Le Papillon et la Fleur
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker II
(Anotações em seu caderno)
25 de agosto de 1871 — París.
Retomo as lembranças daquele desgraçado dia na universidade! Dia em que minhas tragédias tomaram forma em pesadelos em vida e se arrastaram pelos dias até o presente momento.
Torno a escrever minhas próprias memórias — sobre o dia 22.
Todos os eventos daqueles dias até agora ficaram terríveis na minha mente. Memórias que somente nessas folhas e com este lápis atrevo-me a confessar.
Minha jornada começou no distrito XIII, Gobelin, passando por Reuilly — XII distrito. As casas aqui foram algumas queimadas, atravessadas por projéteis dos canhões de campanha de 4 e 8 libras — sabíamos o tamanho dos projéteis pelas histórias dos que retornavam da guerra com a Prússia. Agora testemunhei com meus olhos e outros sentidos os efeitos dessas armas de destruição pelas ruas e casas de Paris.
— Ouvi tantos relatos durante a guerra contra a Prússia, que agora eu sou o que vai criar o relato. — Sussurrei para mim mesmo.
Foram tantos desvios de regiões tomadas por comunas e suas barricadas. Cadeiras, mesas, candelabros, paralelepípedos e até os postes, além dos sacos de terra para as barricadas. Tudo para impedir a mobilização dos soldados de Adolphe Thiers.
— Ainda creio estar entre os mortais? — Essas dúvidas persistem! Assim como as dores que ganhei tanto no corpo quanto na alma.
A luta tem sido tanta. A dor, a angústia e a penúria têm sido demasiadas.
— Os dias calmos agora parecem tão distantes, na linha do horizonte…
Tentava…
Me esforcei para evitar os conflitos!
Mas uma ou outra vez pelo caminho me vi diante do confronto direto.
A troca de golpes com soldados de sua majestade ou com os infelizes rebeldes da comuna. Na última vez que me vi num conflito, um jovem com uma baioneta, desferiu um golpe que achei haver evitado. Lutei como um cão faminto quando consegue carne e precisa defender a vida e seu bem precioso.
Corri, me escondi e me arrastei por entre destroços, corpos inchados, sangue com terra.
—Afirmo… Não nego que isso já é uma loucura. — Minha angustiante situação me fez tomar decisões estranhas.
“Piorado por sons estranhos, animalescos, inumanos que ouvi durante as noites.”, — Pensei, ao adentrar uma casa ao final da tarde. Se me lembro bem, sim, foi naquela noite dias atrás que rumores sobre eles começaram a correr pelas ruas.
Consegui um breve momento de paz. Havia um silêncio no ambiente que me soava estranho. Sinto o corpo esfriando, então… Uma agulhada cortando meu interior, do cotovelo ao ombro e depois aos dedos, correndo pelo meu braço… Dor!
Aquela sensação subiu intensamente como se fossem as ondas de disparo dos canhões da sua majestade. Encostei na porta e comecei a descer lentamente apoiado nela, senti sua madeira desgastada e áspera.
— Ah, droga. — Levo a mão do braço bom até o braço ferido. — Como…? Como não notei? — Rugi aquelas palavras entre os dentes.
Olhei para o braço. A manga rasgada estava escura, grudenta. Puxei o tecido com os dentes para ver melhor. Corte!
— Limpo… Sim… Pelo menos isso. — Tomo uns momentos para controlar a respiração. — Atingiu o bíceps... braquial, sim, essa é a palavra. Sorte que não pegou a artéria.
— Médico, lembra? — Um sorriso em meio à dor invade meu rosto. — Você é médico. Sabe o que fazer.
Foi como confessar segredos para comigo mesmo porque falar com as paredes era me soaria naquele momento delatar minha própria loucura.
Rasguei a barra da camisa. Amarrei-a firmemente acima do ferimento. Apertei até sentir o nó cravar na pele.
— Pressão. Aaaargh — Uma dor correu como um raio até a ponta dos meus dedos. — Primeiro… Oh, Deus… Pressão!
O sangue parou de escorrer como uma nascente. Respirei aliviado, mesmo com as ondas de dor percorrendo meu corpo.
Depois, limpar. Com quê?
— Água…? Onde nessa maldita casa terá água. — Me ergui com dificuldade, me escorando na porta, forçando ainda mais minhas pernas doloridas.
Passei a vasculhar aquela casa. O piso de madeira maltratado, desbotado e empenado. Móveis atirados ao chão. Cacos de vidro das janelas e das louças sobre grande parte do ambiente.
O som do ranger das tábuas a cada passo que dei, arranhou meus ouvidos, fazendo correr calafrios na espinha. Era como um monstro mórbido buscando amedrontar minha alma castigada.
Não havia água limpa…
Olhei dentro dos armários, correndo com os olhos. Quando no que estava num canto, na esquina, abri, dentro de uma garrafa suja, empoeirada. Dentro de um líquido verde fantasmagórico, não mais que meia garrafa, sim, absinto.
— Um doce remédio para um homem ferido e quebrado. — A voz saiu rouca e baixa. Meu rosto está esboçando o cansaço e o estresse. Mãos trêmulas, coluna doendo.
Antes de segurar a garrafa, caminhei até onde ainda havia uma cadeira intacta atirada ao chão. Coloquei-a de pé, encostada na parede ao lado do armário. Me sentei lentamente. Sentindo cada fibra muscular dura. Peguei a garrafa com a cor esmeralda.
— A primeira vai para o médico! — Abri a garrafa, o cheiro herbal e doce convidativo inundou meu nariz, tirei o pó do gargalo e logo levei a boca tomando um gole longo. — Aaaargh… Queima como o inferno! — Saiu quase como um rugido, o sabor doce e intenso tendo um contraste queimante na garganta, rasgando minhas entranhas.
Um gole de coragem e outro para o meu ferimento.
— Recomendação médica! — Sussurrei para mim mesmo.
Ardeu… Ah, sim, ardeu! Queimou, mas queimou tanto, que chamei todos os anjos do cânone.
— Isso vai doer por um longo tempo! — Eu me contorcia na cadeira suportando a ardência como podia. — Será que… Anton e o Marcel fizeram isso alguma vez enquanto estavam na frente de combate?
Busquei acalmar meu espírito.
— Quer parar de reclamar, doutor? — Gritei para mim mesmo naquela cozinha abjeta e escura.
Ri, num crescente, até gargalhar sozinho… Terminei num riso curto, amargo.
Pensei naquele momento: —“Médico ferido é pior que paciente.” Dei de ombros. O silêncio ambiente parecia uma redoma ao que ocorria em Paris. O cansaço deixou minha cabeça pesada, me fazendo apoiar na parede, de olhos fechados. Um novo pensamento me invadiu, “— Porque sabe exatamente o que pode dar errado.”
— Uma vez médico… Sempre médico!
Sentado naquela cozinha, as lembranças vinham em ondas. Não tive tempo para refletir com clareza sobre o que eu havia presenciado horas atrás.
Tomei outro gole da minha única bebida à disposição.
— Foi tão desolador… Ver os olhos perdidos daquela criança. — Me coloquei a analisar a cena. — A guerra arranca a alma de qualquer um, mas ver aquela monstruosidade foi além para aquela pobre criatura.
Seria aquele o pai dela?
Será que aquele dorso que foi queimado era alguém importante para ela?
A criança não… Ela não falou nada.
Ela ficou nos meus braços… Silêncio… Vazio!
Estamos do lado errado do céu?
— É possível…? Em algum nível?
Estamos tão condenáveis e reprováveis que as hostes infernais venham nos capturar?
Será que com suas mãos demoníacas de chamas condenatórias já estejam nos levando um por um?
— Oh, Deus… o que fizemos…? — Tomei um novo gole do líquido verde.
Lentamente sinto meu corpo relaxar, o coração se acalmou e a dor diminuiu. Os pensamentos ficaram tão distantes. Ao longe escuto o som de uma melodia tão suave e… Sim! Popular.
Estão… Alguém está cantando? Qual era…? Qual era a música? Ah, sim, “Le Papillon et la Fleur”.
— “Mas não, você voa longe demais! Entre incontáveis flores você voa, enquanto eu permaneço sozinha, observando minha sombra circular ao redor dos meus pés. ” — A bela melodia transbordou de minha alma até sair pelos meus lábios e me embalou o coração a um sono tão suave com lágrimas escorrendo em minha face.
Madrugada do dia 23 — Lembrar, revisitar essas imagens em minha mente é como tocar com bisturi uma ferida estranha que não encontra cura, apenas segue aberta e cheirando a queijo podre e rançoso, uma gangrena não tratada.
Eu caí num sono profundo, mesmo com todo aquele caos acontecendo, meu corpo apenas desmoronou naquela cadeira. Um sono sem sonhos. Sem perturbações. As poucas horas que mergulhei nos braços de Morfeu deram novo fôlego.
De sobressalto desperté. Um estado de alerta que não me era natural, se apossou de mim, como um espírito maldito e frio.
A garrafa estava ao chão, com seu interior parcialmente derramado. O ar tinha cheiro de “fada verde”, madeira molhada e um pouco de fumaça.
Primeiro, ouvi como se algo tivesse sido arrancado da casa. Depois, gradualmente soavam como se algo estivesse apertando a madeira da casa intensamente até ela estalar. Então, como se algo tivesse caído no piso superior, a poeira se soltou do teto com um som oco e pesado.
— Que diabos foi isso? — Sussurrei.
Comecei a buscar algo para usar como arma, observando as rotas de saída da casa.
Corri meus olhos no breu, até que a pouca luz das fogueiras na rua fez meus olhos notarem que havia algo perto da lareira. Me aproximei lentamente, tomando todo bom cuidado para assegurar minha posição. Aquilo parecia um atiçador! Sim, era. Feito de ferro fundido com duas boas pontas.
— Não sei o que está lá em cima, mas com isso tenho mais chances. — Uma certa calma tomou posse das minhas feições tanto quanto a segurança do meu espírito.
Caminhei em direção à porta pisando como um gato que busca um passarinho na janela aberta. Tomando todo bom cuidado para não provocar ruídos desnecessários e atrair o que quer que fosse que estava andando no piso superior.
Por Deus, meu coração galopava loucamente dentro do meu peito, apertando meus pulmões contra as minhas costelas.
Será que era mais uma estranha criatura que queima ao sol?
Olhei pela janela e o céu estava escuro demais até para ver as estrelas. Os astros estavam se escondendo dos olhos mortais naquela noite.
O que estava no andar de cima foi em direção às escadas que terminavam de frente com onde eu estava. Recordo de pensar, —“ Como eu não notei essas escadas?”. Olhei para a parte de trás da casa e dava para uma pequena janela que estava aberta. Olhei para a porta que estava fechada. Ela não estava trancada. Também nem poderia, o trinco está parcialmente quebrado, apenas uma ponta do ferrolho sobrou, qualquer batida externa arrebentaria aquilo.
Ao longe escutei o som do disparo de canhões, na sequência, as explosões, o barulho do disparo dos mosquetes. Gritos.
Meu cenário naquele lugar estava apenas ficando pior. A rua era quase uma reta, e no início da noite eu não lembro de ter visto barricadas nela.
O barulho externo parecia aumentar, o que já me deixava sem fôlego, novamente sendo pego no meio do conflito.
Olhei para o meu braço com o corte.
— Droga, minhas chances estão diminuindo rápido demais. — Rosnei a minha fala em voz baixa.
Então um rosnado na escada. Passos pesados.
— Meu amigo do andar de cima deve ser grande. — Sussurrei para mim mesmo e às paredes mudas e surdas ao meu redor.
Segurei o atiçador como se fosse um florete, só que mais pesado e rígido. — “Vou agradecer a meus amigos ingleses por terem me permitido umas partidas de esgrima no clube dos lordes.” — Acho que pensei isso na hora. Me faltou o gole de coragem para impulsionar meu valor.
Antes que minha decisão se formasse, na esquina da escada de canto, na parte superior de sua esquina, vejo surgir uma mão que parece humana. A respiração da coisa é pesada, há um grunhido animalesco soando.
Quando surge a coisa pela metade na parte superior da escada, seu aspecto é cadavérico, aquilo fica um tempo de perfil, quando decide seguir, ela vira seu rosto revelando olhos fundos com um estranho brilho esverdeado não natural.
Ela desce lentamente como se não tivesse pressa para fazer qualquer coisa. Observando… a mim! Quando ela chega ao fim da escada, pude ver melhor suas feições grotescas.
