Chamas Da Inocência
Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
"Deixem vir a mim as criançinhas e não as impeçam;
pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas"
Mateus 19,14
Numa existência plena de concisas leis universais onde o sol nasce para todos, ainda assim há aqueles que são cobertos pelas sombras do infortúnio e jamais podem usufruir por completo das benesses que a roda da fortuna possa lhes oferecer. No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Para tais indivíduos a alegria e a bonança são dadas em pequenas partes intercaladas de tristezas e decepções.
Maria de Lourdes – que pela sua compleição franzina, desde que nascera era denominada Lourdinha – se encaixava perfeitamente dentre tais desafortunados. Sua vida fora um completo conjunto de absurdas decepções e infortúnios. Depois de uma infância de grandes privações e carregada da mais completa falta de perspectivas, antes mesmo de completar seus quinze anos, – ela que, apesar dos pesares, era dotada de uma beleza ímpar, uma verdadeira flor em desabroche – fora acometida pela varíola e por dias afins, caminhou no vale da sombra da morte. Essa pestilência não recolheu seu corpo para a cidade do silêncio, onde todos são inocentes, mas lhe deixara profundas marcas que levaria consigo por toda sua insignificante existência.
Proveniente de uma família simples e humilde onde a necessidade sempre se fazia presente, seu tratamento constara apenas de ervas e benzimentos. Com muita persistência e força de vontade, por fim a varíola se fora, mas levara consigo toda a beleza que Lourdinha possuíra até então. Sua pele antes macia e sedosa como uma pétala da mais fina rosa, ficara manchada e cheia de horrendas cicatrizes. Depois de sofrer mais esse terrível golpe do destino, essa frustrada criatura, que não conhecera a felicidade em sua plenitude, adquirira em seus olhos uma expressão tristonha e distante, que demonstrava uma profunda sensação de escárnio pelas vicissitudes da vida. Sempre que se olhava no espelho – fato que ela tentava evitar ao máximo – sentia-se como a mais desafortunada das criaturas.
Pela sua origem pobre e com uma aparência não tão agradável aos olhos de um possível pretendente, seu primeiro e único relacionamento fora com um desconhecido de olhos claros e cabelos na cor do entardecer, que por uma única vez, numa noite de bebedeira, onde ambos estavam completamente tomados pelos misteriosos fetiches da ebriedade se perderam nos braços um do outro. O desconhecido – a qual nem mesmo seu nome verdadeiro, Lourdinha soubera ao certo – da mesma maneira que surgira também se fora, sem deixar rastro nem vestígio, deixando para Lourdinha não somente as lembranças de voluptuosos momentos, que por mais que pudessem ter sido de uma frustrante efemeridade, ainda assim trazia em si uma profunda intensidade. Noite que proporcionara a ela, a oportunidade única, de conhecer nos braços de um desconhecido os misteriosos caminhos do inexplicável deleite da mais ensandecida paixão.
Essa única noite de prazer daria a Maria de Lourdes motivos para que jamais se esquecesse de tão voluptuosa passagem em sua existência. Pois o fruto de seu inconsequente deleite se materializara numa bela criança de olhos primaveris e cabelos na cor de ardentes labaredas. Essa graciosa criatura de sorriso fácil e olhar inocente recebera o nome de Lorena e a todos encantava. Para Lourdinha era seu porto seguro, onde depois de um dia de tenebrosas tempestades no árduo trabalho diário – limpando lares alheios – ao fim do dia, ela aportava para uma noite de deleitoso descanso. Para seus avós – já velhos e doentes, que cuidavam dela, durante o dia, enquanto Lourdinha trazia o sofrido sustento para o lar – era ela uma verdadeira dádiva. Lorena era uma criança criada a pão de ló, sempre bajulada por todos. Sempre carregada de muito amor e zelosa atenção. Por mais que lhe viesse a faltar luxo e o conforto, ainda assim tinha todo afeto e carinho que um ser poderia desejar.
Numa família onde a sorte jamais fizera morada, e nem mesmo a roda da fortuna dera um único giro sequer, aquelas duas senis e gentis criaturas dependiam totalmente do suado esforço da pobre Lourdinha para sobreviverem. Verdade seja dita, que eles cuidavam muito bem da graciosa Lorena, enquanto a mãe passava o dia no trabalho. No entanto, o parco ordenado de uma única pessoa para sustentar uma casa, onde havia uma criança dependente de cuidados dos mais diversos e duas outras pessoas em idade já bastante avançada, desprovidas de qualquer outra renda que fosse, era uma tarefa bastante hercúlea. Se o sustento básico já era difícil, uma moradia decente era apenas um sonho distante.
Os pais de Lourdinha, que além de velhos e doentes, também não eram detentores de nenhum tipo de posse de maior valor, que pudessem lhe valer num momento de extrema necessidade, sobrevivendo apenas do trabalho da filha e da providência divina. Sendo assim, viviam aquelas quatro desafortunadas criaturas numa improvisada casa – se por acaso, aquele estranho pardieiro pudesse ser denominado casa – feita de restos de tapumes de construção e um carcomido pedaço de lona de caminhão. Era um tipo de construção tão sinistra que mais parecia uma armadilha, pronta a tolher a vida de seus humildes moradores a qualquer momento.
O piso de terra batida, por mais que recebesse todo asseio possível, insistia em manter-se sujo todo o tempo. Como havia apenas um único espaço sem separação entre cômodos, a privacidade era praticamente inexistente. Ambiente quente e abafado sem nenhuma janela, praticamente sem ventilação alguma. Durante as chuvas – devido ao improvisado telhado – molhava mais dentro de casa do que pelo lado de fora. Se por acaso fosse uma tempestade violenta com relâmpagos e grande ventania era um verdadeiro “Deus nos acuda”. No período de extremo calor a casa se tornava um verdadeiro forno, devido a sua baixa e desajustada estrutura, tornando a permanência em seu interior algo quase que impossível. O saneamento básico era inexistente e a iluminação elétrica era um objetivo ainda não alcançado, fato que tornava o uso de velas ou candeeiros uma necessidade constante, quando a noite chegava.
Devido a uma vida de sofrimentos diversos e incontáveis frustrações, sem nenhuma perspectiva de dias melhores – ou talvez até mesmo, por não terem outra coisa com que ocuparem o tempo ocioso – os pais de Lourdinha encontraram determinado conforto numa comunidade pentecostal que frequentavam fielmente quase todas as noites. Sendo assíduos tanto na fervorosa fé, bem como na constante presença sempre que havia celebrações. Lorena já com cinco anos, dotada de saúde e disposição na mesma proporção que dispunha de energia e inquietude, sendo uma criança que nas palavras do avô – o bondoso Senhor Eusébio – “era fogo na roupa”, e devido a essa sua incrível qualidade de não conseguir manter-se em pleno sossego por muito tempo, nem sempre acompanhava os avós aos cultos na pequenina e improvisada igreja, que não distava muito longe de sua casa.
Em várias ocasiões em que Lourdinha demorava a chegar do trabalho – sendo essas ocasiões quase uma constante – Lorena ficava aos cuidados de uma vizinha que tinha uma filha da mesma idade que ela. Sendo ambas inseparáveis amigas. Essa vizinha que tal qual a própria Lourdinha, também não tinha marido se chamava Claudete – por todos conhecida como Detinha – mesmo sendo uma competente costureira era tão pobre e necessitada quanto eles mesmos e justamente por estarem no mesmo patamar de contínuo sofrimento se dava muito bem, tanto com aquele casal de idosos bem como com a própria Lourdinha que na maneira do possível tentava a todo o custo ser-lhe bastante prestativa, arranjando-lhe trabalho de costura pelas casas onde ela prestava serviços como faxineira.
Por mais difícil que a vida possa parecer, há certa peculiaridade nesse tipo de pessoas que deve ser louvada acima de tudo. Mesmo passando por todos os tipos de necessidades possíveis, ainda assim são pessoas fraternas e bastante generosas. Ainda que não tenha nada ou quase nada, o pouco que possuem dividem entre si. Mesmo vivendo em casebres dignos da mais profunda piedade, ainda assim, fazem de suas humildes moradas, lares calorosamente acolhedores, recebendo debaixo de seu teto, qualquer um que precise de um seio familiar em momentos de profundo abandono.
Há um velho provérbio que diz: “... não há nada de tão ruim que não possa piorar...” Certo dia, depois de um estafante dia de trabalho, sabendo que seus pais estariam na igreja e Lorena estando aos cuidados de Detinha, decidiu Lourdinha que ao chegar do trabalho tomaria um refrescante banho e logo se deitaria para um merecido descanso. Naquela época em questão o trabalho se tornava cada dia mais pesado e cansativo. Ela que estava tendo crises de insônia, após se queixar no trabalho de tal situação, havia conseguido através de uma de suas empregadoras alguns comprimidos que lhe proporcionariam noites mais tranquilas. Esse medicamento fora lhe entregue com a séria recomendação que deveria ser utilizado comedidamente e jamais misturado com qualquer tipo de bebida alcoólica que fosse.
Lourdinha – uma filha muito obediente e mãe bastante exemplar – muito raramente se dava ao luxo de tomar algum tipo de bebida alcoólica. Quando o fazia era na companhia de Detinha em algum evento especial; como algum aniversário de algum deles, nas festas de fim de ano ou coisa que o valha. Naquele dia em si, como o tempo estava bastante quente e abafado, estando ela faxinando a casa de uma velha cigana – cartomante conhecida e muito eficiente em sua mística arte – a convite de sua empregadora que era uma constante amante do copo, acabara por ingerir um gole ou outro de uma refrescante cerveja, que lhe fora muito insistentemente oferecida. Ao chegar em casa, assim que tomou seu demorado banho, devido ao cansaço do dia e os efeitos da bebida decidiu tomar pela primeira vez, dois dos relaxantes comprimidos que tanto conforto lhe trazia para suas insones noites de cansaço e profunda crise existencial. Assim que se deitou logo caiu em sono profundo e dormiu sossegadamente o sono dos justos.
Enquanto seus avós estavam numa acalorada celebração, onde o pregador ponderava sobre as benesses de uma vida de fiel servidão a Deus e obediência aos ensinamentos das Escrituras Sagradas, Lorena brincava sossegadamente com sua inseparável companheira de aventuras. Assim que o dia já cedera lugar a uma quente e abafada noite, Detinha logo preparara o parco e simples jantar, e em seguida decidira dar por encerrado alguns ajustes no vestido de uma de suas clientes, que exigia pressa no trabalho. Estando as meninas brincando de casinha no único e pequeno quarto da casa, perceberam que aquela brincadeira estava um tanto quanto sem graça, pois lhes faltavam alguns objetos considerados essenciais, para completarem aquela diversão. Tomada pela euforia e senso de aventuras, Lorena conseguira convencer sua amiga a irem até sua casa para buscarem alguns itens para continuarem com a brincadeira.
Detinha estando por demais ocupada, nem mesmo percebera que as meninas haviam saído e voltado logo em seguida. Acompanhada de sua amiga, Lorena entrara em sua casa e muito rapidamente após acender o toco de uma vela, logo recolhera todas as coisas que foram buscar e de forma bastante afoita logo retornaram a fim de continuarem com sua diversão. Uma vez que, estando a casa tomada pelas trevas, a luz da pequena vela não fora suficiente para perceberem que Lourdinha dormia sossegadamente em sua cama num dos cantos escuros da casa. Talvez devido a inocência, ou até mesmo por mero esquecimento a vela fora deixada acesa sobre uma pequena mesa encostada numa das paredes da casa. Em menos de meia hora, após essa negligente e despretensiosa façanha, Detinha sentira que o calor havia aumentado bastante e logo pôde perceber que seu quintal, fronteiriço a casa de sua inocente e infeliz amiga estava tão claro como o dia. Havia também um curioso barulho de fortes estalos preenchendo o silêncio da noite, ao olhar pela janela, finalmente deu por si que aquilo era incêndio.
A casa de Lourdinha ardia em tenebrosas chamas. Vizinhos logo se aglomeraram ao redor, mas muito pouco poderia ser feito além de evitar que o fogo se espalhasse pelos demais barracos. Lorena acompanhada da inseparável amiga e do filho mais velho de Detinha foram correndo até a igreja em busca de seus avós. Ao chegarem na porta do humilde templo, coincidentemente o pregador falava do fogo consolador que queima os pecados do mundo, Lorena que era conhecida por todos e fora a primeira a adentrar a pequena igreja fora logo gritando:
– Fogo! Foooogo...
– Justamente minha filha, é o fogo do Senhor que nos consola! Respondeu o pregador bastante afoito com sua mensagem.
Lorena desesperada ao extremo com a face banhada em lágrimas, não podendo controlar as emoções gritou bem alto:
– Não, pastor, é fogo mesmo e está queimando nossa casa.
Menos de dez minutos depois, todos os membros daquela pequena igreja – que naquela noite assistiam à celebração – estavam perante a imensa fogueira que outrora fora a casa onde Lorena vivia com sua mãe e seus avós. Seu Eusébio – velho e doente – tivera que ser amparado pelos vizinhos. Sua esposa – Dona Olinda – era um pranto só, entre lágrimas e soluços, dissera:
– Já não tínhamos nada! E o nada que possuíamos agora se foi entre as chamas...
Em menos de uma hora a pequena casa se tornou um monte de cinzas ainda fumegantes. O desespero fora tão grande que ninguém dera por fé que Lourdinha ainda não havia chegado do trabalho. Somente algum tempo depois, após os ânimos se acalmarem um pouco, que Detinha percebera que havia passado muito da hora que a amiga comumente chegava. Aquela noite fora triste e desoladora, a casa havia sido reduzida a cinzas, as horas passavam e Lourdinha nada de chegar. Depois de um tempo que parecera durar quase uma eternidade, a noite fora esvanecendo e dando lugar às primeiras luzes da manhã. Assim que a claridade se fizera presente, Detinha fora avisada por um dos vizinhos – daqueles tais, que se levantam antes do amanhecer e são dotados de curiosidade plena – que, chamando-a de lado, lhe dissera quase em surdina que havia os restos de um corpo carbonizado entre as cinzas...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
PIGMEUS
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Devemos temer unicamente o que pode de fato nos causar dano, e o simples temor não pode fazer mal”. — Dante Alighieri
Quando eu era criança, ainda na longínqua década de 1980, o temor que eu tinha da noite era algo tão terrível que quando o entardecer se aproximava eu tinha crises de pânico que me tiravam até mesmo o apetite, independente de qual fosse o cardápio do jantar. As nuances das cores do amarelo e do vermelho dos raios de sol que se intercalavam entre si formando vários tons de alaranjado que hoje em dia eu vejo como uma prova inquestionável da existência de um Ser superior, que a cada entardecer nos presenteia com uma cena cada dia mais esplêndida, na minha inocência de criança era o prelúdio para mais um período de profundo sofrimento. O final de um dia e início de mais uma noite de profundo terror noturno.
Até hoje não sei explicar, – talvez nunca o saiba – o porquê eu tinha tanto pavor da noite. Às vezes imagino – em momentos de profunda reflexão – que esse incontrolável terror, pode ter sido causado pelas coisas que só eu conseguia ver, vagando pelas sombras da noite. Por mais que tentasse mostrar aos meus pais onde estavam e como tais criaturas eram, eles jamais acreditavam em mim. Sabendo que tentar convencê-los era algo inútil, decidi que deveria convencer a mim mesmo, que minha mãe – exemplo de doçura e sabedoria – estava certa, quando ela sempre me dizia que: monstros, assombrações, entidades e todas essas coisas do tipo, não existiam no mundo real. Que tudo era fruto de uma mente fértil que chegava a criar tais criaturas.
Mamãe, para tentar aplacar minhas crises de pânico, quando eu acordava toda a casa com meus gritos de terror, – e certamente, se minha voz tivesse a força igual ao medo que eu sentia meus gritos também acordariam toda a vizinhança – ela muito carinhosamente me dizia: – Seus olhos vêem aquilo que sua mente quer ver. Sabendo do amor que minha querida mãe nutria por mim, eu tentava de todas as formas me acalmar e me convencer que tudo o que via era fruto de minha imaginação. Contudo, eu sabia que todas aquelas criaturas eram reais, mas como ninguém mais as via, eu temendo me passar por uma pessoa mentalmente perturbada, decidi que eu deveria me silenciar quanto às minhas visões, e não tocar mais no assunto.
Certa vez, visitamos uma conhecida família, que perdera o pai para uma doença desconhecida. Um homem saudável ao extremo e forte como uma rocha, que da noite para o dia, contraiu uma infecção misteriosa que em questão de dias o levou à morte. Segundo essa jovem, a doença que matara seu pai, fora tão terrível que muitos de seus amigos e conhecidos, – até mesmo parentes mais próximos – não ousavam nem mesmo se aproximar dele em seus últimos momentos, pois os vermes já o estavam devorando, mesmo estando ele, ainda vivo. Dissera ela que, em suas últimas horas de vida, seu pai, sofrendo extraordinários ataques de pânico, aos gritos, implorava a todo o momento para que iluminassem o quarto – mesmo estando dia claro – pois, segundo ele havia terríveis criaturas o espreitando nas sombras.
Na volta para casa, minha mãe me questionou se eu havia prestado atenção no que nossa anfitriã havia nos contado. Quando eu dissera que sim, ela me alertou sobre o perigo daquilo que achamos que vemos escondidas pelos cantos sombrios. Suas palavras jamais foram esquecidas:
– Filho, não duvido de nada do que me dizes, mas não é porque eu acredito em você que os outros também deverão fazê-lo. Além de ser sua mãe, eu mesma também acredito que entre o Céu e a Terra existam muitas coisas estranhas e ainda incompreendidas pela mente humana, mas evite na medida do possível comentar com qualquer outra pessoa essas visões, para que não o tenham como um louco. Ver o que os outros não vêem o torna perigoso.
Depois da estória que ouvi, sobre um homem já experimentado em anos e que prezava do respeito de toda uma cidade, ter terminado seus dias tributado como louco, e pelos incansáveis conselhos de minha mãe decidi, que deveria silenciar as vozes e afastar aquilo que me atormentava nas trevas da noite. A última visão que tive, foi na vida adulta, quando eu já estava namorando. Foi algo assustadoramente constrangedor.
De visita a casa dos pais de minha namorada, – a primeira e última – assim que chegamos, estando todos sentados na varanda, fui educadamente cumprimentar a todos os seus parentes presentes no momento. Sem exceção de idade, um por um eu fiz questão de me apresentar e apertar a mão em um fino gesto de galhardia. Fui gentil com todos, inclusive com uma sorridente senhora que estava sentada numa confortável cadeira de balanço. Quando a cumprimentei com todo respeito e atenção que se deve ter a uma pessoa idosa, logo percebi que todos me olharam de forma assustada. Minha namorada, muito constrangida, logo me chamou num canto em particular e demonstrando estar um tanto quanto irritada, disse:
– O que pensa que está fazendo? Quer que meus pais pensem que o namorado da filha deles é um louco, um maníaco pervertido que fala com cadeiras vazias. Saiba, que quando eu disse para minha mãe qual era sua profissão – Professor de Filosofia – ela de imediato me questionou, se você não era daquele tipo de pessoa perturbada, que passa o tempo todo sob o efeito de substâncias entorpecentes...
Pedi sinceras desculpas, e disse que eu estava um pouco cansado, e que talvez eu pudesse estar confundindo a realidade, devido ao estresse causado pelo meu trabalho. Mas, assim que entramos na sala de estar, logo na parede de frente à porta de entrada, havia um enorme retrato da senhora a quem eu havia cumprimentado há pouco. Quando questionei minha namorada de quem se tratava a imagem do retrato, ela suspirando profundamente, me disse que era sua querida avó, a quem ela tanto estimava, mas que havia falecido há mais de cinco anos...
Na velha sabedoria de botequim, há um antigo provérbio que diz que os semelhantes se reconhecem apenas pelo olhar. Numa quente e abafada noite de meados de dezembro, após um estafante dia de trabalho, estava eu sentado numa velha banqueta, encostado num polido e gordurento balcão de um sossegado bar no centro da cidade, saboreando uma cerveja estupidamente gelada ao som de Belchior, quando um senhor se aproximou de onde eu estava e logo foi puxando assunto. Sem nenhuma cerimônia foi se apresentando e iniciou uma conversa por conta própria, – sem saber se eu gostaria de ouvi-lo, ou não – primeiro; falando do calor, da falta de chuvas, do custo de vida e por fim das dificuldades de se conseguir bons companheiros de trabalho. Como eu estava muito cansado e de cabeça quente, devido aos dias finais do ano letivo, fiquei apenas o escutando, e vez por outra interagia com ele de forma monossilábica.
Quando ele percebeu que tinha minha atenção, logo me questionou sobre minha profissão e se eu estaria ocupado nas duas próximas semanas. Respondi que era professor de Filosofia, mas que a partir da quarta-feira da semana seguinte estaria de recesso pelos próximos quarenta dias até o fim de janeiro. Sem titubear por nenhum segundo, me fez uma proposta de trabalho, que de forma alguma poderia ser recusada. Disse-me que era carpinteiro de telhados artesanais e que estava à procura de um ajudante, que lhe pudesse auxiliar por duas semanas, pois seu antigo ajudante havia sofrido um pequeno acidente e estaria indisponível por uns dois meses, talvez até um pouco mais – soube depois, que estava em coma profundo. Jamais trabalharia outra vez –.
O trabalho era no interior, numa fazenda afastada da cidade. Um lugar sossegado e bastante pitoresco para uns dias de descanso de uma vida atribulada de cidade grande. Fez-me uma oferta financeira bastante razoável, para quem não tinha nenhuma experiência com este tipo de ofício, e logo quisera me pagar metade do valor oferecido de forma adiantada. Após acertarmos os detalhes, ficou decidido que na quarta-feira seguinte, partiríamos para a tal fazenda onde ficaríamos até o término do trabalho.
Chegado o dia marcado, partimos bem cedo e antes do almoço já estávamos em nosso destino. Após nos instalarmos na casa onde ficaríamos alojados, depois de um improvisado repasto, ele disse-me que, meu dia seria devidamente pago e que eu poderia fazer o que bem entendesse naquela tarde. Ele por sua vez gostaria de descansar da viagem, e que se fosse possível, que eu não o incomodasse em seu sono vespertino. Aproveitei a tarde para ler, um dos livros que eu havia levado comigo – A outra volta do parafuso de Henry James, se não me falha a memória. Ele dormiu a tarde toda, só despertando no ocaso um pouco antes do início da noite. Após tomar um demorado banho, preparou nosso jantar, – galinha ao molho de pimenta – que fora servido acompanhado com um saboroso vinho tinto. – Lembrei-me de Jonathan Harker hospedado no Hotel Royal em Bistritz –.
Após o jantar ficamos conversando até tarde da noite. Ele me pormenorizou sobre seu passado, fatos que rememoravam sua infância mais remota. Acontecimentos de uma época em que eu ainda nem tinha nascido. – era ele um senhor de mais de sessenta anos – Percebi que ele tentava a todo custo me manter acordado com suas estórias, para lhe fazer companhia – uma espécie de Sherazade tupiniquim – Consegui me manter desperto até umas duas horas da madrugada, mas logo fui vencido pelo sono e pelo cansaço e acabei adormecendo na cadeira onde estava sentado, sendo despertado logo em seguida com gritos de pavor e desespero. Naquela noite não dormi mais do que meia hora ao todo, somando os pequenos cochilos que vez por outra me venciam, mas sendo logo despertado em seguida de forma abrupta.
Por três noites a fio, tudo se repetiu como na primeira noite. Eu já estava a ponto de um ataque de nervos. Por mais que eu tentasse de todas as formas, não conseguia dormir durante o dia. Ele por sua vez, iniciava sua jornada de trabalho às primeiras horas da alvorada e após o almoço, dormia quase toda a tarde, também me dispensando de meus afazeres. Depois de me certificar que aquele seu estranho comportamento estaria ligado diretamente ao mesmo terror noturno que eu enfrentara quando criança, decidi que eu talvez pudesse ajudá-lo. Sem deixar que ele percebesse, coloquei em sua bebida – que era de uso quase contínuo – dois dos comprimidos que tomava havia muitos anos para poder dormir uma noite de sono tranquila, sem ser incomodado por visões noturnas. O medicamento era controlado e bastava uma única dose para derrubar um cavalo. Como eu estava muito cansado, quis ser pragmático e lhe dar logo uma dose que eu sabia que seria mais do que suficiente para lhe proporcionar um pouco de paz.
Naquela noite nos recolhemos antes das oito da noite, pouco após o jantar ser servido. Aquele amedrontado senhor, meio que desmaiara em sua poltrona, com muito sacrifício consegui levá-lo para sua cama, – que até então só era usada durante o dia. Exausto como estava, logo adormeci pesadamente, sendo despertado por lamentosos gemidos de alguém que padecia um terrível sofrimento. Como há tempos, havia conseguido vencer meus temores noturnos, consegui me acostumar a dormir com a luz apagada, e naquela noite estávamos na completa escuridão. Quando olhei para a direção de onde vinha os gemidos, percebi que havia uma dezena de pequenos olhos amarelados ao redor da cama de meu companheiro, que por algum motivo parecia estar preso à cama sem poder se mover. Rapidamente acendi a luz e logo todos os olhos sumiram na mesma velocidade que a luz fora acesa.
Aquele senhor entrara numa espécie de catatonismo crônico, não conseguindo mais responder à realidade que o cercava. Num comportamento completamente ensandecido, mesmo estando com todas as juntas de seus membros inertes, ficava tentando se debater, como se unindo forças para se levantar e correr o mais rápido que pudesse e repetindo o tempo todo:
– Pigmeus! Pigmeus! Pigmeus...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
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Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Pigmeus — A Origem
Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas…
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“Legião é o meu nome, porque somos muitos.”.
Marcos 5:9
Naquela noite não consegui pregar os olhos novamente, pois fiquei por horas tentando chamar aquele senhor de volta à realidade. Quando percebi que minhas limitações não permitiriam fazer nada por ele — a não ser lhe fazer companhia —, após deixar todas as luzes da casa acesas, peguei um dos meus livros, sentei-me ao seu lado e iniciei uma interessante leitura na companhia de Hercule Poirot, que deveria desvendar um mistério sobre fantasmas, bruxas ou coisas do tipo. Talvez tenha sido a noite mais longa da minha vida. Em menos de duas horas de leitura, a estória já havia terminado; mesmo assim, a noite ainda continuava fria e bastante escura lá fora. A única coisa que poderia fazer era esperar o dia clarear para ir em busca de ajuda.
Vez por outra, eu ouvia barulhos estranhos, tanto no telhado sobre minha cabeça, como por sob o piso assoalhado abaixo de mim. Pareciam ser dezenas de pés correndo de um lado para outro no mais completo desassossego. Tentei me convencer de que era apenas um bando de ratos famintos, que sempre empesteiam velhas casas de fazenda, mas algo me dizia que eu estava redondamente enganado. Mesmo tentando afastar de meus pensamentos qualquer menção sobre terríveis criaturas da noite, eu ficava me lembrando das últimas palavras daquele inerte senhor, — que agora estava sobre a proteção das luzes acesas e, sabendo que havia alguém velando por ele, dormia pesadamente. Na verdade, nunca saberei se seu sono era devido à dose cavalar de calmante que eu havia lhe dado, ou pelo susto que tivera ao acordar e perceber que os tais “Pigmeus” o observavam na calada da noite. Algumas dúvidas me vieram à cabeça…
— Quem ou o que eram esses Pigmeus? Eram seres malignos? Que mal poderiam causar a um ser humano? Essas questões me atormentaram pelo restante da noite. De certo modo eu sabia que o termo “Pigmeu” se referia aos habitantes de uma nação imaginária onde as pessoas não tinham mais de um côvado de altura. Eu ainda me lembrava das esplêndidas aulas de História da África ministradas pelo professor Luís Carlos. Ele adorava mesclar fatos historiográficos com crenças populares que, segundo ele, eram tão válidos quanto qualquer fato científico. Mestre Luís dizia: “... A sabedoria popular é a mãe de todas as ciências. Antes da escrita, veio a fala. Há inúmeras verdades nos relatos dos mais velhos, suas estórias são carregadas de um velado misticismo que esconde inúmeros mistérios de um tempo a muito esquecido...”.
Decidi que assim que conseguisse ajuda para aquele pobre senhor, eu me encarregaria de fazer uma aprofundada pesquisa sobre esses tais pigmeus; quem sabe até mesmo fizesse uma visita ao meu velho e saudoso professor — isto é, se acaso ele ainda estivesse vivo. Quem sabe ele conseguisse me ajudar de alguma forma, com alguma informação que talvez eu não pudesse encontrar nos livros. Até aquele momento, — de uma forma bastante equivocada — eu me enxergava como uma pessoa que deveria ter algum tipo de problema em discernir a realidade com aquilo que minha cabeça pudesse criar. No entanto, o fato de conhecer alguém que temia tanto a noite quanto eu mesmo, e também saber que essa pessoa — um senhor de idade que parecia ter um caráter completamente ilibado — via coisas que outras pessoas não poderiam ver, mas que eu também vi; me fez perceber que o mundo é um lugar mais perigoso do que a maioria das pessoas possam acreditar, pois estamos rodeados de criaturas, fatos e fenômenos que estão bem acima de nossa humilde compreensão.
Assim que o sol raiou, abri todas as portas e janelas da casa; pude perceber que a casa estava toda iluminada pela luz da manhã, então fui em busca de socorro para aquele meu amigo que dava mostras de ter se desligado por completo do mundo. Antes de deixá-lo só, ainda tive o cuidado de verificar se ele ficaria em segurança, mas por mais que eu tentasse interagir com ele, não havia nenhum tipo de resposta de sua parte. Mesmo percebendo que eu me preparava para deixá-lo só, ele nem um pouco se inquietou, pois sabia que agora estava sob a segurança da luz do dia e nenhuma criatura da noite poderia vir a atormentá-lo. Senti em seu olhar — mesmo vazio — o mesmo desejo que eu tinha quando era criança: fazer a manhã durar para sempre, sem necessidade de um entardecer.
Querendo uma solução rápida para aquela situação, e sem mínima vontade de passar mais uma noite naquela casa, caminhei por alguns quilômetros e logo consegui ajuda numa casa às margens da estrada. O proprietário, que muito cortês veio me atender ainda na porta de entrada, disse-me que teria imenso prazer em ajudar. Convidou-me para entrar e tomar uma xícara de café, enquanto ele colocava uma veste mais adequada para ir até a cidade. Em menos de duas horas já estávamos dentro do pequeno hospital da cidade. Meu velho e recém-conhecido companheiro seria transferido para a capital, pois seu caso era grave. Mesmo com toda a deficiência de um hospital interiorano, fora possível — devido a abissal competência do médico que o atendeu — um diagnóstico de catatonismo crônico. Esse mesmo diagnóstico fora corroborado depois, por uma junta médica da capital após vários exames detalhados do paciente.
Em seu laudo dizia que o caso era bastante grave e momentaneamente irreversível, muito possivelmente o paciente jamais conseguiria discernir a realidade novamente. Um choque psicológico tinha o reduzido a quase um vegetal. Era triste ver o fim daquele tal amável senhor. De certo modo eu me sentia um pouco culpado, afinal fora eu que dera os comprimidos para ele beber. E também fora eu mesmo quem apagara as luzes que ele tinha todo o cuidado de manter sempre acesas. Sorte minha que ninguém mais sabia disso. De alguma forma o efeito do álcool em seu sangue potencializou o efeito do calmante sem deixar nenhum vestígio que pudesse ter sido identificado por algum exame. Sua própria filha me agradeceu pelo cuidado com seu pai e me tranquilizara dizendo que sabia que mais dia menos dia algo daquele tipo poderia acontecer. Segundo ela, seu pai bebia demais, exagerava no café e quase não dormia direito...
Depois de uma noite bastante tumultuada e de um dia que se iniciou com muitas desventuras, cheguei em casa completamente exausto. Eu que deveria retornar apenas duas semanas depois, em menos de cinco dias já estava de volta. Minha vizinha — uma viúva, solteirona e sem filhos, que vivia sempre me oferecendo mil favores — havia ficado responsável de olhar minha casa e regar minhas plantas enquanto eu estivesse fora; ela logo se assustou quando cheguei. Estava justamente, naquele momento, na varanda da frente, terminando de regar minhas samambaias quando eu abri o portão. Depois de um grito acompanhado de um risinho malicioso, ela me disse:
— Ora, ora, ora! Não é que esse reflexivo pensador retorna para o seio de sua amada... O que aconteceu? Dissesses-me que ficaria fora por duas semanas...
— Houve um acidente! O senhor que me contratara teve algum tipo de ataque, derrame ou coisa que o valha que me impossibilitou de terminar o serviço. Estou chegando agora do hospital, onde o deixei internado, agora sob a responsabilidade de sua filha. Parece-me que ele não conseguirá terminar essa obra nem qualquer outra sequer. Sua data de validade expirou...
— Diga-me uma coisa? Você não fora justamente substituir uma pessoa que havia também sofrido um acidente? — questionou-me ela, com olhar curioso...
— Sim! Havia sido seu ex-ajudante que havia caído do telhado sobre uma pilha de madeira.
— Eita! Que trabalho mais sinistro esse. Sendo assim, sua rápida aventura como carpinteiro terminou antes de começar? — disse ela, até com certo ar de galhofa.
— É! Parece que devo voltar às minhas profundas reflexões sobre as verdades do Universo, e deixar o ofício do pai de Nosso Senhor para aqueles que têm maior afinidade com o assunto.
Ela, que já estava terminando seus voluntariosos afazeres, ainda me questionou se eu precisava de algo mais. Agradeci profundamente sua boa vontade e disse que estava tudo bem. Tudo que eu mais queria era poder tomar um banho, fazer um lanche reforçado e depois tentar descansar um pouco. Ela, que certamente jamais desistiria de suas investidas, me questionou.
— Quer que eu esfregue suas costas? Também posso lhe preparar um jantar, se você quiser...
— Obrigado mais uma vez! Você tem sido uma pessoa muito carismática comigo. Mas nesse momento tudo eu que preciso é apenas de um pouco de paz...
Assim que ela saiu pelo portão, busquei pela paz e a quietude do meu humilde lar. Como era bom estar em casa. Tomei um banho, fiz um lanche e iniciei algumas pesquisas. Primeiro eu gostaria de saber onde se encontrava meu venerável professor Luís Carlos. Através de uma sobrinha sua, que havia sido minha aluna, descobri que ele estava vivo e muito bem de saúde. Ela me disse que ele ficaria deslumbrado em me receber em sua casa, pois sempre falara muito bem de mim como um brilhante aluno, sempre muito curioso quanto a coisas inexplicáveis. Disse-me ainda que seu tio certa vez comentara o fato de sempre ter visto em mim um aluno curioso, alguém que via o mundo de uma forma diferente dos demais.
Além do endereço, ela também me deu a certeza que eu poderia visitá-lo sem precisar agendar nada com ele. Segundo ela, ele muito raramente saía de casa e ficaria bastante satisfeito com a surpresa de minha visita. Ainda procurei por uma coisa ou outra sobre os pigmeus na internet, mas como não consegui encontrar mais nada de tão interessante e como já era noite escura, decidi que daria aquela fastidioso dia por encerrado e logo fui me recolher. Fechei meus olhos, relaxando ao som profundo e ressoante da chuva que caía lá fora e só voltei a abri-los por volta das quatro horas da manhã, quando após a forte descarga de um relâmpago ter causado uma momentânea queda de energia. Em menos de dez segundo a luz havia retornado, mas foi tempo suficiente para que meus olhos se acostumassem às sombras espessas da madrugada e então pude ver que havia diversos pontos amarelados me espreitando dos cantos escuros do quarto. Percebi que aquelas mesmas criaturas que haviam lançando aquele bondoso senhor num lastimável estado vegetativo, haviam me seguido de alguma forma.
Levantei-me mais do que depressa e acendi todas as luzes da casa. Como a noite já se encaminhava para seu término — fato que era notório pelas primeiras luzes que despontavam no horizonte, trazidas por um sol que não tardaria a nascer —, decidi que já iniciaria minha jornada daquele dia, naquela mesma hora, e não voltaria mais para cama. Tomei um banho e, após preparar um café reforçado, iniciei minhas pesquisas novamente. Depois de quase duas horas em frente ao computador, entendi que aquilo tudo era uma grande perda de tempo. Não havia nada de substancial sobre aquilo que eu realmente queria saber. Todos os sites falavam dos Pigmeus como sendo de tribos de seres humanos de uma estatura um pouco abaixo de um ser humano comum. Não encontrei nenhuma menção sobre seres pequeninos de olhos amarelos incandescentes que vagueiam pelas trevas e temem qualquer tipo de luz.
Logo começaram os primeiros movimentos da manhã, com pessoas indo e vindo de um lado para o outro nas ruas. A cidade desapertava e trazia consigo seus inúmeros habitantes, cada um com seus problemas em busca de uma evolução espiritual e tentando dar respostas às suas questões existenciais, completamente alheios às dificuldades uns dos outros. Vivendo um dia após o outro, na ânsia de chegar a algum lugar, mesmo sem saber para onde ir. Depois de protelar por um longo tempo, me vesti adequadamente e decidi ir procurar a casa de meu antigo professor. Quando cheguei ao local que o endereço me indicava, imaginei que estivesse no lugar errado, mas para minha surpresa, Professor Luís estava na porta varrendo sua calçada — típico de um professor aposentado — e quando me viu ficou muito satisfeito, mesmo sem ainda saber que eu estava ali para visitá-lo, pois num primeiro momento ele pensou que eu estivesse apenas de passagem pela rua. Cumprimentou-me com bastante alegria dizendo:
— Bom dia! Mas vejam só, se não é meu curioso e destemido aluno. O que o trazes aqui para esses lados tão distantes da civilização, meu jovem?
Ele falava como se vivesse numa solitária cabana no meio do deserto e me tratava como se eu ainda tivesse uns dezessete anos. Sua casa parecia uma pequena floresta, com árvores de todos os tipos e cores, por isso a necessidade diária e continua de estar sempre varrendo a calçada, devido ao excesso constante de folhas caídas quase o tempo todo. Após dar uma olhada panorâmica pelo lado de fora daquela pitoresca moradia respondi ao seu cumprimento tentando ao máximo corresponder a alegria que ele demonstrava em me ver.
— Bom dia, Professor Luís! É um prazer imenso poder revê-lo e poder verificar com meus próprios olhos que gozas de plena saúde e muita disposição. Consegui seu endereço com sua sobrinha Letícia que, diga-se de passagem, foi minha aluna. Peço mil desculpas por vir sem avisar, mas ela me disse que o senhor não tem telefone e me garantiu que o senhor muito apreciaria minha visita. Estou precisando muito de seus sábios conhecimentos sobre alguns assuntos um tanto quanto particulares e obscuros. Talvez o senhor possa me ajudar...
— Letícia é uma menina de ouro, sempre que tem um tempo de sobra, vem aqui me visitar. Mas tratando de você, sim! Vamos entrar, venha conhecer meu humilde lar. Não sei se poderei ajudá-lo em alguma coisa, mas aquilo que estiver ao meu alcance, certamente o farei.
Respondeu ele com bastante alegria na voz. Ao entrarmos em sua casa, pensei que estivesse numa espécie de museu de antiguidades e objetos exóticos. Havia uma miscelânea de um tudo e mais um pouco. Dava para ver de imediato que ele vivia sozinho, pois havia somente uma xícara usada sobra a mesa e todo o resto levava a essa dedução. Contudo, mesmo com a imensa balburdia de inúmeros objetos espalhados pela casa e pelas paredes, tudo estava muito organizado e limpo, como se a qualquer momento ele fosse receber um turbilhão de visitantes ao seu museu particular. Fui convidado a me sentar e ele logo me serviu café com bolinhos fritos. Em nenhum momento pensei em recusar, pois sei que pessoas da idade dele se sentem bastante ofendidos se não puderem ser prestativos de alguma forma. A nuance entre o amargo do café e o doce dos bolinhos trazia um prazer indelével ao paladar.
Assim que me vi satisfeito e certamente ele também o estava, decidi que já era hora de usufruir um pouco de sua sabedoria. Contei-lhe em pormenores o motivo de minha visita, solicitando por fim sua ajuda. Fato que, de alguma forma, inflou seu ego, pois logo se levantou e disse que eu o aguardasse onde estava. Para me dar algum tipo de resposta ele queria me mostrar algo primeiro. Após alguns minutos, retornou com alguns livros velhos que logo foram colocados à minha frente. Um em especial, com capa de couro encerado, foi mantido consigo debaixo do braço e, apontando para as encadernações à minha frente, disse com bastante entusiasmo:
— Essas obras à sua frente são do tipo de literatura comum e estão disponíveis em qualquer sebo ou livraria do gênero. São livros rasos que, para serem publicados, têm um conteúdo prolixo, cheio de regras e fundamentações científicas com notas de rodapé e todas essas bobagens. Contudo, esse livro aqui é uma espécie de enciclopédia do obscurantismo. Seu autor ou autores são desconhecidos. O que se sabe realmente é que é uma obra jesuítica, muito utilizada pelos membros da Companhia de Jesus em suas inúmeras viagens às terras desconhecidas e nunca dantes desbravadas pelo homem civilizado. É uma obra que cita toda e qualquer criatura — deste mundo ou não — que se tenha notícia; para que se alguém, porventura, se deparar com algum desses seres, pelo menos saiba do que se trata. E talvez consiga tentar enfrentá-los.
Com bastante receio, como se estivesse me entregando um recém-nascido, ele colocou o livro em minhas mãos. Logo pude perceber que era um exemplar raríssimo, mas bastante conservado. Folhei o livro com cuidado e pude perceber que estava escrito em diversas línguas diferentes, como se fosse a união de inúmeros textos avulsos. Sorte minha que o índice estava em castelhano. Fui correndo o dedo pela ordem alfabética e me deparado com alguns seres não tão estranhos ao meu humilde conhecimento: Almajonas, Cuckoo, Kurupi e a lista era enorme e bastante curiosa; de repente meus olhos se depararam com um título inusitado: “Órfãos”. Antes de abrir na página indicada, perguntei ao professor Luís:
— Como assim? Órfãos? Órfãos de quem?
