitável ruína do tempo, como já mencionei. A estátua do rei caído, perdida no deserto, é um símbolo arrebatador da efemeridade do poder.
“Prometheus Unbound” (Prometeu Desacorrentado) — Uma obra dramática e lírica que reimagina o mito grego de Prometeu, o rebelde que desafiou os deuses. Aqui, Shelley faz dele um símbolo da humanidade insurgente. E mais uma vez, a ruína divina.
“Adonais” — Uma elegia devastadora à morte de Keats, outro grande romântico. Nesse poema, a perda torna-se um portal para reflexões sobre a imortalidade da arte e da alma.
“To a Skylark” (A uma Cotovia) — Uma das mais belas canções à natureza, onde o pássaro torna-se arquétipo da inspiração pura e inatingível.
“Mont Blanc” — Um poema filosófico sobre a vastidão da natureza e a mente humana, que dialoga com as paisagens sublimes dos Alpes.
Uma Vida Breve e Trágica
Shelley viveu como se soubesse que não duraria. Exilado na Itália, longe da pátria que o rejeitou, escreveu alguns de seus mais belos poemas em meio à dor, à beleza e à contemplação. Morreu tragicamente aos 29 anos, em 1822, quando seu barco naufragou no mar Tirreno. Quando seu corpo foi encontrado, diz-se que trazia consigo um exemplar de Keats no bolso. Seu coração, retirado das chamas da cremação por Mary, foi envolto em seda e guardado por ela até a morte. Um símbolo perfeito: o coração de Shelley — eterno, irredutível, inflamado.
Legado
Shelley é hoje reconhecido como um dos poetas mais líricos e visionários da história da literatura. Sua obra inspira tanto pela beleza da linguagem quanto pelo poder de seu pensamento libertador. Foi precursor de ideias anarquistas, defensor da igualdade, do amor livre e da imaginação como força de transfiguração do mundo.
Ele acreditava que a poesia era uma arma espiritual, uma forma de revelar o invisível e libertar a humanidade da ignorância e da opressão. Seu espírito vive nos que ainda se recusam a aceitar as verdades impostas e, ao invés disso, sonham, incendeiam e escrevem.
Referências
DA COSTA, M. (2016). Percy Bysshe Shelley — Introdução. Cadernos De Tradução, (36).
SHELLEY, Percy Bysshe. The Necessity of Atheism. Worthing: C. & W. Phillips, 1811.
SCANDOLARA, Adriano. Shelley — duas cenas do ato 3 de Prometheus Unbound. Escamandro, 5 ago. 2013. Disponível em: https://escamandro.wordpress.com/2013/08/05/shelley-duas-cenas-do-ato-3-de-prometheus-unbound/. Acesso em: 31 maio 2025.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Carta de Íris Cohen
Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta por todos aqueles quais amei um dia. Sei que o mundo não é mais como outrora e sei acerca de uma das razões por detrás do horror que acomete o momento; creio que aquilo que vivenciei, e que hei de descrever ― até quando me for possível ―, poderá acrescentar majestosas ― e medonhas ― compreensões a respeito de tudo, inclusive possíveis hipóteses de resolução.
Até hoje não sei o que de fato aconteceu, não a coisa em si, mas o verossímil sentido que a cinge, contudo o que sei ― e tenho uma certeza inegável ― é que desde então sou perturbada, terrivelmente, por meio da paralisia do sono que faz as imagens daqueles instantes confusos e sinistros retornarem ao meu presente infortúnio e, como se ocorressem no exato agora, eu vejo aquele homem obscuro outra vez, observando-me, parado na janela, olhando-me como o seu retrato antigo.
Peço desculpas se meu vocabulário se apresentar exageradamente extenso, é que a ninguém revelei este segredo e o guardo como um íntimo calvário; sinto-me, de fato, aplacada em poder segredar tudo o que sofri e não quero poupar meu léxico para tal, porque sei que isso há de aliviar um pouco esta intimidatória lembrança, de algum jeito, apesar de eu já estar velha e perto da morte.
Tudo aconteceu no ano de dois mil e setenta e três, quando eu já me afastava do convívio social pelo cansaço da existência miserável, pela lassidão solitária que fora, por tantos anos, minha única verdade. Vocês não sabiam e não souberam que me imergi em uma vil consternação e percebi estar curvada à depressão que, tão familiar, se achegava; por esse motivo tomei a decisão de ir embora daquele extenuante e monótono lugar onde passei todos os meus trinta anos de vida e onde a vida era vivida em conjunturas esmigalhadas, ano por ano e, sim, tão assaz frequente era a minha penúria, o meu desalento.
Dei nome às minhas melancolias e, sequer percebi, que se enraizaram como figueiras. Contudo, a desolação que me acometera nem de perto assemelha-se ao que supus estar prestes a vivenciar com o baixo humor contínuo, a fadiga e o isolamento; o horror que me acometera estava há um adeus de distância, o adeus de meu lar amarescente que era ― e eu não sabia ― suficientemente seguro.
Contextualizo-vos que era demasiado raro eu ter um momento de prazer, o vazio sufocava meu cerne e eu estava sempre naqueles cárceres cotidianos ― os quais soavam deveras como um hospício ― e no aproximar das confraternizações de dezembro eu me sentia, em grau superior, a um poço de aversão imutável, porque o perfume de hipocrisia irritava-me mais do que as luzes piscando em cada janela de cada maldita residência. Mas eu não odiava vocês, acreditem, o ódio pertencia apenas a mim, por mim e para mim, refletindo no mundo como um espelho. Esta é, enfim, a razão pela qual realizei a fuga para um espaço na terra desprovido, o quanto fosse possível, de pessoas. Eu sentia que para que o ato de meditar alcançasse o seu cume necessário, era crucial o afastamento, eu precisava refletir em como tomar certas atitudes quais, quiçá, poderiam me dar uma última esperança de vida ― e para tal, a mudança era inevitável.
Em poucas horas, depois de uma lancinante crise existencial, no crepúsculo mundano do dia vinte e três de dezembro, tomei as comuns doses de pessimismo após notar o quão errôneo era imaginar que meus planos seriam dignos de um plausível desfecho de realização plena, tudo isso porque eu estava prestes a ir embora da minha cidade até ser notificada de que o único trem daquela segunda-feira, único e último da semana para lugares distantes da capital, estava indisponível, sequer uma única vaga, por incrível que pareça.
Fiz o possível para que me permitissem entrar, implorei por um lugar, mínimo que fosse, ainda que no apertado núcleo ruidoso dos vagões menos tersos, pois eu não poderia apenas voltar para casa e esvair na agonia daqueles quartos, era meu último saldo de fé. Contudo não havia condescendência. Vi com meus olhos lacrimejantes a partida desesperadora do último trem e fiquei apenas inerte, observando seu vazio deixado na encantadora linha de cobre, desocupada em seus trilhos envelhecidos. Porém, perto de abandonar a estação, visualizei um novo comboio a se aproximar; de imediato açodei até a bilheteria e indaguei o destino do, aparentemente, verdadeiro último trem, mas não souberam me informar, a verdade é que, para eles, tratava-se de algum tipo de trem particular ― isso existe? Eu duvidei, mas observei que em poucos minutos algumas pessoas adentravam-no, entregando, ao que me parecia ser o condutor, bilhetes em um dourado-escuro deveras brilhante. Não hesitei em perscrutar.
O homem era velho, seus olhos fundos estavam distantes, no entanto a sua cordialidade ainda vívida apaziguou-me a ansiedade. Com serena voz dissera-me que o Aecqer ― este era o nome da comitiva ― partiria para Nehen, uma cidade muitíssimo afastada, além das cordilheiras de Ahvalanch. Segundo o ancião, tratava-se de uma cidade pouco conhecida, visitada particularmente por sujeitos de alto poder econômico que, com o objetivo de afastarem-se dos dias festivos, iam para Nehen usufruir dos seus belíssimos e caros chalés. Interessei-me, é evidente, mas desde a passagem até a hospedagem era preciso alguns rins de pagamento. Por sorte, ou não, o bom homem quis fazer a caridade natalina de me permitir ingressar sem bilhete ― já que eu estava em prantos incorpóreos, com a fronte franzina, cabisbaixa, demasiado abatida e profundamente símil a um ser moribundo. Além disso, o homem revelara-me que um velho chalé, o mais afastado do mais apartado centro de Nehen, pertencia à sua tia e ele poderia, pois, alugá-lo para mim com condições de pagamento menos sufocantes.
Apesar da suave alegria que dera, pois, o ar de sua graça nos segundos discorridos após o ato de compaixão, não senti o júbilo qual expectei e, talvez por isso, sequer contestei a revelação posterior do homem ― Jonathan D’orvalho ―, mas fremi em certo grau com ela ― o que agora entendo como um tipo de aviso intuitivo. Jonathan entornava recomendações acerca da hospedagem qual eu seria obrigada a permanecer por uma semana ou mais ― eis a revelação ―, uma vez que, afirmara, não há possibilidade de retorno de Nehen até que a nevasca cesse ― qual nevasca? Eu indagaria, mas o senhor D’orvalho antecipara sua resposta e explicou que há um dia havia iniciado uma grande nevasca em Nehen e, esta, em breve chegaria às cidades centrais de Ahvalanch.
— Aproveite, minha jovem, que há uma lindíssima biblioteca na vivenda de madeira e tire algumas horas para ler sobre Nehen. ― dissera-me no cortar de seu raciocínio; a tal nevasca estava demasiado intensa e a previsão não estava tão boa para os próximos dias, ela decerto acometeria todo o estado, impossibilitando que os trens galgassem principalmente no cruzamento do leste, a ponte estaiada, e outras linhas próximas das cordilheiras, uma vez que o congelamento da superfície poderia desnivelar os trilhos e comprometer o comboio ― o qual Jonathan não hesitou em enunciar, a cada segundo, sua tradicionalidade, fazendo questão de desvelar o regozijo que sentia por ser maquinista dos trens de Ahvalanch há mais de cinquenta anos.
Resolvemo-nos e pude acessar o interior de Aecqer. Era mesmo um trem mais luxuoso, verdadeira classe alta, com passageiros que, mesmo sozinhos, reservavam cabines grandes para o conforto egoísta que não hei de objetar, eu também preferiria a solidão. Por infortúnio maldito, minha insistência corroborou ao objetivo primevo, isto é, eu estava de partida. O corredor do comboio era belíssimo, embora eu tenha pouco vislumbrado a sua extensão, pois eu estava apressava em encontrar a minha cabine. Eu precisava de um descanso agradável e taciturno.
Ao adentrar a pequeníssima sala, avistei um homem sentado no sofá esquerdo, em silêncio; eu não esperava por isso e retrocedi alguns instantes na memória para lembrar das cruciais recomendações de Jonathan, em algum momento ele decerto dissera acerca do compartilhamento da cabine, acredito; eu e minha maldita incapacidade de prestar atenção, não por menos, pois eu estava profundamente sorumbática, como já vos disse, nada era mais digno de concentração do que minha própria soledade. Sorri tímida, seus olhos estupidamente claros fixaram-se em mim como duas joias raras cujo núcleo era dominado por um exíguo abismo nocivo.
— Íris? ― Indagara-me. Sim, alguma coisa eu perdi no meio do caminho entre a conversa com Jonathan e o encontro com aquele ser estupidamente belo ― não estou, pois, lhes revelando quaisquer sentimentos senão aqueles que permeiam a pura e simples estupefação, aquele homem era belo, belíssimo, demasiado bem-posto, amedrontadoramente venusto, eis a primeira ponta de verossímil desconfiança que fiquei. Nenhum ser humano, mesmo com toda a tecnologia possível, seria capaz de ter aquele aspecto tão esplêndido.
Meu sorriso emergido continha profundo incômodo e ao homem eu me apresentei, sim, apresentei-me e questionei-me o fato dele já saber o meu nome ― “não tire satisfações”, eu pensei, “isso não importa”, eu pensei. Eu preferia mesmo é que permanecêssemos em silêncio e, na medida do possível, distantes. Sentei-me à sua frente e nada mais lhe dirigi, desviei o olhar, pois, como um quadro, eu poderia olhá-lo pela eternidade ― e não é, pois, que estou a olhá-lo desde então? É o meu anátema, oh sim, a minha maldição.
Desconfiada e desolada, senti os segundos vastos como eternidades de meu completo desconforto, enquanto insistia em me convencer de que Jonathan havia sim falado sobre aquele homem, embora não houvesse nenhum resquício de lembrança, nem a ínfima reminiscência, a favor desta possível verdade; senti-me indisposta rapidamente, pela veemência que a timidez atravessava minhas entranhas, além do lapso mental e todas as minhas opressões internas.
A cabine era um cômodo pequeno com dois sofás, um de frente para o outro; a grande janela ao lado mostrava a paisagem noturna que surgia no horizonte abismal. Já do outro lado, à direita, havia apenas a porta de vidro escuro e ornamental, bem intacta, venerando o que acontecia no sepulcro daquele antro. Tentei cessar o pessimismo e o desalento até que fui novamente cingida por aquela voz; falei-vos da voz? Um grave-rouco, perturbador e instigante, de caráter unicamente persuasivo, peculiarmente imponente mesmo possuindo calma e suavidade em seu timbre. Entrevi-o sem desejar olhá-lo, mas fortemente ansiosa para.
— Edgard Venesthron, é um prazer conhecê-la ― ele disse. Sua mão à minha direção, mirei-a em completa ausência de reação até ser capaz de tocá-la. Era absurdamente álgida. Sorri mais uma vez, constrangida e com grande transtorno inexprimível. Voltei-me à minha mala e retirei dela uma revista qualquer para minha leitura desprovida de raciocínio e conhecimento. Diante daquele embaraço acentuado, tudo o que eu almejava era passar o tempo enquanto sentia a apática friagem invernal vagarosamente se estabelecendo ao redor. Assim como eu estava exausta naquela época, bem, eu continuo, embora um pouco mais.
Peço que me desculpem, eu não estou bem, enquanto escrevo sinto-me à deriva em um oceano de exaustão, este é o terceiro dia desde que decidi relatar-vos a experiência que tive com a sutileza vil do horrífico aquém, e agora acabo de acordar, estou sob o crepúsculo demoníaco e minhas instáveis visões estão perturbadoras, além do que estive há anos acostumada. Nesta noite aquele sonho retornara para ludibriar e decair todo o meu esforço de esquecimento, lá estava o homem na janela, como seu quadro, observando-me. Por vezes hesito em continuar a escrita desta carta, porque me pego continuamente descrevendo inúteis detalhes que não deveriam estar aqui, que tipo de relato estou fazendo? Isto não é ficção! Logro mais indulgência, quero ser mais concisa, entretanto, conforme adentro o cerne do horror, ele aparenta estar mais claro dentro de mim e não posso apenas destruir o que já foi redigido com tanta alma e que possui um caráter intensamente relevante, pelo menos para mim. Acabo de pedir para ser colocada esta noite na sala acolchoada, sei que estarei segura lá, fisicamente.
Quarto dia de escrita desta carta e agora eu volto ao dia vinte e três, ao comboio, ao homem na cabine. A minha leitura naquela noite, notei após alguns minutos, residia em assuntos de entretenimento pouco dignos, eis a razão pela qual me dispersei ainda mais, entretanto vi pela visão paralela de minhas retinas que Edgard movimentava-se e observava-me e, antes de ousar fitá-lo em retorno, uma moça batera lentamente à obscura porta cristalina, três vezes; foi Edgard que a atendeu, dissera-lhe para entrar. A moça abriu a porta da cabine e sorriu para o senhor Venesthron, foi um largo, extenso e sombrio sorriso, aquilo me enojou de modo irracional, contudo havia alguma coisa de horrendo naquele feitio, uma face estranha que incomodava tanto quanto a beleza de Edgard que me prendia tão cruel, porém antes do prolongar de minha racionalidade a respeito daquela cena, Edgard interrompeu meus pensamentos indagando-me se eu desejava algo, quem sabe um chá.
Nada, eu nada pedi, minha resposta esvaiu sem voz enquanto Edgard solicitava um tipo de vinho seco para a moça e lhe tratava com demasiada cortesia, algum clima acontecia ali e eu, ébria demais com a melancolia, fracassei em notar quaisquer atmosferas dissemelhantes à minha própria, que era densa e nebulosa. Isabelle se foi, sim, Isabelle ― vocês verão no futuro, caso investiguem, que ela nunca existiu, mas por hora eu vos posso afirmar que sim, tudo aquilo aconteceu, e ela foi em busca do pedido de Edgard enquanto ele ajustava seu casaco um pouco mais.
— Uma jovem agradável por sua bela tristeza ― ele expressou, e eu não consegui compreender o teor do que afirmara. Eu estava sã, creiam, e o caráter demoníaco intrínseco daquela situação que se iniciava em espúria inocência foi exatamente da forma que vos relato. Aproveito para expor que minha doença de memória, por infortúnio, não afetou em nada o que aconteceu naquela noite e a razão pela qual verão em minha ficha a condição de “possível suicida” é, pois, que eu tento destruir, com certa frequência, as memórias, sempre me ferindo no crânio para que cada lembrança se dissipe. Vocês fariam o mesmo, eu sei, se estivessem no meu lugar e passassem pelo que passei. Se estou aqui agora, na casa de repouso psiquiátrica, não é porque sou louca, tudo o que descrevo é real, vocês terão a oportunidade de compreender melhor os motivos que me trouxeram até aqui, mas tudo tem o seu devido tempo para ser dissertado. Eu não quis tornar esta carta em algo demasiado emocional, porém, é difícil, trabalho para que ela tenha uma lógica perfeitamente formulada de cada fato e cada tétrica verdade, assim acreditarão em mim, tenho certeza.
Prossigo, sem descanso, aquieto-me nesta casa, eu e a memória fumegante daquele momento em que olhei para o rosto de Edgard e imergi-me em sua face absurdamente perfeita ― perfeita, como um anjo, quão sinistra em sua agradabilidade, como um demônio. Não tivemos educação religiosa, vocês sabem, mas se tem alguma coisa que sei a respeito dos anjos é que alguns caíram na Terra, pelo menos dentro da mitologia cristã, e eu estou certa de que aquele homem não poderia ser humano, por vezes sei que paro para analisar hipóteses sobre a sua verdadeira origem, jamais chego à nobres conclusões.
— Está falando de mim? ― perguntei com certo fremir em meu baixo timbre. Edgard, o maldito, sorriu para ascender a sua gloriosa forma.
— Não, não, estou falando de Isabelle, mas, bem, você também beira as margens da consternação, então, posso afirmar o mesmo de você. ― Sua narrativa embrulhava meu estômago e eu tão rápido passei a sentir uma nascente gélida de suor em minha espinha dorsal. Voltei-me aos meus pertences, sem responder a Venesthron, em busca de uma garrafa de água esquecida para aliviar o que estava engasgado em minha garganta. O homem ainda me olhava, a sua desumana visão era tangível e tocava minha tez como se fosse as suas mãos galgazes.
O alívio, oh sim, o alívio da sede foi transmutado na agonia mais execrável; vocês pouco imaginariam, mesmo que suas mentes estivessem banhadas do azeite fétido do averno, ainda assim vocês não seriam suficientemente bárbaros de imaginar que aquela garrafa, naquela pequena abertura, na parte frontal da bolsa, estaria ― eu juro por tudo o que há de mais sacrossanto ― abundante no mais rubro e denso sangue, cheirando à ferro; era assim que estava, escoando como se crivada intencionalmente ― quem dera, quem dera fosse uma divagação.
Assustei-me com um furor tão descomunal que mais célere do que era possível prever, como um reflexo, um feixe de luz frenética, arremessei aquela coisa na janela e a vi espatifar... todo o sangue verteu e terrificou ao jorrar-se em nossos corpos. Fiquei atônita e imóvel; o sangue borbulhava e, como exprimir o inenarrável? Aquilo era... tão impossível..., mas ao mesmo tempo era nítido de modo intimamente infernal.
Uma eternidade de mudez pela paralisia perdurou até ouvirmos Isabelle novamente à porta, olhei-a na escuridão fugaz de minha visão estendida, provavelmente, pelo pavor. Isabelle adentrou a cabine, entregou ao homem o vinho seco e partiu. Desta vez sua feição era mais horrenda, como se ela estivesse sorumbática e fizesse, eu pressenti, o possível para não se virar para mim, portanto, não pude vê-la completamente, ela se foi mais apressada do que antes e aí está mais um sinal de que sua realidade não era a mesma que a minha e que a sua constituição não era a constituição humana. Ela simplesmente não notou o sangue e sequer questionara o estrondoso som, como pôde? Eu estava tão perturbada, posso sentir na minha língua agora enquanto discorro estas letras de infortúnio; mais do que isso, eu estava intrinsecamente inibida pelo horror, pela face do mais grotesco horror.
Mas... o sangue... Sangue? Não havia sangue, não havia água, não havia garrafa. Edgard bebia o seu vinho e olhava atentamente para mim com seu ar galanteador enquanto eu não encontrava nenhum vestígio da cena terrífica. Em um átimo... tudo se foi... nada do mórbido ebulir férreo sobre o rubro oxidante que tão há pouco fora apreendido, nada daquilo estava acessível na realidade. Eu... eu me desolei... minha alma pesou na difícil e funérea sensação de insanidade; tudo o que me faltava, pensei, era me tornar uma louca e, no íntimo mais soturno, depressiva; senti que em meus olhos as lamúrias brotariam como erva daninha e que, na relva aparada da angústia, as águas salgadas verteriam para alimentá-las e fazê-las proliferarem-se até cobrirem todo o meu corpo e me estrangular, mas eu as interrompi quando Edgard questionou-me:
— Está tudo bem? Parece assustada. Foi o que eu lhe contei? Se for, por favor, não tema, isso é tão somente uma coincidência ― alegou Edgard. Eu estava sim aterrada em pânico, no entanto fui capaz de questioná-lo ― de modo um tanto incivil, admito, o que o deixou sutilmente austero, seus ares triunfantes diminuíram, todavia eu simplesmente não sabia do que ele estava falando e a seiva do inferno respirava no meu intestino. A resposta de Edgard foi sensata e em absurda genialidade, não pelas palavras em si, mas porque o que ele dizia era irrefutável e por isso me acometeu ainda mais a sensação ordinária de ambiguidade meândrica.
“Você indagou sobre o que faço e eu lhe disse que sou escritor e lhe apresentei, em suma, um dos meus livros sobre uma mulher curiosamente chamada Íris” ― explicou. Eu não sei o que houve entre a busca por uma garrafa de água até o sutil instante não vivido de um diálogo tão perfeitamente formulado. A seiva gotejando da janela ao chão frígido ainda reluzia e cintilava como um astro no meu pensar. “Você também disse ser ilustradora” ― acrescentou. Levei minhas mãos à minha testa e tentei compreender o que acontecia, eu só podia não estar atenta aos horrores daquele momento por causa da maldita melancolia ― é isso, meus caros, a tristeza profunda, o vazio.
Que sirva de lição a todos que lerem este relato, a condição depressiva é o pior de todos os males, é como se o corpo rejeitasse quaisquer informações de caráter perigoso ou duvidoso e, portanto, não se qualificasse na tarefa de ativar seus instintos de proteção e sobrevivência; estar vulnerável ao mundo, sem filtro, sem cuidado, e com disposição contrária, é um erro, o pior de todos os erros inconscientes. Olhei para a janela de novo e pensei no cenário estendido em exagerado breu, nada além da obscura paisagem enquanto o pouco silêncio, que se propagava na cabine e acolhia-me em toda a aflição gélida, foi mais uma vez obstruído pelo meu sentir nauseante, suspirei a dor, quis me controlar, mas as grandes aguilhoadas em minha cabeça, como golpes bestiais, acometeram-me de modo inenarrável, era um tipo de enxaqueca nímia que me fez levantar e sair da cabine em busca de um banheiro que me permitisse a solidão. Levei comigo alguns de meus remédios, cujas receitas estão anexadas a esta carta para garantir-lhes que nenhum deles possuíam efeitos colaterais alucinógenos, sim elas estiveram comigo até hoje porque precisei delas muito mais, uma vez que as dores se estenderam continuamente dia após dia desde então. Não observei bem a reação de Edgard, mas, dentre as confusas e inconstantes visões causadas pelo sucessivo fechar de olhos como reflexo dos árduos espasmos, ele parecia incólume frente à minha reação febril e súbita.
Foi então que me vi no corredor, aquele corretor que outrora era magnífico e que naquele momento tornara-se análogo a uma dimensão de severo esconjuro insuportável, em certo nível de turvação eu observei as cabines pelas singelas frestas dos vidros das portas ornamentais e me vi mais do que espavorida diante daqueles corpos; as pessoas estavam apáticas, estáticas, secas e todas com um semblante de horrenda agonia; muito semelhante à Isabelle, embora cada indivíduo expressasse um suplício tão próprio. Aquele calvário insólito arrefecera-me, o abalo cerebral ainda pulsava quando me vi apressada em busca de um refúgio do cenário aziago que me vinha de encontro. E a cada passo, um agouro; e o som do trem em contínuo oscilar. Indago outra vez, seriam vocês capazes de conceber a ideia de um espaço subvertido, outrora tão admirável e então, em um átimo, um mofino átimo, integralmente enfermiço? Os rostos, os risos, as consternações mórbidas. Não era magia, não, sequer um tipo de trabalho pagão cuja oferenda era, pois, eu mesma; não, não se tratava disso, eu podia sentir por cada um dos meus cinco sentidos; era algo bem pior do que tudo o que já havia sido visto até então.
Encontrei um lavabo e fechei-me em seu antro estreito, de imediato coloquei dois comprimidos em minha boca e com a água da torneira tomei-os, mas, em desespero não a vi de imediato, só a vi quando fitei aquele espelho de moldura ornamental à minha frente, a água que eu bebia era imunda e negrume, embora de gosto neutro; ela tinha um aspecto esverdeado e nojento, sim, era como ter um pântano na língua, ó mais um pavor! Assustei-me tanto que abandonei o cubículo com mais pressa do que antes, para tentar despertar a mim mesma daquele pesadelo deletério. Quem dera fosse só um pesadelo de uma noite conturbada, quem me dera. Foi mais um daquele piscar tão singelo, a visão toldada, e eu estava de volta à cabine, não sei exatamente de que modo consegui passar pelo cemitério dos vivos, dos semblantes infelizes prostrados em perturbação e afetados na paralisia imortal de seus introspectivos desgostos, não sei como, todavia, consegui e eu estava na cabine, meu cérebro ainda pungente na agonia, e eu olhava para Edgard enquanto ele admirava um papel à sua frente, fascinado, com sua fronte em límpida formosura, tão diferente dos demais rostos enlutados na desgraça. Quis revelá-lo o meu horror por um segundo, mas esmaeci nas ondas de seu proferir.
“Está perfeito! Você é uma exímia artista!” ― Sem compreender e completamente espantada, recebi de Edgard um papel e eu o vi. Ali estava uma ilustração em grafite com o rosto de Edgard numa janela de um tipo de quarto numa casa rústica. Era uma ilustração perfeita, bem próxima as que eu fazia quando jovem ― hábito que perdi com escassez mundial de papel. “Sinto-me honrado por esse presente, mas, por favor, assine!” ― pediu. Onde estava todo o sangue e todo o horror da água negra? E os rostos e as intensas dores? Quis dizer-lhe que eu não havia desenhado aquilo, mas, a melancolia, o medo... entreguei-lhe o papel sem assinar, eu apenas queria fugir, mais uma vez fugir, fugir era a minha lei, o meu único possível, e eu pensei que estava salva quando o trem parou, havia se passado duas horas e a viagem chegou ao seu fim, não posso afirmar saber como todo aquele tempo passou, soava-me no máximo meia hora, eu não sabia se estivera mesmo em um sonho ou se tinha sido envenenada ou se algo entre o espaço-tempo trouxera a lacuna mais perturbadora de minha existência, eu não sabia e naquele momento como eu poderia saber?
“Eu... preciso ir” ― eu disse com dificuldade, Edgard apenas sorriu para mim, de novo, acenou com seu chapéu e viu-me deixar a cabine levando comigo todo aquele martírio. Eu não olhei ao redor, esbarrei naqueles corpos que se retiravam do comboio, mas eu não os fitei; fui o mais rápido que pude para fora daquele poço, mas ali eu já estava completamente submetida ao horror aspecto de Edgard Venesthron, sua imagem não esvaía, sua voz não se esquecia e se eu não estivesse tão assustada, voltaria para questioná-lo e para, estranhamente, só estar com ele. É isso que ele faz.
Cheguei até Jonathan, vocês podem imaginar o quanto fui rápida, eu queria descansar do caos que se repetia em minha psique ou, ao menos, entender um pouco de seu fundamento, algo me alertava que aquele homem quase inabitado por palavras não deveria ser real e esperei em Jonathan encontrar as respostas quais eu almejava. Lá estava ele, se preparando para deixar o ofício amado, embora provavelmente descansaria em alguns minutos e retornaria para a capital. Tão logo ao me encontrar, Jonathan questionara, solícito, sobre minha viagem e eu ainda mais inocente afirmei-lhe que o homem com o qual dividi a cabine era um tanto excêntrico. O homem qual eu dividi a cabine. Edgard Venesthron. Quem sabe alguma informação pertinente, não é mesmo? Algumas informações sobre a origem de Venesthron, porventura seu contato ou quiçá um reconhecimento singelo que me acalmasse ao afirmar, mesmo com astúcia, meu equilíbrio psíquico, entretanto, tal como eu imaginei, as expectativas caíram por terra. “Ó, não, deve haver algo errado” ― afirmou o senhor D’orvalho. “Eu a direcionei a uma cabine vazia e, pela lista de passageiros, tudo estava perfeitamente correto, era previsto que uma cabine estivesse vaga” ― declarou, eu não insisti... Edgard Venesthron... Edgard Venesthron estava lá, não pode se tratar de um delírio ― pensei ― tampouco de algum outro tipo de deslize mental, seja qual for, as cenas eram vívidas e indiscutíveis ― eu quis me convencer. Não fui capaz de indagá-lo, é verdade, sequer de dizer o nome de Edgard, pois, temi ter minha estabilidade questionada e, consequentemente, não ter mais minha estadia permitida nas vísceras de Nehen. “Minha querida Íris, vamos, venha, eu a levarei para o chalé agora, tenho pouco tempo para voltar à cidade depois disso” ― advertiu Jonathan.
Meia hora até a moradia mais afastada de Nehen. Pelo caminho aprendi que na historicidade daquele pequeno lugar-nenhum, havia, pois, uma estirpe que por séculos governou a restrita população da cidade lá no centro, onde casas populares se ergueram. Na época os chalés eram poucos, mas bem funcionais para o turismo que abençoou mesmo a população mais simples. A família-governo, aparentemente justa, sempre dividia de modo razoável todos os ganhos conseguidos com os aluguéis em temporada de inverno, de modo que todos os moradores mais simples puderam erguer seus próprios chalés e passaram a alugá-los pouco tempo depois. A população continuou morando no centro, com a fonte de renda principal vinda dos chalés e, claro, do comércio local. Embora essa história me soasse profundamente interessante, eu só conseguia pensar em Edgard, em sua face perfeita e o horror entorno de sua existência, entendo o esforço de Jonathan em entreter-me com aquelas explanações, eu quis dar-lhe atenção, mas fui incapaz.
Tão logo ao chegarmos no Chalé da família D’orvalho, percebi que havia muitos quadros antigos, pinturas clássicas de rostos e pessoas desconhecidas; segundo Jonathan aqueles eram da estirpe governante de Nehen e aquele chalé pertencera a eles até que o último herdeiro conhecido o doou, ficando apenas com o castelo das montanhas; o indivíduo faleceu ainda lá e dizem, pois, que sua alma vagante permanece nos cômodos obscuros do alcácer ― esta foi a explicação de Jonathan.
“Quem foi o último herdeiro?” ― perguntei e a sua resposta misteriosa poderia ter me atiçado a curiosidade se não fosse pelo meu estado de espírito tão débil.
“Você saberá quem é, está no belíssimo quadro fixado à parede frontal da suíte” ― explicara.
Fui deixada na casa com os quadros e os rostos, a madeira escurecida e o frio. A lareira estava acesa e eu analisei cada espaço dos cômodos de meu atual lar. Para o meu infortúnio havia mesmo uma imensa moldura no quarto e, imaginem, ela carregava o rosto de Edgard pintado em tinta óleo. Eu não dormiria naquele antro ou assassinaria aquela maldita pintura, foi o que pensei, mas aquela beleza chamava-me e observá-la era uma sede imoral que me acometia com furor, ó, e que furor! Acomodei-me na sala por um tempo, mas tão logo retornei ao quarto e por ali permaneci, com o rosto de Edgard observando-me cuidadosamente como uma negra coruja à espreita, acima dos altos galhos de um carvalho seco. Os olhos azuis, a perfeição.
Eu apenas o fitava, demorando-me a piscar, para contemplar toda a sua graça inenarrável e assim se estendia a noite lúgubre e a cada segundo eu me envolvia mais à sua simetria; foi neste contínuo admirar que um tormento se revelou em assombro perturbador, taciturno e hediondo. Levantei-me da cama com lassidão exacerbada ― com meu corpo tão ártico e minha alma dilacerada na ilusão do encanto ― e aproximei-me do quadro, sem tirar minha visão de sua inquietante sublimidade. Assim ousei tocá-lo e ao fazê-lo uma vaga sombra acomodou-se pelo quarto, sim, de modo indizível, desalumiada atmosfera; como se uma névoa alvacenta viesse devagar pelas frestas, nas janelas e portas, em quaisquer tênues lacunas. Era como se todas as luzes diminuíssem e se tornassem estranhamente rarefeitas. Toquei-lhe toda a extensão do rosto e não me apeguei ao horror de estar, pois, da mesma estatura que eu, sim, o quadro, não estava imenso como estivera se observado em distância considerável; ao me aproximar toda a sua dimensão foi afetada, era como vislumbrar Edgard em sua real constituição, bem à minha frente, separado tão somente por uma camada de óleo, pigmentos e tela.
Toda a experiência macabra do sangue e das águas negrumes e dos rostos sorumbáticos que estivera até então singularmente inexpressiva em mim ― como forma de privação do que achei ser minha loucura ―, retornou vívida quando meus níveos dedos harpejaram os lábios enrubescidos do quadro, com o cuidado de quem toca um instrumento divino pela primeira vez. Hesitei, levei minhas mãos ao meu rosto suado, a dor de cabeça volveu e eu ouvi, claro que ouvi, era a voz de Edgard vindo da biblioteca já mencionada por Jonathan antes mesmo de minha viagem. Olhei imediatamente para a porta e vislumbrei o corredor, caminhei devagar, ó como era nítida a sua voz clamando meu nome como música fúnebre; eu tive a esperança de vê-lo, uma tétrica esperança de intransigente autenticidade que posso descrever-vos como uma reza ― eu jamais havia rezado antes daquela viagem, entretanto tive de aprender e agora eu sei que me acometia, pois, uma sensação de prece ao mais bondoso de todos os deuses enquanto, no íntimo, eu almejava e esperava com afinco o perturbar do mais feral demônio.
Cheguei ao recanto, abri suavemente sua porta maciça e barroca que rangia insalubre, e adentrei. As estantes eram altas e perfeitamente arrumadas, embora com bastante poeira, senti-me instigada com o conhecimento que jazia ali, pois os títulos dos exemplares ressoavam a antiguidade de suas histórias rompendo a barreira do tempo, muito mais do que eu poderia prever. Tateei devagar cada um deles nas imensas prateleiras ― muito embora eu estivesse tensa e ainda com aquela enxaqueca dos precipícios de meu averno. Eram obras raras, percebia-se pelos títulos, muitos em latim e outras línguas quase mortas. Observei por minutos longos todos os abandonados papéis na escrivaninha também, documentos perdidos ― indaguei-me sobre quantos anos alguém não inspecionava aquele recôndito, era tão grandioso. A grandiosidade daquele lugar, entretanto, não trazia sentires fleumáticos, sua aura agoniava e minha abominação renascia das covas, reencarnado em estranheza e medo, muito mais quando os dois candeeiros próximos à escrivaninha se acenderam em chamas negras e, ainda, reluzentes, trouxeram a voz de Edgard outra vez.
