Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I
Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.
Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.
Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.
Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.
Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.
Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.
Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.
Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.
— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.
Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.
Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.
Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.
— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.
Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.
No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.
Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.
Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.
Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.
— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.
Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.
Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.
Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.
Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.
Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!
Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.
Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.
Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.
A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.
— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.
Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.
Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.
Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.
Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.
É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.
A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.
A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.
Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.
Atendi e coloquei-o em viva voz.
— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.
— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.
Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.
Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.
— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.
Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.
— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.
Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.
— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.
A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.
— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.
— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.
Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.
— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.
Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.
— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.
A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.
Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.
Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.
Mas não sei explicar direito a razão…
Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.
Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…
· · • • • ✤🦇✤• • • · ·
...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.
Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.
— “Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.
Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.
Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.
Mas ela, tão somente me acalmava.
— “Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.
Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.
O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.
Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.
Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.
O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.
Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.
Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.
Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.
Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:
— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”
A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.
Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.
— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.
“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.
Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.
— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!
Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.
Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.
Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Quando a Noite Cobra o Preço / Capitulo II
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.
Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.
Ela me abraçou forte.
— “Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...
Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.
Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.
Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.
Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.
O aroma era ocre.
O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?
Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.
Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.
Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.
Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.
Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.
Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.
Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.
— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.
Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.
Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.
A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?
A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…
· · • • • ✤🦇✤• • • · ·
…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.
Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.
Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.
Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.
Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.
Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.
A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.
Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.
A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.
Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.
Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.
As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.
Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!
Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.
Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.
Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.
Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.
O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.
Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.
Devo admitir: era algo belo de se ver.
— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.
Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.
No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.
Mas algo apodreceu no caminho…
O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.
Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.
— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.
A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.
— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.
Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.
Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.
Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.
Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.
O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.
Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.
Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.
Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.
Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.
— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…
Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?
Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.
— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.
O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.
Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.
— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?
Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.
— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.
Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.
— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.
Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.
Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.
O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.
Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.
Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.
Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.
Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.
Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.
Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.
A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.
— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?
Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.
Eu nunca havia visto algo como aquilo!
À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.
A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.
Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.
Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.
Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.
Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.
— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
A Melodia da Noite
Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva, desenhavam sombras longas que se confundiam com a escuridão da noite. Ao redor, o ar carregava o cheiro úmido da terra e o sussurrar de folhas secas, como se cada detalhe conspirasse para manter a paz que reinava há séculos. Ninguém poderia imaginar que, sob a terra fria, uma figura masculina descansava na sombra. Muitas almas haviam cruzado o lugar, histórias nasceram e morreram entre túmulos de mármore e pedra, mas nada, nem o tempo nem os viventes, fora capaz de perturbá-lo. Até que, numa noite como qualquer outra, algo rompeu a eternidade do silêncio.
Não era a fome que o despertava, mas uma voz. Uma melodia feminina, doce e cortante, atravessando a terra e o tempo, penetrando a escuridão de seu sono com insistência. Palavras estranhas e ao mesmo tempo familiares ressoavam, acompanhadas por sons metálicos, arranhados, que seu ouvido antigo não conhecia. A combinação era quase dolorosa em sua intensidade. E, ainda assim, havia algo nela que o chamava. Algo que o forçou a abrir os olhos em meio à escuridão de sua tumba, arrancando-o do repouso dos condenados.
Garras longas arrombaram a tampa da tumba, liberando a poeira antiga no ar frio. Da escuridão da câmara subterrânea, a figura do vampiro emergiu. Alto, esbelto, a pele pálida refletindo a luz da lua. Os cabelos loiros, levemente desalinhados, caíam sobre a testa, revelando um rosto aristocrático, de traços delicados e olhos azuis profundos que carregavam séculos de segredos. A capa negra arrastava-se pelo chão, levantando pequenos tufos de poeira, enquanto o resto das roupas — outrora elegantes — denunciava o desgaste do tempo.
Ainda atordoado pelo despertar, ele caminhou entre os túmulos, sentindo o frio da noite penetrar seus ossos imortais, absorvendo cada som, cada cheiro, cada sombra. O chamado daquela voz continuava a guiá-lo, mais insistente a cada passo, conduzindo-o até fora do cemitério. A praça diante dele surgia banhada por lâmpadas mortiças e pelo brilho distante da lua, que parecia conspirar para destacar cada detalhe do mundo desperto ao redor.