— Quem sabe? O livro diz que são criaturas que ficavam vagando pelas cercanias dos cemitérios como se fossem pedintes na porta de uma igreja. Geralmente andam em forma de um casal com a aparência de duas crianças inocentes que estão em busca de seus pais. Segundo o livro, todo aquele que uma vez se encontrou com os órfãos e sobreviveu para contar a estória, jamais voltou a ser a mesma pessoa; a maioria findou seus dias na mais completa demência.
Após o nome dos órfãos, meu dedo indicador se deparou com aquilo que eu estava procurando — Pigmeus! Abri o local indicado pelo índice e me deparei com uma imagem bastante sinistra. Um humanoide com grandes olhos amarelos, sem nariz e sem orelhas, com uma enorme boca cheia de dentes serrilhados — que mesmo na imagem era possível constatar que seriam terrivelmente afiados. Abaixo da imagem havia uma breve descrição numa língua que não consegui identificar, mas logo minhas dúvidas foram sanadas, pois rapidamente professor Luis me explicou em pormenores do que se tratava o texto.
— O texto em si traz, em primeiro plano, várias descrições desses seres em diversas civilizações ao longo da História, desde o Egypto antigo, passando pelo mundo Greco-romano, Idade Média, até serem confundidos com algumas tribos de seres de baixa estatura do continente africano. Tais criaturas já foram confundidos com anões mineradores na antiga Núbia, onde trocavam enormes quantidades de ouro e pedras preciosas por crianças inocentes. Já estiveram no imaginário nórdico como duendes que viajavam através do arco-íris e trocavam potes de ouros por jovens ainda imberbes. E em muitos outros locais de variadas formas diferentes.
No entanto, os verdadeiros pigmeus que seu amigo alega ter visto e você também, talvez o tenha, — e não duvido de jeito algum — são seres maléficos tão antigos quanto a própria existência deste mundo. Certamente já habitavam os recônditos sóbrios do caos antes mesmo da luz ser criada. Esses terríveis seres sobrevivem do medo daqueles a quem eles perseguem, geralmente pessoas com problemas de insônia ou aqueles que de alguma forma padecem de nictofobia, pois para se alimentar do medo de suas vítimas, estas devem estar acordadas para liberarem a energia vital que se desprende em momentos de maior angústia de um indivíduo. Por serem criaturas propriamente das trevas, temem a luz acima de qualquer coisa e não há relatos que tenham atacado, quem quer que fosse, em plena luz do dia.
Infelizmente o texto não relata nenhuma forma concreta de como podem ser enfrentados, pois sua verdadeira força não se encontra neles mesmos, mas na fraqueza e aflição de suas vítimas que devem a todo custo tentar enfrentar seus próprios medos e encarar as trevas de frente. No texto, há algumas orações, certos encantamentos e disposições de certos itens pelo quarto da vítima que pode vir a afastá-los, mas não há relatos de algo que possa expulsá-los por completo de uma forma definitiva. Uma vez perseguido por um pigmeu, a vítima deverá se atentar a sempre dormir num ambiente iluminado e, se possível, na companhia de outras pessoas...
A imagem daquela horrenda criatura ficou gravado na minha memória e, as palavras de meu antigo professor, cravadas no meu peito. Por um momento fiquei bestificado com tudo aquilo. Saber que havia tantos seres que transitam entre nosso mundo e o outro bem além de nossa compreensão e que essas tais criaturas sempre foram de conhecimento da própria igreja, e o pior de tudo era pensar que pessoas como eu, quando relatam sobre a existência de tais seres, — até mesmo para alguma autoridade clerical — são tidos como mentalmente perturbados.
Sem deixar transparecer ao meu venerável professor meu profundo abalo emocional, agradeci a ele por sua ajuda e, ao demonstrar que estava de saída, antes de me despedir fui convencido a ficar em sua casa e lhe fazer companhia para um almoço que ele mesmo preparara. Foi um repasto simples, mas bastante saboroso. Nesse meio tempo ainda falamos bastante sobre vários outros assuntos, pois percebeu ele que a estória dos pigmeus havia relamente me abalado. Após o almoço, já um pouco mais calmo, assim que me despedi de meu antigo e sábio professor, decidi dar um passeio pelo centro da cidade e, no horário de visitas, passar pelo hospital para ver como estava meu companheiro de rápida experiência em carpintaria.
Para minha surpresa ele já não estava mais naquela instituição. Naquele momento, seu corpo estava sendo velado numa capela próxima de sua antiga casa. Ele havia falecido naquela mesma madrugada. Uma enfermeira da noite o havia encontrado já sem vida numa de suas rondas pela madrugada. Como eu não era da família, o havia conhecido a menos de um mês e não tive maiores intimidades com sua filha, achei melhor não me aproximar naquele momento tão íntimo. Depois eu levaria flores em seu túmulo. Bastante contrariado, cansado e até mesmo melancólico, decidi retornar para casa. Talvez com mais dúvidas ainda do que quando eu havia saído. Quando cheguei de frente ao meu portão de um lado da rua, minha vizinha também chegava do mercado pelo outro lado. Nos cumprimentamos e, naquele momento, pela primeira vez, eu a vi com outros olhos e percebi o quanto ela era atraente e sedutora. Decidi ser um pouco mais atrevido e me arrisquei a perguntar:
— Essas coisas são para aquele jantar que tens me prometido há tempos?
— Não necessariamente! Mas, se assim você o desejar, passaram a ser... — disse ela um tanto quanto assustada com minha atitude, mas bastante animada com a ideia.
Em poucas palavras ficou decidido entre nós que ela faria o jantar e que comeríamos na varanda de minha casa. Eu me encarregaria do vinho e das velas. Tudo correu de forma esplêndida. O tempo estava fresco, o céu limpo, e logo fomos agraciados pela magnificência de uma enorme lua cheia que abrilhantou ainda mais a beleza daquela noite. Depois de umas taças a mais de vinho, nos animamos além do que o normal e, quando dei por mim, já estávamos deitados um nos braços do outro em trajes de Eva após alguns momentos de louca euforia, onde pudemos acertar nossas diferenças. Ela, por ter exaurido suas forças numa insana cavalgada, que não parecia ter mais fim, estava ressonado em meus braços, fungando em meu pescoço um hálito doce com frescor de hortelã — até um pouco estranho para quem havia bebido quase uma garrafa de vinho. Devido aquela inebriante labuta vivida momentos antes, havia exigências em meu corpo que deveriam ser sanadas imediatamente. Com muito cuidado retirei meu braço de debaixo de sua cabeça e silenciosamente fui até o banheiro para me aliviar. Demorei um pouco mais do que o necessário e, quando estava retornando ao quarto, percebi que ela estava sentada no meio da cama em completo estado de choque, olhando para um dos cantos do quarto...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Queda de um Anjo Caído
Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“... ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele...”.
Apocalipse 12:9
Era uma monótona noite de segunda-feira como outra qualquer, sem grandes novidades. O movimento naquele bar estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constante. Dentro daquele sonolento ambiente estava quente e abafado, devido as janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de início de semana. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido, vez por outra, pelo som de bolas de bilhar, o barulho do silencioso carteado e pelo som de copos sendo reabastecidos. As antigas canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fosse um fúnebre fundo musical.
Sempre nas noites de segunda-feira — único dia de folga de Salatiel, em seu novo emprego de segurança noturno — ele buscava um lugar onde pudesse beber sossegadamente, ouvir um pouco de música e tentar se socializar um pouco, de forma que pudesse observar os outros ao seu redor, e se possível não ser notado. Nem sempre dava muito certo e havia a constante necessidade de ter de trocar de lugar de tempos em tempos. Havia certa peculiaridade nesse estranho ser, que o tornava um tanto quanto diferente; de certo modo parece que ele era perseguido pelo senso de fazer justiça e por onde andava sempre se deparava com uma irrecusável oportunidade de desfazer algum desagravo a uma alma inocente. Para tentar conviver num mundo tão hostil e covarde, buscava os lugares mais discretos possíveis.
Certamente não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase ao ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente, nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas, para tentar se esconder de seus próprios problemas.
Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad eternum no ar, sempre há alguém disposto a buscar o momento de paz para consigo mesmo. Da mesma forma que todo ser vivente tem os seus segredos mais profundos, Salatiel não era de todo diferente. Contudo, qualquer um que viesse a saber quem ele realmente era, certamente não viveria para contar a quem quer que seja, e se por acaso contasse, ninguém acreditaria.
Assim que entrou naquele ambiente, sentou-se num dos cantos mais afastados do balcão — onde a luz era praticamente insuficiente — e, logo, pediu uma bebida. A jovem que viera o servir era de uma beleza ímpar. Uma mulher de altura mediana, de corpo bem feito, com belos seios rijos e um agradável perfume com leves notas no odor de almíscar. Seus belos olhos eram brilhantes e de um castanho claro como a cor do mais puro mel. Sua boca de lábios carnudos estava delineada por um batom de um tom carmim. Quando o cumprimentou, mostrou-lhe um inocente sorriso de dentes brancos como o mais puro marfim.
— Boa noite, nobre cavalheiro! Seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Meu nome é Denise, quero que saiba que é um prazer poder conhecê-lo. Estou aqui hoje para servi-lo da melhor maneira possível! O que vai beber?
— Boa noite! Traga-me por gentileza uma garrafa de conhaque. — disse de uma forma fria e até um tanto quanto ríspida. De cabeça baixa estava e assim continuou.
A bela jovem, acostumada àquele tipo de cliente, não deu muita atenção a toda aquela falta de delicadeza do belo cavalheiro que optava por se esconder naquele penumbroso canto do bar. Salatiel era um ser de uma beleza que poderia se dizer um tanto quanto... exótica. Mesmo escondido nas sombras, ainda assim era possível perceber que era um homem alto, másculo, de mãos fortes e ombros largos; cabelos negros como uma noite sem luar e uma face lisa desprovida de qualquer traço de barba ou bigode. Num primeiro momento, não foi possível ver a cor dos seus olhos nem mesmo o brilho de seu sorriso — se esse, porventura, viesse a existir —, mas tinha a leve aparência de ser um sujeito decente.
A noite tinha tudo para transcorrer tranquilamente até a chegada de um estranho valentão ávido por uma confusão. Antes de qualquer coisa, já entrou no bar falando palavras de baixo calão num tom bastante alto e muito desagradável. Ao passar próximo à mesa de bilhar, esbarrou num dos jogadores, atrapalhando a jogada, o que fez com que uma discussão se iniciasse, mas logo fora amainada quando o valentão mostrou o cabo de uma brilhante pistola. Ao sentar-se, deu um forte soco no balcão — quase derrubando a garrafa de conhaque de Salatiel, que logo previu que aquilo não terminaria bem. Quando a jovem bartender, muito prestativamente, veio lhe servir, ele logo lhe mostrou o seu lado mais abjeto após colocar a arma sobre o balcão e se dirigir a ela, em seguida, de forma bastante desrespeitosa:
– Belezoca, quero uma bebida e uma beijoca.
– Boa noite, senhor. Qual bebida poderei lhe servir? — disse ela, muito educadamente.
– Daquelas que se bebe! Sua piranha. E para sua informação, Senhor está no céu.
– Peço perdão, senhor, mas são normas da casa o tratamento respeitoso que damos a todos os nossos distintos clientes. Contudo, se me disser o seu nome, terei imenso prazer em chamá-lo da forma que preferir. Insisto em perguntar-lhe qual é o tipo de bebida que deseja? — disse ela mais uma vez, num tom bastante sereno, sem deixar se abalar pela indelicadeza do cliente.
– Quando eu lhe disser o meu nome, terá mais cuidado na forma como fala comigo. Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer coisa que você me sugerir. — respondeu ele.
Quando ela foi lhe servir, delicada e com muito bom jeito, ele a segurou pelo braço e a arrastou para próximo de si, tentando beijá-la à força. Quando ela tentou recusar, já se viu na mira da arma que ele apontava entre seus seios, com a séria intenção de atirar se fosse necessário. Como que por passe de mágica, o estranho que estava no canto mais afastado do balcão, em um simples piscar de olhos já estava ao lado do valentão e lhe segurava o ombro dizendo, muito calmamente, para que ele soltasse a moça. Um silêncio se fez por completo naquele instante, como se o próprio tempo tivesse parado. Todos ficaram bastante atônitos com o que poderia vir a acontecer naquele tranquilo bar.
Num ímpeto de selvageria, o estúpido cavalheiro que havia adentrado aquele ambiente para perturbar a paz ali existente, virou a arma na direção de Salatiel e apertou o gatilho várias vezes. O som que a arma emitiu, fez com que todos ficassem boquiabertos, inclusive o próprio valentão que não acreditava no que estava ouvindo, pois, por mais que insistisse em apertar o gatilho, a arma girava no vazio como se estivesse descarregada. Salatiel, com toda a serenidade que lhe cabia, tomou a arma do valentão como se tomasse um brinquedo de uma criança. Em seguida, o segurando pela mão direita, olhou profundamente nos olhos dele e disse algumas palavras que ninguém conseguiu entender ao certo, nem mesmo a jovem que estava próxima a eles dois. Denise também pôde ver que os olhos de Salatiel tinham mudado de um tom azulado bastante sedutor para um negro bastante sombrio. Naquele momento, ela teve a estranha impressão de ter visto dois profundos abismos no lugar dos olhos.
Em alguns poucos segundos, ao olhar nos dois abismos que se tornaram os belos olhos de Salatiel, o valentão fez uma longa viagem pelas terras onde a esperança não jaz e, acompanhado daquele estranho ser — que naquele lugar tinha outras feições bastante assustadoras —, pôde vislumbrar um lugar de dor e bastante sofrimento. Todas as estórias que ouvira sobre a terra da danação eterna se tornou real perante seus olhos. Num voo rápido pôde ver, com seus próprios olhos, centenas de milhares de pessoas em terrível padecer, clamando por piedade num incessante lamuriar. Tentou fechar os olhos, para não ver toda aquela dor, mas percebeu que, ao fazer esse gesto, uma ardente chama se acendeu logo atrás de seu globo ocular, como se sua cabeça estivesse pegando fogo. Assim que abriu os olhos novamente, a ardência desapareceu. Pôde então perceber que estava ali, justamente para ver toda aquela angústia.
Após presenciar todo aquele sofrimento que poderia levar qualquer um à loucura, sentiu seu peito se fechar num profundo pesar; mas o pior ainda estava por vir: quando viu seu falecido pai, preso ao chão com correntes incandescentes, ser estuprado por dois terríveis monstros com feições de crianças demoníacas. Essas crianças sodomizavam seu pai sem nenhuma piedade, como se aquilo fosse em exercício de uma função a ser executada de forma profissional. Mas havia prazer nos terríveis olhos daquelas duas criaturas que, para piorar ainda mais a situação, tinham um semblante que lembravam duas crianças inocentes. Seu pai, percebendo uma estranha presença próximo a ele, levantou sua cabeça e logo reconheceu a imagem do filho que estava a sua frente, ao lado de Salatiel. Num urro de tremendo remorso, gritou para o filho:
— Jeremias, me perdoe! Eu era uma pessoa doente e agora sei todo o mal que lhe causei.
Jeremias soube, então, que tipo de lugar era aquele e porque seu pai estava sendo punido daquela forma. Lembrou-se, então, de tudo o que havia sofrido nas mãos de seu pai quando sua mãe não estava em casa. Após poder contemplar o castigo dos ímpios, um triste pesar tomou conta de todo o seu ser. Essa viagem de Jeremias durou, para ele, quase meia hora, mas no bar não se passara nem cinco segundos. Quando ele piscou os olhos, logo viu que todos estavam estupefatos, imaginando o que ele faria em seguida, mas para a surpresa geral, ele baixou sua cabeça e em seguida lançou as mãos no rosto e começou a chorar como uma criança.
Ninguém no bar entendera coisa alguma. Jeremias completamente tomado pela emoção, ainda pagou pela bebida que nem mesmo chegou a tomar e, com o rosto banhado em lágrimas, implorou pelo perdão de Denise; logo em seguida saiu correndo do bar, deixando para trás seu maço de cigarros, um pacote de dinheiro e a arma que lhe fora tomada. Denise olhou para o estranho cliente que viera em seu socorro e, sem entender nada daquilo, logo lhe questionou:
— O que foi aquilo? O que o senhor disse a ele?
— Nada demais, apenas disse a ele para que endireitasse suas veredas e que tivesse um pouco mais de respeito para com o seu próximo. Acho que daqui para frente ele será um homem um pouco mais educado e bem mais cuidadoso com suas atitudes.
Salatiel, após dizer essas palavras, pegou a arma que ainda estava sobre o balcão, a descarregou em seguida, guardando, tanto a arma quanto as munições, nos bolsos da jaqueta jeans que estava usando. Voltou para seu lugar e tomou mais uma satisfatória dose de seu conhaque. O restante da noite transcorreu de forma tranquila, sem mais nenhuma perturbação. O bar fechava em dias de segunda-feira, por volta de uma hora da madrugada. Antes de encerrar o trabalho, Denise muito gentilmente agradeceu seu salvador novamente, dizendo que seria um enorme prazer recebê-lo uma vez mais ali naquele humilde ambiente.
Assim que ela fechou o bar, seguiu seu caminho direto para casa que distava somente algumas quadras de seu trabalho. Salatiel, como era de costume, sempre levava consigo o restante da garrafa que sempre sobrava, e sentava-se num banco de uma praça qualquer; ainda ficava, até quase o dia amanhecer, sentado de face virada para cima, contemplando as estrelas e se lembrando de tempos de outrora. Estava ele caminhando em passos lentos quando ouviu gritos desesperados vindos de uma rua logo abaixo de onde ele estava. Rapidamente se encaminhou na direção dos gritos e, lá chegando, logo percebeu que pela segunda vez naquela noite, Denise necessitava de sua ajuda novamente, pois dois homens tentavam encantoá-la para um local escuro, possivelmente com a intenção de abusar de sua inocência.
Mais uma vez, com a calma de um pastor que tange suas ovelhas, Salatiel se aproximou dos dois agressores e parece que repetiu o mesmo que havia feito no bar, pois assim que tocou nos agressores, em alguns segundos os dois saíram correndo aos prantos, clamando que Deus tivesse piedade de suas almas. Denise, uma vez mais, achou tudo aquilo bastante estranho, mas, mesmo assim, o agradeceu novamente e pediu para que ele a acompanhasse até em casa. Sem poder dizer não, para uma jovem que se parecia por demais indefesa, assim ele o fez. Ao chegarem ao portão de sua casa, quando Denise já estava prestes a se despedir, um agradável rostinho apareceu na janela. E para surpresa ainda maior daquela batalhadora garçonete — que criava sozinha, com o parco salário que ganhava, uma filha adotiva que padecia de leucemia —, ouviu quando a menina disse que o convidasse para entrar.
Ela sorriu e pediu que ele entrasse somente um pouquinho, para que a menina não se contrariasse. Salatiel jogou, a garrafa que trazia nas mãos, na lixeira; e seguiu Denise. Assim que entraram na casa, ele logo pôde perceber que havia uma menina de uns nove anos, sentada numa cadeira de rodas. Tinha a pele pálida como a neve — a ponto de deixar visíveis quase todas as suas veias. Na cabeça nua, não tinha nenhum fio de cabelo sequer. Era tal magra, que dava a leve sensação de que não duraria muito tempo. Contudo, para surpresa tanto de sua mãe, bem como para o próprio Salatiel, a menina se direcionou a ele como se o conhecesse há muito tempo.
— Boa noite, Salatiel. Como tem passado? Não reconhece mais um de seus irmãos quando vê um? Pelo que vejo tem se adaptado bem à sua nova vida...
Para não restar nenhuma dúvida, Salatiel respondeu na língua dos anjos.
— Boa noite, Galalel. Agora se disfarça de menininhas doentes para andar entre os seres humanos? Ele já foi mais criativo para nos enviar entre os seus preferidos.
— Não há preferidos para Ele! Somente aqueles que o obedecem e os que, por escolha própria, são rebeldes. Estou aqui por uma causa nobre. Denise é muito preciosa para ele e precisa ser testada em sua fé. Respondeu Galalel, também na língua dos anjos...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Reflexos do Mal
— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.
— Friedrich Nietzsche
— Senhor Wilson, por favor! Há quase dez anos que o senhor está internado nesta instituição, condenado pelos terríveis crimes que cometeu. Desde então, de seis em seis meses, nos conta essa mesma história absurda, de uma forma enfática e repetitiva. Quando será que o senhor irá nos confessar o que realmente aconteceu? Por que assassinou sua esposa e seus filhos? O senhor precisa realmente cooperar conosco; só assim poderemos tentar ajudá-lo.
O paciente baixou a cabeça e começou a chorar copiosamente, entrando numa terrível crise de histeria. Os enfermeiros foram chamados e conseguiram contê-lo, aplicando-lhe um forte calmante, que o fez ficar inerte na cadeira, mas ainda assim com os olhos abertos e vidrados em alguma direção a esmo, como se avidamente quisesse enxergar algo que ninguém mais pudesse ver.
Assim que aquele paciente se acalmou e o ambiente ficou mais tranquilo, o renomado psiquiatra Doutor Eugênio de Abreu, que conduzia aquela sessão e que também era o mais velho dos três médicos ali presentes, disse aos outros dois profissionais que estavam ao seu lado:
— Esse paciente que está à nossa frente é um espécime raro nesta instituição. Na visão de um leigo, que não saiba de seus crimes, ele pode parecer uma pessoa completamente normal. Há quase dez anos tenho acompanhado seu tratamento e, durante todo esse tempo, ele tem nos contado a mesma história sem nunca, nem mesmo sob o forte efeito de drogas pesadas — ou outros tipos de tratamentos nada ortodoxos —, ter mudado uma única vírgula do que sempre tem sido contado ao longo de todos esses anos. Sua inverossímil história parece o enredo de um conto de terror e mistério. Segundo ele, um antigo espelho que ele teria herdado de sua avó seria o responsável por toda a tragédia que assola sua família há muitos anos...
... Seu nome é Wilson Bernardes — mesmo nome do avô — ele era uma espécie de artista fracassado que ganhava a vida como professor de artes e, vez por outra, conseguia vender uma de suas pinturas por uma ninharia qualquer. Era casado com uma promissora médica — de nascimento nobre, filha de família rica — que abandonara a fortuna e carreira para acompanhar o marido, cuidar da casa e dos filhos que os dois logo tiveram no início do casamento.
Segundo a sogra — dona de uma renomada galeria de arte —, seu genro sempre havia demonstrado um comportamento estranho e arredio, com certo senso de inferioridade. O relacionamento dele com sua filha foi o típico casamento entre “a princesa e o plebeu”, fato esse que sempre gerou discórdia entre eles, e que, a todo custo, tentava se manter distante da família dela.
Professor Wilson é oriundo de um núcleo familiar onde a tragédia parece fazer parte da própria família. Ele mesmo era órfão desde os cinco anos, quando perdera os pais num terrível acidente de carro, onde somente ele conseguira sobreviver — as causas do acidente nunca foram totalmente esclarecidas —. Até os 18 anos, fora criado por sua avó materna numa pequena cidade do interior — uma bondosa e sofrida mulher que já havia criado seu filho sozinha, após a trágica morte do marido, que tirara a própria vida em circunstâncias misteriosas —.
O avô do nosso paciente, o senhor Wilson Bernardes, era motorista de um ônibus escolar. Um profissional competente e muito querido por todos, mas que, numa triste manhã de sexta-feira, sem nenhum motivo aparente, havia jogado o veículo que dirigia numa ribanceira, matando, além dele mesmo, mais 17 crianças, deixando outras tantas feridas — algumas das crianças que sobreviveram ao acidente disseram, em depoimento, que o sempre meigo e atencioso tio Wilson estava com um sorriso bastante estranho e se comportava de uma forma muito esquisita naquele dia —.
Assim que terminou os estudos escolares, o jovem Wilson veio estudar na capital, onde se formaria em História da Arte, tornando-se posteriormente professor de uma pequena escola de bairro. Ainda na faculdade, conheceria sua futura esposa. Clarisse estava cursando o penúltimo ano de medicina quando ele iniciou seus estudos no curso de Licenciatura em História da Arte. Em menos de cinco anos, oficializariam um relacionamento bastante conturbado devido a inúmeras diferenças que havia entre eles. Ele, que era bastante solitário desde que perdera sua avó, teria uma família novamente. Ela, por sua vez, estava selando seu trágico destino.
Quando se casaram, a esposa tinha certeza da vida simples e humilde que o futuro esposo poderia lhe proporcionar e nunca reclamara por isso, até o dia em que viria receber uma pequena fortuna de herança do pai. Dinheiro esse que era visto pelo marido como uma profunda ofensa a seus nobres princípios de homem humilde e trabalhador. Com a herança recebida pela morte do pai e a constante companhia da mãe, a esposa retomou alguns costumes e contatos da época de solteira, quando ainda vivia em uma vida de opulência e riqueza na casa dos pais. Esse fato causou a inevitável separação dos dois, devido ao sentimento de profunda inferioridade do marido.
Uma vez separado de sua esposa e longe da companhia de seus filhos, decidira tirar umas merecidas férias e retornar à sua cidade natal. Pois, desde que se mudara para a capital, jamais havia retornado à sua antiga cidade. Sua avó, que terminara seus dias no mais completo abandono numa clínica de repouso para idosos, havia deixado a ele — seu único herdeiro — sua casa e todos os seus pertences — essa casa estava fechada há muitos anos —. Professor Wilson, que trabalhava na mesma escola há 15 anos, solicitara uma licença do trabalho, alegando, além das questões pessoais — que todos já sabiam —, que também gostaria de um tempo para voltar a pintar de forma profissional ou, quem sabe, até mesmo poder escrever um livro sobre a história de sua família.
Após esclarecer seus planos à ex-esposa — com quem ainda mantinha um relacionamento de respeito e admiração, por ser ela a mãe de seus filhos —, despedira-se de seus filhos de forma bastante carinhosa e voltara para sua antiga casa dos tempos de infância, onde ficaria quase dois meses sem dar nenhuma notícia. Sua cidade natal ficava a mais de 150 km distante da capital.
Certa noite, já em alta madrugada, o vulto de uma pessoa parecida com o professor Wilson fora visto por um dos vizinhos — que chegava de uma noitada — entrando sorrateiramente em sua antiga casa, onde ele vivera por mais de 10 anos com a ex-esposa e seus dois filhos. Nenhum deles jamais seria visto novamente. A mãe de Clarisse — que estava em viagem à Europa —, ao perceber que Clarisse não respondia às suas ligações, retornou imediatamente de sua viagem e, assim que percebeu que sua filha e seus netos haviam desaparecido, logo teve a plena certeza de que o ex-genro era o responsável pelo sumiço de todos eles.
A polícia foi acionada imediatamente. Um pedido de prisão preventiva fora expedido contra o professor Wilson pelo desaparecimento de sua ex-esposa e também de seus filhos. Ele fora encontrado no porão da casa que herdara da avó, pintando um autorretrato, inocente a tudo que havia acontecido. Ao saber do desaparecimento de sua família, entrara em choque. Uma antiga conhecida da família, que ele havia contratado como uma espécie de governanta, dissera que ele não havia saído de casa na noite do assassinato.
Tanto a casa da avó quanto a casa onde eles viviam foram periciadas até pelo avesso em busca de evidências que pudessem comprovar um triplo assassinato. Paredes foram minuciosamente verificadas, os dois quintais foram revirados, vários testemunhos foram colhidos, porém nenhuma prova fora encontrada. De certo modo, o crime parece ter sido perfeito.
Wilson — que já não era mais professor — ficou preso até o julgamento, mas este douto e persuasivo ex-professor, contando com a competência de um bom advogado e a anuência da Lei, fora solto após o julgamento por ter sido considerado inocente, pois, segundo as negligentes leis vigentes desse país, “se não há corpo, não há crime”...
Depois de todos esses episódios que vocês ouviram, esse paciente à nossa frente começou a dar mostras de um comportamento que variava entre o lúcido e o mais completo delírio. Envolveu-se em algumas confusões em bares e boates, muitas das vezes sendo expulso desses locais por quebrar os espelhos que encontrava pela frente. De alguma forma, criou uma espécie de total aversão pelo próprio reflexo.
Segundo sua governanta, alguns dias após o seu julgamento, ele tivera algum tipo de surto psicótico sobre um determinado espelho que havia em seu porão. Fez várias pesquisas sobre a origem do antigo objeto que pertencera ao seu avô, comprou diversos livros sobre ocultismo e chegava a ficar dias inteiros trancado no porão de sua casa, sussurrando palavras estranhas que ela não conseguia compreender direito, pois eram frases sem nexo algum. Falava sobre demônios, espelhos, portais e coisas desse tipo...
Depois de quase dois anos desde que tudo ocorrera, parece que as coisas estavam voltando ao normal e Wilson demonstrava que se tornaria uma pessoa lúcida novamente, até que, certa noite, em uma hora já bastante avançada, após a governanta ouvir estranhos barulhos de uma terrível luta no porão, além de vozes lamentosas e gritos de profundo desespero, ela, temendo pela integridade do seu patrão, que ela ajudara a criar desde criança, desceu até aquele ambiente onde lhe era proibido adentrar e pôde conferir com seus próprios olhos que ele já não estava mais lá. O ambiente estava tranquilo e silencioso. Era estranho, pois seu carro estava na garagem e ela não o ouvira sair pela porta da frente.
De alguma forma, Wilson havia chegado à casa de sua ex-sogra e tentou assassiná-la. A pobre mulher — que ainda chorava pela perda da filha e dos netos — conseguiu se salvar das garras do alucinado agressor, gritando por socorro aos seus vizinhos, que já estavam previamente avisados do comportamento psicótico e agressivo de seu ex-genro. Wilson foi preso tentando arrombar a casa da ex-sogra, de posse de uma afiada faca. Naquele momento, seu estado parecia ser de total embriaguez, mas parecia haver algo mais, pois, mesmo com a presença da polícia, mantinha um comportamento agressivo e alienado, ficando o tempo todo murmurando palavras sem sentido algum. Sua prisão em flagrante por tentativa de assassinato fora revertida em internação em uma clínica psiquiátrica de segurança máxima.
De alguma forma, ele conseguira escapar. Mesmo vestindo trajes de um interno, descalço, sem dinheiro algum e sem nenhum documento, conseguira retornar até sua antiga casa. A governanta fora encontrada aos prantos do outro lado da rua, amparada por vizinhos que também chamaram a polícia e os bombeiros. Segundo ela, ao ouvir barulhos estranhos no porão, desceu rapidamente para ver o que estava havendo, temendo ser um invasor. Encontrou a porta do porão trancada por dentro e logo sentiu cheiro de fumaça e o calor do fogo por debaixo da porta. Os bombeiros agiram rápido e conseguiram controlar as chamas e salvar a casa. Wilson, com quase 70% do corpo queimado, fora preso mais uma vez. Ficou mais de seis meses se recuperando das queimaduras e, logo após se restabelecer, foi enviado até nós. Desde então, tentamos mantê-lo longe de espelhos ou qualquer objeto ou superfície que possa refletir sua imagem.
Acredito que seja de total conhecimento de vocês, jovens e devotados calouros em psiquiatria, que todo e qualquer indivíduo, com qualquer tipo de distúrbio, por menor que seja, uma vez internado numa instituição como essa, muito dificilmente conseguirá sair para o convívio social novamente. Principalmente em se tratando de casos específicos, como esse, em que o paciente transita em paralelo entre universos de fantasia e realidade. Como podem saber, sou um profissional com mais de quarenta anos de carreira e já vi muitas coisas estranhas em todos esses anos de psiquiatria. Tenho acompanhado o caso do paciente Wilson desde que ele chegou aqui nesta clínica. Em todos esses anos, nunca havia me deparado com um caso tão peculiar como esse, onde o paciente jamais desiste de contar a mesma história. De alguma forma, ele realmente acredita em tudo o que diz, como se toda essa insanidade fosse realmente verdade, e não apenas um mero fruto de sua fértil imaginação...
Um dos jovens calouros, que atentamente ouvia todo aquele relato e que tentava anotar tudo o que o experiente médico dizia, ousou perguntar:
— Doutor Eugênio, em algum momento, o senhor, com toda a sua experiência, cogitou a possibilidade de que ele talvez estivesse falando a verdade? Sobre o espelho amaldiçoado em seu porão? O senhor não nos disse muitas coisas sobre esse espelho.
Aquele sábio e experimentado psiquiatra deu um longo suspiro e, olhando para aquele jovem e inexperiente médico com certa indulgência, disse num tom paternal:
— Cuidado, meu jovem rapaz... Aqui, entre essas paredes, tem um lugar reservado a todos aqueles que contam histórias fantásticas e também para quem acredita nelas...
— O tal espelho realmente existe, mas é somente uma peça antiga, talvez do século XVIII ou XIX. Depois que nosso paciente foi definitivamente considerado incapaz de retornar à sociedade, sua casa, com todos os pertences que restaram após o incêndio, foi leiloada pelo Estado. Eu mesmo arrematei o tal espelho por mera curiosidade, devido a todas as histórias que o acompanham. Era uma das peças da coleção particular do avô de nosso paciente. Senhor Wilson Bernardes era um aficionado por coisas antigas e colecionava todo tipo de quinquilharia. Era um verdadeiro saudosista dos tempos idos, que, em sua estranha coleção de velharias, sempre optava por objetos que tivessem algum tipo de relato macabro em sua história...
Saindo daquela sala especial onde os internos eram examinados a cada seis meses, Doutor Eugênio convidou os outros dois médicos a acompanhá-lo até seu consultório, onde o espelho se encontrava. Naquela mesma tarde, Doutor Eugênio de Abreu fora brutalmente assassinado dentro de seu próprio consultório; um dos médicos que o acompanhava está em coma profundo após ter o seu crânio fraturado e os olhos perfurados com um bisturi. O outro médico encontra-se foragido...
Revisado por Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Coelhinha
Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O maior feito de Jesus não foi ressuscitar os mortos, mas a capacidade de ressuscitar os vivos.”
— Padre Fábio de Melo
Havia já alguns dias que ele tinha apresentado os primeiros sinais de recuperação. Num primeiro momento, apenas um leve tremor nos dedos da mão esquerda, depois um longo suspiro, o que causou certo alvoroço dentre os médicos que o acompanhavam. Na segunda semana já havia sido desentubado e começava a se alimentar com comida sólida. E depois de um mês de muita fisioterapia já conseguia ir ao banheiro com suas próprias pernas, mas ainda estava na UTI. Sentia que estava se recuperando bem, mas o que lhe causava certo desconforto era o fato de, mesmo após ter saído do coma, ainda não ter sido visitado pela sua família nem uma única vez. Apenas sua irmã mais nova, vez por outra, colocava a face pela vidraça da sala e lhe acenava de forma bastante afetuosa.
Naquela tarde, dois meses após ter acordado de um coma profundo, sua médica plantonista, Doutora Aline, lhe comunicara que, na manhã seguinte, após uma bateria de exames, dependendo do resultado, ele poderia ser transferido para um quarto comum, e assim poderia receber visitas. Ele ficou bastante eufórico com a notícia. As horas passaram se arrastando naquela noite; mesmo depois de um longo tempo, que mais pareceu uma eternidade, logo as primeiras luzes do dia começaram a iluminar o quarto onde estava, e enfim a manhã chegou. Seus exames atestavam-no para uma progressão para outra ala e, se tudo corresse bem, naquela mesma semana talvez ele até recebesse alta. Assim que foi levado para o quarto, sua irmã o aguardava ansiosa. De alguma forma parecia que ela estava bastante estranha, parecendo mais velha e um pouco mais magra. Fato que ele de forma alguma quisera comentar.
— Bom dia, maninho querido. Como está se sentindo? Que baita susto você nos deu? — disse ela de forma bastante calorosa, mas com certo tremor na voz, como se houvesse algo de errado.
— Bom dia, Marianne! Estou me sentindo um novo homem. Por falar em nós... Onde está todo mundo? Por que Denise não veio me ver todo esse tempo? Onde estão as meninas? Minha mãe está doente? Parece que ninguém tem mais nenhuma consideração por mim.
A médica que o estava acompanhando até o quarto solicitou que, naquele momento, ele descansasse, e que depois tudo lhe seria devidamente esclarecido. Daniel não era o tipo de pessoa dotada de muita paciência e logo quis saber do que se tratava. O porquê de sua família não estar ali visitando-o? Afinal, ele tinha acabado de sair do coma. Apesar de nem ele mesmo se lembrar do motivo de estar internado naquele hospital, muito menos em estado de coma. Doutora Aline, com muita paciência, disse que era melhor que sua irmã, que o havia acompanhado durante todo aquele tempo, lhe deixasse a par de toda a situação.
Assim que Daniel foi devidamente acomodado, sua médica recomendou cautela quanto ao excesso de emoções, mas também disse que já era hora de lhe contar toda a verdade. Disse que retornaria à tarde para verificar sua evolução, mas que por hora o deixaria aos cuidados da irmã. Saiu e fechou a porta do quarto atrás de si, deixando os dois irmãos a sós no quarto. Marianne, quando viu a ansiedade estampada na face do irmão, não conseguiu manter o controle sobre si mesma e logo sua face estava banhada em lágrimas. Daniel de alguma forma compreendeu o que aquelas lágrimas diziam. Com o senso de irmão mais velho que nunca perdera, mesmo com o passar dos anos, abriu os braços e chamou a irmã para junto de si.
Marianne ainda chorou por um longo tempo. Parecia que havia uma enorme carga de tristeza e sofrimento sobre seus ombros. O tipo de pesar que alguém segura o quanto pode, mas quando começa a descarregar parece que não acaba mais. Assim que ela conseguiu recuperar o controle de suas emoções, pediu-lhe que ele permitisse que ela fosse até o banheiro lavar o seu rosto. Após se refazer, ela puxou uma cadeira que estava próxima e, ao sentar-se ao seu lado, rogou-lhe que ele contasse o que se lembrava de antes do acidente.
— Que acidente? — perguntou ele.
Nesse momento percebeu que era mais sério do que ela podia imaginar. E decidiu que deveria contar tudo de uma única vez. Se ele conseguiu sobreviver a um acidente onde mais de 40% dos ossos de seu corpo haviam se esfacelado, certamente ouvir a triste verdade sobre sua nova vida não poderia matá-lo. Afinal, até mesmo sua própria médica havia lhe dado carta branca. Sem mais delongas, Marianne disse-lhe que narraria tudo que era necessário para lhe pôr a par de sua situação, mas que ele deveria lhe prometer que não a interromperia até que ela terminasse de contar tudo o que ocorrera. Assim que ele concordou, ela principiou.
— ...Era feriado de Semana Santa, e como acontecia todos os anos, desde que se casara você sempre viajava para a casa dos pais de sua esposa a fim de passar a Páscoa com a família dela. Você justificava para mamãe que, uma vez que nós, como cristãos, tínhamos o Natal como um dia muito especial e que sempre passávamos juntos. Sendo assim, a família de sua esposa, como era de origem judia, a Páscoa era de suma importância para eles também. Por isso, para manter uma política de paz em seu lar, vocês todos sempre viajavam para a casa deles nessa época do ano. Acontece que naquela fatídica tarde de quinta-feira — véspera de Sexta-feira da Paixão — ninguém esperava que um motorista completamente embriagado estaria testando os limites de velocidade de sua nova pick-up para demonstrar para sua amante — uma bela jovem, ainda na flor da idade, que tinha idade para ser sua neta, a quem ele chamava de doce coelhinha, segundo a mãe dela em testemunho à polícia — o quanto ele tinha a capacidade de desafiar a morte em todos os sentidos possíveis.
Em certa altura da estrada, seu carro se chocara de frente com a pick-up desse inconsequente sujeito, que naquele momento dirigia na contramão a mais de 200 km/h, segundo a perícia. Pedaços do corpo da jovem, que estava com ele na pick-up sem usar o cinto de segurança, foram retirados daquilo que sobrou do seu carro e de um longo trajeto da estrada; o enterro dela teve que ser com caixão lacrado, para desespero de sua mãe. Denise e as crianças tiveram morte instantânea, sem sofrimento algum, segundo os peritos. De forma milagrosa, na hora da batida, você também estava sem cinto e, tal como a jovem “coelhinha”, também fora lançado para fora do carro, mas passando por cima da pick-up e caindo numa plantação de milho ao lado da estrada. O impacto quebrara grande parte dos ossos de seu corpo, mas de uma forma inexplicável você conseguira sobreviver.
Quando o socorro chegou, o homem que dirigia a pick-up já havia se evadido do local sem prestar nenhum tipo de socorro. Ele mesmo, que fora o grande causador daquela inexplicável tragédia, não tivera nenhum ferimento grave, apenas alguns leves arranhões. Os socorristas, que não tardaram a chegar ao local do acidente — acionados por outro motorista que passava pelo local um pouco depois que tudo ocorrera — ali mesmo lhe prestaram os primeiros socorros e logo conseguiram estabilizá-lo, salvando-lhe a vida. É certo que seus ferimentos foram tão graves que o deixaram em estado de coma profundo.
O motorista da pick-up logo fora localizado e preso pela polícia. Mas conseguira, através de pessoas influentes, aguardar o decorrer do processo em liberdade. Seu julgamento aconteceu um ano depois do acidente. Devido aos seus inúmeros contatos com pessoas importantes e pela sua enorme fortuna, fora-lhe aplicada apenas uma pena bastante branda, considerado o tamanho da tragédia que ele causara. Foi condenado a pagar uma fiança revertida em cestas básicas — que, até onde se sabe, nunca foram pagas — e a prestar alguns serviços comunitários relacionados ao trânsito — serviços esses também que jamais foram prestados.
Minha mãe, que já não estava muito bem desde que papai se fora, ao saber da morte de sua estimada nora e de seus adorados netos, além de saber que seu filho estava em estado de coma profundo num hospital, sem saber se algum dia conseguiria se recuperar, assim que viu o motorista da pick-up dirigindo livremente pelas ruas novamente, não suportou tanto descaso por parte das autoridades e, num ataque de desespero, atentou contra a própria vida. Amanhã faz dois anos que mamãe se matou...
