⚜ Prefácio de Agonihria

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No pélago da noite púrpura, à deriva, os ignorantes gargalham uns dos outros. Enquanto divertem-se, a escuridão silente esparge frígida, tornando-se cada vez mais tangível... e, então, de sua morbígera forma emerge o inominável.

A Antologia Agonihria apresenta ao leitor uma imersão no púrpuro terrífico, trazendo a existência em seu abismo aflitivo e a mente ao estado onírico de horror perene. N’estas páginas, nos fragmentamos em violeta obscura que reflete o céu de breu insondável. A poética de Agonihria é para os apreciadores do que queima a alma dia após dia — o sentimento mórbido do mistério existencial, o vazio que conduz à ausência de todo o socorro; ardendo na chama negra do martírio.

Soterramos aqui as letras d’aflição pertencentes ao medo mais puro e ao fascínio mais doentio. No agouro de sua verdade, Agonihria murmura subjugação à noite eterna, ao soturno e ao desalento. Não somente, esta temática propõe uma escrita carregada em dor e sentimentos oblíquos, deletérios, sádicos — emoção rastejante ou histeria no urro cruel de almas condenadas ao limbo. Agonihria talvez espere afogar o leitor na luxúria da consternação, no caos da mania ou na mortificação assentada sobre a fissura do abandono que carregamos desde o primeiro respirar.

O cenário que apresentamos aqui, desvela-nos pupilas duplicadas que espreitam nos recantos onde as sombras são mais crassas. Tons de violeta opaco em neblina se rarefazem, tornando álgido o clima silencioso. Há cinzas caindo dos céus e seu matiz não se iguala ao cinéreo comum daquilo que foi cremado — não, as cinzas são de um preto profundo, constituídas em vantanegrume... e possuem odor de morte iminente.

Esquecimento, negligência. Em Agonihria o caminho é bifurcado — à esquerda uma compreensão cruel de solidão e desamparo; à direita, o enlevo imprudente de pertencer ao que foi deserdado. Em outras palavras: a dor hostil pelo sentido fragmentado em vazio ou a paixão obsessiva e perfurante pelo silêncio do absoluto nada. Arrancamos de nossos traumas o parasita que conduz nosso comportamento e os transformamos em criaturas de sinistra e nefasta escuridão. Furamos as retinas dos horrores que nos vigiam. Envolvemo-nos à noite agônica, entregamo-nos à poética do tormento e desvelamos nele o antro sublime da quietude.

O Castelo Drácula é como um sonho, simbólicos são as suas manifestações e obscuros são os seus significados. Agonihria é um pesadelo paralisante dentro de um sonho; sufoca-nos para ornar nossa mente com desespero e consternação. N’esta Antologia, portanto, abra bem os seus olhos... e olhe atento para o escuro antes que ele te enxergue primeiro.

Inspirei-me, ao criar a proposta da antologia, no termo poético “Agoníria”, o qual criei em 2024. Seu significado é: “Pesadelo sufocante que ilusiona o despertar para enganar a mente e mantê-la aprisionada no plano onírico”. O termo emergiu no elã de um poema-sonura e, ao ser inspiração da obra que se desvela aqui aos leitores, vinculou-se a uma estética atrovioleta, dando escuridão aos mais bizarros horrores do nosso espírito e da alma oculta de uma umbrífera natureza.

Além disso, imersa pela essência mortificante de Agonihria, desenterrei para os autores verdades mórbidas do passado humano, para que o banquete de suplício se tornasse ainda mais tangível. Na antiguidade, o pigmento roxo-púrpura verdadeiro vinha de um único lugar: o múrex, um molusco marinho do Mediterrâneo oriental. Para produzir um grama de corante, eram necessários milhares de moluscos. O processo era nauseante — os animais precisavam apodrecer parcialmente antes de liberar o pigmento — e o cheiro era insuportável, nauseabundo. Fábricas eram instaladas em locais isolados, a favor do vento para que não se dissipasse o odor, entretanto, a fragrância bizarra impregnava nos trabalhadores e, pelo imensurável custo de produção do pigmento, restringindo-se à nobreza, de acordo com o artigo “Púrpura tíria: o antigo pigmento desaparecido que valia mais que ouro” da BBC, o cheiro hórrido fixava-se nas vestes tingidas, um bálsamo de peixe pobre e urina — um insólito e questionável perfume que dava autenticidade às peças.