Se não fosse o seu valor, para mim, tão estranhamente fascinante, eu decerto teria fugido daquele lugar no momento seguinte de sua voz ter, pois, espargido pela primeira vez na densa neblina que cobria cômodo a cômodo; ou ainda o teria feito logo ao ver o quadro na parede; contudo Edgard era fascinante, deslumbrava-me, horrorizava-me e seduzia-me. As circunstâncias favoreciam a permanência, além de meu completo abandono aos recursos primitivos de autocuidado, o feitiço daquele ser já morto ― e revivido por algum tipo de patogênica alquimia ― conseguia cativar toda a minha atenção e assim me fazer estar ali. Foi por isso que não fugi ― tal como me era ordinário fazer ― e, por consequência, as escuras chamas, em um paradoxo inconcebível, iluminaram um livro na estante e, neste livro, eu não sabia, o feitiço fúnebre habitava do mesmo modo que a tragédia e a agonia me habitavam.
A obra estava na segunda prateleira atrás da escrivaninha, era a única de capa cor gaultéria, escrito em dourado rústico. Acerquei o exemplar com todo o desvelo que a mim mesma jamais doei, sem esforço notei que meu nome era proferido bem ali, aquela era a fonte da voz de Edgard e que harmonizava com a ansiedade que me sorvia: “Íris... Íris” ao passo que segurei o livro, finalmente, muito apreensiva, e li seu título cursivo: “Minha Íris” escrito por Edgard Vanesthron, todas as agulhadas em minha fronte esvaíram como chuva de verão assim que li aquele título, e o vazio deixado pela dor ocupou-se de sua lembrança, para me oprimir silenciosamente; junto dela, uma expectativa infesta de encontrar na leitura compulsiva, sob a rédea do extraordinário, algo próximo a um vínculo sentimental, além, claro, da avidez desvelar o que havia nas páginas daquele livro e por que ele me chamava e por que encontrei Edgard ― ou o seu espírito ― em meu caminho. Pelas indagações e pela diabólica atração, decidi lê-lo, inda que debaixo da angústia que advinha da asfixia, do pesar árduo que me consumia e da afronta que me esperava, serena, para o xeque-mate.
Vislumbrei as primeiras folhas de seu interior, e admirei-me ao ter a consciência de que eu estava mesmo ludibriada, o apego na possibilidade de estar frente uma majestosa, romântica, ― e mais ainda ―, mágica e cálida história, repercutia em meu espírito sigilosamente, por conseguinte comecei a ler cada singela sílaba em voz alta e nítida, ato este que cessara sem que eu percebesse e não poderia ser diferente, toda a formosura exacerbada protege uma verdade dantesca vinda de suas entranhas e eu comecei a notá-la assim que me embrenhei na primeira estrofe. O bálsamo daquela simetria de Edgard, a ambição por seu tom, a ganância por suas retinas, a vasta relevância de seu enigma e, por fim, o meu caos afetivo, chocavam-se com a factualidade coexistencial, tão mundana, discorrida naquelas folhas cor de pólen, arfando-me frente a tal medonha malignidade.
Edgard escrevera cada coisa ― repito, cada coisa ― acontecida no período da viagem que fiz em Aecqer, acreditem ou não, estava escrito e possuía detalhes meus que nem mesmo eu poderia saber; como se não bastasse, a dissertação incluía os pormenores funestos da mente daquele sujeito ― quem me dera nunca os ter conhecido. A assustadora narração do amaldiçoado romance transtornou-me a um pânico umbrífero, paralisei, a verdade era-me intimamente aterradora, minha sepulcral condição anterior a tudo aquilo jamais seria símil à mediocridade da vulnerabilidade que compreendi estar sujeita sabe-se lá desde quando, pois, se a narração se iniciava no trem, como julgar que tais presságios terríveis não vieram de outras histórias absconsas? Quais eram as magias ocultas invocadas por Edgard? Que tipo de diabólica premonição era aquela? Sua sombra estava sobre mim e como eu me lembro... lembro-me tão bem e posso, e irei, transcrever agora até onde minha mente suportar.
“Eu estou morto ― onnomapherhesí ― todavia, pelo antro de Pherhesí, veem-me ressurgir como anima, tão consciente, como se vivo; em vida redigi a beleza execrável do que acontece ― onnomapherhesí ― no futuro, no dia vinte e três de dezembro do ano dois mil e setenta e três. Ela, de nome Íris, com agradável aspecto, está digna e pronta ― onnomapherhesí ― para os horrores que estou cometendo, a começar pela angústia lôbrega que faço jorrar aos seus lábios de sepulcral-escarlate. Eu a escolhi e ela é minha, pertence à fonte primeva de Pherhesí, esta fonte que eu sou, assim, ― onnomashryos ― por meio da permutação, fazemo-nos uno espectro das sombras de modo a germinar o primogênito do vigésimo segundo século, o século da soberania ― onnoma ehret ― de Pherhesí. Meus planos são incontáveis, minha sede é a sede de Pherhesí e eu estou em Aecqer, o comboio, e eu espero Íris pacientemente ― Aecqer phrephahen ― tenho o poder de ludibriar estes seres da terceira dimensão, pois já não faço parte dela e, mediante Pherhesí, eu sou imortal, eu ― onnomashryos ― abismo o novo mundo com o meu eterno retorno. Íris alcançara a languidez precisa para o meu desvelar como anima e, por isso, não há dúvidas de que eu a conduzo pelas palavras originárias.” ― escrevera.
Como eu gostaria de olvidar aquilo tudo. Cada frase daquela primeira estrofe ressoava em meus ouvidos, minha voz não tinha vigor algum para ler, mas o quadro lia, ó sim, mesmo estático, mesmo no quarto, mesmo distante, ele lia ao pé de meu ouvido, tão limítrofe à minha cerviz com sua névoa agora opaca a incensar o ambiente de madeira; o seu vil poder fulgurava e eu, apenas e por demais, lia. Nenhum tipo de oxigênio parecia ser capaz de alcançar meus pulmões, tudo isso no parágrafo exordial; meus olhos, no entanto, transitaram frenéticos na alínea seguinte e eu não pude contê-los. Compreendam que a dificuldade de transcrever a memória tão estável daquelas páginas crescera, pois agora absorvo Edgard se aproximando de mim outra vez, posso assimilar sua presença prestímana como há tempos não apreendia e, por isso, minha dúvida a respeito de conseguir continuar a redigir esta missiva arde bem mais do que outrora, arde tanto que já não durmo porque eu sei, ele estará lá para me aprisionar. Tenho certeza de que as palavras ― as malditas palavras impronunciáveis e repetitivas ― são a razão do que agora me acomete, deste intrínseco desespero, desta medonha sensação de companhia. Sempre que penso naquelas palavras, uma consumição emerge insípida e se demora a esvair; não seria diferente agora em que as escrevo, aliás, talvez por escrevê-las, tenham mais poder sobre mim.
“Quão bela, minha bela, minha Íris; sinto seu choro, ouço o seu pesar; cada passo seu conta-me um desespero singular que traz cálido conforto ao predomínio de Pherhesí. Quando o corpo de Íris adentra a cabine de Aecqer, eu vislumbro a sua sujeição ― onnomashryos onnomapherhesí ―; profiro seu nome para deixá-la perturbada e ela está perturbada tal como aprecio, possuída de uma soturnidade nímia cujo perfume declina-me ao fogo do inferno profano. Seus pensamentos são estes ― onnomapherhesí ― de angústia e incerteza: “Jonathan dissera-me a respeito deste homem? Que beleza estupidamente fascinante! Estes olhos, parece que posso fitá-lo pela eternidade.”; assim ela se senta e promove cada um de seus questionamentos ao obscuro de sua melancolia, é assim que eu a quero e por isso é assim que acontece, mesmo no furor de sua razão, toda a autopreservação há tempos lhe foi tirada, para ser digna e estar pronta ― onnomashryos onnomapherhesí.
Apresento-me, embora todo o seu corpo já me reconheça; ela sorri no embaraço de seu incômodo ardiloso. Isabelle surge, tal como previ, para trazer-me um pouco de vinho; nada disso é real, mas sei que envolve Íris de modo a apaziguá-la para o que há de vir, seu desconforto é a minha morada, de fato, e traz as pujanças cruciais para o efetivar da primeira das suaves ilusões que tramei há muitos anos, desde quando sua elementar treva formou-se no cerne da sua desgraça, eu poderia achegar-me na realidade tangível que a cinge sem os jogos quais aprecio, mas sou em demasia admirador da beleza fúnebre, por isso oscilo a serenidade com o pavor, o horror com a angústia, a agonia com a quietude, ó quão aprazível. Aqui está, minha Íris, em busca de alívio, vejo-a e faço a minha seiva viva em suas mãos, a reação de seu rosto tristonho, ó, tão delicada, tão deslumbrante lutuosa constituição, transforma-se em pavor atônito partindo de uma reação súbita. O sangue que ferve tão logo se orvalha sobre nós, admiro-a na repugnância e ascendo o poder de sohmphorhen”.
Devorei suas palavras como um demônio devora um ser vulnerável, como Edgard devorara-me e devora novamente pelo seu retorno hediondo. Sinto-me nas anuviadas ojerizas, possuída de fraqueza e aversão. Acreditem, o que li perfurou-me tão inerente que, como posso explicar, toda a índole lúbrica, a feição mortífera, o traço indigno comprimiam meus órgãos e impediam-me de sustentar vida. Estava, igualmente, cada vez mais árduo sustentar o corpo; as minhas pernas trepidavam tal como minhas mãos vibravam, todo o meu equilíbrio se desestabilizava e meus sentidos alçavam cumes opostos, de minuto a minuto; eu era capaz de ouvir o crepitar da lenha na sala e a efemeridade das percepções queimavam no meu calvário. Eu gostaria de ainda ter aquele livro e eu o teria em minhas mãos se não fosse pela fúria de queimá-lo, instigada pelo crepitar, na busca pela sanidade e pelo aprumo, apenas queimá-lo e assim vê-lo desfazer-se na magia tétrica das chamas umbrosas. Demorara a, para a minha infelicidade, advir este esforço de coragem, uma ou, quiçá, sete mil eternidades ― assim soava para mim, pois o afã, ah, o afã em ler as palavras daquele ser inumano, o afã era o flúmen das veias minhas, a torrente de minha paixão inconcepta e de minha aversão conjecturável. Se não fosse tal híbrido afã ― não importa, essa é a verdade, sem a avidez ou com ela, o destino seria o mesmo, minha via-crúcis esteve sempre consumada.
“Íris, ó, minha Íris, tão estática, aproximo-me de seu corpo e perfuro o portal para o seu espírito, delicadamente, seu eflúvio é agradável e quente; introduzo ali, em êxtase, a minha figura pelo fragmento de minha alma; minha infeliz adorável se assusta e está mais pálida, contudo ainda imóvel pelo pavor, porque o poder de sohmphorhen faz ― onnomapherhesí ― conservar-se a condição inerte de minha desventurada e de todos os pobres infelizes que estão sob o controle pérfido e magnífico de Pherhesí. Ssahmqenehr, Ssahmqenehr Pherhesí, seu poder conduz a humanidade através do espelho de mim sobre o corpo de Íris e sobre o ser do primogênito; tudo o que desvelei e desvelo de sua consciência é a chave etérea, ó Ssahmqenehr Pherhesí, crio mundos com o seu poder, destruo dimensões que se negarem a perpassar a sua grandiosidade ― onnoma ehret. Agora em minhas mãos está Íris, sorrio porque isso a amedronta, a noite é obscura, pois esta é a reação universal diante Pherhesí, o fundamento responde ao poder do fundamento quando este é exposto pela fundação; a criatura é maior agora, e está acima do criador. ― Escute, minha Íris, na eternidade de sua subjugação, retirarei o único fragmento de júbilo que descansa em sua alma, retirarei através de seus olhos pulcros ― digo-lhe, suas lágrimas esvaem em pavor; sorvo-a e sua feição se torna fantasmagórica, sorvo-a pois que foi essa a minha atração desde o princípio, a troca de almas, a eternidade em lembrança e melancolia; neste plano eu a destruo devagar para que refulja sempre e tão somente o seu merencório ser, para a efetivação do perfeito devir do primogênito”.
Porventura haja uma desconfiança, eu sei, estes relatos seriam mesmo reais? Sem o livro de Edgard, provar sua existência é laborioso, mas, tenham certeza de que nada disso viera de uma criatividade bestial, reviver verso por verso, eternizando-os na escrita outra vez tem me destruído, minhas crises pioraram, as paralisias se estendem a pequenos comas obscuros; foram duas paradas respiratórias nos últimos dois dias, está tudo relatado e a tudo isso vocês terão acesso, esteja eu viva ou não. Sabe, reside em minha natureza um imensurável medo de morrer, desde que vi e li Edgard, a morte é o palco de meu drama e, jamais, as cortinas; será que encontrarei ele, o escritor, em algum outro lugar além? Sinto que sim, algum outro lugar além de minha própria alma. Edgard espera-me e eu temo, porém, entrego-me, porque não há circunstâncias suficientemente nobres que signifiquem a vida para mim, ele tirou tudo, toda a ledice, toda a esperança; era mesmo demasiado raro eu ter um momento de prazer, agora é apenas impossível.
“Ordeno a vinda de Isabelle, a alma vagante que encontrei ao vagar minha própria alma jamais desvinculada do que foi, em vida, redigido por meio de Pherhesí. Denomino-a Isabelle para fazê-la real, nomear energias perdidas, eis um inquestionável fato, enleia-as àquele qual as nomearam. Portanto posso moldar, e moldo, a face de Isabelle no horror que me convém, seu corpo é também a minha criação desde que proferi: ‘sehsqor phrephahen’, e sua estrutura humana instituiu-se. Ela adentra para quebrantar a híbrida realidade que transmutei, para abrandar a paralisia sublime de sohmphorhen e trazer meu ilusório líquido. Ordeno que se achegue disposta, sempre apaixonada, e assim apreendo as nuances do encanto de Íris por mim. Íris está no êxtase da melancolia, o apagar da chama frágil de sua alacridade demonstra o efeito esperado, além disso, está estarrecida e confusa com a ausência de todos os elementos sanguinolentos que ludibriei para terrificá-la, é assim que deve ser; digo-lhe sobre nosso diálogo jamais existido, pois não é preciso haver, de fato, já que sei tudo sobre Íris e a manipulo devagar, conforme sua abertura natural chama por mim; sinto-a mais intricada, tanto que suas dores floreiam tal como previ ― suas dores indicam o efeito de estar, pois, em elo com o que está do outro lado, isto é, comigo. Ah, o outro lado, a morada de todos no pós-vida, somente eu, contudo, sou capaz de fazer o que almejo neste lugar-nenhum, só eu possuo Pherhesí. Íris guardará um abismo, assim a preparo, este abismo a deixará no futuro para o vir a ser do primogênito, no entanto, ela jamais se esquecerá deste abismo, pois ele sou eu; hoje ouve minha voz e vê minha face e se deleita e se terrifica, amanhã há de odiar e amar a lembrança.”
Mas há muito, há muito o que vos segredar ― que naquela noite eu desvaneci na agonia mais pútrida, sim, dentro do silêncio mais violento e sem saber como respirar, ó sim, decerto pela alma de Edgard em meu âmago eu fui afetada; ele sabia tudo o que fiz e deve saber o que faço, ele escreve-me desde então, e talvez guie assim minhas próprias ações. Não sei quantas noites passei imersa naquela atrocidade inenarrável, e a escuridão sombria aos olhos vinha como lapsos de imobilidade e tempo, semelhantes ao que acontecera no trem, cenas de indescritível aflição de minhas próprias mãos contra meu próprio corpo, tudo tão frequente e febril, como se eu tentasse destruir tudo o que Edgard penetrara em meu espírito; assim não vi brilhar dia algum; todo o tempo estive com cada uma de suas frases que li se repetindo como um sempiterno sino de mortuário, em especial aquelas que estruturavam a última estrofe que fui capaz de ler; aquela hediondez que no mais inconsciente de mim, eu sei, compreendi, pois foram elas que me levaram à fúria.
“Há de beber sempre este meu dissabor ― eu digo ao vê-la de joelhos com suas escleras fulgurantes enquanto me ilustra com seu grafite a cena que há de se repetir para sempre em seus pesadelos ― abri-lhe os lábios trêmulos e dei-lhe o licor do infortúnio, da blasfêmia, do mais horrífico vazio perturbador que eu sou; e ela bebeu, sua ébria mente tornou-se ainda mais sã sobre sua absurda desolação; agora cada noite mais escura ser-lhe-á e sendo mais escura, há de verter-lhe a solidão e o desconsolo, prostrada ao soturno que eu sou, e ela assina seu eviterno elo comigo, porque toma agora minha essência desta fonte primeva, e ergue-nos ao novo gênesis de um nascimento. Toco-lhe o rosto frígido ― Você pertence ao meu aflito pranto agora, às minhas trevas e à minha atra luz, e chamarás, pela eternidade, o nome de meu fundamento, para que eu lhe afogue no mais côncavo de meu oceano elegíaco e guie todos os seus rumos. O primogênito há de tomar o meu reino e abrir as portas dos últimos abismos ― sussurro-lhe e preceituo, ela obedece e diz, para manar-lhe, por fim, toda a nequícia cruciante: Srhyos ― ela diz por que há de sempre dizer ― Srhyos.”
Não sei bem quando fui encontrada, mas eu estava franzina, violácea e sem forças, em meio à branquidão, e só sei disso porque os médicos me revelaram. Fui levada às pressas para o hospital por um lenhador e permaneci desde então entre o horror da lembrança e a vida que perdi, e como perdi, mais inacreditável do que vocês possam devanear, eu fiquei um ano desaparecida. Do dia que narrei em perfeição de detalhes, vinte e três de dezembro de dois mil e setenta e três, ao dia vinte três de dezembro de dois mil e setenta e quatro. Um ano de fragmentos. A maldição e meu martírio são infinitos; desnutrida, fantasmagórica e sozinha, após ondas bárbaras de demência ― só podia ser loucura, não é?
A perturbação do mais hediondo, a tortura da não-morte e do não-morrer, tudo era minha insânia, eis a resposta do mundo, insânia, nada além dela, alienação e desatino, mesmo que as cenas ditem o contrário e revelam minha luta para sobreviver naquele lugar. Pouco depois de me ver no hospital, consciente, um escândalo floresceu no meu imo, o caos por uma busca: o bebê. Sim, eu só conseguia vociferar sobre o bebê, eu o resgatei na lembrança das cenas vividas naquele ano extraviado e que me vinham em clarões, como reminiscências de um sonho. Doutora Paole contara-me com uma delicadeza indizível: “Os exames revelam uma gravidez, mas, infelizmente, você estava sozinha quando foi encontrada”. Foi entre os pinheiros densos das cordilheiras de Ahvalanch que sangrei, mas não morri, por uma fuga em busca de salvação e, sim, a morte daquele ser vindo de uma imunda concepção de almas, apenas almas, quão horrífico! Não sei como, dei-lhe à luz na neve esquálida e o perdi para a escuridão.
Fui encaminhada para o hospício porque as paralisias traziam sempre alucinações e eu, como um explosivo, buscava a morte súbita ― não queiram conceber a ideia de um eterno nascimento maldito em seu útero, dia após dia. Permaneço aqui porque é preciso... eu sei, eu sei que deveria lutar para defender minha sanidade e talvez retornar àquela mansão tétrica e encontrar aquela criança... eu sei. Mas a confusão que me toma é o maior obstáculo e as crises são nefandas, eu não compreendo o porquê de tudo isso e sei que não hei de compreender, talvez se eu tivesse lido o livro até o fim, para saber meu exício e o começo da vida da criança, talvez. Eu nunca fui uma heroína, eu sinto muito, sou o soturno medo, dominada pelas lembranças, refém de palavras impronunciáveis; eu sou o fundo de um abismo sem fim. Quando miro esta minha face apavorada e aponto a mim mesma a possibilidade de eu ser só mais uma pobre sujeita acometida de patologias mentais, logo me lembro, as cenas, os clarões, as sensações, as emoções, a luta, o bebê, os olhos de Edgard, o licor, o sangue. Não é, não, não é uma desordem da minha psique, eu estava lá e eu sei o que eu vivi.
Eu também sei que sou menos desgraçada por não ter total consciência de cada vivência naquele lugar que não era o chalé, ó não, pois ainda no dia de minha chegada, após a leitura daquele livro ominoso, eu saí transtornada em meu delírio para o meio da nevasca e andei longas horas até encontrar aquele castelo. O Castelo de Venesthron. Seria impossível se o impossível não caísse por terra desde o dia nefando, o dia vinte e três. Ainda tenho minha razão questionada, em qualquer instância, por todos ao redor mesmo depois de tantos anos, eu menti minha identidade para preservar cada pessoa que um dia conheci, pois decerto morreriam de desgosto se soubessem, pois que ouviriam as más línguas que acreditam que eu fui para as cordilheiras para matar aquele pobre recém-nascido e o abandonei no manto do arvoredo; isto não é verdade, não era um pobre ser, era o ser concebido pelo diabo, pelo horrífico, o ser que decerto está por detrás do caos dos nossos dias, da névoa que esparge sempre às dezoito horas e do sol que já não brilha como antes, a ele pertence toda a culpa, que estejam cientes e em alerta, pois se aquela coisa veio a ser de dentro de mim e sumiu naquela escuridão gélida, decerto está viva e abre, desde então, os portais do inferno.2
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 11: Pecado... — Rubi Áurea
Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Símil a um olho, o obscuro pingente reluzia. A lótus negra decerto significava meu ainda existente vínculo com o Oráculo, como os sigilos no pulso, entretanto, eu não sabia o porquê, tampouco como aquilo se manifestaria. Por instantes pensei, ofuscada em mim, sob o mortal silêncio daquela estranha natureza... que a solidão, por muito rejeitada, talvez fosse a mais honesta escolha. Nunca estive só, eu pensava, desde que respirei sob a umidade do Castelo. Havia a criatura em meu cerne... sim... eu não a culpava ou a considerava odiosa... porém, era algo em mim que não deveria residir em minh'alma — eu nem sabia onde ela estava... no ser... no inconsciente... nas entranhas...
E, de repente, estive nos braços de Lëvri... e, então, selei um pacto com Lahgura... como se não bastasse... veio-me Seth... e outros que encontrei por tais tortuosas veredas. E, ainda, os medos que sempre me acompanhavam como vultos em vigia. A condição de solidão esteve sempre contígua mesmo sob tal verdade inabalável — fazia-me pensar que se é para tê-la, independente daqueles ao meu redor, então que seja na totalidade, sozinha e a sós, sentindo e vivenciando a solidão. Lembrava-me que, com Lëvri, por átomos de tempo, afastara-se este exílio impertinente e ínfimo e tão... tão amargo..., mas... um poço de mágoa se estendia... tudo mudou sobre Lëvri... como se a intensa paixão fosse nada além de uma ilusão lunar...
As minhas rubras íris, no reflexo daquelas águas, entristeciam-se. Eu esperava mais da vida logo que despertei, mesmo cingida por nada além de hialina reminiscência. Eu não sabia o que sentir sobre as vivências desde então, era como não pertencer a si mesma... atrelei isso à ausência das memórias, embora nada mudasse a cada relembrar... Antes, porém, que eu pudesse extrair alguma compreensão do mais medonho oceano que estava, no meu cerne, cada vez mais revolto, eu vi outro alguém refletido nas águas da fonte, logo atrás de mim. Respirei fundo... era Seth...
— O que tu queres? — Indaguei, irresignada. Seth sentou-se ao meu lado na fonte. Mantive-me olhando as águas, movimentando-as com a lentidão de mil noites. As dunas do plácido intermúndio que eu almejava eram, na verdade, cada grão de areia, um incômodo. Uma flor, então, desvelou-se à minha visão. Era inenarrável... Símil às dálias, tão leve e suave... com pétalas em voluta, formando um redemoinho escarlate; o vento ali já agitado, abriam-nas com um sopro contínuo. Resplandeciam em um negror-etéreo, com nuances carmesins, como se a noite tivesse derramado nela seu próprio sangue. No âmago daquelas pétalas, havia infinitesimais veias que pulsavam de forma quase imperceptível, como se a espécie tivesse um arcano coração, palpitando lento e sutil.
Seu aroma, um mistério adocicado e quente, invadiu-me os sentidos, evocando abstrações sentimentais que eu desconhecia possuir, arrancadas do meu mais merencório oblívio. Os espinhos grandes, como nas rosas selvagens, eriçavam-se agressivamente, curvado para cima, protegendo-a dos toques indignos, em uma beleza que se declarava proibida. O caule, negro como carvão polido, era robusto e sinuoso, morno ao toque, quase aquecido ao tom de uma tez, como se moldado na escuridão nociva do mármore negro das bordas do rio de lava, no inferno.
Ó, pulcritude absurda! Nunca vi espécie de tamanha perfeição. Era tão majestosa e tão estranha em sua beleza lúgubre, que trouxe às janelas de minh’alma um lacrimar vestal, embaçando-me a visão. A luz ao derredor minimizara drasticamente, era como estar apenas, sob minha presença, a flor e, sob a presença dela, eu; nada mais, nem o tempo, nem o dia ou a noite. E nenhum astro na imensidão. Minhas mãos tremiam, tocadas pela solenidade desse presente impensável, enquanto eu a segurava cuidadosamente, sentindo sua lanugem e a textura sedosa das pétalas.
Olhei para Seth, estava tudo tão escuro... meus olhos, tomados por uma emoção ambígua, entre gratidão e mágoa, contornavam meu semblante aflito. Seth era tão familiar... tão desconhecido...
— A nutrúrnia prometida... — Disse com sua voz abíssica. Fazia tempo que eu não o ouvia. Seus dedos tocaram a lágrima que vertia pelo meu rosto e eu o fitei, com mais rancor.
— Bela na pureza de sua constituição... tão doloroso e pungente, no entanto, é sê-la, pois, tudo o que é vestal trava encontro com a mentira e a traição... profanando a inocência... — Proferi, sem deixar de fitá-lo. Sei que minha face transbordava em amargura. Ele respirou fundo.
— Por que proferes tamanha complexidade? Se tens algo a me dizer, então diga.
— Sim, eu tenho... — Estava profundamente, cada vez mais, escuro ao redor. — Tua traição, tuas mentiras... um grandioso protetor tu és, eu já disse n’um outrora não tão longínquo... tu és capaz de enganar e trair a tua protegida...
— Do que... — Ele parecia confuso, mas eu sentia que tudo era um disfarce.
— Cinismo agora não! — Interrompi com a voz elevada. — Já basta, Seth. Tentaste colocar a criatura mítica como uma dupla personalidade que busca me fazer mal, como se eu tivesse um transtorno psíquico. Não ias me revelar sobre o que ocorria quando ela assumia minha consciência... o que mais tens escondido, demônio? — Ares superiores curvaram seu rosto.
— Demônio, sim... e, como tal, não tenho os mesmos princípios morais que um humano. Faço tudo para proteger a tua existência, se isso inclui mentir, será feito; não há maldade em mim, muito menos bondade... — Respondeu. Mais respirações profundas, silêncios sob o véu do vento intenso e cicioso. A feição de Seth se amainou no tempo silente. — Sentes minha falta, Aessatt? — Ele segurou-me em meu maxilar. — A criatura do teu âmago, não me permite mais possuir... possuir o teu corpo... Ela quebra nosso elo... incapacitando-me de saber onde tu estás e quando precisas de mim... Isso está me enlouquecendo...
— Dizes, então, que estás além do bem e do mau? Dizes que Corphidrae está expulsando-te e digo, pois, que a razão é o saber que ela possui sobre a tua maldade! — Argumentei após retirar suas mãos de mim. Eu não queria seu cálido toque, já muito me bastava ter de fitar seus olhos tão azuis...
— Sim, estou além do bem e do mal... eu não sou humano, Áurea. E Corphidrae também não é. Como um animal, ela apenas mantém protegido o seu território.
— Então... parece que já tenho uma protetora. Pode ir embora, Seth. — O silêncio voltou... e criou imensurável barreira entre nós. Seth ainda me olhava, entretanto, uma tênue tristura se espelhava em sua fisionomia.
— Não sentes... nenhum afeto por mim? — Murmurou, baixo e grave. Eu não esperava tal indagação, portanto, não sabia como respondê-la.
— Qual é o valor do afeto para um demônio além do bem e do mal? — Embarguei...
— Decerto muito maior do que para um humano... — Desviou seus olhos de mim, fitando o horizonte quase impossível de enxergar.
— Esperas algo de mim, Seth? Que eu lhe diga apreciar tua companhia desde o primeiro momento? Enquanto sinto tanto por tuas enganações... a rispidez do teu sarcasmo... sempre vieste a mim como bênção e como maldição.
— E sou aquele que está aqui. — Seth aproximou-se, pegando em meu rosto com suas mãos. — Eu estou aqui, Áurea, eu estou aqui... Estou buscando por ti, estou protegendo-te em teu âmago ou fora dele... usurpei uma nutrúrnia para o teu bel prazer, com um inominável risco à espreita... — Senti-o acariciar meu torso, próximo ao meu coração pulsante. — Questionas minha moral... minhas mentiras... entretanto, em nome de tuas memórias, compactuas com entidades traiçoeiras... desenvolves laços com oráculos hostis, sempre em busca do que tu eras... enquanto eu... estou em teu presente... no aqui e no agora... construindo ao teu lado uma nova história que se perde no teu saudosismo... — Seth acariciou meus cabelos. — Desejo a Áurea que vejo e não aquela que um dia existiu... nem mesmo tu, Áurea, deseja a Áurea d’este momento... sempre sondando quem ela era... e quem ela há de ser...
— Quem tu és sem as tuas memórias, Seth?
— Lembra-te quando despertaras? Quando me viste em Séttimor... e quando me desejaste... na biblioteca... ou quando te salvei naquela adega sombria...? — Eu lembrava, contudo, mantive-me silenciada. Seth levantou-me e segurou minha cintura, colocando meu corpo contra o seu no centro daquela escuridão. — Tem algum valor em tais memórias para ti? — Aproximou-se, beijando meu rosto, devagar...
— Eu... — Hesitei. Era difícil resistir... Seth me envolvia tanto... e eu sentia que ele tinha razão, pois, seus argumentos me mostravam que eu não dava valor ao que o despertar n’esta existência, em tal Castelo, proporcionava... pouco a mim valia tudo o que havia ao meu redor, pois eu precisava de minhas memórias, sem elas eu me sentia incompleta. Por outro lado, Seth criou memórias ao meu lado e esteve próximo, fazendo o que lhe era possível... sendo quem ele poderia ser... e, talvez, de todos os horrores, de todas as inverdades... desde Lëvri até Lahgura... ou mesmo o preço que devo ter pagado pelas previsões do Oráculo... havia manipulação em tudo... todos... eram enganações perpétuas... lâminas cortantes, translúcidas, abscindindo meu coração.
— O Corvo Esfaqueado: Invertida... eu sei que é sobre ti... — Murmurei.
— Queres crer em teu oráculo... eu compreendo... mesmo havendo Monm te alertado sobre os perigos... — Seth estava tão perto... eu sentia seu hálito quente...
— Tu esteves lá... — Lamurei já enlevada...
— Sim... preso pela Corphidrae, digno apenas de observar e temer... — Seth apertou-me a cintura, beijou o canto de meus lábios quando sua mão direita guiava minha nuca.
— Ah... o teu perfume mescla-se à nutrúrnia... — Sussurrou, beijando-me o pescoço; minha tez arrepiara e senti medo. — Um bálsamo ardente... almiscarado e doce...
— Eu não... eu não sei... — Tentei dizer algo que sequer sabia... balbuciando palavras em busca de alguma lídima racionalidade.
— Ah... mas eu sei... — A mão de Seth conduziu-se aos meus cabelos... — Eu sei... — Seus lábios tocaram nos meus... Seth era ardente, parecia possuir uma temperatura verdadeiramente mais elevada que a de qualquer outro corpo.
“Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss ssaeiva enssnura, ssaeiva enssnura voluass.” — Ouvi, não vinha de Seth, mas a voz amedrontadora estava nele; meus olhos que outrora se fecharam pelo que emergia em meu imo, abriram-se assustados.
— O que é isso? De quem é essa voz? Seth? — Ele me olhou, seus olhos brilhavam como fogo e sua respiração era ofegante...
— Hum...Tu ouviste...
— Sim! E não é a primeira vez! — Seth levou as mãos à sua cabeça, parecia transtornado. N’um impulso, pegou a flor do inferno e logo voltou-se a mim, puxando meu corpo contra o seu com mais força. Seu beijo, n’este instante, tornou-se voraz, intenso e promíscuo. Segurava-me os cabelos, a cintura, levando-me a caminhar para onde eu não via. Caímos em um monte de folhas secas, ao que parecia, ainda no jardim; mas tudo se mantinha muito escuro.
“Sseri morttiss ssamor ssinnihcuoss emtriss humaniss, esspussess erebriss daemoniss.” — Ouvi outra vez e tremi, em medo irrompente. Seth beijou meus seios, abrindo meu vestido... meu oceano íntimo desaguou por volúpia no instante em que o medo aflorou ainda mais em minha tez.
— Áurea... pulso tanto... por ti... — Murmuraram as sete vozes do abismo, ascendendo-me mais ao temor e ao prazer.
“Inuoss ssor Lussifferr!” — ouvi, mais alto, mais horrendo e austero. Meus olhos lacrimejaram de pavor dilacerante. Seth agitou sua cabeça, como se tentasse afastar o que ouvia.
— Seth... isso... estou amedrontada... — Confessei.
— Eu sei... — Disseram as sete vozes do abismo. Desde aquele momento anterior, Seth só se comunicava com elas. Era como o eco de sua própria voz, sete vezes se repetindo, um eco profuso e tétrico. — Eu sinto o teu medo... e também sinto o teu desejo... e quero sentir a tua boca... — Fui levada, ainda sendo segurada pelos cabelos, a ficar sobre o peito de Seth. Dominados pelo breu absoluto, eu mal podia enxergá-lo, pois, sempre que a luz adentrava ao derredor, pouco depois era consumida na escuridão. Ainda que privada de visão em razão d’esta estranha manifestação que pensei se tratar advir de Seth, as trevas pareciam nos proteger na intimidade apavorante. — Sinta o meu verdadeiro inferno... — Seth murmurou e levou meu rosto à tua plenitúrgida intimidade... abri meus lábios, um instinto perverso que não era meu, mas vinha de mim. “Abnaesss! Sserpen! Abnaesss!” — ouvi, o maldito som da voz, pior que a de Seth; o medo me consumia violento.
As mãos dele ordenavam minha cabeça, forçando-a contra seu membro que eu sorvia e me engasgava. Era tão quente... tão errado... de sabor sedutor... aroma viril... olhei para sua face de regozijo. Eu o desejava e senti-me profundamente envergonhada por isso. Eu não conseguia compreender. Seth me puxou para seu peito outra vez, e logo se colocou sobre mim, beijando-me e beijando mais. Senti-o subir meu vestido, tocando minhas pernas. Arrepiava a minha pele, em profundo temor e volúpia. Então... tocou o cimo de minha vulva, quente e, naquele momento, inundado por minha saliva. E lentamente foi se penetrando... devagar... bem devagar... seus olhos queimavam, assim, de forma literal havia fogo em suas retinas... e seu membro, se entrando em minha arculva, pronta para envolvê-lo... abraçá-lo... e tão pulsante, ele e eu... “Ssattaessatt erebriss esspussess daemoniss” — tremulei e vibrei.
Ainda cingida pela aflição do medo, entretanto, muito mais pelo deleite. Assim que o membro de Seth se escondeu em mim, tocando-me o ventre; seu ritmo ascendeu rápido, tanto quanto a exultação. E seus movimentos, entrando e saindo do meu íntimo, como um animal, gemendo e lamuriando demoníaco, faziam-me curvar meu corpo, enquanto suas mãos apertavam-me a cintura e as costas; minhas unhas cravavam-se novamente, agora por outras razões, em seu dorso, relembrando de nosso recente confronto.