Nesse momento Marianne abaixou sua cabeça e iniciou um lamentoso choro novamente. Daniel, que naquele momento estava de pé logo à sua frente, segurou sua face com ambas as mãos e disse-lhe com toda convicção possível:
— Esse tipo de homem se acha acima das leis que eles mesmos criam para serem aplicadas em outros abaixo deles. Contudo, se esquecem de que existem outras Leis que regem as engrenagens desse mundo conhecido por nós e de outro muito além de nosso entendimento. O Universo foi criado em plena perfeição e as Leis que assim o regem são exatas e nunca falham. Durante nossa insignificante passagem por esta terra, o tempo todo estamos adquirindo créditos e dívidas, independentemente de quem somos ou com demasiada soberbia pensamos ser; mais cedo ou mais tarde, teremos que acertar as contas com o Infinito. Certamente minha família e essa infeliz jovem não foram os primeiros a sofrerem esse tipo de atrocidade nas mãos de pessoas como ele, mas saiba você que, por parte dele, ninguém mais sofrerá esse tipo de injustiça. É uma promessa que lhe faço. Esqueça tudo isso e fique despreocupada, pois essa última dívida que ele contraiu, lhe será cobrada muito em breve. O dinheiro que ele acha que tem e sua honrosa posição social conseguiram livrá-lo da justiça, mas não conseguirá de forma alguma protegê-lo de mim. Tem quanto tempo que isso aconteceu, Marianne? Desde quando estou aqui nesse hospital?
— Três anos exatos. Afinal, domingo próximo é Páscoa novamente — disse ela.
Daniel ficou em absoluto silêncio e nada mais quis saber além do nome do homem que causara a destruição de toda a sua família. Abraçou sua irmã uma vez mais e logo pediu a ela que saísse, pois precisava descansar. Marianne, sentindo-se mais aliviada por ter conseguido contar ao irmão tudo o que lhe ocorrera, dirigiu-se para sua casa com o senso de dever cumprido. A pedido de seu irmão, lhe repassara tudo que ela sabia sobre o homem que causara aquele terrível acidente: quem ele era; onde vivia; e o que fazia da vida — ou seja, nada. Pois era um homem bastante rico, que nunca trabalhara, uma vez que sua enorme riqueza era proveniente de heranças que havia recebido tanto por parte de pai bem como por parte da mãe. Era o tipo de pessoa que se achava acima de tudo e de todos, imaginando que, com o dinheiro que possuía, poderia comprar qualquer coisa, até mesmo a dignidade de alguns e o silêncio de outros.
Na manhã seguinte — Sexta-feira da Paixão — Marianne soube que seu irmão havia se evadido de seu quarto e que, na fuga, havia levado consigo o carro de um dos médicos do hospital. Um veículo esportivo, bastante rápido e muito potente. A polícia estava em seu encalço desde então, mas ainda sem saber de seu paradeiro, tanto por ser ele um paciente ainda em tratamento, bem como pelo roubo do veículo de luxo.
Na manhã de domingo, o que sobrara de um veículo bastante caro fora encontrado caído numa ribanceira, com partes de um corpo presas no para-choque dianteiro. Os pés da vítima pareciam que haviam sido consumidos pela constante abrasão no asfalto; segundo a perícia, o corpo havia sido arrastado pelo asfalto em altíssima velocidade. Havia um leve rastro de sangue, carne e ossos por um raio de quase três quilômetros até o local onde o carro fora encontrado. Não havia sinais de quem havia dirigido o veículo. No banco do motorista havia apenas um inocente coelho de pelúcia amarrado ao volante, com um bilhete escrito: Feliz Páscoa...
Revisado por Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Peregrinus
No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“De onde você vem?”, perguntou o SENHOR. Satanás respondeu: “Estive rodeando a terra, e observando o que nela acontece”. — Jó 2:2
No ciclo natural das coisas e acontecimentos, onde tudo nessa existência demonstra-se ser efêmero e transitório, não há tristeza eterna e muito menos alegria que perdure para sempre, e por mais difícil que seja a situação que alguém possa estar enfrentando, em algum outro lugar alguém talvez esteja numa tribulação um pouco mais desesperadora. Depois de mais uma longa noite de bebedeira, já em alta madrugada, naquela hora fria e silenciosa que antecede os primeiros sinais da aurora, tendo como única companhia uma lua cheia plena e brilhante, mas também já se despedindo no poente, Ewerton retornava para casa – ou pelo menos o pardieiro que ele naquele momento se tornara sua casa – para mais um dia de ressaca, desespero e muitas lamentações.
Caminhando em passos trôpegos, ziguezagueando pela rua, tentando a todo custo se manter de pé devido ao excesso de bebida e pela falta de alimento já de muitos dias, mesmo já não confiando mais na exatidão de seus sentidos que vinham lhe pregando peças nos últimos tempos, pôde ver ao longe que havia alguém sentado nos degraus da porta da igreja. Templo esse que, há não muito tempo atrás, ele mesmo um dia, fora ministro de celebrações e por vezes incontáveis foi arauto das mensagens das Boas-Novas. Ao se aproximar, logo pôde perceber que a pessoa que estava ali em completo abandono naquelas horas tardias era uma mulher, e pela posição que estava sentada com o rosto prostrado entre os joelhos, demonstrava estar num terrível desconsolo.
Ouvindo que ela suspirava ais de tristeza, e pela solidão noturna em que ela ali se encontrava, entendeu muito rapidamente com o restante de cavalheirismo e dignidade que ainda lhe restara, que deveria prestar-lhe algum tipo de auxílio, com delicadeza e parcimônia aproximou-se a ela, e disse-lhe de modo cortês:
– Boa noite, minha senhora. Há algo em que eu lhe possa ser útil?
Com movimentos leves de quem estava há muito tempo na mesma posição, ela sentou de forma ereta e com a face completamente banhada em lágrimas, e com certa dificuldade tentou lhe responder com palavras entrecortadas entre soluços e suspiros de dor:
– Boa noite, meu amigo. Quem dera, se alguém neste mundo cruel pudesse fazer algo em meu socorro. Aquilo que perdi jamais me será restituído e o que me foi tomado não pode ser devolvido.
Ao vê-la falando dessa forma seu coração dilacerado pela dor, se encheu de ternura. Não somente pelas palavras que exemplificavam sua própria situação naquele momento, mas pela forma como ela soube se expressar. De certa forma estava ele muito condoído com aquela bela criatura ali naquele estado de completo desalento. Mesmo com a visão bastante embaçada pela bebida e pela ausência de claridade no local onde se encontravam, ainda assim pôde perceber que era uma bela mulher, ainda transpirando o frescor da juventude, com uma aparência bastante agradável aos olhos e exalando um perfume bastante sedutor. De forma muito gentil, pediu-lhe autorização para que pudesse se sentar ao seu lado. Vênia que de imediato lhe foi outorgada. Com uma estranha expressão ela disse:
– Que pobre e infeliz criatura sou eu para impedir que alguém se sente na porta da casa daquele que é o Pai de todas as criaturas? Sente-se e esteja à vontade.
Ewerton, que naquele momento não sabia discernir o certo do incerto, mesmo não entendendo o porquê de ela ter dito aquelas palavras, com certa dificuldade sentou-se ele ao seu lado, e logo almejou saber o motivo de tanta tristeza numa mesma pessoa. Ela por sua vez, secando os olhos com as costas das mãos, relatou-lhe em poucas palavras sua trágica e inverossímil história.
– Vivíamos outrora numa bela casa onde éramos todos felizes e satisfeitos com tudo ao nosso redor, em tempo algum soubemos o que era necessidade, dor ou tristeza. Nossa existência era baseada numa plenitude infinita de deleites sem fim. Mas por escolhas indevidas, feitas por uma vil influência baseada em promessas infundadas, decidimos por trilhar caminhos obscuros e incertos. Desde então, condenados pela Justiça Divina, eu e meus irmãos somos impedidos de retornarmos para nosso verdadeiro lar e somos obrigados a vagar pelo mundo como pobres peregrinos. Sem termos um destino certo, transitamos por ermos caminhos em busca de um lugar decente onde possamos pelo menos poder lamuriar nossa infinita desgraça sossegadamente.
Ewerton, que naquele momento já não era mais senhor de seu juízo perfeito, esquecendo-se por um instante de sua própria situação desoladora, por mais uma vez, vendo-se como um ministro de Deus, mesmo tropeçando nas palavras, disse-lhe de forma muito afetuosa, como se fosse um pastor se dirigindo a uma ovelha que havia se perdido e fora novamente encontrada.
– Não deixe que a tristeza te assole dessa forma, tome conta de seus sentimentos, por mais terrível que uma tempestade possa parecer, o sol sempre voltará a brilhar novamente. Não se deixe abater tão facilmente, você ainda é jovem e muito bonita...
Nesse momento, ela esboçou um leve sorriso, que à luz do dia, certamente seria bastante sinistro. Ele continuou:
– ... Dias melhores sempre estarão reservados para pessoas iguais a você. Já é muito tarde, não é certo que ninguém esteja na rua a essas horas, principalmente uma mulher indefesa igual a você. Há muitas pessoas ruins e hostis nesse mundo, seres que não têm nenhum apreço pelo seu semelhante. Não posso de forma alguma permitir que algo de ruim aconteça a você.
Ela abaixou a cabeça em reverência, concordando. Ele nem pôde ver que ela esboçava um novo sorriso, tão maquiavélico quanto o anterior, pois estava ele bastante entretido com sua oratória. Juntando forças sem saber de onde, colocou-se ele novamente de pé, gentilmente estendendo-lhe a mão esquerda – na outra mão ainda segurava uma garrafa de bebida – disse-lhe:
– Minha casa não é muito longe daqui, se quiser me acompanhar, posso lhe servir um café, uma cadeira para se sentar e se for de seu agrado tentarei ser um ouvinte atencioso para uma boa conversa. Não tenha medo, sou uma pessoa inofensiva, só consigo causar mal a mim mesmo.
Ela, agarrando-se à mão que lhe era oferecida, tocando de leve com a ponta dos dedos uma brilhante aliança que ele ainda ostentava no dedo, desferiu-lhe um olhar que seria capaz de enxergar os recantos mais profundos de sua alma, e foi logo dizendo:
– Agradeço pela oferta, gentil cavalheiro. Mas não quero ser nenhum tipo de incômodo em sua vida. Longe de mim, causar qualquer problema em quem quer que seja de forma intencional, mesmo que eu quisesse não me é permitido causar-lhe nenhum tipo de mal.
Por um momento, ele olhou tristemente para a aliança e suspirando profundamente ao relembrar sua dolorosa realidade – que por um breve instante fora esquecida – disse-lhe:
– Não se preocupe com isso, minha amada esposa não está mais entre nós. Ela fora arrancada de mim da forma mais injusta possível, e como uma desgraça nunca vem sozinha, junto com ela também se foram o fruto de nosso amor e também toda a minha felicidade. Parece-me que somos dois seres abandonados pela providência divina, eternamente condenados à dor e a uma tristeza sem fim.
Quando disse essas palavras, uma coruja que estava assentada numa árvore próxima e presenciava toda aquela cena, deu um piado ensurdecedor e passou sobre eles num voo rasante até outra árvore logo atrás da igreja. Estando Christine já de pé, percebendo que o convite estava sendo feito de livre e espontânea vontade, decidiu que aceitaria acompanhá-lo até sua casa com a promessa que ele deveria se comportar como um cavalheiro respeitando sua situação de jovem indefesa. Caminhando a seu lado, ainda segurando a mão dele, ela logo quis saber o motivo que de alguma forma ele pudesse imaginar que ambos poderiam ser semelhantes em alguma coisa. Sem muita cerimônia o questionou sobre o que ocorrera à sua esposa e seu filho.
– Filha! Ela se chamava Esther e tinha apenas três anos, era apenas uma inocente criança praticamente ainda de colo. Ela e minha esposa Lucy voltavam de uma celebração na casa de uma irmã que padecia de um mal irremediável e já estando essa irmã no leito de morte, quis minha amada esposa prestar-lhe os últimos votos de fé e de esperança num lugar melhor. Minha amada Lucy sempre fora uma excelente companhia para pessoas nesse tipo de situação. A celebração – mesmo com a situação em si – fora bastante ungida e alegre e se prolongou um pouco mais do que deveria. Já era tarde quando ela retornava para nossa casa, e desde o início da noite caía uma chuva fina, o asfalto estava bastante molhado e escorregadio. Lucy era uma motorista cuidadosa, mas o condutor do caminhão que vinha em sentido contrário, talvez por mil outros motivos, mas principalmente por estar completamente embriagado, não pôde perceber que estava invadindo a pista contrária com seu caminhão carregado com madeira e sem tempo ou destreza necessária, bateu de frente no carro de minha esposa, matando duas pessoas inocentes que naquela hora trágica, retornavam de uma celebração em intenção a uma pessoa em profundo sofrer...
Nesse momento, Ewerton, largando a mão da jovem, cobriu o rosto em completo desespero, e após alguns instantes, tentando segurar os soluços que estavam em sua garganta, olhou para o céu e como se estivesse perguntando para o firmamento com palavras carregadas de ódio e desespero, disse:
– Como um Deus a quem tanto adoramos, que deveria zelar por nós, pode tirar a vida de duas pessoas inocentes que naquele momento estavam justamente a serviço dele?
Pegando sua mão novamente e levando-a aos lábios para um beijo terno, ela disse:
– Pensei que tivesse sido um caminhoneiro bêbado que causara o acidente!
– E por acaso, não consta nas Escrituras Sagradas que não cai uma folha do céu sem que Deus assim o permita?
Se Deus fosse realmente tão bom quanto se autoeleva, não teria permitido a morte de minha querida filha, que nunca causara mal a quem quer que fosse.
– Mas também está escrito que o livre-arbítrio é um presente dos céus aos homens, que lhes fora concedido como dádiva desde o princípio, o direito de escolha: “...Tudo lhe será permitido. Contudo, nem tudo será lícito...” Não deveis jamais questionar os desígnios de Deus.
– Minha filhinha, uma inocente criança de apenas três anos, teve a oportunidade de usufruir do livre-arbítrio?
Questionou ele de forma ríspida.
Alguém certa vez também disse: “... Entre o céu e a terra existe muito mais do que julga a nossa vã filosofia...”
Ao ouvir essas palavras, ele parou de repente e num gesto não tão delicado, soltou sua mão mais uma vez, postando-se de frente a ela, um tanto quanto assustado, e perguntou-lhe:
– Quem é você? De onde vem tanta eloquência numa pessoa de aparência tão jovem?
– Ninguém mais importante do que você mesmo! Alguém que outrora também foi esquecida por Deus. Meu nome é Christine e se pareço sábia é porque a dor e o sofrimento moldaram cada parte do ser em que hoje sou. E tenha mais cuidado com as aparências, Ewerton!
Naquele exato momento estavam de frente a uma grande casa com traços esplêndidos e elegantes. De uma aparência muito bela, mas parecendo estar bastante desmazelada pelo abandono. Parados frente a frente iluminados pelos últimos raios de uma lua poente, ela logo lhe perguntou:
– Aqui é sua casa? Não vai me convidar para entrar e cumprir as promessas que me fez?
Ele, tentando se lembrar em que parte da conversa teria lhe dito seu nome, e ainda assustado com tudo que estava acontecendo, jogou a garrafa de bebida que ainda trazia consigo na lixeira e, pegando as chaves, se encaminhou para abrir o portão que conduzia para um jardim que demonstrava ter sido majestoso em outros tempos. Colocando a mão esquerda em movimento de dúvida sobre a boca, tentando ainda se decidir se deveria convidá-la ou não para entrar em sua casa, pôde sentir próximo às suas narinas um belo perfume que ficara impregnado em sua mão. O cheiro voluptuoso que sentia, o terno olhar que ela lhe desferira naquele momento sob o luar e o senso de cavalheirismo ainda existente dentro dele, foram determinantes para a decisão de convidá-la a entrar nos recantos que outrora vivenciara os dias mais felizes de sua vida. Com gestos de galhardia fez uma reverência e, apontando a entrada de sua casa, convidou-a para que pudesse entrar em seu não tão humilde lar.
Deitada numa aconchegante cadeira de balanço na varanda, estava o animal de estimação de sua filha Esther. Thereze era uma gata de cor preta de um negrume escuro como uma noite sem luar. Seu pelo era tão macio e sedoso que chegava a ser convidativo para uma carícia. Contudo, assim que percebeu a presença daquela estranha mulher adentrando em seu território, esse animal que então tinha sido dócil e extremamente pacífico, ficou arredio e bastante agressivo, colocando-se em posição de ataque com unhas e dentes arreganhados e com o pelo todo eriçado como se estivesse vendo o pior dentre todos os predadores, pronto a lhe tirar a vida. Atravessou na frente da porta de entrada da casa e ficou andando de um lado para o outro barrando a passagem, como se fosse uma devotada sentinela, guardando um tesouro de valor inimaginável. Ewerton pensou que aquele animal estivesse tendo algum tipo de ataque psicótico, talvez devido à falta que estava sentindo de sua estimada dona. Tentou em vão dissuadi-la a liberar a passagem de ambos, mas assim que Christine pôs o pé no primeiro degrau que levava ao alpendre da casa, a gata ficou ainda mais arredia, emitindo sons ensandecidos e demonstrando que de forma alguma permitiria que eles passassem por ela para entrarem na casa. Tanto convidada como anfitrião ficaram estupefatos com aquela estranha atitude de um animal que por natureza deveria ser totalmente absorto a tudo aquilo que acontecia ao seu redor, e muito diferente dos cães não se importava em vigiar a casa de pessoas estranhas.
Já sem muita paciência e com muita vontade de entrar em casa para usar o banheiro – sua bexiga já o estava alertando há um bom tempo que havia necessidade imediata de ser descarregada – Ewerton desferiu um violento pontapé na gata, que foi lançada para longe da porta, que imediatamente foi aberta. Assim que a entrada foi escancarada os dois logo entraram fechando rapidamente a porta atrás de si, pois mal a gata caiu ao chão, assim que se refez da pancada que recebera, lançou-se outra vez a fim de que impedisse a entrada dos dois. Ewerton balançou a cabeça em gesto negativo, mas não mais deu importância à gata, que agora estava do lado de fora da casa. Pediu que Christine se sentasse e se sentisse à vontade, enquanto ele rapidamente pudesse usar o banheiro. Após ter respondido o chamado da natureza, saindo do banheiro que há muitos dias não sabia o que era um gesto de assepsia, disse a Christine que o acompanhasse até a cozinha onde ele lhes prepararia um café bem forte. Christine por sua vez solicitou-lhe para que ela também pudesse usar o banheiro. Mesmo envergonhado pela sujeira acumulada há dias, ele, como um bom anfitrião, pediu perdão pela bagunça e disse-lhe que se sentisse à vontade como se a casa fosse sua. Ela por sua vez, esboçando um estranho sorriso, respondeu quase em murmúrio:
– Não só a casa! Não se preocupe com a bagunça, meu adorável coração partido! Já estive em lugares bem piores, locais que poderia muito facilmente levar qualquer homem à loucura.
Talvez pelo barulho ensurdecedor que a gata fazia no lado de fora, miando e arranhado a porta e as paredes numa tentativa ensandecida de adentrar a casa, ele não conseguiu ouvir corretamente o que ela dissera. Mas, também não se importou muito com aquelas palavras e logo se encaminhou para a cozinha a fim de preparar um saboroso café, pois até ele mesmo naquele momento tão tardio estava ansiando por algo quente e bastante forte para recarregar suas energias e tentar diminuir a enxaqueca que já começava a incomodá-lo. Rapidamente colocou a água no fogo e, sem mais delongas, logo o café ficaria pronto. Christine, que se demorara mais que o normal a se recompor no banheiro, assim que saiu estava totalmente diferente da pobre jovem que fora encontrada se entornando em lágrimas jogada de qualquer forma nas escadarias daquela escura e solitária igreja em horas tão tardias.
A mulher que agora estava encostada no umbral da porta entre a sala e a cozinha de sua casa era uma criatura de uma beleza ímpar. Um corpo esbelto de altura mediana com curvas bem definidas dando-lhe uma aparência sedutoramente voluptuosa. Os longos cabelos negros que caíam em cascata pelos ombros descendo quase até a cintura, com belos cachos parecendo as ondas do mar em seu infinito vai e vem. Destacando-se ainda mais a beleza desse véu noturno, havia duas volumosas mechas pintadas com uma cor avermelhada quase próxima ao cobre. Essas mechas dividiam seu penteado ao meio deixando sua bela face quase toda à mostra. Seus olhos eram de um verde muito brilhante num tom extremamente hipnotizante, seu sorriso inocente era irresistivelmente encantador. Ela havia retocado minuciosamente a maquiagem e em seus lábios agora brilhava um batom na cor de carmim tão púrpuro como o mais puro sangue.
Aquela imagem deixara Ewerton tão boquiaberto que até mesmo o café que ele estava preparando fora esquecido e derramou-se no fogão. O pouco que ainda sobrara foi servido em duas canecas. Oferecendo uma das canecas para Christine, instou que ela se sentasse numa cadeira na mesa de jantar. Ela, ao se aproximar dele para receber o café, pegou a caneca e a colocou sobre a mesa, e olhando no fundo de seus olhos com um sorriso cheio de uma maliciosa volúpia, o questionou se não havia algo um pouco mais forte em casa que ele pudesse lhe oferecer. Ele por sua vez, rapidamente serviu dois copos com uísque e gelo. Christine sorveu apenas um gole de sua bebida, enquanto Ewerton entornou a sua de uma única vez acompanhado de duas aspirinas. Christine perguntou-lhe:
– E por acaso nunca te disseram que não se deve misturar bebidas com nenhum tipo de medicação? Que em alguns casos pode-se levar a pessoa à morte?
Ele de forma bastante desdenhosa, mas ainda assim com gentileza, respondeu:
– Nesse momento da minha vida, a morte não está na minha lista de preocupações, na verdade talvez seja o que eu mais desejo. Pôr um fim em todo esse sofrimento de uma vez por todas.
Christine deu mais um gole em sua bebida e, abraçando-o em seguida, deu-lhe um longo beijo que fez com que ele quase caísse, pois seus joelhos ficaram trêmulos e suas pernas perderam as forças por um breve momento. Ewerton, mesmo se quisesse, jamais poderia se esquivar de tal situação. Aquela bela mulher demonstrava ser inabalável em seus gestos, a copiosidade de seu abraço e o forte perfume que ela usava fez com que ele perdesse completamente todo o controle de seus movimentos, se entregando de corpo e alma aos seus encantos. Entre beijos e carícias ela o foi arrastando para o quarto, como se tivesse estado naquela casa por muitas outras vezes.
Inebriado por tanta beleza e influenciado pelo desejo que agora tomava conta de todo o seu ser, deixou-se ele levar como um cordeiro para o sacrifício. Na mesma cama que um dia fora o leito sagrado onde ele e sua esposa consumaram seu abençoado matrimônio e imaginaram uma vida alegre, cheia de sonhos e prosperidade, agora estava sendo usado para uma orgíaca prática sexual sem nenhum tipo de pudor. Ewerton pôde na penumbra daquela madrugada fria, experimentar delícias que talvez nenhum outro ser vivo tenha sentido nessa existência. Christine com o corpo completamente desnudo se lançava sobre ele e se agitava como se fosse uma serpente. Seus movimentos eram cadenciados como o pulsar de seu próprio coração, naquele momento no mais completo êxtase, Ewerton se esqueceu de tudo que já havia se passado na sua inútil existência sobre essa terra, e numa atitude impensada, influenciado pelo calor do momento disse em palavras claras:
– Faça de mim o que você quiser, sou inteiramente seu!
Christine, que estava sobre ele, o segurando pelos ombros, pareceu por um momento ter ficado maior e mais robusta, as mechas vermelhas de seus cabelos davam a leve impressão de estarem se movendo como se fossem duas serpentes, seu sorriso tinha ficado maleficamente sinistro e em seus olhos havia algo sobrenatural, pois eles haviam sumido por completo, deixando dois infinitos buracos tão negros como azeviche e para completar ainda mais o assombro que naquele momento tomara conta de todo o seu ser, ela com uma voz cavernosa num tom sombriamente grave, disse:
– Já há muito tempo que você me pertence! Eu apenas estava esperando o momento certo para vir buscá-lo para o lugar que lhe será destinado por toda a eternidade. Tal como nós, sentirá você também a ira de Deus sobre todos aqueles que ousam traí-lo.
Naquele último momento de medo e aflição, Ewerton compreendeu quem ela realmente era e tudo o que estava acontecendo. Mesmo tentando usar toda as forças que lhe restavam, não conseguiu se libertar dos braços daquela sinistra criatura que havia adquirido uma aparência terrível aos olhos humanos. Sentiu que um calor intenso subia pelo seu ventre e tomava conta de todo seu corpo, como se uma chama tivesse se acendido em suas partes. Quando pensou que poderia pelo menos gritar em última tentativa pela misericórdia divina, foi consumido por um beijo tépido, seus olhos foram tomados por um intenso clarão que logo se tornou em trevas absolutas...
...Os vizinhos agiram rápido acionando o corpo de bombeiros, mas as chamas foram implacáveis e toda aquela bela casa fora completamente destruída num terrível incêndio. De seu ilustre e outrora simpático residente só sobraram cinzas. Da construção restaram as lembranças de um tempo onde ainda havia paz e felicidade naquele lar. Entre vizinhos e curiosos que assistiam àquele infortúnio sem nada poderem fazer, vagava uma gata preta ronronando entre uma perna e outra em busca de conforto.
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Gêmeos
O ar da tarde estava tépido, pairando úmido e denso, reverberando com trovões distantes. Doutora Priscila olhava pela janela as escuras nuvens no horizonte…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Pensa que o dia passado não volta mais!”. — Dante Alighieri
O ar da tarde estava tépido, pairando úmido e denso, reverberando com trovões distantes.
Doutora Priscila olhava pela janela as escuras nuvens no horizonte e, suspirando doridamente, previu que a noite seria bastante tempestuosa. Naquele momento, aguardava sua última paciente do dia. Era a primeira consulta de uma criança que, segundo os pais, vinha enfrentando sérias crises existenciais devido a visões imaginárias. Nenhum outro detalhe fora informado por telefone.
Perder um ente querido é doloroso para qualquer um, mas, no caso de Priscila — que tinha apenas nove anos na época —, foi algo avassalador. Não pela morte em si, mas por como tudo ocorrera. Sua irmã, Cecília, afogara-se em um pequeno riacho nos fundos do sítio da avó. Ambas sabiam nadar muito bem e costumavam banhar-se nas tranquilas águas cristalinas daquele regato. Contudo, de acordo com o boletim médico, Cecília sofrera um princípio de convulsão após um mergulho e acabou se afogando às margens do riacho. O socorro foi rápido, mas a menina não resistiu e chegou ao hospital já sem sinais vitais.
Com a trágica perda da irmã, Priscila ficou arrasada; trancou-se no quarto e recusou-se a participar do velório. Entretanto, assim que o caixão descia à sepultura, ela teve um ataque de histeria, gritando que sua irmã estava viva, que a deixassem sair do caixão. Debatia-se, implorando que o abrissem, certa de que todos veriam que dizia a verdade. Cecília passara toda uma tarde na agência funerária, fora velada por uma noite e metade de um dia. Todos os presentes testemunharam que, durante todo esse tempo, ela esteve como um cadáver deve estar: completamente inerte.
A mãe das meninas morreu alguns anos depois e foi enterrada na mesma sepultura da filha. Quando os funcionários do cemitério abriram a cova, depararam-se com algo perturbador. A tampa do caixão estava bastante danificada por dentro; o forro, totalmente rasgado; e havia lascas de madeira entre o que restara das mãos da criança, que jazia deitada de lado, como se dormisse tranquilamente.
A partir de então, Priscila — que desde o velório da irmã alegava ver vultos e ouvir sussurros pela casa — nunca mais foi a mesma. Após anos de terapia, buscou na psicologia uma forma de ajudar a si mesma e também crianças traumatizadas como ela.
A secretária avisou que sua última paciente havia chegado. Doutora Priscila pôde ouvir o que a mãe, mesmo em sussurro, dissera à filha quando foram convidadas a entrar:
— Nenhuma palavra sobre o Gabriel...
Como era uma psicóloga muito proativa, Priscila rapidamente iniciou uma interação com as duas belas crianças que entraram em seu consultório. O menino era um rapazinho de cabelos cacheados, faces rosadas e sorriso fácil; a menina, bastante parecida com o irmão, distinguia-se apenas pelos longos cabelos e pela face salpicada de sardas. Os pais, imaginando que ela estava interagindo com sua filha Letícia, nada disseram e ficaram apenas observando.
Doutora Priscila, virando-se para a menina, perguntou qual era seu nome. Ela, muito timidamente, respondeu:
— Letícia...
Os pais ficaram estupefatos quando a psicóloga, olhando para a cadeira vazia ao lado da menina, perguntou:
— E você, rapazinho de cabelos dourados... qual é o seu nome?
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Harmonia do Acaso
Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Vós que aqui entrais, abandonai toda a esperança”. — Dante Alighieri
Existem dias em que todas as forças do Universo se unem para que o acaso possa acontecer de uma forma que nada, nem ninguém possa desconfiar que uma Força maior talvez tenha interferido no destino de alguém. Os fatos ocorrem de forma sincronizada, uma simples ação desencadeando outra e mais outra até que algo inevitável aconteça. Naquela madrugada, após chegar em casa às três horas, depois de mais uma noite de bebedeira, Antônio jamais esperaria que o dia seguinte lhe traria dissabores inomináveis. Como lhe era de costume, chegou em casa, procurou algo para comer, descalçou os sapatos e, ainda mastigando um pedaço de queijo velho – de há muito tempo abandonado na geladeira – jogou-se na cama do jeito que estava e logo caiu no sono, sem se preocupar que a vida teria que continuar dali a algumas horas.
Acordou assustado com o telefone tocando e com o barulho de uma buzina de um caminhão que havia acabado de dobrar a esquina. A casa em que morava – um apartamento de dois quartos no segundo andar de um sobrado antigo – situava-se numa esquina bastante movimentada àquelas horas da manhã. Aquele barulho lhe arrancara de seu sono pesado e o trouxera de volta à sua dura realidade. Ainda meio zonzo pelo susto, ao olhar para o rádio-relógio – que ele esquecera de programar o alarme – na cômoda ao lado da cama, logo se colocou de pé num sobressalto. Estava bastante atrasado para o trabalho. O relógio marcava 08h35, e ele já deveria estar na loja desde as 08h00. Assim que olhou para o telefone e viu que o número identificado era do asilo onde sua mãe estava há mais de dois anos, o ignorou por completo, pensando consigo mesmo: – Na hora do almoço, ligo de volta para saber do que se trata.
Em menos de dez minutos já havia tomado banho e se barbeado. Foi até a cozinha em busca de algo para comer e, como nada de agradável para uma manhã de ressaca fora encontrado, tomou apenas um copo de leite frio. Já vestido com seu uniforme, foi mais uma vez ao banheiro para escovar os dentes e, sem mais delongas, se encaminhar rapidamente para o trabalho. Ao retirar o creme dental do tubo, talvez devido à pressa em que estava, ou mesmo por falta de perícia, conseguiu sujar toda sua camisa – de cor preta – com uma considerável quantidade daquela pasta branca. Por mais que tentasse, não conseguiu, de forma alguma, deixá-la apresentável. A única solução fora usar a mesma camisa do dia anterior – amarrotada, suja de suor, fedendo a cigarro e a todo tipo de odor que um botequim pode oferecer.
Aquele era um dia que ele, de forma alguma, poderia faltar ao trabalho. Um grande artista da música pop iria pessoalmente até a loja buscar um violão estilizado, que havia sido encomendado há dias. No dia da encomenda do tal instrumento, após aquele momento de trocas de gentilezas entre vendedor e cliente – onde certa intimidade se estabelece –, Antônio se aproveitou daquela oportunidade única – que ele há muito tempo aguardava – e, sabendo de quem se tratava, logo relatou sobre sua paixão pela música e também falou sobre suas composições, que certamente, na voz de um grande intérprete, talvez poderiam se transformar em hits de sucesso. Solicitou então àquele artista que, assim que voltasse à loja – se fosse de seu interesse e sem compromisso algum –, pudesse dar uma olhada rápida em suas composições e, quem sabe assim, encontrar alguma canção que lhe interessasse.
Antônio era um homem talentoso e bastante sonhador. Um indivíduo muito trabalhador, mas também muito irresponsável com suas finanças e bastante negligente consigo mesmo. Já na casa dos trinta anos – tal como sua própria mãe, agora abandonada num asilo – ainda não havia se casado e muito menos conseguido algum tipo de sucesso na vida. Filho de uma professora aposentada, que o concebera já madura em anos, quando já contava com quarenta anos. Essa professora – Tia Adélia – uma bela solteirona que havia dispensado várias oportunidades de casamento em sua juventude, preferindo investir seu tempo e disposição em sua carreira pedagógica, certo dia, num baile de carnaval, sob efeito de uma bebida um pouco mais forte, se deixou levar pelos encantos de um sedutor caminhoneiro que estava de passagem pela cidade. O resultado dessa ébria noite de carnaval viria se apresentar ao mundo nove meses depois, na figura de um belo e saudável menino que receberia o nome de Antônio Augusto.
Como não conhecera seu pai – que certamente morrera sem saber da existência de um filho –, fora criado pelo avô – que também se chamava Antônio – que tentou, dentro de suas possibilidades, lhe dar uma boa educação. Seu Antônio tinha, em parceria com seu irmão Jaime, uma serraria na pequena cidade onde moravam. Foi nessa serraria que Antônio Augusto – chamado Toninho – passou sua infância e adolescência aprendendo todo tipo de coisa: tudo o que prestava e também aquilo que não seria de nenhum proveito.
Esse seu tio-avô, Jaime, era a pior espécie de pessoa que poderia servir de exemplo para uma criança. Não era muito achegado ao trabalho duro, bebia como um louco e fumava feito uma chaminé. Era mulherengo ao extremo e tinha meia dúzia de filhos – nenhum deles reconhecido por ele – espalhados por toda a cercania com diversas mulheres diferentes, mulheres essas de índole e caráter bastante duvidosos. Contudo, não há nada no Universo de que não se retire algum proveito. Tio Jaime, por mais que possa parecer ser um indivíduo completamente imprestável, mesmo tendo ensinado o jovem Toninho os diversos segredos da malandragem, também fora o responsável por encaminhá-lo ao mundo da música, ensinando-o a tocar diversos instrumentos musicais. Tio Jaime era um exímio instrumentista e lhe ensinara tudo o que sabia.
Sua mãe se aposentara no mesmo ano em que ele completara 18 anos. Nessa época, seu avô já havia falecido há dois anos; sua avó morreria no ano seguinte, ficando apenas ele e sua mãe morando numa casa enorme. A serraria fora vendida assim que Seu Antônio falecera. Tio Jaime sobrevivia de sua parca aposentadoria e de um ou outro trocado que recebia de algum aluno que o procurava para aprender a tocar algum instrumento musical, mas também viria a falecer em pouco tempo, após uma vida carregada de lascívia e devassidão.
Como Tia Adélia não via muito futuro para o filho numa cidade pequena, decidira se mudar com ele para a cidade grande. Antônio Augusto – que deixara o apelido de Toninho para trás – tentara de todas as formas seguir carreira como artista. Contudo, não obtendo a sorte e a oportunidade necessárias ao estrelato, se firmara como vendedor numa loja de instrumentos musicais, onde trabalhava há mais de dez anos. Sem o tempo necessário e com pouca paciência para com sua mãe, que na senilidade se tornara irascível e taciturna ao extremo, decidira por interná-la num asilo, onde, para desencargo de sua própria consciência, dizia para si mesmo que ela seria muito bem cuidada por profissionais especializados nessa função.
Aquele dia – que não havia começado muito bem – tinha tudo para ser um grande dia. Ele não deixaria que ninharias o abatessem. Vestiu a camisa do dia anterior – mesmo não estando na melhor das condições –, pegou seu crachá e suas chaves e desceu correndo as escadas para ir para seu trabalho. Sabia que o tão esperado artista só estaria na loja após as dez da manhã. Para isso, ele ainda tinha tempo. A questão era que seus atrasos estavam ficando corriqueiros demais, e a nova gerência da loja já o havia advertido naquela mesma semana quanto a tal situação. Quando chegou ao portão de saída de sua casa, lembrou que estava se esquecendo do item mais importante daquele dia – seu caderno de composições. Talvez fosse a coisa mais importante de toda a sua vida. Por isso mesmo, voltou correndo até seu apartamento e, já de posse de tão importante objeto, desceu mais uma vez as escadas que levavam até a saída. No escuro corredor das escadas, sentiu uma estranha presença perto de si e, ao cruzar o portão de saída, teve a sensação de ter visto um vulto passando por ele. Bastante eufórico com as promessas daquele dia e totalmente absorto em seus pensamentos, atravessou a rua sem olhar para os lados e, quando o fez, a única coisa que viu foi uma enorme mancha verde vindo sobre ele. Num último momento, ouviu um estrondoso barulho que misturava sons de buzina, freadas de pneus e uma forte pancada. De repente, havia apenas o silêncio, e tudo ficara completamente escuro...
... Quando conseguiu, por fim, abrir os olhos, estava num lugar estranho, onde parecia estar anoitecendo, mas não conseguia ver os traços de um entardecer, muito menos o menor sinal de um céu estrelado. Ao olhar para cima, o que viu foi a escuridão de um céu que parecia estar nublado, pronto para descarregar uma tempestade a qualquer momento, mas não havia o menor sinal de chuva. O tempo estava quente e abafado, não havia uma única brisa soprando. Havia um fétido odor de coisa podre pelo ar, como se houvesse um esgoto a céu aberto ali por perto e vários velórios acontecendo ao mesmo tempo, com seus vapores de defunto, velas e flores murchando. Levantou-se e logo quis saber onde estava, mas as pessoas que passavam por ele, caminhando a esmo, agiam de forma estranha, não diziam coisa com coisa. Pareciam estar bêbadas, caminhando trôpegas e falando coisas sem nenhum nexo. Alguns pareciam estar em profundo remorso, pois batiam no próprio peito numa inconsolável lamentação.
Decidiu que o melhor a fazer era tentar encontrar alguém que conhecia, para saber que lugar era aquele e, principalmente, tentar entender o que estava fazendo ali, uma vez que deveria estar na loja para encontrar a pessoa que poderia realizar o grande sonho de sua vida. Caminhou sem destino certo por quase uma hora, sem encontrar ninguém que pudesse lhe dar uma explicação plausível; todos que encontrava pelo caminho pareciam estar muito envolvidos em seus próprios problemas. Ninguém interagia com ninguém, era um verdadeiro “cada um por si e Deus por todos”. Contudo, de algum modo, ele teve a estranha sensação de que Deus não estava presente naquele lugar. Sentindo-se cansado e com um gosto estranho de sangue na boca, com o corpo todo dolorido, como se tivesse sido violentamente espancado, não conseguia de forma alguma se lembrar de como chegara ali. Suas pernas estavam doendo pela caminhada, mas não sentia sede, e até mesmo a fome que o açoitava ao se levantar naquela manhã o havia abandonado. Numa das mãos ainda trazia consigo as chaves de casa, que ele não havia colocado nos bolsos, e na outra carregava seu caderno de composições.
A rua pela qual ele caminhava parecia não ter fim, como se estivesse caminhando em círculos, mas, por mais que andasse, não passava pelo mesmo lugar mais de uma vez, como se estivesse numa cidade infinita. Percebeu que, nas casas, as luzes estavam apagadas e todas as portas – de casas, lojas, botequins etc. – estavam fechadas. Havia pessoas de todas as formas e tipos, as mais diversas, pelas ruas. Todas caminhavam de um lado para o outro, tristes e cabisbaixas, e, quando ele tentava interagir com alguém, cumprimentando-as ou lhes perguntando algo, ninguém lhe dava atenção. Depois de certo tempo, que lhe pareceu ser quase uma eternidade, teve a impressão de ter visto, caminhando em sua direção, sua antiga professora do jardim.
Tia Cecília fora sua professora quando ele ainda tinha sete anos, mas, pelo que se lembrava, ela havia morrido há alguns anos num trágico acidente de carro que colhera tanto a vida dela quanto a do marido e de seu único filho – bastardo, diziam as más línguas. Pelo que soubera, eles estavam voltando de uma festa, onde tanto ela como o marido haviam bebido muito e decidiram que o menos ébrio pegaria a direção. O resultado de álcool e direção fora desastroso. Tia Cecília passou por ele como se fosse um completo estranho e nem ao menos lhe respondeu quando ele a cumprimentou, chamando-a pelo nome. Antônio pensou que havia se confundido. Continuou caminhando e, ao dobrar uma esquina, se deparou com seu Tio Jaime, que esse sim o reconhecera. Pois foi Tio Jaime quem lhe direcionou a palavra, questionando o que ele estava fazendo naquele lugar. Muito satisfeito por ter encontrado um rosto conhecido, mas bastante assustado por saber que era alguém que havia falecido há muitos anos, logo questionou seu tio sobre o que significava tudo aquilo, o que, com certa relutância, lhe fora explicado.
— Este lugar tem vários nomes, filho: Hades, Purgatório, Inferno... Aqui nós o chamamos de Umbral. Território desprovido de todo e qualquer sentimento de piedade, não há fraternidade aqui presente, ninguém parece se importar com a dor do outro. Cada um purgando seus próprios pecados, nesse infinito vai e vem de transeuntes ensimesmados. Vez por outra, aparecem por aqui umas pessoas vestidas de branco, transcendendo uma estranha luz azulada, que escolhem alguns dentre os que caminham e os levam consigo. Para onde, ninguém sabe, até porque os que são levados não retornam para contar, e quem os leva nunca diz nada para os que aqui ficam.
O que sei é que muitos, como eu mesmo, ficam bastante tempo por aqui. Após muita reflexão – e tempo para refletir é o que não falta por aqui – cheguei à conclusão de que o tempo passado aqui depende de como foi sua vida no mundo dos vivos. Pois alguns são rapidamente resgatados pelos seres de luz. Quando alguma criança chega, algum ser de luz já está à sua espera e ela é imediatamente levada. É estranho você chegar no mesmo dia em que sua mãe também passou por aqui. Vocês estavam juntos? Tiveram algum acidente?
Naquele momento, Antônio teve um sobressalto e, todo assustado e trêmulo, disse:
— Como assim? Que história é essa? Minha mãe está ou esteve aqui?