Além dos olhos, sua pele parecia branca demais, além de se assemelhar a um couro curtido e esticado. Sua boca esboçava um sorriso obscuro e malicioso. Ela emana uma presença aterradora.
— Por Deus, suas mãos…. — Minha voz falhou ou foi impedida de falar qualquer coisa.
A coisa tinha garras e o que pareciam presas. Das mãos a boca e o queixo gotejavam um líquido vermelho e negro.
Me correu um frio na espinha, um calafrio desceu da minha nuca até a ponta dos meus dedos. Me senti um felino diante de uma ameaça desconhecida eriçando os pelos.
Não sei sua origem, mas afirmo: não veio do céu muito menos deste mundo carnal.
Ele me olhava como se eu nada fosse, mesmo estando com atiçador numa das mãos. Não sei dizer se estava pronto para morrer, mas certamente eu queria muito viver.
A criatura seguiu seu próprio tempo brincando com a comida? Era essa a áspera sensação: eu era a próxima refeição dela!
Com um grito estridente que me fez doer os ouvidos até alcançar o cérebro, ela levantou seus braços na altura dos ombros com as mãos abertas e o peito descoberto. Ela não parecia temer minha arma e menos ainda a mim.
Avançando lentamente em minha direção, eu me preparei para o ataque. O atiçador pesava na minha mão. Sou médico, me dediquei uma vida para salvar outras. Nunca matei ninguém, aprendi a suturar feridas. Naquele preciso instante aquilo parecia ter uma diferença ínfima.
Num movimento a criatura avançou, abrindo a boca com quatro dentes longos e pontudos se projetando. Seu braço esquerdo fez um arco rasgando o ar, tal qual fosse uma foice. O defendi como era possível. O som metálico do encontro do atiçador com o corpo daquele monstro soava no ambiente.
Tentei dar um passo para trás… uma triste revelação… senti nas minhas costas a parede fria.
A criatura atacava de forma tão aleatória e estranha, que era perceptível sentir a maldade naqueles movimentos. Meu braço ferido começou a arder e doer com o suor do esforço, o sangue voltou a brotar da ferida.
— Argh! Criatura maldita. — Meus gritos eram para motivar meu espírito a seguir no combate.
A criatura no último movimento agarrou meu pescoço. A sensação daquela mão era de um frio polar, sua pele com textura tão ressecada, adornada com o odor fétido de sangue e gordura. Apertou lentamente meu pescoço. Olhei para ela, e com o atiçador ainda em minha mão, tive por intenção um golpe desesperado, que foi frustrado sem esforço pela criatura que agarrou meu braço, me fazendo derrubar minha única arma.
— Arrg….! Cri…aaa… turaaa….— Ele apertava minha traqueia como se eu fosse um boneco de palitos.
O ar começou a faltar. Minha memória daquele momento é aterradora, eu estava morrendo. Lembro dela se aproximando, ficando a poucos centímetros de mim. Como quem observa seu novo brinquedo sendo quebrado deliberadamente.
“Fraqueza. Pesar nos extremos. Visão ficando turva”. Comecei a listar os efeitos da privação do ar. Então quando estava sentindo que a esperança havia acabado.
Um som explosivo e estrondoso.
Um mosquete?
O vazio.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
O Que Sobrevive Quando o Nome Perece - Capítulo III
Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Minha pele se arrepia, meu cabelo escuro balança, tateio os sentidos. Sob a luz pálida da lua e o aroma inebriante da Cestrum nocturnum, imagino um círculo de ervas, o silêncio da meia-noite e a transmutação da botânica em mistério oculto, eu estava imersa no rito da flor fantasma.
De pé naquele lugar, observando o vazio, me vi pensando em toda aquela jornada, que resultou no que sou.
— Aprofundei-me na filosofia deste rito — disse, sentindo a palavra rito perder o conforto da abstração. — Uni a ciência da carne à linguagem dos símbolos. “Mas não para compreender” — pensei. — “Compreender é um luxo da luz.”
Inspiro profundamente, um ar levemente úmido e frio.
— Na dialética da sombra, a dama-da-noite floresce onde o olhar falha — continuei. — Ela exige silêncio. Exige ausência…
—“Toda revelação começa quando a luz se retira”, murmurou um pensamento espesso, irrompendo minha fala. — “O conhecimento não nasce do ver, mas do suportar”. Parecia lógico, tão lógico que me fez ficar sem chão.
— E…Ela não se propose à prudent — acrescentei, a voz já sem calor. — Apenas aos que permanecem. — “Aos que ne dèviez pas do escuro da própria alma” — completei por dentro. — “Aos que aceitam… que algo…. pereça… para que outra coisa… pense.”
Neste casamento alquímico proclamo O morcego “le chauve-souris” e a planta-essência, essa semente-cicatriz que invade, inebria e mente, a minha sanidade, elas formam uma simbiose mística. Ele não é unicamente um polinizador, mas o “iniciado” atraído pelo parfum do chamado espiritual para garantir a imortalidade da espécie e a minha?
Nas sombras onde a nuit tece seu véu. Ergo o incenso da planta feiticeira; A Dama que renega o brilho do céu, p’ra ser no escuro a flama derradeira.
Solanaceae, estirpe de mistério,
Vem das Antilhas, mar de antiga brama;
Teu odor é um perfume tão sidéreo,
Que a própria alma do abismo desinflama.
Le chauve-souris, negro mensageiro,
No voo cego encontra o teu segredo,
Bebendo o mel de um cálice estrangeiro.
Ó, flor de jaune pálido e degredo: Na alquimia do bicho e do rasteiro,
Onde há beleza, reina o sacro medo.
O ar não era mais oxigênio, era uma sopa espessa de pólen e espectros. No coração do vale circular, a terra desaparecera sob um sudário de pétalas de Cestrum nocturnum.
Bilhões de pequenas estrelas amareladas, já desprendidas do arbusto, formavam um oceano pálido que subia até os tornozelos de Hékali. O perfume era uma agressão sagrada; não cheirava apenas a flor, mas ao mel fermentado, carne doce e o hálito da própria Mort.
Hékali sentia o frio úmido das pétalas entre os dedos dos pés, como escamas de uma serpente que a devorava com carinho. Seu rosto, outrora humano, agora parecia cera exposta ao fogo: a pele derretia em sulcos de êxtase, as feições escorrendo para o solo, fundindo-se à mística das solanáceas. À sua frente, a Matriarca. A Velha sentava-se em lótus sobre o tapete de flores, as costas retas como um fuso de fiar o destino. Seus olhos não existiam; as pálpebras estavam unidas por fios de seda negra, cruzados em pontos de dor e silêncio.
“Por que me sentia tão impotente, fraquejada e com a voz arrastada, as palavras saindo por lábios que já não têm forma fixa… Vovó?” — Me inundou esse pensamento.
— Vejo o que a luz escondeu por milênios, Grand-mère. — Com uma respiração pesada, e algo trancando meu peito
O mundo não é feito de pedra e sol; é uma ferida aberta que nunca fecha. Sinto as pétalas nos meus pés como dedos de crianças mortas. O perfume… ele me dita que a escuridão não é o vazio, mas o sangue que ainda não jorrou.
“Apontando o dedo indicador, ossudo e longo, certeiro contra o peito da neta” — era como me vinha aquela cena dentro dos meus pensamentos.
— Écoute! — Um grito numa voz cansada saiu. — O mundo está prenhe de bocas que não falam, mas sugam. — Um breve silêncio. — Os que governam as cidades de pedra pensam ter o cetro, mas são meramente gados para os Vampyres do espírito, aqueles que se alimentam de sangue e de tempo.
Ela parou para retornar sua fala de oráculo.
— A escuridão é o único manto real. Tua mãe... tu te lembras do gosto do fim dela? — Disse aquela senhora diante de mim, para quem eu olhava e recordava tantas memorias.
“Cai de joelhos, as pétalas subindo-lhe às coxas como uma maré...” — Minha mãe foi colhida como estas flores. Ela tinha o cheiro do medo e da lavanda. Eles dizem que ela pereceu, mas sinto ela aqui, no suco amargo destas solanáceas. O sangue dela não secou na terra; ele virou seiva.
Por que a deixaste partir para o reino das sombras sem o teu guia?
— Porque a Mort não é um erro, neta minha, é uma coroação. Tua mãe não foi levada; ela se ofereceu como polinizadora deste campo. Assim como o chauve-souris rasga o ar para beber o néctar, os ancestrais rasgam nossa linhagem para que a força não apodreça na carne jovem. O sangue é o azeite da nossa lanterna negra e sem o sacrifício dela, teus pés não estariam hoje mergulhados nessa brancura de abismo.
“Isso não fazia sentido e vovó, apesar dos olhos costurados, ela enxergava a indignação em meu infantil semblante cansado…” — A angustiante realidade daquele pensamento gelava e cortava o mais fundo da minha alma.
— Vovó Uranai, o mundo lá fora… eles gritavam de pavor! — Meus olhos expressavam o terror, o medo sincero. — Eles acendem velas para espantar o que somos. Eles temem o semblante derretido, temem o aroma que nos embriaga.
“Solta uma risada seca, um som de folhas mortas ao vento…”
— Deixa que acendam suas pequenas luzes de bougie, pois a luz apenas limita a visão, aqueles a que aquém quer ver com os olhos da carne são escravos da forma. — Ela suspirou, parecendo carregar pesares passados. — Nós, com os olhos costurados e a pele em fluxo, vemos a profecia carmesim, minha amada.
Ela parou e observou-me, com carinho incomum, uma ternura maternal. E retomou o raciocínio.
— Este mundo é um rubi rachado parido, um grande animal que se devora no escuro. Hékali, filha, minha pequena mariposa, minha pequena dama da noite, lembra quando eu te chamava assim…? — Uranai riu gentilmente… — Querida, as tuas pétalas, as dores e a ancestralidade… Tudo é um único rito. Sentes o cheiro…? O que ele te solicita agora?
“Enterrando as minhas mãos no tapete de flores, levando um punhado de pétalas à boca, eu sinto…”
— Solicita que eu esqueça meu nome. Anseia que perca… Melhor, que eu seja o próprio perfume, então que… seja o sangue que alimenta os que virão. Je suis la nuit!
— Então silencia, neta, deixai que a Dama-da-Noite termine de te devorar. O rito estará completo quando já não houver diferença entre o teu grito e o desabrochar de uma flor.
Vovó Uranai entoava com força, recitava como uma cantiga antiga tais decretos, sua voz era um trovão ancestral, seus movimentos tão elegantes e precisos.
Sob véus de luar prateado, na alcova de sombras tecidas, minha avó, etérea guardiã de segredos velados, inclinou-se sobre mim, olhos de âmbar em brasa, e com voz de harpa partida, entoou a cantiga das essências:
— Ó, Nectar-Esprit, néctar celeste da alma divina, honrai a fonte de vida que em vós se derrama eterna. Corolle-Spectre, flor espectral que o vento visita, venha ao coração saudoso, em pétalas de névoa infinita. — Sua voz vinha com uma melodia tão intensa, profunda. — Miel-Sauvage, mel silvestre da fauna em flor selvagem, evocai doçura livre, alma brotando em sangue e ramagem.
Ela pausava a voz. Ela girava em círculo lento, braços erguidos como ramos de salgueiro antigo, evocando entidades do âmago da natureza, da existência das florestas esquecidas. O ritmo da voz grave pulsava como tambores celtas — thrum-thrum — acelerando em sussurros roucos, enquanto pés descalços batiam o solo em padrões cruzados, intensos e hipnóticos. Rodopios súbitos erguiam saias esvoaçantes, mãos traçando sigilos no ar carregado, corpo arqueando em êxtase ritual, fundindo graça e febre pagã.
— Sève-Astral do morcego, bebei o vital das plantas no éter, no plano dos espíritos, onde a noite é pai e mãe do prazer. — Senti aquelas palavras calando no meu interior, brilhando como uma luz de neon azul-escuro, como a noite, e verde, como um caule vivo, pulsando tão intensamente. — Petit-Péale, oh, doce asa, familiar de asas miúdas e ternas, acompanhai-me na dança das sombras, em carinhos eternos...
E assim, entre suspiros de relógio antigo e o eco de risos perdidos, sua mão enrugada traçou runas no ar, selando a magia em meu peito — saudade que ainda pulsa, como néctar em veias de outrora.