— Ah... isso... ah... mais... mais... — Eu o ouvi, entre nossos gemidos e o terror. Eu estava descontrolada... perdida... minha cabeça volvia e volvia, embriagada, extasiada... e ele... dentro de mim... tão intenso... tão sensível... minha respiração completamente desorientada. Sua pele em minha carne... rígido, forte, deslizante... Eu sentia uma energia bizarra extraída do corpo de Seth e penetrando meu ventre, subindo pelos meus órgãos vitais. — Ah... ttssorr... — Ele dizia, tomado pela insanidade... eu sequer sabia o que aquilo significava... e cada vez mais agressivo, teso... obsceno em mim.
Naquele instante, vi minhas marcas em seu pescoço... vi suas veias... belíssimas... qual era a cor de seu sangue? Eu não me lembrava... segurei seu pescoço... cravei-lhe meus dentes e o ouvi ranger de dor. O sangue dele tocou minha língua como uma febre causada pela peste mais horrenda, como lava me queimou, ardeu! Tinha o sabor de um pecado oculto em veludo escarlate... era picante como uma planta maldita, amargo como vinho seco guardado há eras sob as colunas de mármore negro do inferno. E, no fundo, uma nota de morte... e o gosto de promessas quebradas, de mentiras seladas na dor e no prazer. Gota a gota... inundando-me os lábios e a garganta...
O sangue de Seth não alimentava — ele incendiava. Despertava. Corrompia e elevava ao mesmo tempo. Estava acima do sangue humano: não era vida, era poder. E, ao consumi-lo, minha alma sibilou: “sserssattua” — o significado era evidente à minha consciência: “pecado”. Seth me retirou do meu delírio ao ouvir-me, o seu sangue escorreu, pingando sobre meus seios. Ele segurou meu rosto; fitou-me com um sorriso mórbido. Suávamos tanto... e após sorvê-lo, eu me sentia mais tórrida...
— Perssattua ssorn aessatt... — murmurou. “Minha possuída... para sempre” significava. Contrações intensas em todos os meus músculos, um orgasmo súbito me governara. Arranhei o torso de Seth. Ele se abaixou, sussurrando em meu ouvido. — Sinta... — Eu queria mais. Puxei-o, pelo lado esquerdo, e cravei meus dentes no outro lado de seu pescoço; sorvi... deliciosamente... e tão logo enquanto sorvia, eu o senti tremer muito... bradar um prazer inumano... e o seu liquor demoníaco e fértil, banhou-me como uma onda obscura do oceano azul-gris. Seth vociferou horrores na língua dos demônios, parecia enfraquecido de tanto que fora sorvido por mim, e eu não parava. Novamente fui empurrada por ele; afastando-me de seu pescoço. Ele estava muito fraco. Prostrou-se ao meu lado, incapaz de se levantar... parecia dizer algo, mas eu não o ouvia bem... seu corpo começou a queimar como papel, algo nunca visto por mim, entretanto, meus sentidos estavam aguçados para tudo, eu podia enxergar em toda aquela escuridão e entendia que Seth estava indo para o inferno.
A nutrúrnia, por sua vez, também estava diferente, caída ao nosso lado, parecia mais viva... e eu podia ouvi-la sussurrar o ininteligível, como um canto feminino sôfrego. Em minhas pernas escorria um líquido denso, eu estava nua e tudo era preto e vermelho. Peguei a flor, fechando-a na palma de minha mão, de modo célere, fui ferida pelos espinhos; eu não me importava, pois, estava em uma afrodisíaca overdose. Finquei o caule da nutrúrnia em meu peito... sim... e senti profundo enlevo arrebatador, como doses absurdas de dopamina... eu senti... muito além da dor estarrecedora. Caminhei, cheia do poder demoníaco... e o desejo sexual ainda aflorado... meus passos na escuridão... uma escuridão que pertencia a mim... sozinha... imunda de sêmen... manchada de pecado.
Eu compreendi muitas coisas... sorver o sangue de Seth me fez uma daemoniss, em alguma instância... em alguma profundidade. Compreendi que a nutrúrnia consumia toda a luz ao seu redor, tornando qualquer pálido lume em um ponto opaco no breu absoluto. Compreendi que sua seiva causava o mesmo êxtase que o sangue de Seth, se sorvida... e que, regada de sangue e luz, ela propagava sua escuridão onde apenas os daemoniss eram capazes de enxergar. Compreendi o idioma de Lussifferr, entendi que ele alertava Seth a todo o instante, com sua voz de imponente horror, dizendo que o expulsaria do inferno se ele ousasse possuir uma humana..., mas eu... eu não me sentia humana... era, mesmo assim, vista como uma.
Eu tinha o poder de Seth... e apesar disso... apesar do que veio de encontro ao meu entendimento e apesar do intenso desejo, mesmo após o sexo... eu me sentia constrangida e uma intuição insistia em revelar que a solidão ainda era real, obstinava-se em me alertar que a paixão por Seth era hostil. Eu o vi abrasar e sumir... debilitado e... eu pensava nele. Voltei ao meu aposento e fiquei imersa nas águas frias de uma banheira de porcelana... impassível diante de meu próprio pecado... enquanto a nutrúrnia permanecia fincada, sem permitir esvair uma única gota do meu sangue. Eu via seu caule detrás de minha tez... respirar estava difícil...
E a estranheza tinha uma presença própria, quase tátil... ela se disseminava no calvário de um sentimento mofino que me pertencia tanto. Eu... eu sentia que era uma traidora... era isso... eu sentia que havia traído Lorrt, mesmo sem amá-lo como um dia amei.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Olho e a Consciência: Uma Leitura Fenomenológica de O Coração Delator, de Edgar Allan Poe
Edgar Allan Poe não foi apenas o Mestre da Literatura Gótica…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Edgar Allan Poe não foi apenas o Mestre da Literatura Gótica; foi também, talvez sem intenção filosófica explícita, um desbravador abissal da alma humana. Em suas obras, nas entrelinhas e no subsolo de suas narrativas, pulsa um olhar que vasculha a consciência — como quem, com uma vela trêmula, desce às criptas do próprio ser. Poe não apenas construiu atmosferas de terror, ele investigou — com rara acuidade — os labirintos da percepção, os jogos da culpa e os delírios da introspecção. Sua escrita é, muitas vezes, o palco de uma fenomenologia instintiva: uma maneira de compreender o mundo não como ele é em si, mas como ele se dá à consciência angustiada, deformada, apaixonada ou adoecida. O horror em Poe não provém do exterior, mas emerge do íntimo: é o próprio sujeito, em sua experiência radical, que dá forma aos monstros. A realidade física apenas serve de espelho para os abismos internos — e é nesse ponto que sua literatura se cruza com os fundamentos da Fenomenologia e do Existencialismo.
Em “O Coração Delator”, publicado pela primeira vez em 1843, acompanhamos o relato em primeira pessoa de um narrador que insiste em provar sua sanidade enquanto descreve, com precisão crescente, os eventos que o levaram a cometer um assassinato. O velho com quem convive — e que não lhe fizera mal algum — desperta nele um ódio obsessivo motivado não por ações, mas por um aspecto físico: seu olho, que ele descreve como um “olho de abutre”, pálido, vítreo, insuportável. Incapaz de suportar esse olhar — ou o que acredita estar por trás dele — o narrador assassina o velho e esconde seu corpo sob o assoalho da casa. No entanto, ao ser interrogado pela polícia, começa a ouvir, ou crer que ouve, o som do coração da vítima ainda batendo sob o chão. A culpa o invade como uma tormenta interior e, em um clímax de agonia, ele confessa o crime, incapaz de suportar o peso de sua própria consciência.
Para Husserl, compreender o mundo não é tomá-lo como dado absoluto, mas como fenômeno: algo que aparece à consciência em sua intencionalidade. Ao propor a epoché — a suspensão do juízo natural — o filósofo convida a deixar de lado as certezas objetivas para investigar como as coisas são vividas. Em “O Coração Delator”, esse princípio se realiza literariamente: o narrador não vive em um mundo compartilhado, mas em um universo fenomenológico próprio, onde o olhar do velho é uma presença insuportável que ultrapassa a aparência física. O olho — vítreo, opaco, silencioso — não é apenas um órgão: é um fenômeno. Ele se impõe à consciência do narrador como uma entidade viva, quase metafísica. Sob a ótica husserliana, o conto de Poe é a narrativa de uma consciência em ruptura com o real, tomada por uma percepção deformada que se impõe como verdade absoluta. Não importa o que o velho é, mas o que aparece para aquele que o observa. O olho não vê: ele é o próprio ser do narrador sendo visto, dilacerado e condenado em sua interioridade.
Enquanto o narrador de O Coração Delator insiste que sua perturbação advém do olho do velho — acreditando que o horror reside no objeto exterior —, a fenomenologia de Husserl desestabiliza essa aparente separação. Husserl nos convida a perceber que não existe, em essência, uma cisão definitiva entre sujeito e objeto; o que há é a relação intencional — a consciência é sempre consciência de algo. O objeto não existe, portanto, isoladamente: ele é aquilo que se dá à consciência como fenômeno. O olho do velho, nesse sentido, não é simplesmente um órgão visual: ele é o sentido que emerge do encontro entre a percepção e a vivência do narrador. Ele se torna intolerável não por si, mas pelo modo como é intencionado, significando algo abissal à consciência que o observa.
Husserl afirma que o fenômeno nunca se mostra sem sentido. E aqui reside o horror: o objeto, ao se apresentar à consciência, o faz sempre por meio de uma síntese de aspectos, e o narrador não é capaz de apreender essa totalidade. Ele fixa-se obsessivamente em uma parte — o olho —, incapaz de integrá-lo à plenitude do ser do velho, que permanece, para ele, um enigma angustiante. O olhar fragmentado gera uma verdade parcial, que se absolutiza e se impõe como delírio. O crime, então, não é resultado da realidade objetiva, mas da verdade fenomenológica que emerge da relação entre um sujeito transtornado e o fenômeno que ele recusa compreender em sua totalidade.
Podemos concluir que Poe, com sua pena encharcada de angústia e lucidez, esgarça as entranhas da existência humana ao nos confrontar com a dificuldade — ou talvez a impossibilidade — de uma verdadeira redução fenomenológica. Incapazes de suspender plenamente o mundo e suas significações, somos, em certo ponto, vítimas de uma relação consciencial intencional que se dá em síntese. Nessa síntese, ultrapassamos os dados imediatos e preenchemos os espaços do objeto — aquilo que nos é oculto — com nossas percepções, memórias, afetos e medos. Formamos, assim, uma unidade múltipla e mutável, que chamamos de identidade do objeto.
No caso do narrador de O Coração Delator, essa identidade não é construída sobre a totalidade do velho, mas sobre uma parte — o olho — elevado à condição de essência. Essa distorção não apenas revela a falência da percepção integral, mas a tragédia existencial de quem recusa o outro em sua plenitude. A consciência, ao significar o olho com horror, já não lida com o fenômeno em sua verdade, mas com o reflexo distorcido de si mesma. O mundo torna-se então insuportável não porque o é em si, mas porque se apresenta assim à consciência em colapso.
O desfecho do conto, em que o narrador ouve o som do coração ainda batendo sob o assoalho, não precisa ser lido como uma manifestação sobrenatural ou delírio puro, mas como a culminância fenomenológica de sua experiência de culpa. O que Husserl chama de visado — aquilo que é intencionado pela consciência — manifesta-se aqui como um som intolerável que não pertence ao mundo físico, mas ao campo da significação interna. O coração torna-se símbolo daquilo que não pode ser reduzido ou negado: o crime, o assassinato, o peso do ato. Pela associação intencional, a consciência organiza e sintetiza o ocorrido, fazendo com que o som seja não apenas lembrança, mas presença viva, concreta, irrefutável. A culpa, então, não é um sentimento abstrato: ela é ouvida, quase tocada, pois a consciência não consegue mais sustentar o abismo entre o que fez e o que significa. Confessar o crime, nesse sentido, é quase um gesto fenomenológico: a necessidade de alinhar o mundo vivido com a verdade do fenômeno. O coração que bate é a verdade que retorna, visada pela consciência como aquilo que não pode ser negado.
E, talvez, aqui esteja o ponto mais inquietante: seria esse afastamento da essência uma falha humana... ou a própria condição do fenômeno? Não seria a própria relação intencional — com todos os seus enganos, excessos e projeções — a expressão mais pura de nossa maneira de existir no mundo? Poe não responde. Mas nos obriga a questionar — e isso basta.
REFERÊNCIAS
SILVA, Maria de Lourdes. A intencionalidade da consciência em Husserl. Revista de Filosofia Argumentos, Ano 1, N°.1, 2009.
GALEFFI, Dante Augusto. O que é isto — a fenomenologia de Husserl? Ideação, Feira de Santana, n. 5, p. 13-36, jan./jun. 2000.
PERNA, Cristina; LAITANO, Paloma. O clássico Edgar Allan Poe. Letras de hoje, v. 44, n. 2, 2009.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 12: Seu Raro Rubi — Rubi Áurea
O céu era como a De Sterrennacht, embora em tons azúleos, opacos e cinéreos — sombrio além…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O céu era como a De Sterrennacht, embora em tons azúleos, opacos e cinéreos — sombrio além, n’um mistério lôbrego. O vento soprava apenas no alto, ondulando as nuvens e distorcendo os astros. Gotas de orvalhos límpidos e luminescentes flutuavam no silêncio, como se pairassem à espera de um instante preciso para se desfazerem em si mesmos. Observei, do alto vitral de minha alcova, uma paisagem de névoa índigo-gris e tão logo vi que a escuridão em seu interior era grave, tornando as velas e suas flamas em pobres pontos oscilantes, símeis aos orvalhos que pairavam. O breu daquele antro, era causado por mim, eu sentia; entretanto, lá fora, estava tão símil... ou será que as trevas estão em meus olhos?
Sentei-me; meu corpo nu sobre o veludo negro e a nutrúrnia em meu peito, vívida. Sob tamanho êxtase... fui capaz d’esta insanidade? Por quê? Eu me lembro, mas não compreendo. Eu me questionava enquanto mantinha meus olhos nas veias que se criaram entorno do caule sob minha tez; tocava-as e sentia pulsar o que poderia ser sangue ou a seiva da planta. Sob tal estranha luz anil-acinzentada, a pele tomava um tom símil, embora mais escuro, demarcava o hematoma do corpo estranho que se alojava no meu torso. A respiração melhorara, porém, ainda era mais parca do que outrora.
Ao velutum cabinet guiei-me na lentidão própria do tempo frígido que espargia ao derredor; em seu interior, observei as roupas que não eram minhas, a quem pertenceram afinal? Meus tecidos, eu acreditava, jaziam sob a terra úmida ou protegidos na solidão da saudade por aqueles que um dia amei. Vasculhei as peças, nenhuma me parecia correta diante da necessidade de manter exposta a nutrúrnia de meu torso e, ainda, proteger-me do álgido clima. Em um lance tênue de segundos silentes, senti profunda sede. Sede? Era-me tão rara, entretanto, emergiu como exigência imediata. Quiçá pela nutrúrnia... consumindo-me o sangue...
Escolhi uma peça negra, com ornamentos em ouro envelhecido; tive, no entanto, de rasgá-la sutilmente no torso, de modo a permitir que a nutrúrnia permanecesse livre. Havia mais espinhos do que o comum em suas pétalas, entretanto, pareciam curvar-se diante de meu toque; impedindo que uma ferida se abrisse em meus dedos. Pouco antes de libertá-la da renda, ouvi algumas batidas em meus umbrais, as quais ressoaram no tangível silêncio. Um adequado e quente cálice de sangue humano? Um alguém desconhecido para um banquete ao deleite da besta obscura que me tornei? Tão só mais um enigma d’este lugar terrífico? Abri a porta, pesada e rangente.
— Liliana! — Surpreendi-me. Convidei-a para adentrar meu lúgubre recôndito e a abracei, com carinho; sua pele se translucidava, eu via todas as suas veias e artérias.
— Amada Áurea, demorei para encontrar-te n’este mausoléu! — Senti-me turva enquanto sua mélea voz se alastrava. — Quão escuro está aqui! Ah... uma.... flor? — Segurei em uma das mãos de Liliana.
— Venha... — Segui para fora d’alcova, precisava de sangue... embora não soubesse como consegui-lo. Meus olhos transmutavam o azul-gris em um escarlate mórbido conforme meus passos apressados percorriam os corredores. Levava comigo parte da luz que adentrava os vitrais e parte das que queimavam nas flamas das velas nos candelabros. Eu evitava olhar para Lil, eu sabia do grave risco que pendia entre nós. Entretanto, ela estava firme em minhas mãos, céleres, seguíamos. — Hohrriss esstt! — Murmurei, uma interjeição diabólica que amaldiçoava a condição que eu me encontrava; um murmúrio baixo como um rosnar intrínseco. O rubro morbígero se acentuava.
“À direita” ouvi, era minha própria voz... em minha mente. “Quarta porta” ela disse... eu disse... eu sabia que era a Corphidrae... ou eu mesma. Um tipo de sala-de-estar se apresentou aos meus olhos; um cravum cabinet próximo tão logo chamou minha atenção. Deixei a mão de Liliana e segui ao móvel, abrindo-o. Havia cálices e taças; nos rótulos, títulos inelegíveis; frascos e vidros com seiva carmim. Dentre tantos, um deles reluziu aos meus olhos, n’um era vivo e parecia possuir nuances em dourado. Sem pensar, apenas o verti sobre o cálice e bebi até o fim de todo o frasco. Era docílimo, poderoso, mel aos lábios, fascínio e prazer rapidamente s’ergueram no meu âmago. Minha visão entorpecida se alinhava à sanidade e, no rótulo, um único nome: Olga Nivïttz {RHNulo}.
— Áurea? — Ouvi. Olhei para Liliana que parecia assustada.
— Perdoe-me, Lil; eu estava precisando de... sangue... — Eu já havia contado a ela o mais importante sobre mim, um resumo, enquanto seguíamos para o Oráculo. Dentre as minhas verdades, o vampirismo ela soube sem delongas. Algo entre nós se estabelecia, um emocional identificatório; não sei se pela gratidão dela em receber uma previsão de morte; se pela verdade de meu olhar sobre seu semblante encantador; se por alguma outra razão além do tempo...
O escarlate ao derredor minguou-se, portanto, dando lugar ao cinéreo-azulescido que outrora ordenou meus sentidos à melancolia sepulcral do silêncio e do orvalho luminescente que pairava somo poeira. Meus batimentos cardíacos amansaram.
— Muito ocorreu desde que nos vimos sob os cinco olhos do Oráculo... — Sentei-me no sofá próximo, Liliana fez o mesmo.
— Vim trazer esperança aos teus olhos tristes, minha Áurea. Antes que tudo me reveles, deixe-me dizer quem conheci. — Ela parecia empolgada, seus olhos eram dois esplendores âmbar. Mantive-me atenta e Liliana segurou minhas mãos nas suas. — Uma sublime mulher veio ao meu encontro, estava a refletir sobre o ocorrido no Oráculo, bem como a cerca de Luíre... enfim... esta mulher, de nome Morgana, tem estudado sobre os sonhos e, porventura, ela possa levar-te à Somníria outra vez! — Respirei fundo diante da revelação. Soltei das mãos de Lil e levantei-me, caminhando à esmo pelo cômodo. Fui à fenestra semiaberta, observei o horizonte enevoado.
— Não sei se quero retornar à Somníria... — Confessei. Liliana levantou-se, um tanto incrédula.
— Como não? Lorrt é a chave de tudo, Áurea! Ele sabe de tua vida, do teu poder...
— Eu o traí, Lili... eu não... não saberia fitá-lo em seus olhos... eu não saberia ficar outra vez em frente ao amor que ele externa a mim com seu semblante gentil e austero. — Um silêncio espargiu, sôfrego... Liliana se aproximou.
— Como assim? — Indagou e eu a fitei no mais profundo de seus olhos âmbar. Senti a tristeza, íntima, nascendo como garoa na imensidão.
— Eu... encontrei Seth... no entardecer de ontem... quando um carmesim-opaco e escuro direcionava a luz do pôr-do-sol às folhas secas... e eu... — Era impossível desvelar com as palavras que cabiam dizer. — Senti... eu o senti... no inominável prazer... da carne e do cerne... uma intensidade lasciva que traz o tremor às minhas entranhas só de recuperar a lembrança... — Voltei-me à janela, deixando de olhar para Lili e ela, por sua vez, afagou meus cabelos e abraçou-me, delicada.
— Tu ainda amas o Dom Lorrt? — Questionou, serena.
— Não... — Respondi, precípite. — Quero dizer... eu acho que não... entretanto... sinto culpa.
— Estranhas que a culpa advenha sem haver, pois, amor?
— Estranho... — Voltei-me a Liliana e ela afagou meu rosto. — Talvez, em alguma instância profunda, o amor ainda exista e, quiçá, eu saiba... no plano intuicional, talvez... eu... eu sinto içar um caos hórrido em meus sentires, Liliana... outrora estive desperta, buscando tão somente minhas memórias... até este tempo... onde laços tornaram-se nós e nós se quebrantaram na estranheza e no desejo... — Suspirei, deitando-me no abraço de Liliana. — Quão injusto é dar uma traição àquele que tanto me respeita... lembro-me do sonho... o sonho recorrente que escapara de mim desde que me despertei este monstro que sou... no sonho... as crianças aos meus pés... e os pés de um homem... eu sei que era Lorrt, eu sinto... eu sonhava com ele... formando ao seu lado uma família. Agora, contudo, vês? Dormi com dois homens e nenhum deles era o homem que habitava meus sonhos mais próprios...
— Áurea, não te culpes. Teu oblívio adveio em razão do mau acaso. Nem Lorrt, nem ti, decerto que até mesmo nem Lëvri, detém a culpa pelo acaso em sua manifestação orgânica, ainda que um tanto perverso e obscuro seja tais vicissitudes. Mesmo assim, tu não podes permitir que estas contingências te façam ficar contra ti mesma. Guarda no peito o que te aflige, minha doce, mulheres sempre possuem segredos em seu coração e não devem revelá-los aos homens, pois, eles não entenderiam.
— E Seth? — Era agradável e apaziguador deitar-me daquela forma, n’um amável abraço aquecido.
— O Demônio? Bem... ele não me soa confiável, querida.
— Eu sei... — Soltei-me de Liliana, sem bruscos movimentos. Voltei-me à janela, as nuvens volutais e o azul-gris ainda despertavam minha melancolia. — Ele é, porém, tão intenso... ele me aquecera com a calidez de seu inferno. Eu não o amo... entretanto, como um súbito clarão na tempestade mórbida, eis a minha paixão manifesta; ora fere, ora cura, brincando com a minha mente.
— Mais razões eu vejo para que reencontres Lorrt, minha amada. Para que tenhas certezas sobre teus sentires. Se a paixão por Seth machuca e se desvela sempre na veemência atordoante, esteja atenta. Amor é paz e, portanto, pode ser perene. Paixão é volátil demais para perdurar... e pode ser até mesmo perigosa.
Ao seu lado, fiquei por um tempo em silêncio. E entre afagos nos cabelos e mãos, fui ajustando meus pensamentos conturbados. Era inegável que fugir de Lorrt resultaria em mais angústias e, de fato, havia tanto o que ele sabia sobre mim... talvez do lugar de onde vim, das coisas que eu apreciava. E saber dele resultaria em compreender o vampirismo Illitam, algo que me pertencia, portanto.
— É hora, querida. Vou te levar à Morgana. — Liliana me olhou com um sorriso único e eu concordei em seguir os seus planos. Eu não sabia o que esperar, entretanto, estava disposta. Enquanto percorríamos o destino incerto, foi compartilhado comigo algumas das angústias de Lil, acabei por não lhe revelar sobre os poderes demoníacos, permite-me apenas ouvi-la. — Chegamos. — Era um dos quartos do Castelo. Liliana adentrou, sem precisar bater à porta.
Dois olhos verdes lumiaram em nossa direção, vindos de um rosto feminino. Ela se levantou com elegância. O cômodo era menor, símil ao de Monm. Vestia uma peça sublime, negra como a noite de lua nova, com detalhes em alguma pedra escura, talvez ônix. Ela tinha os cabelos presos em um véu sútil que recaía até os seus ombros. Sua pele era de um marrom intenso, sim, marrom; castanho-escuro, pouco mais claro que seus cabelos.
— Prazer, sou Morgana Sttrattan. — Cumprimentei-a e me apresentei. — Sentem-se, por favor. — Assim o fizemos nas poltronas próximas à escrivaninha que Morgana estava ao chegarmos. Além destes móveis, um velutum cabinet e um leito de cedro escuro complementavam o aposento. Uma tapeçaria ornamental no mesmo tom cobria o assoalho. Do vitral à direita, para o oeste, uma vista para o precipício.
A partir daquele ponto, Morgana relatou sobre a sua vida e a razão pela qual buscava Somníria. “Em minhas pesquisas” ela disse “eu soube de uma lenda a respeito desse lugar e tinha o intuito de encontrá-lo forçando o sonho lúcido. Era a única maneira possível de saber se era real ou apenas uma fábula”. Eu a ouvia com uma admiração irrefutável, até que vi seu corpo sutilmente desvanecer, como se fantasmagórico. “O que viste, Áurea, é a instabilidade da minha atual condição. Eu estou dormindo. Forçada por um aparelho de nome soníer, capaz de captar e traduzir ondas oníricas. Coloquei-me vinculada ao aparelho, com algumas modificações e, crendo alcançar Somníria, encontrei este Castelo umbrífero”. Eu ouvi e fiquei incrédula.
— Como é possível? — Indaguei.
— Não sei como, entretanto, na noite anterior, decidi replicar soníer n’este plano, acreditando ser possível haver níveis de sono REM. Para minha surpresa, eu o encontrei em um dos cômodos enquanto perscrutava o local. Não posso vos afirmar tratar-se de um item pertencente a outrem ou se foi construído através da minha intenção...
— Sugere que estamos adormecidas? Pertencemos a um sonho teu? — Interrompi-a.
— Creio ser improvável. A imersão de vossas histórias pessoais, conduzem-me à percepção de que, ao induzir meu sono com o aparelho modificado, usando-me como a cobaia do experimento, fui levada a outra realidade. Estou adormecida, entretanto, projetada, de forma astral, aqui. Talvez, com soníer acionado, em nós três, possamos induzir um sonho lúcido para o local, pois, já estou no sono REM, em hipótese, e tu, Áurea, já estivesse em Somníria. — Ficamos em silêncio. Eu pensava sobre aquela insanidade narrada com tamanho fundamento. — Eu não tenho muito tempo, devo dizer. — Morgana continuou. — Meu corpo tem desvanecido cada vez mais, pois o tempo está passando lá onde estou sobre o meu leito, ligada ao soníer. Uma profunda instabilidade, além disso, rege minha condição astral n’este plano. Eu despertarei, a qualquer momento.
— Eu... pouco compreendi, entretanto, devemos tentar, certo, Áurea? — Perguntou Liliana. Eu a fitei, hesitante.
— Sim. — Eu não poderia discordar.
Assim, iniciamos o processo. Morgana compreendia muito sobre o que estava fazendo, sobre soníer e seu universo onírico. Enquanto nos preparava, contou-nos sobre Morgion Sttrattan, seu pai, que sofrera com sonhos lúcidos bizarros desde sua infância e, quando adulto, passou a estudar os fenômenos vinculados ao âmbito sonial. Morgana nasceu cingida por um ambiente de estudos acentuados e seu pai fora uma figura de extremo exemplo e imoderada admiração, por isso, ela seguiu seus passos, embora fizesse tudo o que Dom Morgion considerava perigoso e arriscado. O contexto de sua vivência pessoal, trouxe-me uma saudade que sequer imaginei pertencer ao cerne que possuo; eu decerto tenho ou tive uma família e, talvez, um pai para admirar. Senti que a determinação de Morgana me atravessava como um indício de que era preciso continuar tentando encontrar-me em mim mesma.
Sorvemos de um líquido hialino com nuances escuras, era doce e enjoativo. Tratava-se de um indutor de sono profundo. Adesivos com um tipo de metal frígido, um metal de nome unorom, foi adicionado em nossas têmporas e conectados, por cabos, à máquina soníer. Morgana fizera questão de explicar as minúcias. Fui instruída a focar meus pensamentos e lembranças no instante em que estive em Somníria, portanto recordei de cada detalhe. Confesso que Lorrt era a principal imagem à minha mente... seus olhos amáveis, suas palavras afáveis... sua tristeza. Queria amá-lo, queria tanto amá-lo... e o sono vinha sólido a mim, meus olhos se fecharam, permitindo a lágrima velada verter, morrendo sobre o travesseiro qual repousava minha cabeça.
Aos poucos, a imagem de Lorrt se estabelecida com mais nitidez; a escuridão granulada das pálpebras cerradas se expandia em palidez, pouco a pouco, onde nuvens impassíveis conduziam uma brisa que aclarava um céu alvililás em todo o entorno. Senti o toque dele, em meu rosto, n’uma carícia tenra e amorosa. “Encontre-me em teus pesadelos... zelarei por eles...” — ouvi, num murmúrio pertencente a ele, sua viril voz se expandia... eu estava recordando e, ao mesmo tempo, buscando pelos umbrais que precisava atravessar para alcançar o reino dos sonhos. “Eu vou cuidar de ti, Áurea...” — Ouvi, dessa vez com mais limpidez sonora. A visão estava mais refúlgida, entretanto, toda a paisagem enegrecia em súbitos átimos, a partir do ponto em que eu estava mais adentro daquele onírico plano.
Nos instantes que esta escuridão, n’um índigo opaco, se distendia entre as nuvens, nos átimos de segundos, um piscar de olhos, meu coração doía e eu sentia medo outra vez. Quando o tato se tornou o sentido mais claro, entendi que estava em Somníria. Senti meus pés caminharem sobre as nuvens e a brisa arrepiar a minha tez. A visão, outrora embaçada e rarefeita, tornou-se explícita em seus detalhes mais infinitesimais... assim vi imensos cristais negros e belíssimas ametistas, pairando na imensidão como ínsulas. Senti-me profundamente vinculada ao lugar e, portanto, sussurrei o nome de Lorrt, fechando os olhos. Assim que os abri novamente, estava em frente ao homem que amei.
Seus olhos estavam n’um tom violeta escurecido, não tão vívido como da primeira vez. Seu semblante estava um pouco mais melancólico, embora um lumiar tímido lhe tenha envolvido quando eu proferi seu nome. Era lindo... um anjo de asas negras, com austeridade em sua fronte. “Eu precisava...” — murmurei. Queria explicar-lhe que minha intenção não era desestabilizar Somníria, entretanto, era inestimável encontrá-lo outra vez. A sensação de fraqueza foi apaziguando e, após um silêncio acolhedor, eu senti que, finalmente, eu estava consciente em Somníria. Olhei para os arredores, buscando Lil e Morgana, mas apenas eu e Lorrt estávamos na paisagem alvililás.
— Eu... precisava te ver outra vez... — Proferi, tímida e hesitante. — Espero não estar... perturbando demais...
— Tu não és uma perturbação para mim... — A voz de Lorrt não era feita de som: era feita de reminiscências. Parecia emergir de mim poeiras de lembranças jamais acessadas. Era grave, sim, mas de uma gravidade que não pesava; antes, ascendia, tal qual a sombra de uma constelação inalcançável e colossal que, ao invés de lançar temor, imerge o âmago n’um anseio irreprimível, por admiração e fascínio. Um tecido de som entrançado de saudade e soberania, tão profundo que nem os mortos teriam coragem de esquecê-lo.
— Sinto que estou errando em todas as minhas escolhas... e não recordei mais de minha vida antes do despertar... estou abraçada às sombras hostis... — Confessei, lacrimosa. Lorrt ia tocar minha face, entretanto, não o fez. Pareceu-me consternado e olhou para o lado, talvez desejasse um alívio da visão que tinha de mim. Senti receio. — Ainda... reside amor por mim... no teu peito? — Seus olhos se voltaram aos meus, pareciam menos violeta. Fitaram meus lábios. Lorrt se aproximou.
— Intenso como fogo... fluído como o oceano... profundo como um abismo... sempre. Sempre aqui. — Sussurrou, próximo. Meu coração se comprimiu, embora eu sentisse uma quietude plácida em meu ser.
— Aquela que fui ou a que sou? — Indaguei, abaixando a cabeça. Fitando suas grandes mãos, firmes como as de um cavaleiro da morte, capaz de carregar a foice do destino e, ao mesmo tempo, segurar um crisântemo sem despedaçá-lo.
— Aquela que serás... carregando a que foste e a que és, com o fascínio do que há de ser... — Respondeu, inabalável. Eu estremeci pela beleza de suas palavras.
— Apesar do quanto eu possa errar? Dos pecados que eu possa cometer? Das dores que eu possa te causar? — Eu não entendia minhas perguntas, elas vinham de mim sem nenhum vínculo racional... tudo o que pensei em saber, sobre minha história e sobre os Illitan, parecia nunca ter sido pensado, parecia irrelevante. Lorrt respirou fundo, fechando seus olhos por alguns segundos e abrindo-os em seguida. Parecia pensar em algo muito além da minha indagação.
— Teu amor por mim foi sempre vestal. Qualquer pecado, erro ou dor que dele advenha, é por descuido recíproco, pois não há falha de caráter em ti. — Disse, um pouco frio, um pouco mais distante, mas ainda atento.
— Estou desestabilizando Somníria? — Perguntei, pois, sua sutil frialdade me sugeriu que uma preocupação o estivesse envolvendo.
— Não só Somníria... — Revelou, e ficamos em silêncio por um tempo. Senti uma tristura implacável... eu certamente o estava machucando, com minha presença e minhas perguntas.
— Então me acorde... eu compreendo... eu sei que não posso ficar aqui... — Murmurei, mesmo querendo falar mais, ouvi-lo mais.
— Eu... não posso... — Murmurou Lorrt. Eu o olhei, surpresa.
— Por que não? — Intriguei-me. Ele se aproximou um pouco mais.
— Porque, Áurea, teu perfume me agrada... — A voz de Lorrt tornou-se mais intensa. — Porque prefiro manter meus olhos em teu belo semblante... — Senti meu rosto aquecer, o olhar de Lorrt era de profunda paixão; envergonhava-me um pouco.
— Sempre me chamaste de Áurea? — Sem saber a razão, continuava lhe indagando o que não fazia sentido... talvez eu acreditasse que, me aproximando do que vivi ao lado dele, as lembranças aflorassem. Para o meu deleite, Lorrt sorriu... O sorriso de Lorrt era uma fratura no rigor de sua existência: uma fissura pela qual, brevemente, se vislumbrava o homem que ele poderia ter sido se o mundo lhe houvesse sido mais justo. Eu não compreendia, mas sentia, intuía... seu sorriso contornava sua face austera com uma suavidade viril, revelava-me em silêncio a sua essência que me fora outrora tão familiar...
— Não... Preferia chamar-te de Meu Raro Rubi. — Desvelou. Eu sorri e meu sorriso o fez sorrir um pouco mais.
— Raro Rubi? Por quê? — Indaguei, com uma felicidade inenarrável em meu coração vazio. Era quente poder ver a mesma alegria no olhar de Lorrt, e saber que ele não se abrigava tão somente em insondáveis mágoas.
— Porque nos conh...
Eu... daria tudo para ouvir a história por detrás de tal alcunha tão gentil... eu senti que daria minha vida, naquele átimo, quando minha pele começou a queimar tal qual papel em brasa e meu corpo era absorvido por um fogo crepitante.
Fogo... intenso. Meu corpo estava queimando.
Eu faria tudo tão só para ouvir Lorrt... e vê-lo sorrir... mesmo que não, o amasse mais... mesmo não me recordando do amor; havia algo... sabe? Apesar dos pesares, havia algo que me envolvia em alento, algo que vinha dele... da presença e da voz de Lorrt. Contudo, eu fui queimada viva naquele momento — assim eu sentia — meu corpo em brasas fulgurantes, meu rosto desaparecendo no estalar de nímias flamas, uma combustão. Olhei em desespero para Lorrt. Não doía, entretanto, assustava de modo terrível. E queimava... eu sentia o fogo no meu cerne.
— Não... não... ajuda-me Lorrt... eu não quero ir... deixe-me ficar aqui... deixe-me te ouvir... — Segurei no casaco negro que Lorrt vestia, pois no impacto da súbita combustão, abaixei-me de horror apavorante. Lorrt segurou minhas mãos, sua feição era de profundo tormento.