Tio Jaime, após um longo suspiro – ou pelo menos algo que pudesse se assemelhar a tal –, respondeu:
— Cheio de perguntas como todo mundo! Sua mãe passou por aqui mais cedo, um pouco antes de você chegar. Mas, como tinha um coração puro e inocente como uma criança, logo foi resgatada por um dos seres que já aguardava. Ela não chegou a me reconhecer como você o fez. Porém, eu a reconheci de imediato e, como estava próximo a ela, pude ouvi-la quando questionou ao ser que a aguardava: “O que seria de você sem ela para protegê-lo?”. O ser, muito gentilmente, respondeu que você ainda teria bastante tempo para endireitar suas veredas...
De repente, uma forte luz que banhava sua face lhe cegou os olhos momentaneamente, e o barulho de uma buzina quase o deixou surdo. Mas o que mais lhe incomodava naquele momento era o irritante som do telefone que tocava insistentemente. Antônio despertou de um terrível pesadelo, seu estômago estava embrulhado e sua cabeça doía terrivelmente. Ao perceber que o telefone não lhe daria paz, decidiu atendê-lo. Era do asilo onde sua mãe estava internada.
— Senhor Antônio Augusto de Albuquerque?
— Sim! Sou eu.
— Infelizmente, não tenho uma boa notícia para o senhor...
Revisão de Sahra Melihssa
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 18ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de agosto de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa
A Relíquia
Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“O mundo parece cheio de bons homens, mesmo que existam monstros nele”. — Bram Stoker
Eclipse é uma velha e aconchegante estalagem logo à entrada da cidade. Sempre usada por viajantes e também por aqueles que buscam a segurança da água corrente. Essa secular construção é um pequeno palacete assobradado, construído por monges ainda nos tempos medievais. Uma lenda sobre o local remonta a um período onde ainda havia uma fé fervorosa entre os homens. Segundo essa lenda, o Arcanjo Miguel – o Guerreiro de Deus – havia aparecido para dois pescadores na margem do rio e, apontando para uma ilha que ficava no meio das águas daquele caudaloso rio, lhes ordenara que construíssem uma fortaleza, que posteriormente serviria de abrigo a todos aqueles que buscassem a proteção da luz. São Miguel dissera ainda que aquele santuário, estando entre águas correntes, jamais poderia ser transposto por criaturas das trevas.
Esses dois pescadores buscaram auxílio entre os monges pedintes e, em menos de cinco anos, uma resistente fortaleza estava pronta. Contudo, a conselho dos Franciscanos, nenhuma ponte deveria ser construída, ligando as margens do rio àquela protegida ilha, onde agora havia o Santuário de São Miguel Arcanjo. Qualquer acesso a essa fortaleza só poderia ser feito através de barco ou a nado – para algum aventureiro que ousasse enfrentar as fortes correntezas do rio. Somente no final do século XIX, quando aquela fortaleza – abandonada há décadas – foi adquirida por um abastado comerciante inglês, é que uma robusta ponte foi construída, ligando a ilha às margens do rio. Esse rico burguês fez do antigo santuário uma aconchegante pousada e residência própria, para si e sua recém-formada família.
Esse comerciante falecera há alguns anos, deixando a pousada nas mãos de sua esposa e sua única filha. Há rumores que, além da suntuosa estalagem, deixara como herança uma faustosa fortuna para a esposa e a filha. A esposa, mesmo depois de mais de vinte anos de viuvez – e a cada dia com uma aparência mais juvenil – jamais tivera outro relacionamento, mesmo sendo cortejada por diversos homens de toda e qualquer tipo de classe socioeconômica. Com muita seriedade, mantinha sua castidade e o pleno respeito ao luto de uma forma literal, pois, além de sua moral inquestionavelmente ilibada, vestia negro dos pés à cabeça. Cecília era realmente um modelo exemplar de viúva. Talvez devido à sua idoneidade, ou quem sabe em respeito à memória do falecido marido, ninguém jamais a vira fora da estalagem desde que ficara viúva – alguns desocupados mais antigos asseguravam que nem mesmo antes –.
A pousada Eclipse era um lugar quente e confortável, desprovida de luz elétrica devido à sua posição geográfica; mantinha sua iluminação à moda antiga, à luz de velas e lampiões, o que dava ao ambiente um aspecto bastante lúgubre. Além dos odores comuns a todo e qualquer estabelecimento comercial do tipo, cheirava a fumaça de madeira de lei que queimava constantemente numa lareira, acesa a noite toda. Havia também no ar um agradável cheiro de flores silvestres. Era o tipo de estabelecimento que funcionava todas as noites sem exceção, servindo cama e comida, atendendo a qualquer um que pudesse pagar. Havia apenas uma peculiaridade estranha naquela estalagem: nenhum hóspede, independentemente de sua classe social, jamais era convidado a entrar. Quem quisesse adentrar em suas portas deveria fazê-lo livremente.
Aquela era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades. No céu, uma lua nova se despedia no horizonte, deixando atrás de si um céu sem nuvens, bastante estrelado. Com a ausência de seu mais nobre luminar, a noite se tornara escura e bastante traiçoeira para quem andasse às escuras sem conhecer o caminho a ser seguido, ou sem o auxílio de alguma luz artificial. A sorte de qualquer um que ousasse ir até a Pousada Eclipse era a luz dos vários lampiões ao longo da ponte, que iluminavam todo o caminho. Devido ao bom atendimento e à qualidade dos serviços oferecidos, a estalagem era sempre muito movimentada.
O homem no umbral da porta era alto, forte, mas com traços um tanto quanto melancólicos. Tinha olhos claros e distantes. Parecia um sujeito que havia tido uma vida inteira de infelicidade. Trajava vestes surradas, que em outros tempos teriam sido o ápice da moda; entretanto, pareciam estar carecendo urgentemente de uma lavagem há tempos. Essas vestes davam-lhe a aparência de ser um viajante de terras bem longínquas. Sem pedir licença, foi logo entrando e, quando se pronunciou pela primeira vez, percebeu-se que tinha uma voz cavernosa e sussurrante, com um acentuado sotaque das terras do Leste. Para quem conhecia, logo foi fácil perceber que seu principal idioma era o romani – antiga língua dos ciganos –. Contudo, sem muitas dificuldades, conseguia se fazer entender muito bem e foi logo dizendo:
– Boa noite, senhoras! – disse ele, dirigindo-se diretamente a Cecile e sua filha, como se já soubesse que ambas eram as proprietárias do local –. Gostaria de algo forte para beber. E se não for muito tarde e nem muito incômodo, um jantar seria muito bem-vindo.
Rapidamente, um conhaque fora-lhe servido. Após tomar de um único gole a dose oferecida, pediu que a garrafa – mesmo que já pela metade – fosse deixada sobre a mesa. Antes que a garçonete lhe pudesse dizer qualquer coisa, lançou sobre a mesa uma moeda de ouro, pagando adiantado um valor bem acima daquele que imaginava ser por uma garrafa lacrada. A jovem que lhe servira a bebida recolheu a moeda e disse-lhe:
– Seja bem-vindo à nossa humilde casa, cavalheiro! Meu nome é Lilian Leblanc. Aquela que atende no balcão é minha mãe. Seu nome é Cecile Leblanc. Estamos ao seu dispor para atendê-lo da melhor forma possível. Seu jantar será logo servido, nossa cozinha funciona durante toda a noite. O que mais duas humildes estalajadeiras podem lhe ser úteis? Senhor...?
– Rubens! Muito prazer. Eu estou bastante atrasado, terminando de jantar eu já vou embora. Como as coisas estão indo por aqui, madame?
– Alguns reclamam da crise aqui; outros, da seca acolá, e muitos comentam sobre uma tal de Depressão econômica. Mamãe e eu não nos importamos muito com o que acontece lá fora. Temos nossos fregueses cativos e nosso movimento é sempre o mesmo em todas as épocas do ano. Aqui, em nossa humilde casa, tudo ocorre na mais absoluta paz e quietude. Nossos fornecedores nos abastecem continuamente com tudo o que precisamos. Na verdade, há tempos que nem mesmo saímos daqui dessa ilha. Temos sempre muito trabalho por aqui.
– Depressão econômica! Mesmo que seja longa e castigante, não se deve, de forma alguma, ser comparada ao que foi a Peste Negra, a Átila, o Huno, ou a qualquer uma das Cruzadas. Independentemente dos flagelos, o ser humano tem um dom a resistir a qualquer coisa – disse ele, sorvendo mais uma dose do conhaque.
Madame Cecile, que servia outros fregueses no balcão, mas a todo o tempo prestava zelosa atenção naquele sinistro forasteiro, dirigiu-lhe a palavra pela primeira vez, o questionando:
– Que tipo de homem é o senhor? O que o traz à nossa humilde casa, senhor Rubens?
– Peço perdão se disse algo errado, senhora. Sou um humilde viajante em uma importante missão, a serviço de pessoas poderosas do lugar de onde venho. Não sou do tipo de homem perigoso. Sou apenas um viajante. Se o que eu disse ofendeu a senhora ou a essa casa de alguma forma, eu revogo imediatamente. Às vezes me excedo um pouco nas palavras, talvez porque ainda trago na lembrança os velhos costumes de quando eu ainda era professor de História em meu país. Por falar em História, gostaria de lhes contar uma bastante interessante, se permitirem. Quem sabe se, depois de ouvirem o que tenho para dizer, possam me ajudar de alguma forma.
Cecile, que era estalajadeira desde que conseguira alcançar a parte de cima do balcão, sempre acostumada às esquisitices de seus fregueses, deu de ombros, como se, para ela, alguém falando ou ficando em silêncio fosse totalmente irrelevante. Contudo, sabia que o que mais agradava a um viajante, além de uma cama macia, boa comida e bebida farta, era poder compartilhar suas estórias a quem quisesse ouvir. Naquela noite, havia uma dúzia de pessoas presentes, talvez até um pouco mais. Entretanto, a estória seria de maior interesse de mãe e filha.
O forasteiro enchera seu copo até a borda e o emborcou de um único trago. Após limpar a garganta, pediu licença aos presentes e principiou a seguinte narrativa.
– Antes de qualquer coisa ser dita, devo preveni-los que o que tenho a dizer possa parecer uma estória de viajante, ou até mesmo algum desvario de alguém desprovido de suas capacidades mentais. Mas quero que saibam que, da mesma forma que há a luz, também existem as trevas. E, se porventura acreditam em Deus e todas as hostes celestiais, também devem acreditar que haja o príncipe das trevas e seus seguidores – sendo também eles, anjos – que, junto com seu mestre, foram lançados no abismo e reinam naquele lugar onde a esperança não jaz...
... Alguns dizem que o primeiro deles foi Caim, por ter derramado o sangue de seu irmão na terra ainda virgem do pecado. A punição de Deus para esse primeiro homicida havia sido algo severo e exemplar. “... é maldito na terra e que esta não mais lhe dará frutos, sendo, portanto, fugitivo e errante...” Caim fora marcado e condenado a vagar pela terra, sendo eternamente perseguido pelos demais filhos de Adão. Pelo assassínio covarde de seu irmão, a Luz Divina abandonara sua fronte. Caim, uma vez órfão, havia sido adotado pelas trevas, sendo obrigado a viver nas sombras, tendo o sangue como seu único alimento. Uma vez que dera o sangue de seu irmão para que a terra bebesse, Caim e sua prole também assim o faria.
Outros, no entanto, defendem que o primeiro nosferatu foi Judas Iscariotes – o traidor. Aqueles que defendem essa teoria se baseiam nas próprias Escrituras Sagradas, que, ao mesmo tempo que está escrito que Judas, estando amargamente arrependido por ter vendido seu próprio Mestre, atentara contra sua própria vida, há rumores de que a morte – privilégio para todos aqueles que buscam conforto no sono eterno – lhe fora negada. De forma bastante obscura, as Escrituras relatam que o traidor passou a viver num lugar chamado “Aceldama”, ou seja, campo de sangue. Ninguém sabe ao certo o que fora feito do traidor, apenas que desapareceu nas sombras do esquecimento, sem deixar nenhum tipo de vestígio.
Durante séculos, as estórias sobre mortos-vivos caíram no esquecimento, até virarem lendas, e as lendas virarem mitos. Quase uma era se passara sem ninguém mais ouvir falar sobre os filhos das trevas que caminhavam na noite e se alimentavam de sangue, até surgir o príncipe da Valáquia, Vlad Tepes – o Empalador. Contudo, seus súditos o chamavam de Vlad Dracul – o “filho do dragão” – ou, simplesmente, Drácula. Esse príncipe, após perceber que sua imagem se envolvera em diversas estórias de horror e sangue e que certamente chamaria a atenção da Igreja, para evitar que uma Cruzada fosse convocada contra ele, forjara sua própria morte, e seus restos mortais teriam sido levados para a igreja de Santa Maria la Nova, em Nápoles, na Itália.
O que de fato ocorrera é que, com auxílio de alguns súditos mais fiéis que o ajudaram a forjar sua própria morte, se recolhera nas ruínas de um de seus castelos e, usufruindo de sua imortalidade, escondido nas sombras da escuridão, esperou que um longo tempo passasse, até que, por mais uma vez, sua existência caísse por completo no esquecimento.
Em fins do século XIX, essa sinistra criatura emerge mais uma vez na figura de um abastado e temido Conde, que, devido à importância de sua linhagem, não quisera abandonar nem o nome, muito menos o símbolo de seus antepassados. Esse Conde, após séculos e séculos sobrevivendo do sangue e do medo de camponeses inocentes, encontrou seu fim nas mãos de um sábio e destemido cientista holandês, que, além de médico, também era um grande estudioso das ciências ocultas e sabia como poderia colocar um fim ao reinado de terror do Conde...
O forasteiro interrompera sua narrativa, para molhar a garganta com mais uma dose de conhaque. Secou a garrafa e pediu outra, que muito rapidamente lhe fora servida. Empolgado pela atenção que recaíra sobre si e sua inverossímil narrativa, nem mesmo se dera conta de que o sabor da bebida havia mudado. Em seu momentâneo silêncio, percebeu que havia vários sussurros entre os demais presentes. Madame Cecile, sem ser indelicada e aproveitando que o viajante se calara por um momento, aproveitou a ocasião e disse:
– Certamente que o senhor fosse um ótimo professor. Mas, se não estiver enganada, pensei ter ouvido dizer que era um historiador e não um professor de Literatura...
– Ainda não terminei minha história, madame. O melhor ainda está por vir.
... O Conde Drácula, cansado de sua vida monótona em seu castelo – se alimentando de camponeses rudes e donzelas simplórias – decidira partir para a Inglaterra para expandir seu reino de terror em terras civilizadas. Seu corpo e alguns de seus bens pessoais foram transportados em um navio mercante chamado Deméter. Porém, quando esse navio chegou à costa da Inglaterra, todos os tripulantes haviam morrido durante a viagem. Os dois únicos corpos encontrados a bordo – o capitão amarrado ao leme e seu imediato crucificado de cabeça para baixo no mastro principal – estavam com suas veias vazias, sem uma única gota de sangue.
Junto ao capitão, escondido entre suas vestes íntimas, fora encontrado o Diário de bordo do navio, que, além de informações de praxe sobre a viagem e a carga transportada, também relatava a presença de um grande mal a bordo. Nesse diário estava registrada a presença de nove tripulantes a bordo em sua origem, quando o navio partiu do porto de Varna, na Romênia. Contudo, no decorrer da viagem, surgiu a presença de uma passageira clandestina, uma bela mulher que estava escondida entre a carga no porão do navio. Constava nesse mesmo diário que, desses nove primeiros tripulantes, seis deles haviam perecido de forma misteriosa durante a viagem. Um dos tripulantes e a passageira clandestina haviam desaparecido.
Pelos registros, era o médico de bordo, o doutor Clement, um médico desempregado – estudioso de astronomia, filosofia e também especialista em doenças obscuras, segundo ele mesmo – que havia ficado obcecado em caçar e matar o monstro a bordo, que, segundo ele, estava se alimentando do sangue dos tripulantes. Numa das páginas do diário, o capitão relatara que houvera uma terrível luta entre o doutor e um enorme morcego. O doutor tivera vários ferimentos graves, mas também conseguira, com uma cruz de madeira, tendo uma de suas pontas afiadas, ferir seriamente o monstro, que derramara bastante de seu sangue pelo convés do navio. Parte desse sangue fora recolhido pelo doutor, que, segundo ele, seria para análise posterior. Esse foi o último registro da presença do médico a bordo. Após o desaparecimento do médico, a passageira clandestina também não foi mais citada no diário.
O então médico, que ousara enfrentar o suposto monstro de frente, fora dado como desaparecido pela justiça inglesa. A história do Deméter fora logo esquecida – afinal, era apenas mais um navio, dentre tantos, que todos os anos a força da tempestade destruía e lançava seus destroços junto à praia. Doutor Clement, uma vez que juridicamente fora dado como desaparecido ou morto, lançado ao léu do esquecimento, de posse de parte do ouro que era transportado no Deméter e também de algo de um valor inestimável, decidira deixar de vez sua antiga vida de médico – quase todo o tempo desempregado – para trás.
Doutor Clement, sabendo que nenhuma autoridade em Londres, nem mesmo na Inglaterra – ou em qualquer outro lugar que fosse –, o levaria a sério sobre estórias de homens que se alimentam de sangue e poderiam se transformar em enormes morcegos, decidiu que o melhor a se fazer era seguir o exemplo de seu algoz e também ele mesmo, esconder-se nas sombras do esquecimento. Conseguiu novos documentos, trocou de nome e de origem, e após se mudar para o continente, iniciou uma nova vida comprando uma antiga e abandonada fortaleza, que, por séculos, funcionara como uma espécie de leprosário franciscano. Doutor Clement, durante o dia, era um simples estalajadeiro, recebendo em sua pousada viajantes de todos os cantos do mundo, sempre muito atento a todo tipo de estória contada sobre monstros e criaturas estranhas. Entretanto, durante a noite, era um incansável estudioso das ciências ocultas, enquanto sua bela e jovial esposa fazia as vezes de anfitriã do local...
Lilian, que estava próxima ao clandestino, muito interessada na estória que ele contava, após essa última parte da narrativa, se afastara sorrateiramente dele e se aproximara de sua mãe, que estava atrás do balcão com toda sua atenção voltada para o forasteiro, que, após se servir de mais uma satisfatória dose de seu conhaque, continuou:
– Segundo informações muito seguras, Maurice Leblanc – antigo doutor Clement – após ter dado um fim em sua antiga identidade, se mudara para o continente, casando-se em seguida com a estranha passageira que viajara clandestinamente na última viagem do Deméter. Essa mesma fonte me assegurara que o antigo doutor tivera uma filha, que, nos dias atuais, deveria estar com 40 anos ou talvez até um pouco mais. Pelo que ouvi, sua aparência é de alguém com vinte anos apenas. Contudo, o mais estranho de tudo isso seria o fato de sua mãe, a mesma clandestina do Deméter, nunca ter envelhecido um único dia desde o dia em que fora vista pela última vez, quando zarpara do porto de Varna.
Não tenho nenhum interesse com o que acontecera ao doutor Clement, muito menos em sua família, mas tão logo, naquilo que ele retirou do navio, quando, de uma forma bastante inteligente, tanto ele como sua futura esposa saltaram do barco na primeira oportunidade que tiveram após a hercúlea luta travada contra o monstro a bordo. Estou aqui para recuperar aquilo que as pessoas que me contrataram chamam de “Relíquia”. Ou seja, um frasco contendo parte do sangue do Conde Drácula. Essas pessoas a quem me refiro são bastante poderosas e, há tempos, investigam o paradeiro do doutor Clement. Após décadas de sigilosas investigações, suas informações, obtidas por fontes bastante seguras, me trouxeram até aqui.
Há rumores de que, com a morte do Conde, os outros de sua espécie perderam parte de seus poderes. Não conseguem mais transformar outros seres humanos, já não possuem o poder do rejuvenescimento e muito menos o de autorregeneração. São decrépitas criaturas se escondendo nas sombras, sobrevivendo como ratos nos esgotos. Contudo, acreditam que, com o sangue do Conde, qualquer um que o possua poderá tornar-se um mestre vampiro com todos os poderes de outrora. Ou quem sabe, até mesmo, trazer o próprio Conde de volta das profundezas do inferno.
Não tenho certeza se isso seja possível. Mas, por todas as coisas que já vi e ouvi nesse mundo, já não sei se a palavra "impossível" tem mais algum significado. Apenas tenho a plena certeza de que, se Drácula conseguir retornar ao nosso mundo, virá mais forte do que nunca e arrastará todo o ódio dos anjos caídos consigo. Alguns imaginam que, quando Drácula foi morto, assim que chegou àquele lugar onde a esperança não existe, fora recepcionado com honras de Estado, e o lugar à direita do Príncipe das Trevas lhe fora oferecido...
O forasteiro se calara e ficara observando qual seria a reação dos que estavam ali presentes. Seu maior interesse era como mãe e filha agiriam ao ouvir sua história. O que viu e ouviu o deixou bastante irritado, pois toda a estalagem caíra numa grande algazarra. Gargalhadas e gracejos por todos os lados. Uma das mulheres dentre a clientela se molhou de tanto rir. Madame Cecile, após conseguir com muita dificuldade conter o riso, disse ao forasteiro:
– Prezado senhor Rubens, ou seja lá qual for seu verdadeiro nome. Sua história foi realmente fantástica. Nesses dias em que qualquer escrito vira uma obra literária, o senhor bem que poderia virar escritor e, quem sabe, até ganhar aquele prêmio... Como é mesmo o nome?
Alguém dentre os presentes gritara do fundo do salão:
– Nobel!
– Isso mesmo! Prêmio Nobel. Realmente sua imaginação é muito fértil, senhor. Mas, como sou uma boa anfitriã e busco sempre agradar a todos os meus fregueses da melhor maneira possível, não o deixarei vagando sozinho ao léu, como se fosse uma pessoa desequilibrada. Tentarei, dentro de minhas faculdades mentais limitadas, participar de seus devaneios.
Houve mais um turbilhão de gargalhadas por todo o salão.
– Quanto à então "Relíquia", não se preocupe, ela está bem segura aqui dentro dessas paredes. Neste antigo Santuário, nenhuma criatura das trevas pode entrar livremente, exceto se for transportada por um ser inocente. Nenhuma alma viva ou qualquer coisa que caminhe na luz ou nas sombras jamais colocará suas mãos nessa tal Relíquia. Dou-lhe minha palavra...
Ainda bastante irritado, após tentar se levantar e suas pernas não responderem ao seu comando, questionou ele a madame Cecile:
– Como pode ter tanta certeza disso?
Após dar uma gargalhada tão alta que chegou a abalar todas as estruturas da estalagem, causando um silêncio geral em toda a casa, ela lhe respondeu:
– Qualquer coisa, para ser tocada, antes precisa existir. Garanto-lhe que tal coisa, se um dia existiu, não existe mais. Se essa tal Relíquia tivesse existido de fato, com todo esse poder que o senhor imagina, certamente eu já o teria usado em meu benefício há muito tempo...
Alguns dias depois, um destacamento da polícia fez uma batida na Pousada Eclipse à procura de um viajante que fora dado como desaparecido e fora visto pela última vez entrando naquele estabelecimento. Madame Cecília alegara que nada sabia sobre esse fato. Autorizara que toda sua casa fosse revistada e, com um sorriso muito inocente na face, oferecera aos policiais uma rodada de bebidas por conta da casa. O chefe daquela operação, encantado com a beleza e simpatia de Madame Cecília, não apenas aceitara a bebida oferecida, bem como solicitara humildemente mil perdões por tão inconveniente incômodo, ordenando que aquela missão fosse imediatamente dada por encerrada...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
A Vidente
Numa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, após o término da missa, que aquele apaixonado casal frequentava…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios...”.
I Coríntios 13,2
Numa manhã escura de novembro, muito fria e de constante chuvisqueiro, após o término da missa, que aquele apaixonado casal frequentava regularmente todos os domingos, Odete, a dedicada esposa, participara ao marido seu desejo de consultar as cartas para ver o que o futuro reservava para eles três — estava esperando a chegada de um novo integrante da família antes que aquele ano terminasse. No caminho entre a igreja e sua casa, havia uma loja esotérica onde uma velha cigana atendia regularmente todos os dias, pois, nos fundos da loja, também ficava sua residência. Quem a conhecia — e até mesmo quem tenha usufruído de seus serviços — atestava que ela era uma pessoa de sabedoria incomparável e vidência inquestionável.
— Meu amor... Tenha piedade de minha falta de paciência e de meu suado ordenado. Quantas vezes já falamos sobre esses charlatães, que sobrevivem como parasitas da inocência de pessoas de mentes influenciáveis? Até onde se sabe, ninguém pode viajar no tempo — seja no passado ou no futuro —, sendo assim, prever o que está por vir é algo impossível. Não duvido de forma alguma que aqueles que vivem de fazer previsões o tempo todo, uma vez ou outra, venham a acertar alguma coisa. É como jogar na loteria: quem insiste em suas apostas um dia tende a tirar a sorte grande. — Disse Adalberto de forma bastante carinhosa, para não aborrecer a esposa, que estava vivendo dias bastante delicados para ter qualquer tipo de contrariedade.
— Não estou dizendo que seja verdade, meu bem. Nem mesmo que eu vá acreditar em nada do que ela disser. Estou apenas curiosa. E não se preocupe com seu suado ordenado, eu mesma pagarei pela consulta. — Disse, um tanto quanto irritada com a avareza do marido.
Adalberto, percebendo que a esposa mudara suas feições, mais do que depressa se desculpou e, conduzindo-a pelo braço, logo se dirigiu à porta da loja. O estabelecimento seguia os rígidos padrões desses tais locais de ocultismo: uma fachada em madeira escura, portas de vidraças com cortinas de miçangas e outros penduricalhos servindo de cortina, e um forte cheiro de incenso impregnado no ar. Assim que abriu a porta da frente para que a esposa entrasse, um sino tocou sinistramente sobre o umbral, avisando à cigana a entrada de novos clientes.
A mulher que veio atendê-los era uma impressionante criatura de prateados cabelos, presos numa bela e volumosa trança toda adornada de miçangas e algumas joias. Sua face exibia uma caprichada maquiagem que lhe dava uma aparência bem jovial, apesar de que suas mãos — bastante enrugadas — dissessem o contrário quanto à sua verdadeira idade. Diferente das mulheres mais velhas que Adalberto conhecia, com seus desagradáveis odores de vários tipos de cremes com cheiros diferentes, todos usados ao mesmo tempo, para sua surpresa, ela usava um agradável perfume com suaves notas de flores silvestres e, quando se dirigiu a eles, não tinha o tipo de voz rascante que ele imaginava que todas as videntes teriam, devido ao uso indiscriminado de tabaco.
— Bom dia, adorável casal. Sejam muito bem-vindos à minha humilde casa. Todos me conhecem como Madame Simone, mas podem me chamar da forma que melhor lhes agradar. Em que poderei ser útil a vocês?
— Bom dia, Madame Simone. Se não for incômodo, gostaríamos que consultasse as cartas sobre o que o futuro reserva para nós três. — Disse Odete, alisando sua enorme barriga.
A cigana lhe dirigiu um sorriso encantador e, como soubesse do ceticismo do marido, quis deixar claro a lisura de seu trabalho, dizendo de forma bastante convincente:
— Posso lhes atender de muito boa vontade, com conselhos espirituais, indicações de ervas e pós medicinais para o alívio de algum mal-estar ou até mesmo lhes vender alguma mercadoria de minha humilde loja. Contudo, prever o futuro, infelizmente, não sou capaz, e acredito que ninguém o seja. Não vou negar que, vez por outra, consultamos as cartas, as linhas do destino que todos têm nas mãos e outras coisas mais. No entanto, jamais podemos nos deixar levar por esses presságios; afinal, nosso futuro é fruto de nossas escolhas aqui no presente.
Odete ficou bastante maravilhada com a retórica de Madame Simone; quanto a Adalberto, ficou sem palavras, pois esperava que ela fosse imediatamente lhes extorquir uma substancial quantidade de dinheiro com sinistras profecias de um obscuro e trágico futuro. Completamente desarmado quanto às intenções da cigana, começou a olhar sem muito interesse para uma mercadoria e outra, pegando uma coisa aqui e outra acolá, quando ouviu Odete dizer que, mesmo assim, se não fosse incomodá-la, gostaria que ela lhe tirasse a sorte, fosse essa verdadeira ou não.
Madame Simone pediu que eles a acompanhassem até uma saleta contígua. Era um ambiente odorífero bastante agradável, com uma iluminação leve, quase em penumbra, que trazia certo obscuro charme ao lugar. No centro desse pequeno ambiente havia uma mesa redonda forrada com um belo pano escarlate, com um sorridente sol dourado bordado no meio. Ao redor dessa mesa havia quatro cadeiras em madeira trabalhada, de encosto baixo, na altura da metade das costas, com assento em veludo verde, que dava um toque de requinte ao conjunto da mobília. Assim que Odete e o marido entraram na pequena saleta, a cigana fechou a porta atrás de si e solicitou que os dois se sentassem, também se acomodando de frente a eles.
Uma vez sentados, Madame Simone pegou um baralho e, após uma breve prece com o conjunto de cartas encostado em sua fronte, mais uma vez lhes avisara que não levassem ao pé da letra o que fosse dito ali naquela mesa. De olhos fechados, baralhou as cartas, sussurrando algumas irreconhecíveis palavras num dialeto muito estranho e num tom praticamente inaudível, mesmo para o casal que estava à sua frente, que só sabia que ela estava dizendo alguma coisa pelo fato de seus lábios se moverem, como se ela entoasse uma canção. Logo que as cartas pareciam estar prontas, entregou o baralho para Odete e pediu que ela cortasse o pacote e escolhesse qual das partes gostaria de ver. Com as mãos um tanto quanto trêmulas, Odete partiu o monte ao meio e entregou a parte da esquerda à cigana, dizendo de forma maliciosa:
— Quero essa parte por ser o mesmo lado que fica o coração e também por representar nós, as mulheres, únicas criaturas no universo com possibilidade de dar continuidade à perpetuação da nossa espécie.
Madame Simone deu um leve sorriso, como se concordasse totalmente com ela e, assim que pegou as cartas, distribuiu sete delas sobre a mesa, o que fez com que Adalberto se manifestasse de imediato:
— Por que apenas sete?
— Além de ser um número celestial citado em várias partes das Escrituras Sagradas, como as sete trombetas, os sete selos etc., é também considerado o número da Perfeição Divina, pois no sétimo dia Deus descansou de todas as suas obras. Para nós, os ciganos, representa a sabedoria, a intuição e a capacidade de se adaptar a todas as situações. Sete cartas são mais do que suficientes para aquilo que pode ser mostrado, porque nem tudo nos é revelado. — Disse ela de forma bastante fria, demonstrando estar desapontada por ter sido interrompida.
Assim que a cigana foi desvirando as cartas uma por uma, explicava o significado de cada uma delas. Ao final, estavam viradas sobre a mesa: O Louco, A Roda da Fortuna, A Sacerdotisa, O Julgamento, A Torre, O Enforcado e O Carro. Odete ficou intrigada, pois a maioria trazia em si como significado viagem e mudanças repentinas. A cigana, tentando deixá-la mais tranquila, disse-lhe que as mensagens muitas vezes eram metafóricas, mas, estando ela grávida, certamente haveria mudanças radicais em sua vida e possivelmente algumas viagens também. Disse ainda que ela ficasse tranquila, pois as cartas demonstravam que tanto ela quanto sua filha estariam bem por um longo período de sossego e muita prosperidade.
— E quanto a mim? — questionou Adalberto, curioso.
— As cartas não foram tiradas para você; mesmo assim, uma delas diz que você estará em paz. — Disse a cigana com um ar bastante irritado, primeiro por achar que ele estivesse zombando dela, pois, a cada carta virada, ele dava um sorriso debochado e revirava os olhos; segundo, porque sabia de seu ceticismo; e, por último, por sua evidenciada sovinice, mesmo sendo ele um homem rico e muito bem-sucedido.
Odete pareceu se dar por satisfeita em saber que tudo estaria bem, tanto com ela mesma como com sua amada família. Seu temor era se deparar com algum tipo de profecia aos moldes das peças de Sófocles. Como forma de demonstrar sua gratidão pelos serviços prestados pela cigana, comprou uma sacola cheia de toda espécie de bugigangas e, quando quis pagar pela consulta às cartas, Madame Simone de forma alguma quisera receber, dizendo, por fim:
— Sua satisfação já é uma grande paga pelos meus serviços e, como disse seu gentil esposo: “... não passam de charlatães e parasitas quem vive da boa-fé alheia...”.
Tanto Odete como o próprio Adalberto ficaram boquiabertos quando ela dissera aquelas últimas palavras, já na porta, despedindo-os. Saíram os dois de cabeça baixa, bastante envergonhados pela conduta do marido, que, segundo Odete, sempre falava mais do que devia. Depois de caminharem certa distância da loja, como se temessem que a cigana ainda pudesse ouvi-los, Adalberto, num sussurro quase inaudível, dissera:
— Como ela poderia saber o que eu disse ou deixei de dizer, uma vez que ainda estávamos fora da loja?
— Sinceramente, não consigo te explicar. Apenas sei que: “... há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia...” e que esses ciganos sabem o que dizem.
Continuaram caminhando lentamente por mais alguns quarteirões antes de chegarem até sua casa. Estando eles já na porta de sua residência, assim que Odete se sentou numa cadeira ao lado da porta, ainda na varanda, enquanto ele pegava as chaves para abrir a porta, Adalberto se lembrou que estava sem cigarros e disse que ela o aguardasse ali mesmo, enquanto ele atravessaria a rua e os compraria na loja da esquina. Estava ela bisbilhotando a sacola de compras quando ouviu uma terrível frenagem de pneus e um forte estrondo de metal se chocando contra uma árvore. No entanto, o acidente não era entre um veículo e uma árvore.
Adalberto, além de ser filho único e herdeiro de uma esplêndida fortuna, tinha um pomposo seguro de vida, fato esse que tornou Odete uma viúva muito rica, podendo, ao lado da filha que nascera bastante saudável, desfrutar de uma vida próspera e muito sossegada, como dissera a cigana, que também não mentira ao afirmar que Adalberto estaria em paz. Porque as cartas não mentem jamais: conseguem ver o passado, o presente, o futuro e até um pouco mais...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Milagre Maligno
Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
“Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim que minha filha está miseravelmente endemoninhada”. — Mateus 15,22
Noutros tempos, quem a conhecera ainda na flor da juventude jamais diria que tal pessoa pudesse chegar a uma situação tão degradante. Após deixar para trás seus tempos de inocência, com seus finos traços e a meiguice infantil, comuns a toda e qualquer criança, Dolores tornara-se uma bela mulher que a todos conseguia agradar: aos homens, por sua inquietante beleza; às mulheres, por sua amizade e simpatia. Maria Dolores, conhecida como D’asdor – nome pelo qual era chamada desde que se amasiara com o italiano Giuseppe Montanari – era uma mulher de estatura mediana, de vastos e longos cabelos negros, definidamente cacheados, caídos por toda a extensão de suas costas; trazia-os sempre soltos, livres como ela mesma o era. Sua pele era fortemente amorenada, num tom firme que dava a impressão de ser macia e sedosa como a pétala de uma rosa negra. Seus olhos eram negros e brilhantes, e traziam em si um brilho enigmático, típico das criaturas donas de seu próprio destino. Eu a conhecia desde que éramos crianças de colo. Como sempre fomos vizinhos, acompanhei e sei de toda a sua estória, menos, é claro, daquilo que ocorria em sua intimidade...
Nessas exageradas palavras, Nhô Virgílio tentava buscar na memória a melhor definição tanto do talhe físico quanto da personalidade de Dona D’asdor, que em nada se parecia com a horrenda criatura que passara seus últimos momentos amarrada sobre a cama. A diferença entre aquela vaga lembrança e a atual realidade — daquilo que poderia ter sido visualizado por qualquer um — era tão discrepante, que era até difícil acreditar nas palavras daquele honorável ancião.
Nos últimos quinze anos, quem tivera a oportunidade de estar em sua presença tinha visto uma franzina senhora acamada, desprovida de qualquer movimento nas pernas, desde que sofrera uma terrível queda de cavalo, que a deixara naquela situação. Esse acidente não tolhera sua vida, mas lhe deixara sérias sequelas. Além da perda dos movimentos de seus membros inferiores, adquirira uma aparência doentia e cadavérica, que trazia em si uma profunda nostalgia — típico sentimento que se apossa de tais desafortunadas criaturas. Seus olhos, sem brilho e vazios, estavam sempre vidrados em algum ponto distante, como se pudessem ver muito além das aparências. Talvez enxergassem os tempos idos, com suas conquistas e alegrias, numa época de frescor e juventude, onde tudo eram flores. Ou talvez esses mesmos olhos apenas vislumbrassem um melancólico fim para sua sofrível existência — presa para sempre numa cama, dependendo de outrem até mesmo para suas mais íntimas necessidades. Tal situação era tão definitiva que havia certa unanimidade: Dona D’asdor só sairia da cama direto para o caixão...
No entanto, contradizendo toda e qualquer expectativa e se contrapondo a qualquer explicação lógica, nos últimos três dias, antes que o sopro da vida abandonasse de vez seu calejado corpo, ela se levantara da cama e iniciara uma verdadeira epopeia pela casa e por todo o seu quintal, correndo de um lado para outro numa ensandecida disparada. Quem, há mais de uma década, não conseguia mover um único músculo de suas pernas, de alguma forma inexplicável, levantara-se de seu leito e, num violento ataque de fúria, se lançava sobre qualquer um que atravessasse seu caminho. Sua aparência tornara-se sinistramente diabólica. Sua pele, que se tornara cinza e ressecada, mais parecia o couro de algum réptil. Suas mãos adquiriram uma feição aterradora e mais pareciam duas horrendas garras, com dedos afinados que terminavam em asquerosas unhas mal cuidadas. Seu rosto tornara-se chupado e cheio de marcas, como se deixadas por varíola. Ela, que nos últimos tempos quase nada dizia e trazia a face sempre fechada, devido à sua triste situação, começara a sorrir de tudo e de todos ao seu redor. Um sorriso sombrio, com traços maquiavélicos, mostrando dentes amarelados e pontiagudos que enfeitavam uma boca de lábios finos — quase ausentes —; boca essa que agora praguejava quem cruzasse o seu caminho, quase todo o tempo blasfemando e dizendo palavras em algum idioma desconhecido. Vez por outra, sentava-se como um cão e uivava para o céu, como se fosse um animal em triste lamento.
Seu filho Agenor – filho único, e também única companhia – temendo aquele estranho comportamento de sua mãe, logo recorrera aos vizinhos em busca de socorro. Além do medo que sua mãe estava lhe causando, agindo daquela forma, ele também ficara temeroso de que algo pudesse vir a lhe acontecer de pior e que a culpa lhe fosse imputada. O fato de que sua mãe, há tempos entrevada, agora corresse pelo quintal como uma alegre criança também lhe era bastante assustador. De alguma forma, ele ansiava por testemunhas de todo aquele prodígio. E logo sua casa já estava apinhada de gente. Alguns amigos próximos, conhecidos distantes, ou até mesmo simples curiosos, logo foram chegando para verem com seus próprios olhos aquele inverossímil milagre.
Por um breve momento, por mais estranho que pudesse parecer, aquele fato passou a ser visto como algum tipo de dádiva dos céus. No entanto, quando, dentre os presentes, alguém teve a ideia de fazer uma oração em agradecimento àquele notável acontecimento, assim que as primeiras palavras foram ditas, Dona D’asdor se lançara sobre essa pessoa e, com unhas e dentes, a atacara sem nenhuma piedade, deixando-a em lastimável situação. A infeliz religiosa só não fora morta porque, muito rapidamente, Dona D’asdor fora contida pelos presentes e, mesmo com muita dificuldade, logo fora amarrada à mesma cama onde passara os últimos anos de sua vida. Toda aquela situação levava a uma única certeza: Dona D’asdor estava possuída. Ela não havia sido curada; suas pernas não haviam retomado os movimentos de outrora. Mas, certamente, alguma entidade maligna havia tomado posse de seu combalido corpo e o estava usando para algum tipo de mal.
Durante toda a noite, Dona D’asdor – ou quem, ou o que, estivesse no controle de seu corpo – tentara, de todas as formas, se ver livre das amarras que a prendiam àquela cama. Num primeiro momento, ela tentara persuadir quem estivesse próximo com palavras de afeto e ternura. Após perceber que tal intento era inútil, tentou utilizar-se de uma hercúlea força que ela não possuíra até então. O esforço para se libertar era tão grande que fazia com que a cama se movimentasse de um lado para o outro pelo quarto. Nesse estágio de violenta tentativa de se ver livre, ela tanto gritava com uma voz bastante sinistra, como emitia diversos sons – tanto de animais conhecidos, quanto de barulhos estranhos, jamais escutados por ouvidos humanos.
Passado o primeiro momento de euforia, e sendo sabedores de que nenhum milagre ocorrera, logo muitos foram embora. Primeiro, os mais medrosos; em seguida, os menos curiosos; e, por fim, aqueles que nada poderiam fazer a respeito de tal situação e tinham seus afazeres os aguardando. Aqueles que ficaram rapidamente decidiram que um religioso entendido do assunto deveria ser chamado. Como o padre mais próximo distava pelo menos quarenta quilômetros dali, a pessoa escolhida fora o Pastor Ebenézer, o líder religioso de uma pequena unidade pentecostal, inaugurada há bem pouco tempo na região. Numa comunidade de maioria católica, aquele tipo de denominação religiosa fora recebida com certo receio pela população local. No entanto, como o carisma tanto do Pastor Ebenézer, bem como o de sua esposa, era algo bastante encantador, logo conseguiram conquistar a todos, sem maiores dificuldades. Sendo ele uma pessoa bastante prestativa, assim que fora acionado, rapidamente se prontificara a colocar seus serviços religiosos a postos. Até porque um fato como aquele poderia lhe servir como propaganda para sua humilde e recém-fundada igreja.