Ali, sob a luz difusa, estava ela. Uma mulher que, à primeira vista, parecia pertencer à própria noite. Seu cabelo negro caía sobre os ombros como uma cortina de seda, contrastando com a pele pálida, quase etérea. Os olhos escuros, profundos, carregavam uma melancolia pensativa, reflexiva, uma inteligência silenciosa que se percebia em cada gesto, cada pausa, cada respiração.
Em sua cintura se emoldurava um espartilho sob o longo vestido negro, emanando sensualidade e adornado com rendas, revelando simultaneamente força e delicadeza. A guitarra em suas mãos parecia uma extensão de sua própria alma e corpo; os dedos deslizavam pelas cordas com uma ferocidade natural, extraindo sons que misturavam violência e doçura. Cada nota parecia narrar suas memórias, suas reflexões e sua solidão ao cantar.
Para ela, o mundo desperto e mecânico nunca a fascinara. As luzes artificiais, o barulho das cidades, as obrigações humanas, tudo isso a cansava em demasia. Por isso escolhera a música, por isso tocava à noite, quando a atmosfera da madrugada e o vento frio a tornavam mais viva, mais intensa. E naquela melodia carregada de emoções, havia algo que o vampiro jamais experimentara: uma afinidade silenciosa com sua própria essência eterna.
Ele se escondeu entre as sombras, hipnotizado. Cada acorde atravessava seu ser como uma lâmina, cada pausa da música o fazia flutuar entre o desejo e a curiosidade. Não era apenas o som que o atraía, mas a essência que dela emanava — a melancolia, a capacidade de se destacar do mundo comum, a forma como abraçava a noite como se fosse uma aliada em sua voz.
Quando a última nota cessou e ela parou de cantar, com cuidado ela começou a guardar o instrumento e desmontar seu equipamento. Desmontou o suporte do microfone e o guardou, acomodou a guitarra na bolsa e recolheu os cabos do amplificador enquanto observava ao redor e percebeu a presença dele ao longe. Ele, entre as sombras, deu alguns passos adiante, o magnetismo da presença irradiando em ondas quase tangíveis. A pele branca refletia a luz da lua, os cabelos loiros captavam cada nuance do brilho noturno, e os olhos azuis profundos a analisavam, ironicamente fascinado e envolto em mistério.
— Boa noite — disse ele, a voz grave, carregada de um magnetismo que parecia esticar o ar ao redor.
Ela inclinou a cabeça, apenas curiosa.
— Você estava me ouvindo? Parece diferente das pessoas daqui!
— Diferente? — Ele indagou, com certo sarcasmo, quase em um sussurro. — Sua música me chamou a atenção, seu instrumento que é diferente e sua voz é bela. Quando você toca parece atravessar a noite e os séculos, como se já conhecesse inúmeros segredos.
Ela sorriu levemente, intrigada, tentando entender o fascínio dele, se era por ela ou pela guitarra. Até que indagou:
— E qual seria o nome do meu admirador? — Ele logo respondeu:
— Sou conhecido de muitas formas, mas gostaria que me chamasse de Amdis. E qual é seu nome, minha cara?
Ela colocou a guitarra nas costas, seguida por um trejeito de quem já tinha certa prática, e voltou a atenção para ele ao responder:
— Me chamo Margot, combinando com o amargor da vida.
Os dois iniciaram uma conversa leve, entre risos e olhares cúmplices. Sentaram-se em um dos bancos da praça, ao lado de um esqueleto falso posicionado de forma curiosa: pernas cruzadas, um chapéu na cabeça e um cigarro preso entre os dedos como se estivesse fumando. A estranha figura chamou a atenção de Amdis, o vampiro que brincava de ser humano. Intrigado, ele perguntou o motivo de aquilo estar ali.