Por volta do século XIX, pigmentos como a cor violeta obtiveram acréscimos químicos, entre tais: o arsênio. Tanto para baratear sua produção, quanto para estabilizá-lo. Em casas antigas, segundo o artigo “Arsenic: a domestic poison” da Royal College of Surgeons of England, papéis de parede coloridos com tintas carregadas de arsênio, reagiam com a umidade e os fungos, liberando trimetilarsina, um gás de toxicidade intensa que poderia levar a óbito pessoas expostas a ele— a depender do quão ventiladas eram as casas. Temos aqui, portanto, envenenamento, cheiros pútridos e a moda como símbolo de morte e decomposição para uma elite perturbada e corrompida. Quantas tétricas bizarrices somos capazes de suportar em nome de um sentido social, um significado intersubjetivo, criado no coletivo?

Na imensidão de Agonihria, deixando o universo real humano, adentramos a vivência única da fantasia obscura de “As Crônicas do Castelo Drácula”. Para este mundo de lugar-algum, talvez vívido nos pesadelos, quiçá erguido no antro do inconsciente coletivo, criei parte de sua fauna e flora de multiforme, e belíssimo, horror, inspirando-me essencialmente na noite em trevas fidagais e no opaco roxo-escuro, além da atmosfera agônica pertencente.

A Vêsffera Sensiflora retorna para a primeira edição de Agonihria — trata-se d’uma planta capaz de remodelar sua forma vegetal para imitar corpos estranhos à sua orgânica composição. Na antologia Magöhorror, a planta mutacionara n’uma reprodução bizarra de crânios humanos gritantes; em Agonihria, elas simulam olhos e mãos cadavéricas.

Para a fauna mórbida d’este universo original de As Crônicas do Castelo Drácula, em Agonihria vos apresento a Umbravola Nigrescens: Esta é uma borboleta cujo habitat é a Floresta Hostil, inseto da família Mortivolidae e da ordem Lepidoptera Abyssalis. Possui asas negras aveludadas que absorvem luz e um crânio pequeno, com duas cavidades vazias e escuras muito similares a orbes oculares humanos. Abaixo há sua mandíbula, com serrilhas superiores e inferiores. Seu abdômen é pequeno e nele há plumagens que atraem presas, em sua maioria pequenos vertebrados. É silenciosa, desliza pelo ar e bate asas somente quando precisa alcançar altas copas de árvores frondosas ou para fugir de predadores. Sua caça é noturna e há diversas lendas a respeito da sua existência.

Umbravola e Vêsffera Sensiflora são os destaques que criei para este universo — e os autores da antologia Agonihria interpretaram-nas de suas inigualáveis maneiras, enriquecendo e expandindo suas essências. Em vínculo a tal fauna e flora, apresento a personagem Suinddáremis Mortállida.

Dizem os mais velhos, dotados de ancestral conhecimento, que Suindara nascera ao ser convocada, pela própria morte, n’uma noite de agouro. De alguma forma clarividente, a coruja da espécie Tyto furcata aproxima-se daqueles quais as brumas do último suspiro circundam. Seu aviso é infortúnio, entretanto, não se achega no vazio de seu olhar âmbar, tampouco no sussurro tenro de um pio distante. Suindara grita, tal como o que houvera antes da morte, antes da luz. Seu vociferar é dilacerante como uma mortalha que se rasga à força, em perturbação. Seus pelos brancos, olhos compenetrados, seu voo silente — tudo n’esta ave advém da natureza maldita... a mais fascinante de todas as naturezas. E foi, pois, n’um d’estes noturnos voos, que uma Suindara ganhou consciência — atravessando a fissura entre o nordeste do Brasil e o lugar-nenhum do Castelo Drácula.

Não só dotada de consciência, esta coruja sofreu uma dolorosa metamorfose — ganhou um corpo humanoide e não demorou para aprender a se comunicar como nós o fazemos. Suinddáremis Mortállida renasceu, distinta e profundamente sábia sobre a morte e os perigos da escuridão. Esta personagem tem uma fala calma, grave, sutilmente feminil; entretanto, se pressentir a morte, não pode controlar o seu estridulante aviso aterrador — que, ouso dizer e dizem os que ousam, é um berro capaz de abrir uma porta, física ou mental, para o mundo dos mortos.

São fascinantes — algo somente do universo de “As Crônicas do Castelo Drácula” — as aparições em comum que um único personagem ou parte da fauna e flora se apresenta em textos tão únicos em suas formas e estilos. Os autores de Agonihria não decepcionarão os leitores, proporcionaram obras de imersão magnífica tanto nos elementos que criei e que n’este prefácio os apresento, quanto em elementos criados por eles, dando ainda mais densidade ao que Agonihria propõe.

Então, escureça o ambiente, acenda uma singela luz púrpura. Agonihria nasce agora em suas entranhas.


Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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