O fim dos tempos

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Quando o lockdown começou, muitos falavam sobre o fim dos tempos; como negar isso? Eu via apenas o nada lá fora, apenas fragmentos de uma realidade deturpada. As janelas agora não serviam mais para que eu pudesse observar o que acontecia lá fora; o próprio silêncio suspenso parecia me observar, o mundo parecia congelado. Um novo vírus, diziam. A televisão mostrava as mesmas notícias de sempre, pedindo que nos mantivéssemos em casa, calmos, pois logo tudo ia acabar. Mostravam que o “novo normal” era apenas uma tela de mentiras. Houve o primeiro dia de lockdown, o isolamento social era obrigatório e todos deveriam seguir as normas, e, no terceiro, o silêncio começou: ninguém parecia mais falar ou ser visto pelas janelas. Ruas vazias, comércios fechados, o trânsito parado — somente o nada e o silêncio absoluto. Minha curiosidade era intensa, mas eu conhecia as regras: “Não saia de casa!” Então as segui à risca. A mídia transmitia o mesmo discurso repetidas vezes, um toque de recolher absoluto, segundo as autoridades, mas ninguém sabia o que acontecia com aqueles que decidiram desafiar as regras.
Em alguns canais, líderes religiosos diziam que a humanidade precisava de purificação, pois estávamos sendo preparados para algo grandioso. E nas redes sociais, mensagens surgiam. Havia aqueles que diziam que o Salvador havia voltado e que os que sumiram estavam sendo arrebatados. Era essa a explicação? As autoridades faziam vista grossa para esses desaparecimentos e sugeriam que eram pessoas que desobedeceram ao isolamento, mas que logo isso seria resolvido. À noite, eu ouvia sons quase imperceptíveis, ruídos estranhos, pulsantes, como se viessem de algum lugar acima do meu prédio. Todos os dias esses sons ficavam um pouco mais altos e mais próximos. Em uma noite, observei algo pela janela: um raio fino e muito luminoso cortava o céu, atingindo algo na rua de trás. Noutra noite, recebi uma mensagem de um amigo que dizia:
“Já percebeu que nada mais parece real? Que os programas de televisão estão só repetindo um mesmo padrão, como uma máquina tentando parecer humana?”
Eu não tinha certeza do que ele estava falando; imaginei ser uma nova teoria da conspiração que ele estava acompanhando. Mas, como eu não tinha muito o que fazer, comecei a prestar mais atenção nas notícias, e a cada dia elas mostravam os mesmos rostos, e rostos muito semelhantes, dizendo sempre as mesmas coisas, mas de maneira diferente: “Aos poucos, as coisas vão se normalizando; em breve tudo voltará ao normal.” Entrei em um fórum online e encontrei outras pessoas que também haviam percebido essas discrepâncias. Parecia um padrão de controle, uma ilusão para nos manter calmos. Eles queriam que tudo parecesse normal, enquanto alguma coisa lá fora parecia fazer algum trabalho sujo. O isolamento social inicial parecia que era para nos proteger de algum vírus, de uma praga moderna, mas parecia também nos proteger de algo pior, e eu me perguntava o motivo disso. Ninguém que saía voltava, e ninguém parecia se perguntar o porquê disso.
Uma noite, ao abrir o fórum, vi uma postagem: um usuário dizia ter testemunhado o arrebatamento do outro lado da rua. De acordo com ele, uma figura luminosa apareceu e levou para o céu todos aqueles que saíram para a rua. Alguns concordavam, citando versículos bíblicos e dizendo que todos seriam levados em um piscar de olhos. Mas eu sabia o que eu tinha visto; eu vi um raio luminoso e não uma figura luminosa, e me perguntava se esses raios que apareciam não eram parte de algo muito mais assustador. Quando os dias viraram semanas, algo ficou mais claro: o mundo lá fora não era obra de Deus. Aquele novo normal que a TV mostrava, como se as coisas tivessem voltado ao normal, parecia agora uma paródia sinistra. E cada vez mais eles queriam que acreditássemos que as pessoas desapareciam porque eram escolhidas, que o Salvador havia voltado e que tudo estava bem.
Então veio o que parecia ser a verdade. No fórum, um vídeo foi compartilhado. Na tela, meu amigo, que desaparecera após sair de casa, aparecia no canto de um beco, escondido atrás de um monte de entulho. Ele falava sussurrando, olhando ao redor com os olhos arregalados, o rosto muito pálido.
“Isso não é o fim dos tempos, não é o arrebatamento. Eles estão aqui, eles querem a Terra para si, mas não nos querem aqui. Todos os ruídos, o lockdown, a mídia… tudo isso é só uma forma de limpar o terreno. Eles analisaram todas as nossas redes, sabem no que queremos acreditar e estão usando tudo contra nós, controlando as mídias, fazendo tudo parecer normal. Mas se você sair para a rua, você será...”
O vídeo terminou com um raio de luz atravessando a tela e um grito que eu nunca mais vou esquecer. Então eu entendi que a Terra era um bem precioso para “eles”, mas nós éramos criaturas indesejáveis que a habitavam. “Eles” não eram Deus; ninguém tinha voltado para nos salvar. E o confinamento era o que nos mantinha a salvo. Eram as paredes que nos protegiam... mas nos protegiam do quê?
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Valesca nasceu no Rio de Janeiro (RJ), cursa Ciências Biológicas, encontra-se no último período. Tem paixão por ciências, subcultura gótica, livros, seres sobrenaturais, ficção científica, cemitérios, igrejas e morcegos, ela também é voluntária em um projeto de divulgação científica chamado "Morcegos na Praça". Escrevia com frequência, mas afastou-se da prática ao ingressar na faculdade. No entanto, durante a pandemia, retomou a escrita como meio de…
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