Ela explicou que era outubro, mês do Halloween, e que alguns pontos da cidade estavam decorados com enfeites semelhantes. Ela achou estranho ele perguntar, já que estava vestido de uma forma tão não convencional, com roupas tão maltrapilhas, quase como um zumbi. Amdis achou graça e, em um gesto teatral, fingiu fumar o cigarro do esqueleto, arrancando dela uma gargalhada. Ele conseguiu driblar a desconfiança dela dizendo que ele não lembrava de enfeites como aquele nos lugares, mas já estava experimentando seus trajes para a noite da festa.
Entre a conversa, pequenos flertes surgiam inevitáveis, mesmo quando ela tentava disfarçar. Um olhar mais demorado, um sorriso cúmplice e a forma como ele inclinava o corpo na direção dela em alguns momentos. Ele percebia o rubor contido no rosto de Margot, e se divertia em provocar. No fundo, era algo natural, como se aquela atração simplesmente os unisse sem que pudessem evitar.
— Eu gostaria de acompanhá-la, se me permitir passar um tempo com você — murmurou ele, como se desejasse pronunciar aquelas palavras desde seu despertar. — Há um lugar onde o tempo não ousa tocar, onde posso mostrar-lhe o que é realmente a noite. Se quiser...
— Então, “viajante da escuridão”, não sei se devo aceitar — ela provocou, de maneira sutil. Hesitante, não pela estranha imagem dele, mas pelos perigos que a noite realmente reserva para as mulheres.
Ela hesitou apenas por um instante, contemplando a aura sedutora dele, a luz dos postes refletida na pele pálida, e o ar de mistério que o envolvia. Então, ela assentiu, mesmo hesitante. Ele se ofereceu para carregar o instrumento guardado, mas ela recusou e ofereceu a caixa do amplificador para que ele carregasse, assim ele fez. Juntos, eles caminharam um pouco sem rumo.
Por onde passavam estava silencioso, exceto pelo farfalhar de algumas folhas secas sob os passos deles na calçada e o sussurro do vento frio que se infiltrava entre as árvores da praça. Cada passo parecia prolongar o tempo, e a noite ao redor tornava-se mais densa, mais intensa, envolvendo-os em seu manto. Ele caminhava ao lado dela, mas não de forma invasiva, cada movimento era calculado.
Em um momento ela olhou de soslaio, curiosa, e encontrou aqueles olhos azuis que pareciam mergulhados em sua alma. Eles caminharam para longe da praça, seguindo por ruas silenciosas; ela imaginava que iriam até um bar perto dali.
— O que acha de nosso passeio e porque resolveu vir comigo? — perguntou ela, curiosa. — Não acho que há nada em mim que mereça sua atenção além do que eu estava tocando.
Ele liberou um sorriso cínico, um gesto irônico e humano ao responder:
— Não é apenas sua música que me chama a atenção. É você. Sua forma de existir. Como você parece pertencer à noite. Acredito que seja algo raro encontrar alguém que viva assim, que respire o noturno como se fosse ar enquanto canta.
Ela suspirou, quase sem perceber, sentindo o frio da noite misturar-se àquela estranha sensação que percorrera seu corpo ao ouvi-lo pronunciar aquelas palavras. Ela finalmente percebeu um sotaque que não era comum na voz dele.
— Sua voz é estranha, mas sobre o que você falou, eu meio que sempre me senti… deslocada entre as pessoas vivas. O mundo desperto, com sua pressa e barulho, me deixa ansiosa. Talvez, seja por isso que a música se tornou o meu refúgio particular — ela disse, olhando para o céu noturno, a lua estava refletindo um brilho azul em seus cabelos negros. — Aqui, à noite, sinto-me mais viva e tranquila por algum motivo!
Ele permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo cada palavra que ela dizia, cada nuance e cada pequena hesitação. Então ele disse, diminuindo o volume na voz:
— Você é diferente, sim. Diferente de tudo que já conheci. A melancolia que carrega não é tristeza; é consciência. Sinto que você possui uma sabedoria que a maioria despreza. Por isso, fascina-me.
Ao ouvi-lo falar, ela se sentiu estranhamente reconhecida, como se ele tivesse lido cada camada que escondia atrás do sorriso e do olhar distante que adornava a face por trás do que cantava.