— Áurea!!! — Ele clamou por mim... Abraçou meu corpo e sentiu o fogo queimar sua tez. Gemeu de dor repentina e, por instinto, se afastou...
— Não... não... por favor... Lorrt... — Foram minhas últimas palavras...
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 4: Apreensão Familiar — A Mansão Negra
A cristalina água corrente abluíra as provas de que aquilo não se tratou, tão somente, de uma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A cristalina água corrente abluíra as provas de que aquilo não se tratou, tão somente, de uma manifestação do inconsciente. Tentei assimilar a loucura da situação, todavia, estava no horário demarcado por Ehllenor para que eu os encontrasse na sala de jantar, para iniciarmos o desjejum. Portanto, sedei meus pensamentos e indagações sombrias, fiz minhas higienes matinais e deixei meu aposento. Assim que visualizei o corredor, notei a porta da alcova de Ahzaez, ela estava entreaberta, tal como em meu sonho. Caminhei à esquerda, obrigatório para chegar ao meu destino; passei, portanto, pela porta e evitei, a todo o custo, fitá-la. Apressada e um tanto dispersa, acabei por colidir com Morgion pelos estranhos ângulos entre um recôndito e outro daquele lugar.
— Morgion! Perdoe-me. — Proferi, abaixando-me para ficar na sua altura. Ele sorriu, educado. Ehllenor estava logo atrás dele. — Como fora tua noite de sono, querido? — Indaguei-o.
— Nada bem... — Ele sussurrou, entristecido.
— Deixemos para falar disso após o desjejum, meu amor. — Orientou Ehllenor. Levantei-me e sorri para ela. Morgion abaixou sua cabeça, unindo suas pequenas mãos; ele não estava bem.
— Bom alvor, senhorita Saeeri. Espero que a primeira noite em nosso lar lhe tenha sido deleitável. — A seriedade de Ehllenor indicava-me que, na Mansão Negra, ninguém adormece em remanso.
— Sim, senhorita. Agradeço a hospitalidade inestimável. — Respondi-a mentindo, embora por razões de grande valor. Seguimos juntos à sala do desjejum.
Era um cômodo imponente. A mesa no centro era grande, para cerca de quinze pessoas. Esculpida em obsidiana, como imaginado para tudo o que existia ali, com castiçais e esguios vasos para orquídeas negras ao longo de seu comprimento. Ertthan nos acomodou e, em silêncio, aguardamos a chegada dos demais. Esperava conhecer toda a família Sttrattan naquela ocasião, contudo, em alguns minutos, Dama Lilith chegara, caminhando com cuidado sendo guiada pelo mordomo. Somente ela. Levantei-me em respeito à Anfitriã e porque assim o fez Ehllenor e Morgion. A mulher era, de fato, mãe de Ehllenor, pois, ambas eram semelhantes em demasia.
— Dama Heigger. — Dissera com a voz rouca e trêmula. Seu cumprimento fora apenas com uma singela reverência. Fiz o mesmo.
— É um prazer conhecê-la, Senhora Sttrattan. — Expressei. Sentamo-nos todos e, em seguida, Erttham iniciou a colocação dos pães, geleias, frutos e outras iguarias de Amorttam sobre a mesa. Isso indicou-me que ninguém mais viria para compartilhar o momento. — Vi muitos quadros de vossa família; indago-me onde todos estarão. — Proferi em curiosidade, no entanto, em busca de informações que esclarecem mais a vida do pequeno Morgion.
— Muitos dos meus filhos estão em Sihren para formarem uma educação completa na Universidade. Soron os acolheu com estima em seu Castelo. Outros rebentos deixaram a Mansão para que pudessem esculpir seus próprios lares; se não fosse Ehllenor e o meu adorável Morgion, estaria aqui apenas eu e Ahzaez.
— Acredito que Ahzaez seja seu filho mais próximo... — Comentei, mas, fui interrompida.
Proferir o seu nome resultou, por coincidência, em sua aparição pelos principais umbrais do cômodo. Pouco antes, Ertthan abrira todas as janelas, fazendo com que a luz e o ar gélido clareassem o local e desse-lhe vida, renovando a atmosfera. Ahzaez chegou aflito, embora conservasse um severo semblante que vi quando por ele fui recepcionada na noite anterior. Direcionou-se, em primeira instância, à Lilith. Reverenciou-a beijando-lhe a mão. Em seguida, beijou a fronte de Ehllenor e acariciou os cabelos de Morgion. Somente após tal cuidado e apreço com seus familiares, permitiu-se olhar em meus olhos; fitou-me e, por instantes inomináveis e céleres, nada fez além de observar meus olhos e meus lábios... seu olhar me desconcertou...
— Senhorita... — Proferiu em um tom diferente do qual o fez com sua família, o que me soara algo esperado e comum. Não se aproximou de mim e logo sentou-se. — Peço-lhes perdão pelo meu atraso. — Dissera.
— Não te preocupes, creio saber as razões. — Respondera Lilith, olhando para Ahzaez. — Aqui, senhorita Heigger, as noites podem ser um tanto perturbadoras. E, sobre sua indagação, creio ter o dever de esclarecer que Ahzaez é meu irmão, não meu filho.
Fiquei embasbacada com aquela informação, evitei, todavia, de expressar o assombro instantâneo. Ahzaez era jovem, decerto possuía pouco mais que eu em estado de vida. Lilith era bem mais velha, notava-se à olho nu.
— Dialogavam sobre mim antes à minha chegada. — Considerou-me culpada através da ímpar maneira com que se atentou a mim ao dizer aquelas palavras.
— Eu... — Hesitei — Eu estava inferindo seres tu o filho mais próximo da senhora Sttrattan, não... não imaginei que serias irmão da anfitriã. — Explicá-lo não deveria ser uma obrigação, todavia, a julgar pelo seu olhar, cri ser necessário. Uma efêmera quietude espargiu.
— Ahzaez fora um bebê indheren, Senhorita Heigger. — A explanação de Lilith confirmara que meu esforço, para não transmitir minha surpresa a respeito do assunto, não fora suficiente; e que, estranhamente, esqueci-me do método indheren de fecundação. Demonstrei minha compreensão e apenas me calei; tive a sensação de estar incomodando-os com minhas tolas palavras, embora fosse parte de meu ofício a indagação contínua.
— Saee... — Ahzaz hesitou — Dama Heigger pareceu-me interessada na arquitetura da mansão, em especiais os umbrais silentes. — Ahzaez dissera, sem olhar para mim ou para qualquer outra pessoa. Quase perdera a formalidade comigo, mais uma vez.
— Ó, sim... as portas... Espero que tenhas sido informada da importância crucial de mantê-las entreabertas. — Ressaltara a matriarca. Ehllenor demonstrou receio e imediatamente olhou para mim e, em seguida, para Ahzaez.
— Eu a orientei, Lilith. — Disse Ahzaez. Ehllenor sentiu alívio e ele olhou para mim.
— Ótimo. Tu sabes que a Mansão Negra pertencera a Krvier... — Lilith oscilou ao proferir o nome do Soberano e, sinceramente, o nome foi o que mais ecoou pelo ambiente e isso foi de uma estranheza pavorosa. — Não sabemos as razões pelas quais ele construíra este lugar, mas após tantos anos vivendo no “envoltório de obsidiana”, percebo que ele não tinha boas intenções ao erguê-lo. Tudo aqui é silencioso e o som pouco se propaga. Tivemos infortúnios que não serão esquecidos, tudo em razão da Mansão Negra. O que possui de extraordinária beleza, possui de segredos e, alguns deles, decerto são perigosos.
— Pensaste em deixar a mansão em algum momento, senhora Sttrattan? — Questionei, retomando meus motivos para estar ali.
— Não o farei. Ainda que me sustente em sua solidão perpétua. Eu pertenço a este lugar.
— Ninguém pertence à Mansão Negra, Lilith;. O “algo” que a pertence deveria sucumbir junto a ela. Mais perverso que aquele que a construiu, é aquele que a mantém erguida. — Interrompeu Ahzaez. Ele demonstrou uma nervosia tênue, algo que parecia guardar em seu âmago, talvez, por ter sua família na Mansão, passando pelo que passam; ou, pelo que ele passa, se o pesadelo de outrora possuir fragmentos da realidade. E lembrei-me do quanto parecera real e do sangue em meus dedos.
— Nunca disseras tamanha afronta frente a outras visitas... parece-me à vontade com Dama Heigger. — Lilith fitou-me, parecia insinuar algo. Ahzaez olhou para Lilith.
— Não é ofício de Dama Heigger o aconselhamento psíquico de Morgion?
— De Morgion sim, Ahzaez, não de ti.
— A menos que Morgion viva sozinho, Lilith, receio que seja ofício de Saeeri investigar toda a família que o circunda. — Havia furor no olhar de Ahzaez e o mesmo no de Lilith. Eles se encaravam.
— A senhorita Heigger realizará o atendimento de todos nós, assim acordamos. — Ehllenor interrompeu-os, pois que a singela conversa se agravava, suficientemente significativa para que eu pudesse entender a dinâmica da família — ou começar a entendê-la. A voz de Ehllenor quebrantou a faísca do ódio, pois os irmãos deixaram de se olhar. Lilith concentrara-se em seu chá e, Ahzaez, em mim.
— Phamen, a principal ama responsável por Morgion, tem sofrido com algia profunda nas têmporas, sintomático de desordem, pois sua fisiologia não apresenta alterações incomuns. — Disse Ahzaez.
— Ora, Phamen! — Exclamou Lilith, em tom menoscabo. — Uma mulher Ventral consumida por infertilidade e que agora sofre por não poder ter mais uma criatura Ventral para morrer cedo. Isso a perturba, por isso sente dores psíquicas. — Lilith foi fulminada pelas íris de Ahzaez.
— Não diga isso, mamãe; Phamen é docílima e somente cabe a ela revelar suas angústias à doutora, quando for o momento adequado. — Ehllenor parecia sentida pelas palavras de sua mãe.
— Estou apenas sendo objetiva; a doutora não deveria perder seu tempo com os Ventrais da casa; eles escolheram a vida que possuem. Que arquem com as consequências! — A frieza, um profundo descaso, advinha da alma daquela mulher; não ousei revelar ser, pois, uma Ventral e, embora fosse profissional o suficiente para separar as coisas, doeu-me ouvi-la dizer o que dissera, pois sei das razões de meus pais e sei que nasci como sou porque foi preciso.
— Mamãe, por favor...
— Reserva tua energia, Ehllenor; Lilith não tem sensibilidade para lidar com a multiformidade da vida.
— E tens tu? Vives sob meu teto, Ahzaez; usufruis de minha fortuna para se ceifar ao bel prazer do láudano. Sejamos sinceros... — O silêncio e os olhares entre irmãos cultivavam uma cólera inominável. — Se não fosse o método indheren, tu estarias morto.
— Ahzaez é a razão pela qual não sucumbi à loucura nesse lugar... — Ehllenor se direcionava à Lilith e, logo em seguida, olhou para mim. — É um homem bom e protetor, tem cuidado de Morgion como um pai. Ele está atento às portas, aos sons, a nós.
— Se há desagrado em ti, por que continuar aqui? Fomentas a dor porque queres, tal como um Ventral o faz. — Lilith desdenhara. Sua filha respirou fundo.
— Tens razão, mamãe; talvez eu devesse ir.
— E vai. — Afirmara Ahzaez. — Assim que o tratamento com a doutora se findar, Ehllenor e Morgion irão para Sihren, já acordei com Soron. — Revelara. Um brilho nos olhos de Ehllenor emergiu, porém, uma preocupação em seu semblante era inequívoca. Lilith, por sua vez, parecia incólume. O silêncio que pairou a posteriori, teve de ser destruído por mim, pois, notei que a dor e a mágoa eram fortes razões para que algo prejudicasse minha estadia e, àquele ponto, comecei a temer pelo menino.
— É importante que minha estadia seja proveitosa a todos que aqui residem, inclusive os funcionários e em especial os membros da família Sttrattan. — Respirei fundo. — E, bem, o café estava de uma amargura aprazível, agradeço senhora Lilith. Agora já estou à disposição para atender o pequeno Morgion. — Olhei para o petiz. — Sei que tens muito a me contar, certo? — Disse de maneira lúdica, tentando agradá-lo. Ele movimentou sua cabeça, confirmando minha questão.
— Vamos, então, estamos prontos. Por aqui, doutora Heigger. — Dissera Ehllenor. Levantei-me, pedimos licença, saímos. Lilith e Ahzaez permaneceram à mesa. Perguntei-me o que conversariam a sós, mas suspeitei que prefeririam o angustiante silêncio.
A Mansão Negra
Doutora Saeeri Heigger é convocada para investigar os sonhos aterradores de uma criança de nove anos. Entretanto, o menino pertence à família Sttrattan e reside na Mansão Negra. Convencida de que se trata de apenas mais um caso clínico, Saeeri aceita a proposta, mas, parece que o que dizem sobre os Sttrattan é pior do que ela imaginava e os horrores oníricos vão além da mente de seu pequeno paciente. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 3: Insanidade do Desejo e a Loucura — A Mansão Negra
Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e, às vinte horas, eu a vi…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Despertei assustada, sem razão, exceto por uma sensação de intenso temor. Sentei-me sobre a cama, respirando com dificuldade. As velas do castiçal único estavam apagadas e o breu era carregado, pesado. Como orientada, busquei por fósforos na mesa de cabeceira e os encontrei. Acendendo um, à princípio, para localizar o castiçal. A acústica daquele lugar era impressionante; nenhum som saía, nenhum som entrava. Fui à janela para abri-la, de modo a ouvir algo além do meu frenético coração. Era impossível, não me parecia ser feita para se abrir. Acendi as velas no castiçal sobre a cômoda e o que notei me assombrara de modo tétrico e tão repentino quanto meu despertar sôfrego, voltando a acelerar o meu órgão vital. Nenhuma das pessoas, naqueles retratos, possuía rosto. Suas faces estavam borradas. Aturdida, segurei uma das molduras após o fugaz afastamento impulsivo e instintivo; toquei a pintura. Parecia real. Estava seca. Com uma tênue camada de fino pó sobre sua textura. Antes que pudesse assimilar aquela bizarrice — e antes de me questionar se eu sonhava, tal como Morgion, ouvi batidas à porta e, célere, a encarei.
Em uma lentidão espectral, coloquei o retrato sobre a cômoda e caminhei à porta, segurando o castiçal. Ao fitar meus olhos à maçaneta de ouro, ela apenas não existia. Toquei o cedro negro do umbral, busquei o que apenas nunca parecia ter existido. Ouvi mais duas batidas na porta. Um desespero mórbido emergiu no meu âmago; uma sensação claustrofóbica gritante conduzira todos os meus sentidos. A respiração, outrora ofegante, passou a ser a súplica de um horror silencioso e, ao mesmo tempo, gritante. Pus o castiçal em qualquer lugar, o qual nem vi onde, e, em desespero, bati contra a porta pedindo ajuda para sair, ainda que eu sentisse que nenhum som poderia atravessá-la. Meu pânico gerara um suor vívido pelo meu corpo e meus olhos lacrimejavam pela hediondez daquilo que eu me via imersa. Foram os minutos mais bárbaros de minha vida, pior do que tudo o que aquelas poucas horas já haviam me proporcionado. Abruto, a porta se abriu, empurrando com um abalo, meu corpo. Então vi a maçaneta em seu devido lugar e vi os olhos azuis-cinéreos de Ahzaez, segurando a maçaneta da porta, pelo lado de fora. Por um instante, eu apenas não compreendi nenhuma informação disponível à minha consciência.
— O que houve, Saeeri? — Ele questionou, todavia, arfante e exaurida, eu não pude respondê-lo de imediato. Ele se recompôs, parecia ter forçado a abertura da porta e, decerto, ter ficado ansioso em relação ao meu bater pelo outro lado. Notei — a posteriori, quando a lembrança me veio — que fui chamada de Saeeri sem nenhum tipo de formalidade, algo difícil de acontecer com famílias como as de Sttrattan. Ahzaez aproximou-se um pouco mais e pude sentir seu calor. — Tu estás... — Ele fitou-me de cima a baixo. — O que houve? Precisas de algo? Saeeri? — Esforcei-me para respondê-lo, ponderei, n’um lampo de pensamentos, diversas palavras e as únicas que me saíram foram as mais evidentes.
— Fiquei... presa... — Olhei para trás, de soslaio. Nenhum rosto estava apagado nos retratos. Observei a porta. A maçaneta intacta em seu áureo lume próprio. Que tipo de anomalia era aquilo? Sem nenhum histórico de delírio em todos os meus trinta anos de vida, deduzir que se tratava de alguma patologia mental, por quaisquer motivos, era ignorar a verdade.
— Pegarei um copo d’água para que possas te acalmar... — Ahzaez dissera, voltando-se à porta, mas eu o segurei pelo braço, ainda domada pelo medo. Eu não queria ficar sozinha outra vez. Ele me olhou atento. Tocá-lo foi invasivo... e afrodíseo... como não deveria ser. Soltei-o diante de seus olhos, eram tão amedrontadores quanto todo o horror vivenciado.
— Perdão... — Murmurei. Se já não era educado tocar alguém sem permissão, tocar aquele homem sem a devida autorização assemelhava-se ao crime mais cruel de toda a Sihren. — Estou... assustada... — Ahzaez aproximara-se da cômoda com os retratos, em silêncio; da última gaveta retirou uma toalha, estendendo-a a mim em seguida.
— Use isto para... secar... tua tez... — Sua voz baixou a dois tons, fora quase sussurrada... — Mantenha a porta aberta, volto em breve. Com a porta aberta, ouvirei tua voz caso algo aconteça, basta chamar pelo meu nome. — Abraçada à toalha, apenas concordei com sua fala agravada pela densidade daquela Mansão; então o vi deixar o quarto.
Como ordenado, sequei-me a pele úmida pelo temor; respirei profunda e intensamente. Prendi, com cuidado, meus cabelos que se soltaram diante meus bruscos movimentos contra o umbral. Segui ao espelho oval e ornamentado, ao lado direito da cama. Quis ver meu rosto, acalmando-me a sanidade. No entanto, não havia... reflexo... e fui tomada pelo mesmo impacto horrífico; tendo meu coração acelerado em aterrador ritmo. Cobri meu rosto com o a tolha, seu algodão negro soara-me acalentador. “Isso não pode ser real” — sussurrei, afoita, afogada em medo.
— Dama Saeeri? — Ouvi. Seu tom inominável assustara-me, contudo, contive quaisquer impulsos, apenas o olhei com uma rapidez mórbida. Ahzaez segurava um copo d’água. Com sua presença, no entanto, ainda que macabra de sua maneira, senti-me mais segura para fitar o espelho. Lá estava meu rosto assustado, meus olhos abertos, a pupila dilatada, a pele ainda orvalhada pelo pavor. Respirei com a profundidade de um precipício, fui até Ahzaez e aceitei a água, tomando-a lentamente. Assentei-me no baú frente à cama, o qual era, também, um assento. Aguava meus lábios e entranhas enquanto secava minha tez. Ahzaez apenas olhava, em silêncio.
— Peço perdão pelo constrangimento, Dom Sttrattan. — Pronunciei após conseguir me acalmar; não demorou muito, mas sob a presença daquele homem, assemelhou-se a uma eternidade. Sua imponência era pujante, ainda que, fora dela, o horror extravagante possuísse maior magnificência tenebrosa. — Agradeço por teu cuidado em acudir... acredito que estavas passando pelo corredor... — Queria saber o porquê ele batera em minha porta, no entanto, sua fúnebre composição aflorava minha dedicação à comunicação delicada.
— Notei que este umbral pertencente ao teu aposento estava fechado e, portanto, vim alertar-te da importância de mantê-lo aberto em, ao mínimo, uma singela fresta. — Explicara. — Acredito que Ehllenor não tenha te informado a respeito. Como podes notar, todo este lugar foi construído para que o som não se propagasse. E as janelas não abrem à noite, por seu mecanismo próprio. Manter as portas abertas permite que possamos ouvir, caso algo aconteça.
— Compreendo... Muitas coisas singulares acontecem na Mansão? — Questionei sem tato, confesso, àquela altura eu já não estava tão atenta.
— Não, senhorita. Mas há Lilith cuja idade está avançada e Morgion que é apenas uma criança, ambos podem precisar de auxílio no calar da noite; estamos com colaboradores escassos.
— Tu vagas à noite, cuidando deste afazer? — Olhei para seus olhos, à sombra própria do cômodo, eles pareciam escuros.
— Não... — Respondera e silenciara por um momento. — Meu quarto está próximo do teu, neste corredor... há duas portas de distância. Por insônia, levantei-me para caminhar ao belvedere para respirar um ar puro e úmido. Sabendo que serias colocada neste aposento por Ehllenor, olhei em direção para certificar que a porta estaria entreaberta. — Elucidara.
Não me parecia agradável adormecer sob o olhar de quaisquer pessoas daquele lugar; tendo a porta em fresta, refém da ausência de privacidade. E se, orientada devidamente, mantivesse os umbrais à disposição dos olhos azuis-gris daquele homem? Por quanto me observaria? “Vagante da noite lânguida” quiçá fosse o significado do nome “Ahzaez”. Esses pensamentos usurparam minha mente sem que eu os pudesse comedir, mesmo tendo sido salva por ele, a austeridade vívida de seus olhos mortos e de seu semblante obscuro não me permitiam confiar, com plenitude, em suas ações e intenções, principalmente.
— É imprescindível minha partida agora, Dama. Devo dormir e creio que a senhorita também. — Suas palavras desafiaram o silêncio antecessor a elas.
— Gostaria de conhecer o belvedere; é distante daqui? — Sondar o homem sobre um possível abrigo para a claustrofobia do local, soava-se pertinente. Ahzaez caminhou à porta.
— Ordenarei que uma ama lhe guie até lá pela manhã, senhorita. — Proferira em tom soberbo. — Boa noite... — Com uma pequena saudação silente, Ahzaez deixou o cômodo, seguindo em direção ao seu quarto.
~ ❦ ~
Eu tinha diversas indagações a esse ponto. Por que não travam as portas entreabertas? Ou as trocam por outras? Por que apenas não retiram as trancas? Por que não adicionam algum tipo de circuito interno de comunicação, tal como já vi na universidade de Sihren? Qual seria a razão para que as janelas fossem travadas no calar da noite? E como alguém pôde criar esse mecanismo? Os Sttrattan pareciam defender a Mansão Negra acima de tudo, acostumando-se ao que ela oferecia sem impor nenhuma condição. Além disso, o que vivenciei diante as anomalias do quarto, o sumir da maçaneta, as pinturas sem rostos, a ausência do meu reflexo. Tudo ali era um enigma exótico e amedrontador. Senti ser significativo conhecer com mais profundez os Sttrattan, pois que não poderia haver tamanho horror nos sonhos de uma criança que não estivesse, de alguma forma, manifestando-se em seu derredor, em sua família. Duvidei que um petiz como Morgion pudesse produzir um lago de sangue em seu inconsciente sem antes já ter visto muito sangue na obscuridade de seus vínculos reais. Levando em conta o odor emergido às minhas narinas horas antes, eu não poderia duvidar dessa hipótese.
Como se não bastasse o atordoar tétrico que me cingia, adormecer naquele átimo resultou em pesadelos conturbados, dentre tais, lembro-me perfeitamente de um. Antes, todavia, de revelá-lo, é importante esclarecer que a cinesia do meu inconsciente é um tanto pusilânime, ou seja, pouco alcança a lembrança no despertar e, se o faz, é sempre confuso e irrelevante. Além disso, compreendemos os sonhos como manifestações do esquecimento — vivencias que foram abraçadas pelo oblívio, mas que nunca se perderam de nossas psiques. Quando nos lembramos delas, no entanto, a memória-de-oblívio já está refiltrada, isto é, mascarada para que seja possível alcançar a psique. Em outras palavras, o que sonhamos é um filtro da verdade de nossas lembranças ocultas. Então, com meus olhos selados pela modorra, posso jurar que aquilo que tomou conta de meu plano onírico não foi uma singela manifestação inconsciente e, do tanto que me recordo, a revelação sonial — pois que de “sonho” me recuso a chamar — parecera-me muito mais um pedaço de uma realidade multiforme e paralela àquela em que eu estava.
Iniciou-se com a cena do meu aposento, na Mansão Negra. Eu via Ahzaez deixar o quarto tal como já descrito; com a porta aberta, seus passos foram se distanciando pelo corredor. Todavia, ao contrário do que de fato fiz, — creio eu ter feito, mas, durante o sonho, a lucidez das imagens era tão vívida que jurei ter voltado ao passado e refeito tudo o que ocorrera a partir dali — na agoníria levantei-me em quietude, olhei pelo corredor e vi Ahzaez adentrar seu aposento. A fresta de sua porta reluzia um trêmulo e quente lume vindo das velas quais ele, eu assimilei, acendera no cômodo. Caminhei descalça, sentido aos seus umbrais e, ao chegar, fitei de soslaio a fissura e o observei despir-se de suas roupas negras, devagar. Em seu dorso sangrava um grande símbolo similar a um “Y”, como se tivesse sido rasgado em sua pele. Seu corpo era como uma estátua de mármore, esculpida em perfeição e força; seu aroma viril conduzira meu olfato com suavidade concupiscente, de modo que fiquei ainda mais concentrada àquela fresta, como se estivesse obcecada em lascívia. Em contrapartida, o odor de sangue anojava, aturdindo a mente. Assim vi que sua mão esquerda, segurando um conta-gotas, lhe vertia nas costas um tipo de líquido retirado de um frasco de vidro. Ahzaez pingava a solução na base de seus ombros e nuca, e ela escorria para a ferida. Sua ofegante respiração denunciava a dor.
Eu não podia parar de observá-lo. Relutava com a vontade obscura de invadir seu íntimo momento, todavia, igualmente era abraçada por um medo e uma curiosidade excitante, desenfreadas sensações que me mantinham submissa àquela tênue fresta. Então, Ahzaez virou-se. Olhando diretamente em meus olhos. Em assombro, afastei-me da porta, contudo, não evadi. Logo a notei abrir-se e a sombra do corpo de Ahzaez fez-se pelo assoalho iluminado apenas pelas velas. Quando ele surgiu entre sombras e cálidos lumes, vi a perfeição de seu torso e, nele, outra grande ferida similar a um sigilo antigo, talvez uma mescla de Ankh e o símbolo invertido da Ascendência. Sua tez suava como outrora a minha suou, ou melhor, como na realidade suou em completo espanto pelas anomalias. Diferente de mim, naquele perverso sonho lúcido, Ahzaez não expressava nenhum temor, nenhuma emoção. Portanto, era mesmo ele. Sempre incólume.
— Precisas de algo, Dama Saeeri? — Dissera, austero. Eu estava arfante, como se acometida por uma súbita falta de ar. Eu o temia e era-me difícil não observar sua ferida sangrenta, sua tez úmida, as sombras sobre toda a cena mórbida. Meu corpo não respondia à minha intenção de movimento, minha voz não espargia pelo silêncio. — Saeeri? — Murmurou, aproximando-se de mim.
— O que... houve? — Sussurrei, preocupada com a ferida, quando ele estava próximo. Senti-me impulsionada a tocar aquele símbolo, porém, tive o despertar da consciência e notei que estava sonhando; evitei minhas ações e falas, tentando modificá-las; como se eu guiasse minha própria mente, empenhando-me em convencer-me de agir diferente daquilo. Era em vão. Ahzaez olhou para meus lábios e tocou, levemente, meu braço, levando meus dedos à lesão de seu torso. Toquei-o com gentileza e Ahzaez, em grave gemido, expressou a dor horrífica que sentia, embora se contivesse em demonstrar. Meus dedos umidificaram-se pelo sangue e não me demorei tocando-o, evidentemente; era aflitivo vê-lo sofrer daquela forma. — Por que...? — Soprei somente a ele e seus olhos se aprofundaram nos meus. Seu semblante tornou-se sombrio e triste. Despertei de súbito neste átimo. Outra vez assustada, com o coração frenético. Era manhã, o alvor despontava sutil, sua luz traspassava a janela ornamental; não demorei a notar que havia vívido sangue em meus dedos.
A Mansão Negra
Doutora Saeeri Heigger é convocada para investigar os sonhos aterradores de uma criança de nove anos. Entretanto, o menino pertence à família Sttrattan e reside na Mansão Negra. Convencida de que se trata de apenas mais um caso clínico, Saeeri aceita a proposta, mas, parece que o que dizem sobre os Sttrattan é pior do que ela imaginava e os horrores oníricos vão além da mente de seu pequeno paciente. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 2: Inquietação Profunda — A Mansão Negra
Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e, às vinte horas, eu a vi…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e, às vinte horas, eu a vi. Imponente e obscura entre o denso arvoredo: a Mansão Negra. Passei o dia descansando em um chalé próximo e havia me impressionado com a imensidão verdinegra, dali já avistada, da floresta abissal; era de uma altura tenebrosa, ponderei como seria adentrar sua densidade e tive de fazê-lo logo depois, mesmo por um tanto simbólico, pois a mansão não ficava tão profunda no balcedo.
O cocheiro, criatura contadora de histórias, passara o dia revelando lendas locais, pois estava ocioso, porém, no caminho, ele incorporou um silêncio bizarro que eu não ousei questionar, pois que, de algum modo, eu compreendia a razão. A noite era lúgubre e insalubre; o poder da floresta Alpha Morttam — e agora não poderia chamá-la tão somente de Amorttam, pois era amedrontadora demais para ter seu nome amenizado, pois seu poder me submetia a um tremor contínuo — era coercitivo, olhá-la era amedrontador; decerto aquelas árvores alcançavam de 100 a 200 metros de altura tal como ouvi dizer por aqueles que outrora visitaram o local, tal como eu fazia naquele momento. E os sonidos, cânticos de criaturas jamais vistas, ecoavam vindos do arvoredo alto e sombrio. Tamanha era a flora perene que o ar úmido carregado sufocava em certo grau, era imponente, angustiava os pulmões. Era medonho e fascinante.
Compreendi, naquele átimo, a razão pela qual havia tantas lendas sobre aquela selva; assim como assimilei, perfeitamente, o motivo de Vonssihren proibir que pessoas explorem o local; deduzo que sua inimizade com Krvier tenha emergido daí, nos tempos ancestrais, quando a mansão fora erguida sem a concordância de Soron, adentro de Amorttam, sendo preciso derrubar algumas árvores. Soron Vonssihren sempre fora um profundo defensor da natureza e sua aguçada intuição o mantivera firme a respeito de qualquer sondagem, mínima que fosse, em quaisquer partes de Morttam. No entanto, o início dessa imponente floresta estava à minha frente; era como alcançar os pés de um titã. Era tão alta que, mesmo exausta de toda a longa viagem ininterrupta, despertei diante dela, com os olhos abertos ao máximo, para enxergar a sua silhueta negra com precisão.
Era noite, cabalística noite, e deixei o cocheiro, despedindo-me em silêncio; ele decerto estava amedrontado e eu ainda mais. A aura sombria acelerava o coração e caminhei, aflita e encantada, pela singela estrada que levava à Mansão. A cada passo, ouvia sons indescritíveis... pássaros, eu suponho... corujas? Lobos, talvez, ou uma das míticas criaturas dos contos de fadas. Grilos, cigarras, insetos e o vento que tornava aquela folhagem em uma colossal monstruosidade viva. E como era escuro! Minha candeia era um vagalume naquele labirinto índigo-anoitecido.
Se não bastasse a monumental natureza umbrífera, após uma caminhada de dez minutos, vi com uma perfeição fúnebre aquela arquitetura pontiaguda e negra, cintilante em seu negrume, pois tivera diversas partes esculpidas em obsidiana e, portanto, reluzia em um esplendor mórbido. O lugar era mesmo tenebroso; o que o amenizava eram as velas nas fenestras, pelo lado de dentro, gerando luz; embora no bruxulear das velas, tudo ao redor se tornasse sombras anormais, distorcidas, apressivas em um mistério aterrador. Nunca vi arquitetura como aquela; dizem que assim o é no império Krvieröm, mas, sinceramente, não tenho coragem alguma para deixar as terras de Sihren e enfrentar o gelo do Anti-Ártico, ainda mais após sentir a energia que emana daquela arquitetura.
Aprendi que o ceticismo pode ser um grande problema quando se pretende ir mais à fundo na existencialidade humana, então, nunca desconsiderei o que senti; diante da Mansão Negra, eu tive medo... e a atmosfera sepulcral do lugar era sinistra em um nível perturbador e, ao mesmo tempo, sutil. Havia também um odor... e compreendo que não seja possível acreditar... mas, vez ou outra, vinha-me o cheiro de sangue às narinas e, não, não era o meu sangue vertendo por razões fisiológicas; foi a primeira coisa que verifiquei quando o odor macabro se difundiu no primeiro momento.
Bati com a aldrava após retomar meu fôlego. A porta abriu-se após poucos segundos, era ornamental, ostensiva; e além de complexos ornatos volutais em obsidiana, havia arabescos em ouro puro. Assim, um homem apareceu à minha frente enquanto o silêncio mórbido dos umbrais abrindo-se afligiam-me. Ele me olhou... intensamente... como a noite faria com a manhã, se a pudesse olhar... isso me estremeceu. Apresentei-me após ajustar a voz para não evidenciar meu tênue descontrole com todo aquele lugar. O homem tinha a beleza de um anjo caído, vestia-se como um Dom, todo em tons de preto, tinha olhos claros, azuis-cinéreos, suas roupas possuíam uma elegância surreal, a qual só vi no castelo de Vonssihren — o que reafirmava a ligação dos Sttrattan com os Soberanos. Ele era alto, forte como se podia notar. Olhou-me nos olhos, íntimo por um breve instante, em silêncio. Senti-me n’um ardor sombrio e por ele fui convidada a entrar a partir de um singelo sinal e uma reverência... ele não me tocou... e eu nunca esquecerei de seu olhar... o semblante do homem deixara-me realmente ébria, de modo diferente, mas tanto quanto aquela arquitetura e aquela mata espessa.
Não ouvi a ornamental porta se fechar, mas senti cessar a brisa gélida do arvoredo. Por dentro, a Mansão era ainda mais escura, luzidia pelos motivos já citados, e lauta. Um imenso lustre feérico de ouro, com velas negras, iluminava o salão de entrada, o qual era vazio de mobília, possuindo apenas uma belíssima alfombra jaqguar em preto e dourado e uma mesa de centro, em atro cedro — servindo para o apoio de dois cântaros de ouro e uma estátua de uma criatura horrenda, que eu diria ser uma gárgula, contudo, dentro de um cômodo? Não fazia sentido. Vi alguns pilares de sustentação da arquitetura; meia dúzia de portas ao derredor, duas grandiosas escadas para o andar superior. E mais portas.
— É um prazer conhecê-la, Dama Heigger. — Proferiu o homem, sua voz assemelhava-se ao vaporoso ar soturno daquela mansão e seu olhar me invadira mais ainda. Ele caminhava, eu o seguia. Antes que eu o questionasse sobre seu nome, fomos interrompidos pelo mordomo Ertthan que logo recolheu minhas malas, levando-as pela escada imponente. — Sou Ahzaez Sttrattan — Disse, próximo. Ahzaez era-me familiar. Seu rosto era esguio, contudo, seu porte era robusto; suas olheiras eram fundas, embora amainassem no tom de sua pele, como se realçassem sua beleza demoníaca. O que me incomodava era o olhar, a expressão de seu semblante, a qual já mencionei. — Ehllenor virá em breve. — Anunciou assim que adentramos aos umbrais de um dos aposentos. Vi uma lareira acesa, crepitava contra o silêncio; era uma sala confortável, diferente dos poucos outros lugares que andejei por ali. — Fique à vontade. — Ahzaez fechara a porta após se despedir; sorrira pela educação, no entanto, não pude fazer o mesmo, pois, o seu sorriso era ainda mais lutuoso do que sua face soturna; isso trouxera-me uma imediata turvação.