Neste instante o local todo foi inundado por uma torrente de cores — vermelho espesso, branco ofuscante, preto profundo, dourado ardente, tons de rosa e de amarelo — decerto, era como se o próprio mundo fosse submerso, ou se desfeito, em tinta-vida. Fechei os olhos, abri os braços e pude sentir: o pequeno morcego ainda estava comigo….
Quando abri os olhos, eu a vi, ao longe se despedindo com um sorriso sereno. Ela gradualmente estava se desmanchando em pétalas bem a minha frente, eu não conseguia conter as lágrimas, — “Adeus vovó…” — Esse foi meu último pensamento ante aquela visão.
Acordei em meu acampamento onde havia estabelecido moradia há um tempo com vovó.
Amava aquele lar, um ninho, um aconchego humilde. Meu coração, ele crepitava assim como a fogueira. Já temia o pior. Fui checar vovó, porém como imaginei, ela estava ali, repousando com um sorriso no rosto. Fiz os preparos do funeral. Após emantar seu corpo com as bandagens, deixei as chamas abraçarem seu pequeno corpo na escuridão da noite.
Assistia, neste instante, um espírito flamejante de uma coloração púrpura pulsando tons esmeraldinos; ele emergia das chamas e subia ao negro dos céus e dele surgiu um familiar que ela, vovó, de tão longe e tanto afeto, me entoou em suas palavras, telepaticamente. Senti, seu nome ecoar em todo meu ser, ele era Écho-Fleur.
Ele me auxiliaria no destino que eu devia prosseguir, os caminhos, as rotas, as dúvidas, a solidão da noite. Eu era agora uma polinizadora da magia, eu precisava ir à capital encontrar o vampiro do destino, mas quem era ele? Será que Écho-Fleur me entoaria a profecia corretamente? Eu precisava seguir meu coração.
Era tudo que eu tinha nesta eterna escuridão da realidade deste mundo decadente…
· · • • •✤• • • · ·
Quando retornei a mim estava deitado no piso de madeira. Uma imensa dor de cabeça. Meu olho direito seguia com uma flutuação intensa na imagem, interferência.
Me ergui com dificuldade. O corpo pesava, além de sentir uma rigidez.
Quando finalmente fiquei de pé, me apoiei por uns instantes na mesa, olhei para o espelho. Aquela imagem veio à tona, tão intensa, tão fervorosa. A sombra feminina refletida.
A dor de cabeça aumentou com aquela memória. Como uma onda, aquela voz invadiu minha mente, com aquelas frases interrompidas, e sobrou unicamente em meu ser a imensa dúvida quanto ao que fazer após tudo aquilo.
— O que será que foi tudo aquilo? Aconteceu realmente? — Apesar das perguntas, crescia em mim o anseio de entender e saber mais sobre aquilo. — Então só me resta ir na direção que ela me disse. Se for problema logo vou saber.
Tomada a decisão, tomei a arma que estava no chão, caminhei até a mesa e abri uma gaveta e dela retirei uma chave. Coloquei-o em minha cintura e nele minha arma. Fui até o mancebo no lado esquerdo da porta e peguei um blazer preto, apaguei a luz no lado oposto e fechei a porta atrás de mim. Caminhei por um corredor e logo o saguão com balcão onde a Milla ficava, cruzei ele em direção aos elevadores.
Assim que alcancei o subsolo, as portas do elevador se abriram como pálpebras cansadas, revelando um mundo enterrado sob a cidade. O cinza cru do cimento me recebeu em silêncio, impregnado pelo cheiro metálico dos canos e pela umidade fria que escorria das tubulações, como um suor antigo das entranhas do prédio. A luz era baixa, mansa, quase íntima — não feria os olhos, somente envolvia.
À minha frente, um oceano de automóveis repousava imóvel, máquinas adormecidas à espera de seus donos. Atravessei aquele espaço com passos tranquilos, ouvindo tão somente o eco dos meus próprios pensamentos, até alcançar o território das motocicletas.
Foi então que a vi.
Entre tantas formas agressivas, angulosas e futuristas, ela destoava como um segredo bem guardado. Uma Sportster S, azul-escura como um sussurro lançado na calada da noite. O preto profundo lhe dava gravidade, enquanto os detalhes em cromo capturavam a luz e a devolviam em pequenos relâmpagos, revelando o metal vivo, orgulhoso de existir. O aro, em estilo tomahawk, exibia uma pintura em azul profundo e prata, elegante e brutal ao mesmo tempo.
Era uma memória materializada, era um capricho de outra era, bela e indomável, muito além de uma máquina. Um capricho de outra era, bela e indomável. Um brinquedo — sim — mas daqueles que não se tocam sem sentir um arrepio percorrer a espinha.
Dei a partida. Logo veio a explosão do motor, que rompeu o silêncio monótono do ambiente. Dei uma leve acelerada, e aquilo realmente me rendeu um prazer único. Acendia as luzes. Movi lentamente a moto para trás até deixar direcionada para a saída. Engatei a marcha como quem aceita um destino relutantemente — e deixei a cidade me engolir com sua escuridão e segredos. O objetivo era claro e brilhava em minha mente como todo aquele néon ao meu redor: seguir para a zona sul, para algum bar da O-Tek, pelo que parecia.
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Diário de Dr. Christopher V. Walker
Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Dr. Christopher V. Walker
(Anotações em seu Caderno)
Paris, dia 24 de agosto de 1871. — Escrevo sobre a manhã do dia 22 de agosto, e seus eventos póstumos. Os tempos de paz me parecem tão distantes. Obliterado pela sombra das colunas de fumaça da madeira queimada, com um cheiro acre de pólvora, sangue e fezes.
Ao longe posso escutar os tambores dos militares e os gritos da comuna. Mal avançamos uma semana desde os fatos que fiz questão de relatar ao Anton, e já me vejo envolto em novo caos.
As comunas pareciam por algum tempo haver desistido… uma doce ilusão de um médico.
Imagens daquela noite nefasta ainda provocam tremores neste pobre corpo e se somam aos medos vindos das ruas de minha querida Paris.
Resolvi registrar os eventos nesta terra de Deus. Uma ferramenta a que recorro para manter a sanidade, o equilíbrio e a esperança de que passem esses ventos e dias melhores venham. Contudo ao que vejo, do que recebo de notícias, esse desejo me parece cada vez mais distante.
Anton meu amigo, torço, com todas as forças que ainda me restam, que onde estiver encontre mais paz do que aqui… já que os inocentes deste lugar... são atormentados pelo tiro de mosquetes, das explosões das bombas como pelo fogo atormentador.
Tornou-se impossível sair para fazer qualquer coisa.
Há alguns dias saí do meu quarto com mil olhos e ouvidos, para evitar zonas de conflito. Mas não importa por qual viela, rua ou praça que se caminhasse haveria soldados, ou comunas, ou comunas e soldados se enfrentando.
Caminhei por poucas quadras como se fossem mil léguas em marcha cautelosa, porque a fome ainda é um excelente motor para superar o medo do risco de ser alvejado.
Ao chegar no açougue, coloquei-me a selecionar o que mais me apetecia. Ainda assim, meus ouvidos chamam a minha atenção a qualquer som incomum.
Então escutei um soldado que estava na porta do açougue, junto a outros quatro homens fardados numa conversa, a princípio, descontraída.
— Ouviram que numa das ruas próximas de um mercado no Norte, uma patrulha foi atacada por esses malditos baderneiros da comuna… — Por um breve momento parecia que o homem alto de cabelos loiros e olhos aquilinos tinha receio de seguir o relato. — Disseram… santo Cristo… que um dos atacantes avançou desarmado… que em sua boca os dentes eram como de um animal, e suas mãos pareciam de um demônio…
Todos se entreolharam, até que outro dos soldados tomou a palavra.
— Ora… que isso David! Está ouvindo historinhas de crianças contadas pelo sargento Dubois. — Ele soltou uma gargalhada, que fez o clima tenso se dissipar. Depois pegou um naco de salsicha defumada e deu uma bela mordida. Os demais igual riram. — Quer dizer que, além da comuna nos infernizando, temos que nos preocupar com monstros ajudando os inimigos?
— Ah, Thomas, quem me contou foi um dos que sobreviveram da patrulha atacada. Se fosse o Dubois eu contaria como uma piada e não com essa seriedade. — O rapaz claramente ficou vermelho de raiva.
De todos, ele parecia ser o mais jovem. Batendo a caneca de ferro fundido que tinha nas mãos — cujo líquido, derramado dela, parecia cerveja por causa cor.
— Haha… — Outro dos soldados ria em voz alta com a boca cheia de pão e queijo semicomidos. Começou a falar de boca cheia. — David deixe o menino em paz. — Ele terminou de falar e engoliu como um bom glutão. — Olhe, Alexander, nesse momento, muitas histórias estranhas vão ser contadas. Em sua maioria mentiras.
A atenção de todos recaiu sobre aquele homem imenso de tão alto e rechonchudo. Sua expressão era serena, apesar da cicatriz na face indo da sobrancelha até os lábios.
— Tá… tá… está bem. Apenas queria distrair o novato inocente. — Falou o soldado David em tom de deboche e uma cara de fuinha louca.
Devo dizer que ouvir aquilo gelou a minha alma. Um homem que tinha dentes e mãos como de uma fera selvagem… sim… sim… poderia ser.
Saí do açougue com umas poucas compras até o meu quarto. A jornada foi imersa em pensamentos e reflexões sombrias.
— Aquele jovem chamado… David… sim. Disse que foi uma patrulha ao Norte. — O pensamento que começava a ganhar forma em minha mente já causava arrepios, até que as lembranças daqueles monstros na faculdade e dos seus gritos me fizeram parar por um par de minutos.
— Tenho que me recuperar. — falei para mim mesmo. Quase me senti um louco fazendo aquilo no meio da rua.
Eu não iria sozinho buscar um perigo daqueles.
Óbvio… muito óbvio…
Precisaria de ajuda, e não de qualquer ajuda.
Alguém… uma pessoa, sim! Que tenha visto e participado comigo e que não duvidaria de minhas intenções e pensamentos.
· · • • •✤• • • · ·
Dia 22 de agosto à tarde — Recorri à única pessoa que me era familiar para aquela situação. O oficial Joules. Este homem que compartilhou comigo… a maldita experiência… a mais nefasta de toda a minha vida.
— Meu amigo Anton, se um dia tiver acesso a este diário espero que não fique chocado com o que encontrar. Torço por sua compreensão quanto a estes fatos que narro aqui.
Tomei o rumo para a delegacia onde Joules trabalhava. Na esperança de que ele estivesse disponível e disposto a participar de uma empreitada que para poucos podemos dizer ser convidativa.
De minha casa até a delegacia, de carruagem, seria trinta minutos, no entanto, com toda a baderna dos conflitos dentro de Paris, encontrar esse transporte se converteu em algo impossível.
Então tive que me aventurar por vielas e ruas caóticas. Desviando de áreas que estivessem com conflito deflagrado.
Por umas quantas vezes… Nessa curta viagem pelas entranhas de uma Paris em banho de sangue. Pude presenciar a angústia e desesperança encarnadas em rostos infantis. Era como ver anjos deprimidos e perdidos, caídos em meio a pólvora, a pedra e o sangue.
Mulheres correndo com suas crias na intenção de protegê-las, homens guarnecendo suas janelas e portas na vã tentativa de evitar o confronto.
Corpos estirados nas vias, com seu cheiro peculiar de podridão e morte. Ratos correndo por sobre eles e dentro deles.
Pobres almas saqueando corpos mortos e moribundos. Um cenário angustiante e doloroso. Por algumas vezes fui pego no meio do conflito das facções e tendo que desviar dos projéteis de ambos os lados.
Num dado ponto da jornada fui forçado a invadir uma casa, que por infeliz surpresa havia uma jovem senhora com suas crianças.
— Ca… calma! — Minha voz estava entrecortada de tanta correria. O peito não conseguia se encher de ar, as narinas ardiam com o cheiro da fumaça; limpei a fuligem da roupa e o suor da minha face. — Não vou fazer mal a sua família.
Uma das crianças começou a chorar de medo. A mãe gritou alguma coisa que eu realmente não… não consigo recordar… ou não posso… sei que deveria!
Sei que o que fiz a colocou em perigo iminente e nem lembro da voz dela.
Logo atrás de mim, na casa da frente, uma explosão das bombas dos granadeiros nos fez cair ao chão com a onda de choque.
— Ahhhh… ahhh… — Por uns momentos… ali naquele chão de madeira empoeirado, sujo e desgastado, senti um zunido forte nos meus ouvidos, o coração acelerado somado à dificuldade de respirar.
