À Procura da Dama Noturna
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Já amei.
E talvez seja esta a maldição mais antiga
de todas as criaturas que atravessam os séculos:
não a morte,
não a solidão,
não a lenta erosão dos nomes,
mas a lembrança.
Os rostos passam como estações,
as cidades apodrecem sob novas arquiteturas,
impérios tornam-se notas de rodapé,
e até os juramentos mais ardentes
acabam dissolvidos na saliva do tempo.
Ainda assim,
há algo em mim que persiste.
Uma fome.
Não a fome do sangue,
como diriam os velhos contos,
mas a fome de uma presença.
Desejo uma mulher
como quem procura uma estrela desaparecida
há milhares de anos,
sabendo que sua luz ainda atravessa a escuridão.
Não a desejo perfeita.
A perfeição pertence às estátuas
e aos cadáveres.
Desejo-a viva,
contraditória,
capaz de esconder tempestades
sob um olhar aparentemente sereno.
Talvez tenha os cabelos negros
como uma noite que se recusa a amanhecer.
Talvez a pele guarde a palidez delicada
das criaturas que preferem a companhia da lua.
Talvez os olhos,
escuros e insondáveis,
carreguem mais perguntas do que respostas.
Não desejo uma santa.
As santas pertencem aos altares,
e os altares sempre me pareceram
solitários demais.
Desejo uma mulher
que compreenda a beleza das ruínas,
que veja poesia onde os outros veem defeito,
que não peça desculpas
por sua própria escuridão.
Uma mulher que saiba
que a melancolia não é doença,
mas uma forma de contemplação.
Que compreenda
que nem toda tristeza deseja ser curada.
Os tempos modernos,
tão orgulhosos de sua virtude,
ensinaram as pessoas a temer o abismo.
Transformaram mistério em problema,
silêncio em falha,
profundidade em excentricidade.
Mas eu continuo a acreditar
que há certa beleza
naquilo que não se deixa domesticar.
Por isso a desejo.
Entre multidões iluminadas por telas,
entre discursos apressados,
entre rostos que se repetem
como reflexos de um mesmo espelho partido.
Desejo aquela
que ainda conserve algo de indizível.
Aquela cuja beleza não termine na superfície,
mas continue para dentro,
como um corredor sem fim
em um castelo abandonado.
E se algum dia a encontrar,
não lhe oferecerei promessas eternas.
Os séculos ensinaram-me
a desconfiar das eternidades.
Oferecerei apenas a noite.
Uma noite longa,
silenciosa,
perfumada por livros antigos,
vinho escuro
e pensamentos proibidos.
E talvez,
enquanto o mundo dorme
sonhando com suas pequenas certezas,
nós possamos contemplar juntos
a estranha beleza de existir
como duas criaturas noturnas,
para além da moral dos homens.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;