~ ❦ ~
Sozinha, observei o cômodo, mas sem objetivos; apenas olhei. De toda a mobília de igual luxo como o restante da Mansão, e entre todo o mobiliário escuro como a noite, um item em especial reluzira aos meus olhos e, dele, me aproximei. Era pequeno o suficiente para que eu pudesse segurá-lo, porém, grande o suficiente para que eu hesitasse em mantê-lo erguido com apenas uma de minhas mãos — embora fosse possível. Diferente do que vi, este objeto não era de ouro ou obsidiana; era de Sirenniha e pesava, o que me levou a crer que era pura. Tinha a forma de uma libélula, parecia haver algo em suas asas, lapidados como letras ancestrais de alguma linguagem antiga; Soron Vonssihren sempre apreciou o estudo da linguagem e escrita; porventura — deduzi — fosse um objeto dado por ele.
— Li’ibelum... — Ouvi e, de súbito, quebrando o silêncio, assombrei-me olhando rapidamente em direção à voz feminina. Vi, com o coração frenético, uma mulher cuja aparência indicava que ela possuía uma idade semelhante à minha. Usava um belo vestido vitoriano, tal como o meu, no entanto, o seu era de um preto brilhante e tinha, sobre ele, um chambre de renda negrume e aveludada. Seus cabelos ondulados estavam soltos, mas algumas mechas curvas se prendiam para trás das orelhas. Seus olhos eram azuis-cinéreos e, nas trevas daquela sala, ficavam ainda mais claros. Seu rosto era gentil e expressava-se em uma fisionomia de apreensão. — Dada por Vonssihren. — Dissera. — Perdoa-me por assustá-la. Sou-me Ehllenor. — Ela estendeu-me sua mão para um cumprimento formal.
— As portas são bem silenciosas aqui. — Expressei, colocando a libélula de volta em seu devido recôndito. Ehllenor sorriu, no entanto, não parecia feliz.
— Sim... todas elas... é algo feito por... tu sabes quem. E se há alguém que sabe o motivo, este é, decerto, apenas ele. — Lamuriou, sentando-se em uma das poltronas próximas da lareira.
— O que é Li’ibelum? — Inquiri por uma curiosidade imaculada. A Dama pediu-me para levar o artefato até ela e, assim que lhe dei o objeto, sentei-me na poltrona ao lado.
— Soron é um verdadeiro Soberano, não é? — Dissera enquanto afagava o artefato, olhando-o atenta. — Revelei-o sobre os pesadelos de Morgion e, então, ele me enviou este artigo único, todo lapidado em Sirenniha. — Ehllenor colocou a libélula na mesa de canto que separava nossas poltronas. — Ele disse que ela acalmaria o sono do pequeno, no entanto, agora que tu estás aqui, creio que seja importante que vejas o que acontece com ele e saibas da seus pesadelos cruéis.
— Li’ibelum fora útil? — Questionei em busca de compreensão acerca de suas crenças. Ehllenor sorriu em uma tristeza fidagal. — Chegara hoje no entardecer... — Silenciamos. — Estás exausta, acredito, preferirás conhecer Morgion amanhã... — Afirmara. Entendi o seu desejo e a respondi como devia, mesmo estando, de fato, exausta.
— Estou pronta para conhecê-lo, senhorita Ehllenor. — Ela suspirou e tal suspiro fora, ao que me parecia, o máximo de gáudio que ela poderia sentir.
Fui levada por Ehllenor até o quarto do jovem Morgion, uma criança cuja face não deveria nutrir tamanha angústia; seus olhos eram como covas, sua tristura era uma morbidez vívida, como se houvesse a presença fúnebre do horror sobre seus ombros infantis. Ainda assim, abraçara-me com afável cortesia proferindo que eu o salvaria “dele”. Embora fosse já tarde da noite, notei que Ehllenor e Morgion estavam despertos e esperançosos; guardavam, dentro de seus peitos amedrontados, toda uma narrativa que se retinha principalmente em suas gargantas. Eu não poderia adormecer tranquila sabendo que, por mais uma lôbrega noite, eles teriam que guardar essa dor encarcerada nas entranhas. Então eu o questionei.
— Ele quem? — A fatídica pergunta. Buscarei transcrever a exata descrição da criança, com todo o lúdico pertencente à sua essência infantil e, em razão disto, o trecho de sua narrativa estará em itálico, para se destacar daquilo que redijo, intercalando com a minha análise entre os íntegros trechos.
Morgion descrevera uma criatura humanoide, com duas bocas e dentes afiados; de corpo retorcido e forte, “sua pele era como tendões com lacunas entre eles”; não tinha olhos e suas mãos eram coladas em seu corpo, retorciam-se junto; “correntes saíam de dentro de sua carne” fazendo um tinido espectral, “disforme e medonho”. Aparecera no sonho em que Morgion caminhava por Vonssihren, onde gostava de ir ao visitar a capital; o parque do lago onde um cisne o levava a passear. Então, “eu o avistei próximo das palmeiras que estavam maiores e, visivelmente, mortas... uma névoa cobria tudo... e ele se contorcia em minha direção... murmurava meu nome e eu sentia dor de medo”. A dor, ele contara, era real e intensa, o que tornara tudo mais horrível; em certo momento, um sonido execrável espargiu das bocas da criatura que, pouco a pouco, se aproximava do cisne qual Morgion estava; o animal não respondeu bem à aproximação e começou a se agitar, batendo suas asas nas águas “que se tornaram sangue negro”.
Explorando com indagações cuidadosas, descobri que Morgion não era uma criança cujos pais liam histórias de terror — embora a Mansão Negra soasse-me como um horror por si só; tampouco ouvira algo, nos últimos tempos, a respeito de criaturas grotescas. Preocupei-me mais com o lago de sangue negro, ainda que a criatura fosse descrita como “perturbadora e ameaçadora, sendo que a cada vez que se aproximava de mim, meu coração acelerava e eu sentia que poderia morrer”. N'um dos sonhos anteriores, o primeiro qual resultou na carta de Ehllenor, o menino fora acometido por uma paralisia de agoníria, isto é, sonhou que havia acordado, levantou-se de sua cama e caminhou à antessala até ser surpreendido pelo mesmo ser feito de tensões e pele putrefata, no final do saguão, movimentando-se lentamente, contorcendo-se e grunhindo enquanto se aproximava do petiz que estremecia de medo — uma vez que a criatura era muito alta, fétida e carregava essas correntes que ecoavam um sonido metálico fantasmagórico. O menino despertou ensanguentado, tivera seus dois pulsos mordidos pela criatura, embora, na realidade, estivesse preso a espinhos n’um arbusto do jardim. Nunca ouvi um relato de sonho tão lúcido e esmiuçado. Morgion ficou preso, não conseguia se mover conforme a entidade o devorava. Ele viu de perto “o sangue e minha pele dilacerando nas presas da coisa inumana”. Então, desperto aos gritos de sua mãe, o menino saiu do transe no exato instante em que a coisa devorou as mãos do garoto. “Eu... senti a dor, senhorita” — murmurara com pesar.
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Deixamo-lo no quarto logo após alguns diálogos, senti que a atmosfera densificada em razão das descrições tão vívidas e, para não incentivar ainda mais a sua mente infantil, pedi para que descansasse. Ehllenor ordenou que uma de suas amas acompanhasse o garoto por um tempo, para que ela pudesse me levar até meus aposentos. Enquanto caminhávamos, notei diversos quadros nas paredes do passadiço principal, o mesmo qual Morgion vira a criatura pela primeira vez. Era uma passagem mais estreita do que costumam ser e as dezenas de molduras possuíam pinturas do que deduzi serem a linhagem Sttrattam. Indaguei Ehllenor sobre a imagem que possuía uma mulher, símil a ela, porém muito mais jovem. A resposta fora previsível. Tratava-se de Lilith Sttrattan em seus dezoito anos de idade. Minha questão adviera por um motivo. A partir de Lilith, todas as gerações seguintes eram retratas usando roupas negras, tal como Ehllenor, Morgion e Ahzaez usavam. Esclarecera-me Ehllenor que todos os retratos estavam em ordem geracional. Uma coisa peculiar que também pude notar: algumas pessoas tinham olhos estranhos, com olhar vago, e rostos cheios, como se inchados.
— Noto a mudança da cor... dos tecidos... — Proferi com a intenção de sondar um pouco mais a história da família. Ehllenor ficara em silêncio.
Chegamos ao quarto, fui orientada sobre os horários e instruída a acordar para o desjejum pontualmente, para que eu pudesse conhecer Dama Lilith cuja rotina era bastante severa. Compreendi todas as circunstâncias e adentrei ao meu cômodo, vedando-me para o lado de dentro. O silêncio absurdo da porta era agoniante. No entanto, o quarto possuía sua dose de conforto, ainda que escuro e negro; tudo era envolto por uma riqueza única. Havia alguns retratos sobre a cômoda onde resguardei meus pertences, observei alguns dos rostos. Vi um vaso com uma espécie de planta cujas folhas eram no mesmo tom de tudo o que ali residia. À janela, a expansão terrífica de Amorttam e a lua minguante que logo daria lugar à escuridão perpétua do universo. Despi-me e escolhi um damanoute branco, confesso que com o propósito, ao menos para efeito emocional e mental, de não me sentir pertencente àquele lugar. Assim, adormeci, entre o veludo negro e com a exaustão que, naquele instante, era ainda mais violenta.
A Mansão Negra
Doutora Saeeri Heigger é convocada para investigar os sonhos aterradores de uma criança de nove anos. Entretanto, o menino pertence à família Sttrattan e reside na Mansão Negra. Convencida de que se trata de apenas mais um caso clínico, Saeeri aceita a proposta, mas, parece que o que dizem sobre os Sttrattan é pior do que ela imaginava e os horrores oníricos vão além da mente de seu pequeno paciente. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Capítulo 1: Um Sopro de Pressa — A Mansão Negra
O perfume dos lihrios de ébano serena meu coração desde então; por muito quando as visões daqueles…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O perfume dos lihrios de ébano serena meu coração desde então; por muito, quando as visões daqueles momentos perturbam a minha memória, recorro à essência vestal de suas pétalas lutuosas e vejo o pólen laranjim manchar-me o cimo de meu nariz. Colho-os sempre n’aurora e descanso seus caules n’água fria, adoçada com stevia; costumo escolher um cântaro de cerâmica... deixo-o ao lado de minha Vërmanen. E escrevo. Para tirar esses vis numes que murmuram presos em minh’alma... murmuram tal como lamuria o lôbrego jardim da Mansão Negra, onde vi, naquele primeiro dia, a sublimidade dos galhos das paineiras se esgueirando secos entre si, criando um emaranhado assombroso junto aos cedros mirrados pela seca do outono, entretanto, havia mais.
Enquanto sussurrava o inverno de Nottsoen, gemia a mastodôntica floresta de Amorttam onde os mognos, com suas folhas perenes, poderiam ressoar a verdejante esperança, porém, junto com outras espécies da mata, tudo apenas amedrontava. Em contraste com a morte das decíduas do jardim, a floresta de Amorttam era profunda e frondosa — e ainda é. Posso dizer que o mesmo acontece em todos os períodos sazonais, até quando, na primavera, os ipês florescem e as orquídeas se multiplicam. Por infortúnio, ou não, estive aos pés de Amorttam, pela primeira vez, no fim do inverno, no mês da escuridão perpétua e, por fatídico destino, no mês das duas luas novas. O inverno d’este lugar traz a névoa que sempre se concentra e a molúria que se esparge mórbida e silente, como se domadas pela Mansão Negra.
A Mansão Negra fora erguida no ano cinquenta, por Damon Krvier, o Soberano do Império Krvieröm. Esta é a única relíquia que ele deixara nas terras de Sihren. Em algum momento, a Mansão tornou-se o Lar de uma família que, até então, eu compreendia como, tão somente, uma família peculiar: a Família Sttrattan. A razão — a que me fora explicada pelos conhecedores menos distantes da população local e, em especial, dos Sttrattan — pela qual decidiram por habitar a Mansão Negra, estava ligada intimamente à admiração de Dama Lilith Sttrattan pela arquitetura fascinante do local e pelo habitat que a envolvia. O Soberano do Império Sihren, Dom Soron Vonssihren, proibiu que a Mansão Negra fosse habitada por quaisquer pessoas desde que Damon Krvier deixara Sihren. Por razões obscuras, foi permitido que a Família Sttrattan tomasse posse do lugar.
O povo Sirehnian fomentava suas lendas; alastrava suas pressuposições — dentre elas havia uma que se destacava. Muitos acreditavam que a Dama Lilith Sttrattan tivera um envolvimento com o Soberano Damon Krvier e, sendo uma verdade incontestável a imortalidade dos Soberanos, Dom Vonssihren teria permitido que Lilith ficasse na Mansão Negra para impedir que o local se tornasse um umbral ou totem para Damon — dado que, supostamente, ele estaria envolvido com coisas ocultas. Lilith, por sua vez, em profunda mágoa por ter sido enganada por Krvier, teria jurado a Vonssihren que sua família manteria a Mansão Negra protegida da manipulação diabólica do Soberano inimigo. Sendo assim, teriam selado um acordo e, desde então, os Sttrattan mantiveram a jura primeva. Se isso é verdade, eu não sabia; o mistério era denso como a morte e eu sequer imaginava que os rumores terríficos eram, na verdade, brandos ao extremo se comparados àquilo que viria ao meu encontro durante minha estadia.
As bizarrices da Mansão Negra começaram a ser compartilhadas pelas histórias narradas e escritas ao longo dos anos desde que, com a moradia habitada, pessoas passaram a visitar a residência, tais como jardineiros, professores de música e dança que davam aulas particulares para os filhos Sttrattan; vendedores, cuidadores, entre outros serviços contratados pela família. De vultos pelos corredores à sussurros mórbidos pelo jardim. A Mansão era, decerto, alvo de alguma força oculta e se eu não tivesse passado tantas noites em suas entranhas, continuaria cética a respeito das fábulas e, com toda a certeza, estas palavras não estariam sendo escritas agora.
~ ❦ ~
Há dez anos, em um dos mais mórbidos invernos que passei, fui chamada à Mansão Negra pela filha mais velha dos Sttrattan, senhorita Ehllenor. De acordo com o que conversáramos por cartas, Ehllenor temia que seu filho de nove anos, Morgion, estivesse passando por algum problema de caráter emocional ou mental, pois, a criança tinha grandiosas crises noturnas durante o sono e, por vezes, passava pela experiência de sonambulismo e agoníria ao mesmo tempo, o que em perigo o colocava quase todas as vezes. Compreendi sua aflição, em especial, n’uma das cartas que fora escrita e entregue uma semana antes de minha partida de Numnura para os limiares de Amorttam; nesta missiva — parte disponível na íntegra —, Ehllenor revelara uma coisa pertinente e bastante assombrosa.
Para Saeeri Heigger
De Ehllenor Strattan Vvelusch
20 de Selenoor, 349
Caríssima Saeeri, escrevo-te antes do previsto, pois, algo perturbador ocorrera na noite passada. Perdoa-me pelas alarmantes palavras que, com infortúnio, usarei neste soturno papel, pois, tamanha fora a minha aflição que não posso poupá-las para te descrever a verdade. Adianto, sobremaneira, que implorarei, em todas as linhas, que antecipes tua vinda à Amorttam para que possas, com o teu conhecimento sobre a psique humana, ajudar-me a guiar, da melhor forma, o meu pequeno Morgion. Por favor, minha querida, sabes o quanto sofre uma mãe cujo coração pertence a um Corvo-dos-mares; o pai do meu pequeno lume raramente está presente e isso decerto o afeta. Embora eu o compreenda em seu ofício para com o Soberano Vonssihren, dói-me que ele tenha que ficar distante por longos períodos, inda mais quando tudo parece sair do meu controle. Compreendo, igualmente, que deixar Numnura e viajar por inúmeros dias até Amorttam será sofrível, no entanto, disponibilizo a ti tudo o que é necessário. Inclusive, neste envelope estão três Siremihtas, isso deverá ser suficiente para que viajes com conforto e segurança.
Peço, com profunda súplica, que escrevas para mim antes de tua partida — a qual espero que seja emergente, ao tardar da manhã em que esta missiva te for entregue; deste modo, poderei monitorar o tempo da tua vinda e, reforço, que não te distraias pelo caminho; prometo proporcionar-te um retorno mais sereno após a tua estadia e, então, poderás usufruir das paisagens ao longo de Sihren e de todas as singelas províncias cuja cultura é única e as histórias surpreendem. Esclareço que tais Siremihtas antecipadas não estão vinculadas ao valor do teu ofício, são à parte, para que consideres a prioridade dos teus próximos dias de Nottsoen e não se demore para aprontar tuas malas. Perdoa-me o desespero e insistência, creio que, agora, seja de exímia importância lhe revelar o último ocorrido com Morgion, meu menino. Leia com atenção, caríssima; rogo-te.
Estávamos adormecidos, beirava à hora lôbrega, como o costume que tu bem conheces em razão de minhas cartas anteriores; estava frio como um manto de morte quando despertei assustada, ouvindo Morgion lamuriar em sua cama. Fiz o que a senhorita recomendara, não o acordei para que o episódio não o causasse traumas e sofrimento; todavia, eu o via, ó sim, sua expressão era extremamente assustadora, senhorita; era um rosto que, ouso escrever-te, não era o de meu pequeno. Sorria um sorriso glacial e oblíquo, seus olhos abertos e arregalados evidenciavam suas retinas que tremiam e vageavam como se acompanhassem cenas assustadoras; nunca ouvi falar sobre ser isso possível; por vezes sumiam, mantendo apenas a esclera nívea e horrenda. Sua tez empalidecida assimilava-se quase hialina, além de úmida de um suor gélido inenarrável. Ele lamuriava dezenas de frases mórbidas e, quando o toquei em sua fronte, com um pano aquecido, pois temi que se tratasse de estado febril, ele se assentou à cama quieto — pensei que se levantaria para caminhar à esmo, como nos dias antecessores, porém, movimentou-se estranhamente, olhando-me com suas escleras... quão atro, minha querida... arrepiei-me de imediato e o ouvi sussurrar o inaudível quando, súbito como um relâmpago, ele me atacou, n’uma inominável rapidez, na tentativa de morder-me o pescoço.
Saeeri, não sei como proferir o verdadeiro medo que senti... decerto sabes das lendas percorridas pelos quatro quantos de Sihren a respeito desta Mansão; não creio que seja real, no entanto, desde que nos hospedamos aqui para que a solidão de meu amado Atos não nos impactasse em demasia, Morgion tem vivenciado o mais horrífico e não vejo saída que não seja rogar às quaisquer boas entidades sobre-humanas, para que possam purificar este mausoléu. Não me recordo de vivenciar tamanhos horrores quando cá vivi na tenra infância, por mais escuros que fossem esses corredores; e agora vejo todos os mais terríficos horrores amargurarem a infância de meu menino. Sua feição diabólica não deixa minha mente e, agora, eu é que sofro dos pesadelos mais ensandecidos. Tive de fazer algo por Morgion naquele momento, compreende? Mesmo debaixo de um medo abíssico, segurei os ombros do petiz e o chacoalhei bradando seu nome a ponto de ecoar por toda a Mansão pelas portas entreabertas. Mamãe despertara, todavia, ao chegar ao aposento em que estávamos, com seu singelo castiçal, Morgion já havia saído do transe e chorava de soluçar, pobre pequeno, tão puro, tão atormentado em pânico.
Ehllenor descrevera um estado de sono profundo, onde os olhos movimentam-se de acordo com os sonhos e o corpo é canalizado para o torpor muscular. Algo comum nos estudos soniais e neurológicos; entretanto, era evidente o distúrbio e assombrosas as descrições acerca da face da criança; pude supor ser um sonambulismo catatônico ou, porventura, a patologia da condição patológica. Professor Nehri nomeara, a posteriori, o episódio de “agoníria túrbida com prosopagnosia estúrdia” quando lhe contei a respeito do caso em uma troca de missivas.
Não possuindo acesso ao paciente, era inviável dar diagnósticos, no entanto, indiscutível deduzir algumas possibilidades. Diante à missiva escrita por Ehllenor, lembrei-me de Maelli Vonssihren, nossa Mestra nos estudos psíquicos, suas palavras imersas por uma sabedoria única diziam: “A respeito da mente, toda a dedução é uma verdade em algum grau e todo o estudo é apenas um início, seja hoje ou daqui a milhões de anos”. Explorar a mente requer lucidez e um pouco de loucura. Evidente que preparei minha partida no mesmo dia, escrevi-a como solicitado e vi-me no primeiro trem para Amorttam antes do anoitecer.
A Mansão Negra
Doutora Saeeri Heigger é convocada para investigar os sonhos aterradores de uma criança de nove anos. Entretanto, o menino pertence à família Sttrattan e reside na Mansão Negra. Convencida de que se trata de apenas mais um caso clínico, Saeeri aceita a proposta, mas, parece que o que dizem sobre os Sttrattan é pior do que ela imaginava e os horrores oníricos vão além da mente de seu pequeno paciente. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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Lotus Aqua Obscura
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão.
Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”.
Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”.
Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ― juro aos santos e profanos ― eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila.
Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.
Sete Abismos — Abyssalum
Espere encontrar em Sete Abismos um universo de contos terríficos que se vinculam nas entrelinhas, causando uma imersão integral no horror de suas entranhas. Espere ser perturbado por complexas mentes de personagens distintos e por mistérios cujas faces se desvendam no absurdo; deguste de uma leitura com atmosfera hedionda que perdura mesmo nos contos mais breves. Descubra o horror que reside no inofensivo e perceba que de tudo, de absolutamente tudo, pode emergir uma monstruosidade inimaginável. Prepare seu estômago, a repugnância surgirá e ela é imprevisível. » Leia todos os contos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
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A Maldade Humana
Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera da vida. Ela é o sopro contrário na natureza que, mesmo criadora da bênção da razão, não se vê livre das suas deficiências excepcionais, entretanto, quando a exceção é mais comum que o anfêmero, os papéis de invertem.
Posso ousar em dizer que a maldade humana está essencialmente alojada na ignorância — os véus do desconhecimento do que é ser; o manto da insipiência causado pelo circunstancial. Entretanto, a escolha individual ainda tem um papel fundamental e, por vezes, ela não excede seu apedeutismo. Isso me leva a crer que a ignorância é fruto híbrido de duas espécimes putrefatas: decisão subjetiva e influência do meio.
O ego é outro culpado; necessitar, pois, pertencer a algo além de si, quando não se basta em seu próprio interior. Ser capaz de quaisquer atrocidades para sentir tal dopamina-do-pertencimento — a qual, por sua vez, é sempre uma mentira bem-contada. Ou, ainda pior, ser capaz de horrores por não estar pertencido; buscar vingança e dar sofrimento a outrem por puro ego ferido. O cúmulo da ignorância.
O conhecimento, a informação e a sabedoria se aliam para dissipar essas tendências doentias, porém, não se resolvem em si mesmos. Do conhecimento, espera-se mentes capazes de assimilá-lo; da informação, espera-se mentes capazes de refutá-la e comprová-la; da sabedoria, espera-se mentes capazes de compreendê-la. Se, para evitar que a maldade floresce em seu cerne, é preciso cultivas tais capacidades — as quais não se igualam a uma tarefa simples tal qual respirar — percebemos que, a cada nova geração, a escassez da maldade parece mais utópica.
Ainda lidamos com a tendência humana em achar que conhecimento é saber da verdade e defendê-la — quando, na verdade, conhecimento é eterna busca por infindáveis verdades e a quando se começa a defender uma única ideia “perfeita”, torna-se idealismo. Ainda lidamos com a comum ideia de que a informação é tudo aquilo que nos vem de encontro no mundo — quando, na verdade, informação é base de averiguação de fatos. Continuamos erroneamente crentes de que a sabedoria é um estado sublime, religioso ou pertencente apenas aos idosos que viveram demais e sabem muito— quando, na verdade, ser sábio é ser capaz de compreender toda a forma de existência sem o filtro da sua própria vida — crianças são boas nisso e, portanto, têm mais sabedoria do que idosos, adolescentes ou adultos.
A maldade humana, portanto, floresce onde as certezas adubam a mente; onde os egos são a verdade líquida que rega a terra psíquica. A maldade humana se ascende diante da maldade humana — alimentando-se ad aeternum. Indiferença, inveja e mágoa são o capim d’este jardim imundo e violento. É mais fácil, enfim, deixar que as coisas sigam os caminhos quais já foram trilhados — quão árduo é ser mestre nas três capacidades essenciais contra a maldade humana! Quem está disposto? Quem estaria disposto? Quem ousaria a tal disposição, mesmo sabendo que passará por injustiças, não terá o ego agraciado, sofrerá mais do que os outros e ainda verá a decadência com os olhos bem abertos? Quem resistiria?
É uma escolha e, como tal, tem o ônus e o bônus. É uma escolha e, como tal, se não for conscientemente tomada, há de ser imposta como uma faísca infernal acesa sem consentimento. Das verdades do mundo humano, eis uma das minhas preferidas: Não duvide da sua capacidade de ser influenciado, muito menos de ser convencido — isso acontece a todo o instante. Não acredite. Sempre pense por si mesmo. Faça suas escolhas e esteja consciente das consequências. E, se me permite, que a prudência e a empatia sejam as únicas certezas da sua vida — as únicas que merecem ser defendidas em uma guerra política
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
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Capítulo 10: O Oráculo das 7 Profecias
Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Uma monodia litúrgica bizarra atravessara nossas almas, tão mais que os tímpanos. A morte parecia habitar o derredor, as velas tremeluziam n’um escarlate-sanguíneo oxidado e meu coração era oprimido como nunca outrora fora. Eu sentia ser observada pela escuridão enrubescida. Eu e Liliana estávamos de frente aos umbrais do aposento-cárcere de Naomie e Noellie, eles foram abertos como se soubessem de nossa chegada; O cântico lôbrego era corpóreo, embora translúcido, vinha de todos e de nenhum lugar. Além do seu entoar mórbido, habitava um silêncio pouco silente, farto de um eco contínuo e tétrico, capaz de perturbar qualquer existência. Eu era cética sobre ser possível que alguém vivesse naquela alcova de horror oculto; como um nefasto véu esotérico.
Liliana alertara-me da aura insalubre do local, todavia, não adentrava em meu âmago a verdade dita por suas méleas palavras. Era, decerto, — eu pensava — mais um cômodo misterioso deste alcácer, só isso e nada mais. Arrependi-me do ceticismo quando vi aquelas gêmeas siamesas, seus corpos colados como um experimento macabro da existência. Não eram gêmeas siamesas comuns, compreende? Algo de dantesco habitava seus olhos vítreos; uma mancha negrume abaixo de seus olhos indicavam um choro perpétuo e seus pequenos lábios curvados para baixo, enegrecidos em tons púrpura, pareciam mortos; uma delas possuía uma cruz em sua fronte, como se marcada à ferro, uma pérola de lótus negra no centro do símbolo, estava encrustada na tez. Senti-me arrepiar. Elas usavam um tipo de vestido negro, cobrindo todo o corpo, dos pés ao pescoço. Com detalhes em ouro envelhecido. Usavam luvas e seguravam cartas em suas mãos.
Na parede carmim detrás delas, dezenas de cabeças de coelhos de todas as espécies inimagináveis; como quadros em prismas de vidro e moldura de ouro envelhecido. Muitas já em estado avançado de decomposição, não estavam empalhadas. Foram arrancadas e guardadas, como tesouro, nos prismas. Era nojento e sinistro; os olhos vermelhos das espécies vidrados no infinito do quarto escuro.
— Sente-se Áurea Lihran; há muito o que o Oráculo tem para lhe proferir. — Agouraram em uníssono; pois que a voz feminil que possuíam, era abismal em agouro, um vibrar símil ao poço mais profundo. Olhei para Liliana, ela parecia implorar para que eu apenas obedecesse, por isso o fiz. — Saia, Liliana; Áurea já mudou o teu destino, o Oráculo não quer a tua presença. — Ela respirou fundo e as portas se fecharam assim que ela deixou a recôndito. As meninas, se assim posso dizer, sempre falavam juntas, como uma única pessoa. Juntas, igualmente, embaralharam as cartas de suas mãos e, logo, olharam-me; elas tinham uma tristeza profunda na alma, é o que me parecia.
— O Oráculo está estarrecido com a tua visita, Áurea Lihran; ele reconhece o teu poder de vidência. É-lhe uma honra estar em tua presença. — Eu não sabia ao certo o que responder, meu medo era genuíno.
— É um prazer estar... sob a presença de tão grandioso... oráculo... — Hesitei.
— O Oráculo reconhece o teu temor, Áurea Lihran, e sente-se agraciado por ele. Feche teus olhos e sinta o poder do Oráculo, ele te responderá em três verdades e quatro profecias. — Este era o momento pelo qual eu estava ali. Talvez eu mesma me tivesse guiado para aquele lugar morbígero. Entretanto, eu não deveria lhe fazer uma pergunta? Fechei meus olhos e aguardei, enquanto pensava em uma indagação ideal.
— O Oráculo sabe todas as tuas perguntas, Áurea Lihran. — Ouvi e estremeci. O ambiente estava cada vez mais sufocante. Em dado momento, supus estar ouvindo uma voz masculina detrás da porta e logo me preocupei com Liliana. As gêmeas abriram sete cartas sobre a mesa.
— A primeira carta, observe a verdade. O Corvo Esfaqueado: Invertida. A tua inteligência é de inestimável valor, entretanto, Áurea Lihran, há um traidor que habita as tuas proximidades. — A voz delas se modificaram; antes femininas, agora demoníacas e viris. Suas cabeças tornaram-se trêmulas, um tremor célere e inumano. — O Corvo sangra e torna sanguíneo o céu da meia-noite e o sangue é veneno. A adaga no dorso do Corvo é a sutileza mendaz daquele que sorri. — Quando abriram a primeira carta, seus rostos pareceram dissolver.
— Segunda carta, observe a verdade. O Antílope Negro e as Cordas de Juta: Invertido. Tua prudência é admirável, Áurea Lihran; entretanto, a sombra que paira sobre teu crânio é a fênix da decadência e do temor; o negligenciar do teu poder imanente é o preço pela segurança. — Ainda mais rápidos em movimentos súbitos, contudo, naquele instante, lágrimas negrume começaram a verter dos olhos vítreos e, as vozes, cada vez mais terríficas. — Os chifres tocam o solo de lama pútrida e as varejeiras aguardam a carne apodrecer; as patas envoltas na corda de juta mostram a vulnerabilidade do que deveria ser o juízo à dignidade dos aplausos. — Senti uma dor repentina, como se milhares de agulhas perfurassem, em instantâneo, minha tez; olhei para meu corpo e, em cada poro, uma gotícula de sangue nascia. Fiquei horrorizada e ouvi uma forte batida na porta; meus olhos ardiam e eu parecia estar mais fundo em um abismo sem volta.
— Terceira carta, observe a verdade. A Corphidrae e o último elo. — Meu rosto aparecera na carta ao lado da mesma criatura mítica que vi nas águas de Lahgura. Meu sangue agora vertia para o assoalho, com uma lentidão mórbida. — Reconheça-a para que vivam em harmonia; o oblívio advém do paládio próprio da essência quimérica; discernir para o equilíbrio e a revinda d’outora. — As íris delas agora movimentavam-se com a mesma rapidez de suas cabeças e eu sentia minha pele queimar, em especial no braço esquerdo; tentei olhá-lo, porém, algo me fazia não desviar mais os olhos das cartas. Outro estrondo nos umbrais.
— Quarta carta, observe a profecia. — As cabeças das meninas se transfiguraram, fissurando-se ao meio por onde dentes e carne e cérebro ficaram à mostra em sangue e lodo. Um odor fétido escalou-se ao derredor e minhas pupilas dilataram diante o horror e eu sei, pois, a luz que era parca, tornou-se ainda mais exígua e fui obrigada, pela energia densa e tétrica do ambiente, a continuar enxergando cada mínimo detalhe das cartas e das meninas à minha frente. — Lúcifer, a Estrela da Manhã. — Ouvi, entretanto, um terceiro estrondo na porta, ainda maior, resultando em alguém adentrando a alcova obscura e segurando firme em meus ombros, tirando-me da cadeira e afastando-me, à força, do oráculo; ainda assim eu não conseguia deixar de manter meu olhar sobre elas. — Um anjo cairá dos céus... — Foi a última coisa que ouvi do Oráculo.
Ainda confusa, vi uma mulher proferindo palavras ancestrais e arrancando sangue de seu pulso, isso resultou, com mais um fragor, n’um selar da porta que levava ao oráculo. Somente quando selada, fui capaz de voltar a mim mesma, compreendendo o ambiente. Vi novamente a escada que desci com Liliana e vi Liliana olhando-me atônita. Eu estava nos braços de um homem desconhecido, sua pele acastanhada, seu relógio de bolso, seu complexo olhar. E, atrás dele, a mulher que fizera o que me parecera um ritual para selar os umbrais, ela era Olga. Meu próximo átimo de tempo levou-me a perceber meu próprio corpo, o sangue seco em toda a tez e, onde queimava o meu braço com mais afinco, eu vi quatro símbolos em um estigma, queimados à força. Pareciam sigilos.
— Áurea, escute! Estás me ouvindo? — Disse o homem, com sua voz paternal. — Estás à salvo, agora; beba isto. — Apenas obedeci. Parecia sangue. Minhas forças retornavam aos poucos.
— Perdoe-me, querida; eu não imaginava que isso... eu sinto muito. — Lamuriou Liliana. Olga apenas olhava, distante. Eu ainda não compreendia o que estava acontecendo; mas fui levada a outro cômodo, onde o homem que me acudia carregou meu corpo. Liliana e Olga não foram comigo. Ouvi o homem dizer “Eu cuido disso agora, depois vocês a encontrarão no aposento que a pertence”. No leito que não me pertencia, fui colocada pelo homem e ali fiquei, repousando. Mas não dormi. Fiquei observando o homem escrever por longas horas, com a luz baixa, em uma escrivaninha de cedro escuro. Eu o aguardei terminar e esperei que as minhas forças retornassem por completo.
— Bem-vinda de volta, Áurea. — Ouvi, assim que me movimentei, sentando-me na cama confortável. O homem virou-se para mim. — Saudades? — Ouvi, sentindo-me confusa. Ele se ajustou em sua poltrona, para fitar-me com mais atenção. — Áurea, o que te fez ir atrás do Oráculo depois de tudo o que conversamos? — Eu não o respondi, sentia-me merencória... — O Oráculo das Sete Profecias possui uma força inominável, Áurea; se permanecesses ali, serias perseguida pelas sombras deste poder, eternamente. — O homem encostou-se na poltrona, parecia buscar serenidade e paciência. — Olhe para teu pulso esquerdo. — Obedeci. Revi os sigilos. — São selos pherhesístas que assombrarão a tua existência para além deste tempo, para além desta vida. Por sorte, ou melhor, destino, são apenas quatro símbolos.
— Se é tão perigoso... por que mantê-lo no Castelo? Por que mantê-lo vivo? — Indaguei. O homem respirou fundo mais uma vez, não por impaciência, mas parecia-me realmente exausto de algo muito íntimo.
— Não há como destruir o Oráculo. Mantemos em cárcere, pois, é o que está em nosso alcance. Se me permites... — Ele retirou seu casaco e afrouxou sua gravata. — Naomie e Noellie foram escolhidas pelo Oráculo quando, o último manipulador das cartas, foi morto. Trancafiamos as cartas em um baú de unorom; entretanto, tamanho é seu poder, que Naomie e Noellie ouviram o chamado dele e o alcançaram, vindo pelo Espectumbral, o responsável por trazer ao Castelo aqueles que precisam de compreensão e conhecimento. Não tardou para que conseguissem abrir o baú; foi então que percebemos que só seria possível encarcerar o Oráculo, se o fizéssemos junto com seu manipulador. Assim ninguém mais ouviria o chamado.
— Como pude adentrar aquele cômodo, então? Não deveria estar inacessível?
— O teu poder entrou em sintonia com o poder do Oráculo. Liliana, ao guiar-te para os umbrais do cárcere, não imaginava que estaria te direcionando à linha reta desta sincronização. — O homem olhou para seu relógio de bolso e logo o deixou sobre a escrivaninha. — Sobre estar inacessível, o Oráculo, como já mencionei, é profundamente poderoso. Precisamos mantê-lo preso, mas, é importante que tenhamos acesso a ele. Em especial eu, Olga e Drácula. A razão, tu deves imaginar, pois, ficou claro quando te salvamos daquele antro. Olga selou, mais uma vez, os umbrais.