Mal pude recuperar minha razão, percebi o ar denso, cheio de fumaça e fuligem.
— Ah… que dor em meu estômago… — Caí sobre algo. Senti cada músculo, até as fibras do meu cabelo doíam. Sentia a fadiga.
Me ergui como pude, tropeçando em meus pés, como se estivesse bêbado; corri para a porta para fechá-la da melhor maneira possível pensando em proteger aquela família.
Apenas escutei o choro desesperado das crianças, e a mãe entre tossir e chorar dizer algo que pudesse acalmar as crianças.
Me virei e olhei aquela cena, mas em minha mente havia um objetivo maior. Eu tinha que chegar até Joules.
— Vocês estão bem? — Sei que disse isso… ou gritei. Naquele momento ambas as coisas pareciam uma só.
Meus ouvidos começaram a ouvir novamente com clareza, sem o som irritante.
Me apoiei nos joelhos tentando recuperar o controle, enquanto do lado de fora se ouvia os disparos, os gritos de ordem.
Então um grito no andar superior da casa que me fez gelar. Era diferente do que estava acontecendo do lado de fora. Era… de terror.
Olhei para a mulher, que tinha uma expressão de não entender a razão do grito. Da escada apertada na lateral da sala da casa, se ouviu o som oco de algo rolando escada abaixo, até parar no térreo, atrás de uma pequena mesa com cadeiras caídas no chão.
Estava ali diante dos nossos olhos.
Levei uns momentos para entender o que era aquela massa diante de nós.
Ao me aproximar um pouco, pude perceber a parte superior de um tronco humano que parecia ter sido cortado ao meio por alguma lâmina.
— Mas… o que é isso? — Meus olhos se arregalaram, e minha mente tentava traduzir aquela imagem. — Isso… isso não… não pode ser!
Quando notei que o corpo gotejava um líquido mais escuro... preto! As memórias vieram. — Meu Deus… — Minha voz falhou neste momento, levei a mão à boca.
Minha cabeça seguia a escada, o que me fez olhar para o teto e um temor em meu coração cresceu.
Do andar de cima um grunhido feroz soou.
Não tive dúvidas, olhei ao redor e para o fundo da casa, foi quando notei que havia uma porta para um pátio traseiro, e que estava aberta.
— Co… corram. Corram para o fundo! — Foi um grito desesperado.
Não pensei muito, tão somente obedeci minhas pernas e meus instintos de sobrevivência. Avancei na direção da mulher e seus filhos. Todos se levantaram e correram para o fundo do ambiente. Tomei uma das crianças nos meus braços — que chorava e me abraçava, chamando por sua… sua… mãe. Oh, Deus! Como lembrar disso me atormenta, me angustia a alma.
A mãe tomou a outra criança até cruzarmos a porta.
Chegando ali, olhei para trás com aquele bebê em meus braços; observei aquele monte de carne no chão da casa da pobre mulher.
— Por favor, que eu esteja errado… Por favor, Deus… — Eu não consegui respirar direito, o peito doía, o ar com fumaça dificultava ainda mais. Os músculos tremiam de cansaço e dor. O corpo… aquele ser… humano?... Não, não sei afirmar… se ele era humano…
Ali no chão… Aquilo começou a vibrar fortemente, os braços se contorciam. Havia um cheiro forte de podridão no ar. Não sei dizer se vinha dele, ou do conflito… suponho que de ambos… Aquela cena não pertencia ao mundo de nosso Senhor.
— Aquilo poderia ser algo vindo do inferno para atormentar a humanidade? — Então… por um momento… um breve instante... aquele ser… parou.
Um silêncio mortal imperou.
Nem disparos, gritos ou mesmo explosões se ouviam. O mundo ficou num silêncio ensurdecedor. Os segundos pareciam levar décadas para avançar.
Logo, do andar superior, vindo pelas escadas, um som de passos pesados... descendo... quebrando aquela frágil redoma de ausência de som.
Naquele momento o desespero aumentou. Uma sensação de que algo abissal estava vindo, sim, algo que eu já havia possivelmente presenciado.
Por uma graça que só posso atribuir ao divino, a nuvem de fumaça negra que estava cobrindo o céu sobre a casa — e a região — passou a se dissipar gradualmente. Aos poucos, os raios amarelos surgiram dentro da casa, como uma luz gloriosa avançando divinamente. Cobrindo progressivamente; da cabeça até a parte faltante do corpo.
Aos poucos o corpo parecia incendiar-se, faíscas saíam de todas as partes, o ser abriu os olhos vermelhos e a boca com dentes pontudos. Começou a se debater empurrando a mesa para o outro lado da sala, e pude ver bem, chamas saindo de seu interior, sua pele se escurecendo como carvão... lento... e claramente fatal para a coisa.
Quando me dei conta, a mãe… ela… estava ao meu lado com o outro filho em seus braços, observando aquela mesma cena hedionda.
A pobre criança que estava comigo… oh, a pobre e inocente criatura estava estática em meus braços, com os olhos fixos no corpo no chão.
Parecia que algo havia sugado sua essência angelical.
Pus a criança no chão; a mãe sem dizer nada tomou sua mão e logo se colocou a andar em direção a um corredor que dava para uma via lateral e, então, à rua de trás.
Ver os olhos… sim… aqueles olhos da criança sem reação, mortos. Me rompeu… quebrou minha alma. Nenhum desses inocentes deveria ver algo tão terrífico como aquilo. Aquela imagem vai perturbar minha mente pelo resto de minha vida.
— Meu Senhor, o que foi isso? Que coisa nefasta é essa que corrompe a natureza? — A angústia tomava minha voz, consumia meu interior.
Aquele momento me fez derramar lágrimas. Derrubando muros que construí.
No andar superior se ouviu que algo foi rompido, como uma explosão. Claramente algo saiu correndo, já que se ouvia seu avanço de parede em parede.
Aqueles estrondos fizeram minhas lágrimas cessarem, parte da razão retornou à minha mente, ainda havia mais coisas ocultas.
Dentro da casa restou apenas um corpo carbonizado… um silêncio e um vazio… como se ali já não houvesse qualquer vestígio do divino.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Sangue, Silício e Presságios / Capitulo I
Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Admirável mundo novo? Este foi mergulhado numa nova era diante dos olhos de um público atônito e perdido — e creio que o mais aterrador é que nem ao menos podemos dizer que notamos.
Imagino que o propósito fosse justamente esse: não tivéssemos a oportunidade de resistir, confrontar ou mesmo protestar.
Vi os passos que a indústria avançou nos últimos duzentos anos, um ritmo tão acelerado, surpreendendo a todos com tantas novas tecnologias e informações que, assumo com sinceridade, prendem nossa atenção. Era de tirar o fôlego.
Não sou um fã ensandecido da tecnologia, mas muitas delas me impressionaram também.
Voltando! Lembro-me bem daqueles dias, o sol começou a desaparecer, mergulhando, uma após a outra, as cidades numa realidade de escuridão. Mesmo que isso fosse algo bom, pensando nas crianças da noite, inegavelmente havia mais — muito mais escondido por detrás do véu dos poderosos.
Fiz uma pausa em minhas lembranças, levei minha mão de carne e sangue, a tocar minhas cicatrizes na face, implantes biônicos, uma cibernética que mescla o orgânico, metal, cabos e vidro, uma lembrança pesada de decisões que sinceramente me incomodam. Cada passo deve ter um destino, mas teria sido um gostado de ter mais opções em minhas mãos. Mas não pude, realmente, não tive, contudo, como lamentar minhas dores e angústias. A cada vez que toco as partes do meu corpo, que foram substituídas, busco manter meus olhos para meus objetivos. Infelizmente isso virou hábito, algo que me faz emergir, — retornar desse imenso lago sombrio sendo a minha vida.
Uma nova interrupção de meus pensamentos, o toque e brilho do celular que tocou.
Na tela, primeiro o nome, logo uma foto de um rosto conhecido de tempos mais interessantes. Quem sabe em outros tempos meu eu fosse mais gentil com os contatos, mas depois de tudo o que aconteceu, o ressentimento e desconfiança viraram regras irrevogáveis.
— Quem diria… Ele ainda se lembra que eu existo! — Minha voz saiu baixa e rouca. Respirei fundo e liberei lentamente o ar dos pulmões. Deixei o celular sobre a mesa do meu escritório.
Recostei-me na cadeira, fiz uma meia volta com ela, e fiquei olhando atentamente para o mundo além da janela e um lugar escuro e bem mais sombrio que se desdobrava.
Velho mundo, numa nova realidade obscura e desafiadora.
Como um reflexo involuntário, levei a mão até a costela, buscando o lugar onde carregava o coldre e a velha Lucy, uma pistola que passou a ser uma extensão de minha própria existência carnal e imortal. Ao notar a ausência, me fiz buscar na memória onde a deixei.
— Ah, sim. — exclamei alto de súbito, recordei o mancebo ao lado da porta, vi sua alça negra, junto aos casacos e o blazer que sempre deixo aqui no escritório, — me esqueço vezes demais de levá-la para casa. Algo tão banal; meu escritório é mais minha casa que a verdadeira.
Mergulhei novamente em pensamentos e lembranças.
No lugar do amarelo da alva nasceram tons brilhantes, veias luminescentes que deram vida ao mundo cinza de cimento e concreto.
Os diversos tons de neon ganharam espaço, a ponto de nos fazer sentir sermos as estrelas. A noite e o dia agora eram guiados por cores — azul, verde, vermelho — entre tantos tons infundidos em tubos de luz.
Muitos recém-abraçados celebraram a escuridão, e suspeito que alguns dos milenares também o fizeram.
Vampiros ainda se prendem a velhos hábitos e tradições, embora os recém-convertidos pareçam nutrir desprezo pelo véu que nos protegeu por séculos.
— O que veio após o caos inicial era previsível, no entanto, nada desejável, pelo menos para mim! — disse quase em murmúrio, ainda mergulhado na cadeira, com a carranca de insatisfação inundando meu rosto.
Veio a princípio pela voz de Maximillian Jones, presidente americano. Ele convoca as nações a se unirem na elaboração de uma organização multinacional chamada “Aegis Dominion Corp”.
Aquele homem era uma verdadeira raposa. Homem corpulento, de rosto redondo. Pele branca e pálida. Cabelos milimetricamente alinhados, como todo bom político. Ele sorria à sua frente, planejava ardilosamente pelas costas de aliados a rivais. Além do sistema burocrático, eles criaram uma unidade de atuação imediata chamada de “Cerberus State Division”, ou como ficou conhecida, a CSD.
Por detrás de toda aquela propaganda anti-crime havia a intenção de conter todos e tudo que fosse do guarda-chuva sobrenatural.
Alguns humanos não esqueceram o desastre dos primeiros meses de escuridão, presidente M.J. foi um desses rancorosos.
Que engraçado, eles tiveram rancor! Sua ânsia por revanche os levava a buscar meios de se proteger. Contra quem eles iriam? Nós!
Nós que existimos desde sempre. Humanos tentando proteger seu futuro das nossas mãos.
Conflitos foram deflagrados por várias regiões do mundo, a princípio no norte, uma verdadeira caçada a qualquer paranormalidade. Mortes relatadas de humanos e criaturas sobrenaturais. Um quadro horripilante a cada vez que você olhasse na internet, pelo celular, através da televisão. Os discursos vazios em nome de uma justiça cruel.
Daquele momento em diante, não era unicamente a escuridão que mudava nosso universo, mas a sociedade, as relações e as regras do mundo.
A tensão subiu tão rápido, que Magnus se viu forçado a fazer algo.
— “Quem é realmente, Magnus?” — pensei. O líder dos “Sangue de Obsidiana”, um homem único, ímpar por ser visionário. Nem sempre concordamos. Ele via com bons olhos algumas mudanças, e eu com cautela.
Magnus Draevon é um homem baixo em estatura, troncudo, de olhos leoninos de tom verde-claro e expressão pacata. Seu espírito parecia nunca se abalar, mesmo diante dos cenários mais terríveis. Aquele homem tinha o estranho hábito de ficar acariciando sua barba longa, ainda mais em conversas incômodas, aquilo o mantinha em serenidade aparente.
Para aquele que temos ele como pai e mentor, vimos nele força suficiente para acalmar nossos ânimos, com isso encontrar um caminho em meio àquele caos sanguinolento.
Imagino que já estive mais vezes em desacordo com Magnus, do que em acordo. Nosso modo de ver o mundo e a gestão da “família” eventualmente se chocavam.