Acompanhado de seu filho mais velho – Ezequias, que certamente seguiria os passos do pai, vindo também a se tornar pastor – chegara à casa de Dona D’asdor logo pela manhã. Além do leal e inseparável Ezequias, de vinte e três anos, o Pastor Ebenézer tinha outros quatro filhos: três moças – Rebeca, Ruth e Deborah –, todas em idade de contrair matrimônio, e o caçula, Samuel, com apenas doze anos. Recebido por Agenor – filho da dona da casa e o mais interessado no desfecho daquilo tudo – e por Nhô Virgílio, que a tudo acompanhava com bastante curiosidade, logo ficara a par de tudo que ocorrera até então. Sem mais delongas, acompanhado de seu filho Ezequias, e estando de posse de sua Bíblia, de um saltério e de um vasilhame contendo água benta, dirigiu-se o Pastor Ebenézer ao quarto onde, naquele momento, por algum motivo ainda desconhecido, um sepulcral silêncio se fazia presente. Tanto Agenor quanto Nhô Virgílio recomendaram insistentemente ao pastor e a seu filho que, em hipótese alguma, deveriam soltá-la de suas amarras, independentemente do que ela lhes dissesse.
Antes mesmo de adentrar aquele recinto, logo à porta, já fora possível perceber a sinistra atmosfera do lugar. O quarto exalava um peculiar cheiro de mofo de cemitério – uma mistura de nauseabundos odores. Algo em decomposição, cheiro de velas e flores mortas – e um saturado e pegajoso cheiro de algo podre. Esse estranho odor se misturava ao cheiro de todo tipo de emplastos e cataplasmas que lhe era ministrado. Poderia ser apenas mais um ambiente comum, como qualquer local onde estivesse um moribundo em restabelecimento, exceto pelo extremo frio que havia no ambiente naquele momento. Mesmo já sendo dia claro, o quarto estava tomado pelas trevas, e fora necessário acender algumas velas para iluminar o ambiente. Dona D’asdor parecia estar dormindo placidamente. Seu semblante era meigo e sereno. Sua face transmitia uma intensa paz interior e, quando o Pastor Ebenézer a olhou de perto, teve quase certeza de que tudo o que ouvira sobre os últimos acontecimentos talvez fosse um ledo engano. Mesmo assim, achou por bem ungir o ambiente com orações e algumas passagens do saltério. Enquanto ele orava e citava salmos, Ezequias aspergia água benta por todos os lugares. Praticamente estavam dando aquele rito por encerrado, quando perceberam que Dona D’asdor estava sentada na cama, em posição de meditação, observando-os calmamente.
– Que a paz do Senhor esteja contigo, Pastor Ebenézer... – disse ela, com uma doce voz infantilizada.
O susto de Ezequias fora tão grande que ele deixou cair o vasilhame que trazia nas mãos, espatifando-se no chão do quarto. Pastor Ebenézer respondera prontamente:
– Contigo também, irmã. Como está se sentindo hoje?
– Poderia estar melhor, se meu filho ingrato não tivesse mandado me amarrar aqui nesta cama. Se não bastassem todos esses intermináveis anos que aqui estive presa, agora estou amarrada de vez... – respondeu ela, cada vez mais dócil.
– Aqui fui chamado porque me disseram que a irmã estava tendo uma crise existencial. Creio, do fundo de minha alma, que talvez tenham se enganado quanto a isso, pois vejo que a irmã está bem, gozando de boa saúde e plena lucidez.
– Sim! Estou ótima, como o senhor mesmo pode constatar com seus próprios olhos. Meu filho ingrato e seu amigo bêbado me amarraram sem motivo e ficam espalhando inverdades sobre mim, tentando difamar uma pobre velha e indefesa como eu.
Tomado de profunda piedade por aquela pobre senhora e confiando em sua fé – imaginando que, se fosse algum estratagema do demônio para que a libertassem, ele e seu filho conseguiriam manietá-la novamente –, decidiu que a desamarrariam, deixando-a livre outra vez. Assim que uma das mãos de Dona D’asdor fora solta, ela agarrou a camisa de Ezequias e, trazendo-o para próximo de sua boca, mordeu-lhe o pescoço, rasgando-lhe a garganta.
Com um urro de um animal selvagem, ela comemorou aquela medonha façanha e, ao ver o desespero do pastor, que tentava a todo custo ajudar o filho que se esvaía em sangue e certamente vivia seus últimos momentos, ela disse:
– Pensou mesmo que um servo do pecado como você estaria à altura de vir até aqui me confrontar? É deprimente saber que pessoas iguais a você não tenham o mínimo de conhecimento sobre quem somos nós, de tudo que podemos e daquilo que sabemos. Nem por um momento passou pela sua cabeça que, quando você abusa de suas filhas, estamos nas sombras assistindo você profanar justamente aquelas que você deveria proteger a todo custo? Pois saiba você, filho de Belial, que o seu abjeto prazer é para nós um saboroso deleite. Aquele que se diz servo do Senhor, alguém que se autodenomina pastor de ovelhas, ser na verdade um lobo voraz. Tirei a vida de seu filho apenas para que você sinta o mesmo que suas filhas sentem quando você as obriga a abortar o fruto de seu pecado de seus inocentes ventres. Mesmo sendo uma criança incestuosa ainda assim é uma criança, e para nós é um deleite inigualável ver o próprio pai causando esse mal à sua própria semente, obrigando suas filhas a serem assassinas de seus próprios filhos...
Agenor e Nhô Virgílio, que a tudo aquilo assistiam da porta do quarto – pois, assim que ouviram os gritos, vieram tentar ajudar –, olharam para o Pastor Ebenézer com um misto de escárnio e incredulidade, pois já haviam ouvido rumores estranhos sobre o comportamento do pastor com suas filhas, sendo estas proibidas, por ele mesmo, de manter qualquer tipo de relacionamento com outros rapazes, mesmo que fosse da mais respeitosa amizade. As três filhas do pastor, mesmo já sendo mulheres adultas, eram mantidas sempre em casa, sob a mais severa vigilância, sem qualquer tipo de envolvimento social. Pastor Ebenézer, que não dissera uma única palavra sequer, assim que seu filho, desfalecendo em seus braços, dera o último suspiro, lançara-se sobre Dona D’asdor e, num desvairado ataque de fúria, tentara com todas as forças esganá-la, mas logo fora contido por Agenor, enquanto Nhô Virgílio tentava amarrá-la novamente. Dona D’asdor, que gargalhava incontrolavelmente, talvez por isso mesmo tenha se deixado amarrar novamente.
Não havendo mais nada a fazer naquele lugar, com o corpo inerte do filho nos braços, Pastor Ebenézer se fora sem ao menos dizer adeus. O que se soube depois foi que ele, assim que enterrara o corpo do filho numa cerimônia rápida e simples, abandonara esposa e filhos, lançando-se pelo mundo sem deixar nenhum vestígio de seu paradeiro. Sua esposa e filhos também logo se mudaram, e ninguém mais ouvira falar sobre nenhum deles. Agenor, imaginando não ter outra solução, decidira que, a qualquer custo, o Padre Ozório deveria ser chamado. Pela distância, esse somente chegaria no outro dia. Durante todo esse tempo, Dona D’asdor transitara por diversos tipos de comportamentos, desde o mais dócil até o mais violento possível. Sua selvageria era tão grande que, ao fim do dia, seus dois pulsos já estavam completamente dilacerados na tentativa de se soltar. Pela gravidade dos ferimentos, certamente ambos deveriam estar quebrados. Seus gritos, urros e gemidos eram ouvidos ao redor de toda a casa, a uma distância considerável. O som que ela emitia deixava todos os pelos do corpo arrepiados; até mesmo Nhô Virgílio, um septuagenário vivido e experiente, vez por outra tinha calafrios e se tremia todo de medo.
Assim que o Padre Osório chegara, trazendo consigo dois auxiliares religiosamente paramentados, nem mesmo quiseram ouvir todos os relatos de Agenor e de Nhô Virgílio, pois já sabiam previamente do que se tratava e, rapidamente, foram entrando no quarto e preparando tudo para o exorcismo. Sendo eles pessoas já acostumadas com aquele tipo de situação – Padre Osório era um sábio demonologista e um exorcista renomado – em menos de uma hora conseguiram expulsar o demônio que assumira o corpo de Dona D’asdor. Assim que se viu livre da maligna entidade que o possuíra, o corpo entrou em um rápido estado de decomposição e teve que ser enterrado com urgência.
Quando o exorcismo enfim se deu por encerrado e o Padre Osório saíra do quarto, trazendo na face o semblante de mais um dever cumprido, Agenor, timidamente, perguntou-lhe:
– Minha mãe morreu?
– Filho, sua mãe está morta há três dias! Aquilo que se levantou da cama e andou entre os vivos, atacando a quem quer que fosse, não era sua mãe...
Alex Miranda
Alex Miranda é professor da área de humanas, formou-se em Filosofia e História. Alex sempre foi apaixonado por Literatura, o Terror e o Suspense estiveram presentes em sua vida desde a infância, o que o levou a se aproximar de histórias do gênero. O autor, nascido no interior de Goiás, já possui algumas obras publicadas pela editora Hánoi, as quais: Bar de Suzana (2021) e Segredos inocentes (2023). Alex também possui outras obras em processo de criação. Suas inspirações vão de... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Memórias de um Pierrot
Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
“Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti”.
Friedrich Nietzsche
Certamente, não era o melhor lugar do mundo para se estar. Contudo, também não se poderia dizer que era o pior antro de perdição já existente, mas servia para se reconciliar consigo mesmo, entre um copo e outro de uma bebida qualquer. A parca iluminação elétrica, proveniente de duas simples luminárias dispostas nas paredes laterais, era um tanto quanto insuficiente, quase a ponto de uma penumbra completa. A semiescuridão do ambiente nem mesmo era notada por aqueles que ali estavam, pois quase todos os frequentadores de botequins, em sua grande maioria, optam pela escuridão. Sabe-se que, em momentos de tristeza e solidão, muitos preferem as trevas para tentarem se esconder de seus próprios problemas.
Na silenciosa penumbra de um bar, um indivíduo qualquer pode, sob a sombra do anonimato, tentar se esconder de qualquer problema que lhe assole ou de qualquer pessoa que o persiga. Só não poderá jamais esconder-se de si mesmo. Na sufocante atmosfera onde os odores de bebida e perfumes baratos se misturam com a constante fumaça de tabaco pairando ad aeternum no ar, sempre há alguém disposto a narrar alguma história, se porventura houver algum ouvinte interessado. Algumas dessas histórias podem ser verdadeiras, outras nem tanto. De certo modo, poder compartilhar algo, não importa se é verdadeiro ou não – mesmo que seja para desconhecidos – é uma tentativa desesperada de aliviar um peso na consciência.
Era uma noite como outra qualquer, sem muitas novidades, e o movimento estava amainado devido ao tempo. Enquanto na rua estava até um pouco frio, devido à chuva fina que caía constantemente, dentro do bar estava quente e abafado, devido às janelas estarem todas fechadas. Os clientes eram os mesmos de sempre, e tudo parecia estar concorrendo para mais uma sorumbática noite de terça-feira. No ambiente reinava um silêncio quase tumular, sendo interrompido vez por outra pelo som de bolas de bilhar, o barulho do carteado e o som de copos sendo reabastecidos. As canções que se alternavam num velho rádio no alto de uma prateleira eram quase inaudíveis, como se fossem um fúnebre fundo musical.
Toda aquela paz fora interrompida pela chegada de um estranho, que trazia consigo uma aura tão carregada que, além do rádio ter ficado mudo por um momento, até mesmo as luzes piscaram quando ele adentrou naquele ambiente. Não trajava vestes sombrias, nem mesmo tinha um rosto apavorante em si. Estava barbeado, limpo e perfumado. Contudo, havia algo de errado com ele; estava estampado em seu semblante que uma grande tristeza o assolava. Após cumprimentar a todos os presentes com uma voz macia e serena, pediu uma bebida e foi sentar-se numa mesa num dos cantos escuros do bar. Logo, uma bela mulher – dessas flores que a solidão da noite traz com seu perfume – veio até sua mesa e lhe ofereceu companhia. Ele agradeceu polidamente, mas recusou a oferta, dizendo:
– Devo agradecê-la pela gentileza, mas não tenho nada a lhe oferecer. Não quero de forma alguma tomar o seu tempo, muito menos atrapalhar o seu trabalho. Quero apenas beber um pouco e tentar, de alguma forma, dar um pouco de paz ao meu espírito.
– Em muitos casos, poder desabafar com alguém é a melhor forma de refrigerar uma alma atribulada. Além do meu ofício de leito, posso também lhe oferecer meus ouvidos e minha atenção – respondeu-lhe ela com muita simpatia.
Ele correu os olhos por todo o ambiente, como se estivesse medindo o perímetro, e logo após fez uma minuciosa análise de toda a silhueta da bela criatura que estava de pé logo à sua frente. Em resposta à sua gentil prestatividade, ofereceu-lhe uma cadeira e pediu que se sentasse, solicitando ao dono do bar que lhe servisse uma bebida. Quando prontamente a bebida fora trazida até sua mesa, ele pediu ao dono do bar que deixasse a garrafa, pagando-a com uma nota bem acima do valor e dizendo que não se preocupasse com o troco. A mulher, que havia se sentado comodamente, após tomar um considerável gole do conhaque que lhe fora servido, sorriu de maneira bastante inocente e disse em seguida:
– A propósito, meu nome é Adelaide. Dou-lhe minha palavra que serei uma ótima companhia e uma atenciosa ouvinte, se quiser conversar.
– Não era minha intenção, de forma alguma, descarregar meus dissabores sobre as costas de alguém. Não tenho certeza se vai gostar de ouvir o que tenho para contar. A bem da verdade, o que vou relatar a você, Adelaide, nunca contei para pessoa alguma. Não vou precisar pedir que mantenha minha história em segredo, pois tenho absoluta certeza de que o fará. Até porque, mesmo se você contasse minha história para qualquer pessoa, ninguém acreditaria. Seria vista como louca ou uma talentosa mentirosa.
Adelaide apenas sorriu em desafio, balançando a cabeça de forma negativa, como se aquele gesto quisesse dizer: Já vi e ouvi tanta coisa nessa vida que nada mais me assusta. Após virar de um só gole um copo de bebida, ele limpou a garganta e, antes de iniciar sua inverossímil história, ainda lhe disse, como se pudesse ler seus pensamentos:
– Talvez você até possa ter visto e ouvido muitas coisas em sua insignificante existência, mas tenho certeza de que, ao final de minha história e antes mesmo que esta noite acabe, sua vida já não será mais a mesma. Vou lhe contar desde o início, para que, quem sabe, assim você possa entender aquilo que eu mesmo ainda não entendo.
...Quando eu tinha apenas doze anos e minha querida e inocente irmã ainda não havia completado nem mesmo seus sete anos, numa noite em que estávamos a passeio na casa de nossa tia – única irmã de nosso pai –, nossa casa fora alvo de um terrível incêndio, que colheu a vida de ambos ao mesmo tempo, deixando-nos órfãos e sem nada, apenas com a roupa que tínhamos no corpo. Como meu pai não era provido de muitos bens, nem nossa mãe tampouco, além de perdermos nossos pais e nosso antigo lar, ficamos também reduzidos a nada. Duas crianças lançadas à própria sorte, dois seres inocentes contando apenas com a providência divina.
Minha irmã – uma bela menina de olhos claros, cabelos cacheados e faces rosadas – logo fora acolhida por minha tia e seu esposo, uma vez que eles ainda não tinham concebido nenhum filho, mesmo após dez anos de casados. Certamente algum dos dois deveria ter algum tipo de problema, pois sonhavam com uma criança. Eu, por outro lado, após ficar seriamente abalado com a trágica perda de meus pais, tornei-me um jovem arredio e bastante rebelde, chegando ao ponto de ser inconveniente, fato que me rendeu uma passagem só de ida para o seminário. Minha tia, convencida pelo marido, logo entendeu que, antes que eu fugisse de casa e me tornasse um delinquente, ela poderia fazer algo em meu benefício, entregando-me aos cuidados da Igreja, que, além de me educar, dar-me-ia a oportunidade de seguir uma carreira clerical.
Os primeiros anos que passei no seminário foram de total desalento para minha alma. Devido às minhas terríveis perdas, por mais que eu tentasse com todas as forças do meu ser, não conseguia acreditar em nada daquilo que meus tutores tentavam me ensinar sobre as bem-aventuranças que a religião poderia me oferecer. Eu havia perdido completamente a fé em tudo, até mesmo em mim. Há um provérbio que diz: “Na convivência de nossos semelhantes, nos tornamos iguais”. Já próximo à minha ordenação, quando eu já estava me adaptando àquela litúrgica vida, acostumando-me com a ideia de me tornar padre e, quem sabe assim, poder levar algum conforto a todos aqueles que, tais como eu, haviam enfrentado terríveis dissabores na vida, o destino me lançou mais uma vez ao chão. Minha irmã, que há pouco tempo havia desabrochado em seus quinze anos, cometeu suicídio. O real motivo eu não soube na época. Minha tia manteve no mais absoluto sigilo o porquê de uma jovem tão bela e radiante, cheia de sonhos, atentar contra a própria vida. Mais uma vez, minha fé me abandonou.
Nessa época, eu estava próximo de completar vinte anos. Um homem mentalmente instruído e fisicamente formado, pronto para enfrentar o mundo. Sem ter mais o que fazer dentro das paredes de um seminário, mesmo antes de professar meus votos, deixei minha vida eclesiástica de uma vez por todas e dei início a uma vida errante, perambulando de um lado para outro em busca de sobreviver de uma forma honesta. Minhas decepções haviam, de certa forma, me retirado a fé, mas os preceitos de ética e moral que aprendi, primeiro com meus saudosos pais e depois no seio da Igreja, fizeram de mim um homem de princípios.
Tentei me firmar em vários ofícios, tentando aprender uma profissão que pudesse me sustentar de forma digna, mas comecei a pensar que pessoas como eu estavam fadadas à derrota completa. Minha coleção de decepções era tamanha, ao ponto de começar a imaginar que talvez o melhor a fazer seria seguir o exemplo de minha irmã e acabar com todo o meu sofrimento de uma vez. Mas parece que o destino, de certo modo, tinha algo reservado para minha existência. Numa fria manhã de janeiro de um ano qualquer, estando eu sem trabalho já há algum tempo, com o aluguel do pardieiro que eu chamava de casa vencido e sob sérias ameaças de despejo a qualquer momento, com pouco dinheiro no bolso – talvez desse para mais duas ou três refeições apenas –, quando o desespero já tomava conta de mim, decidi que deveria arrumar uma ocupação imediatamente, fosse ela qual fosse. Saí de casa e, após tomar apenas um café num botequim qualquer, fui em busca de trabalho.
Após horas de caminhada improdutiva, entre vários "nãos" e muitas promessas de "quem sabe outro dia", já quase desistindo de encontrar trabalho, ao passar em frente a um combalido circo, vi uma placa com oferta de emprego. Estava escrito com tinta vermelha:
“CONTRATA-SE PALHAÇO”.
Primeiro, cheguei a pensar que eu não tinha a menor aptidão para aquele tipo de função. Contudo, para quem já havia sido auxiliar de padeiro, mascate, servente de pedreiro e tantas coisas mais, trabalhar no circo apenas fazendo as pessoas sorrirem não seria tão difícil. Aproximei-me da barraca onde a placa estava pendurada e, assim que bati palmas, logo fui atendido por um senhor bastante disposto. Jeremias era seu nome, um homem de baixa estatura, mas demonstrando ter um grande coração, pois, antes de qualquer coisa, após se apresentar como proprietário do circo, convidou-me a entrar em sua tenda e, como estava ele, naquele justo momento, iniciando sua refeição vespertina, convidou-me a acompanhá-lo em seu humilde almoço. Para quem há dias estava comendo o pão que o diabo amassou, a oferta foi aceita de imediato, sem necessidade de muita insistência.
Aquele repasto foi muito bem aceito por mim, que, sem muita cerimônia, logo dei fim a uma fome que me acompanhava desde a tarde anterior – naqueles dias, eu fazia apenas uma refeição por dia. Enquanto comíamos, demonstrei-lhe meu interesse pela vaga de palhaço. Contei-lhe um pouco sobre a minha história e, talvez, tenha sido a tragicidade de minhas perdas que tocou seu coração, pois, antes mesmo que nosso almoço terminasse, eu já estava empregado novamente.
Tudo estava acertado, só restava um único detalhe: a fantasia do palhaço a quem eu devia substituir não serviria em mim, pois ele era um anão. Como o circo estava em contenção total de gastos, a vaga seria minha, desde que eu comprasse meu próprio traje. Se assim eu o fizesse, poderia começar no dia seguinte. Com a fome saciada e a promessa de um emprego, voltei para casa e, após coletar alguns itens dentre meus pertences pessoais – que já não eram muitos –, saí pela cidade em busca de um brechó que se interessasse em uma permuta daqueles parcos itens em troca de roupas que pudessem ser utilizadas como uma fantasia de palhaço.
Na terceira loja em que entrei – um ambiente muito sinistro –, fui atendido por uma mulher com traços bastante cadavéricos, mãos enormes, com dedos longos, terminados em unhas que mais pareciam garras. Quando lhe propus negócio, ela, de imediato, disse que eu havia entrado no lugar certo, pois, naquele mesmo dia, chegara às suas mãos uma fantasia de palhaço completa, com todos os itens necessários para uma boa performance. Quando vi a fantasia, um estranho arrepio correu por todo o meu corpo. Parecia que aquela roupa estava esperando por mim, pois, quando a toquei, senti um incontrolável desejo não apenas de adquiri-la, mas de experimentá-la o mais rápido possível. A sombria mulher que me atendera dissera que alguns trajes escolhem seu dono, reconhecendo-o de imediato, assim que o veem.
Como eu não tinha dinheiro para pagar pelo traje, deixei os itens que levara comigo – inclusive um relógio que pertencera ao meu pai e que há muitos anos me acompanhava – em troca daquela fantasia. Ficou combinado que eu retornaria para resgatar o relógio. De posse daquele traje e muito animado com meu novo emprego, direcionei-me de volta para casa. Assim que adentrei meu pequeno quarto, logo tratei de vestir aquela roupa para saber se ficaria confortável para o trabalho. Assim que terminei de colocar meu chapéu de pierrot, ouvi meu senhorio bater à minha porta para mais uma cena de humilhação que eu, de tempos em tempos, tinha que enfrentar. Ao caminhar até a porta, ouvi o barulho dos guizos de meu chapéu. Aquilo despertou algo estranho em mim; uma sombra tomou conta de todo o meu ser. Senti um incontrolável desejo de ter em minhas mãos o controle sobre a vida e a morte de alguém. Meu senhorio não disse mais do que cinco palavras e logo estava agonizando, caído no piso do meu quarto. Sua cabeça, virada para trás, me olhava em completo desespero, sem conseguir entender como aquilo acontecera tão rápido. O corpo do meu senhorio nunca foi encontrado.
Na noite seguinte, trabalhei tranquilamente no circo. As crianças me adoraram. O público ficou boquiaberto com minha performance. No final do espetáculo, Seu Jeremias, após me elogiar bastante, chegou a me perguntar se eu realmente nunca havia trabalhado no circo. Respondi que não e voltei para minha casa.
Na semana seguinte, com o dinheiro de meu primeiro pagamento, retornei à loja para resgatar o relógio que fora de meu pai. No mesmo local onde, há menos de uma semana, eu comprara aquele formidável traje, não havia nenhum tipo de construção, apenas um lote baldio, dando mostras de que estava abandonado há anos. Questionei os vizinhos sobre a loja, mas ninguém sabia de nenhuma loja ali havia muito tempo. Segundo um senhor, dono de um açougue próximo e que estava no local há quase sessenta anos, a última construção do lugar fora uma casa que pertencera a um velho professor, que morrera há muitos anos, e essa mesma casa fora derrubada alguns anos após a morte de seu antigo dono. Voltei para casa cabisbaixo, lamentando a perda de tão importante objeto. Pensei comigo: O que eu não daria para ter aquele relógio novamente comigo...
Em menos de três meses, eu já estava morando no circo e me sentia parte de uma família novamente. Numa tarde, recebi uma triste carta que me comunicava sobre o falecimento de minha tia num trágico acidente. A carta relatava quando seriam as exéquias e como ela havia falecido – minha última parente viva havia caído das escadas de sua mansão. Fui autorizado a ir ao velório e foi justamente lá que descobri, através de algumas senhoras – um tanto quanto desocupadas –, que minha tia muito possivelmente fora assassinada pelo marido. Sem saber quem eu era, uma delas disse ainda que a sobrinha que eles criavam desde que ficara órfã se matara porque não suportava mais ser abusada pelo tio. Uma delas chegou a comentar que, no caixão em que minha irmã fora enterrada, havia duas pessoas. Naquela mesma noite, o marido de minha tia foi dado como desaparecido. Sumira sem deixar vestígios.
Eu, que passei praticamente minha vida toda na mais completa miséria desde que perdi meus pais, da noite para o dia me tornei uma pessoa sem maiores problemas financeiros. O marido de minha tia não tinha nenhum herdeiro. Como ele havia desaparecido, logo a Justiça me fez seu único beneficiário, recebendo todos os seus bens.
Com muito aperto no coração, deixei o circo e segui minha vida a fim de tocar os negócios que herdei. Minha vida de artista circense ficou para trás, mas levei comigo minha fantasia, pois, de certa forma, sentia que ela fazia parte de mim. O mais estranho de tudo é que sempre que visto minha fantasia, alguém acaba sumindo e eu sempre acordo com um estranho gosto de sangue na boca...
Terminada sua narração, ele chegou a imaginar que Adelaide sairia correndo de medo de toda aquela história ou que, então, pudesse entrar numa crise de riso que não teria mais fim. Contudo, ela, com a garrafa de conhaque nas mãos, após encher mais uma vez o seu copo e beber até a metade, levantou-se graciosamente e, após lhe apertar a bochecha – como uma mãe faz com um filho obediente –, disse-lhe, exibindo um sorriso de dentes bastante afiados:
– Você tem sido um bom garoto. Estamos muito contentes com sua performance. Decidimos que você merece até mesmo um prêmio pelo seu desempenho.
Após entornar o restante da bebida que tinha nas mãos, colocou o copo vazio sobre a mesa e, ao lado do copo, deixou-lhe um pequeno embrulho amarrado com uma fita vermelha. Caminhando num belo bailado, com muito charme e simpatia, ela se direcionou até a porta e, após olhar mais uma vez para ele, sorriu um riso solto e saiu.
Quando ele abriu o embrulho, que ainda trazia o toque do perfume que Adelaide estava usando, o relógio que um dia pertencera a seu pai estava dentro...
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Velório Sombrio
Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“Porquanto és pó, e ao pó retornarás...”. — Gênesis 3,19
Nas pequenas cidadelas e nos ermos lugarejos onde o tempo parece ter parado e a modernidade ainda não se fez presente, onde as formas de entretenimento da população local são bastante reduzidas, até mesmo um velório pode se tornar um grande acontecimento social. E se o falecido for alguém muito querido, logo se transforma num grande evento, atraindo a atenção e a participação de quase toda a população, tanto do próprio lugarejo quanto de suas cercanias.
Nesses determinados lugares, distantes de quase tudo aquilo que possa ser considerado civilizado, reina o atraso e o obscurantismo num grau assustador aos olhos de um ser citadino. Isto é, há um angustiante misticismo carregado de todo tipo de estórias e costumes, ainda um tanto quanto arcaicos, que se faz presente. O homem, nessas regiões, ainda está muito ligado à natureza que, por sua vez, rege sua vida desde o nascimento até bem depois de sua morte. A religião, com seus dogmas e costumes, também se faz presente durante toda a vida desses seres, ditando as regras básicas de como suas vidas devem ser geridas, a fim de que, no final de sua inquietante e sofrida trajetória, o descanso eterno lhes seja possível.
Dona Niltinha, sublime pessoa que a muitos tinha trazido à vida, “... havia se encontrado com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre...”, como diria aquele ilustre poeta da Paraíba.
Comparando à quantidade de gente que geralmente vive nessas regiões, havia até um número considerável de pessoas, mesmo se tratando de um dia de meio de semana. Os que estavam ali presentes, de forma alguma mediriam qualquer tipo de esforço para prestar suas últimas homenagens àquela nobre criatura, que era muito querida e bastante estimada por todos aqueles que a conheciam.
Quem ainda não havia chegado, mesmo que apenas para prestar suas condolências e logo voltar a seus afazeres, certamente ainda haveria de comparecer, ainda que fosse somente para o sepultamento, que ocorreria no dia seguinte, após o velório que atravessaria toda a noite, aguardando parentes e amigos distantes para o último adeus.
Para aquele evento em si, a noite estava bastante propícia, pois era clara como o dia. A lua quase cheia ocupava o meio do céu naquele momento, e a brisa que soprava do rio estava fresca e perfumada por causa das flores das diversas árvores que florescem no Cerrado nessa época do ano. No entanto, o odor mais marcante naquele momento era o de duas espécimes em particular: no quintal da falecida, as duas frondosas “Damas da Noite”, bastante floridas, exalavam um aroma inebriante, que tomava conta de toda aquela baixada.
As inúmeras criaturas da noite também se faziam presentes, ocupando-se do som ambiente com suas incansáveis serenatas. No gramado, grilos cricrilavam sem parar; na lagoa, as rãs coachavam sem descanso; e, vez por outra, uma coruja dava um voo rasante, emitindo seu agourento piado.
Nessas regiões interioranas, esse tipo de evento envolve todos os familiares, amigos e conhecidos, e é sempre rodeado de certos costumes que, para muitos, podem causar até certa estranheza. O velório acontece geralmente na sala, onde o corpo é deixado no centro, para que haja espaço para que parentes e amigos possam se agrupar em derredor. Por mais simples e humilde que a família possa parecer, ainda assim, na cozinha é preparada bastante comida para os convivas que passarão a noite.
O café – que jamais pode faltar – é servido a todo momento. Dependendo da família do falecido, no decorrer da noite, doces e guloseimas também são oferecidos. Há uma espécie de rodízio entre os que ficam na sala próximo ao caixão: alguns se lamentando e outros tentando consolar os que lamentam. Outros ficam do lado de fora da casa, conversando, contando anedotas e até mesmo fazendo pequenas negociatas.
Quando a conversa externa se torna mais animada e o barulho se mostra um tanto quanto desrespeitoso, sempre há alguém para chamar a atenção. Nesse momento, é feito o rodízio.
Levando-se em conta que a noite é bastante longa e, em muitas ocasiões, acompanhada de madrugadas muito frias, sempre há um ou outro que acaba levando consigo uma garrafa de algo um pouco mais forte para molhar a garganta e aquecer o estômago.
É certo que essa tal regalia fica discretamente escondida, para que não haja nenhum tipo de comentário discriminatório, mesmo que todos saibam que há e onde está escondida.
No decorrer da noite, geralmente ficam despertos os parentes mais próximos e mais amorosos, os amigos íntimos e alguns poucos conhecidos. São, em sua maioria, pessoas mais velhas e ainda com vigor para enfrentar uma noite inteira acordadas. Há também os denominados papa-defuntos, que sempre fazem questão de acompanhar todo e qualquer cortejo fúnebre, desde o início do velório até o cemitério, para o sepultamento.
A falecida em questão não era uma pessoa qualquer, mas sim Helenilta Marcondes Narciso, alcunhada Dona Niltinha, afamada parteira e poderosa benzedeira. Sua fama corria dezenas de léguas e atravessava serras e rios. Incontáveis pessoas tinham chegado a este mundo com seu auxílio, e outras tantas, ela tinha evitado que saíssem dele antes da hora.
Além de parteira de mãos ungidas, também benzia contra inúmeras moléstias, desde quebranto e mau-olhado até picada de cobra venenosa. Ela mesma tinha tido apenas três filhos, pois, sendo mulher instruída na prática da magia e nos conhecimentos das ervas medicinais, sabia muito bem sobre beberagens para evitar gravidez.
Desde que tivera Joaquim – seu filho caçula, chamado “Quinca” –, que nascera com as pernas deformadas, ficou temerosa de que ela ou seu falecido marido talvez não tivessem mais condições de procriar filhos saudáveis.
Além do aleijado Quinca, que nunca se casara e ainda vivia com a mãe, Dona Niltinha tivera duas outras filhas: Gertrudes – chamada “Geta” –, a mais velha, uma competente dona de casa que vivia numa casa próxima e cuidara da mãe nos últimos anos em que ela esteve acamada; e Genoveva – chamada “Gena” –, a filha do meio, uma professora de primário que vivia um pouco mais distante, numa cidade próxima. Ambas já eram casadas e tinham filhos e filhas.
Dona Niltinha tivera o privilégio de amparar ambas as filhas em seus partos e auxiliar seus netos a chegarem a este mundo. Geta e Quinca, que já tinham chorado bastante a perda da mãe, ainda aguardavam a chegada de Gena para chorarem um pouco mais.
Gena, que vivia cerca de sete léguas de distância, havia estado na casa da mãe no final de semana anterior. Contudo, tivera que retornar para sua casa e para seus afazeres profissionais na escolinha onde trabalhava, pois, até então, sua mãe não era nenhum poço de saúde, mas também não dera mostras de que morreria a qualquer momento.
É certo que jazia numa cama há mais de cinco anos, pois, tal qual o próprio Quinca, também perdera os movimentos das pernas. Gena até mesmo comentara que achava que sua mãe estava mais corada e com maior disposição. Mas, como a morte, em muitas ocasiões, vem sem avisar, na tarde de quinta-feira, logo após o almoço, Dona Niltinha reclamara de fortes dores no peito e pediu que Geta lhe fizesse um chá de erva-cidreira, que ela tomou com muito gosto, bendizendo a filha pelo carinho para com ela.
Geta, percebendo que a mãe dormia sossegadamente após o chá, decidiu ir rapidamente até sua casa para resolver alguma pendência doméstica que exigisse sua presença e logo retornar para ver como sua mãe estava. No entanto, seus afazeres tomaram mais do seu tempo do que imaginava, e ela só retornou no final da tarde, já com o jantar pronto, tanto para sua mãe quanto para seu irmão Quinca.
Este, por sua vez, estava sentado em sua cadeira de rodas debaixo da frondosa e florida paineira logo à frente da casa, contemplando o final de mais uma tarde. Geta se encaminhou para dentro da casa, mas, em poucos minutos, voltou para fora aos prantos, dizendo, em desvairado desespero, que sua mãe estava morta.
Depois disso, foi um rebuliço só. Em menos de uma hora, a pequena casa já estava apinhada de gente. Dona Niltinha fora dada como morta por volta das cinco da tarde e, antes das oito horas da noite, já estava banhada, amortalhada e convenientemente enfeitada para o velório.
No caixão, que fora rapidamente improvisado pelos vizinhos mais habilidosos, havia diversas flores diferentes, dando um aspecto bastante primaveril à querida falecida, que deixava atrás de si um rastro de gratidão e muitas boas histórias para todos aqueles que a conheciam.
Dona Niltinha, em vida, não era uma criatura dotada de grande beleza, mas também não era de assustar ninguém com sua aparência. No entanto, parece que a morte não tinha sido muito gentil com ela, e ali, deitada no caixão, não era uma imagem muito interessante de se ver.
Suas magras mãos, que, devido à artrite, tinham adquirido o formato de conchas, pareciam ter crescido e ficado com um aspecto assustador pelo tamanho dos dedos e pelas unhas amareladas. Seu rosto ossudo estava encovado e com uma aparência bastante maquiavélica, como se tramasse uma grande maldade. Para Quinca e Geta, era apenas sua falecida mãe que estava ali, e o desconsolo de ambos era algo inominável.
Quinca era o mais choroso dos dois, pois sabia que, a partir dali, sua vida não seria nada fácil sem o carinho e a proteção de sua mãe.
Já passava da meia-noite, quase uma hora da madrugada, com a lua já se encaminhando para o horizonte, quando Gena chegou acompanhada de seu marido e de seus três filhos. Ela, que já vinha com o rosto todo banhado em lágrimas – pois passara o caminho inteiro se acabando de chorar –, pulou do cavalo em que estava ainda na entrada do caminho que levava até o pátio da casa e logo se encaminhou para o local onde a mãe estava sendo velada, ignorando os cumprimentos que recebia pelo caminho. Seu marido era quem os agradecia.
Gena, ao entrar na sala, lançou-se sobre a mãe e quase a derrubou no chão. Seus gritos podiam ser ouvidos de muito longe. Sua dor era algo indescritível. Seus irmãos, que pareciam já ter se conformado um pouco mais, juntaram-se a ela naquele ensandecido desespero e também choraram bastante.
Por quase meia hora, houve muitas lamúrias e bastantes soluços.
No entanto, se não há felicidade que perdure para sempre, o sofrimento também não deve ser ad aeternum, e logo os ânimos foram se abrandando, e o silêncio se fez presente outra vez, sendo rompido, vez por outra, apenas por um soluço mais profundo ou um suspiro mais dolorido, vindos principalmente de Gena, que se aninhara ao lado da mãe e de lá não saíra mais.
Seu marido, Carmelito, um vaqueiro acostumado a dormir cedo e levantar-se sempre de madrugada para a lida com o gado, sentou-se em um pequeno tamborete um pouco mais afastado, encostado logo à parede, tentando ao máximo vencer o sono, mas, vez por outra, dava breves cochiladas, das quais despertava com os sons de ais que sua esposa emitia em involuntárias demonstrações de sofrimento pela perda.
Quincas estacionara sua velha cadeira de rodas no lado oposto de Gena, mas não tão próximo ao caixão, pois já tinha passado por essa fase e agora lamentava muito mais sua vida a partir dali do que a própria perda da mãe. Alguém o ouvira dizer, quase em sussurro entre um suspiro e outro, que não era justo ele ficar nesse mundo sem sua amada mãe.
Geta estava sentada ao lado do esposo, num banco rústico, em um canto mais afastado, e, vez por outra, dormitava alguns minutos, acordando sobressaltada com os suspiros da irmã.
A noite, que avançava lentamente, alcançara aquele horário em que o silêncio se faz presente em qualquer lugar, onde tudo se aquieta e todos parecem dormir. Na sala, meia dúzia de gatos pingados ainda se aguentava acordada, enquanto outros, lá fora, rodeavam uma fogueira improvisada, num silêncio quase absoluto, sendo rompido, vez por outra, por alguma estória que envolvesse a falecida e suas benfazejas práticas, tanto de competente parteira quanto de forte benzedeira.
A falecida, que estivera entrevada numa cama por mais de cinco anos, tinha ficado com as articulações das pernas atrofiadas e, por isso, fora necessário amarrá-la dentro do caixão para que permanecesse na posição adequada.
No entanto, devido às diversas evoluções que o corpo enfrenta logo após ter todas as suas funções vitais cessadas – rigidez cadavérica e inchaço pela produção de gases – e ao fato de os nós que prendiam as pernas de Dona Niltinha estarem bem apertados, impedindo que o corpo retornasse ao estado habitual dos últimos cinco anos, ela, num rápido movimento, levantou-se de supetão e ficou sentada no caixão, como alguém que acaba de despertar de um terrível pesadelo.
Gena, que a todo tempo clamava pela mãe em profundo desespero, foi a primeira a correr, deixando para trás tanto a mãe por quem tanto lamentava quanto o marido ou qualquer outro que fosse.
Carmelito, seu marido, que havia colocado um dos pés entre as travessas do tamborete, ao sair correndo apavorado, trouxe consigo uma das travas do pequeno banco, mas também deixara para trás uma considerável tira de pele da própria canela.
Geta e o marido saíram pela porta da sala aos trambolhões, um caindo sobre o outro e se levantando logo em seguida. Os demais fugiram como puderam.
Teve gente saindo até mesmo pela janela.
Os que estavam do lado de fora, vendo e ouvindo todo aquele alvoroço, também correram em disparada, sem ao menos saber do que se tratava. Um deles, ao tentar passar por cima da fogueira e cair sobre ela, acabou queimando ambos os pés e ferindo uma das mãos.
Depois de alguns minutos, quando os mais corajosos decidiram retornar para verificar o que realmente havia ocorrido, se depararam com a falecida sentada no caixão, com o corpo pendido para um dos lados, quase caindo ao chão.
A partir de uma observação mais detalhada, logo se soube o motivo de aquilo ter acontecido. O corpo de Dona Niltinha rapidamente foi devidamente acondicionado ao seu caixão, e todos puderam fazer um breve inventário dos possíveis danos que cada um havia sofrido na desvairada fuga.
No desespero que cada um enfrentara, todos esqueceram o pobre Quinca e, quando finalmente deram por falta dele, perceberam que sua cadeira de rodas estava vazia. Nesse momento, organizou-se uma verdadeira frente de buscas para tentar encontrá-lo.
Por mais de meia hora, chamaram por seu nome. Primeiro, dentro da casa; depois, ao redor, pelo lado de fora; e, em seguida, um pouco mais distante, mesmo que aquilo parecesse um completo absurdo, pois, em toda sua vida, ele jamais dera um único passo sequer.
Mesmo assim, fizeram uma varredura em um raio de quase duzentos metros ao redor da casa e, quando já estavam prestes a desistir e esperar pelo nascer do sol, encontraram-no morto, enrolado nos arames farpados de uma pequena cerca que circundava um velho chiqueiro.
De alguma forma, – sabe lá Deus como – ele havia descido de sua cadeira e fugido como todos os outros fizeram, mas, em completo desespero e sem saber para onde estava indo, acabou se enrolado ao arame, morrendo enforcando. Sua mãe que sempre cuidara dele, ouviu suas preces e veio buscá-lo...
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
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Sorte Diabólica
…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
…O pior de tudo era ter que voltar para casa de mãos abanando e sem nenhum argumento que pudesse lhe valer, e ser obrigado a contemplar o olhar de decepção de sua mãe. Como se não bastasse todo o sofrimento que a ela fora infringido, ainda por cima ele, seu único filho. A única pessoa que pudesse lhe valer era na verdade motivo de uma decepcionante ignomínia. Por isso, estava ele ali, parado encostado junto à mureta da ponte, observando as águas turvas e preguiçosas que desciam correnteza abaixo. Sua solidão era completa, não havia ninguém por perto àquelas horas tardias. Ao seu redor reinava um inquietante silêncio, apenas vez por outra, rompido pelo sinistro som das criaturas da noite. O céu estrelado, placidamente o contemplava como se aguardasse suas últimas resoluções para ser testemunha única de um último ato.
Henrique – Rico entre os íntimos, mas de riqueza mesmo, nada tinha – olhava para o reflexo das estrelas sobre as águas, buscando nas profundezas do infinito a coragem necessária para um fim definitivo a toda uma vida de frustrantes decepções. Estava decidido que, se a sorte não lhe sorria, o que restava era ir de encontro ao azar, na inquietante busca pelas verdades da existência. Naquele momento de indecisão, fez uma breve análise de sua medíocre existência. De forma bastante decepcionante, chegou à triste conclusão de que toda sua vida fora uma grande farsa, cheia de tragédias e terríveis privações. E, por fim, havia se tornado um vergonhoso fardo para sua mãe.