— E você? — ela perguntou, sem conseguir evitar demonstrar interesse. — O que carrega dentro de si que permite que veja tanto em uma pessoa desconhecida?
Ele sorriu novamente, com aquele ar de ironia e mistério que a deixava inquieta.
— Segredos. Séculos de segredos. Observação. Experiência. Um toque de ironia. E, às vezes, fascínio genuíno pelo que é raro e belo — disse, a voz melodicamente se misturando ao sussurro breve do vento.
Ela sorriu e desviou o olhar quando o silêncio caiu sobre eles, confortável, mas carregado de uma tensão entre eles quase palpável, uma troca de olhares sedutores. A cada passo, uma estranha conexão entre os dois parecia nascer, mesmo sem palavras. A noite parecia dobrar-se ao redor deles, os sons da cidade desaparecendo, substituídos pelo bater do coração dela e pelo ritmo antigo e constante da eternidade dele.
Ela parou por um instante, sentindo a presença dele tão próxima que podia perceber a sutil respiração, mesmo que ele não precisasse respirar. O calor que emanava daquela proximidade despertava nela uma inquietação doce, um desejo não dito.
— Este lugar que estamos indo… — disse ela, inclinando-se na direção dele com um leve deslize na voz, curiosa. — É seguro para mim lá, não é?
Ele inclinou a cabeça, aproximando-se a ponto de seus lábios quase tocarem o ouvido dela, os olhos azuis ardendo sob a luz da lua. Ela estava hipnotizada por ele.
— Seguro… — murmurou, deixando a palavra pairar entre eles, como se tivesse um sabor secreto. — Acredito que isso vai depender do que você entende por segurança. Mas lá, você sentirá a noite como nunca antes. Longe dos vivos, do tempo, do mundo mecânico que insiste em nos moldar. Apenas nós dois e a noite. Você vai gostar da minha companhia!
Ela respirou fundo, sentindo o frio da madrugada penetrar em seus ossos, mas também um calor estranho e intenso que emanava dele. Ela queria abraçá-lo. A melancolia dela encontrou ecos na profundidade da presença dele. Era como se ambos tivessem se reconhecido na “vida” que compartilhavam de maneiras distintas.
— Então, vamos — disse, decidida, mesmo com o coração acelerado. — Mostre-me a sua noite!
Ele assentiu, quase imperceptivelmente, e estendeu a mão. Ela hesitou por uma fração de segundo, mas a tomou, sentindo um arrepio percorrer seu corpo ao toque da pele pálida e fria dele. Cada passo dali em diante parecia mais intenso, cada sombra mais escura, o silêncio mais carregado de significado. O mundo desaparecia atrás deles, e apenas a escuridão testemunhava a aproximação do que viria.
Finalmente, chegaram a um local ermo, uma encruzilhada, afastada do mundo desperto da cidade, onde o vento soprava com mais intensidade, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e das folhas em decomposição. As árvores se inclinavam como testemunhas silenciosas, e a lua cheia banhava o espaço com uma luz prateada, quase líquida. Ali, o tempo parecia dobrar-se; os sons da cidade não mais existiam, apenas o ritmo constante da noite e o silêncio profundo que abraçava cada passo deles.
Ele parou, olhando para ela com os olhos que pareciam abismos. Sua pele branca refletia a luz da lua, tornando-o quase etéreo. A capa empoeirada se espalhava ao redor de seus pés, e o vento agitava os cabelos longos e loiros de forma quase teatral. Eles se aproximaram num ímpeto inevitável assim que ele colocou o amplificador no chão. Quando os corpos se encontraram, ele roçou os lábios frios contra os dela. Ela deixou escapar um suspiro entrecortado de sofreguidão, cedendo ao toque com a urgência de quem desejava muito mais que apenas um beijo.
— Aqui… — disse ele, a voz grave e envolvente — é onde a noite pode tocar você de verdade. Sem distrações, sem medo, apenas nós e o que ela nos oferece.
Ela sentiu o coração acelerar, mas não de medo. Era uma mistura de expectativa e fascínio, como se cada fibra de seu corpo soubesse que algo mudaria para sempre, ela o desejava.