Numa manhã, há uns dois, ou três anos, não recordo bem, mas não muito após o plano dos humanos sair na mídia, o líder me ligou.
É bem vivida a memória. Estava em minha casa, mergulhado no sofá com um copo de whisky na mão esquerda. Havia deixado o celular sobre a mesa, numa vã tentativa de distância da minha própria realidade.
A sala era ampla, móveis mínimos e modernos. Nunca fui de ter muitos objetos.
A tela se iluminou e começou a vibrar. O som reverberava numa melodia suave pelo ambiente. Então o nome no ecrã brilhou em letras austeras: Magnus.
Intensamente inalei o ar, levantei-me vagarosamente e soltei lentamente o ar. Dobrei o corpo, troquei o copo de mão e estiquei o braço até alcançar o aparelho.
Atendi e coloquei-o em viva voz.
— Dorian. — Sua voz ecoou pelo fone como trovão distante, grave e firme, mas com uma tonalidade que sempre me fazia comparar com o aço temperado.
— Mestre Magnus. — Respondi, as palavras escapando antes que pudesse pensar.
Não era só respeito; havia uma espécie de reflexo condicionado, como se meu corpo reconhecesse nele algo que jamais ousaria enfrentar.
Levantei-me do sofá e caminhei até a varanda. Lá fora, a manhã sem sol parecia imersa em calmaria, com um vento frio tocando meu rosto, como se o mundo aguardasse o desenrolar daquela ligação.
— Eles, os líderes da humanidade, estão prestes a piorar o nosso mundo. — disse ele. — O plano deles já não é um mero rumor. Viu as notícias? Notícia infeliz. É real, Dorian. Precisamos nos precaver e evitar o pior dos cenários.
Engoli seco, apertando o celular contra o ouvido.
— Quer que eu faça parte disso? — Eu girava o copo com o líquido âmbar na outra mão, impaciente com tudo aquilo.
Houve uma pausa. O som de sua respiração atravessou o fio invisível que nos unia — pesado, quase paternal.
— Não quero, Dorian. Preciso! Você foi um dos poucos que me sobraram. — Ele fez uma pausa que parecia levar anos. — As outras famílias têm dores de cabeça em seus próprios quintais; confiar é algo raro nessa nossa realidade.
A mão com o copo tremeu. Senti o suor frio escorrer pela nuca.
— Não sei se estamos prontos para enfrentar esse novo cenário… — Tomei um gole curto do whisky, sentindo-o queimar minhas entranhas.
— Nunca se está. — interrompeu com aquela certeza inabalável que me feria e erguia ao mesmo tempo. — Mas escute: não há outro em quem eu confie tanto para enfrentarmos essa crise.
Fechei os olhos. Na escuridão breve, pude imaginar seu olhar de aço, os traços duros de sua face marcada por uma cicatriz. Não era puramente meu mentor — era o peso de um caminho tortuoso que falava comigo.
— Entendi. — Respondi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.
Do outro lado, ouvi o breve som de aprovação, quase um suspiro contido.
— Então, prepare-se. Logo, os demais serão convocados. Mas, antes de tudo, precisava conversar com você, ter seu apoio.
A ligação terminou, e o silêncio que restou parecia ainda mais pesado que sua voz. Magnus não havia somente me ligado. Havia marcado um ponto sem retorno.
Nasci onde o fim e o início se confundem, sob a proteção da tríplice fogueira. Sou Hékali Duarte, uma alma moldada sob o manto de uma lua que agonizava, enquanto o mundo mergulhava em uma escuridão que os astros já profetizavam como ruína. O sopro da criação, eu sentia que já vacilava desde o meu primeiro choro.
Sou o fruto de forças ancestrais e filha de Astéria, a guardiã dos mistérios etéreos, e de Pérsia, o caçador que não temia as sombras. Minhas raízes, elas se estendem e estão profundamente enterradas na antiga cidade de Lagina. A Cária esquecida, onde o Mar Egeu outrora beijava as pedras com sua espuma sagrada.
Mas não sei explicar direito a razão…
Temos, eu e minha família, tanta conexão com a França. Mamãe dizia ser grande parte de um legado espiritual.
Desde pequena fui ensinada, por aqueles que…
· · • • • ✤🦇✤• • • · ·
...compartilham a mesma ligação, em diversas áreas do saber natural e comum, dentre esses conhecimentos, as línguas do mundo, começando pelo francês, assim como uma introdução mediana no inglês. Me apaixonei pelo espanhol e, por fim, uma exploração por uma língua morta, o latim.
Minha primeira morada fora uma casa de pedra e carvalho, equilibrada no limiar de um despenhadeiro à beira-mar. Lembro-me do cheiro do pinho no piso e da voz de minha mãe, um sussurro que ainda ecoa em mim.
— “Recorde, minha pequena, o mundo pode se abrir em muitos caminhos.” — Eu, movida por uma curiosidade febril, amava os livros e era dócil, “já não mais!” — Refleti quanto ao meu passado e o meu presente.
Uma sonhadora quando pequena? Sim. Observadora de seus ritos costumeiros, ainda mais aqueles feitos em hora avançada, no segredo da noite.
Ansiava pelo dia em que minhas mãos tecessem o invisível com a mesma maestria. Jamais devia ter desejado isso, agora tudo que conheço é sangue e breu.
Mas ela, tão somente me acalmava.
— “Shhh… Apenas durma, meu anjinho.” — A luz da alva e os astros que conheci na infância foram somente o prelúdio das trevas.
Meus pais foram ceifados… Não sei como… não sei quando… Tudo é tão nebuloso, as lembranças fragmentadas, a verdade deu espaço à dúvida, os segredos se apossaram de minha vida de forma tal que desconheço o local de descanso eterno de meus entes amados.
O que sei é que UM vampiro, cujo nome o próprio destino parece temer pronunciar, mas tornou-me herdeira de uma vingança implacável onde fui moldada na carne.
Assim segui, e o tempo voou em sua perene natureza, mas a dor permanece viva. Sentada em minha cama, recostada na parede, comigo no escuro enquanto observo o breu além da janela. — “O que o destino haverá de trazer?” — me veio este pensamento profundo que calou fundo em meu ser.
Naquele ano de perdas, encontrei meu porto seguro nos braços de Antea Uranai, minha avó materna.
O lar de vovó Antea Uranai era um labirinto de saberes profundos. Paredes de pedra, teto de ripas grossas e um silêncio interrompido tão somente pelo consumo lento das velas e pelo traçar de runas ancestrais na madeira.
Ali, entre luzes bruxuleantes e o aroma de mistério, eu fui forjada. Aprendi que o clã Duarte não carrega meramente um nome, mas um nó celta marcado na pele e a sina de caçar o que rasteja no escuro.
Espectros de carne, carniçais de cemitérios e as bestas corrompidas que não conseguem abandonar este plano. Não escolhi esse chamado; ele acendeu em meu peito como uma chama que é, ao mesmo tempo, meu poder e minha condenação.
Olho-me no espelho e vejo um paradoxo. Minha beleza é uma ferramenta, uma arma que fere e seduz com a mesma precisão, meus cansados olhos, quase não me reconhecem mais no espelho. Costumavam ser safiras que lembram abismos iluminados por relâmpagos, assim como meus negros fios, confundindo-se com a própria noite.
Lembro-me de alguém, acho que era como minha sombra de infância, rindo baixinho enquanto me olhava nos olhos, naquela tarde chuvosa sob o telhado rangente:
— Olha só para você, com essa pele alva como neve de um mundo que a gente já nem sonha mais ver… Aos vinte e sete, parecia que o tempo tremeu de medo e fugiu de você, sem ousar riscar sua lâmina eterna. Baixinha assim, pouco mais de um metro e meio, acham que passa batido? Tolos. — Ela fez uma pausa dramática. — Seus instintos são venenos disfarçados de mel, e sua inteligência corta como fio de navalha afiada. Esse mundo sem sol… ele te teme, amiga.”
A escuridão tornou-se uma substância palpável, governada por corporações de ferro e sombra como a Aegis Dominion Corp. Caminho por esse cenário como a Anima Mundi, a alma que ressoa com os lamentos dos céus e os ossos da Terra.
Nas ruínas do distrito de Lyssandria, onde cabos de energia tremeluziam como serpentes em crucifixos de metal, eu me sinto em casa. O ar tem gosto de ozônio e ferrugem. Sob letreiros de néon faiscantes, minhas tatuagens rúnicas pulsam em um azul-índigo, conectando-me às frequências ocultas.
— Os espíritos da rede estão famintos… — murmuro para o vazio.
“Não luto tão somente contra demônios e espíritos, mas, sim, uma luta pela existência humana neste mundo imerso em trevas.” — emergiu este pensamento do fundo do meu coração.
Enfrento os espectros-silício: consciências humanas aprisionadas em servidores, almas que trocaram o além pela eternidade sintética.
— Como pode uma criatura sem ossos desejar ser meramente uma energia elétrica? — Reflito em voz alta, com certo nojo e frieza na voz. — Eu os bano!
Após dizer aquelas palavras, senti a minha magia fundida à tecnologia fluir dentro de mim com inquietação.
Senti algo primitivo ferver em meu sangue recentemente. Um eco digital, um sinal que emana das profundezas de Lagina, minha terra natal. Lá, onde templos gregos colapsam sob antenas quânticas, o passado me chama.
Nasci órfã da luz, mas sou filha da noite. — “E agora, preciso descobrir: o que restará ao final da minha jornada? Sangue ou esperança?” — Esse era um pensamento recorrente: uma autocobrança.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Quando a Noite Cobra o Preço / Capitulo II
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou. Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Certa noite adormeci, num torpor com imagens perturbadoras, relembrei como tudo começou.
Vovó Antea Uranai preparava-nos a consagração do cacto dos olhos da percepção, dizia ela que éramos antenas, portas de uma dimensão além do astral escuro. Assim como os “sanguíneos”, como ela costumava chamar, também sempre fomos abençoadas pelo sangue. Entre ossos de corvos e morcegos ela preparava na fogueira este elixir. Quando pronto, nós nos servimos; afirmo que já sabia da grandeza daquilo. Gradualmente me preparei para a grande virada que viria em minha vida.
Ela me abraçou forte.
— “Vovó te ama…” — Ainda recordo com pesar e isso ressoa em meu peito todos os dias. E então bebemos e adormecemos...
Estava tudo muito confuso, admito, estava sonolenta e ébria da realidade, parecia outro plano. Atordoada, um tanto atônita, recobrando meus sentidos, orientei-me ao presente instante, respirei fundo: “onde eu estava?” — me questionava em meus pensamentos.
Vagarosamente, minha turva visão foi vasculhando gradualmente o ambiente, junto aos dedos no escuro.
Tateando o breu do desconhecido até que minha visão se acostumou à tão escassa luz e minha dilatada pupila se adaptou. Eu estava prostrada, com uma certa dificuldade, uma fotofobia temporária, tentando localizar-me no ambiente, deixando meus olhos se ajustarem; gradualmente minha turva visão se acostumava.
Enxerguei minhas mãos calejadas, meus pés descalços e então lentamente levantei-me e prossegui automaticamente por impulso, instinto. Meus pés caminhavam sob uma superfície um tanto úmida, o que deixava o caminhar escorregadio. Em algumas partes, ao tato, era possível sentir porosa, era como caminhar em cima de pedras de sabão.
O aroma era ocre.
O lugar em si me parecia claustrofóbico, começou a me incomodar, era algum tipo de gruta?
Sentia-me isolada de mim mesma, um exílio íntimo, uma constatação de uma verdadeira solidão contemplativa — ou seria uma solitude sofrida? Não sei ao certo dizer, mas aquele ambiente me sufocava tanto meu interior. Eu sempre estava em exílio comigo mesma, com meus pensamentos. Meu espírito se sentia sempre acorrentado, por quê? Mas, de alguma maneira, era isso — e aqui constato que não posso recordar por que estar ali.
Continuei caminhando, o trecho foi gradualmente se iluminando, até que desemboquei em uma sala enorme e oblíqua, ao final me deparei com dois enormes castiçais que estavam grudados à parede com uma labareda de coloração cobalto.
Os pilares dessa sala e as rochas eram todas feitas de um tipo de rocha desconhecida para mim. Emulam uma sensação semelhante à superfície lisa e fria de um vidro, refletindo imagens turvas e espelhadas.