— O que aconteceria, então, comigo? Disseste das sombras... o que significam? — Eu começava a entender.
— Pelo que sei, havia duas possibilidades. A primeira é, com os sete sigilos em tua pele, assim como tantos outros, tu serias perseguida pelas sombras do Oráculo. Ouvindo seus sussurros e lamentos, sendo guiada a fazer o que ele desejasse... eu diria... enlouquecendo... Em outra situação e, sinceramente, é a mais provável, tu tomarias o lugar de Naomie e Noellie.
— Por quê? — Surpreendi-me. Ele sorriu com um estranho deboche.
— Tu sabes que é por causa do teu inestimável poder, Áurea. Isso, decerto, acrescentaria ainda mais valor para as profecias e verdades do Oráculo. Eu não sei o que ele te disse, mas decerto ele já conhecia o teu nome e já sabia o que buscavas. — Ficamos em silêncio. — Áurea... preciso te falar, de novo, sobre o teu poder... — O homem me olhava com uma seriedade pujante. — Tu viste, não é? Que nós a salvaríamos...
— Não... eu... não fazia ideia... — Fui sincera; algo de estranho havia entre nós, parecíamos nos conhecer, mas eu não me recordava.
— A vidência pode parecer um dom celeste, entretanto, não há nada mais perverso do que ser capaz de olhar o futuro dos outros e de si mesmo. E eu sei que tu não apenas viste o futuro de Liliana, como interferiste nele; fazendo-a tomar uma decisão que afetou toda a linha do tempo... eu sei, Áurea, eu sei de tudo o que afeta o tempo.
— Não foi por mal... eu... me assustei quando vi os horrores que ela passaria e imediatamente quis salvá-la... isso nunca aconteceu comigo... eu não sabia como agir... — Expliquei, lacrimante. O homem pareceu intrigado.
— Áurea... tu sabes quem eu sou?
— Não... eu sinto muito... — O homem expressou incredulidade e, ao mesmo tempo, espanto.
— Hum... isso pode ser verdade... — Senti um lapso de tempo, parecia o mesmo que outrora senti quando encontrei Anton. Um clarão súbito e célere. — Compreendo. Compreendo perfeitamente... Áurea, tu precisas abrir os teus olhos e se vincular com a Corphidrae. Sem isso, ambas ficarão entre o sono e a vigília, como se marinheiras de um mesmo veleiro, sem que se conheçam, sob o céu noturno, com duas rodas de leme, sempre opostas. A propósito, mais uma vez eu me apresento, eu sou professor Monm. Manipulo, controlo e compreendo o tempo. — Fiquei um tempo em silêncio, tentando assimilar as informações.
— Há uma Corphidrae dentro de mim... — Proferi, como se buscasse confirmação de Monm.
— Não uma, mas A Corphidrae. A última da espécie, a qual deveria ter morrido em teu ritual de transmutação vampírica.
— No entanto, com a invasão dos Ohrmons, o ritual foi eivado... levando-a ao sofrimento e, de alguma forma, a habitar meu ser... — Mais uma interrogação disfarçada de afirmação.
— Sim... Tu oscilas entre a personalidade da criatura e a tua própria. — Imediatamente lembrei das palavras de Seth.
— Então... ela tentou me matar? Levando-me ao Oráculo? — Monm gargalhou, embora tenha se controlado ao ver minha seriedade.
— A Corphidrae não é a tua inimiga. Ela sabia muito bem que tu não sofrerias o fim que o Oráculo almejava. Estou começando a achar que o Oráculo também sabia. De alguma forma, ambos os poderes, em grandeza, podem ter entrado n’um acordo. E se não me falha a memória, encontrei-te prevendo teu próprio futuro e te dei aquele sermão que tu não te recordas... o que é uma pena, pois, foi digno de aplausos. — Ele sorriu. — Áurea, não tema a Corphidrae. Ela está pedindo para se conectar contigo, caso contrário, tu já terias sido soterrada por ela. Ela é bem mais poderosa do que o teu vampirismo. Ela é uma criatura mítica, não esqueça disso. Criaturas míticas nunca são más.
Monm estava certo. Os enigmas com minha própria letra, o reflexo no lago; tudo indicava que a criatura mítica estava tentando se comunicar comigo e me ajudar a destruir o oblívio. O que fazia de Seth um verdadeiro farsante, por tudo o que dissera no cemitério. Além disso, Seth revelara que tentei matá-lo, talvez a Corphidrae saiba sobre quem ele realmente é, mais do que eu sei, por isso o atacou quando estava sob controle de minha consciência. Como se não bastasse, o Corvo Esfaqueado, a carta invertida da primeira verdade do Oráculo, falava com clareza de um impostor. Todas essas peças encaixadas, formavam a mais valiosa das compreensões, entretanto, eu não sabia como vincular-me à Corphidrae.
— Como posso me vincular à criatura? Quem poderia me ajudar? Talvez... Olga? — Questionei a Monm.
— Olga não pode ajudar-te, Áurea. Ninguém pode. Entretanto, a cada conhecimento e compreensão que adquires, vais abrindo mais clareiras nessa densa floresta do teu ser.
— Monm... podes me levar a algum momento de meu passado, para que eu me lembre? — Ousei pedir. Seu semblante mudou para consternação.
— Jamais farei isso... o tempo é perigoso... e a recordação... — Monm parecia olhar para um vazio nadificante. — Pode ser a sentença mais perniciosa da vida de uma criatura racional... de repente tu voltas no tempo, revê com perfeição aqueles que lhe foram importantes... de repente tu queres viver no passado, onde tudo lhe parecia mais fácil... onde todos estavam sentados envolta da mesa, em uma comemoração de Aborom ou Aesttera... entretanto, mesmo lá... a verdade de que tu não pertences àquele tempo, continuará te enlouquecendo... — Monm silenciou. Senti que tudo o que dissera, doía em seu coração, pois, as janelas de sua alma lacrimaram e sua fala se embargou.
— Desculpe, senhor Monm, não tive a intenção de...
— Está tudo bem... deixe-me descansar um pouco e... confie em quem tu és. E tome cuidado. — Monm sorriu como pôde e eu o deixei descansar.
Quando deixei o aposento, precisei sair do Castelo para sentir o ar límpido; sentir o sopro do vento, talvez do tempo. E assim o fiz. O céu estava n’um tom castanho-enrubescido e uma névoa rosé se estendia. O tempo era mesmo diferente naquele lugar... assim como a manifestação da natureza. Caminhei pelo jardim que outrora estive na chuva densa a observar os raios no horizonte azul-opaco; agora as árvores todas tinham folhas secas e, n’uma delas, as folhas ressequidas ganharam tom marfim; assemelhavam-se a papel. Eram belíssimas. Já na fonte, no centro do bosque, as águas tonalizadas pelo céu, hialinas com reflexos carmim, cantavam seus movimentos. Toquei-as, molhando minhas mãos. E vi-me em seu reflexo e reparei... um colar de ouro envelhecido, com um pingente de pérola de lótus negra, descansava em meu pescoço.
Rubi Áurea
Áurea Lihran escrevera suas terríficas e fascinantes vivências após despertar em um antigo castelo, o Castelo Drácula. Sem memória alguma de seu passado, ela buscou encontrar respostas e sentidos que guiassem a sua existência, mas, para isso, teve de fazer escolhas sombrias e ainda lidar com a sua estranha sede por sangue e o seu desconhecido poder. Este seu manuscrito foi deixado por ela, como volume único, na biblioteca do Castelo Drácula e, agora, por razões obscuras, ele está em suas mãos. » Leia todos os capítulos.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Alice: No Denso Arvoredo
A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha…
38 minutos de leitura
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
A densa floresta acastanhada, honrava um outono etéreo e silente. Uma atmosfera enevoada, do mesmo tom borgonha, pairava, porém, rarefeita, como um gás envenenado em tom alizarina e marsala. O céu era um deserto amarfinzado, aquecido com um malva envelhecido, quase abronzeado. A brisa contornava as folhas ressequidas e, mesmo caindo, muitas permaneciam em seus frondosos galhos, mostrando a grandeza imensurável do arvoredo, com copas gigantes e altas como um titã. Alice despertou sabendo quem ela era, entretanto, pouco depois, quando ergueu seus olhos à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora e, então, se esqueceu.
A grama terracotta, pó de flor emurchecida, parecia abraçar intencionalmente os pés descalços de Alice; conforme ela se movimentava, lentamente a relva a envolvia. “Não… não consigo me lembrar… como posso estar aqui? O que é este lugar?” — Sussurrara quando seus olhos pousaram no horizonte pálido e no oceano que, brando, parecia enegrecido. Sob a guarda de um céu rosa-empoeirado e sob um sol vermelho-pastel, Alice tentava entender a razão pela qual ela estava ali, naquele longínquo e ameno oásis. Um grande veleiro parecia atracado na costa, onde mais havia areia do que relva; parecia perto, entretanto, estava embaçado à visão como uma miragem. O coração de Alice apertou-se de emoção por algo incompreendível, porém, de súbito, algo lhe chamou a atenção.
Um coelho branco de três olhos escarlate e corpo esguio, emergiu da frondejante floresta mastodôntica, enquanto a curiosa Alice o observava, percebeu que adentrar a floresta não só seria uma aventura, mas, talvez, um labirinto pernicioso. O coelho era um pouco mais alto que Alice e bem mais baixo que as copas de folhas vermelhas hexagonais. Ele parecia apressado, era bípede, embora encurvado em sua coluna; seus grandes dentes afiados eram terríficos e o pêlo macio, níveo e fino, era como a gramínea. A criatura saiu da floresta, cavoucou n’uma parte de terra úmida, onde a gramínea era frágil e, dali, retirou um relógio de bolso. Fugaz, adentrou à floresta em seguida — parecia não ter visto Alice.
A aparição de tal animal sinistro, embora assustadora, deu à Alice uma sensação de que a criatura tinha tanta pressa que, certamente, pouco se importava com intrusos iguais à Alice e, portanto, não lha faria mal. Além disso, a fez pressentir que, se é possível que o coelho de três olhos vermelhos saia do bosque colossal e para ele retorne quando bem entender, então, decerto, ela também poderia — em especial se seguisse o rastro do bicho. E assim o fez.
Como o coelho era alto, ao afastar os arbustos e pisar, finalmente, no bosque; ainda era possível enxergá-lo ao longe, pois, por seus passos tão fugazes, ele alcançava uma distância considerável em átimos de tempo. Suas brancas orelhas peludas se destacavam, em especial, por causa das cores outonais opacas e rúbidas de toda a floresta. Deste modo, Alice o acompanhava, porém, por infortúnio, a criatura era, de fato, muito mais rápida que ela e, em segundos, Alice viu-se no arbóreo denso, sem nenhum tipo de sentido para guiá-la. O coelho desaparecera. Os sons florestais eram brandos e as copas altíssimas, tanto que nem mesmo o céu era visto de baixo; Alice sentiu-se minúscula.
— Certo... quão estranho... continuo sem compreender! — Conversara consigo. — Algo me falta, no peito; como se meu coração pulsasse diferente ao qual pulsara desde que nasci... entretanto... como posso distinguir essa pulsação se nem me recordo onde nasci? Pareço não saber quem sou e, ao mesmo tempo, algo sou capaz de intuir... uma pena que esse algo não seja o caminho certo. — Alice olhou para o derredor, buscando o rastro do coelho sinistro. — Nenhum rastro, nem para retornar à costa, nem para seguir adiante... e o que é o “adiante” nesta vasta catedral perenifólia? Intrusa, eu mesma, em um labirinto de fauna e flora, sem nenhuma clareira, sem céu e estrelas que indiquem sul e norte... Parece-me que não sou necessária aqui... ouço pássaros, porém, nenhum pousa próximo; ouço criaturas indistinguíveis, contudo, cá estou, sozinha; nenhuma delas rasteja na gramínea que acolhe meus pés.
Alice estava sentada naquele instante enquanto se afogava em seus infindos pensamentos. E continuava: — Talvez, como intrusa, deva ser expulsa. Entretanto, ó, quão irrelevante eu sou que sequer faz diferença que eu cá esteja ou não. E se sou irrelevante para a vida entorno, por que vivo? Por que há vida em mim? Sem um sentido para caminhar no bosque titã, sem importância, sem valor... sabemos o valor que temos somente quando alguém nos diz, é isso! — Alice olhou para cima. — Alguém pode me dizer o sentido e o valor que eu tenho? — Gritou o mais alto que pôde. Seu brado causou algum alvoroço, porém, apenas para que um fruto, já muito maduro, vibrasse com as ondas sonoras e, então, caísse lá do alto da copa de alguma das árvores gigânticas. Demorou um pouco para cair ao lado de Alice e espatifar-se no chão, banhando-a com seu méleo caldo.
Alice assustou-se profundamente; suas roupas, pele e cabelos, mancharam-se de uma cor carmim-abismal e antes, pálidas como o Anti-Ártico, agora mesclavam-se em um escarlate-ferroso e bege. “Que horror!” — Bradara pelo susto. Sentiu-se instigada, entretanto, a experimentar o fruto, cujo aroma era embalsamado de dulçor cítrico. Assim o fez, embora se questionasse sobre tratar-se de um fruto venenoso. “Se assim o fosse” ela respondeu à sua própria pergunta “não seria realmente sedutor aos meus olhos, certo?” perguntou a si mesma.
— Se fosse um fruto perigoso, eu não seria cativada... a menos que o fruto fosse capaz de mentir... se assim o fosse, como o faria estando espatifado assim? Não vejo espinhos em sua casca, como os abacaxis. Na verdade, vejo lanugem, como um pêssego. Embora seja tão maior que um pêssego, na verdade, é maior do que minha cabeça! — Alice tocou com seu dedo indicador na carne do fruto espatifado e, logo, levou aos seus lábios. Era delicioso.
— Méleo... adorável... cítrico... suave... meio ameixa... meio caqui... meio...— Fechou seus olhos e apreciou um pouco mais. Quando os abriu novamente, algo havia mudado. — Um rio? — Questionou à sua solidão. Alice ouviu algo como um rio ou uma cachoeira; águas correntes que outrora não havia prestado atenção, talvez porque estava demasiado dentro de si mesma. Só pelo som, sentiu-se com intensa sede. Levantou-se e caminhou em busca da fonte, uma nascente cristalina. E encontrou. Um riacho sutil embargava águas translúcidas, embora, com sutileza, enrubescidas pelos tons florestais; as águas cursavam um caminho tortuoso e, pelo seu rastro, pedras foram se formando ao longo de incontáveis anos.
— Tem gosto de água... — Dissera, sentando-se à beira do córrego. Respirou fundo enquanto ouvia a sinfonia líquida — Agora que comi o que me parecia comível e bebi o que bebível me soava, voltei à infeliz verdade... não tenho nenhum sentido que me mostre o que fazer, como fazer, para onde seguir. Posso caminhar à beira erma d’esta corrente, sem propósitos definidos, entretanto, estaria desperdiçando meu tempo com algo sem nenhuma razão de ser. Se eu encontrar uma lógica para fazê-lo, então, o farei. — Silenciou-se esperando que a lógica de materializasse à sua frente, entretanto, o contrário é que foi visto aos seus olhos âmbar.
Uma porta ornamental e dourada estava escondida na escuridão de uma parte ainda mais densa em arbustos avultados e complexos; o que não tinha lógica alguma, decerto, muito menos razão de ser. Sendo Alice a menor das criaturas, até então, naquele santuário de fauna e flora ancestral, como pode a porta ser do tamanho de Alice? — Ou cresci ou estou delirando... — Sussurrara. Caminhou se esgueirando nos arbustos e notou que, aquela espécie de planta tinha folhas e galhos que se faziam como um muro ao redor do umbral, se contorciam entre si formando um imenso bloco intranspassável. Diante à primeira porta, Alice tentou abri-la e... abriu facilmente. Porém, havia outra porta e, depois, outra e, mais umas e outras tantas.
Depois de um túnel de portas, quando o lume da floresta atrás de Alice já estava dilatado e ela estava exausta de girar maçanetas, uma das portas estava trancada. “Que ótimo” ela ironizou “tudo isso para nada... ora... eu bem sabia que não havia nenhuma lógica nisso tudo e, portanto, eu não poderia e não devia gastar meu tempo...” reclamara. Com profunda exaustão em retornar ao bosque denso, sentou-se ali mesmo, de frente ao umbral trancado e, então, segurou suas pernas para conseguir sentar-se, pois, era um túnel bem estreito.
— Não adianta... não vale fingir que há um rumo para seguir; tudo se faz de forma aleatória e vazia, não há profundidade em nenhuma decisão que se pauta sobre um talvez e mesmo se formos motivados pela esperança, esta é, sem dúvida, a maior das mentiras; com esperança vim aqui e com ela me estorvei. De que adianta caminhar sem rumo, só por caminhar, insistindo na ausência de sentido real, para chegar a um fim que é, pois, uma porta trancada? — Alice esperou uma resposta e silenciou. Suas lágrimas nasceram como o córrego que, de súbito, ouvira há pouco. E caíram salgadas sobre o chão de terra. Alice chorou de olhos fechados, uma cachoeira se fazia em seu semblante; e ela soluçava.
Assim que se cansou de chorar, abriu seus olhos âmbar e viu que, onde a terra umedeceu-se pelas lágrimas, brotos verdejantes germinaram. Tinham caules pequeninos e duas pequenas folhas no cimo, às vezes três, curiosamente uma acima da outra, formando um estranho padrão. Eram rígidos, porém, macios; um pouco porosos e, tal como o fruto que caíra, tinham lanugem. Ao tocar em um dos caules, ele se quebrou; era frágil e, na mão de Alice, ressequiu em segundos. Era um de três folhas. Por pareidolia, parecera uma chave de carvalho assim que murchou. Alice, então, adicionou o caule na fechadura e a porta se abriu.
— Isso não faz sentido... — Murmurou, tocando na maçaneta. Detrás da porta: mais floresta, entretanto, ainda mais fechada e nebulosa que antes. Havia quatro caminhos, feitos de ardósia vermelha, à disposição de Alice. Para lados diferentes e, por vezes, opostos. Pareciam longos e, portanto, impossível escolher mais de um para saber o que esperaria no fim. Alice sentou-se sobre uma pequena rocha na divisa entre todas as estradas e esperou sem saber o que esperava. — Estou ficando cada vez mais triste... por que há tantos caminhos? Não seria mais simples apenas um? Por que não colocar placas que indiquem o que haverá no fim de cada estrada? Assim a escolha será justa e ponderada!
Enquanto falava, um gato preto, com listras marfim em sua fronte, grandes olhos pálidos, um cachecol de folhas secas e um imenso sorriso, com dentes pontiagudos, de ponta a ponta em seu semblante, apareceu entre os galhos de uma árvore anã. Alice o olhou e, por segundos, teve a sensação de que ele não pulou nos ramos para ser visto, ele simplesmente apareceu após estar translúcido, de alguma forma. Tudo ao redor estava estranho e meio embaçado. Ele sorria de maneira macabra, mas Alice estava sem perspectivas, portanto, não se intimidou com a presença ilustre do felino — ela pensava que, se ele fosse alguma criatura má e violenta, ao menos acabaria com a ausência de sentido que ela tanto sentia em sua alma, libertando-a por fim, com a morte.
— Olá, Alice. — Disse o gato. Os olhos dela se arregalaram ao ouvir aquela grave voz falando o seu idioma.
— Gatos não falam! — Proferiu, esfregando seus olhos.
— Estou falando, não estou?
— Sim, está, mas é loucura, é claro que é loucura!
— Se tu estás me ouvindo, então tu és, decerto, completamente louca. — O gato lambeu-se.
— Não! — Gritou Alice. — Tu que és o louco! Pois estás falando! A culpa não é minha por ouvir o que dizes! — O gato sorriu ainda mais e silenciou, voltando a lamber seus pêlos lustrosos. Alice percebeu que, se não falasse com o gato, não poderia saber o que fazer e para onde ir. A ideia a conturbava e a irritava, falar com um gato lhe era constrangedor. Mas, de fato, aquele felino era diferente dos outros; ainda assim, Alice odiava a ideia de estar enlouquecendo e isso a impedia de retomar a conversa com o gato. Seu esforço para mudar de opinião foi tão grande que, somente no desespero da sua falta de sentido, ela foi capaz de ir contra todas as suas angústias.
— Ah, tudo bem. — Ela disse, bufando. — Por favor, me ajude... qual dos caminhos de ardósia rubra eu devo seguir? — O gato deitou-se, olhando para Alice.
— Depende, onde queres chegar?
— Não tenho sentido, não sei para onde ir e muito menos onde quero chegar.
— Neste caso, qualquer caminho serve.
— Não é verdade! Se escolho este — Alice apontou para o caminho à direita — posso chegar a um lugar desagradável e ter perdido meu tempo caminhando.
— Então, tu só podes escolher um caminho se souber o que há no final dele?
— Exatamente! — Disse, orgulhosa. O gato gargalhou.
— Isso é coisa de louco! — Disse o gato. Alice se enraiveceu. — Ora, é loucura caminhar apenas se houver uma certeza; toda a certeza é inútil e falsa, logo, tu nunca poderias escolher um caminho, pois, mesmo que tivesses certeza de onde chegaria, não sabes absolutamente nada do que encontrará enquanto andas.
— Mas... — Respondeu Alice, nervosa. — Se sei que chegarei em um lugar agradável, consigo suportar os caminhos difíceis, não? Guiada pela esperança.
— Hum... achei que a esperança era uma mentira... — Parafraseou o gato que, agora Alice sabia, escutava-a a todo o momento.
— Bisbilhoteiro! Se me ouvias, por que não se manifestara? — O gato apenas se lambeu e sorriu. — Olha, a esperança é uma mentira quando acreditamos nela sem nenhum filtro; quero dizer, acredito que nesse caminho há algo bom, e durante todo o trajeto, por mais angustioso que seja, continuarei acreditando. Logo, chegando ao fim dele, descubro que não era bom. A esperança destruiu tudo! Sem ela eu poderia ter desistido e me guiado para uma direção menos amarga. Agora, se tenho certeza de que há algo bom, a esperança faz sentido!
— Que chatice... — Ele disse, irritando Alice. — Viver baseando-se em sentidos e certezas é a coisa mais chata que já ouvi.
— Ah, é mesmo? E como tu vives, senhor Gato? — Ela cruzou os braços e ergueu seu rosto, duvidando do gato sorridente.
— Eu? Vivo pelo que me cativa. — Ele respondeu sem hesitação e bastante concentrado em lamber seus pêlos.
— E o que te cativa? — Insistiu Alice.
— Viver. — Respondeu o gato, sem alardes, enquanto espreguiçava. Alice ficou em silêncio.
— Como é possível se cativar pela vida em si mesma? Principalmente se os arredores são hórridos e decadentes? Se os caminhos são tortuosos, se não há nada que signifique algo em seu coração?
— Justamente. Se a vida em si mesma é suficiente, por mais que lhe venha de encontro no pior de suas manifestações, ainda assim, tu encontrarás algo de valor nela, pois tu a compreende e, sendo a vida instável, variável e efêmera, e admirando-a por tudo isso que ela é, não esperarás que ela seja diferente do que é e lidarás com suas características com bastante empolgação.
— Mas... aceitar em silêncio as condições hórridas da vida, é um martírio! Caçar preciosidades na lama dos porcos, é humilhante!
— Alice, nem uma árvore aceita em silêncio as condições precárias da vida! Ela sempre encontra novas formas de burlar as turbulências, isso é uma característica que só é possível na vida. Cativar-se pela vida é aprender a conviver com ela, ajustando-se e sabendo lidar com suas manifestações. Por exemplo, digo-te que, vá à direta; e encontre o Artesão de Aspecto. Ou à esquerda, para a toca do Láparo Esguio. E tu, agora, cativada pela vida, vais não pelo Artesão, tampouco pelo Láparo, vais pela descoberta do que há no caminho até lá; ruim ou bom, difícil ou fácil. A graça está em saber lidar com a surpresa do que há de vir.
Alice ponderou por um tempo.
— O Artesão e o Láparo são confiáveis? — O gato gargalhou por notar a insegurança que Alice ainda possuía.
— São malucos como tu és, como eu sou.
— Eu não sou louca! — Lamuriou Alice, outra vez.
— É o que dizem os mais loucos. — Afirmou o gato, sorrindo e translucidando, sumindo como poeira cósmica.
— Ei! Volte! — Bradou Alice, sozinha outra vez. — Não entendo...
Na bifurcação dos caminhos feitos de ardósia escarlate, Alice observava. Ao além, na perspectiva de cada rumo, apenas a névoa rosé. A escolha deveria ser feita de qualquer maneira, mas, para Alice, o que mais pesava eram os seus pensamentos e não as decisões que precisava tomar. Mesmo e apesar dos conselhos do gato sorridente, algo sobre o sentido da vida ainda lhe perturbava e encontrar uma lógica perfeita para suas ações era-lhe sempre a única opção plausível.
— Vou para o Artesão porque já vi o Láparo e ele sequer notou minha presença. — Murmurou para si, enquanto caminhava. — Mas não sei o que direi ao encontrá-lo e esse caminho parece-me maior do que previ. Sinto falta de ver o céu. — Alice olhou para cima, parando de andar por um instante. As copas altíssimas continuavam ocupando todo o firmamento, como se as constelações fossem folhas e, muitas delas, caíam com profunda lentidão, desprendendo-se das árvores e levadas pela brisa vaporosa. Por olhar para tão altas estruturas, sentiu-se um pouco inquieta. — É assim que se sente uma formiga? Posso ser pisada a qualquer momento... — Alice voltou a caminhar. — Se não tenho sentido, tanto faz ser pisada. — Disse e logo lembrou-se das palavras do gato. — A diversão está mesmo no caminho? Olhe só para isso, uma longa estrada com essa névoa baixa, sem nada acontecendo. É bem tedioso e solitário. Qual é a graça? Nada aqui é capaz de cativar! E, pior, meus pensamentos parecem mais altos aqui.
— Ei! — Alice ouviu e, de imediato, parou e olhou para trás, para os lados, ninguém. — Aqui embaixo! — Disse a voz envelhecida e fina. Ao olhar para baixo, Alice viu um rato deveras estranho; um longo rabo bege, dentes humanos, sete orelhas, 4 patas com seis dedinhos finos em cada; seus pêlos cinzas não completavam todo o seu corpo, pareciam falhos em partes. A verdade é que Alice achou a criatura horrível. — Oi, olá! É... te importarias em nos dar uma carona? — Disse o rato. Detrás dele, dois outros ratos surgiram, um deles era um pouco menor; o outro tinha uns caules de trepadeira presa à cabeça, dando-lhe um aspecto de cabelo cacheado. Alice odiaria segurá-los em suas mãos.
— Ah... eu... não me sentiria confortável... sinto muito... — Explicou, sendo a mais delicada que pôde.
— Teu vestido é enorme! Ponha-nos na barra e nem sentirás nossa presença. — Disse a voz rouca do rato de cabelo de caule. De fato, o vestido de Alice era longo e arrastava-se pelo chão. Mas os ratos pareciam sujos e isso a incomodava.
— Eu não posso, o vestido pode rasgar.... ah... para onde ireis? — Tentou mudar de assunto para evitar o conflito.
— Precisamos achar uma nova casa.
— Nós esquecemos onde estava a última...
— É... esquecemos... — Disse o rato menor, pela primeira vez, bastante frustrado.
— Como se esquece onde está sua própria casa? — Alice estava incrédula.
— Ora, tu sabes onde está a tua? — Ao tentar se lembrar de sua casa, Alice sentiu-se triste como um abismo que lacrimeja solitário por sempre levar à morte aqueles que nele se aprofundam.
— Eu não sei... mas... eu não a perdi... apenas não me recordo... — Os ratos riram.
— Isso é esquecer, oras! — Caçoou um deles.
— Por que sois tão vis? — Indagou Alice, com a voz trêmula.
— Não somos vis... não precisa se preocupar, tu podes criar, como nós, um lar novo! Basta que encontres um lugar à sombra, bem arejado.
— É, bem arejado.
— E que tenha comida próxima! — Alice se irritou ao ouvi-los.
— Não é assim tão simples quanto respirar! Encontro um lugar bem arejado e ele se torna imediatamente a minha casa? Então posso dizer que essa estrada é minha casa? Uma casa precisa de algo a mais... — Os ratos se entreolharam.
— Uma casa é só uma casa... o que tu estás dizendo, altíssima?
— Digo que uma casa é, essencialmente, um lugar em que o sentimento de segurança e pertencimento estão.
— Eu me sinto seguro comigo... e pertenço a mim! — Disse o primeiro rato.
— É, eu também! — Falaram, em uníssono, os outros dois.
— Então somos nossa própria casa?
— Guardamos a comida na pança! — Zombou o rato menor, levando seus familiares à gargalhada. Alice respirou fundo e voltou a caminhar, apressada. — Ei, espere! Altíssima! Dê-nos uma carona!
— Darei se me alcançarem! — Alice correu sem olhar para trás e, em poucos instantes, os ratos a perderam de vista e ela pôde voltar a caminhar. — Que criaturinhas insolentes! — Reclamou Alice, ela odiava o fato de saber, no fundo, bem no fundo, que aqueles ratos sujos estavam certos. — Voltarei para meu lar... em algum momento... deixarei esse lugar e voltarei e me lembrarei. Um recôndito onde há os sentimentos que serenam a alma e significam a existência. Esse alarde de que não precisamos de sentido e que qualquer lugar pode ser uma casa, prova tão somente o quão superficiais são esses animais falantes! — Alice esforçava-se para argumentar conta os ratos e o gato, mesmo eles não estando mais presentes. — De que adianta ser capaz de pronunciar palavras, mas só pronunciar palavras tolas? Que superpoder inútil! — Alice começou a imitar a voz rouca e fina dos ratos. — Olha, olha, eu posso falar, eu estou falando, mas só sei dizer asneiras; eu só falo bobagem, mas ouça, ouça, ouça-me! Eu falo alto, meu falatório irritante, palavras gastas, perdidas, amassadas! — Alice gargalhou de si mesma por imitar os ratos falantes e após rir por bons minutos, pensou que não se sentia segura consigo mesma tal como os ratos e, da mesma forma, parecia não pertencer a si. Perceber isso a deixou bastante magoada. Quando ela avistou o que lhe parecia, pois, uma casa, distraiu seus pensamento merencórios.
O clima transfigurou-se estranhamente; como se um peso pairasse, densificando e enegrecendo o derredor. Próxima à casa, Alice notou a névoa mais vermelha e um aroma peculiar de queimado lhe atordoou célere. Por um momento, hesitou em bater à porta da casa de madeira escura, pois, algo de fato lhe parecia errado ou, talvez, apenas pouco convidativo. A verdade, no entanto, era que seus pensamentos lhe convenciam de que, se Alice não se lembra de sua casa, não pertence a si e tampouco possui um sentido, então, por que não arriscar sua própria vida? Eles diziam: “Vá, Alice! Não há nada a perder, não há a quem voltar”. E Alice os ouvia, pois estava acostumada a ouvi-los.
Dois toques na aldrava e, pouco depois, o que parecia um homem, um pouco mais alto que Alice, surgiu. Ele vestia uma grande cartola, roupas estravagantes, e seu rosto era amedrontador; parecia usar uma máscara com retalhos de pele. O odor tostado vinha do interior da casa e mesclou-se ao bálsamo do homem, algo que beirava a sândalo, âmbar em notas de fundo, talvez algo mais terroso e sanguíneo nas notas de coração — até provável haver uma tênue exposição nicotinoide. Era embriagante e, ao mesmo tempo, perturbador.
— Uma dama aos meus umbrais?! — A voz do homem era como um cello fundido ao canto gregoriano. Alice reverenciou-o, abaixando-se; e logo voltou a fitá-lo. O homem a cumprimentou, beijando o dorso da delicada mão de Alice. — Por favor... — Convidou o Artesão, mas Alice fitou o interior escuro da casa e logo hesitou.
— Eu agradeço... a gentileza... senhor Artesão, entretanto, vim tão só de passagem, para compreender um pouco mais sobre este estranho lugar. — O homem pareceu compreendê-la.
— Então sente-se. — Indicou para Alice as cadeiras à mesa, próximas da casa, dispostas no jardim murcho e seco. Sentaram-se. — Não és daqui, pelo que vejo. Então de onde és? — Alice ouviu e, tão logo, notou que de fato se tratava de uma máscara, pois, os lábios não se mexiam quando o homem falava.
— Não sei ao certo... lembro-me de despertar na costa, ter uma visão estranha de um veleiro... — Lembrar do veleiro embaçado, trouxe o aperto ao coração de Alice. — E, depois, adentrei à floresta logo que vi um coelho esguio de três olhos...
— Hum... claro... e o que buscas, senhorita? Um corvo empalhado? Uma escrivaninha perfeita? Ou talvez... um sentido? — Alice arrepiou-se, tanto pela voz tétrica, quanto, essencialmente, pela última indagação do homem. Os olhos dela se arregalaram de súbito. — Sou um Artesão raro, posso te ajudar com tudo e... muito mais.
— O... o gato... te contou? — Proferiu Alice, inócua.
— Chesir? Não o vejo há um tempo. Tu encontraste a criatura? — O homem conversava como um Dom e mantinha-se bastante estático.
— Ele se chama “Chesir”? — Alice questionou mais a si mesma, enquanto ponderava a razão pela qual o gato não se apresentara a ela.
— Sim... E eu sou Thez, o Artesão de Aspecto.
— Eu sou Alice... — Revelou.
— Alice... — Sussurrou o homem, aproximando-se um pouco mais. Alice sentiu-se incômoda, pois a presença do Artesão era persuasiva e densa como o derredor e o interior em breu daquela casa de madeira. Ela não saberia descrever o que sentira, mas eu sei bem, uma atração pelo Artesão a envolveu de súbito. — Belíssimo nome...
— Se não falas com Chesir há tempos, como sabes sobre o sentido? — Thez encostou-se novamente no espaldar da cadeira e Alice sentiu-se tímida.
— Todos buscam um sentido, senhorita; é previsível daqueles que pensam, sentem e, em especial, desejam. Sou capaz de moldar um rosto para a Dama, esta face lhe trará sentimentos e pensamentos, emoções e razões para uma vida completa, sem que tenhas que escolher, sem que tenhas que aprender.
— Mas... eu gosto de minha face! Não quero trocá-la, embora não me lembre ao certo como ela é.
— De fato, teu rosto é... encantador. — As bochechas de Alice coraram. — Não te preocupes, entretanto, senhorita; sou capaz de dar-te um aspecto sem que sua aparência seja ofuscada. Basta confiares em mim. — O aroma capitoso do homem, não proporcionava confiança para Alice, embora fosse agradável de sentir, suas notas continuavam a inquietá-la.
— Como isso é possível? — Ela duvidou.
— Dar-te um aspecto ou ser, a ti, confiável? — Embora o rosto de Thez não pudesse ser visto, ele parecia sorrir.
— Ambos, senhor. Sobre dar-me um aspecto, embora eu seja uma mulher adulta e ciente de minhas decisões, sei que este lugar até então foi contra tudo o que é racional e, portanto, não há como não questionar essas verdades. Sobre confiar em ti... pois... é impossível! Eu não vejo sequer o teu rosto. — Alice aguardou uma resposta, mas Thez ficou uns minutos em silêncio até que, então, decidiu levar sua mão ao rosto e logo retirou sua máscara de pele retalhada. O Artesão era mesmo um homem, entretanto, seus olhos eram de um tom malva-empoeira brilhante, tão símil a tudo naquela floresta; sua barba era delineada em um cavanhaque, arredondada no queixo e pontiaguda próxima aos cantos dos lábios. Contornava seu maxilar em destaque. Seu semblante era sério e sua beleza era inquestionável, muito diferente da bizarra máscara que usava, porém, ainda capitoso, sutilmente, impudico.
— Tu... tu és mesmo um homem! — Exclamou Alice, perplexa e instigada.
— Há muitas formas de provar-te que sou um homem, senhorita Alice; retirar minha máscara é a mais... decorosa... das formas; entretanto, receio que não seja o suficiente para que confies em adentrar meu Ateliê; por isso proponho que tragas um conviva contigo. — Alice ponderou. Thez não parecia louco como dissera Chesir e, àquela altura, para Alice, talvez ele não fosse tão perigoso quanto aparentava.