A querida Tia Eulália, sua mãe – uma humilde professora de primário, que sobrevivia contando as migalhas de seu pequeno ordenado, e tentando ajuntar o restante daquilo que sobrara de sua vida – por mais que tentasse disfarçar seus sentimentos, ainda assim era possível perceber que ela trazia consigo o semblante melancólico e um olhar triste e distante, típico de pessoas sem maiores perspectivas, entregues ao sabor do vento, vivendo um dia após o outro. Ela, que noutros tempos, ainda no frescor de sua juventude, fora uma bela mulher, alegre e descontraída, sempre com um animado sorriso no rosto, esbanjando simpatia e muita disposição, agora, depois de todas as tragédias que se abateram sobre ela, nada mais era que a verdadeira face da derrota.
Rico tinha vagas lembranças da época em que ainda existia o brilho do contentamento nos olhos de sua mãe. Um tempo já distante, quando ele ainda tinha uma família completa com ele, sua adorável irmã Cecília, sua atenciosa mãe e seu pai, o conhecido caminhoneiro Amarildo – que era, para os demais, sinônimo de muita presteza e completa lealdade. Mas para sua mãe se demonstrou um terrível desengano. A tristeza estampada na face de sua mãe era apenas o resultado da infeliz condição humana. Ela que já tivera todos os motivos para sorrir para os quatro cantos do mundo, viu toda sua felicidade se desfazer como espumas ao vento.
Quando Rico ainda era bem pequeno, seu pai saíra de casa para uma viagem a trabalho – como era de seu costume – e nunca mais voltara. Seu pai que partira apenas com alguns pertences, mas levara consigo todas as economias da casa, deixara para sua mãe apenas um bilhete de adeus – como ato de justificativa – diversas dívidas a pagar e dois filhos pequenos para criar. O homem ao qual ela entregara sua honra e sua inocência, dedicando-lhe todo o seu amor e sua lealdade, sumira de vista sem deixar nem um vestígio de seu paradeiro. Rico tinha nove anos na época e sua irmã Cecília – já demonstrando os primeiros sinais de um semblante doentio – apenas sete. Num ciclo contínuo de desventuras, pouco tempo depois, após seu pai ter saído de casa, sua irmã Cecília fora diagnosticada com Leucemia. Numa desesperada tentativa de um tratamento eficaz para a filha, Tia Eulália teve que vender a casa – único bem que eles possuíam – e logo depois contrair um oneroso empréstimo bancário – dívida essa que consumiria grande parte de seu já parco ordenado por um longo prazo. No entanto, todos os esforços de Tia Eulália se demonstraram em vão. Cecília viria a óbito menos de um ano após seu pai tê-los abandonado. Cecília fora baixada à sepultura sem o último adeus do pai que ela tanto adorava. Ficaram apenas Rico e sua mãe – sem casa para morar, com dívidas a pagar, sem nenhum dinheiro no banco, e nem mesmo um parente importante que lhes pudesse valer. Estavam sós no mundo.
Uma vez que sua mãe tinha que trabalhar para trazer o sustento para dentro de casa, enquanto ela estava ausente, Rico – um jovem imberbe e desacreditado na vida, pois perdera seu pai e sua única irmã num intervalo de tempo bem pequeno – vivia mais nas ruas do que em casa, andando em companhia de pessoas de índole bastante duvidosa, tornando-se um interessado aluno na arte da vadiagem. Para ajudar sua mãe nas despesas do lar, fazia um biscate aqui e outro acolá. Mesmo enfrentado diversas adversidades da vida, conseguiu sobreviver a uma infância infeliz e assim que chegou à adolescência, para ter o dia livre para o trabalho, acabou por convencer sua mãe – mesmo com certa relutância por parte dela – a terminar seus estudos no período noturno. Foi justamente nesse período que travou conhecimento com os malandros da noite. Indivíduos de vida noctívaga – assíduos companheiros de copo e fiéis amantes do jogo. Rico – um rapaz belo e sedutor de fala macia e sorriso doce – logo ficara conhecido e muito bem-quisto entre jogadores, prostitutas e todo o tipo de vagabundo que vagueia pelos becos e vielas sob a proteção das sombras da noite.
Sua mãe, ao saber desse deprimente caminho ao qual ele estava se enveredando, com a face banhada em lágrimas e em soluços, o cobrira de conselhos e reprimendas, num moroso sermão sobre a moral e os bons costumes. Vendo a tristeza e a decepção que ele mesmo causara à própria mãe, prometera-lhe que, pelo amor e todo o respeito que ele sentia por ela, abandonaria de vez aquela vida desonrosa. Sua mãe, bastante comovida com a sinceridade estampada nos olhos do filho, o abraçou ternamente e após beijá-lo na face carinhosamente dissera-lhe:
– Filho amado, você é jovem, bonito e cheio de saúde e vigor, tem todo um futuro pela frente, não desperdice seu tempo e seu dinheiro nesse tipo de vida. Tais locais são, na verdade, um antro de lascívia e perdição. Em lugares como este não há o senso de amizade e camaradagem, lá você jamais terá amigos, apenas conhecidos. Nesses antros de perdição, você só tem valor enquanto sua bolsa ainda estiver cheia. Reina nesses lugares um abjeto interesse material, por mais que você possa se achar interessante e sedutor, seus valores são pesados de acordo com aquilo que você possui. Se algum dia – por acaso – estiveres totalmente desprovido de bens e de dinheiro, conhecerás a índole daqueles a quem chama de amigos e saberá o verdadeiro valor das mulheres que o rodeiam, se dizendo sempre fiéis a você.
Em honra à promessa feita à sua mãe, Henrique deixara brevemente de lado a vida noctívaga pela qual se enveredara. Conseguira, através dos contatos de sua mãe, um emprego fixo como atendente numa farmácia de propriedade de um atencioso amigo da família. Seguindo conselhos de sua mãe e de seu próprio patrão, planejava assim que possível dar continuidade aos seus estudos. Em certas ocasiões, até mesmo acompanhara sua mãe a igreja, onde conhecera uma simpática jovem – Eleonora era filha do pastor da igreja – pela qual se apaixonara perdidamente.
Sua mãe estava eufórica com o comportamento do filho e a todo o momento recebia elogios pela forma educada e gentil com que ele a tratava – algumas das beatas da igreja diziam, entre sorrisos maliciosos: “um bom filho será um excelente marido”. Rico era verdadeiramente um educado cavalheiro e em se tratando de sua mãezinha querida, era ele mais atencioso ainda. Seu ordenado na farmácia – que não era lá essas coisas – era quase todo entregue à mãe para ajudar nas despesas do lar. Mesmo com o parco salário que recebia, ainda assim, ele trabalhava todos os dias sem se distrair, pois tinha grandes planos para o futuro. Ele que já havia se declarado, em surdina, à Eleonora, recebera por parte dela certa conivência que lhe dava grandes esperanças. No entanto, nas Escrituras Sagradas está escrito que: “... quando um espírito imundo sai de um homem, passa por diversos outros lugares... Então vai e traz outros sete espíritos piores do que ele...”.
Nessa mesma época, devido a um estrondoso furo no caixa da farmácia – mesmo sendo inocente – Rico acabara por perder o emprego sob a acusação de ter sido ele a surrupiar o valor faltante. O dono da farmácia – amigo íntimo de sua mãe – dissera a ele estar tremendamente decepcionado com sua conduta, pois havia lhe dado um sincero voto de confiança, em amizade à sua mãe. Dissera-lhe ainda que ele não havia herdado o caráter da mãe – mesmo que veladamente, fazendo uma breve alusão ao pai. Aquilo lhe ferira profundamente a alma, até mais do que ser acusado injustamente de furto. Se no jogo não fora feliz, iria tentar a sorte no amor e no mesmo dia que perdera o emprego, decidira se apresentar na casa de Eleonora como sincero pretendente a receber a mão dela em sagrado matrimônio. Ao demonstrar suas intenções para com ela perante sua família, fora humilhado e vilipendiado em toda sua honra. Sem nenhum tipo de cerimônia, o pai dela – seu ex-futuro sogro – dissera-lhe de forma bastante grosseira e sincera.
– Jamais permitirei tal união, por dois motivos principais. Primeiro não dou guarita para vagabundo debaixo do meu teto – pois sei quem você é, de sua fama de ladino, você pode até mesmo ludibriar minha filha inocente com seu palavreado macio, mas a mim você não engana – e, segundo, em respeito à sua honrada mãe, sabendo que você não tem onde cair morto, não posso permitir que ela, já com tantas dificuldades, tenha que alimentar mais uma boca em sua casa, como se não bastasse o delinquente sanguessuga que ela inocentemente chama de filho e vive às suas expensas. A igreja a qual eu presido – sendo a casa de Deus – sempre estará aberta a todos sem distinção, mas a minha casa – onde honrosamente reside minha família – jamais estará aberta a pessoas de sua espécie. Exijo peremptoriamente que se afaste de vez da minha filha e jamais ouse colocar os pés aqui nessa casa novamente.
Naquela mesma noite – decepcionado com o mundo e com a vida – Rico decidira dar uma breve passada no cassino onde ele já presenciara fortunas inteiras virarem pó. No entanto, também fora testemunha de fatos inusitados, onde um indivíduo qualquer entrava com alguns trocados no bolso e saía de lá para uma vida de opulência. Estando ele sem dinheiro algum, apenas observara atentamente seus conhecidos tentando a sorte nas diversas modalidades de jogatina ali existentes. Como sua mãe o havia prevenido, aqueles que se diziam seus amigos, percebendo que ele não tinha nenhum tostão furado, não lhes dera atenção alguma, não lhe ofereceram nem mesmo um único gole de bebida sequer, tão pouco algum trocado emprestado para que ele tentasse a sorte.
No dia seguinte, sua mãe inocente e alheia a tudo aquilo que estava acontecendo ao filho, fora para o trabalho sossegadamente como fazia todos os dias. Levando-se em consideração que a vida de muitas pessoas se baseia em se deleitar com a desgraça alheia, na escola já havia burburinhos – entre os desocupados – sobre o fato de Rico ter sido escorraçado da casa da bela Eleonora – alguns vizinhos ouviram o pastor vociferando ofensivas palavras ao filho de Tia Eulália. Também se comentava sobre o roubo na farmácia – como isso veio a público ninguém nunca soube ao certo – e por fim o fato dele ter sido visto entrando no cassino novamente. – Certamente para torrar a grana oriunda do furto – diziam alguns de língua mais ferina. Rico, alheio ao fato de que seu nome e suas desventuras era o assunto preferido do dia, ficara em casa, tentando encontrar uma forma de relatar à sua mãe sobre sua triste realidade.
Do fundo de sua alma, ele sabia que sua bondosa mãe acreditaria em sua inocência e certamente lhe seria partidária naquilo que tangia a sua pseudovida amorosa. No entanto, precisava ele encontrar uma forma correta de narrar todos os fatos de uma forma que lhe parecesse convincente. Estando ele só e largado ao mais completo ócio, fazendo jus ao ditado: “que uma cabeça desocupada é uma excelente oficina para o mal”. Devido a todas as vicissitudes do dia, ele que tivera uma noite inquieta, intercalada com momentos de insônia e breves cochilos carregados de sonhos estranhos onde via números por todos os lados, pessoas felizes e riqueza por toda parte, chegara à conclusão que se conseguisse algum dinheiro, poderia voltar ao cassino naquela noite e quem sabe assim, se a sorte lhe sorrisse, resolver de uma vez por todas todos os seus problemas. Dinheiro mesmo, ele não tinha nenhum, mas sempre soube onde sua mãe guardava suas economias para uma possível eventualidade – na vida deles dois, as eventualidades eram uma constante.
Antes mesmo de sua mãe voltar do trabalho, Rico recolhera todo o dinheiro que encontrara guardado entre os pertences dela e após vestir seu melhor traje e estar bastante perfumado, saíra naa ruas aguardando que a noite chegasse e que as bancas de jogos fossem abertas. Estando ele com todas as economias de sua mãe no bolso, pois não deixara nenhum tostão para trás – tal qual, como seu próprio pai outrora fizera, quando os abandonara – sentara-se para jantar e assim o fez como se fosse uma pessoa desprovida de qualquer tipo de dificuldade financeira. Comeu e bebeu do bom e do melhor, antes de ir tentar a sorte, pois estava decidido a retornar para casa cheio de dinheiro ou não voltar nunca mais. Estava decidido a resolver sua vida de uma vez por todas. Assim que o cassino abriu suas portas e iniciou os trabalhos da noite, ele fora um dos primeiros a adentrar as portas que levam à glória ou à mais completa ruína.
Nas primeiras horas da noite, Rico estava iluminado pela áurea da fortuna. Havia sido sortudo em quase tudo que apostara, o dinheiro que havia trazido consigo já havia se quadriplicado e ele estava pressentindo que era seu dia de sorte. Por volta das dez horas da noite, ele já acumulava dez vezes o valor referente às economias que ele surrupiara de sua mãe. Num golpe de sorte, ela nem mesmo notaria a falta do dinheiro e ele ainda lhe daria mais que o dobro para que ela também pudesse guardar. Parafraseando mais um ditado que diz: “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. O jovem Henrique, acreditando que a roda da fortuna estava girando a seu favor, decidiu fazer uma última jogada. E foi esse último ato que o levara ao desespero, pois nessa jogada apostara todo o seu dinheiro, tanto o que havia trazido consigo, bem como todo o montante acumulado numa série de apostas bem-sucedidas. Numa insana tentativa de recuperar pelo menos o dinheiro que trouxera, ele ainda apostara o relógio que fora um presente de sua mãe e até mesmo seu próprio paletó, só não apostara suas roupas e os sapatos, porque o dono do estabelecimento não o permitiu.
Sentindo-se a mais desafortunada de todas as criaturas, Rico saíra às ruas sem destino certo, caminhando trôpego sem saber para onde ir e o que deveria fazer. E quando, na mais completa solidão, estava atravessando uma ponte que cruzava o seu caminho, chegara à inquietante decisão que já não tinha mais vontade de chegar ao outro lado. Após uma longa reflexão sobre a existência, onde ele amaldiçoava a tudo e a todos relegando até mesmo aos céus pelas vicissitudes da vida, decidiu naquele instante, tomar as rédeas de seu destino. Mais uma vez olhando as águas turvas bem abaixo de si, quando havia já passado uma de suas pernas sobre a amurada da ponte, sentiu uma estranha presença perto de si e logo, uma mão de toque macio com um brilhante anel em um dos dedos tocara em seu ombro. Ao se virar se deparara com um distinto cavalheiro que após levantar a cartola e lhe sorrir amigavelmente, lhe dissera:
– Boa noite meu jovem amigo!
Num primeiro momento, Rico se assustara bastante por imaginar estar só ali naquele ermo caminho. Tinha a certeza absoluta de que no minuto anterior, quando ele olhara para trás como se estivesse dando adeus ao mundo, não havia ninguém ali naquela ponte. Mesmo assim, direcionado pelo senso da boa educação e dos bons costumes respondeu polidamente.
– Boa noite senhor! Como poderei ajudá-lo?
– Olhe bem para mim! E depois olhe para si mesmo e então me responda, quem realmente está precisando de ajuda?! Respondeu o cavalheiro. Um distinto senhor, trajando um belo terno negro de corte fino, sapatos brilhantes e cartola na mesma cor. Tinha a face lisa e um bem cuidado bigode sobre um sorriso de dentes brancos e alinhados. Na penumbra em que se encontravam, a cor dos seus olhos era indistinta devido à ausência de luz, mas dava a impressão de serem claros. O belo anel que trazia num dos dedos tinha uma cintilante pedra da cor de carmim – talvez fosse um valioso rubi.
– O que o faz pensar que eu esteja precisando de ajuda? — Respondeu Henrique.
– Sua vida medíocre! Suas decepções! Suas humilhações! E por fim o que estava prestes a fazer! Não percamos tempo com questionamentos e explicações desnecessárias. Eu sei do que você precisa e você tem algo que me interessa. Farei a proposta uma única vez, não tenho tempo para indecisões. É pegar ou largar! Vou emprestar a você um pouco de dinheiro para que volte agora mesmo ao cassino e pegue aquilo que é seu por direito. Jogue apenas na roleta, aposte nos números primos em sequência. Ainda hoje, antes mesmo do cantar do galo, você terá tudo aquilo que sempre mereceu. Apenas me responda sim o não.
Disse o cavalheiro com um estranho brilho no olhar mostrando a Henrique um grosso pacote de dinheiro. Pelo volume do pacote, era o montante necessário para que, devidamente investido nas apostas certas, fosse mais do que o suficiente para se transformar numa grande fortuna. Rico, como aquele mesmo gentil senhor o havia admoestado a não fazer perguntas desnecessárias, apenas pegou o dinheiro, sentindo em suas mãos um estranho arrepio que lhe correu por todo o corpo. Passou os dedos pelas notas sentido a firmeza do papel que estalava de tão novo, percebendo que aquele dinheiro jamais havia sido usado. Sem acreditar naquilo que estava acontecendo, mal teve tempo de perguntar ao cavalheiro – que já se afastava, se perdendo na escuridão das sombras indo embora da mesma forma que aparecera – como e quando ele iria pagar aquele empréstimo.
– Na hora certa voltarei para receber essa dívida, não se preocupe quanto a isso. Aproveite pela sorte enquanto ela lhe sorri... — Disse o cavalheiro já chegando do outro lado da ponte e se perdendo pela escuridão a fora. Suas últimas palavras se misturaram em meio ao som dos sinos da igreja que naquele momento badalavam violentamente ao longe avisando a chegada da meia-noite.
Rico, mais do que depressa, retornara ao cassino e como lhe fora coordenado, apostara grandes quantias somente na roleta e nos números primos em sequência. Em menos de duas horas de apostas, O jovem Henrique conseguira quebrar a banca. Ele que a momentos atrás estava prestes a dar um fim à própria vida, havia se tornado um homem rico. Voltaria para casa não como um homem desempregado, sem onde ter que cair morto como ouvira da boca do pastor, mas como alguém que agora tinha o dinheiro suficiente para comprar até mesmo a própria farmácia onde dois dias antes era um simples empregado que fora demitido injustamente. O dono do estabelecimento não tinha em caixa todo o dinheiro que ele havia ganhado, mas raspou o cofre e dera-lhe tudo o que tinha e na presença de testemunhas confiáveis assinara-lhe uma nota promissória com o restante que lhe seria devidamente pago no dia seguinte assim que o banco abrisse.
Acompanhado de um policial que estava de folga e, também, tentava a sorte naquela noite, rico tomou um taxi e se direcionou até sua casa para contar as novidades para sua mãe. No caminho estava eufórico em poder dar à sua querida mãe tudo aquilo que ela sonhara um dia. No entanto, mesmo ainda ao longe, soube que havia algo de errado em sua casa, pois mesmo sendo alta madrugada com o dia já quase amanhecendo, havia muita gente na porta, além de uma viatura da polícia e uma ambulância. Rico saltara do taxi antes mesmo do veículo ter parado por completo e ao entrar correndo em casa se deparara com o corpo da mãe sobre uma maca. Aos prantos fora contido por um dos policiais que estava atendendo a ocorrência – um dos vizinhos ouvira um tiro na casa e acionara a polícia que ao chegar se deparara com Tia Eulália já sem vida, numa das mãos ela tinha uma arma na outra um bilhete de adeus...
Quando o bilhete fora entregue para Henrique para que ele pudesse ler as últimas palavras de sua mãe, ele ouviu ao longe o triste cantar de um galo que anunciava a chegada de um novo dia...
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Fome Abominável
Isso aconteceu há mais de cinquenta anos, quando eu ainda era um jovem adolescente em meu primeiro emprego, tentando juntar alguns trocados para sair…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Isso aconteceu há mais de cinquenta anos, quando eu ainda era um jovem adolescente em meu primeiro emprego, tentando juntar alguns trocados para sair da casa paterna e me aventurar na capital em busca de uma vida melhor. No entanto, sendo eu um rapaz de família humilde, deveria, a todo custo, tentar ajudar meus pais, que viviam de seu próprio suor e nada possuíam, a não ser a Graça de Deus sobre suas vidas. Eu era um dos três serviçais que trabalhavam na casa dos Genarus. Além de mim, que tinha a função de copeiro, havia uma faxineira e uma cozinheira. Fora da casa, havia mais de uma dúzia de serviçais que faziam todo tipo de função que uma grande propriedade poderia exigir.
A casa era um imenso palacete assobradado, onde era possível se perder entre os diversos aposentos. Nada estranho para uma construção que precisava abrigar uma família tão importante. Os Genarus que conheci eram uma família de nove pessoas ao todo, contando a matriarca, que estava se aproximando dos cem anos. Dona Gercira era a mais velha deles. Mesmo já bastante debilitada fisicamente, ainda mantinha certa lucidez e, sempre que havia alguém disposto a ouvi-la, relatava várias histórias sobre a opulência que envolvia a história de sua família. Se essas histórias realmente aconteceram, ninguém sabia ao certo, mas ela gostava de contar sobre a oportunidade que sua família teve de hospedar, em sua casa, o Imperador e sua esposa, numa viagem que a Família Real fizera por essas bandas.
O restante da família era composto pelo Coronel Severiano, sua esposa, Dona Amélia, seus quatro filhos, um irmão – que não tivera sucesso na vida e vivia às expensas do coronel – e, por último, um filho bastardo, que ninguém ousava admitir ser seu. Dentre os filhos do coronel, havia uma adorável jovem que, por sua beleza, era considerada a joia mais rara dos Genarus. Essa singular criatura era a jovem Elizabeth, a quem seu pai sempre chamava de Liz, comparando-a à delicada beleza da flor que era o símbolo da realeza da França, país de origem de sua esposa.
A propriedade dos Genarus era de um tamanho descomunal e, devido a essa infinitude de terras que se perdiam no horizonte, sempre havia um enorme contingente de pessoas de todos os tipos, num vai e vem infinito. Até porque a estrada real cortava suas terras de ponta a ponta. Por esse movimentado caminho, passavam dezenas de pessoas diariamente, de um lado para o outro. Próximo à casa grande, havia um enorme barracão que, outrora, em tempos bastante antigos, fora uma senzala abrigando mais de sessenta escravos, e que, na época em que trabalhei lá, era usado como abrigo para os viajantes. Coronel Severiano sempre fora um homem bastante benevolente e muito prestativo aos mais necessitados, desde que, por sua vez, soubessem o significado de respeito e obediência, e cada qual permanecesse em seu devido lugar.
O que causou a ruína da família Genaru aconteceu num friorento mês de janeiro, quando um agrupamento cigano acampou em suas terras. Logo após as festas de final de ano, sempre acontecia aqui em nossa cidade — e ainda acontece todos os anos — uma festa em homenagem aos três Reis Magos. Esse era o motivo pelo qual os ciganos estavam acampados ali, pois esses nômades perambulavam de cidade em cidade, aproveitando as festas para comercializar suas bugigangas e seus artifícios mágicos. Como nossa cidade era bastante pequena — e ainda é —, padre João Pedro, o pároco da época, não autorizou que eles acampassem pelas cercanias. Por isso, receberam autorização do Coronel para ficarem em suas terras.
Dentre esses curiosos nômades, havia um jovem chamado Iago, que era a perdição e o pecado em pessoa. Jovem alto, de corpo atlético, com belíssimos olhos claros, cabelos dourados encaracolados e sorriso fácil, esse belo rapaz muito se assemelhava à imagem de João Batista, de Da Vinci. Além de muito belo, era também eloquente, sabia tocar violão e cantava com uma voz tão doce quanto a de um anjo entoando um louvor ao firmamento. Quando Elizabeth, passeando a cavalo, acompanhada de seu irmão caçula, o viu pela primeira vez, ficou imediatamente seduzida pelos seus encantos.
Elizabeth, ninguém sabe ao certo como, conseguiu, numa determinada tarde, estar a sós com esse jovem, que já era o objeto de desejo da maioria das mulheres solteiras da cidade e, com certeza, de muitas casadas também. Ele era um homem que, apesar de ter uma aparência muito juvenil, já estava na casa dos seus vinte e cinco anos e, desde cedo, havia sido instruído pelas ciganas sem marido de sua tribo sobre os caminhos que levam ao paraíso carnal.
Iago sabia, desde muito jovem, como agradar uma mulher em todas as suas vicissitudes e desejos. Elizabeth, que recentemente completara dezessete anos, mesmo transpirando desejo e volúpia, ainda era muito inocente em certos assuntos. Sua família mal a deixava respirar longe de seus olhares vigilantes. Coronel Severiano era uma fera, e a maioria dos pretendentes o temia como o diabo teme a cruz. Mas Iago era indiferente a tudo isso; nem sequer sabia ao certo quem ela era, muito menos quem era seu pai. Quando se viu na iminência de conquistar mais um coração para sua crescente coleção, não se fez de rogado e a cobriu de galanteios e elogios, deixando a jovem e inocente Elizabeth completamente embriagada de desejos por ele.
No dia seguinte ao qual se conheceram, Elizabeth disse que queria estar a sós com ele em um local afastado, onde pudessem ter liberdade e privacidade para se conhecerem melhor. Combinaram, então, de se encontrar às margens do rio, onde buscariam algum lugar mais calmo, longe de olhares curiosos. Naquela tarde, ela selou o destino de toda sua família ao entregar sua inocência ao cigano Iago. Uma pessoa como Coronel Severiano tinha olhos por toda parte e conseguia enxergar tudo o que acontecia ao seu redor. Naquela mesma noite, o acampamento cigano foi incendiado. Muitos ciganos foram mortos, e o galante e belo Iago nunca mais foi visto — fato comum entre os desafetos do Coronel, que anoiteciam, mas não amanheciam, desaparecendo sem deixar vestígios.
A mãe de Iago — a cigana Soraya — era uma cartomante poderosa e tão bela e sedutora quanto o próprio filho, e estava fora do acampamento naquela noite, na casa do prefeito, prestando-lhe alguns de seus serviços sobrenaturais — consultando os astros para lhe mostrar o caminho mais rápido ao paraíso. O prefeito, na época, era um viúvo que jamais permitira que o leito outrora ocupado por sua finada esposa ficasse vazio. Quando Soraya soube do trágico acontecimento em sua tribo, teve uma incontrolável crise de loucura e partiu numa desenfreada correria até a casa dos Genarus. Um dos ciganos relatara a ela tudo o que acontecera, pois, de alguma forma, sobrevivera ao ataque ao acampamento. Escondido para preservar sua própria vida, ele pôde presenciar quando os jagunços do Coronel levaram Iago preso e amordaçado, arrastado por uma corda como um perigoso animal selvagem.
Era alta madrugada quando todos na casa foram acordados pelos gritos ensandecidos de uma mãe desesperada em busca de seu filho. A cigana estava no mais profundo desvario, urrando como um animal ferido e esmurrando violentamente a porta da frente, como se quisesse derrubá-la. Seus gritos eram de cortar o coração e, certamente, podiam ser ouvidos a uma enorme distância. Até hoje — mesmo depois de tantos anos — ainda posso ouvi-los em meus sonhos...
— Devolva meu filho... Devolva meu filho... Seu monstro!
Lembro-me de que, em cinco minutos, todos na casa estavam de pé. Coronel Severiano foi o primeiro a ir até a porta. Logo, dois de seus jagunços estavam ao seu lado e, ao abrir a porta, a pobre cigana não conseguiu se aproximar dele — se o fizesse, certamente o teria retalhado com suas unhas e dentes —, pois os jagunços a contiveram. Debatendo-se como um animal selvagem, foi necessário que mais alguns homens se juntassem aos dois primeiros para conseguirem segurá-la. Vendo que suas forças eram insuficientes para enfrentar o poderoso Coronel, ela baixou a cabeça e começou a chorar com profundos soluços de lamentação. Em dado momento, uniu forças, levantou a cabeça mais uma vez, olhou nos olhos do Coronel e perguntou-lhe:
— Me diga, por que tanta maldade com pessoas inocentes como nós? Só estávamos acampados por um breve momento em suas terras. Que mal fizemos ao senhor ou à sua família para merecermos tão violenta afronta à nossa humilde existência? O que fizeram com meu filho?
O Coronel, não querendo expor a imagem de sua filha — que logo seria enviada a um convento por uma longa temporada, a fim de expiar seus pecados e refletir sobre sua indecorosa ignomínia —, apenas lhe respondeu:
— Com muita prestatividade e toda boa vontade do mundo, abri as portas de minha propriedade para seu povo, mesmo quando a própria igreja lhes negara abrigo. Permiti que instalassem suas barracas imundas em meus domínios e fiz vista grossa perante suas profanas práticas de magia negra em minhas terras. Contudo, criaturas vis como vocês parecem nunca se contentar com o que lhes é oferecido; sempre tentam pegar aquilo que não lhes pertence. Da mesma maneira que são vistos por todos como gente de índole e costumes bastante duvidosos, mais uma vez demonstram aqui, perante todos os presentes, que são indivíduos covardes, desprovidos de qualquer forma de caráter. E ainda têm a ousadia de vir à minha casa me acusar de algum tipo de ato vil. Que culpa tenho eu se, por onde passam, conquistam apenas inimizade e repugnância de todos ao seu redor?
— Inimizade! Repugnância! É tudo que tens a me dizer?
Soraya, ao olhar ao seu redor e perceber que todos ali presentes — com toda aquela balbúrdia à frente da casa do Coronel, apinhada de gente — não ousariam, de forma alguma, contrariar nem questionar tão poderoso senhorio, entendeu que era inútil desperdiçar seu tempo e suas palavras em uma discussão tão inócua. Sabendo que muitos de seu grupo estavam mortos, os que restaram feridos e desprovidos de seus bens, e que certamente jamais veria seu filho novamente, decidiu usar seus conhecimentos sobre o mundo das sombras e invocar sobre o Coronel e toda sua família uma terrível maldição.
— Percebo que minhas palavras e minha dor, perante sua tão importante figura, são completamente irrelevantes. Contudo, nobre Coronel, quero que saibas que, por mais poderoso e quão importante o senhor possa se achar, logo perceberá que o senhor não é ninguém e que toda a riqueza que acha que possui não lhe servirá de nada. A vida de qualquer ser humano é como uma partida de xadrez: por mais longa e importante que pareça, ao final, todas as peças — sejam elas peões ou reis — retornam sempre para a mesma caixa.
— O senhor encheu a boca para dizer que somos seres repugnantes. A partir de hoje, tanto o senhor quanto toda a sua honrada família saberá o significado da palavra repugnância. Sei que não terei a chance nem ao menos de dar o último adeus ao meu amado filho — todos sabem o que acontece a quem afronta pessoas ditas poderosas como o senhor —, mas dou-lhe minha palavra: viverá para ver toda a sua família definhar diante de seus olhos, e somente quando o último de sua descendência não estiver mais entre os vivos, terá o privilégio da morte.
A cigana, que naquele momento estava com os braços livres, os levantou em direção ao Coronel e, após fazer alguns sinistros movimentos e proferir palavras em um idioma desconhecido, soltou uma gargalhada sinistra, como se a loucura a tivesse dominado de vez. Um dos jagunços — o tipo de homem com sangue nos olhos, que adquirira o abjeto prazer de tirar a vida de outro ser vivo — deu-lhe um tiro entre os olhos. A cigana caiu morta na varanda. Para justificar seu ato de violência gratuita, ele disse, alto o suficiente para que todos ouvissem:
— Ninguém, seja quem for, ameaça meu Coronel ou alguém de sua família em minha presença e sai impunemente, sem responder por tal desrespeito.
Esse mesmo jagunço seria encontrado morto três dias depois, arrastado por seu cavalo, preso pelo pé ao estribo. Seu corpo estava terrivelmente ferido, tanto pela queda quanto pelos coices que o cavalo, em completo estado de pavor, lhe aplicava repetidamente. A ruína dos Genarus começara no exato momento em que a cigana fora assassinada a sangue frio. O mesmo fogo que reduzira o acampamento cigano a cinzas, devido a uma estranha ventania, se alastrara pelas pastagens e plantações da fazenda, consumindo tudo o que estava à frente. Mais da metade de todos os animais da fazenda pereceu naquele violento incêndio. Nenhuma plantação ficou intacta. O prejuízo material foi extraordinário. Mas o pior ainda estava por vir, e teve início naquela mesma noite, quando Elizabeth, ao presenciar a cena lastimável da cigana morta diante de seus olhos, e ao saber dos planos de seu pai de enviá-la para um convento, decidira atentar contra sua própria vida.
Enquanto a imensa propriedade dos Genarus ardia em incontroláveis chamas, os ciganos que sobreviveram ao covarde ataque ao acampamento reuniam os parcos bens que lhes restaram e, após recolherem o corpo de Soraya, decidiram partir ainda naquela mesma noite. Nunca mais se ouviu falar deles. Na casa dos Genarus, quando o alarde da morte de Elizabeth foi dado, houve um desespero total, e a situação ficou ainda pior quando um dos serviçais chegou correndo para avisar que o irmão do Coronel havia perecido no incêndio, tentando salvar alguns animais das chamas. Para uma senhora quase centenária, todas aquelas desventuras foram demasiadas, e seu coração não pôde mais suportar tantas desgraças em uma única noite. Assim, a matriarca da família também se despediu do mundo dos vivos.
No dia seguinte, o caos continuou. Após as exéquias de três integrantes daquela poderosa família, logo se descobriu o porquê de a cigana ter dito que eles saberiam o significado da palavra "repugnância". Quando o jantar foi servido, aqueles que ousaram se alimentar não conseguiram; a comida estava estragada, havia até mesmo larvas no assado que fora servido. Como todos estavam cansados demais e extremamente desolados, decidiram, cada qual, se recolher a seus devidos aposentos. Dona Amélia, demonstrando estar bastante irritada com aquele desrespeitoso ato de negligência, deu a ordem para que toda a comida fosse descartada. A cozinheira, sentindo-se bastante ofendida, recolheu a comida da mesa sem entender nada do que se passava. Pela primeira vez, todos nós, os serviçais presentes naquela noite, nos refestelamos com um intocado banquete dos Genarus. A comida estava esplendidamente deliciosa.
No outro dia, quando o almoço fora servido, a cozinheira levara um bofetão por parte do coronel que, ao ter seu prato servido, se levantara da mesa e, num ato de violenta selvageria, se lançara sobre a pobre cozinheira a cobrindo de ofensas e impropérios. A filha mais jovem do Coronel vomitara sobre a própria mesa. Todos da família Genaru olhavam para a comida com a expressão do mais abjeto asco. Dona Amélia colocou as mãos sobre a face e começou a chorar desesperadamente diante do que ela via sobre sua bela mesa de jantar. Vermes enormes rastejavam entre os talheres e a prataria. Subindo pelas finas taças de cristal. Mais uma vez fora dada a ordem para descartar toda aquela comilança. O jejum dos Genarus continuava.
Naquele mesmo dia, após o jantar ser servido e a cena se repetir, a cozinheira, depois de mais de vinte anos servindo naquela casa, foi-se embora com o sentimento de mais profunda ingratidão. Sentia-se extremamente ofendida, pois sua comida estava em perfeita ordem e asseio. O odor era agradabilíssimo, e o sabor, melhor ainda. Mais uma vez, nos banqueteamos como se fôssemos pessoas de mais alta estirpe. A pobre faxineira ficou responsável por preparar as refeições até que uma nova cozinheira fosse contratada. No dia seguinte, assim que ela serviu o almoço — claro que não era nenhum banquete, mas tratava-se de um belo repasto —, perdeu até mesmo o emprego de faxineira. Nenhum dos Genarus sequer experimentou a comida daquela pobre coitada. Alguns saíram da mesa com ânsias, cobrindo os olhos e a boca, como se estivessem vendo a mais terrível das visões.
Desde aquele dia, nunca mais voltei àquela casa, mas soube que, em menos de quinze dias, mais dois integrantes daquela família se recolheram à cidade dos esquecidos. O restante os seguiu em pouco tempo — haviam todos morrido de fome. O filho bastardo do Coronel, não suportando toda a tragédia que se abateu sobre aquela casa, decidiu partir e nunca mais voltou. Notícias suas, ninguém mais teve por aqui. Se estava vivo ou morto, ninguém sabe.
Alguns acreditam que esse filho torto ainda esteja vivo — a menos que o Coronel tenha outro descendente desconhecido —, pois, segundo a profecia da cigana Soraya, o Coronel Severiano só teria o privilégio da morte quando o último de sua linhagem morresse de fome ou atentasse contra a própria vida. E ainda há quem ouse dizer — mesmo sendo uma das criaturas mais terríveis de se ver — que o Coronel ainda esteja vivo. Como, ninguém sabe ao certo, pois se alimenta muito raramente, uma vez ou outra, quando já não consegue mais suportar a fome. Quem já o presenciou comendo diz que é uma cena lastimável. O poderoso Coronel Severiano, para poder se alimentar, precisa vendar os olhos antes de ver a comida e, quando o faz, fica com ânsia de vômito o tempo todo, vez ou outra retirando vermes imaginários da boca...
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
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Quitandas da Vovódelícia
O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos e serviram-lhes de alimento”
Livro das Lamentações 4;10
O ano era 1994, o mês era agosto, um período terrível no Cerrado. Nessa época do ano, o tempo é quente e seco. Uma camada de poeira e fumaça paira no ar. A baixa umidade relativa do ar torna os dias abafados e sufocantes. Respirar é quase um suplício; a pele, ao mesmo tempo ressecada pela manhã, fica também bastante pegajosa à tarde, devido ao calor que causa uma sudorese constante. Verdadeiramente, é uma época praticamente insuportável.
No esporte, após a tristeza pela morte de Ayrton Senna — o maior piloto de Fórmula 1 da época — numa triste manhã de domingo, no mês de maio, logo a alegria voltaria aos lares brasileiros com a conquista do tetracampeonato mundial pela seleção brasileira de futebol, numa animada tarde de domingo, no mês de julho. Mesmo mês em que entrou em vigor o Plano Real. O país ganhava uma nova moeda e a perspectiva de uma tão sonhada estabilidade econômica. Tudo parecia estar às mil maravilhas, até mesmo para o jovem Cláudio Martins, que acabara de conseguir seu primeiro emprego, iniciado já no primeiro dia do mês de julho.
Oriundo de uma família simples e muito humilde, o jovem Cláudio, após uma infância bastante sofrida numa pequena cidade do interior do estado — lugar onde não havia muito trabalho, tampouco perspectivas para um jovem sem muitas posses —, se mudara com a família para a capital. O pai — um humilde homem do campo — logo conseguira emprego como vigilante noturno numa garagem de ônibus urbano. Sua mãe — uma cozinheira bastante talentosa — arranjara uma ocupação como auxiliar de cozinha numa pequena escola do bairro onde moravam. Ele, após quase seis meses fazendo pequenos biscates, também conseguira um trabalho fixo num supermercado, no cargo de entregador.
O supermercado não era muito grande, por isso não havia muitas entregas a serem feitas. Sendo assim, Cláudio auxiliava na seção de hortifruti, repunha mercadorias nas prateleiras e também era responsável pela precificação dos produtos. As entregas — quando havia — eram feitas apenas para clientes do próprio bairro e adjacências, num raio de no máximo 5 quilômetros, pois as mercadorias eram transportadas numa velha bicicleta cargueira. O trabalho em si não era de todo ruim. Cláudio era um adolescente pobre, mas cheio de sonhos e precisava de dinheiro para ajudar nas despesas do lar e também custear suas vaidades juvenis.
Morando na capital, cursando a primeira série do Ensino Médio e com 16 anos completos, Cláudio necessitava desse emprego. Fã de rock and roll desde a mais tenra infância, agora, vivendo numa cidade grande, teria a oportunidade de assistir a shows de bandas nacionais que volta e meia se apresentavam na capital. Naquele ano em particular, a banda mineira Skank havia lançado um álbum chamado Calango e estava em turnê pelo país. Cláudio estava ansioso e apreensivo, pois essa banda faria uma apresentação na cidade em outubro. Seria o primeiro show de rock de sua vida. Ele, que ficara maravilhado com o casamento do rei do pop com a filha do Elvis, mesmo após alguns dias de profunda melancolia pela morte do líder do Nirvana, ainda assim, imaginava em sua inocência que 1994 seria o grande ano de sua vida. Cláudio era jovem e sonhador. Estudava, trabalhava, curtia rock and roll e já trocava olhares mais calientes com uma ou outra coleguinha de escola. A vida se abria para Cláudio num sedutor leque de oportunidades.
Devido a lapsos de rebeldia, já enfrentava alguns problemas relacionados a divergências de opinião com sua família, que era muito católica e bastante conservadora. Seus pais eram religiosos ao extremo e fiéis defensores da moral e dos bons costumes. Assistir à missa pelo menos uma vez na semana era algo sagrado. Cláudio andava muito ocupado com todas as suas responsabilidades. Domingo era seu único dia de ócio. A missa pela manhã iniciava-se bem cedo, e ele queria ficar mais tempo na cama. À noite, a celebração era bem no horário de seu programa de rádio preferido. Depois de quase um mês sem ir à igreja, após um belo sermão do pai e muita insistência da mãe, decidiu ir à celebração. Como se não bastasse a missa ter sido bastante maçante e a homilia muito longa, a ponto de ele cochilar enquanto o padre falava, quando chegou em casa, seu irmão caçula ainda lhe dissera que naquela noite, no rádio, havia sido apresentada a biografia de Paul McCartney — seu Beatle preferido.
Naquela noite, Cláudio fora se deitar muito ensimesmado com a vida. Era jovem e não entendia ainda — talvez jamais viesse a compreendê-lo — como era o verdadeiro funcionamento do mundo, com seus estranhos mecanismos de controle emocional e segregação social e econômica. Ficou até bem tarde ouvindo o insistente cantar de um grilo na parede e os demais sons que o silêncio da noite lhe oferecia. Depois de muita especulação filosófica, adormeceu por volta da meia-noite, sem saber que, naquela mesma semana, sua vida iria mudar para sempre.