— Eu confio em você — murmurou, a melancolia ainda presente, mas suavizada pela curiosidade e pelo desejo. — Mostre-me, então, a noite que você conhece!
Ele se aproximou, o magnetismo da presença dele tornando-se quase insuportável, e estudou seu rosto com atenção, os olhos dela brilhavam. Cada traço, cada olhar, cada hesitação revelava uma alma rara, e isso o fascinava profundamente, quase de forma perturbadora.
Os olhares se encontraram de novo, e o ar pareceu suspender-se entre eles. Ele a puxou contra o peito, a capa envolvendo-os como um véu de sombras. O beijo veio urgente e faminto. As mãos dele apertavam a cintura dela, suas costas, puxando-a com uma força que a fazia tremer; as mãos dela se perderam nos cabelos loiros, apertando-os enquanto a boca dele a quase devorava.
Ela arfava entre um beijo e outro, sentindo o corpo arder em um misto de desejo e vertigem. O mundo desaparecia, só havia o frio do corpo dele e a chama que aquilo acendia nela. Então, os lábios dele deslizaram pela curva de seu rosto, até a pele exposta do pescoço. O roçar dos lábios frios a fez estremecer, e por um instante ela percebeu o perigo, mas não recuou. Então, num gesto rápido, mas quase poético, ele tocou-lhe o pescoço com os dedos frios.
— É necessário — disse, sua voz baixa e reverberante — que você aceite o dom, se quiser compreender a noite em sua plenitude.
Ela fechou os olhos, sentindo a tensão subir pelo corpo. Por um instante, hesitou, mas o magnetismo dele, a aura eterna e a paixão a tomaram. Quando ele mordeu suavemente a carne, o frio se misturou a uma estranha euforia, e ela sentiu a energia da eternidade percorrer suas veias. A dor era fugaz, substituída por um êxtase sombrio e fascinante, como se a própria essência da noite estivesse se infiltrando nela.
Tudo se dissolveu. Restava apenas a escuridão que pulsava com intensidade, e o vampiro, cuja presença agora se tornava parte de sua própria consciência. A paixão que ela sentia parecia mais aguçada.
Quando o êxtase passou, ela abriu os olhos e percebeu que tudo havia mudado. Amdis estava sentado com ela em seu colo no chão da encruzilhada, afagando os cabelos negros dela com carinho. A guitarra estava a alguns metros de distância deles, como se tivesse sido largada de qualquer jeito perto do amplificador.
Ele sorriu para ela enquanto ela abria os olhos para o mundo noturno, seus olhos pareciam outros, ela enxergava formas perambulando ao redor deles, formas que ela não sabia explicar.
A pele parecia mais clara que antes, os sentidos mais aguçados, cada sombra, cada sussurro do vento, cada farfalhar distante de asas noturnas carregavam uma vida própria. Amdis endireitou a coluna, afastando-se um pouco, apenas o suficiente para contemplá-la melhor. Seus olhos azuis refletiam uma mistura de orgulho cínico e paixão ardente.
— Bem-vinda à noite, vampira Margot! — disse ele, com um sorriso enviesado. — Ao tempo que não termina, à eternidade que não cessa.
Ela olhou para ele, absorvendo a transformação, sentindo-se ao mesmo tempo viva e imortal, uma nova entidade, ligada para sempre à escuridão, à música e à melancolia que agora compartilhava com ele, quem a trouxe para este destino e tinha roubado seu coração.
E naquele silêncio, onde apenas o vento e a lua testemunhavam, dois seres da noite permaneceram lado a lado, eternamente ligados pelo mistério, pelo fascínio e pelo desejo.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Sob a Luz da Chama Purpúrea
Nenhuma voz, nenhum som garganta afora…
MidjouneyAI
Diário de Nauärah, não datado
Nenhuma voz, nenhum som garganta afora. Percebo apenas um lumiar em tom violáceo no salão onde eu me encontro e essa tonalidade transmite-me algo importante que eu tinha aprendido em minha aldeia: a cromoterapia, o poder das cores. Ver a cor violeta é sempre uma dádiva. Além do mais, lembro da violeta, a flor que tantas mulheres da nossa aldeia admiram.