— Não sei se poderia; desde que adentrei esta frondosa floresta, vi o coelho, o gato Chesir, um trio de ratos enfadonhos e nojentos... e por fim... um Artesão. — Thez semissorriu e, antes que alguém continuasse o diálogo, uma raposa surge, com um vestido de gala; ao seu lado: Uma fuinha marrom e muito, mais muito, muito mesmo, muito peluda.
— Aem! — Saldou a fuinha, para Thez. Parecia uma saldação e Alice compreendeu assim. Sua voz era doce e muito fina, como a superfície de uma nuvem.
— Eu estava dormindo, acredite ou não. Estes tempos loucos estão bagunçando meu ciclo de sono. — Tagarelou a Raposa. Alice estava profundamente confusa.
A fuinha se sentou em uma das cadeiras, mas, como era pequena — menor bem menor que Alice — ficava apenas com seus olhinhos à vista na mesa. Thez que era o mais alto, com um metro e noventa. A raposa sentou-se ao lado de Alice, elegante e calma, como uma dama, todavia, antes mesmo que ela pudesse se acomodar, o Lápago Esguio colocou três coelhos pequenos, mortos e ensanguentados sobre a mesa; assustando a todos, em especial Alice. A seiva rubra esguichou em todos os rostos. Alice sequer viu de onde veio o Láparo.
— Ah! Que deselegante! Por todos os corações empalhados, tenha mais educação! — A raposa levantou-se, segurou os coelhos e caminhou em direção à casa de Thez. — Vá buscar a pimenta, ande! — Os coelhos pingavam sangue pelo caminho. A fuinha pensou que o pedido de pimenta se direcionava a ela, então decidiu partir, embora não quisesse, pois, a figura de Alice lhe parecera interessante. Além disso, era timida demais para contestar a raposa. O Láparo, incompreensível e apressado, apenas foi embora. — Iniciarei o cozimento do jantar. — A raposa disse e, logo, fechou a porta. Alice estava sozinha com Thez outra vez; ambos demoraram para iniciar o diálogo e Alice compreendeu o porquê todos pareciam loucos. Quão estranho era todo aquele movimento e ninguém sequer perguntou quem era ela.
— Vulpia prepara as refeições noturnas aqui... — Proferiu o Artesão. — Pegue isto. — Ele ofereceu um lenço para Alice que, tão logo, o aceitou, para limpar o sangue de seu rosto. — O Láparo não é muito atento ao que faz... — Amenizou Thez. — Além de estar sempre apressado... — Pouco depois, o Artesão se levantou. — E a fuinha é bem tímida. — Explicou. — Venha. Deixe-me mostrar-te meu ateliê; Vulpia estará na cozinha, portanto, não precisas temer... não estaremos à sós.
A casa era escura, entretanto, Vulpia parecia destinada a manter o local mais aceso, pois, abriu todas as janelas e acendeu mais velas. Alice seguiu ao lado de Thez e logo foram ao quarto-ateliê, um aposento artístico e sinistro. Em seu interior, incontáveis máscaras pendiam na parede, como quadros. O cômodo era frígido e Alice tremia. O Artesão a cobriu com seu casaco, explicando que, em razão do poder fascinante das máscaras, o ambiente arrefecia de forma natural. Alice não conseguia compreender, mas estava atenta.
— Todos os rostos possuem parte das almas das criaturas mortas. — Explicara.
— Tu... mataste todos? — Alice temia indagar, todavia, sua espontaneidade falava mais alto.
— Não. A rainha o fez. Tome, experimente esta e sinta. — Proferiu, instigante. Alice não compreendia; queria questionar sobre quem é a rainha, mas viu-se segurando a máscara e tão logo a pôs em seu rosto, sem saber ao certo o porquê. A máscara era de uma cobra, ao que parecia; assim que a vestiu, Alice imediatamente desejou a morte de alguém que ela não sabia dizer. Sentiu um gosto agre na boca, como se ingerisse veneno; estava com uma certeza de que viveria até o fim de sua vida para vingar-se de todos que lhe fizessem mal. Ao mesmo tempo, ela sabia que aquilo não pertencia a ela. Thez retirou a máscara da atônita Alice. — E então? — Interrogou o Artesão. Alice não sabia o que dizer. — Talvez esta seja demasiado intensa para a tua sensibilidade feminil. Vista esta aqui!
Mais uma vez, sem que pudesse recuperar-se do horror anterior; Alice viu-se com a máscara do que lhe parecia um pássaro dourado. Sentiu-se leve, com a certeza de que a vida assopraria em seu rosto e que o sentido primevo para tudo era a liberdade. Estava disposta a ser livre, acima de tudo; nunca se apegar a nada, a ninguém. Aquilo era, sem dúvidas, um sentido belo e até poético, entretanto, não era Alice. No fundo de si mesma, perdia-se em si a cada máscara que vestia e o poder, das almas encarceradas nos artefatos, invadia o espírito de Alice como uma descarga energética. Sentiu angústia, medo, horror, êxtase, prazer e amargura; sentiu-se ser duas, três e até quatro; entretanto, em meio a tudo, havia sempre um resquício de nada, um nada perturbador e cada vez mais sufocante. Alice atordoou-se e caiu sobre o assoalho do cômodo.
— É fascinante, não? — Dissera Thez, ajudando Alice a se levantar.
— Isso... parece-me perigoso demais, senhor Artesão... sinto que... — Alice levou suas mãos ao seu tórax, como se acariciasse seu próprio coração. — Perdi partes de mim que jamais se recuperarão. Thez a olhou profundamente, tocando-lhe seu sedoso rosto. O ambiente ficara mais frígido.
— Posso fazer um sentido sob medida para o teu belo rosto, senhorita... — Alice arrepiara-se outra vez e se afastou do Artesão;
— Agradeço, senhor Thez... — Ela retirou o casaco que vestia. — Está tarde, preciso ir embora, se me permites. — Ela o reverenciou rapidamente e não aguardou resposta, entretanto, Thez retirou sua cartola em respeito ao adeus de Alice, mesmo que ela não o visse. Era certo que Alice estava com medo, pois, perder-se quando se tem tão pouco de si mesma é arrancar sua vida de si, sem que a morte venha lhe buscar.
Ela correu sem direção; seus olhos âmbar choravam outra vez. O vazio no peito era tangível, o medo de nunca mais ser Alice, amargurava-a. “Volta-te a mim, Alice. Sou Annae? Mariah? Elizabella? Ó, céus... por favor... Alice... das águas que lhe agradam, da curiosidade do seu ser... Posso agir como Nillah? Lillymor? Ehlen? De onde vêm esses nomes? De Alice? Alice se recorda de algo além? Mas se foge de si, de mim, como se lembra?” — Pensava enquanto corria e só parou de pensar quando tropeçou, quando não reparara que uma densa fumaça acastanhada pairava no ar e, portanto, impossibilitou a visão das pedras mais altas do caminho.
— Quem está aí? — Alice ouviu, após o tombo que fez arranhões doloridos em suas mãos.
— Sou eu... — Respondeu, um pouco confusa com a queda.
— Mas o “eu” também sou! — Respondera o que Alice pensou ser a fumaça.
— Não é isso que eu quis dizer... — Alice levantou-se, limpando a terra e as folhas de suas mãos e de seu vestido. — Meu nome é Alice, embora eu sinta que perdi a Alice de mim... — Tudo ficou em silêncio. — Senhora? Onde estás? Por que há tanta fumaça? — Alice olhava para todos os lados; o eflúvio do fumo era doce e amendoado. De súbito, um bater de asas grandes zumbiu nos céus e de lá descera uma mariposa cujo tamanho assemelhava-se a uma criança de dez anos de idade. Era alabastrina e felpuda, com duas antenas cheias de bifurcações em tom amarronzado; grandes olhos negros ela tinha e trazia consigo um tipo de incenso aromático.
— Quem és tu? — Indagou a mariposa; Alice ficou encantada com a beleza pálida e felpuda da criatura.
— Eu deveria ser Alice, mas estou confusa... — Respondeu, com inocência.
—Quem és tu? — Insistiu a mariposa. Alice respirou fundo.
— Eu achei que sabia, quero dizer; quando despertei, eu sabia que antes, em algum momento, eu era eu, mas, desde então, já mudei diversas vezes.
— Mudou como? — Perscrutou a mariposa. Alice sentou-se, suspirante.
— Queria um sentido para a vida, tentei alguns, mas perdi-me em todos; agora estou mais longe de mim do que outrora.
— O que achas desta pedra? — A mariposa falava da pedra que Alice usava como assento.
— Está confortável, na verdade.
— O que achas d’esta pedra? — A mariposa parecia não satisfeita com algumas respostas. Alice pensou bem.
— Eu gosto.
— Então já sabes que Alice gosta d’esta pedra.
— Sim, eu sei; mas, isso ainda não traz sentido para minha existência; tu podes gostar desta pedra igualmente e tu não és Alice.
— Não, a pedra não me agrada.
— Tu não compreendes! — Alice levantou-se, pretendia continuar seu caminho sem rumo.
— Ouça. Se o sentido de tua vida fosse encontrar esta pedra, o que farias agora? — Alice pensou mais uma vez; não lhe parecia incrível ter este sentido para a vida, entretanto esforçou-se para compreender a mariposa.
— Bem... eu estaria eternamente feliz? — Alice duvidou de sua própria frase.
— Certamente que não.
— Estás dizendo que a cada novo sentido, preciso de um novo sentido? — A mariposa fez silêncio e Alice a acompanhou.
— Todo o sentido é uma pedra no final... — Afirmou a mariposa. — E toda pedra pode ser um sentido...
— Por que precisa ser difícil? — Alice bocejou e caminhou até uma pilha de folhas secas. — Por que não posso apenas saber e pronto? Eu poderia ter nascido para colher maçãs e estar feliz colhendo maçãs eternamente. Mas, não, preciso estar com esse vácuo no coração, esse enigma no espírito. Eu pensei que tudo precisava de um sentido e o sentido precisava de lógica; agora perdi-me de mim mesma, sem sentido, sem lógica, sem fragmentos da minha alma. E agora o sentido é uma pedra e toda a pedra é um sentido... o que isso significa, afinal? — A Mariposa sumira e Alice pensou que havia importunado a criatura; olhou, então para cima, observando a floresta acastanhada. — Se deixo este lugar, vou a outro para sentir as mesmas ausências. Se decido um novo caminho, preciso decidir outro e, na maioria das vezes, estou na solidão que é capaz de aparecer mesmo quando há alguém próximo a mim. O que me parece é que a solidão e a ausência são os únicos e verdadeiros sentidos, o que faz tudo ficar extremamente angustiante. Por que eu viveria para isso? Quem poderia ter sido tão perverso a ponto de dar vida a uma criatura que não pode ser feliz?
— Senhorita... — Disse uma grave voz aveludada e Alice olhou em direção ao som. Ela imediatamente viu um Antílope negro com grandes e longos chifres. Era um animal forte e alto, não parecia um Antílope como qualquer outro. — Teu falatório inconclusivo está atrapalhando o sono de meus filhos.
— P-perdoa-me, senhor; já estou de saída... — Alice sentiu-se perturbada por perturbar outrem.
— Com tantas indagações, talvez devas encontrar a Rainha, pois ela sempre tem uma resposta para tudo.
— Não sei ao certo se quero respostas... bastar-me-ia a morte, neste caso...
— Duvido muito que anseies pela morte, senhorita. Se mal sabes lidar com a vida, como lidarás com algo tão mais enigmático? Por acaso sabes o que é a morte?
— Pensei que fosse o descanso eterno...
— É o que dizem, entretanto, se te apegas nisso com tanto vigor, como ousas não ver razão para se apegar em qualquer coisa na vida? A vida está ao teu dispor e a morte é o mistério indomável, ainda assim, preferes a morte? Estando sujeita aos horrores que desconheces ou aos prazeres abundantes ou, ainda, estando sujeita ao limbo, onde a ausência é ainda mais colossal do que essa mísera solidão que guardas em teu peito... ainda assim, queres a morte? Isso é estúpido, para não dizer outra coisa... — O Antílope arquejou, um pouco irritado. — Seja o que for, senhorita; se queres a morte ou se anseias por resposta, visite a Rainha. Ela é capaz de te dar tanto um quanto outro.
Alice sentiu-se bastante afetada pelos dizeres do Antílope; sentiu-se humilhada, em certo aspecto, pelas palavras agressivas disfarçadas de educação. A criatura foi embora, sem esperar um adeus e sem dar um. Alice decidiu caminhar no sentido que o Antílope olhava sempre que mencionava a tal rainha e, com receio de quebrar a lei do silêncio e importunar outras famílias, apenas ficou pensando, sem proferir uma única sílaba. As palavras do Antílope a deixaram sensível e ansiosa, então, mesmo sozinha e mesmo estando obrigada a calar-se por completo, nas profundezas de seu ser, ela buscou se acalmar da única maneira que sabia poder: recitando alguns versos. Por infortúnio, ela não conseguia se lembrar de nenhum e isso a deixou ainda mais aflita. "Esqueci-me de todos os poemas?” pensou “Que atrocidade sem tamanho... as musicalidades foram soterradas, as rimas perdidas, a beleza afogada no esquecimento...” — Alice percebeu que se aproximava um estranho medo.
— Envolta em névoa onírica estive — ela recitou
— Pensares sobre tantas incertezas — Voz trêmula no segundo verso.
— No peito uma saudade ali mantive — Imersa por completa em seu poema.
— Proste-se, criatura, à Vossa Alteza! — Vociferou alguém e Alice sentiu uma pancada em sua cabeça. Ao buscar entender o que ocorrera, em um galho baixo estava uma simiesca criatura segurando um tipo de báculo curvado com uma maçã, a verter um licor escarlate, cravada na ponta. Ao tocar sua própria cabeça, onde sentira a pancada, Alice tateou em algo úmido e, ao olhar seus dedos, estavam carmim. De imediato entendeu o que se passara.
— Por que me feriste sem razão? — Ela bradou, em cólera. O símio sorriu, fazendo sons estranhos e desordeiros. Ele tinha uma cabeça amassada e minúsculas orelhas; era todo despelado, sua pele dobrava-se rosada e seu rosto era pálido. Tinha sete membros, três pernas e quatro braços.
— Estás entrando no reino da Rainha, portanto, deves cumprir os protocolos. — Grunhiu a criatura.
— Quem és tu? — Alice perguntou, irritadíssima.
— Sou o Sagui mais fiel à rainha.
— Não pareces um Sagui...
— É porque... tive de servir à fascinante Majestade e... como um bom súdito... eu... fui abençoado... Veja só! Agora tenho vários braços e mãos para segurar todas as maçãs que eu quiser. — Alice achou aquilo bastante pavoroso.
De repente, uma horda de animais de todos os tipos, eles carregavam galhos afiados nas pontas; estavam vestindo máscaras horrendas que lumiavam sob a luz do dia, feitas do que parecia ser fragmentos de vidro e pétalas de um tipo bizarro de planta coralina. Quatro grandes rinocerontes mascarados carregavam um tipo de trono feito de flores e, nele, uma mulher se assentava. Ela tinha os olhos fundos, um tanto cadavéricos; usava uma coroa de pinhas e galhos, tinha ressequidas folhas ao redor do pescoço, alongando-o e, por fim, vestia-se em um vestido na cor vinho, longo, régio e com corações... corações empalhados, de vários tamanhos, de inúmeras criaturas diferentes, como ornamentos em seu vestido. Seus cabelos eram rubros e uma tinta negrume contornava a linha do que seria seu sorriso e ao redor dos seus olhos de precipício. O Sagui escondeu-se atrás de Alice assim que viu a Rainha. Alice, amedrontada, ficou prostrada, em reverência, torcendo, na verdade, para não ser vista abaixada.
— Parem agora! — Gritou a Rainha. — O que é essa coisa? — Alice demorou um pouco para levantar seu olhar e perceber que a horda terrífica a olhava, embora não tivessem olhos de fato. Alice ergueu-se, apavorada e contida.
— Sou Alice... — Um silêncio pairou.
— Arranquem-lhe o coração! — Gritou a mulher, sua voz era estridente e com um fundo agourento.
— Mas por quê? Eu nada fiz! Não faz sentido! — Os animais se aproximavam, apontando suas lanças. — Vossa Majestade, eu posso lhe ser útil, não?
— Parem! — Mais um brado da mulher. — Útil?
— S-sim... Posso ser útil para... — Alice não sabia ao certo o que estava fazendo, tampouco sabia se daria certo.
— Alice sabe sair do arvoredo — murmurou o Sagui, interrompendo-a. Antes que Alice o contestasse, pois ela não sabia o caminho de volta para à costa, a rainha voltou a praguejar.
— Isso é útil de fato... a razão da minha existência se pauta em deixar essa floresta imunda! Vá! — Ordenou — Vá à frente, mostrando-nos o caminho. Alice ficou em silêncio enquanto caminhava para liderar à horda. Por sorte, ou não, mais à frente a rainha e seus súditos não podiam ouvi-la, apenas a viam. O Sagui a acompanhou.
— Por que mentiste? — Sussurrou Alice.
— Eu não minto! — Retrucou o Sagui e logo Alice percebeu que se tinha algo que aquele símio fazia, este algo era, decerto, mentir. Alice pensou em correr, mas, sentiu que não seria capaz de ir mais rápido que os rinocerontes. Depois, ponderou em como guiá-los todos para um abismo, entretanto, Alice não era uma pessoa má. Notou que as máscaras que as criaturas usavam eram semelhantes às do Ateliê do Artesão e isso a levou a imaginar que os animais estavam dominados por algo que não era eles mesmos. Alice parou seus passos e tomou uma decisão por impulso. Voltou à rainha, deixando o Sagui (que era um medroso) boquiaberto. Mesmo medroso, ele a seguiu.
— Para que possamos continuar, a Rainha precisara responder às indagações da floresta; eu as escuto e a ti repito. A floresta exige isso, para que o caminho se mostre. — Disse Alice com toda a sua coragem. Um silêncio pairou novamente.
— Interessante... — Disse o Gato, assustando Alice. Ao olhá-lo, todos ficaram estáticos, exceto ela e gato.
— Chesir? Como tu... — Alice estava confusa.
— Estou curioso, quais perguntas tu farás à Rainha dos Corações? — O gato sorria como outrora, um sorriso imenso e sinistro; seus olhos pálidos atentavam-se à Alice.
— Tu paraste o tempo? — É verdade que quando Chesir se aproximara da primeira vez, tudo parecera diferente e embaçado; uma densidade hialina envolveu tudo e as árvores pareciam mais lentas no encontro com a brisa da floresta; exatamente como acontecia naquele momento! Os sons ficaram rarefeitos, Alice sentiu-se estranha, todavia, ela não imaginara que todos esses sintomas eram culpa do gato, tanto daquela vez quando desta.
— Péssima pergunta! — Respondeu Chesir.
— Não, eu não farei essa pergunta para a Rainha. Quero saber como um gato pode parar o tempo! — Chesir ronronou, esfregando-se na árvore em que estava.
— Ora, todos os gatos fazer isso, não? — Ele sorriu ainda mais e, com uma voz embargada de beleza e astúcia, respondera: — Eu não paro o tempo, Alice.
— Como não? — Alice estava chocada. Chesir lambeu seu pelo límpido e expressou uma indiferença única, em tom solene.
— Ele é quem para quando chego. — Afirmara e não havia como dizer que ele não estava certo. Alice sabia o quanto aquele felino era astucioso. — Parece-me que tu não sabes o que perguntará à Rainha.
— Sei sim! — Alice afirmou, convicta, embora sua voz tenha ficado um tanto trêmula ao lado da exclamação (se, claro, isso fosse uma história escrita). — “Qual é o sentido da vida!” é a primeira pergunta. — O gato apenas a observava. — “Qual é o sentido da morte?” é a segunda pergunta. — Alice esperou uma reação do gato, mas ele continuava observando. — “Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê?” é a última pergunta. — Chesir continuava com seu sorriso inalterado. — O Antílope disse que ela tinha todas as respostas... — Justificou Alice. O felino espreguiçou-se e se aconchegou, preparando-se para uma soneca.
— Lembre-se, Alice, não importa a resposta, importa apenas a pergunta. — Ele disse, carinhosamente. — Faça-me um favor, se possível. — Chesir, embora sorridente como sempre, parecia um pouco mais sério e menos debochado. — Pergunte-a por que a máscara que ela usa pesa mais que sua coroa. — Alice estremeceu e o gato deu-lhe uma piscadela com o olho direito. Ela sentiu-se profundamente instigada a perguntar àquilo para a Rainha.
— Vamos, mulherzinha, faça as perguntas! — A voz agourenta ressurgindo, fazendo Alice sentir dor nos tímpanos.
— Qual é o sentido da vida? — Alice iniciou.
— Sair dessa floresta imunda! — Respondeu a Rainha, como uma lâmina afiada. Alice começou a perceber profundamente o que o gato quis dizer com sua pergunta à Rainha, pois, além de não haver nenhuma máscara na face da Majestade, ela ainda parecia envenenada com sua própria índole, como as máscaras do Artesão que envenenavam a alma, levando-a a se fragmentar e se perder.
— Qual é o sentido da morte? — Indagou Alice, mas, naquele ponto, ela realmente não se importava com a resposta.
— Ser uma ferramenta para me guiar para fora desse mausoléu nojento! — Alice achava a floresta amedrontadora e, de fato, desejou deixá-la o mais rápido possível, porém, havia ali uma beleza estonteante e, por isso, ela não compreendia por que a Rainha dizia aquelas palavras violentas.
— Tu preferes a vida ou a morte? Se a vida, por quê? Se a morte, por quê? — “Penúltima pergunta” Alice pensou.
— Odiei essa pergunta, próxima! — Alice, que estava perto do trono ambulante, sentiu gotículas de saliva em sua face, tanto foi a impetuosidade da resposta da Rainha. E era chegada a hora. Alice respirou fundo.
— Por que a tua máscara pesa mais que tua coroa? — Questionou Alice. O olhar da Rainha tornou-se fúria absoluta.
— Arranquem-lhe o coração, agora! — Gritou a rainha. Os animais mascarados começaram a perseguir Alice que tão logo correu o mais depressa que pôde. A gramínea, que outrora envolvia seus pés com cuidado, agora parecia impulsioná-la para que pudesse fugir com a velocidade precisa. Mas esta ajuda não fora suficiente. Alice sobre uma pilha de folhas secas, caiu em um buraco profundo e infindável. Havia se livrado de ter seu coração empalhado pela rainha, mas agora se via caindo e caindo. Era como um poço profundo e sem sim, símil a um abismo sombrio; ela gritava em desespero e, amedrontada, fechou seus olhos com intensidade e jurou abri-los apenas quando algo acontecesse. É uma pena, pois perdera o espetáculo das fotografias na parede do poço.
Quando sentiu seu corpo colidir com algo macio, Alice abriu seus olhos lacrimejantes e quando ergueu seu olhar à paisagem, turvou-se na sublime apreciação amedrontadora de uma frondosa floresta colossal e, à sua frente, um oceano escurecido e plácido sob um céu rosa-empoeirado. A visão de um veleiro embaçado, atracado à costa, imediatamente a fez se lembrar de tudo o que vivenciara na floresta. O veleiro ainda apertava seu coração, era a mesma cena, o mesmo instante, a mesma visão e, agora, poderia ser uma boa hora para ir até o que lhe parecera uma miragem da primeira vez, pois, talvez não fosse ilusão. Ela poderia pedir ajuda e ser salva de perder-se eternamente no bosque imensurável... era o seu desejo, não era? Ela queria deixar o que lhe parecia uma ilha encantada em maravilhas e horrores, entretanto, Alice viu o esguio coelho de dentes afiados, igualzinho da primeira vez. Ele, com os mesmos movimentos, aparecera, mas, dessa vez, ele enterrou um relógio de bolso.
Para Alice, tudo fora idêntico ao início de seu estranho despertar, exceto pelo coelho enterrando um relógio. Essa sutil diferença mexeu, profundamente, com Alice. Por que ele desenterrou o relógio no início? Por que o enterrava naquele momento? E se as cenas eram idênticas, como pôde haver uma diferença? Havia tanto o que saber, tantas perguntas, tantos porquês. Como ficaria o Artesão? A Rainha arrancaria quantos corações para empalhar? E a fuinha encontraria ou não a pimenta que a raposa pediu?
Alice pensava e logo viu o coelho entrando, bastante apressado, para dentro do denso arvoredo. Ela não tinha muito tempo, ela precisava escolher. O que outrora era ausente, ali tornou-se um verdadeiro sentido; Alice queria saber mais sobre a magnífica floresta que lhe parecia tão íntima... tão familiar... Então, tomou a difícil decisão: deu adeus ao veleiro e foi, pela segunda vez, atrás do láparo esguio.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Mortt, de Alva: Capítulo 1
Antemanhã de lua cheia, lôbrega em névoa rubra. Outono e decadência, a morte encíclica brinda, hoje ou amanhã, a todos os que residem no…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Antemanhã de lua cheia, lôbrega em névoa rubra. Outono e decadência, a morte encíclica brinda, hoje ou amanhã, a todos os que residem no âmago da vida. Aromantada em jasmim, Alva Ttelihllen lacrimante está sobre o corpo de sua mãe, cujo lânguido coração pulsara pela última vez na colheita de fungos para o desjejum. Uma cesta deles está caída ao lado do cadáver e o silêncio é a profecia d’um perpétuo adeus. Um oblivinum mórbido pode ser ouvindo, no fundo do ser de Alva, pois ela se recorda de tocar o instrumento à sua mãe, quando era pequenina.
Entretanto, no horizonte, caminhando; Alva observa surgir um cavaleiro com armadura ornamental de ferro negro e uma imensa foice cortante. Ele se aproxima silente e, já bem perto, observa os cristais lacrimais de Alva que o fitam. Intrigado por tê-los ao seu dispor, o Cavaleiro paralisa. Alva levanta-se devagar e, dos arbustos rosais ao derredor, colhe uma rosa rubra e a coloca no torso do cavaleiro, próximo ao seu coração vazio. “Seja bondoso com a alma de minha mãe… ela era gentil e amável… esta foice a causará dor?” — Por assimilação, Alva compreendeu que ele era o Ceifador.
Logo após o abalo primevo, o Cavaleiro da Morte fez florir um crisântemo em suas mãos enluvadas e, ao colocá-lo sobre a fronte da falecida Grascie, fez com que su’alma se esvaísse do manto da vida. Alva o abraçou, delicada. “Obrigada…” — agradeceu, pois compreendeu que o Cavaleiro não apenas a ouviu, mas honrou o seu pedido. Diante do abraço, diante do envolver das mãos lhanas em sua armadura árida, o Cavaleiro encostou seu rosto no rosto de Alva, cuidadosamente; segurou-lhe em sua cintura e, pouco a pouco, tornou-se incorpóreo em névoa negra, até desaparecer.
Ele tinha de ceifar uma nova alma e, portanto, precisava partir. Alva colheu os cogumelos e voltou para seu lar solitário. O Coveiro foi chamado para cumprir com seu lavor, entretanto, Alva permaneceu em seu recôndito, observando o dia perecer; sua demasiada sensibilidade a impedia de comparecer ao enterro da senhora Grascie. Alva, em lágrimas, adormeceu no crepúsculo e despertou à meia-noite, destinada a cumprir o que se revelara em seus sonhos: escrever uma carta ao Cavaleiro da Morte.
“Caríssimo Cavaleiro da Morte… ou Ceifador… Ou tão só um cultor de crisântemos…
Confesso-te não ter sido afável ter te encontrado n’esta melancólica aurora, sob o céu vestal da vida, com a brisa horizontal rarefeita. Vivenciei, senhor, a dor mais augúria possível àqueles que, com estima profunda, caminham descalços sobre a gramínea da vida, sem cultivar rancores, sem cometer uma única injustiça… entretanto, acalenta-me que levaras a alma de minha amável mãe, com o respeito que lhe era merecida.
Escrevo-te, não obstante, por ser submissa à solidão desde então e ninguém há de compreender minha dor tal como tu podes, sendo o Ceifador das almas d’esta doce, e cruel, Lacrimur. Tu vês para além do que reside em meu semblante, eu sei, eu sinto. E mesmo que esta carta não alcance a tua sublimidade obscura, e tu venhas visitar-me tão só no meu fim, peço-te que, então, me escrevas; para que eu compreenda haver, n’este derredor misterioso que constitui a vida em si mesma, uma razão para que seja devolvido o sorrir à minha feição magoada.
Diga-me, Cavaleiro, o que pode defrontar o sôfrego luto, com adagas de alívio, e vencer?
Com carinho e dor…
Ao Cavaleiro,
de Alva Ttelihllen”
A missiva, n’um envelope de seda enegrecida, fora colocada aos pés do rio no bosque próximo à casa de Alva, lá onde frequente se avista Morpho Cisseis em crisálidas e em voos ornamentais. A espécime é conhecida pelo seu vínculo com a Morte, dada a efemeridade de sua existência, a beleza sublime de sua constituição e, acima de tudo, a fleuma de suas transmutações. Alva espera que o símbolo vestal da borboleta azulescida resulte no vir do Cavaleiro ao seu encontro, entretanto, reside em seu âmago uma fé de que as borboletas sussurrarão as palavras da carta ao Cavaleiro e ele versará uma resposta gentil antes de sua próxima visita.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Imersão ao Castelo Drácula: Exercício de Escrita
D’esta vez, trago um pouco do universo de nossa Escrivaninha para você. Escreva!
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Eu escrevo, todo o mês, ideias de escrita e inspirações para os autores oficiais do Castelo Drácula; d’esta vez, trago um pouco do universo de nossa Escrivaninha para você.
Olá, leitor; você está profundamente envolvido com as histórias e a poética d’este lôbrego recôndito, estou certa? Compreendo que talvez lhe seja interessante adentrar ao mundo da Escrita e criar um personagem que seja, pois, um residente deste alcácer. Um personagem que seja semelhante a você, para que você encontre conforto n’este sombrio espaço e possa vivenciar o inominável e o sublime em seu universo.
Por esta razão, pensei que seria uma ótima ideia ajudar os leitores a se criarem nesse mesmo mundo, onde eles podem ser quem quiserem e podem ter, portanto, um alívio da realidade hiperestimulante e superficial. Comecemos, então, a escrever!
No Castelo Drácula, mesmo aqueles que não são escritores são instigados a escrever suas experiências em diários e anfêmeros; em ambos os casos, o residente contará como foi o seu dia e a sua vivência com os fenômenos que lhe vieram de encontro no Castelo. Nesta primeira imersão, vamos vivenciar Aesttera!
Sim! O que você acha de escrever uma página em seu diário e descrever a sua participação na confraternização Aesttera, onde um outono carmesim opaco se estende no horizonte e pessoas em trajes de gala e máscaras de láparos dançam e se embriagam com o vinho da Maçã Sangrenta? Imagine-se caminhando entre os convivas, sinta o perfume de cacau, ouça Masked Ball, de Jocelyn Pook, para entrar no clima (esta música é a essência de Aesttera). E descreva, por fim, cada detalhe do que vê, cada sensação que a música lhe causa.
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Indagações para imersão:
Qual é o cheiro d’este lugar? As cores em tons rubros opacos e a névoa rosé lhe transmitem quais sensações? Quais vestes você usa? Quem vai interagir contigo? Qual é o sabor do vinho da Maçã Sangrenta? Como é estar em um lugar tão fora da sua realidade, capaz de embriagar seus sentidos apenas com estímulos lentos e profundos?
Aqui, o tempo é uma mentira; portanto, nada pode ser adiantado ou atrasado. Aqui, você não pode fugir de si mesmo, pois você é parte essencial de uma totalidade. Você é importante aqui! Cada frase que você ler e cada palavra que você escrever terá um peso abíssico n’este Castelo lôbrego. E Aesttera é uma confraternização que te fará lembrar-se disso, com a esperança e o horror que pertencem a este outono que nasce agora, onde a decadência é insondável, mas, no coração, reside a esperança fértil da primavera de outrora.
O verão acabou, senhoras e senhores. Conte em seus diários como é a morte do verão para as suas percepções. Para ser ainda mais didática, abaixo está parte do que escrevi em meu Anfêmero, como personagem d’este universo raro.
Em vestes negras, vitorianas, caminho n’este jardim lúgubre e belo, carmim-acinzentado, com flores e folhas ressequidas. Minha pele é um marfim pálido, e eu ouço a música inebriante, como um ritual de invocação das criaturas do outro lado. O vinho da Maçã Sangrenta é doce; eu o aprecio enquanto caminho e observo tantas pessoas misteriosas. Recebo alguns olhares curiosos. Algumas pessoas sabem quem sou e me cumprimentam de longe, com uma tênue reverência e com um apreço e admiração que reconheço. É bom estar aqui, entre aqueles que compreendem a existência d’este lugar.
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Use as palavras que fizerem sentido para você; não precisam ser rebuscadas, tampouco precisam ser comuns. Deixe que a Escrita guie teus dedos e teu coração; deixe que a Escrita se manifeste e, claro, envie para nós uma parte de seu diário sobre o que escreveste em Aesttera, para que possamos publicar na próxima edição do Castelo Drácula. Assim, você estará mais próximo de nós e d’este mundo único que estamos construindo.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
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As 10 Mais Terríveis Lendas Urbanas do Mundo
Lendas urbanas são narrativas misteriosas, por vezes macabras, que circulam entre as pessoas…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O que são lendas urbanas?
Lendas urbanas são narrativas misteriosas, por vezes macabras, que circulam entre as pessoas, contadas de boca em boca, adaptando-se ao tempo, ao lugar e aos medos de cada geração. Diferente dos mitos ancestrais, essas histórias têm um pé no cotidiano, como se pudessem acontecer com qualquer um — com você, com alguém da sua rua, com uma prima da sua vizinha. São, muitas vezes, ambientadas em cidades, escolas, hospitais, estradas ou casas comuns. Elas carregam o poder do “quase-verdadeiro”, provocando aquela sensação inquietante de que poderia ter acontecido e que talvez tenha mesmo acontecido
Embora muitas dessas histórias pareçam fictícias, é difícil dizer que são mesmo pura fantasia; elas revelam verdades emocionais e sociais profundas, funcionando como espelhos obscuros das ansiedades humanas: medo da morte, da solidão, da violência, do desconhecido. A beleza sombria das lendas urbanas está no modo como elas grudam na memória, como uma sombra atrás da porta entreaberta. Mas a verdade é que, sendo ou não reais, elas são capazes de tirar o nosso sono à noite.
Veja abaixo a lista das mais terríveis lendas urbanas do mundo.
1. A Mulher de Branco (diversas versões pelo mundo)
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Ela caminha à beira das estradas como quem busca o que nunca será devolvido: um filho perdido, um amor que se partiu, um destino violado pelo peso do mundo. Presente em inúmeras culturas, a Mulher de Branco é uma assombração universal, como se o luto feminino tivesse escolhido um único vestido para atravessar séculos e continentes. Dizem que aparece nas noites em que a neblina roça o chão como véu de noiva esquecido. Chora, murmura nomes, estende o braço em busca de carona — e se você a olhar duas vezes, será tarde demais. Em 1995, no interior de Ohio, uma mulher chamada Charlotte relatou ao jornal local que o marido parou o carro para uma jovem vestida de branco. Desde aquela noite, ele não é mais o mesmo. Sonha com gritos afogados, acorda suando em pleno inverno, e diz — quando tem coragem — que ela ainda está sentada no banco de trás. O mais estranho? O carro nunca mais fechou direito aquela porta.