Na segunda-feira, como era de costume, logo pela manhã, dona Cleuza, uma simpática quitandeira — uma quarentona ainda na flor da idade e bastante vaidosa — fazia suas compras para o início da semana. Além dos itens domésticos de consumo próprio, ela também adquiria os ingredientes necessários para a produção de doces e salgados da quitanda que ela e sua mãe — dona Valdelice — tocavam juntas. As Quitandas da Vovódelícia eram bastante afamadas por quase toda a cidade. Os doces não eram tão diferentes de qualquer outro que se vendesse em uma padaria qualquer. Contudo, os salgados eram extraordinários, e ninguém num raio de quilômetros-luz conseguiria fazer algo nem mesmo parecido. O tempero era esplêndido, causando uma explosão de sabor na boca, e o recheio era de uma carne com sabor bastante exótico, mas muito agradável ao paladar, devido à textura e às nuances dos condimentos.
Todas as vezes que Cláudio levava suas compras — pelo menos duas vezes na semana — dona Cleuza lhe presenteava com um apetitoso salgado e um copo de refresco. Enquanto ele saboreava seu lanche, ela lhe cobria de voluptuosos olhares, que às vezes o deixavam até constrangido. Dona Cleuza era uma mulher singular, dotada de uma beleza hipnotizante. Na altura de seus quarenta anos, muito facilmente poderia ser confundida com uma jovem de, no máximo, uns vinte e cinco, talvez até um pouco menos. Era uma dessas raríssimas criaturas sobre as quais o tempo não parece ter efeito. Cláudio era um jovem com os hormônios em ebulição, e saber que aquela bela mulher o devorava com os olhos lhe causava imensa satisfação.
Naquela manhã em particular, dona Cleuza estava bastante sorridente e parecia mais amável do que de costume. Assim que terminou de fazer suas compras, solicitou ao dono do mercado que enviasse suas encomendas o mais rápido possível, pois teria um importante compromisso e, sendo assim, talvez depois não houvesse ninguém em casa para receber o entregador. Seu Nelson — o proprietário do mercado — deu sua palavra de que a entrega seria executada sem demora, pois, além de ser um prestativo comerciante, tinha certa queda pela quitandeira, que, por sua vez — por questões pessoais — não dava ousadia a homens casados, mas nunca havia sido grosseira com ele. Dona Cleuza era o tipo de mulher de sorriso fácil e meiguice espontânea, dotada de uma gentileza ímpar, que chegava a causar certa inveja.
Naquele momento, Cláudio estava fazendo uma entrega numa clínica de repouso para idosos ali próximo. Essa clínica também fazia suas compras naquele mercado. Contudo, aquela entrega em si era uma doação que o próprio dono do mercado fazia toda semana para a instituição — era quase sempre a mesma coisa: frutas, verduras e carne, ou seja, produtos frescos, que eram entregues na clínica na segunda-feira pela manhã. A maioria dos outros itens básicos para a alimentação dos internos também era proveniente de doações. A clínica — uma instituição de caridade sem fins lucrativos — sobrevivia da bondade alheia e do voluntariado de algumas pessoas de alma nobre, que, além de doações materiais, também dedicavam parte de seu tempo ao cuidado dos idosos. Havia poucos funcionários remunerados.
Pela primeira vez, Cláudio — que demonstrava bastante retidão de caráter e muita seriedade em suas funções — demorou mais do que o normal com a entrega, fato que causou estranheza ao seu patrão, que estava até mesmo preocupado com a integridade física do rapaz, pensando que ele poderia ter sofrido algum tipo de acidente. Entretanto, quando Cláudio retornou ao mercado com as caixas de entrega já vazias, logo explicou o motivo de sua demora. Já acomodando as compras de dona Cleuza sobre a bicicleta para a entrega, relatou o ocorrido na clínica.
... Na noite anterior, um dos internos havia desaparecido. Havia um verdadeiro rebuliço, com a presença da polícia e tudo mais. A diretora da clínica estava exigindo, por parte dos policiais, que um inquérito fosse aberto para investigar o desaparecimento de mais um de seus internos. Um dos policiais, após anotar num pequeno bloco os dados pessoais do idoso que sumira, disse que, assim que completassem 24 horas do ocorrido, abriria um boletim de ocorrência. Também aconselhou a diretora da clínica a aumentar a segurança do local, ao que ela respondeu prontamente, até com certa rispidez, ao perceber a má vontade do policial:
— Aqui não é um presídio, rapaz! É uma casa de repouso. Zelamos pelo bem-estar daqueles que já não têm ninguém por eles. Não prendemos ninguém aqui!
— Sendo assim, a senhora não deveria reclamar quando um deles, não apreciando a comida ou as acomodações, decide ir embora — respondeu o outro policial em tom de pilhéria.
— Como de costume, devo prestar meus sinceros agradecimentos por mais uma eficaz demonstração de profissionalismo de nossa honrada força policial. Ou seja, muito obrigada por nada! Exijo que pelo menos fique registrado nos autos que, somente este ano, aqui na clínica já foram seis internos que desapareceram de forma misteriosa no meio da noite. Sumiram com a roupa do corpo, sem deixar nenhum vestígio...
Os policiais, sentindo-se bastante ultrajados pela fala da diretora — que demonstrava estar bastante irritada com a piadinha que um deles fizera —, como nada mais tinham a fazer no local, logo entraram no carro e saíram em disparada, com a sirene da viatura ligada. Assim que Cláudio terminara o seu relato, o dono do mercado não emitira nenhuma opinião sobre o acontecido, além de lamentar profundamente o fato em questão.
Cláudio, que tinha muito apreço pelo trabalho que a clínica fazia no cuidado com aquelas pobres almas inocentes, ficou bastante acabrunhado pela negligência com que os policiais atenderam a ocorrência, mas principalmente ao pensar na triste situação de quem chega ao fim da vida sem ter com quem contar. Ficou bastante melancólico e reflexivo sobre a forma como um idoso é tratado pela sociedade. Primeiro, repudiado pela família que o abandona; segundo, pela própria sociedade, que enxerga uma pessoa mais velha como alguém que tem uma doença contagiosa — por isso, precisa ficar isolada —; e, por último, pela negligência do próprio poder público, que, após pagar uma mísera aposentadoria, lava as mãos e deixa aqueles que um dia tanto significaram para a nação entregues à própria sorte.
Perdido nessas tristes reflexões, mas, mesmo assim, cumprindo suas obrigações profissionais, Cláudio logo chegou à casa de dona Cleuza e, após encostar sua bicicleta com as compras no muro — há anos aquela bicicleta não tinha mais o descanso —, bateu palmas no portão da quitandeira e aguardou que alguém viesse atendê-lo. Esperou por uns dois minutos e, como não ouviu nenhum movimento, bateu palmas novamente, dessa vez com maior intensidade. Após aguardar por quase cinco minutos e não ser atendido por ninguém, decidiu testar a maçaneta do portão e, caso não estivesse trancada, entraria e deixaria as compras na cozinha, mesmo se não houvesse ninguém em casa. Para sua sorte, o portão estava destrancado.
Pegou as pesadas caixas com as compras e adentrou a casa, indo direto para a cozinha. A mesa onde ele colocava as compras sempre que as trazia estava repleta de caixas de plástico brancas — do tipo que são usadas em açougues. Como não havia outro lugar para colocar as compras, decidiu deixá-las na bancada da pia. Enquanto executava esse processo de descarregar as compras, ouviu o som de música e de um chuveiro ligado em um dos quartos da casa. Pensou que, talvez devido a esse barulho, quem estivesse na casa não teria ouvido quando ele batera palmas no portão. A música que ele ouvira era do grupo Roupa Nova e, se não estivesse enganado, a canção se chamava "Tímida".
Imaginando que estivesse sozinho na casa, e com sua curiosidade ardendo para saber quem estaria no banho, caminhou sorrateiramente na direção do barulho e logo se viu diante de um belíssimo aposento. Muito grande e bastante aconchegante. A enorme cama em estilo colonial ficava numa parede de frente para uma grande janela panorâmica, que dava para um jardim lateral da casa. Todo o mobiliário do aposento era de fino estilo colonial. No chão, um grande tapete felpudo fazia conjunto com as cortinas em tom de vermelho púrpura. Sobre a cabeceira da cama, na parede logo acima, havia um grande quadro com uma pintura a óleo de uma serena paisagem campestre. O ambiente era bastante perfumado, tanto pelo cheiro das flores nos jarros espalhados pelo quarto quanto pelo aroma de sabonete que vinha do banheiro, onde alguém — certamente dona Cleuza — tomava um demorado banho.
Sem muita cerimônia adentrou pelo quarto e se aproximou do banheiro que ficava aos fundos. Tentou ser o mais silencioso possível para não ser notado. Parou a uma distância segura e ficou observando dona Cleuza que estava em todo seu esplendor, da mesma maneira que chegou a esse mundo. Ela que trazia em seu ventre um calor tão quente como o fogo do próprio Tártaro, naquele momento, debaixo das tépidas águas daquele convidativo chuveiro, se tocava voluptuosamente na tentativa de abrandar aquele fogo que lhe queimava as entranhas.
Cláudio que devido a idade já havia acordado com os lençóis de sua cama sujos e pegajosos após despertar de um sonho molhado que tivera com a própria dona Cleuza, se encontrara naquele momento numa situação bastante embaraçosa. Havia um emaranhado de sentimentos tomando conta de todo o seu ser. Desejo de entrar no chuveiro com aquela bela criatura, medo de que alguém o visse ali no quarto de uma dama naquela situação e curiosidade em saber como tudo aquilo terminaria. Estava ele tão entretido com aquela lasciva visão que nem mesmo se dera conta de que dona Valdelice entrara no quarto e estava de pé logo atrás dele.
Quando percebeu que havia sido flagrado, — em pleno horário de trabalho — dentro do quarto de uma dama em seu momento de mais pura inocência e intimidade, saiu correndo do recinto trombando em tudo que via pela frente, inclusive na própria dona da casa. Ao passar pela cozinha para se evadir do local, acabou derrubando uma das caixas que estava sobre a mesa. Ficou pasmo quando viu que dentro da caixa havia partes de uma perna humana. Levantou o pano que cobria as demais caixas e viu que havia mais partes humanas, um pouco de carne já moída, massas para salgados e temperos e condimentos de todos os tipos.
Naquela mesma tarde daquele quente e sufocante final de agosto, além dos restos mortais do idoso que havia desaparecido da clínica na noite anterior, também fora encontrado várias ossadas humanas enterradas no quintal da casa de Dona Cleuza. Logo se soube que um dos enfermeiros da clínica era amante da quitandeira. Era ele quem lhe fornecia a carne para os, até então, saborosíssimo e inigualáveis salgados da Vovódelícia. Dona Cleuza foi presa em flagrante e logo depois condenada e sentenciada à pena máxima por vários crimes: canibalismo, homicídio, ocultação de cadáver etc. Dona Valdelice, devido a idade e seu estado de debilidade, fora internada numa clínica para idosos com problemas mentais. Terminou seus dias de forma lamentável, no mais completo abandono. O suposto amante nunca fora encontrado para responder por seus crimes. Ao saber que dona Cleuza havia sido presa, foragiu sem deixar vestígios, ninguém mais soube de seu paradeiro. O inquérito policial concluiu que ele usava uma documentação falsa que havia sido abandonada em seu alojamento na clínica.
Cláudio, em pouco tempo, saiu do emprego de entregador e buscou outra ocupação até se formar em medicina, especializando-se em geriatria. Mesmo depois de muitos anos e, sendo ele um clínico renomado, atendendo em um grande e respeitado hospital particular da capital, ainda assim presta serviços voluntários em diversas clínicas e casas de apoio aos idosos espalhadas pela cidade. Ele jamais se esqueceu daquele ano de 1994. Nunca mais comeu nenhum outro tipo de salgado. Na verdade, tornou-se totalmente vegano, ao ponto de sentir repugnância a qualquer tipo de proteína, seja ela qual for...
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
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Parte II – DARQUINHA: Capítulo IV - Desespero
Aquela tão esperada criança nascera no final do mês de agosto. Numa noite fresca, de brisa leve e céu enluarado, mesmo após um dia quente, seco e muito...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Aquela tão esperada criança nascera no final do mês de agosto. Numa noite fresca, de brisa leve e céu enluarado, mesmo após um dia quente, seco e muito abafado, comum para aquela época do ano, em se tratando de regiões como o Cerrado, que, em determinadas épocas, tem um clima que muito se assemelha ao de um deserto, devido ao calor intenso e à baixa umidade relativa do ar. Gardênia chegara ao mundo esbanjando saúde e disposição. Quando fora entregue ao pai, estava aos berros, demonstrando uma intensa vontade de avisar ao mundo de sua chegada. Sua mãe, que tivera um parto bastante agonizante, estava prostrada na cama, recebendo os cuidados da velha cigana, que a acalentava, retendo sua cabeça junto ao colo.
Uma parteira local – Dona Judith, esposa do Senhor Juraci Fonseca, o afamado Seu Jura, que viria a se tornar um grande amigo da família – fora chamada para auxiliar naquela delicada situação, uma vez que Madame Staell já não conseguia mais ver nem mesmo a luz do sol sobre sua fronte. O trabalho de parto durara desde a madrugada daquele dia, quando Darquinha sentira os primeiros sinais de que uma nova vida estava para chegar. Sem maiores discussões, Thomás foi em busca de Dona Judith, que já havia se acertado anteriormente com a velha cigana e estava de sobreaviso para, a qualquer hora, estar a postos e logo ir em socorro daquela franzina parturiente. O fato de Darquinha ter sido acometida por uma gestação bastante conturbada muito aterrorizou a velha cigana, que tinha muito apreço por sua protegida. No entanto, tudo terminou bem. Gardênia nascera forte e saudável.
A alegria pela chegada de uma nova vida só não foi maior porque a jovem mãe ficou prostrada por quase uma semana. Darquinha sentiu intensamente a gestação e os efeitos do parto. Todos que a observavam de perto chegavam quase à mesma conclusão: a bela criança que ela trouxera ao mundo sugara-lhe parte de sua energia vital. Suas forças se resumiam praticamente a alimentar a própria filha, que, proporcional à sua vitalidade, tinha um apetite bastante voraz. Fato esse que tornou necessário complementar sua alimentação com o leite de uma cabra que havia parido recentemente, doada à família por Seu Jura, a pedido de Dona Judith, que os visitava todos os dias, acompanhando de perto o restabelecimento de sua mais recente paciente e o desenvolvimento da graciosa Gardênia.
Com o tempo – esse fator que tudo resolve e tudo amaina – Darquinha foi se restabelecendo aos poucos e logo já estava de pé novamente, quase sempre vista com Gardênia nos braços. A bem da verdade, aquela bela criaturinha de olhos claros ficava sempre passando de um colo para o outro. Thomás parecia não se conter de tanta alegria e satisfação pela adorável filha, que lhe dava um prazer imensurável. Madame Staell – cada dia mais senil – que fazia as vezes de avó, e até mesmo batizara a criança segundo os velhos costumes ciganos, era puro regozijo quando segurava Gardênia nos braços. Vez por outra, a fazia dormir cantando, junto ao seu ouvido, velhas canções ciganas em romani, língua essa que somente ela, naquela casa, sabia...
Com o fim do ano se aproximando, a estação das chuvas logo chegou, trazendo frescor para os dias e um estonteante verde para a relva, tornando os dias mais coloridos e as noites mais agradáveis. Ao final de cada tarde, a varanda daquela alegre e abençoada casa era brindada, muitas vezes, com um banho dos últimos raios de sol que caíam obliquamente, trazendo um preguiçoso colorido na violenta descida de um sol poente. Ou, vez por outra, com o frescor da chuva que caía de forma tranquila e acolhedora. A velha cigana e Thomás – que naquele momento já era chamado por quase todos de Pai Thomás, devido à sua corujice com a filha – ficavam sentados na varanda até bem tarde, observando a vista ao longe e discutindo sobre diversos temas. Ambos tinham muito conhecimento e experiências a compartilhar um com o outro.
Além dos diversos assuntos que sempre eram tratados, Pai Thomás retomara um de seus antigos ofícios e, vez por outra, aceitava a encomenda da confecção de um chapéu, que era feito naquela hora, pois a lida diária tomava-lhe quase todo o tempo durante o dia. Sempre acompanhando todos aqueles acontecimentos, após findar suas atribuições domésticas do dia, encontrava-se Darquinha, balançando preguiçosamente numa acolhedora rede e, como não podia deixar de ser, tendo a filha aninhada junto ao peito, logo adormecia em sono profundo.
No marasmo da vida no campo, sempre havia tempo e disposição para longas discussões sobre diversos assuntos. A monotonia da vida dava-lhes oportunidades para profundas reflexões a respeito dos inquietantes temas da humanidade, tais como a fé, a ciência, o amor, o tempo, mas principalmente o conflito sobre a origem da vida e seu inevitável fim: a morte... Após perder a visão por completo, a cigana já não tinha tanta alegria como dantes e muito menos a disposição de outrora, acabando por assumir uma postura bastante nostálgica e melodramática, sempre retornando as discussões às questões fundamentais sobre as inquietações humanas ponderadas por todos aqueles que sofreram grandes injustiças. Esses debates eram de uma profunda reflexão, que sempre retornavam ao grande tema dos grandes pensadores de outrora: Quem somos nós diante da vida...
Certa noite, Pai Thomás, ao perceber que a velha cigana estava bastante calada e muito reflexiva, ousou questionar Madame Staell se, de alguma forma, ela sentia saudades da vida na cidade, se estava feliz com a vida que levava agora ali, na quietude do campo, ao lado deles. Perguntou se algo lhe faltava ou se algum agravo ou dissabor a incomodava...
A cigana, que permaneceu em silêncio por um instante, com os olhos esbranquiçados pela cegueira, mirados no horizonte como se pudesse enxergar algo ao longe, após um grande suspiro, respondeu:
– Nada me falta nesta casa, e nenhuma coisa me incomoda aqui. Sou bem tratada e respeitada de uma forma que há bastante tempo já não era. Devo dizer que cada lugar tem seus encantos. Nas grandes cidades, há todo o conforto que o progresso proporciona. Por lá, é dito que o sertão é um lugar ermo e atrasado, povoado por pessoas brutas e ignorantes. Um lugar onde inexiste o progresso e não há recursos médicos, onde ainda reinam a ignorância e o misticismo. No entanto, o que vejo é um paraíso. Um lugar de paz e quietude, onde reinam a amizade e a camaradagem mútua. Se, por um lado, a cidade olha com menosprezo para o campo, o sertanejo vê a cidade com certo receio, como um lugar de individualismo, onde é cada um por si e Deus por todos. De forma alguma o sertanejo menospreza a cidade, pois sabe que é um lugar de ciência e novas descobertas a cada dia, muitas das quais logo chegam ao campo, trazendo espanto e alegria para a humilde lida diária de pessoas simples. No entanto, ele a teme por ser um lugar de comércio, onde tudo se vende e tudo se compra. Um lugar onde até mesmo a amizade é uma mercadoria de preço alto...
Após mais um breve momento de reflexão e silêncio, a cigana continuou:
– Entre a cidade e o campo há uma linha tênue que divide o progresso da inocência, separando esses dois mundos em partes bastante antagônicas. Ambos têm seus encantos. No entanto, segundo um antigo rei bastante sábio: “Há um tempo para tudo nesta vida...”, e meu tempo na cidade se findou. Para uma pessoa da minha idade e com minha experiência de vida, a cidade já não mais me seduz como antigamente. A meu ver, atualmente, nas grandes cidades, há uma onda de ceticismo e de generalizada descrença entre as pessoas. Uma verdadeira falta de confiança em tudo e em todos. Um misticismo grosseiro, disfarçado de progresso, afasta as pessoas das crenças e dos meios religiosos de seus antepassados. Remédios, benzimentos, bênçãos e preces já não recebem mais o crédito de outrora. A cidade vive um tempo de pouca fé, onde reina a incredulidade tanto nas questões espirituais quanto na própria humanidade.
Hoje, o que me resta é poder usufruir dessa paz que só o campo pode me oferecer. Devo lhe confessar que, ao perceber que Darquinha está em boas mãos, sei que posso descansar em paz. Sei que, ao me ver sorumbática, talvez isso lhe cause algum desconforto, ao pensar que não estou feliz. Mas quero que saiba que estou vivendo uma velhice plena; nem mesmo minha cegueira me incomoda mais. Mesmo não podendo contemplar Gardênia com meus próprios olhos, ainda assim posso vê-la com o meu coração quando toco sua face e ainda posso ouvir seu riso fácil...
Essa foi a última conversa que aquela varanda presenciou entre aqueles dois grandes pensadores. Na madrugada daquela mesma noite, Madame Staell deu seu último suspiro, prestando contas ao infinito ao entregar sua vida ao desconhecido. Morreu em paz, sem nada reclamar; apenas se deitou e, ao raiar os primeiros sinais de um novo dia, já não vivia mais. Depois de quase três anos vivendo ali, naquele ermo lugar, eles conseguiram cultivar a amizade de todos que viviam ao redor. Madame Staell era visitada quase sempre por aqueles que ansiavam pelos místicos e sábios conselhos que ela dava. Muitos tinham muita fé na sabedoria da velha cigana, que logo, sem muito esforço, conseguiu angariar o respeito e a amizade de uma grande quantidade de admiradores. Seu velório foi um grande acontecimento na região; a casa de Pai Thomás ficou tomada de pessoas durante todo o dia e pela noite afora, até o momento em que o cortejo levou o corpo da outrora belíssima cigana Sarah – que abalara muitos corações em sua juventude – agora finada Madame Staell, para seu último descanso.
Como era sua tutora e conselheira, e desde que Darquinha ficara órfã fazia às vezes de mãe, em muitas ocasiões, em momentos de intimidade, Madame Staell sempre conversava com Darquinha por meio de gestos sobre diversos assuntos. Dentre eles, estava o tema de sua própria passagem, quando isso viesse a acontecer um dia. Embora Darquinha fosse bastante avessa a esse tipo de conversa, a cigana insistia, dizendo que aquela era uma certeza inquestionável; por mais que pudesse ser adiada, de forma alguma poderia ser evitada. Com gestos carinhosos de afago e conforto, ela dizia à sua amada e protegida que o fim sempre chegava para todos e que a única coisa ao nosso alcance era tentar estar preparados para esse momento tão doloroso. Tal como o sol que se põe todos os dias e renasce ao amanhecer, da mesma forma, todos os dias alguns morrem para que outros nasçam. Não se deve temer aquilo que é inevitável; o melhor a se fazer é resignar-se com as imutáveis leis da natureza. Quando a areia da ampulheta de um ser está se esgotando, nada mais pode ser feito. O Tempo é um deus impiedoso e reina sobre tudo e todos...
A pedido da própria cigana, que mais de uma vez havia deixado bastante explícitas a Darquinha algumas instruções sobre o ritual fúnebre de seu povo, seu corpo foi lavado com ervas aromáticas e, logo após ter sido perfumado com óleos especiais, foi vestido com sua melhor roupa, previamente escolhida por ela mesma. Também, pouco antes de morrer, Madame Staell entregou a Darquinha seus pertences mais valiosos como herança, separando para si apenas algumas joias, com as quais foi bastante explícita ao demonstrar seu desejo de que esses adornos deveriam enfeitar seu corpo para sua última viagem. Por fim, juntamente a essas joias, entregou-lhe uma moeda de ouro de aparência bastante envelhecida, que deveria ser colocada em seu caixão para que ela pudesse pagar a travessia do grande rio que separa a vida da morte...
Após o enterro de Madame Staell – que fora sepultada num verdejante prado à sombra de uma frondosa aroeira, próxima à casa onde vivera seus derradeiros anos – Thomás, tendo Gardênia já com dois anos ao colo e acompanhado de Darquinha, retornaram cabisbaixos para sua agora silenciosa morada. Apenas vez por outra, o silêncio era quebrado pela algazarra de Gardênia, que nos primeiros dias corria de um canto a outro chamando pela Baboo – nome carinhoso pelo qual ela chamava a velha cigana. Esse fato causava copiosas lágrimas em Darquinha, que sentia pesarosamente a perda de sua querida protetora. A morte da velha cigana trouxe grande tristeza para aquela casa. Gardênia perdera sua Baboo, Darquinha, sua protetora e fiel confidente de tantos anos, e, por fim, Pai Thomás sentia bastante a ausência de sua companheira de inúmeras noites de reflexões, ensinamentos e incontáveis histórias de um tempo e uma terra que ele não conhecia.
A cigana, que na maior parte do tempo não tinha nenhuma outra pessoa com quem conversar, fazia de Pai Thomás seu melhor ouvinte. Não apenas despejando-lhe palavras sem sentido e proveito prático, mas também transmitindo-lhe grandes ensinamentos de sua secular cultura. Pai Thomás, que além de companheiro para longas noites de profunda reflexão filosófica, tornara-se também um fiel aprendiz, demonstrando grande interesse pelos místicos ensinamentos sobre os misteriosos conhecimentos da sabedoria cigana. Depois de muitas injustiças sofridas e após anos de decepções, imaginando que nada mais pudesse abalar seus sentimentos, a perda de Madame Staell trouxe a Pai Thomás um dolorido pesar. Porém, a tempestade que se anunciava para breve sobre aquelas paragens ainda não havia chegado; a perda da cigana era apenas uma brisa leve em comparação ao que estava por vir.
Os místicos e misteriosos ensinamentos, aprendidos com bastante ênfase e maestria, fizeram com que a casa deles continuasse sendo frequentada pelas mesmas pessoas que vinham em busca dos conselhos e favores místicos da agora falecida cigana, e que agora buscavam obter de Pai Thomás o alento para seus dissabores e incertezas. Thomás, que outrora fora chamado carinhosamente de pai devido à sua progenitura, agora era chamado de Pai Thomás por outros motivos e assim ficaria conhecido até o fim de seus dias...
A tristeza pela perda da sábia anciã, que de alguma forma contribuiu para a felicidade daquele improvável casal, foi se amainando aos poucos com o passar dos dias. As obrigações do cotidiano, as novidades que Gardênia – uma menina esperta e cheia de vida – aprendia a cada dia, mas principalmente o tempo, tornaram a perda da velha cigana mais suportável, a cada dia um pouco menos dolorosa. Logo tudo voltaria ao normal, e os dias se sucederiam de forma comum, como deveria ser na vida de qualquer família. No entanto, parece que existem pessoas que nascem com o sofrimento já inserido no mais profundo de seu ser. De certo modo, pessoas desassistidas pela roda da fortuna tendem a se afinizarem mais facilmente. O sofrimento torna-se um elo muito forte entre aqueles que penam certas adversidades.
Quando Pai Thomás – ainda um negro errante – conheceu Darquinha, algo inexplicável aconteceu dentro dele, um sentimento que até então ele não conhecia. E quando a olhava – às vezes, mesmo que de soslaio – seu peito se apertava a ponto de lhe faltar o fôlego, e foi nessa época que ele soube que sua vida estaria para sempre vinculada a ela. Que sua própria felicidade dependeria do fato de vê-la sempre feliz. Esse sentimento lhe permitiu perceber que havia algo bastante errado com sua amada esposa. Não era só a perda da cigana; havia algo mais. O semblante de Darquinha estava diferente, como se ela padecesse de um sofrimento profundo, que a todo momento tentava esconder. Por diversas vezes, ele tentou, com gestos de carinho e afago, questioná-la sobre o que havia de errado. Ela, por sua vez, sempre gesticulava em negativo, tentando convencê-lo de que tudo estava perfeitamente bem, que era apenas saudade de Madame Staell.
Já havia passado quase dois anos desde a morte de Madame Staell quando Dona Judith – que se tornara visita cativa na casa de Pai Thomás – certo dia o chamou de lado e disse-lhe que havia algo errado com Darquinha. Relatou-lhe que Darquinha sofria de terríveis dores de cabeça a ponto de seus ouvidos sangrarem, mas que ela lhe rogara desesperadamente que nada fosse relatado a ele. No entanto, ao perceber que a cada dia o sofrimento dela se tornava maior, Dona Judith, como mulher experiente, achou melhor esclarecer tudo a Pai Thomás, a fim de que algo pudesse ser feito. A tempestade havia chegado e fazia seus primeiros estragos. Pai Thomás percebeu que a cada dia Darquinha estava mais pálida e demonstrando profundo padecimento. Ele tentou tudo o que havia aprendido com a velha cigana, mas parecia que nada adiantava. De certo modo, até se arrependeu de não ter aprendido mais, lembrando-se das palavras da cigana: “... Conhecimento e saberes nunca são demasiados, e, em algum momento, aquilo que se aprende poderá ser útil de alguma forma. No entanto, mesmo com todo o conhecimento do universo, um verdadeiro sábio tem o discernimento necessário para saber que algumas coisas não são possíveis...”.
Os dias foram se sucedendo, e o sofrimento de Darquinha aumentava cada dia um pouco mais. Seus ouvidos, que outrora apenas sangravam, começaram a expelir um pus denso e fétido, como se algo dentro dela estivesse apodrecendo. Como ela mesma não podia se ouvir, seus gemidos de dor eram tão terríveis e lamuriosos que causavam um desesperador sentimento de piedade em qualquer pessoa que presenciasse toda aquela angústia. Como aquele sofrimento se agravava a cada dia, deixando Darquinha acamada, Dona Judith já não mais se afastava de seu lado, tentando de todas as formas amenizar seu sofrimento, ajudando-a em suas necessidades íntimas, bem como nos afazeres domésticos. Gardênia também já estava sob cuidados alheios, pois Pai Thomás já não era mais senhor de si. Em angustiante desespero, percebeu que de forma alguma poderia sobreviver à morte de sua amada e estava disposto a fazer qualquer coisa para salvá-la.
Numa determinada noite de calor intenso, o sofrimento tomou conta de vez daquela casa. Darquinha, que a cada dia tinha o semblante mais doentio, perdia um pouco mais de sua vitalidade de forma gradativa, e em menos de uma semana tornara-se uma criatura grotesca de ser contemplada, um ser com um pé na sepultura, já de tal forma tão decrépita que ninguém seria capaz de dizer se ela estava saindo ou entrando em sua última morada. Sua dor era tamanha que ela gemeu a noite toda, sem poder dormir um minuto sequer. Thomás velou por ela a noite inteira, vendo sua amada padecer de tão grande dor. Ao contemplá-la de perto, pôde perceber quão grave era a situação de sua esposa. Era como olhar para a morte face a face, tão de perto que seria facilmente possível beijá-la nos lábios. Depois de horas de terrível angústia e sofrimento, o dia enfim chegou, mas passou depressa, dando lugar a outra noite de agonia, que não foi tão diferente da anterior.
As coisas acontecem em três níveis principais na experiência humana: boas, ruins e terríveis. À medida que se desce na crescente escuridão em direção ao terrível, fica cada vez mais difícil discernir essas subdivisões. A condição de saúde de Darquinha já estava no nível terrível... Depois de três noites seguidas, praticamente sem pregar os olhos, num sentimento de terrível impotência por nada mais poder fazer, Pai Thomás, em murmurante monólogo, se perguntava:
– Quanto tempo sua amada ainda haveria de sofrer antes de chegar seu fim? Quanta lástima ainda ele teria que enfrentar? E o pior de tudo, como seria sua vida sem a razão de seu viver?
Num átimo de desespero, suas mãos começaram a tremer, e de repente ele se sentiu tomado por uma profunda compaixão e uma raiva cega contra toda aquela pestilência, aquela dor constante e aquele infindável sofrimento; a fragilidade de um corpo humano contra a corrupção monstruosa e abominável da morte. Dentro dele revezavam-se terríveis arrebatamentos de exaustão e desespero. Uma explosão de incontrolável cólera e pensamentos histéricos tomava o controle de seus nervos. E, muito próximo a um ataque de fúria, ouviu a sábia voz de Dona Judith atrás de si.
– Tenha fé, Thomás. O senhor é um homem sábio e possuidor de grande raciocínio. Sabe melhor do que ninguém que é justamente nos momentos mais sombrios que brilha a verdadeira luz da esperança. Não deixe o ódio tomar conta de seu coração. O desespero cega as pessoas e as torna surdas e cegas perante as mensagens que o infinito nos envia. Abra sua mente e abrande seu coração. Lembre-se de que para tudo nesta vida há uma razão. Creia que Deus, em sua infinita bondade e misericórdia, tem um propósito para tudo isso. Seja forte e acredite! Nesse momento, sua esposa precisa de sua força e de sua fé acima de qualquer outra coisa...
Suspirando profundamente para controlar sua fúria e tentar não ser grosseiro com pessoa tão prestativa e bondosa, Pai Thomás, escolhendo as palavras, respondeu:
– A crença em Deus ou numa força superior é algo bem maior do que simples palavras. É uma questão de um raciocínio privilegiado, pois se trata de entender o amor divino pela humanidade. Como posso aceitar essa verdade se não consigo ver esse amor dentro de minha própria casa? Nesse momento de desespero, parece que já não sei mais nada. Nem mesmo qual é o meu dever. Como posso cumprir minhas obrigações, se já nem sei quais são...
A alma de Pai Thomás não estava apenas triste e com medo, mas aterrorizada, querendo se esconder no lugar mais profundo de suas entranhas, como uma criança abandonada numa floresta escura e desconhecida, numa noite de tempestade. Mesmo assim, ele ainda conseguiu forças e disse:
– Qualquer homem é fraco perante aquilo que ele não pode compreender. Sei que, diante de uma situação sem solução, é preciso buscar forças pelo menos para se resignar. Mas, perante o mais profundo desespero, como saber qual atitude é a mais conveniente? Onde posso conseguir forças para enfrentar a mais inquietante das questões da humanidade?
Tomada de grande compaixão por toda aquela situação, Dona Judith lhe respondeu.
– Sei que está com medo. Não há vergonha no medo; o que verdadeiramente importa é o modo como enfrentamos nossos medos... O senhor deve estar preparado para o que está por vir. Sei que a morte é extremamente triste, sem dúvida, e talvez bastante incompreensível para os que ficam. No entanto, à sua maneira, a morte é o fato mais natural para todo aquele que vive. De certa forma, é até mesmo um alento para aqueles que padecem de algum mal irremediável, pois pode trazer o conforto que a vida não pode mais oferecer. A vida é uma inexorável luta entre o bem e o mal, onde o bem nos oferece aquilo que nos é necessário na hora devida, enquanto, por sua vez, o mal, de forma bastante sedutora e imediata, tenta nos presentear com aquilo que desejamos.
Já não conseguindo mais processar nenhuma palavra coerente, pois o que dizia já não fazia mais sentido, ele, que não tinha mais forças para responder qualquer coisa que fosse, colocou suas enormes mãos sobre o rosto e chorou de forma bastante dolorida. Pai Thomás certamente não seria o primeiro homem a se deparar com o obscurantismo do abismo das incertezas após terríveis momentos de sofrimento. E ali, perdido entre suas lágrimas, chegou a desconfiar de sua própria sanidade, perguntando a si mesmo se todo aquele sofrimento chegaria ao fim em algum momento... Percebendo o tamanho de seu desespero, deixou sua casa e saiu caminhando sem destino certo, cambaleando trôpego como se fosse um bêbedo entre a relva.
Depois de um longo dia de calor escaldante, a noite chegou clara e límpida. A lua crescente brilhava radiante num lindo céu de estrelas pintalgadas, tão radiante como se não tivesse de contemplar nenhuma desgraça. A relva, refrescada pela leve brisa da noite, estava em plena exuberância, exalando infinitos odores diferentes. Pai Thomás foi em busca de um pouco de paz. Não queria mais ouvir nada que Dona Judith pudesse lhe dizer, nem mesmo responder qualquer coisa que fosse. Ao longo dos anos, descobrira que o silêncio, por vezes, recompensa bem mais do que certas perguntas. Caminhou por quase uma hora pela relva fresca, ao som das criaturas da noite em sua permanente serenata, até o momento em que, já cansado de tanto andar, se prostrou de joelhos.
Naquele instante, de joelhos na relva e de braços abertos aos céus sob o silêncio das estrelas, um grito enorme escapou de dentro dele. Um som lamurioso e angustiante, provindo do fundo de sua alma, suficientemente alto para ecoar pelas árvores e certamente forte o bastante para acordar qualquer criatura deste mundo, seja dentre aqueles que vivem ou até mesmo alguns outros. Com aquele som angustiante, a floresta momentaneamente se calou por completo. No entanto, um farfalhar de folhas se movendo foi ouvido por ele, e, do meio das sombras, ela surgiu como uma luz nas trevas.
Quando Pai Thomás olhou ao seu redor, viu uma bela mulher como nenhuma outra que já tivesse visto. Uma tiara cravejada de joias brilhava entre os seus longos e cacheados cabelos dourados, que ali, na escuridão da noite, pareciam brilhar ao sabor do vento. Dentre as brilhantes pedrarias em seus cabelos, destacavam-se belíssimas esmeraldas que combinavam perfeitamente com o verde de seus olhos, que também pareciam emitir um brilho hipnotizante. Essa estonteante criatura trajava um alvíssimo vestido de cor azul-clara, de um tecido de tamanha transparência que quase todo o seu corpo desnudo era possível de ser contemplado.
Antes mesmo de Pai Thomás poder dizer qualquer palavra, aquela bela criatura lhe estendeu uma delicada mão de dedos afilados que terminavam em unhas bem cuidadas, pintadas num vermelho cor de carmim, tal como era a própria cor de seus lábios, que também emitiam um brilho de intensa volúpia. Mesmo na penumbra da noite, ele pôde perceber que a palma daquela mão delicada era fria e totalmente lisa. Não havia ali nenhum traço das linhas do destino. Talvez porque ela fosse uma espécie de criatura sobre a qual o destino não tinha poder. Ou, quem sabe, fosse ela mesma o próprio destino. Pai Thomás, ainda de joelhos, a contemplava em completo fascínio, quando a ouviu dizer numa voz doce e sedutoramente agradável:
– Suas preces foram ouvidas, angustiado ser.
– Não fiz nenhuma prece – respondeu Pai Thomás, ainda de joelhos.
– Qualquer ato pode ser uma prece, desde que seja desempenhado de forma pura e inocente, principalmente se for em benefício de alguém que tristemente padece...
Levantando-se de forma bastante cautelosa e ainda fitando a criatura nos olhos, ele perguntou:
– Apenas diga-me, quem é você?
– Na verdade, não é quem sou, mas o que sou! Por ora, basta que saiba que sou tão antiga quanto as primeiras trevas, de uma época tão remota que nem a luz ainda brilhava... Sou aquela que liberta os que padecem nas garras do destino. Sou a paz para os que vivem em tribulação, descanso para os desesperados. Sou a solução para toda e qualquer questão. Sou a sorte do apostador que nada mais tem a perder. Tudo é possível para quem está disposto a pagar. No entanto, nada neste mundo nem no outro é dado de graça; tudo tem o seu preço. Se estiver disposto a pagar um preço justo, qualquer desejo seu posso realizar.
Em completo desespero e vendo uma possível luz no fim do túnel, Pai Thomás respondeu:
– Qualquer coisa para findar com todo o sofrimento que aquela que mais amo padece.
A bela criatura, utilizando-se ainda de meigas palavras, mesmo que de forma bastante astuta como a velha serpente outrora fizera, tentou dissuadi-lo de seu desesperado desejo.
– Cuidado, lamurioso ser, com aquilo que desejas. Existem preços muito altos para um homem pagar, dívidas duras demais para serem saldadas em uma única existência.
– Nada neste mundo cruel pode ser mais valioso do que o fim do terrível sofrimento daquela que amo mais do que minha própria vida. A eternidade de minha alma é um preço mais do que justo pelo fim de toda a dor daquela que deu um verdadeiro significado à minha existência.
Ao terminar de pronunciar essas palavras, Pai Thomás percebeu que algo terrível havia alterado o ambiente ao seu redor. Um medo terrível tomou conta de todo o seu ser ao perceber que havia trevas ao redor. Nem mesmo o céu, que outrora estivera límpido e estrelado, era mais possível de ser contemplado. Um cheiro fétido empesteava todo o ar, e seu corpo se arrepiou por completo ao ouvir as últimas palavras daquele estranho ser.
– Está consumado!
A voz que se ouviu, num quase sussurro, soava mais como o grasnido seco e raspante de alguma coisa há muito tempo morta, proveniente de uma criatura que jamais poderia ser contemplada pelos olhos dos vivos, pois certamente tal visão levaria qualquer um à mais completa insanidade ou até mesmo à morte para aqueles de espírito mais sensível. Pai Thomás não chegou a tanto, mas, como estava com os nervos bastante abalados, ao contemplar a criatura que estava diante dele, teve um grande sobressalto, perdeu os sentidos e foi tomado por um sono profundo, onde sonhou que caía num infinito abismo... Porém, mesmo nos sonhos, não é possível cair para sempre, mas Pai Thomás queria continuar caindo, se possível para todo o sempre, pois sabia o que o aguardava no final de sua longa e angustiante queda.
Depois do que pareceu ser um longo tempo, despertou daquele inquietante sonho. A noite já estava com o frescor que anunciava as horas tardias. Uma brisa fresca soprava de tempos em tempos. A relva adormecida era iluminada pela luz de uma meia-lua que já se encaminhava para o poente. No céu, as estrelas ardiam nítidas e silenciosas, reinando sobre um firmamento de infinitas dimensões. Rapidamente, ele se levantou e, sem mais delongas, retornou a passos rápidos para casa, como se, no mais profundo de seu ser, soubesse que nada mais seria como antes. Mesmo estando ainda ao longe, ao ver a estranha movimentação na porta de sua casa, soube que o pior havia acontecido. Nem foi necessário perguntar o que ocorrera, pois sabia ele que qualquer um que se dispõe a fazer uma pergunta deve estar sempre preparado para qualquer resposta.
Pai Thomás foi tomado por um terrível desespero, e, por mais que tentassem de todas as formas possíveis lhe explicar que Darquinha estava morta, ele se negava a acreditar. Insistentemente, diziam-lhe que ela agora estava em paz e que essa era a ordem natural das coisas. Para um ser vivo, a morte era inevitável. Ele, que praticamente já não era mais senhor de si, foi o único que viu quando uma graciosa criança de belos cabelos encaracolados e vestidinho rodado saiu dançando da alcova onde o corpo de Darquinha repousava. Passando perante ele em direção à porta de saída, ainda bailando alegremente, ela disse com uma doce e melodiosa voz que somente ele pôde ouvir:
– Seu desejo foi realizado. Sua amada não padece de mais nenhum sofrimento...