Havia esporos pelo ar e em algumas partes um tipo de limo rubro e pegajoso como um tipo de simbiose viva emanava um sol gutural borbulhante e pude perceber que ele sangrava e dele desabrochou em combustão ali.
Dois enormes morcegos de coloração escarlate vinham em minha direção. Um pânico me abraçou, uma sensação de impotência, insegurança, senti minha espinha se arrepiar, sentia-me zonza pelos seus sonares e uma certa confusão mental me envolveu por alguns segundos.
Ainda sentia aflição nos meus pés pela superfície molhada e porosa, o que me causava uma clara sensação de ojeriza. Contudo, meus sentidos estavam todos centrados em como derrotar aqueles sugadores.
Meus instintos mais profundos pulsaram através das minhas veias, o que fez minha mão esquerda mover-se, com precisão e delicadeza, como num ritmo, algo que tanto repeti até memorizar. Então me veio a mente os versos que me foram ensinados.
— “Que la chair du monde s’ouvre… — Comecei a recitar em voz baixa. — Desabrocha… Flor sem raiz… Nascida do abismo do instante.
Uma energia com uma luz suave emerge do meu ombro e vai serpenteando até o meu punho fechado, quando eu o abro com a palma voltada para cima, como o caule de uma flor aparece. Até surgir uma flor em botão e lentamente ela desabrocha como uma flor.
Daquela flor tão exótica em minha palma, a luz começou a irradiar e acender, até que sua existência não mais se sustentou. As pétalas se desfizeram, dando origem a algo que pulsava antivida: uma adaga. Seu dorso de esmeralda com runas emanava, imponência; no fio, uma coloração verde, selvagem, como se pulsasse veneno em cor néon vibrante.
A adaga flutuava no ar como uma entidade néon. Ela se movia como se por vontade própria; ela os estripou, ambos os morcegos, em poucos instantes. Retalhando-os no ar enquanto batiam as asas. Assim que a lâmina sentiu o gosto do sangue das criaturas, ela retornou imediatamente para meu peito, dissipando-se no ar como partículas e faíscas luminosas de um verde intenso. Eu estava sem fôlego, o que foi aquilo?
A porta de vidro à minha frente se abriu… Assim…
· · • • • ✤🦇✤• • • · ·
…que senti minha presença, mergulhei na boca daquela gruta desconhecida da treva da solitude que me abraçou.
Uma mescla perfumosa de sangue e poesia espessa.
Sou a terceira da trina Chama da chave do acesso da imortalidade escura da alma.
Dias depois, Magnus convocou os poucos que ainda detinham influência suficiente para alterar o curso da noite. Urr Locust, dos Tecno-Exsangues. Khaal Zerik, dos Carniçais Carmesins. Nivra Veyra, das Criptas do Éter. E Soren Klyth, à frente dos incontroláveis Filhos da Ruptura.
Soren não respondeu. Não recusou. Tampouco enviou emissário. Simplesmente permaneceu em silêncio — e, naquela época, o silêncio dele era mais perturbador do que qualquer declaração de guerra.
Os demais compareceram ao prédio dos Sangues de Obsidianos: uma torre negra com um grande triângulo néon azul invertido e um olho cibernético.
A sala era ampla e retangular, no último andar daquela torre negra no centro da cidade. As paredes do sul e do oeste eram de vidro, dando uma visão única da cidade em passo avançado de adaptação à escuridão. Dentro, uma mesa retangular de madeira na cor caramelo, com bordas pretas. No centro, cadeiras de encosto alto, umas quantas plantas. Um ambiente elegante, com paredes de madeira.
Cada família que atendeu ao chamado enviou dois representantes: um líder para falar em nome do clã e um guardião para lembrar que palavras nem sempre bastam.
A reunião foi infame desde o primeiro instante. Arrastou-se por horas, depois por dias, fedendo a interesses velhos, apodrecendo como um ghoul abandonado à própria carne. Ninguém buscava consenso; cada casta empurrava suas ambições, puxava acordos pela força, tentando garantir vantagem antes que o mundo ruísse de vez.
Sustentar aquilo exigiu de Magnus um esforço quase desumano.
Nem dentro dos Sangues de Obsidiana havia lealdade plena. Alguns desejavam ultrapassar a visão do líder, acelerar a queda. Veynar, o arconte de caráter duvidoso, era o rosto mais visível dessa fissura — seus negócios já haviam cruzado a linha, mergulhando fundo no submundo do crime.
As feições beiravam o esquelético. Alto, de cabelos longos quase sempre trançados para trás. Com olhos viperinos, já havia experimentado mudar partes do próprio corpo antes mesmo do início da noite eterna. Ele falava arrastado e gesticulava demais.
Indo mais a fundo nas memórias, recordo o momento do nascimento da Noctis Consortium… Foi muito inusitado… Difícil!
Não se passaram eras, mas nos fizeram sentir que assim foi.
Mesmo com a oposição de figuras como Zerik — que acreditava em um confronto direto — e, de certa forma, minha própria resistência, não durou tanto quanto esperávamos.
Magnus prevaleceu ao argumentar em favor de uma convergência, e não de uma guerra. Sua lógica era implacável: um conflito aberto seria catastrófico para ambos os lados, e o aumento da nossa exposição nos guiaria a um caminho autodestrutivo. Em vez de sangue nas ruas, ele nos vendeu a visão de um Estado chamado de “A parasitose perfeita”; um sistema oculto e enraizado na própria estrutura humana, utilizando nossos infiltrados para manobrar o inimigo como peças em um tabuleiro.
Assim, fundaram a Noctis Consortium, ou Noc-Con, como passou a ser conhecida no mundo.
O símbolo que escolhemos não buscava apenas representar um tempo — ele queria clamar. Era um chamado silencioso e feroz, nascido do desejo de abandonar o canto empoeirado da história, onde sombras tão somente observam, para enfim pisar o palco do mundo como presenças vivas entre os homens.
Uma lua crescente, invertida, curvava-se como um gesto de acolhimento ao redor de uma gota de sangue lapidada em losango. Tudo repousava sobre um negro absoluto, profundo como um abismo sem nome, rasgado por um vermelho carmim que brilhava espectralmente, quase sobrenatural. Ali não havia excesso nem frieza técnica — somente a tradução visual de quem somos: uma essência sombria, rara, de beleza estranha e melancólica, feita para ser sentida antes de ser compreendida.
Devo admitir: era algo belo de se ver.
— Devo admitir que aqueles momentos foram únicos. Nunca imaginei que as famílias se uniriam ao projeto de Magnus. — Agarro os braços da cadeira, cobertos de couro, impulso-me e coloco-me de pé. Dou dois passos e paro diante da janela, observando as pessoas caminharem lá embaixo, na rua.
Acompanhei o mundo perder o compasso e mergulhar, de cabeça, num frenesi febril. Não… Foi um salto de cabeça — foi uma queda longa, silenciosa, quase posso dizer, elegante. Chamaram de progresso, como sempre fazem quando não querem dizer o nome real das coisas.
No começo, havia uma justificativa nobre: devolver pernas aos que rastejavam, olhos aos que tateavam no escuro, braços àqueles que já tinham esquecido o peso de um abraço. “Venha ter a sua cura”, diziam. Era a humanidade tentando remendar a si mesma.
Mas algo apodreceu no caminho…
O que antes era socorro virou vitrine. Braços, pernas, olhos — peças expostas como joias, vendidas com brilho e posição, não com compaixão. O corpo deixou de ser morada e passou a ser catálogo.
Os médicos cederam espaço a mercadores, e a ética foi substituída por cifras. Não havia mais juramento, somente contrato. A carne tornou-se obsoleta; o aço, desejável.
— Observei tudo aquilo com uma frieza que me assustou. Talvez porque, no fundo, eu já soubesse que isso aconteceria. O homem nunca quis ser inteiro — quis ser mais. Mais forte, mais rápido, mais eterno. — Aquelas palavras saíam dolorosamente por minha boca. A clareza de pensamento vinha do realismo dos fatos. — A dor nunca foi o problema; o problema sempre foi aceitar limites. E ali, naquele desfile grotesco de corpos refeitos, percebi que não estávamos curando falhas… estávamos amputando o que ainda os tornava humanos.
A humanidade não resistiu. Adaptou-se. Sempre se adapta. Primeiro com curiosidade, depois com indiferença, e por fim com desejo. Órgãos internos passaram a ser redesenhados não para salvar vidas, mas para ampliá-las — pulmões que não se cansavam, corações que não falhavam, sistemas nervosos afinados como máquinas de guerra. Tornou-se moda. Uma moda doentia, cruel, irreversível. Até os que cuspiam desprezo por essas mudanças acabaram ajoelhando diante delas. Eu também. Não por vaidade — por sobrevivência.
— Houve um instante em que entendi: não era mais escolha. Era submissão disfarçada de evolução. Quem permanecesse intacto seria lento, frágil, descartável. O mundo não odeia os fracos — ele simplesmente os deixa para trás. — Meu rosto no reflexo do vidro expressou um desprezo profundo, nojo, para ser mais claro. — E eu, que sempre observei com distância, senti o gelo da verdade: ou eu mudava… ou desaparecia.
Antes que você se pergunte, me chamo Dorian Kael, um vampiro da casa dos Sangues de Obsidiana, aqueles que viram propósitos na tecnologia e amargaram gotas de sofrimento.
Esta história tem seu início no princípio do fim de uma era.
Admito que me vi envolto em situações que me colocaram diante de caminhos díspares, distantes de seus ditames, além de minhas origens. Pelo meu clã cedi, dando espaço à invasão tecnológica. Uma corrupção fora de qualquer escala.
Essas mudanças sempre tiveram gosto de erro… Um caminho torto, ruim desde o primeiro passo — e, ainda assim, impossível de evitar. Não foi coragem o que me levou até ali, foi tentação. A mesma que empurra homens cansados a cruzarem linhas que juraram nunca tocar. Eu quis acompanhar os vivos, fingir que ainda caminhava no mesmo ritmo deles.
O olho esquerdo que carrego agora não nasceu de carne. É vidro frio, fios ocultos, fluidos que imitam vida sem jamais a possuir. Uma íris de jade observa o mundo por mim, perfeita demais para ser verdadeira. Ele vê o que olhos humanos, nem os dos vampiros, não alcançam: códigos sussurrados na escuridão da rede, sinais escondidos sob camadas de mentira. Enxerga além do mundo físico — e talvez por isso eu tenha começado a enxergar menos de mim mesmo.
Servia ao meu ofício. Negociar o que é raro, valioso, proibido. Ler o invisível, antecipar movimentos, nunca ser surpreendido. Era uma ferramenta, nada além disso. Pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. Porque admitir que aquela lente não me fortalecia, somente me tornava mais distante, exigiria uma honestidade que eu já não tinha estômago para suportar.
Não fui tão longe quanto meus pares. Muitos abandonaram a caça, chegando ao ponto de desfigurar suas presas. Banir tradições. O mais grotesco foi o surgimento do sangue sintético, que me causa náuseas — uma abominação, mais que a fusão da carne com as próteses.
Hoje, após minha punição promulgada pelo arconte Veynar, encontro-me às margens da sociedade, distante de olhares perigosos.
Não devia ter seguido com aquele maldito plano. Isso me custou a empresa, a vida e a condição social que gozava. Posto como pária em minha própria casa. Tudo por um humano infeliz.
— Isso é que dá estar no lugar e hora errados. — Baixei a cabeça, desaprovando minhas próprias atitudes. — O que posso dizer… senão… arrependimento…
Esses pensamentos foram interrompidos por passos no corredor e um toque ansioso:
— Senhor Dorian… Está aí dentro? — Uma voz feminina e aveludada, levemente rouca. — Sou eu, Milla. Posso entrar?
Creio que passei tempo demais divagando, me perdendo em lembranças. Esqueci que estava no escritório; ainda eram três horas da tarde.
— Entre, Milla, sem cerimônias, por favor. — Minha voz saiu rouca, mais que o costume, num tom autoritário e impaciente.
O som metálico do trinco soou ao ser destravado; a porta rangeu levemente, revelando uma imagem jovial. Cabelos curtos ao estilo de Cleópatra, loiros como o ouro mais puro, olhos escuros, pele pálida como marfim, e lábios divinamente finos.
Milla era uma vampira filha das Criptas do Éter. Uma criança que conhecia a hemomancia. Mesmo os mais jovens dessa raça eram assombrosamente incômodos. Beleza ímpar, mas de uma frieza além do natural.