2. O Homem do Saco (Brasil)
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Poucas figuras do imaginário popular brasileiro são tão temidas quanto o Homem do Saco. Embora muitos o considerem parte do folclore infantil — uma invenção para disciplinar crianças traquinas — há um lado mais escuro dessa história que paira como uma névoa pesada sobre bairros antigos, principalmente nas periferias urbanas. Dizem que ele perambula pelas ruas com um saco imenso nas costas, recolhendo crianças desobedientes, desaparecendo com elas sem deixar rastros. Mas há relatos que transcendem o didatismo e mergulham no terror puro. Na Zona Leste de São Paulo, quando eu ainda era pequena, algo aconteceu que nunca mais saiu da minha memória. O Lucas, filho da vizinha, contou que viu “um homem estranho com um saco” passando pela frente da nossa rua. Avisou a mãe, assustado. E ela, ao olhar pela janela, enxergou um velho de andar irregular, carregando o tal saco. Mas o que realmente a fez chamar a polícia não foi a aparência dele — foi o movimento dentro do saco. Algo se contorcia lá dentro. Algo pequeno, algo... vivo. Segundo ela, parecia o tamanho de uma criança. A polícia veio, mas o homem já havia sumido. Naquela semana, não brinquei no quintal. Nem na próxima. E até hoje, ao ouvir passos arrastados pela calçada, eu ainda me arrepio, como se aquele Homem do Saco pudesse voltar, mesmo eu não sendo mais criança.
3. Bloody Mary (Estados Unidos)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Diante do espelho, à meia-noite, quando a casa adormece e o mundo parece conter a respiração, basta repetir seu nome três vezes: Bloody Mary… Bloody Mary… Bloody Mary. A tradição é conhecida — e temida. Mais do que uma brincadeira de escola, a lenda evoca o espírito de uma mulher injustiçada, enlouquecida pela dor ou pela fúria, que emerge do outro lado do vidro para ceifar o que lhe resta de justiça. Suas origens se entrelaçam com histórias antigas de bruxas queimadas, rainhas enlouquecidas pelo sangue e crimes silenciados à força. Em um antigo fórum do 4chan, há um relato que fez os olhos digitais da comunidade tremerem: um adolescente afirma que, ao realizar o ritual com dois amigos, algo real aconteceu. O espelho escureceu por dentro. Uma figura ensanguentada se formou; os cabelos pingavam como se tivessem sido lavados em carne crua — e então ela atravessou. Dois dos participantes, segundo ele, jamais acordaram. E desde então, ele não consegue mais encarar um espelho. Pois, quando o faz, seu reflexo carrega não apenas o peso do horror que viveu… mas uma companhia. Sempre ali, atrás dele, com os longos cabelos loiros molhados, como se nunca tivesse partido.
4. O Fantasma que Grita de Yokocho (Japão)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dizem que em certos becos de Tóquio, aqueles tão estreitos que o céu parece um corte fino acima da cabeça, há um espírito que não quer ser esquecido. Ele aparece apenas quando alguém caminha sozinho — o som dos próprios passos sendo a única companhia até que… se ouve o grito. Um grito tão humano, tão rasgado, tão repentino, que o instinto é fugir, mas o corpo simplesmente trava. A lenda — obscura até mesmo dentro do Japão — conta que o fantasma é de um homem brutalmente assassinado ali, no silêncio abafado da noite, e que ninguém ouviu seus últimos gritos. Por isso, agora, ele grita por todos os que não puderam. Grita até ensurdecer. Grita até enlouquecer. Um dos poucos relatos conhecidos envolve uma senhora que teria perdido completamente a audição após cruzar um Yokocho ao entardecer. Mas o estranho é que esse relato jamais se espalhou, como tantas outras lendas urbanas. Algumas pessoas afirmam que há esforços para silenciar a história, pois os becos atraem turistas e há interesses em manter as rotas “seguras”. Outros dizem que o fantasma não quer ser lembrado… ele quer ser ouvido. E quando grita, o que ecoa não é apenas o som de sua morte, mas o peso do mundo que não ouviu ninguém.
5. O Bebê Chorando no Beiral (México e América Latina)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Poucas coisas são tão perturbadoras quanto ouvir um bebê chorar onde não deveria haver nenhum. E é exatamente isso que acontece em algumas noites abafadas nas cidades do México e da América Latina: um lamento frágil e insistente escorre dos beirais, dos telhados, das frestas entre o telhado e o céu. Quem ouve — principalmente mulheres — sente o coração apertar. O som parece vir de cima, de muito perto, como se um recém-nascido estivesse sozinho e em perigo. Mas o que espera no alto não é um bebê… é uma entidade. Algo que sabe imitar o desespero com perfeição. Dizem que quem segue o choro pode ser atacado por algo que não tem rosto, apenas mãos longas e uma fome antiga. Um dos relatos mais inquietantes circula de forma anônima sobre uma noite movimentada na famosa rua Álvaro Obregón, no México. Entre turistas e luzes, apenas uma mulher escutava o choro. O som era real para ela. Seus amigos a seguraram quando ela tentou escalar uma escada de serviço, convencida de que havia uma criança em apuros. E foi só quando ela desistiu… que ouviu. Uma risada gutural, densa como fumaça, seguida de uma voz grave que sussurrou ao seu ouvido: “Volta, mamãe.” Desde então, ela diz que o som do choro ainda a encontra, mesmo nas noites mais silenciosas, mesmo quando não há telhado acima.
6. O Boneco Robert (Estados Unidos)
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À primeira vista, é apenas um brinquedo: um boneco antigo de feições desbotadas, olhos vítreos e sorriso ausente. Mas por trás do pano costurado e do uniforme marinho, mora uma presença — algo que observa, reage e se ofende. O boneco Robert, atualmente preservado em um museu na Flórida, é conhecido por amaldiçoar aqueles que o desrespeitam. Visitantes afirmam que ele muda de posição quando ninguém está olhando, que seus olhos acompanham cada passo e, nas madrugadas mais silenciosas, pode-se ouvir um leve som: algo entre uma risada infantil e o ranger de juntas de pano seco. Embora sua origem seja americana, a lenda dos bonecos amaldiçoados atravessa fronteiras, como se existisse uma verdade universal no medo que sentimos diante de olhos inertes que parecem… vivos. Quase todo o país tem sua versão: um brinquedo que não aceita o esquecimento. E, às vezes, o horror não é lenda. Quando eu era criança — e isso ainda me pesa na memória — havia uma boneca da Eliana, do meu tamanho, que piscava para mim à noite. Diziam que era imaginação… até o dia em que ela mudou de lugar sozinha e, então, foi levada para o lixo. A infância, desde então, nunca mais foi exatamente segura.
7. O Zelador do Prédio abandonado (São Paulo)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
No ABC Paulista, em 1987, um prédio abandonado se erguia como uma sombra viva em frente a uma escola estadual. Seus andares vazios, janelas estilhaçadas e paredes cobertas de musgo atraíam os estudantes como um ímã sombrio — fosse pela adrenalina de uma invasão noturna, fosse pelo desejo de escapar da rotina escolar em festinhas proibidas. Mas logo os relatos começaram. Silenciosos no início, como cochichos entre colegas; depois, estampados no jornal interno da escola. Muitos afirmavam ter visto a mesma figura: um homem velho, magro, de semblante vazio e olhar opaco, carregando um molho de chaves que tilintavam como sinos de advertência. Ele surgia do nada e caminhava rápido, como se já soubesse onde os invasores estavam. Perseguia, correndo. E ninguém jamais quis descobrir o que acontecia se ele os alcançasse. Um rumor, persistente e cruel, dizia que o zelador assassinara uma aluna ali dentro, nos últimos anos de funcionamento do prédio — mas a história nunca foi comprovada. Ainda assim, o medo permaneceu. Muitos evitavam até olhar para o edifício ao atravessar a rua. E quem ousava invadir jurava ouvir as chaves tilintando no escuro, mesmo quando não havia mais ninguém ali. Eu, por mim, já vivi coisas estranhas demais em casas e prédios abandonados para duvidar. E você… já ouviu um som estranho ou viu algo terrífico em um lugar abandonado?
8. O Homem Rastejante (Rússia)
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ninguém sabe ao certo quando a primeira história surgiu. Alguns dizem que foi em Vladivostok, nas madrugadas nevadas que abafam os sons do mundo. Outros juram tê-lo visto em Moscou, nas vielas onde o concreto apodrece lentamente sob o peso da memória soviética. Mas o que se repete em todos os relatos é a mesma figura grotesca, arrastando-se pelas sombras como se o chão fosse sua morada e não o castigo. Seu corpo é alongado, torto. A pele, quando visível, parece gretada, ressecada. Dizem que ele veste restos de roupas — trapos colados ao corpo, úmidos, exalando um odor que lembra umidade e carne esquecida. Mas o que realmente petrifica quem o avista é o som. Um estalo seco. Como galhos partidos ou vértebras rangendo em protesto. O Homem Rastejante não corre. Não grita. Não fala. Ele apenas se aproxima, como uma culpa antiga ou uma doença que se instala em silêncio.
E há ainda os mais perturbadores relatos: aqueles que dizem que, se você olhar nos olhos dele, ele para. Por um segundo. O suficiente para que você sinta algo rastejando dentro de você. Há até quem diga que ele não machuca. Que ele apenas observa. Mas que, com o tempo, sua presença leva à loucura.
9. Smile Dog (Lenda da Deep Web)
Imagem da web
Reza a lenda que existe uma imagem amaldiçoada, perdida nas profundezas da internet, conhecida simplesmente como Smile.jpg. À primeira vista, parece apenas uma fotografia digital toscamente manipulada — o retrato de um cachorro da raça husky siberiano, com olhos vidrados e dentes expostos num sorriso grotesco, quase humano, quase… consciente. Ao fundo da imagem, uma sala mal iluminada, como se tivesse sido montada num limiar entre o pesadelo e a realidade. Mas há algo mais. Algo que não se vê, mas se sente — um desconforto visceral, como se aquela foto olhasse de volta. Aqueles que têm a infelicidade de visualizar o arquivo alegam sentir-se imediatamente mal. Pesadelos vívidos começam naquela mesma noite, com o cão aparecendo à beira da cama, sussurrando — sim, sussurrando — palavras desconexas que apenas mais tarde revelam-se comandos. As vítimas relatam um declínio mental rápido: ansiedade insuportável, ruídos caninos na madrugada, um desejo incontrolável de compartilhar a imagem com outros. Como se o próprio Smile Dog implorasse — ou ameaçasse — ser espalhado, como um vírus faminto por atenção.
Reza a lenda que quem se recusa a passar a imagem adiante enlouquece aos poucos, até sucumbir em silêncio. A foto em si é raramente encontrada. Alguns afirmam que ela muda de forma, outros que é deletada pelos próprios mecanismos da internet, como se a rede tentasse se proteger do que contém. Mas há quem diga que ela sempre retorna — enviada como anexo, ressurgindo em fóruns abandonados, em e-mails esquecidos… ou em sonhos. Porque, afinal, o Smile Dog não quer te matar. Não de imediato. Ele quer que você sorria com ele. Um sorriso largo demais. Um sorriso que não acaba nunca.
10. Slender Man
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Alto como uma árvore esquelética, esguio como um presságio, o Slender Man é uma entidade que encarna o silêncio absoluto do terror. Ele veste um terno escuro e antigo, como se estivesse perpetuamente pronto para um funeral que nunca acaba — talvez o seu. Seu rosto, ou melhor, a ausência dele, é uma superfície lisa e pálida, como um véu de porcelana esticado onde um semblante deveria existir. A ausência de olhos é o que mais perturba, porque ainda assim sentimos ser observados — não com pupilas, mas com algo mais profundo: com intenção. Ele é descrito frequentemente em pé entre as árvores, ao fundo de fotografias antigas, à beira de escolas, parques ou florestas. A princípio, um vulto. Depois, uma presença. Por fim, uma obsessão. As crianças são especialmente sensíveis a ele — e são, segundo as histórias, suas preferidas.
Ele as convida em silêncio, aparece em sonhos, convence sem palavras. E desaparece com elas como se nunca tivessem existido. O mais apavorante não é o que ele faz, mas o que ele representa: o medo de ser observado quando se está só, a sensação de estar sendo caçado por algo que não precisa correr, porque já está à sua frente. Ele não sangra. Ele não grita. Ele não persegue da forma usual. Ele espera, pacientemente, até que você o note. E então… é tarde demais. Criado em 2009 em um fórum da internet, Slender Man ultrapassou as fronteiras do imaginário virtual e passou a ser visto, citado, temido — e até culpado. Casos reais de violência atribuídos a ele demonstram o quão tênue é a linha entre o mito e a mente. Pois o Slender Man não se alimenta de carne — ele se alimenta de crença. Quanto mais o temem, mais real ele se torna.
Sahra Melihssa
Poeta, Escritora e Sonurista, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sahra Melihssa é a Anfitriã do projeto Castelo Drácula e sua literatura é intensa, obscura, sensual e lírica. De estilo clássico, vocábulo ornamental e lapidado, beleza literária lânguida e de essência núrida, a poeta dedica-se à escrita há mais de 20 anos. N’alcova de seu erotismo, explora o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo seus leitores em um imersivo, e por vezes sombrio, deleite. No túmulo da sua literatura gótica, a autora entrelaça o terror, horror e mistério com a beleza mélea, o fantástico e o botânico, como em uma valsa mórbida… » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A angústia é uma farpa
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
O que esperamos da existência efêmera que pertence ao nosso ser? Há muitos sentidos para serem criados e sustentados pelas idealizações e crenças que floresceram em nós sem que, por vezes, pudéssemos perceber. Para a Psicologia, o “dar-sentido” é o valor real do ser que somos; entretanto, ainda sinto que há algo que nunca será amordaçado pelo discurso do ânimo: essa angústia tão familiar, que se manifesta de infindáveis formas.
Na imensidão mórbida do inautêntico, vemos o cansaço ofuscar o lume da angústia, vemos a hiperestimulação construir seu palácio de vidro ao redor do abismo desta aflição muda — o silêncio soturno é ouvido mesmo quando o alarde, dentro e fora de si, é inominável. Mesmo ocupados demais para nos voltarmos a nós mesmos, o poço da nossa constituição faz-se cada vez mais fundo — e não há como impedi-lo.
Mesmo assim, insistimos. E a rolagem infinita, guiada pelo nosso dedo indicador, é o glitter que cega nossos olhos, e vicia. Ora choramos, ora rimos; em frações de segundos, temos uma descarga mental absurda. Ora nos preocupamos com as contas mensais, ora rezamos pelo fim do mundo. A angústia é o pano de fundo de um cotidiano abarrotado de razoabilidade.
Podemos temer uma nova pandemia, a terceira guerra ou, ainda, a revolução das máquinas; a mudez ensurdecedora do espírito continuará perturbando nosso banho de dopamina, deixando um rastro úmido de desalento sôfrego. E, quanto mais o tempo passa, estando cada vez mais soterrada, a angústia, uma hora, torna-se maior do que aquele a quem ela pertence — mesmo oprimida e muda, mesmo tão ínfima como uma farpa.
Uma crítica é apenas uma crítica; uma verdade é sempre mais do que uma verdade. Podemos deixar as redes sociais? Podemos abraçar o tédio? O tempo transfigurado em infinito sem um ecrã luminoso para a bel lascívia psíquica? Não podemos. E os que podem estão mortos — incapazes de lidar com o tamanho de suas angústias ou iludidos pelo ego de suas pseudo-superioridades sobre a massa que consideram ignorante.
Estamos dispostos a discordar e questionar, não estamos dispostos a pensar, quietos.
Há anos — é minha percepção — não escrevo pensamentos e reflexões, tomada pela sensação de que meu pensar trará ódio daqueles que vagam, almas vagantes, na world wide web. Intolerantes por toda parte. E eu mesma, talvez, veja a hipocrisia no espelho. Ornamental e sublime hipocrisia. Pela constância com que me vejo nesse mundo, a Matrix dentro da Matrix, um sonho dentro de um sonho, eu não poderia pensar diferente disso.
Mas o que mais dói no silêncio da minha angústia é o quão alto ela grita e o quão solitária ela faz eu me sentir.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Capítulo 9 – Perturbadoras Revelações
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava, com carvalhos negros ressequidos e antigas estátuas de mármore cobertas por um tipo de limo amarantino à beira do índigo-profundo. À frente, um homem dava forma a uma sepultura, cavando sem pressa; observando a terra atra e úmida se amontoar ao lado da cova. Demorei-me para compreender que o indivíduo proferia palavras, as quais eu bem ouvia, após o súbito despertar que fizera um estranho chiado perturbar-me os ouvidos. Demorei-me, igualmente, para assimilar-me em pé, segurando em mãos um pequeno livro e vestida em tecido de veludo, na cor noite-violeta.
— … que entendia como algo irrelevante, tal qual a vida em si mesma é compreendida por um recém-nascido. Era, entretanto, aprazível viver nos augúrios nadificantes em Sihren, pois, vês? Cá é tudo cinza e silente. Lá, entre jardins de espécimes indizíveis e mais tantos visitantes a trazerem mudas crescidas de ascehderas e lihrios, eu podia me deleitar com o aroma místico enquanto aconselhava as criaturas que, na verdade, nunca precisaram de conselhos. Ah… sim… Sihren era mesmo o paraíso… aqui, entretanto, eu sou esta mórbida criatura que rasteja na terra e estes corpos, enterrados soltos no solo infértil, nunca recebem flores, tampouco saudações d’algum vivo que deles se recorde. — Após calar-se, o homem fitou os céus, como se mergulhasse em memórias. — Bom saber que eras de Sihren, senhora. Saber que tenho uma conterrânea, afaga esse meu velho coração. Não só uma, já conheci alguns outros… inclusive Olga… bem petiz, ela corria pelos corredores do Castelo do nosso imperador… ah… que saudade…
Minha reação, se é que posso dizer que reagi, era como um oceano infinito de incertezas sôfregas. Eu decerto o olhava confusa. Senti-me colocada em meio a algo que não me pertencia; desde o local até o corpo meu, pois, tão íntimo aquele senhor me dirigia sua palavra serena sobre o que tínhamos em comum, entretanto, como poderia saber? E eu lhe disse que sou de…Sihren? Mas como o poderia dizer se eu, decerto, não disse? E Olga, criança? Como e quando tal fenômeno ocorrera? Quem poderia ser este imperador? Eram tantas indagações, entretanto, nenhuma se clarificava à medida em que eu me esforçava para lembrar.
— Eu… — Sem que pensamentos torturantes florescessem, busquei algo sutil para trazer à tona e fazer com que o homem caísse em seu falatório que, por muito, soava-se valioso. Todavia, seus olhos se voltaram a mim e sua face, outrora tão tenra, transfigurou-se n’um pavor desmedido. O homem, na tentativa de fugir de mim como se eu lhe fosse a pior das assombrações, tropeçou em sua pá, ficando ainda mais horrorizado.
— Tu… tu és… um deles! — Bradou atormentado em medo.
— Senhor… por favor… eu não…
— Vampira!!! — Seu vocífero contornou os quatro quantos do universo. Ele ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na terra, sujando suas mãos ainda mais.
— Eu não te farei mal… — Tentei explicar.
— Teus olhos… onde estão…? Mudaram… tu és…como eles! Eles! — O homem correu com uma pressa espectral, guiado por um frenesi de medo insano entranhado na alma, como se fugisse do próprio passado reencarnado diante dele. Não o impedi, pois, sei que quaisquer ações poderiam levá-lo à morte súbita, tamanho era seu terror abominável. Apenas fiquei observando-o se afastar como um animal selvagem... embora, talvez, eu que fosse animalesca de fato.
Diligenciei-me, sob uma promessa autoimposta, a absorver a cinesia do que me parecia um desvario meu, uma insanidade onírica; e, então, reordená-la para que fizesse sentido. Entretanto, toda a lógica sangrava diante de meus pensamentos toldados por um discernimento fragmentado. A verdade é que eu estava de volta ao prólogo, com os olhos abertos para o mundo e um oceano de enigmas para decodificar. Por infortúnio, diferente do sereno início, eu carregava muito mais fardos e, um deles, decidiu se manifestar enquanto eu ponderava...
— Devias ter mantido teus olhos no fulvo que os pertence. — Ouvi. Olhei para trás e Seth estava ali, recostado em um carvalho.
— Como... saíste? — Questionei incrédula. Ele pareceu meândrico. “Ó, fardo maldito!” pensei.
— Do que estás falando, Áurea? — A voz de falésia e voragem.
— O ritual... o círculo... como tu quebraste a magia? — Eu estava mesmo incrédula, a magia era poderosa, não poderia ter se desintegrado sem que alguém, intencionalmente, a tivesse rompido. Seth se aproximou.
— Tu não te lembras? — Ele é quem estava, naquele instante e, mais do que eu, cético. Mantive-me em silêncio. Eu poderia estar perdendo minhas memórias recentes como um despertar de um sonho? — Hum... — Murmurou rodeando-me e, por fim, abaixou-se perto à cova, tocando a terra úmida. — Não te lembras que foste ao teu aposento, com uma adaga-cruz em mãos? Esta que refulge em teu cós, presa por uma fita de veludo? — Toquei-me a cintura, senti a adaga frígida. — E não te lembras de encontrar-me preso ao aposento e não ao círculo, dificultando a tua obscura intenção de fincar em meu peito o teu novo artefato?
— Do que estás falando? — Interrompi-o, aflita. Seth gargalhou e levantou-se.
— Interessante... se tu não te recordas, não serei eu o responsável por te trazer a lembrança; ainda mais sendo vítima da tua loucura e pendor assassino. Se não fosse por Olga, eu teria me tornado pó; mas... é gratificante saber que teu ponto fraco é tu mesma.
— Fale-me agora, Seth! — Segurei-lhe em seu braço com uma força que eu não sabia me pertencer; estava com ira abíssica e desejei, confesso sem receios, que ele não existisse e que toda a sua ironia e seu sarcasmo sucumbisse junto dele para mais profundo que o inferno de onde ele vinha. Olhamo-nos de perto. Ele sorriu outra vez.
— Um olho carmim... um olho dourado... Ela está vindo, Áurea... vais deixá-la entrar? — Pressionei ainda mais o seu braço e vi em seus olhos um fogo rubro faiscante enquanto seu semblante deixava o aspecto satírico e contornava-se em cólera.
— Basta!!! — Murmurei furiosa.
— Pergunta para Lorrt, Áurea. O maldito nocturvo que tanto te venera.
Eu não sei como, mas, ouvi-lo falar de Lorrt fora o estopim do meu furor. Num único movimento célere, segurei a adaga-cruz e passei pelo rosto de Seth. Um sangue negro verteu quente da fenda aberta em seu queixo. Sua mão prendeu-me o pescoço no mesmo ímpeto e mais um corte fiz sobre ela até que, num golpe desordenado, Seth fez a adaga soltar-se de minha mão e cair sobre a terra. Desarmada, segurei sua camisa torcendo-a contra seu pescoço e o golpeei entre suas pernas, fazendo-o se curvar em dor; presos e entrelaçados no ódio, desequilibramo-nos e caímos na cova — não foi o suficiente para me fazer parar.
Talhei seu rosto com meu punho fechado, três vezes, enquanto ele tentava prender minha mão esquerda. Sem sucesso. Embora fosse forte como um touro, não tinha nenhuma habilidade física contra meu esgueirar-se. Prensei seu estômago com meu joelho e senti-o segurar meus cabelos com avidez, buscando me parar. Seu murmúrio demoníaco se alastrava; cravei meus dentes em seu braço, fazendo-o me soltar e, fugaz, cravei-os novamente, mas em seu pescoço e suguei seu sangue asqueroso para, pouco depois, cuspi-lo em sua face. Seth, atordoado, grunhiu algo ainda mais diabólico e vi a tez de sua fronte rasgar como se algo em seu interior quisesse pôr à vista a verdadeira forma de sua constituição.
— Ssatt esstt hrasstt — Rosnou dizendo, grave algar. Forçou-me contra o muro, tentava virar-me para ficar sobre mim, mas não deixei; cravei meu olecrano em seu peito, fazendo-o tossir; entretanto, um obscuro calor em meu corpo emergiu como se dentro de mim e o incêndio daqueles olhos satânicos parecia se alastrar n’um ardor pecaminoso. Gritei como a morte em fel e chamas, enterrei minhas unhas em seu pescoço e as arrastei para baixo, sulcando sua pele. Por instantes, jurei que não haveria um fim, mas, o fogo do inferno cessou e Seth conseguiu prender-me os braços. Seus olhos atentos, seu corpo prensando-me na terra.
— É desleal fazer isso, Áurea; eu não posso te ferir, eu devo te proteger, essa é a minha função. Foi tu que assinaste o acordo com Lahgura.
— Que maldita proteção é esta? Obscurecendo as verdades que possui sobre minha própria existência! — Seth respirou fundo e soltou-me. Entre nós o silêncio pareceu-nos perdurar mil e uma noites.
— Quando… — Ele iniciou, demonstrava exaustão. — Quando teus olhos refulgem dourados, ambos, uma outra personalidade se manifesta — Seth tocou suas feridas, feitas por mim, e gemeu de dor intensa. — Ela, a outra, determinada e ciente de toda a tua história, não teme nada, é instintiva. Ela desejou a minha morte na violência de suas mãos, com seu desprezível caráter incólume. Ela é perigosa... — Seth se apoiou, saindo da cova e se sentando à beira.
— Não é fácil dizer a alguém importante que sua doença é psíquica e que esta, decerto, é a razão pela qual suas memórias desapareceram. Ela as roubou de ti... e eu... eu só não sabia como revelar este lídimo e pernicioso fato. — Confessou e estendeu-me sua mão esquerda, supus que pretendia me tirar da cova. Hesitei, mas, ele relevou o que devia e eu queria sair daquele úmido túmulo. E saímos, sujos de terra. Seth, sangrava. Nada proferi a respeito da revelação. — Minha Aessatt, eu te perdoo... não traga em tua fronte tal desespero. — Ele sorriu e eu o fuzilei com minhas retinas trêmulas em gana. — Agora, devo ir.
Antes que eu pudesse desfrutar do seu desaparecimento, ele se esvaneceu. Tentou acariciar meu rosto, mas não o permiti. Apenas com sua expressão de cinismo, foi embora fazendo uma reverência arrogante. Com certeza foi para o inferno, lugar onde pertence.
Demorei-me ali, sozinha. Vi o pequeno caderno e a adaga-cruz lançadas no solo fúnebre, peguei-as e as limpei como pude. Pouca e mórbida era a aragem que soprava e parecia-me que o entardecer não chegaria. Os céus, por instantes, soavam-me espúrio e o Castelo Drácula, no horizonte, uma miragem. Guardei a adaga em meu cós, no veludo que lhe era apropriado; abri o pequeno caderno. Havia uma frase escrita na primeira página, com a minha letra cursiva.
Naomie e Noellie — no quarto umbral, de cor gaultéria. Há treze escadas abaixo, iniciando pela espiral da biblioteca. No estreito corredor, elas possuem o Oráculo das Sete Profecias.
Uma parca esperança, pelo Norte que se fez possível, emergiu no meu íntimo como um lume tenro na escuridão. Meu caminho se erguera à frente, tal uma ponte no abismo. Com ou sem a maldição de Seth, eu iria até estas duas mulheres e, de lá, algo ainda que mais infinitesimal que minha esperança, em absoluto, alcançaria meu coração dilacerado e olvidado. A fé não fazia parte do eixo de minha existência, entretanto, era a única que poderia perdurar em mim, pois, se eu estava mesmo dividindo minh’alma com um alter ego, se ela guarda minhas memórias para si, como afrontá-la se ela é, pois, eu mesma? Pelo espelho? Refletindo as janelas do espírito? Embora as revelações tenham sido ácidas, eu intuía que ela, a outra que eu era, não queria confronto — não comigo.
Um Oráculo, como previa aquela anotação, poderia ser deveras relevante para os que, como eu, perduram no longínquo de si mesmos. Portanto, pela lógica do enigma — pois era o que soava ser — descer uma escada em espiral na biblioteca do Castelo seria o iniciático movimento para alcançar o corredor estreito, onde a quarta porta em seu imo, de cor gaultéria, seria o aposento onde Noemie e Noellie estariam. Eu não sabia ao certo a localização da biblioteca, quero dizer, eu sabia sobre uma delas, local onde perscrutei sobre livros de exorcismos, entretanto, nesta, não avistei nenhuma escada em espiral, portanto, cri não se tratar dela. Deste modo, então, quando retornei ao alcácer — de volta às suas entranhas, sentindo o aroma de sangue e solidão, tive de acessar cada espaço em busca de uma orientação, ainda que intuitiva, para localizar um novo leito das palavras infindas.
Em um dos aposentos, quando as esperanças se desintegravam mais céleres do que na gênese de minha busca, deparei-me com uma figura enigmática — tal como outras naquele recôndito sombrio que mais se assemelhava a um labirinto grotesco de lamúrias, silêncios perturbadores e angústias. Ela vestia-se com mantos pesados, um deles negro como a noite e outro pálido como a névoa lôbrega de Séttimor — inclusive, havia tal neblina ao seu redor, como uma aura rarefeita. Assustou-se ao me ver abrir os umbrais, voltou-se abrupta para mim, porém, seu rosto estava oculto no capuz. O aposento era pequeno. Nas mãos enluvadas da figura, um tipo de colar do que se assemelhava, em cor, a ourídeo.
— Quem tu és? — Indagara com sutileza, sua voz feminil não me era estranha... na verdade... eu sabia bem de quem era aquela voz...
— Liliana? — Indaguei, confusa. Um breve silêncio se liquefez no aposento. Ela, então, revelou-me seu semblante, entretanto, surpreendi-me ao vê-la em perfeitas condições, como uma humana. Diferente do que avistei em Séttimor, ali, de frente a mim, Liliana estava perfeita; não havia sombras em metade de seu rosto, como um vazio imposto em sua carne; não havia o fumo, a dor, a lúgubre essência. Era apenas Liliana, bela, com longos cabelos lívidos e forte olhar. Eu não hesitei, fugaz a abracei, sem pensar em quaisquer consequências ou, ainda, sem considerar o seu primevo questionamento. Ela pareceu relutante ao abraço.
— É tão bom te ver aqui... mas... como? — Olhei para seu rosto, soltando-a com afago. Foi n’este átimo que... algo mórbido me aconteceu.
Assim que fitei seus olhos cinéreos, eu a vi em um sinistro lugar pálido em neve densa com altos edifícios negros pontiagudos. O ar era o vale da morte em sua mais atroz constituição. Liliana era levada por homens de olhos negros, sem esclera... eram Ohrmons. Foi jogada aos pés de um homem cujo rosto eu não saberia descrever, porém, senti perfeitamente a sua energia densa e mórbida. “Queres teu filho, pois então o encontrarás.” — a voz grave e rouca dissera. Liliana foi tomada novamente, sem cuidado, pelos Ohrmons e, então, levada.
Vi-a inalando um tipo de vapor enegrecido que a fez adentrar um estado de delírio semi-inconsciente. Não parecia sentir dor, mas decerto compreendida a perversidade. N'este calabouço, o seu corpo foi violado enquanto seu sangue era retirado por tubos introduzidos nas veias de seus pulsos, sendo trocado por um tipo de líquido espesso, fumegante e fétido. Palavras estranhas se proferiam no ar quando o homem sem rosto, da voz grave e rouca, adentrou ao local, expulsando os Ohrmons com seu poder abissal.
Liliana, ainda viva, olhou em direção ao homem tétrico. Ele tocou seu rosto e, imediatamente, metade de sua tez facial apodreceu. Segundos depois, ela estava morta. O homem maldito cortou-se, gotejando seu rubro sangue sobre a cabeça de Liliana. Parecia-me um ritual de sacrifício macabro. Todas as cenas, em milésimos de segundos, atormentaram meu cérebro, fazendo-me afastar de Liliana. Meu corpo estava trêmulo e minha respiração ofegante. Eu tinha uma certeza atroz: o que vi foi uma visão do futuro. E eu compreendi que a Liliana de Séttimor estava morta, possuía, em seu corpo fumegante, todos os sinais dos horrores que sofrera.
— Senhorita? O que está havendo? — Ela indagou, preocupada. De meus olhos vertia a lágrima dourada, eu a vi pingar em minhas mãos.
— Por favor... — Murmurei, em completo abalo. — Por favor, Liliana... — Ela se abaixou, tocando meus braços e secando minhas lágrimas.
— Diga o que queres, querida. Diga-me o que houve? — Eu apenas chorava.
— Não vá para a neve... não busque teu filho naquele sórdido lugar... eles... eles... aquele homem... — Eu não conseguia dizer, mas vi o semblante de Liliana mudar.
— Quem és tu? O que sabes sobre Luíre e sobre mim?
— Eu vi... nos teus olhos... eu previ... — Toquei-lhe a face, com cautela. — Apenas confie em mim... eu sei... é terrível... é um revolto oceano ambíguo, mas... Liliana... eu não me perdoarei se eu não te salvar... a certeza de minh’alma é que teu destino... eu posso... — Voltei a chorar em desespero. Liliana me abraçou, parecia perceber minhas lídimas intenções. Eu nunca esquecerei o que vi... a verdade daquela deletéria premonição.
— Está bem... acalma-te... — Busquei ouvi-la, ficamos em silêncio até que meu soluçar cessasse. — Em tua visão, havia um lugar hostil, com neve... e o que mais?
— Edifícios negros... pontiagudos... uma arquitetura que nunca vi... mastodôntica... bela e... amedrontadora... — Respondi em lamúria, mas ainda hesitei em lhe revelar o que causaram a ela, era demasiado chocante. Liliana respirou fundo.
— Krvieröm... — Proferiu, abalada... — Eu... estava decidida a ir até lá... deixar este Castelo com tudo o que aqui aprendi sobre Pherhesí... e enfrentá-lo... em nome do que eu sei que ele fez com meu filho... — De imediato, lembrei-me do homem mencionado por Lëvri como sendo o seu “criador”.
— Não sei quem é este homem, Liliana, mas ele é muito poderoso... é preciso muitos para conseguir destruí-lo... muitos ou, talvez, todos aqueles que existem... eu senti... a densa energia dele... infelizmente tu não poderás... tu não serás para ele sequer um exíguo cílio incômodo em seu olho. — Ela compreendia.
— Eu não duvido de tuas palavras... — Vi-a levantar-se, sentando-se à poltrona próxima ao que me parecia uma escrivaninha. — Contudo... chegaste sabendo meu nome antes mesmo de fitar meus olhos e ter a... horrenda revelação... de onde me conheces? — Hesitei... não parecia ser adequado dizê-la que sua alma está vagando em um corpo deformado e brumoso n’uma vila de nome Séttimor.
— Eu... não sei ao certo... perdoa-me... eu sequer sabia que essas visões poderiam acontecer... eu... perdi minhas memórias e há muito o que ainda não sei sobre mim e sobre o que conheço e o porquê... — Ela aparentou decepcionar-se um tanto com a minha resposta. Ficamos silentes outra vez.
— Entendo... e como vieste até aqui? N’este cômodo?
— Estava em busca de uma biblioteca que tivesse uma escada em espiral para baixo... busco encontrar Naomie e Noellie.
— Por que buscas por elas?
— Encontrei uma nota deixada em um caderno... com a minha letra... indicando o local... eu não temo em lhe contar tudo o que sei, Liliana, entretanto, sei tão pouco. Imaginei que, porventura, estas mulheres me ajudariam de alguma forma, uma vez que, segundo a nota, elas possuem o “Oráculo das Sete Profecias”.
— Posso levar-te até elas, sei o caminho... e creio te dever um favor... pois mudaste meu destino... — Ela sorriu-me. Um sorriso triste, lacrimejante. — Eu desconfiaria se não fosse pelo teu assombro... se não fosse pelo teu abraço... este alcácer é perturbador, então... por muitas vezes fui ludibriada. — Levantei-me, devagar. Liliana ajudou-me.
— Eu sei... quero dizer... estar aqui tem sido uma experiência obscura... por vezes merencório... e ad aeternum solitária... — Exprimi.
— Agora, ao menos o que diz respeito à última questão, não há mais o que se preocupar. — Novamente, Liliana sorriu, um pouco mais contente. — Venha, devemos ir. É um longo, e escuro, caminho com muitos degraus.
Deixamos o aposento. Em meu peito ainda pulsava um pesar aflitivo. Uma dúvida enraizada sobre o prenúncio que me dominou. Lembrei-me das visões que tive na Masqarilla. Pela primeira vez, encaixei peças na totalidade do que eu já sabia e isso liberara à minha consciência uma lógica e um sentido para muitas das caliginosas verdades desveladas a mim desde meu despertar. Ainda assim, não se bastavam. Havia muito o que eu ainda não sabia e, por isso, estava disposta e ir além e desvendar mais do mistério de minha própria existência.
No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se…