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Inconsequente Desejo
O dia parecia bastante promissor naquela bela manhã de sol, onde pássaros cantavam alegremente nas árvores pelo caminho, criando um...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
“Aquilo que você confunde com a loucura é apenas um excesso de agudeza dos sentidos.” — Edgar Allan Poe
O dia parecia bastante promissor naquela bela manhã de sol, onde pássaros cantavam alegremente nas árvores pelo caminho, criando um fundo musical primaveril, enquanto o Doutor Ulisses se encaminhava para mais um dia de enfadonho atendimento no posto de saúde, onde era médico plantonista, atuando como Clínico Geral. Ele atendia desde os casos mais simples de pessoas hipocondríacas até as situações mais complexas e terminais, mas sempre com diagnósticos muito parecidos – nove em cada dez casos, o diagnóstico era sempre virose – e o tratamento consistia em dipirona, repouso, e, nos casos de pacientes mais afoitos – ou os espertinhos em busca de atestado médico – soro na veia. A quantidade de soro dependia do comportamento do paciente durante o atendimento. Dependendo do caso, o atestado médico só era liberado após horas de medicação intravenosa – na maioria das vezes, apenas soro e nada mais. Doutor Ulisses era formado em medicina e especializado na prática da malandragem; era o tipo de pessoa que não se deixava enganar facilmente. Malandro de carteirinha, sabia quando alguém estava apenas fingindo algum tipo de mal.
Aquele dia, em questão, era uma sexta-feira, e a recepção do posto de saúde estava apinhada de gente. Na visão de Doutor Ulisses, a maioria estava em busca de um atestado médico que lhes permitisse ficar na boemia durante o final de semana, sem ter que cumprir suas funções em seus respectivos empregos. É certo dizer que muitos ali presentes realmente estavam padecendo de algum mal, mas para o bom doutor, todos eram uns pilantras tentando enganar seus patrões. Ele sempre fazia questão de entrar pela porta da frente, cumprimentando polidamente todos que cruzavam seu caminho. Era, por sua vez, um homem fino e bastante educado com todos, sem exceção. Como todo bom malandro.
Seu atendimento, dependendo do paciente, jamais demorava mais do que quinze minutos, a menos que fosse uma mulher bonita, especialmente se ela estivesse sozinha. Nesses casos, o atendimento era mais detalhado e bastante demorado. Contudo, na maioria das vezes, ele atendia de cabeça baixa, fazendo as perguntas de praxe, auscultava o paciente, media a pressão e a temperatura e, após alguns minutos escrevendo – sabe-se lá o quê – logo apresentava o diagnóstico. Exames eram algo raro de acontecer – em muitos casos, era o próprio paciente quem os exigia – e, quando aconteciam, o diagnóstico permanecia sempre o mesmo: virose! Por Deus ou mera sorte, nenhum paciente atendido por ele havia morrido ainda. Era, sem sombra de dúvidas, um profissional bastante negligente em suas funções. Talvez por isso mesmo pensasse que todo mundo agia como ele. Assim que chegava ao trabalho, assinava seu ponto para uma jornada entre as oito da manhã e as dezesseis horas, com duas horas de almoço. No entanto, era raro o dia em que ele retornava às suas funções após o almoço, uma vez que contava com a conivência de outros funcionários do posto de saúde, que, assim que possível, faziam o mesmo.
Naquele dia, após vinte ou trinta atendimentos, talvez até um pouco mais, já se aproximando do meio-dia, decidiu que seu expediente se daria por encerrado assim que atendesse uma senhora que tossia quase sem parar. E, uma vez que avisara uma das atendentes que sairia para almoçar em seguida, solicitou que a humilde senhora adentrasse seu consultório. Essa, por sua vez, teve o atendimento mais rápido de sua vida. Quando questionada sobre o que a incomodava, ela relatou falta de ar, cansaço excessivo e uma tosse que não cessava com nada. Ele nem ao menos fez os exames básicos de praxe, apenas lhe deu uma receita contendo dipirona em caso de dor e febre, xarope contra a tosse e a recomendação de que parasse de fumar. A paciente, que saiu do consultório cabisbaixa e ainda tossindo muito, jogou a receita na primeira lata de lixo que encontrou e, ainda no pátio do posto de saúde, acendeu um cigarro, que, já na primeira tragada, aumentou ainda mais a tosse que lhe tirava o fôlego. Doutor Ulisses, que assistiu a tudo pela janela de seu consultório, balançou a cabeça negativamente e pensou consigo mesmo: – Como ajudar alguém que não quer ser ajudado?
Despediu-se da atendente que o auxiliava naquele dia, sem dizer se voltaria ou não. Ela entendeu que só o veria novamente na segunda-feira, pois ele, muito gentilmente, havia lhe desejado um bom final de semana e, após retirar seu jaleco de atendimento, o colocou no cesto de roupas sujas. Decidiu que, naquele dia, iria almoçar em algum lugar no centro da cidade; depois, talvez assistisse a um filme no cinema ou, quem sabe, até mesmo fizesse um passeio no parque. Teria toda a tarde livre para si, sabendo que a enfermeira que cuidava de sua mãe só iria embora após as sete da noite, deixando sua mãe limpa, alimentada e dormindo profundamente. Ele mesmo havia prescrito a medicação que sua mãe tomava, após ter sido diagnosticada com Alzheimer. Tais remédios faziam com que sua mãe passasse toda a noite dormindo em sono pesado, quase como em coma profundo.
Doutor Ulisses aproveitou sua tarde como se não tivesse nenhuma responsabilidade. Imaginou-se um rajá árabe, onde suas únicas preocupações fossem o cardápio do jantar e o vinho que poderia harmonizar com a comida escolhida. Almoçou em um requintado restaurante, servindo-se de lagosta com salada e um encorpado Chardonnay, que muito agradou seu paladar. Após esse grandioso repasto vespertino, saiu caminhando em busca de algo que lhe ocupasse o tempo. Foi ao cinema, mas assistiu apenas aos primeiros vinte minutos, dormindo pesadamente durante o restante do filme, sendo necessário ser acordado pelo lanterninha, que precisava da sala para a sessão seguinte.
Ao sair do cinema, fez o que costumava fazer quase todas as noites: sentar-se em algum botequim e afogar as mágoas – que ele mesmo não tinha – num copo de bebida qualquer. Não tinha preferências por nenhuma bebida em especial; bebia qualquer coisa que lhe era oferecida, apenas tentava harmonizar com o clima: dias quentes, bebidas frias; dias frios, bebidas quentes, e assim por diante. Nos bares que frequentava habitualmente, já estava ficando manjado, pois, vez ou outra, algum paciente que não havia conseguido atendimento por falta de médico no posto de saúde o flagrava bebendo em horário de trabalho – um fato que o incomodava, mesmo que o paciente agisse com máxima discrição. Sabendo disso, decidiu que naquele final de tarde de sexta-feira buscaria refúgio em algum bar distante e desconhecido, onde certamente não seria reconhecido por ninguém.
Após pegar um táxi no centro da cidade, pediu ao motorista que o levasse a algum bar bem distante. Deu as coordenadas de forma que seu destino ficasse do outro lado da cidade, bem longe de seu posto de trabalho. O taxista, ávido por uma corrida mais vantajosa naquela fraca tarde de sexta-feira, seguiu à risca as orientações de seu nobre passageiro e o levou a uma parte bem distante de onde se encontravam: um bairro antigo, cheio de velhas construções que davam a impressão de serem do século passado. Enormes casarões e inúmeros galpões onde, certamente, todo tipo de atividade era praticada, desde simples fábricas até empresas de importação e exportação. As ruas estavam um tanto desertas para uma sexta-feira, em comparação ao movimento da parte da cidade em que ele residia. Quando quis questionar o fato com o taxista, este lhe respondeu que ali era um lugar bastante movimentado, mas, como era um bairro operário, naquele momento as pessoas ainda estavam no trabalho.
Por fim, chegaram a uma avenida um pouco mais movimentada e, depois de algumas quadras, pararam em frente a um animado bar, onde se lia numa placa em neon já brilhando, mesmo no clarão do final da tarde: Bar Sossego dos Amantes. O motorista, bastante orgulhoso em mostrar-se um exímio conhecedor da cidade onde trabalhava, disse por fim:
– Aqui, doutor, o senhor poderá ficar à vontade. Não existe em toda a nossa cidade um lugar mais discreto que este. Se quiser me ligar mais tarde, quando quiser voltar para casa, fique à vontade. Nas noites de sexta-feira, eu rodo a noite toda. Poderei vir buscá-lo a qualquer hora.
Dizendo isso, lhe entregou um cartão e, após receber a faustosa corrida, foi-se embora feliz da vida por saber que havia deixado mais um cliente satisfeito. Doutor Ulisses, ao entrar no bar, ficou realmente satisfeito, pois era um ambiente bastante agradável. Havia mesas por todos os lados, colocadas de forma estratégica para garantir privacidade a quem assim o desejasse. Contudo, ele se dirigiu ao imenso balcão de madeira maciça, que parecia caprichosamente polido. Sabe Deus se por uma caprichosa lixa ou por incontáveis braços que ali estacionaram por décadas a fio. Assim que se sentou, uma bela jovem de uns vinte e cinco anos no máximo – talvez até um pouco menos – veio logo atendê-lo. Ele ficou boquiaberto com a beleza da jovem, a ponto de momentaneamente perder a fala. Ela, já acostumada com tais reações, se apresentou, estendendo-lhe uma mão de unhas bem-feitas, pintadas num tom de vermelho, e dizendo com um belo sorriso de dentes perfeitos e num branco impecável:
– Boa noite, nobre cavalheiro! Seja bem-vindo ao nosso humilde estabelecimento. Meu nome é Eleonor, e quero que saiba que é um prazer poder conhecê-lo. Estou aqui hoje para servi-lo da melhor maneira possível! O que vai beber?
– Boa noite! Meu nome é Ulisses, e o prazer é todo meu! Pensei em tomar uma cerveja, mas posso beber qualquer outra coisa que você me sugerir – respondeu ele.
– Cuidado, Senhor Ulisses! Já vi muitos homens se perderem completamente, seguindo sugestões de mulheres como eu.
Ele de imediato respondeu:
– Como assim? Por que mulheres como você? O que tem de errado com você? São seus belos olhos? Ou o seu sorriso encantador?
– Atendentes de bar! Foi o que eu quis dizer. Sabemos bem como deixar um homem babando de bêbado em alguns minutos, se isso nos aprouver. Ou podemos também depená-lo por completo, servindo-lhe as bebidas mais caras da casa. Quanto aos meus olhos, obrigado pelo elogio. Mas são um presente do meu falecido pai, que perdeu a vida no mesmo acidente que deixou minha mãe inutilizada da cintura para baixo. Além dos olhos, meu saudoso pai também me deixou a sábia lição de sorrir todos os dias, em toda e qualquer situação. Ele sempre dizia: “A vida é um leque de oportunidades, devemos a todo momento aproveitá-las ao máximo!”.
Uma enorme caneca de chope lhe foi servida, acompanhada de mais um sorriso bastante inocente. Doutor Ulisses teve a certeza plena de que se daria muito bem naquela noite, e que muito possivelmente não retornaria para casa. O ambiente foi aos poucos ficando movimentado. Havia mais duas outras garçonetes que se ocupavam dos demais clientes. Contudo, somente ela o servia. Entre uma bebida e outra, os dois trocavam algumas palavras – ele muito gentil, e ela sempre sedutora. Por volta da meia-noite, ela lhe disse que sua hora estava chegando, pois precisava ir cuidar de sua debilitada mãe. Devido à sua triste realidade, sua mãe só se alimentava depois que ela chegava do trabalho. Ele, já bastante alto devido ao excesso de bebida, disse-lhe:
– Pensei que poderíamos beber alguma coisa depois do seu expediente. Gostaria muito de te conhecer melhor!
– Tenho certeza de que você não iria gostar de saber quem eu realmente sou! Sou uma pessoa difícil de lidar, e além do mais, tenho minha mãe que depende de mim até mesmo para lhe levar o seu próprio alimento. Não quero lhe magoar, doutor. O senhor me parece ser uma boa pessoa. No final, eu acabaria por devorar seu pobre coração.
Ele, que tinha uma mãe em condições semelhantes, sentiu-se ainda mais atraído por alguém que se preocupava em levar o alimento para casa antes de qualquer coisa, preocupando-se em manter a mãe bem cuidada, em detrimento de seu próprio lazer. Naquele momento, decidiu que aquela bela jovem de olhos claros e belos cabelos ruivos como um entardecer tinha todas as qualidades necessárias para ser a futura mãe de seus filhos. Apenas não se recordava de ter mencionado a ela que era médico, mas percebeu que esse mero detalhe era uma simples bobagem. Com muito garbo, ofereceu-lhe companhia até sua casa, dando-lhe sua palavra de que se comportaria como um distinto cavalheiro. Ela lhe respondeu com um sorriso bastante encantador:
– Se é de sua própria vontade acompanhar uma pobre donzela ao seu humilde lar, desde que me prometa que não irá se assustar com nada que porventura venha presenciar em minha casa, será muito bem-vindo. Como disse ao senhor, tenho uma mãe acamada que necessita de cuidados especiais, principalmente à noite. Se for de seu agrado, poderá me ajudar a preparar o jantar para ela. Tenho certeza de que mamãe estará faminta.
– Tem minha palavra de que serei bastante discreto. Como você bem sabe – ainda não sei como soube – eu sou médico, e nessa profissão todos os dias vemos todo tipo de coisa. Não sei se mais alguma coisa nesta vida poderia me assustar – disse ele de forma bastante positiva.
– Se o senhor é quem diz. Apenas não me diga que eu não o avisei.
Caminharam por umas dez ou doze quadras até chegar a um outeiro, onde havia uma casa assobradada. A construção era afastada das demais, de forma que, se alguém precisasse de ajuda, não poderia ser ouvida, mesmo se a pessoa gritasse a plenos pulmões em busca de socorro. Assim que se aproximaram da varanda, uma luz alaranjada se acendeu de forma automática. Doutor Ulisses percebeu que era uma casa bem cuidada. Simples, mas com um asseio impecável. Eleonor, ainda na porta, parou por um instante e, antes de abri-la, ainda o questionou com um meigo olhar de alguém que sabe que algo poderia ser evitado:
– Tem certeza de que deseja entrar, doutor? O senhor ainda é jovem...
Ele, que caminhara parte do caminho, às vezes seguindo-a, outras vezes analisando suas belas curvas, decidiu que nada neste mundo o impediria de entrar na casa dela, e, uma vez lá dentro, tentaria de todas as formas lhe fazer a corte. Ele já havia acompanhado outras garçonetes até em casa antes, e, mesmo depois de certa relutância, tinha terminado a noite na cama de algumas delas – é certo que nem todas. Contudo, com Eleonor, ele sentia que algo bastante extraordinário poderia vir a acontecer. Pediu licença e foi logo entrando. Não ouviu latido nem qualquer outro som de um cão, mas sentiu um forte odor de cachorro molhado. Eleonor, assim que entrou, trancou a porta atrás de si e o conduziu à alcova onde sua mãe estava. O aposento estava bastante escuro, mas, mesmo assim, ele se aproximou do leito em que ela estava deitada. Primeiro, ouviu um breve rosnado, depois outro barulho estranho, como se houvesse um cão no recinto que o farejava. Por fim, quando a luz foi acesa, sentiu uma forte pressão nas costas e, logo depois, uma dor lancinante que nunca havia sentido antes. Quando olhou para o local de onde a dor se originava, viu que uma garra enorme saía de seu peito, com algo pulsando entre as enormes unhas. Pela primeira e última vez, viu seu coração pulsando bem diante de seus olhos. Deitado numa cama logo à frente, havia um enorme lobo com uma bocarra arreganhada, cheia de dentes brilhantes e afiados. Ele ainda conseguiu perceber que a parte inferior daquela monstruosa criatura estava coberta com uma colcha. Em seu último suspiro, antes que tudo ficasse escuro de uma vez por todas, ainda pôde sentir uma pegajosa língua passando pelo lóbulo de sua orelha e ouvir algo sendo sussurrado ao pé do ouvido:
Falta de aviso não foi! Eu disse que mamãe precisava ser alimentada...
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Hereditário: Parte II, Darquinha — Capítulo III: Desmerecimento
Bem antes de o sol nascer, Madame Staell já estava de pé, preparando um forte café preto para iniciar…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Bem antes de o sol nascer, Madame Staell já estava de pé, preparando um forte café preto para iniciar aquele dia que, ela sabia, seria longo e muito tumultuado. Darquinha ainda dormia tranquilamente naquele momento, depois de dolorosas lágrimas e muitas lamentações. Os suspiros e gemidos que emitia vez por outra demonstravam um imenso cansaço – o sofrimento consegue levar qualquer ser vivo à mais profunda exaustão. Seu vestido sujo de sangue havia sido lavado com suco de limão e já secava num pequeno varal dentro da barraca. Todo e qualquer vestígio que pudesse de alguma forma ligá-la ao crime em si havia desaparecido por completo. Com a morte de seu tio Nicolas – acusado injustamente do assassinato de Vladimir – o assassinato do faquir tinha sido solucionado. Madame Staell, que esteve bastante preocupada com o semblante de Darquinha e a possível desconfiança de seus companheiros pela tristeza dela, agora estava bem mais aliviada. Afinal, a jovem acabara de perder, de uma forma bastante violenta e covarde, seu único parente vivo. Mesmo com todos os defeitos que seu tio Nicolas pudesse ter, ainda assim, era o irmão de seu amado e saudoso pai. Sendo assim, ela poderia chorar à vontade e lamentar como quisesse seu luto.
Tanto Vladimir quanto Nicolas Benetti foram enterrados naquele mesmo dia. O velório de ambos fora simples, sem muita cerimônia, apenas as exéquias necessárias – exigência feita por parte da autoridade eclesiástica. A mulher que também perdera a vida naquela fatídica confusão fora velada e enterrada com toda a grandeza de uma pessoa de altíssima posição. Toda a cidade – até mesmo quem não simpatizava com ela – chorou pela sua morte. No fim da tarde, – na hora do ângelus – os sinos da igreja repicaram de forma tão triste que a qualquer um causaria um aperto no peito. Naquela noite, não houve espetáculo – pois até mesmo a quermesse fora cancelada – e, por mais uma vez, o circo estava de luto pela perda de dois integrantes ao mesmo tempo, como outrora o fora com os pais de Darquinha, parecendo que uma sombra de tragédia os acompanhasse.
De certa forma, todos estavam abalados com o acontecido – não porque alguém morresse de amores pelos dois companheiros que se foram, mas pela forma como tudo acontecera. O faquir morto pelo próprio instrumento de sua arte – que, juntamente com ele, fora enterrado numa sepultura simples. E o anão, pela violência de seu assassinato – que certamente ficaria impune – também fora jogado numa cova sem muito glamour. Pois aqueles que morrem mortes heroicas ou pelas mãos do destino trágico são eternamente lembrados. No entanto, ladrões, bêbados e todos os covardes são rapidamente lançados nas valas do esquecimento.
No provérbio: “... há males que vêm para o bem...” há mais verdade do que se imagina. No caso da perda de dois outros integrantes do circo, esse trágico fato tornara-se muito conveniente para as pretensões do dono do circo, que naquela mesma noite de tristeza e lamentação decidiu de uma vez por todas colocar um fim naquele artístico empreendimento. Estando recluso em seus aposentos, por mais de uma vez contou suas economias, e com determinada resolução decidiu que, no dia seguinte, assim que se acalmasse, faria uma reunião com todos seus companheiros e anunciaria sua decisão. De certo modo, ele conseguiu retirar um peso de suas costas e, naquela mesma noite, após fazer e refazer seus planos de poder finalmente retornar para sua terra natal, conseguiu dormir como há muito tempo não fazia.
Se por um lado o sepultamento da querida conterrânea fora prestigiado por toda a cidade, o enterro dos artistas do circo foi vazio e insosso. Darquinha – assim como muitos outros artistas – não quis acompanhar as exéquias de seus companheiros. Madame Staell, além de se fazer presente todo o tempo, com poucas palavras – que ninguém ousou questionar – justificou a ausência de sua protegida no último adeus ao seu tio, dizendo que ela estava muito abalada. A convite da própria cigana, pediu ao negro Thomás que zelasse pela pobre órfã, ficando em sua companhia até que tudo se desse por encerrado. De certo modo, a cigana unia o útil ao agradável. Mantinha sua protegida sob severa vigilância, enquanto tentava aproximar aquele promissor casal. Pois, sabia ela, que dias tenebrosos estavam por vir e que certamente precisaria de um porto seguro, caso a tempestade que se aproximava se mostrasse violenta demais para suas já calejadas forças.
Naquela mesma noite, após o sepultamento de seus companheiros de longa data, como Thomás estivera quase o dia todo na companhia de Darquinha, ele também fora convidado a ficar para o jantar, na tentativa de quebrar o clima de tristeza que se abatera sobre todo o acampamento. Comeram um repasto simples e tomaram um refresco que Thomás buscara na venda, juntamente com figos cristalizados para a sobremesa, que ele trouxera como mimo para Darquinha. Sobre o acontecido, poucas palavras foram ditas. Contudo, Madame Staell percebeu que entre eles um extenso diálogo era travado na constante troca de olhares. De alguma forma, eles já haviam encontrado uma maneira de se entenderem sem precisarem do uso das palavras.
O dia seguinte foi sem graça e sem muitos afazeres. Primeiro porque choveu quase o dia todo, segundo porque ninguém ousou ir até a cidade, que, de certa forma, estava ofendida pelo acontecido e também agora com a presença daquele circo em suas cercanias. Por último, ainda havia um sentimento de perda que pairava no semblante de todos. Com a lama que tomava conta do acampamento e se impregnava até os ossos, e o frio enregelante que a chuva trouxera, todos passaram o dia cada qual em sua barraca, como animais escondidos do inverno em suas tocas. No fim da tarde, a chuva deu uma trégua e, já se despedindo daquele dia, tímidos raios de sol tentavam iluminar aquele melancólico acampamento. Como o tempo dava mostras de se firmar, logo uma grande fogueira foi acesa no meio do acampamento para que, com o calor do fogo e o brilho das chamas, um pouco de animação pudesse pairar sobre eles.
Antes das oito da noite, quando o Sr. Zacky percebeu que todos já haviam se alimentado e todos os afazeres diurnos estavam encerrados, convocou a todos ao centro do acampamento, ao redor da fogueira que ardia incessantemente, e iniciou um longo discurso. Com a voz entrecortada pela emoção, relatou sobre a magnitude daquele circo em tempos áureos nas distantes terras do velho mundo. Com certa nostalgia, relembrou sua infância e a imagem saudosa de seus pais e velhos artistas que já haviam partido. Nesse momento, teve que interromper sua fala, pois a emoção lhe tomara as palavras e as lágrimas lhe turvaram a visão. Enquanto tentava controlar as emoções, foi ovacionado com uma forte salva de palmas e palavras de apoio. Assim que secou seus olhos e novamente já era senhor de si, citou a qualidade de cada um dos presentes e também dos que já haviam partido e, mais uma vez, reafirmou o laço de amizade que sempre houvera entre eles. Com um esforço descomunal, conseguiu reunir a coragem necessária e, ainda com muitas palavras de afeto e eterna gratidão, disse a frase que há tempos já estava ensaiando.
– É com muita tristeza no coração e com uma dor inconsolável no peito que, de minha parte, declaro que minhas atividades nesse circo se dão por encerradas de uma vez por todas.
O silêncio que pairou por um breve momento naquele acampamento foi algo fora do comum; parecia que até mesmo a natureza ao redor, com suas inúmeras criaturas da noite, se calara perante aquelas palavras. Somente o crepitar da fogueira se fazia presente. Um dos gêmeos que, juntamente com seu irmão, fazia parte do grupo de palhaços – cinco ao todo – questionou de forma muito inocente para onde eles iriam. A resposta do Sr. Zacky foi vazia e bastante insossa, como se a responsabilidade pelo circo não lhe dissesse mais nenhum respeito.
– Sinceramente, meu nobre amiguinho, não sei! O que sei é que todos vocês agora são livres para fazerem o que bem quiserem, até mesmo tocarem o circo sozinhos se assim for do agrado de todos. O que estou dizendo é que meus dias de picadeiro acabaram. Amanhã mesmo retornarei para a capital, e de lá, assim que possível, voltarei para a Europa...
Ninguém disse mais nenhuma palavra na presença do dono do circo, que, pela inconveniência do comunicado, se viu constrangido pelos olhares acusadores e de surpresa que de todos os lados lhe eram desferidos. O Sr. Zacky logo se retirou para seus aposentos. Assim que se viram a sós, começaram as discussões e burburinhos. Houve todos os tipos de comentários; desde os mais elogiosos até os de mais baixa infâmia. Depois de muitos reclames e infinitas lamúrias, decidiram que o melhor a se fazer era dar continuidade aos espetáculos, pelo menos por enquanto. A liderança do grupo ficou a cargo do Homem Montanha – dois metros e dez de altura de pura massa muscular muito bem distribuídos em mais de 130 quilos – que, dentre eles, parecia ser o mais versado e confiável para aquela função.
Madame Staell, que por nenhum momento em nada fora consultada, observou tudo em absoluto silêncio, prestando bastante atenção em tudo que estava ocorrendo, mas principalmente em como cada um se comportava perante tudo aquilo. Após perceber que estava sendo ignorada como alguém que já não mais fazia parte daquele grupo, recolheu-se à intimidade de sua barraca e logo, através de gestos, comunicou a Darquinha tudo que estava ocorrendo e lhe disse que, sem a proteção do Sr. Zacky, o melhor que elas poderiam fazer era aproveitar a oportunidade e também deixar o circo, seguindo o infinito ciclo universal de todas as coisas que, da mesma forma que se iniciam, também têm um fim. Disse a sua protegida de uma forma bastante maternal que o Infinito, de alguma forma, nos deixa mensagens de como devemos proceder perante os acasos a que todos os dias somos submetidos. Devemos ter a mente aberta para entender essas mensagens.
Certamente, o trágico ocorrido nos últimos dias era um aviso do universo para que elas – tal qual o próprio dono do circo – seguissem em frente, abandonando o circo. Quando Darquinha lhe questionou sobre como elas poderiam sobreviver longe do circo, Madame Staell a tranquilizou, deixando bem claro que o futuro de ambas estaria garantido, pelo menos por um tempo. O que precisavam era decidir sem muita demora o que fariam e para onde poderiam ir. Sendo elas uma mulher já madura, quase cega, e uma donzela surda-muda ainda bastante jovem, o mundo poderia ser bastante hostil fora do circo e da proteção que elas sempre puderam contar. Mesmo com todas as dificuldades e as inúmeras diferenças que pudessem existir entre eles, ainda assim, aquele grupo sempre fora muito unido perante as adversidades, como se fizessem parte de uma grande família, e ela sempre se sentira muito segura sob a proteção do circo.
Devido a tudo que ela pôde perceber – e através de sua intuição – ela logo entendeu que o melhor a se fazer era buscar refúgio em outros caminhos. Em mais uma noite insone, ela buscou respostas em todas as vias que conhecia. Em todos os meios que consultou, a resposta para sua mais terrível pergunta – "Que fazer?" – era sempre a mesma: um obscuro silêncio. Já na alta madrugada, quando ela, vencida pelo cansaço, conseguiu adormecer, sua resposta veio num sonho ou talvez uma visão – ela não conseguiu discernir ao certo – onde via claramente o negro Thomás e a jovem Darquinha saindo de mãos dadas de uma pequena igreja, ambos vestidos em trajes nupciais, e com o semblante demonstrando uma incontida felicidade. Madame Staell, que tinha sua sensibilidade bastante aflorada, acordou sobressaltada com aquela visão, mas de alguma forma sentiu-se aliviada e com o coração tranquilo em saber como deveria proceder.
Na manhã seguinte, o tempo amanheceu cinzento e bastante frio devido a uma leve garoa que caía sem cessar. O Sr. Zacky fazia os últimos preparativos para sua partida, como se aquela resolução já tivesse sido decidida há bastante tempo. Levava consigo apenas seus pertences mais íntimos em dois grandes baús. E todo o restante de seus bens, deixava para ser dividido em partes iguais entre todos, sem exceção. Madame Staell e Darquinha foram deixadas de lado na divisão daqueles bens. Sem demonstrar muito interesse naqueles inúteis cacarecos e muito menos na forma como seus companheiros procediam perante ela, deu dois tostões para que um dos gêmeos fosse até a cidade em busca de Thomás, pois tinha um negócio importante a tratar com ele. Darquinha, devido a tudo que ocorrera nos últimos dias – tanto sua trágica desventura com o atrevido faquir, bem como a perda não tão sofrida de seu tio Nicolas – mantivera-se fechada em seu particular universo de silêncio e quietude. Seu semblante preocupado e tristonho apenas se alterava na presença de Thomás, que havia se tornado para ela em pouco tempo algo indispensável.
Naquela manhã, Thomás havia conseguido uma diária de trabalho como ajudante de um carpinteiro que estava dando manutenção no telhado da padaria. Assim que recebeu o recado, disse que no final daquele mesmo dia estaria com elas. O dia ainda esteve frio e cinzento por quase todo o tempo. O Sr. Zacky partiu logo cedo em direção à capital e ninguém mais teve notícias dele – certamente conseguiu retornar para o velho mundo. Assim que o dia estava findando, Thomás apareceu na tenda da velha cigana. Havia se lavado e colocado seu melhor traje. O cheiro dele era bastante agradável, lembrava canela, livros antigos e, também, tabaco perfumado, talvez com almíscar. Foi recebido com muito préstimo e bastante alegria por ambas. Por mais que tentasse recusar, foi convencido a jantar com elas. Madame Staell lhe disse que o que tinha a tratar com ele era algo bastante delicado, pois dizia respeito ao destino dos três...
Terminado o jantar, a cigana, com toda a experiência de uma pessoa que já vivera muitos janeiros e enfrentara muitos altos e baixos, expôs-lhe a situação. Primeiro, relatando parte da sofrível história de Darquinha e os trágicos acontecimentos de sua vida até aquele presente momento. Relatou-lhe o quanto ela era cara para ela, tanto pela sua simpatia quanto pela sua inocente fragilidade. Disse ainda o quanto havia se afinizado com sua pessoa, percebendo o quanto ele era um homem de princípios e bastante honrado. Por fim, explanou suas intenções de ambas deixarem o circo e irem viver em alguma cidade mais próspera, quem sabe até mesmo em alguma capital. Após ter gastado bastante o verbo com um rodeio que não parecia ter mais fim, ela decidiu, afinal, lhe fazer a proposta de acompanhá-las. Antes que ele pudesse responder, ou mesmo confundir a proposta, ela lhe relatou sobre sua visão, dizendo ainda que fazia muito gosto em saber que Darquinha seria entregue em boas mãos.
Sendo ele um homem de índole incorruptível, de imediato quis recusar a proposta. Alegou, através de um breve discurso, que havia inúmeras diferenças que os afastavam, mas logo foi convencido por um único olhar que Darquinha lhe desferiu. Ela, mesmo sem poder ouvir nada, entendeu praticamente tudo que fora dito e lhe direcionou um olhar questionador, como se perguntasse: “... não sou digna do seu amor?”. Ele rapidamente tomou suas mãos, beijando-as ternamente e, olhando em seus olhos, disse-lhe:
– Desde o momento em que a vi, é tudo que eu mais quero nesta vida. Eu que não me sinto digno de tanta beleza e simpatia. Se me tornares seu marido, serei para ti o mais gentil dos homens, prometo com toda a força de minha alma amá-la e protegê-la até o fim dos meus dias.
Naquele momento, o mais dorido dos suspiros se ouviu naquela tenda, e lágrimas banharam a face da bela Darquinha como uma torrente que não parecia ter mais fim. Madame Staell concluiu que em toda sua vida jamais presenciara a mais sincera demonstração de amor de um ser para com outro. Naquele momento, o destino daquelas três pessoas foi traçado para todo o sempre.
Menos de um mês depois, já estavam os três vivendo na capital. O circo que ambas deixaram para trás seguiu seu caminho, e nada mais se soube nem sobre ele, muito menos sobre seus integrantes – que, de certo modo, sentiram-se aliviados com a partida da velha cigana e de sua protegida. Thomás e Joana D’arc se casaram numa singela igrejinha no alto do morro na periferia onde se instalaram. Todo o enxoval foi presente da velha cigana, incluindo o alinhado terno do noivo e o belíssimo vestido da noiva. A cerimônia pode até ter sido simples aos olhos de outrem, mas para aquele casal, foi um acontecimento apoteótico. A alegria de ambos era um inquestionável exemplo de que o Amor é realmente um sublime sentimento capaz de tornar o impossível em algo extraordinário, possibilitando a união das mais diferentes criaturas em um único ser.
Os primeiros dias após suas núpcias foram de um total deleite. Contudo, assim que contraiu matrimônio com Darquinha, sentia-se de certo modo hostilizado por olhares perscrutadores e maledicentes. Ele, um negro cinquentão – talvez até um pouco mais velho – ela, uma jovem branca de olhos claros, que teria talvez idade para ser sua filha – quem sabe até mesmo neta. Não era uma relação bem-vista pelas pessoas autoproclamadas "pessoas de bem". Thomás sempre fora um ser de espírito livre e jamais se incomodara com aquilo que diziam dele, afinal, era um negro e ex-cativo vivendo numa sociedade onde, há bem poucos anos, pessoas como ele eram vendidas como uma mercadoria qualquer, e já havia sentido na pele e na própria alma a maldade humana. Mas agora, tudo havia mudado e era o nome de sua amada que estava na boca da raia miúda e desocupada.
Thomás não suportava esses olhares e os cochichos que pareciam inconvenientemente estar em todos os lugares, mesmo na rua, no rosto de desconhecidos. Durante o dia, ele trabalhava duro para arcar com as despesas da casa, que agora tinham aumentado bastante, mesmo com Madame Staell ajudando em parte com algumas contas do lar. À noite, mesmo coberto de carícias de sua adorada companheira – que estava descobrindo aos poucos as delícias do leito – não conseguia dormir direito. E se perguntava por quê. Será que dava tamanha importância a essas pessoas que sempre o olharam com descrédito e certa repugnância? Com certeza não! Pois sempre tivera total resiliência de quem ele era e de onde tinha vindo. A opinião dessas pessoas – consideradas por ele como pessoas de mente vazia – não tinha nenhum peso sobre ele, o deixando até irritado de, às vezes, se deixar perturbar pelos seus hostis olhares. Por ser uma pessoa de índole diferenciada, achava tudo aquilo por demais desprezível. Como algo tão insignificante poderia estar incomodando-o agora? No fundo de sua alma, sabia que não deveria ficar dependendo da aprovação de pessoas que ele mesmo considerava limitadas e de caráter duvidoso.
Pode ser que a profunda desconfiança que sentia das pessoas ao seu redor, e talvez saber que esse sentimento fosse recíproco por parte delas, tivesse exercido uma forte influência em sua decisão de deixar a cidade grande e se estabelecer no campo, distante de olhares curiosos e acusadores. Thomás se viu, pela primeira vez, numa situação em que o simples ato de ir ao mercado tornava-se um verdadeiro suplício, pois vários olhares caíam sobre aquele casal que, na maioria das vezes, estava acompanhado pela velha cigana, já praticamente cega por completo. Em algumas ocasiões, esses olhares indiscretos eram acompanhados por algum comentário ofensivo. De certo modo, a situação começou a ficar insustentável. O trabalho para Thomás começou a rarear e, logo, o senhorio da pequena casa em que viviam solicitou o imóvel de volta, alegando que o havia vendido e que o novo proprietário o desejava desocupado o mais brevemente possível.
A pedido de Darquinha – que irradiava uma tranquila paz de espírito, jamais se deixando abater por qualquer coisa que fosse – Thomás até tentou alugar outra casa. No entanto, além de estar praticamente sem dinheiro, havia a questão da cor de sua pele que o denunciava. Depois de várias recusas, já havia compreendido que sua história era por demais conhecida e que as pessoas, em sua grande maioria, eram más e se regozijavam com a humilhação moral de negros e imigrantes. Por mais que ele, utilizando sua boa oratória, tentasse convencê-los de ser uma pessoa de boa índole, ninguém queria dar ouvidos à conversa de um ex-cativo; desconhecido, sem trabalho e, principalmente, sem dinheiro no bolso.
Através da intervenção de Madame Staell e do dinheiro que ele ainda possuía, conseguiram alugar uma casa praticamente do outro lado da cidade. Essa locação só foi possível pagando seis meses de aluguel adiantado. Thomás, que trabalhava em qualquer tipo de trabalho que se apresentasse, logo conseguiu serviço. Darquinha fazia pequenas costuras para fora e Madame Staell, mesmo com a visão praticamente a abandonando, ainda assim, vez por outra, tirava a sorte de um aqui, outro acolá. Essa calmaria não duraria por muito tempo.
Certa noite, já em horas avançadas, após o amor e estando ele sentado no leito olhando ao longe pela janela aberta, estando claro como o dia, pois era noite de lua cheia, Darquinha se aproximou dele em silêncio e, após o abraçar, estando ele com o torso nu, começou suavemente a acariciar suas costas e delinear com a ponta dos dedos suas inúmeras cicatrizes. Sem poder conter sua curiosidade – que nas mulheres é considerado um dom, pois essa mesma curiosidade feminina foi o solene motivo de várias descobertas e invenções que em muito ajudaram na evolução da humanidade – perguntou-lhe de um modo muito delicado, olhando nos olhos dele e gesticulando com os ombros em gestos de curiosidade. Thomás, que de alguma forma a compreendia, mesmo sem ela pronunciar nenhuma palavra, após suspirar profundamente, disse, mais para si mesmo do que em resposta:
– Algumas pessoas machucam seus semelhantes simplesmente pelo fato de poderem fazê-lo. Essas marcas em minhas costas são uma pequena amostra daquilo que meu corpo padeceu quando eu ainda era cativo. No entanto, muito pior que essas horrendas cicatrizes é aquilo que ainda padeço por causa de minha cor e minha origem. Nossa gente foi liberta de nossos grilhões, mas ainda somos prisioneiros do preconceito e da discriminação...
Na manhã seguinte, um domingo bastante agradável de céu limpo e ensolarado, após retornarem da missa, tiveram um terrível dissabor, pois foram avisados por um vizinho que os donos do imóvel haviam estado bem cedo batendo em sua porta, deixando o recado que retornariam naquele mesmo dia. O que de fato realmente aconteceu e a notícia que trouxeram consigo não foi nada agradável. O marido da mulher que lhes locara o imóvel solicitava a desocupação imediata da casa, alegando acionar até mesmo a justiça se fosse necessário. Era ele uma pessoa de aparência bastante repugnante e ameaçadora, tinha uns 55 anos, talvez 70, quem sabe até mais – algumas pessoas parecem ter sempre a mesma aparência, como uma montanha que, aos perenes olhos humanos, não demonstra nenhum leve traço de mudança. Já lhe faltavam mais da metade dos dentes e os que sobraram estavam podres e enegrecidos pelo uso constante de tabaco, que tornava o seu hálito nauseabundo, fato que fez com que Darquinha tivesse ânsia de vômito e saísse discretamente de sua presença, tapando a boca com as mãos.
Quando Madame Staell questionou-lhe sobre os seis meses de aluguel que foram pagos de forma adiantada, o senhorio respondeu que nenhum negócio havia feito com eles e que nenhum valor lhe fora pago, que buscassem por seus direitos perante a justiça. Como o imóvel lhe pertencia e ele não lhes alugara coisa alguma, dava-lhes o prazo de três dias para que se mudassem. Após dizer que não queria problemas com ninguém, apenas seu imóvel de volta, saiu sem se despedir, prometendo retornar ao fim daquele prazo estabelecido e reaver sua casa de volta, independente de quais meios fossem necessários para esse fim.
Aquela tarde foi bastante inquietante para aquela peculiar família. Thomás sentia-se bastante injustiçado, ao ponto de dizer que só sairia da casa se a justiça o obrigasse. Darquinha, tomada de um sentimento de completa resiliência, disse que sempre haveria outros lugares e que o melhor a se fazer era evitar todo e qualquer tipo de problema. A cigana, por sua vez – que já havia sentido na própria pele a injustiça da Justiça brasileira – com sua longeva sabedoria, disse por fim:
– Já ouvi dizer que simples palavras podem ser como uma leve brisa, que mal nenhum pode nos causar. No entanto, até mesmo a mais suave das brisas pode se transformar em um vento forte e trazer uma terrível tempestade. Não sou mais jovem e, a cada dia que passa, minhas forças me abandonam um pouco mais. Seja como for, no fim, a noite cai para todos nós, e às vezes cedo demais para alguns. Preciso de um lugar tranquilo para passar meus últimos dias nesta terra. Ainda tenho comigo algum dinheiro e alguns pertences dos quais posso me dispor e comprar uma pequena propriedade no campo onde possamos viver em paz. Se ambos cuidarem de mim na minha senilidade – que se aproxima em passos velozes – deixo a vocês dois essa propriedade para que possam criar seus filhos e seguir com suas vidas sem ninguém os perturbar novamente.
E assim foi feito. Em dois dias, já estavam hospedados numa pensão, onde logo conseguiram contato com um corretor de imóveis – irmão do dono da pensão – que, de forma muito benevolente, lhes conseguiu um excelente negócio, desde que a propriedade fosse paga de forma imediata e em dinheiro vivo. Em menos de dois meses, já estavam vivendo no campo, numa aconchegante, mas bastante humilde casa no alto de uma colina, onde as manhãs eram alegres e o entardecer bastante iluminado pelos raios do sol poente. Era o início de um novo ano e de uma nova vida.
Thomás – que tinha os conhecimentos necessários para a lida no campo – iniciara os trabalhos de lavrar a terra e cuidar de alguns animais que a cigana adquirira, enquanto Darquinha zelava da casa e dos afazeres domésticos, vez por outra sendo auxiliada pela cigana, quando sua saúde permitia, pois a cada dia sentia-se mais fraca, sendo vencida pelos sinais do tempo. No final daquele mesmo ano, a família ficaria um pouco maior com a chegada de uma nova flor para aquele belo jardim. A felicidade parecia enfim ter feito morada naquele humilde lar. No entanto, no horizonte distante, nuvens negras anunciavam uma terrível tempestade. Darquinha tivera uma gestação conturbada e constantemente reclamava de fortes dores de cabeça, principalmente nos ouvidos...
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…