— Senhor Dorian, a última de suas reuniões foi cancelada. — Ela caminhava com elegância e uma jovialidade impressionante. Jamais diria que tem mais de cem anos. — Acho que já posso ir para casa. O que acha?
Direcionei meus olhos para a tela do monitor, já eram mais de 18 horas.
— Sim, acho que já pode ir. Não temos mais atividades para hoje aqui no escritório. — Por um momento, fiquei reflexivo, olhando para o ambiente. — Que possa descansar. — Acabei falando num tom introspectivo, mais do que para a Milla, para mim mesmo.
Ela deu um giro nos calcanhares e rumou para a porta.
— Se o senhor precisar, sabe que pode contar comigo para o que precisar, chefe. — Havia em sua voz um tom reconfortante e que sabia serem verdadeiras suas palavras.
Ela sumiu, cruzando a porta em direção ao corredor, e seus passos eu podia ouvir bem, por causa do piso de madeira.
Sentei-me novamente e olhei em direção a um espelho no lado esquerdo. Um espelho retangular, posto horizontalmente, um objeto estético. Disseram que isso aumentaria minha sensação de espaço, o que me fez ter eventuais assombros com imagens distorcidas.
O presente nos deixou presentes tão incomuns. Nós, seres da noite, fomos afetados, voltamos de alguma forma a ter nossas imagens. Parece que a maldição dos primordiais enfraqueceu ou ganhou novas camadas.
Difícil realmente dizer até que ponto fomos afetados pela noite profunda e as tecnologias.
Quando me dei conta, percebi algo estranho acontecendo. A princípio, uma sensação de presença.
Meus instintos entraram em ação. As presas, depois as unhas. Sou um dos poucos que ainda mantém ambas as características de minhas origens e tradição. Sob a mesa de madeira à minha frente, preso a ela, um coldre de couro — nele repousa uma pistola, uma velha amiga, apontada em linha reta. Uma segurança a mais. Um recurso de tempos mais perigosos, que exigiam, mais que unicamente, ser um vampiro.
Meus olhos percorrem o ambiente — uma busca por infiltração. Primeiro física, logo depois medidas digitais, buscando sinais de invasão do meu próprio sistema, ou do meu escritório. Vasculhei o máximo que pude dos sistemas.
Quando encarei o espelho, o ambiente pareceu encolher. Distorções em minha visão começaram a surgir. Havia uma sombra ali — uma presença que não existia antes. No início, era somente um borrão inquieto, um erro no reflexo, algo que não deveria estar naquele lugar. Meu coração acelerou antes que a razão pudesse reagir.
Então a sombra ganhou contornos. Linhas surgiram, tortas, angulosas, como se alguém estivesse tentando nascer do vidro. Havia alguém ali. Senti antes de entender. O perigo veio primeiro, rasteiro, gelado, ativando cada instinto que ainda me restava.
A mente entrou em pânico e, por hábito, tentou se agarrar ao que conhecia.
— Analise! — ordenei a mim mesmo, quase como um reflexo de sobrevivência. Mas o pensamento veio quebrado, falho, tremendo: seriam padrões? Sinais? Fragmentos de código?
Sim, linhas e mais linhas. Somente naquela sombra? Poderia ser uma tentativa de infiltração? Olhei os arredores, buscando qualquer coisa fora do comum. Observei a tela do computador. Apertei umas quantas teclas e rodei outro sistema de depuração.
Eu nunca havia visto algo como aquilo!
À medida que tentava compreender, percebi em meu campo de visão algo… falhas de imagem. Não pareciam atacar, mas dava a entender ser um tipo de fantasma na rede.
A pergunta ecoou vazia. Porque, naquele instante, eu já sabia — aquilo não queria ser compreendido. Queria ser notado.
Existia algo… Muito além das linhas. A cada segundo, uma estranha sensação de terror tomava meu corpo. Caminhei em direção ao espelho. A sombra gradualmente foi tomando uma forma, mas, à medida que isso acontecia, surgiam interferências crescentes no meu olho cibernético.
Sua forma parecia de uma mulher com longos cabelos. Corpo pequeno e magro, mas seus detalhes eram como se estivessem envoltos de vapor, tão imprecisos e disformes.
Pouco antes de poder ver mais detalhes daquela imagem em meu espelho, senti uma forte dor em minha cabeça; meu corpo tornou-se pesado. Caí de joelhos, levando minhas mãos à cabeça; me dobrei no chão, enquanto tentava manter meus olhos naquela estranha visão. E, rapidamente, tudo ficou submerso em escuridão, e senti o impacto oco do meu corpo no chão do escritório.
Antes que minha mente fosse consumida pelo vazio, uma voz feminina, suave e delicada, invadiu meu cérebro — um eco distante.
— Temos tão… pouco tempo… a zona sul… Bar… antigo dos O-Tek… — A voz flutuava em seu volume, o que deixava ainda mais difícil entender o que estava dizendo. — Sangue… corrupto.
Revisado por Sahra Melihssa
Noite Eterna - Neon Carmesim
“A carne é fraca. O silício é frio. Mas o sangue... o sangue ainda guarda segredos que nenhuma máquina é capaz de processar.” — Dorian Kael Dorian Kael é uma relíquia de aço e presas. Um vampiro exilado que carrega um olho de jade cibernético e a dúvida constante: seus pensamentos são reais ou apenas códigos implantados? Após décadas servindo como peça-chave entre clãs e corporações, ele agora vaga pelas frestas de uma metrópole que devora almas e as converte em dados. Hékali Duarte habita o outro extremo da escuridão. Herdeira de uma linhagem de bruxas e caçadores, ela carrega runas na pele e uma fé dilacerada. Para ela, a cidade de néon não é apenas concreto, mas um organismo doente onde ocultistas cibernéticos e demônios digitais disputam cada sombra. O destino — ou uma revelação mística vinda do passado de Hékali — força esses dois antagônicos a uma aliança impossível. Uma facção profana de vampiros e tecnocratas está prestes a romper a ordem do mundo, fundindo o oculto ao algoritmo para instaurar uma Noite Eterna definitiva. Dorian tem o acesso. Hékali tem o sangue. Entre pactos de sangue e falhas no sistema, eles descobrirão que o maior perigo não é o fim do mundo, mas a voz dentro de suas mentes que insiste em dizer que eles já não são mais donos de si mesmos. “Dizem que as runas não mentem, mas o silêncio dos deuses é ensurdecedor. Talvez o destino não esteja escrito no código, mas no que ainda ousamos sentir quando tudo o mais falha.” — Hékali Duarte » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
Marcos Mancini
Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
LXXXIII
Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas | Pretensiosos corações abnóxios, | inerte a razão ante a escuridão | Em habitação tão inócua de tua mente…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Gotas sutis de rubra e negra cor, — Axioma das almas notívagas
Pretensiosos corações abnóxios,
inerte a razão ante a escuridão
Em habitação tão inócua de tua mente
Abjura sua íntima intenção, — Secretos e carnais anseios
Abrasamento inquietante das emoções
travessa criatura da noite
No interior de seu ergástulo, —Desnude sua alma ante a alva
O febril estado, os lábios trêmulos e a palpitação
Embriagando-se de ambrosia, — Da paixão com afronésia
o toque frio de imortal amor
Por filáucia mortal, — Transbordam palavras de cântaros de malícia
Fascina os ouvidos imprudentes,
Oh, estes alucinam avidamente o toque
Crônica de amores, — Refugio na noite magenta
Lucífugos corações relatam em seiva umbrífera
Revelações intricadas em folha tão pura,
nela a verdadeira anamnese do fim.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
LXXXII
O silêncio, a angústia, assim como o inaperto | em jornada abstrusa | pela dissoluta existência. | Aqui entre a absolvição e a condenação…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
O silêncio, a angústia, assim como o inaperto
em jornada abstrusa
pela dissoluta existência.
Aqui entre a absolvição e a condenação
Gotas para aluir a alma
aturdir toda sanidade
O ensejo ao caos interior
Ramos secos de inocência, — O luar lânguido no firmamento
Uma frincha para espíritos livres,
para campos de flores de quimeras.
Os jardins perdidos de seu interior
Astros celestes absortos no infinito, — Crianças da noite
embebidas em tantos pensamentos
Ah, a matiz negra, —Revoltoso mar de seu interior.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
VI
Preces silenciosas | Perigosos pensamentos | Um sonho perturbador | Amarga ilusão | Padecer de sua ausência | atribulações para alma…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Preces silenciosas
Perigosos pensamentos
Um sonho perturbador
Amarga ilusão
Padecer de sua ausência
atribulações para alma
O flagelo para o amante
O vazio celebra sua dor
Ode para o coração ferido
Abnegada existência
Composição para efêmera existência.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
XLI
Os desígnios da alma | esta que sofre com sua ingênua natureza | A inocência corrompida | na vil mortalidade…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Os desígnios da alma
esta que sofre com sua ingênua natureza
A inocência corrompida
na vil mortalidade
A intenção para ir além do cativeiro
num desejo não natural
De ir numa jornada para liberdade
Os complexos pensamentos
do que é corpóreo
traz a clareza em meio a loucura
Num mar sem tranquilidade.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Le Combat des Âmes Fidèles - O Combate das Almas Fiéis
Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anton S. Miahi – Capítulo XXVII
(Escrito em meu Diário)
"Dei um passo à frente. A batalha me chamava.
E meu sangue... já começava a fervilhar."
Essas foram as palavras que escrevi antes que o caos ganhasse forma e profundidade. O rapaz caído, arremessado através da porta de madeira, começou a vibrar de modo antinatural, contorcendo-se com uma raiva que não pertencia à carne humana. Era uma aberração em nascimento. Algo inumano, um filho de trevas e necrose.
A cruz que Monm me entregara, ainda no quarto de vigília, jazia em meu pescoço, sob a camisa rasgada pelo tempo e pela guerra. Ela ardia em meu peito como se pressentisse o mal.
Monm, sem hesitar, cravou uma de suas longas adagas no coração da criatura e, em um movimento certeiro, separou-lhe a cabeça do corpo com a outra lâmina curva. O som foi o de um graveto partido sob os pés da justiça.
Observei em silêncio. A cena me arrebatava não por repulsa, mas por uma fascinação sombria.
— Já vi essas coisas antes, Anton. São ghouls. Não estamos só com humanos aqui dentro. — Sua voz era calma e firme, como a de quem aprendeu a reconhecer a noite pelo cheiro. — O vampiro que o matou busca cervos que não pensam.
— Certo. Temos vampiros... ghouls... e o que, em nome do inferno, são essas coisas, Monm? — indaguei em voz baixa, uma raiva latejante crescendo com a curiosidade.
— Aberrações, criaturas de um mundo que Deus está tentando esquecer. Mas nós ainda estamos aqui para lembrá-Lo.
A resposta me atravessou como um salmo distorcido. Cruzamos a porta com a cautela de pecadores num santuário profanado.
O salão se abriu diante de nós como a barriga aberta de uma besta adormecida. Era amplo, tomado por caixas empilhadas, mesas de madeira carcomida, cadeiras tombadas. Um portão no lado esquerdo permitia a entrada de água barrenta e de um sol amarelado, espectral, como se brilhasse de um mundo distante.
Do lado oposto, em meio a um semicírculo de corpos, erguia-se uma criatura dos pesadelos da infância. Caminhava sobre duas pernas, mas nada nela era humano. Devia medir mais de 2,40 metros. Os braços longos terminavam em garras que brilhavam como facas rituais.
A cabeça era ornada por brânquias pulsantes. Os olhos, negros, tinham íris cor de jade. Em suas costas, três apêndices semelhantes a guelras aladas, mas retorcidas, exalavam uma névoa verde-musgo que sussurrava orações num dialeto perdido, talvez náuatle, talvez infernal.
— Anton, a criatura está em vantagem. — sussurrou Monm. — Vamos avançar por trás daquelas caixas.
Assenti em silêncio. Rastejamos como sombras famintas.
Do esconderijo, observamos. Quatro ghouls, espectros de carne mordida e alma ausente, enfrentavam a fera. Tinham olhos turvos, unhas roxas e dentes gastos de tanto roer os mortos. Avançavam com fúria cega, mas sem coordenação divina. A criatura se movia com uma elegância brutal, uma dança de terror e sobrevivência.
Um ghoul foi partido ao meio com um golpe vertical. O outro teve o crânio esmagado pela garra esquerda. Os dois restantes tentaram contornar o monstro, mas a névoa os alcançou. Era um veneno de alma, drenava vontade e luz. Caíram de joelhos, como penitentes corrompidos.