Começo a pensar se foi boa a ideia de me aproximar deste castelo. Em meio a pensamentos distraídos e neste grande salão frio, noto, ao longe, uma silhueta. Cabelos negros e presos, com mechas soltas. Vestes levemente vitorianas com traços góticos. Bem… é uma dama, certamente, mas a sua energia etérea — que posso sentir daqui da outra extremidade, me faz engolir medrosamente menos de um mililitro de saliva, principalmente, quando percebo que ela não se move e parece tomar notas em uma espécie de papiro.
Antes mesmo que ela pusesse seus supostos serviçais para me colocarem para correr, penso em me apresentar, humildemente, porque está clarividente que ela reside por aqui ou é a esposa do Drácula. Ou, até mesmo, é o próprio Drácula em uma figura feminina.
Entre a iluminação violácea, não percebo que a criatura de pele translúcida já está perto de mim. Tão entretida com a beleza deste local, não a notei em seus movimentos. Mas a olho, fixa e medrosamente. A sua pele translúcida, quase, me amedronta. Se ela se atrever a me tratar de maneira rude, os meus arcos já estão na posição correta e as minhas flechas se armariam em segundos. Mas são apenas pensamentos de medo pelo que passei com alguns homens de pele caucasiana. Com essa criatura não consigo ser tão ruim. É como se eu buscasse nela força e cumplicidade para apaziguar os meus traumas.
Eu estou acostumada com animais da mata, a lutar, como uma boa arqueira. Para mim, é natural. Mas aqui eu teria que abaixar a minha guarda de indígena rude, pelo menos, enquanto necessito. Aqui há humanos, mais do que isso — seres híbridos, quase, até vampiros, eu tenho certeza. Mas se eu não pareço tão rude quanto demonstro, possivelmente ninguém também será, dos que residem por aqui. Certamente, se eu impuser limites aos hóspedes seria apenas uma maneira de preservar a minha segurança.
Com certeza, as minhas armas a assustaram. Paro de pensar demais e tento abaixar os arcos e flechas, abaixando, também, a minha cabeça e fazendo um gesto que aprendi com o meu pai, que aprendeu com o meu avô pajé: fechar o punho e o colocar sobre a testa, em sinal de rendição. O faço.
— Sou da família “Tupiniquim” — profiro, quase me sentindo uma tola. Mas a minha força interior me ergue e continuo. — Uma aldeia antiga da região do pantanal do Amazonas, no Brasil. Sou filha de Uyara e Nanquim. E o meu nome é Nauärah.
Eu não faço ideia se ela compreende um terço sobre o que eu digo. Confesso que nossos nomes são específicos e quase incompreensíveis.
— Tenho muito conhecimento em caça, pesca, armas de arco, flecha e construções de madeira maciça. Conheço sobre as matas, ervas medicinais… Meus avós são curandeiros. Derroto qualquer animal, se necessário. Posso ser útil e a minha intenção aqui é a mais serena, senhora. Eu vim apenas colaborar, estudar. Por onde passo, eu sou assim. Foi o que minha aldeia me ensinou. — Solto o ar de cansaço. Aquele ar gélido estava adentrando a minha boca e nariz. Acostumada com o clima quente, já posso saber que eu teria que me acostumar por aqui ou mudar totalmente as minhas vestes. Uma capa longa na cor de terra não iria me proteger. — Se eu puder ficar, posso mostrar o dom da força que carrego dentro de mim, caso o Castelo precise e vocês serão ainda mais fortes.
Ouso e a olho, aguardando, temerosa, a sua aprovação, enquanto as luzes violetas parecem se direcionarem ao meu rosto, como se fossem as luzes, servas desta mulher.
Quase tremo, mas profiro em tom profícuo, para que ela me ouça, ainda que ela não entenda a minha linguagem — qual idioma ela fala? Qual? Pergunto-me, inutilmente. O meu nervosismo é visível e os meus apetrechos parecem tremer com algum movimento que faço. Mas sorrio leve para ela, pois fui sincera e genuína.
Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido
— Frígidas são as alcovas e cômodos d’este sombrio lugar, caríssima senhorita. — Proferi em plácida voz, pois, o medo que emanava de sua energia evidenciava seu desconhecimento sobre o Oculto, ao menos, no que se refere à Magia de Sangue e, portanto, não pretendia alimentar seu temor. Reconheci-a como uma conviva, ela decerto ouvira o chamado do Portal e viera, portanto, é inestimável o seu bem-estar durante a estadia.
O eterno inverno úmido que reside no Castelo poderia matá-la, suas vestimentas eram propícias apenas para localizações tropicais. “De qual século tal peculiar dama deve advir?” pensei. Não reconheci sua nacionalidade proferida, ainda não sou capaz de dominar o universo em sua multiforme veracidade.
— Permita-me vestir-te com esta peça — indaguei-a, seu semblante expressava suspeita, retirei com delicadeza meu sobretudo e a sorri para pacificá-la o quanto me fosse possível. — Basta que retires as tuas armas de teu dorso. Estás segura comigo. — Afirmei.
Nauärah… interessante. Seu nome possui uma sonoridade bastante sui generis, no entanto, há resquícios reais da influência, ao que me soa, da língua da Magia; alehanuhra eriihs, eu diria. O idioma Mágico emergiu no vínculo entre todas as mais valiosas línguas da existência humana.
Ao oferecer-lhe minhas vestes, senti o frio ultrapassar o tecido de meu vestido; há éons que não me arrepio de tal forma com essa aragem de íntima gelidez. De fato, minha intuição consegue se estimular facilmente, a mera tez absorve inúmeros sinais. Desde que abri o Portal para trazer novos residentes a esse valioso receptáculo, meus pressentimentos estão assim, à flor da pele.
Diário de Nauärah, não datado
Zelo, presteza, excelência. Essas três palavras definem tal criatura feminil. Ainda me sinto confusa sobre seu nome e quem é, de fato. Por outro lado, sinto-me segura, realmente, como ela assegurou-me.
Ela veste-me com uma roupa ainda mais felpuda e calorosa do que o meu sobretudo. O roupão protetor é violáceo, quase negro. Eu não mudarei a minha essência e a qualquer momento que eu retirar esta capa, a minha identidade se revelará. Por outro lado, bom utilizar outras vestes que não deixem absolutamente nenhuma extensão da minha pele se revelar.
Apenas a olho, como quem acredita que ela não me importunaria. Não consigo proferir uma palavra. Ninguém me toca, ninguém nunca me tocou, exceto quando no terrível acontecimento. Não permito que ninguém se aproxime, mas, por um acaso, ela é uma dama. E não a proíbo que o faça.
— A vossa pessoa faz-me lembrar dos meus líderes. Minhas felicitações por isso. Não confio em ninguém, senhorita, entretanto, quiçá, haja uma primeira vez para que isso aconteça. — Sorrio, apenas com os meus lábios, mas consigo sorrir.
Olho os meus apetrechos pelo chão púrpuro, ainda assim, suave. Ninguém ousaria mexê-los. Talvez a minha sutil aspereza seja apenas uma capa, assim como esta. Esta capa tem uma energia intensa, mas propícia. Aprendi a silenciar e identificar as energias advindas de lugares inimagináveis. E isto aqui é poderoso, constato.
Trecho do Memórum de Olga Nivïtzz, página 299, ano desconhecido
— Sinto-me honrada em evocar tais valiosas memórias em ti — respondi afastando-me ligeiramente. — Fique à vontade n’este Castelo, há outros residentes que poderás conhecer. Eu sou Olga, meus cumprimentos. — Curvei-me de modo suave. Faz tanto tempo que estou imersa n’esta atemporalidade… já não sei se possuo a educação de minha infância, aquela que eu tinha quando eu era ainda uma humana a viver como qualquer outra; já não sei se estou em demasia ultrapassada, dado que hoje — seja o que for que o “hoje” signifique — há mais futuro do que passado.
— Não necessitarás de armas por aqui, não há inimigos que sofrerão com elas ou que sangrarão com o fincar das afiadas lanças. O mal que faz lar n’esta lacuna em que estamos, entre o tempo e o espaço, apenas jaz por meio de nossa única e verdadeira arma… a mente… — Aproximei-me da lareira, o lume que permeava a sala estava em um tom violeta muito mais profundo, sentia energizar meu ser. Nauärah em silêncio, é uma inteligente mulher — sei disso, pois noto pelas suas falas e referências. Sua mudez expressa muito da sua introspecção preciosa, a qual sempre darei grande valor. Sinto que há uma ligação dela com outros residentes, não compreendo se esta intuição advém do plano corpóreo, pois, ela emana uma espiritualidade incomum.
— Se me permites, preciso descansar um pouco, mas sempre que precisares de mim, vá ao último cômodo do corredor maior ao norte do Castelo, este é meu aposento; seus umbrais possuem um tom avermelhado e ornamentos específicos, como sigilos de uma antiga doutrina. Tu o reconhecerás, sem dúvida. — Despedi-me, ela gesticulou uma saudação. Seu olhar era de compreensão enquanto minha exaustão parecia ainda maior do que antes. Afastei-me devagar à saída que levava ao caminho de meu quarto, tudo estava frígido como se eu estivesse lá fora, na neve. Pouco antes de chegar aqui, assim, tão perto de abrir a porta e começar a escrever, senti uma mórbida e silente solidão que apertou meu peito em amargura — e que está ainda, insistente, perdurante enquanto observo a noite pelos vitrais e continuo recordando de todos aqueles que já deveriam ter se tornado reminiscências exíguas.
Diário de Nauärah, não datado
Vejo Olga sumir em um dos corredores. Decerto, ela pensaria que sou observadora demais por segui-la com o olhar até ver sumir a sua silhueta.
Por eu estar sozinha agora e não ter visto nenhum outro hóspede, eu sigo para um dos quartos e enquanto adentro-o, percebo tons violetas nas paredes do imponente castelo. Me vejo envolta por uma atmosfera de mistério e encanto. Retiro a capa colocada em mim por Olga e a guardo cuidadosamente. O meu corpo adornado por peças ancestrais se casa com os reflexos púrpuros das paredes com tapeçarias tecidas em tons violáceos. Isso cria um ambiente acolhedor e ao mesmo tempo enigmático.
Caminho silenciosamente em direção à janela alta, observando flores roxas no jardim. A lua, quase no mesmo tom, as lumia e as cortinas suaves parecem dançar a dança da noite sombria.
Uma luz violeta suave é lançada sobre os móveis de madeira escura que há neste quarto onde estou. Há também uma lareira, uma cadeira estofada e um umbrífero, mas caloroso dossel, que me convidava a descansar, enquanto ao redor, estão os meus artefatos indígenas cuidadosamente dispostos ao chão, sobre o tapete roxo. É coisa de Olga, penso... ela parece caprichosa no que diz respeito a ambientes.
Olho-me no espelho e penso em uma maneira de comunicar à minha aldeia a minha chegada. As minhas vestes trazem à tona lembranças da minha terra natal.
Viro-me e a cama majestosa, adornada com lençóis de seda violeta, parece convidar-me a mergulhar em sonhos profundos e reconfortantes. Por um momento, eu fecho os meus olhos, sentindo-me em casa mesmo em meio à grandiosidade e o desconhecido, ainda, deste castelo. Sei que aqui estou segura, não importa o hóspede que venha a chegar.
Confiro a tranca da porta — ainda temerosa, e suspiro aliviada. Ninguém me faria mal aqui. E se fizesse, certamente eu saberia a quem recorrer.
Exploro o banheiro e o som da minha respiração ecoa aqui. Respiro fundo e sorrio pela segunda vez neste lugar. A banheira em mármore lilás me encanta. E todo o ambiente está bem organizado e disposto.
Já refrescada e pronta para o sono, deito-me e me aqueço demasiadamente. E sei que o meu sono me levaria a lugares inimagináveis antes mesmo do amanhecer.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…