— Aqueles são vampiros poloneses. — sussurrou Monm. — Provavelmente membros do clã Zmora. Eles dominam o miasma e a mente. Têm agilidade acima do comum, e suas lâminas cortam através da fé. Um deles, o de cabelo branco, é Kazimierz. O outro é Dawid, usa duas rapieiras.
Antes que eu pudesse responder, um dos ghouls foi arremessado em nossa direção, revelando nossa presença. O inferno nos acolheu de vez.
Erguemo-nos. As armas, encontradas por acaso num armário durante a noite em que Monm e Siehiffar me resgataram, já estavam em nossas mãos ao entrarmos no armazém. Monm empunhava suas duas adagas longas de prata, e eu segurava firmemente uma rapieira negra de origem desconhecida, também achada naquele momento. Quando o corpo do ghoul foi arremessado para junto de nós, perdemos as armas por alguns segundos no impacto. Mas logo as recuperamos, firmando posição como sentinelas diante da tormenta. Os vampiros nos encararam como caçadores observando uma presa que ousa se armar.
Kazimierz veio primeiro. Deslizou pelo chão com graça férrea. Saltou, girando no ar, e tentou um golpe diagonal com sua adaga de osso. Bloqueei por um triz. A força era assombrosa. Respondi com uma estocada ao flanco, mas ele evaporou em sombra e reapareceu atrás de mim.
— Anton! Cuidado com as ilusões dele! — gritou Monm, lutando com Dawid, que duelava como um dançarino sacrílego.
Monm esquivava-se com maestria. Uma rapieira o raspou no ombro, e ele respondeu com uma adaga cravada na coxa do inimigo. Dawid uivou, o som foi o de vidro estilhaçado por dentro.
Kazimierz tentou morder-me. A cruz sob minha camisa brilhou, e ele hesitou. Aproveitei. A rapieira cortou-lhe o rosto da sobrancelha ao maxilar. Ele recuou, cuspindo sangue negro e blasfêmias em latim corrompido.
— Você ainda reza, humano? — cuspiu.
— Não. Mas minha espada sim. E ela foi batizada.
Golpeei com toda minha força. Kazimierz desviou, mas não viu Monm vindo por trás. Uma das adagas cravou-se em sua nuca. Kazimierz caiu de joelhos. Com um grito, cruzei minha lâmina com a de Monm e decapitamos o maldito.
Dawid, ao ver o fim do irmão, recuou. Mas Monm, agarrando uma perna de cadeira quebrada que jazia próxima a ele, lançou ao chão um punhado de sal marítimo — remanescente de uma das caixas estilhaçadas nas lutas anteriores. O vampiro gritou. Suas pernas queimaram. Corri, saltei, e cravei minha rapieira — não herdada, mas encontrada por acaso como as armas de Monm — em seu peito. Monm finalizou com a estaca improvisada, direto no coração.
Ambos tombaram. O salão silenciou por um instante, até que uma voz gutural rasgou o ar com força ancestral:
— Váš svět se lembrará de mim! Eu sou Václav Vlk! — rugiu o vampiro, a voz mais parecendo um brado bestial do que uma frase compreensível. Não falava com ninguém em particular, mas gritava para a criatura.
Aquela cena proporcionada pelo vampiro nos deu a impressão de ser um clamor de coragem desesperada, uma tentativa de reacender em si a fúria da batalha, como se evocasse sua própria alma pelo nome. Era seu modo de desafiar o abismo com o que lhe restava de bravura.
A fera recuou, como se reconhecesse o nome. Václav, o vampiro que já estava presente desde nossa entrada no armazém, avançava com uma alabarda manchada de um líquido verde claro e tão vivo numa mão e uma pistola de pederneira prussiana na outra. Seus olhos cintilavam com um brilho febril, como de um passado que sangrava na memória da criatura.
O ser imenso começou a recuar, murmurando com insistência, como se as palavras brotassem de um passado ancestral esquecido:
— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl... Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl...
Monm franziu a testa, sua mente mergulhando em lembranças distantes.
— Anton... esse dialeto... me soa familiar. Mas não é latino. Nem é náuatle puro. O que é isso?
— "Tetl"... pedra. "Tlachinolli"... fogo. Eu li isso num códice maia esquecido, salvo pelo convento de Oaxaca. É náuatle ritual... algo sobre guerra sagrada... sobre o coração do mundo. "In cemanahuac yolotl"... "o coração do mundo inteiro"...
— E por que ele está dizendo isso?
— Porque, Monm... ele está se lembrando de quem foi. Ou do que destruiu...
O silêncio voltou a cair como um véu, denso e prenhe de presságios. E eu sabia... o verdadeiro combate ainda estava por começar.
Anton S. Miahi – Capítulo XXVIII
(Escrito em meu Diário)
Václav Vlk avançou contra o monstro com uma fúria que desafiava qualquer concepção de medo. Não havia espaço para hesitação, tampouco para pensamentos racionais. O combate apenas prosseguia, como um cântico infernal que se recusava a cessar. Por um instante, a criatura permaneceu estática, repetindo aquele mantra estranho — uma ladainha de tempos esquecidos. Monm e eu trocamos um olhar rápido, buscando decifrar o significado oculto.
Foi então que percebemos a presença de dois indivíduos ocultos, agachados próximo às caixas na esquina esquerda do portão inundado. Um deles, trajando roupas negras, tentou se mover com discrição, mas foi percebido. A criatura virou o rosto lentamente, e o vampiro também.
Num átimo, Václav dissolveu-se em névoa, reaparecendo diante do fugitivo. Antes que qualquer um de nós pudesse intervir, o vampiro exibia um sorriso sádico. Num gesto fluido, agarrou o pescoço do homem e cravou-lhe os dentes. Um grito agudo ecoou pelo salão, reverberando entre as paredes úmidas. O infeliz debatia-se, mas sua luta cessou gradualmente. O sangue cessou de fluir.
Sim. Ele estava morto.
Monm e eu partimos em direção ao vampiro. Por um instante, minha mente esqueceu a fera ao lado direito. Esse lapso foi imediatamente punido: uma mão colossal me atingiu com brutalidade, lançando-me contra uma pilha de sacos de arroz e caixas despedaçadas. Senti as costelas rangerem.
Václav riu, limpando os lábios com o dorso da mão.
— Que pena, Monm... pensei que viesse com palavras santas. Mas tudo o que vejo são punhais e arrogância.
Monm não respondeu com palavras, mas com um salto fulminante. Suas adagas cintilaram sob a luz turva do galpão. Václav bloqueou o primeiro golpe com a lâmina da alabarda, girando o corpo com leveza, como se dançasse. A arma passou rente ao rosto de Monm, que se abaixou, deslizando por baixo da guarda do inimigo e desferindo um chute na perna do vampiro. O estalo foi seco, mas Václav mal se moveu.
— Já fui caçado por inquisidores, Monm. Você não é o primeiro... e, convenhamos, também não será o último.
— E ainda assim continua vivo. Deve ser frustrante para o inferno te ver de volta toda noite — retrucou Monm, arremetendo com a adaga da esquerda, mirando o ombro. Václav aparou com o cabo da alabarda, recuou e, com a pistola de pederneira na mão livre, disparou.
Monm rolou para o lado, o disparo arrancando faíscas das pedras do chão. Ele se lançou por cima de uma mesa caída, chutando uma cadeira em direção ao vampiro, que a partiu em dois com a lâmina. Antes que pudesse recuperar o fôlego, Monm já estava sobre ele, desferindo uma série de estocadas com precisão cirúrgica.
— Tua dança está velha, Vlk. Seus passos já não assustam ninguém.
— Ainda assim, fazem sangrar! — gritou Václav, golpeando com a haste da alabarda, acertando Monm no flanco. O som de carne e osso sendo atingidos me fez estremecer.
Mas Monm apenas sorriu, com os dentes cerrados.
— Isso doeu. Mas agora... é minha vez.
Num movimento inesperado, Monm agarrou o pulso do vampiro, torceu-o e cravou a adaga na articulação. Václav urrou, deixando cair a pistola. Um golpe certeiro no queixo, e o vampiro cambaleou. Monm chutou seu peito, lançando-o contra uma coluna. A alabarda caiu. Václav se ergueu com dificuldade, o rosto emoldurado por sangue e ira.
— Isso... é por cada alma que você devorou — sussurrou Monm, avançando como um anjo vingador.
Enquanto o combate continuava, tentei me erguer entre a poeira e o arroz espalhado. A dor irradiava das costas e ombros como brasas sob a pele, mas havia uma centelha de gratidão em mim: benditos sejam os sacos de arroz.
Ao virar o rosto, vi um jovem de traços juvenis — talvez quinze anos, ou um pouco menos. Tremia, choramingava, e fazia preces em alemão — palavras que reconheci vagamente de minha infância em Sevilha, quando um velho tutor luterano me ensinava os ecos esquecidos de salmos germânicos, como relíquias de um passado que se recusava a perecer.
Aproximei-me devagar, sem ameaçar.
— Junge... Junge, bist du verletzt? (Garoto... você está ferido?)
Ele olhou para mim com olhos arregalados. Estava pálido como um cadáver recente, mas vivo.
— Ich... ich weiß nicht... sie haben uns geholt... sie... — Ele começou a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas.
— Calma... estás seguro por ora. Qual é o seu nome?
— Friedrich. Friedrich Kröger... Ich bin aus Lübeck... (Sou de Lübeck...)
— Friedrich, ouça-me. Você precisa sair daqui. Há uma porta nos fundos. Quando ouvir um estouro — corra. Monm e eu vamos manter essa coisa ocupada.
Ele assentiu lentamente, os lábios movendo-se em oração muda. Seu corpo era só medo, mas os olhos — havia fé neles. Uma fé ainda não devorada.
E naquela hora, percebi que não lutávamos apenas contra carne e ossos distorcidos. Lutávamos para salvar os que ainda lembravam como orar.
Foi nesse momento que a fera urrou, um grito gutural que reverberou nos ossos: não era uma palavra comum, mas um nome — o dele mesmo, urrado com fúria primal.
— Nēhuatl Aloxōtl... Tlāltikpak tzitzimitl! — bradou a criatura, em um dialeto ancestral que escapava das dobras do tempo.
A criatura tornou a rugir, reafirmando seu nome como quem sela a própria maldição:
— Nēhuatl Aloxōtl... in nemiliztli cualli, in miquiztli tlachinolli!
Logo após, num bramido carregado de uma dor que parecia milenar, sua voz rompeu mais uma vez o ar saturado:
— Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl!
— Isso foi... nahuatl? — perguntei, franzindo o cenho, tentando vasculhar a memória por aquela cadência extinta.
A criatura tornou a rugir, como se se recordasse de sua própria maldição: — Tetl, tlachinolli... in cemanahuac yolotl! — bramiu com raiva quase febril.
— "Pedra e fogo... o coração do mundo... não foi ofertado..." — murmurei, traduzindo de forma tosca e instintiva, com um nó na garganta.
Monm girou o rosto, os olhos arregalados.
— Aloxōtl... ouvi esse nome numa ruína perto de Tenochtitlán. Era um espírito de destruição. Um condenado. Um ser que não devia estar aqui.
— Pelo que li em manuscritos antigos — sussurrou Monm, quase em reverência —, não se trata de um deus, mas de algo que ousou aspirar à divindade. Uma entidade do submundo asteca, forjada nos confins insondáveis de Mictlán. Durante um ritual arcaico, o sacerdote incumbido do sacrifício final hesitou, e nesse instante de fraqueza, o processo foi interrompido. Em vez de ascender ao plano dos deuses, a entidade se amalgamou à carne de seu invocador — um sumo sacerdote já corrompido pela ambição e pelo sangue. Desde então, vagou pelas fronteiras da existência, presa entre mundos, entre o éter e a matéria. Forças ocultas, possivelmente ligadas a ritos de translocação do Velho Mundo, o arrancaram de seu tempo e o lançaram para cá, como uma relíquia maldita do México ancestral, retida entre o ontem e o eterno, entre a morte e a memória sagrada.
A criatura urrava para o vazio: uma besta tentando lembrar a si mesma de que ainda existia — ou, talvez, anunciando sua danação ao mundo. Václav hesitou por um breve instante, distraído pela súbita irrupção daquela brutalidade animalesca.
Monm, atento como um lobo à espreita, percebeu a brecha. Estava de frente comigo, tendo o vampiro entre nós. A criatura se encontrava à esquerda de Václav, a mais de dez metros, ainda imersa em sua fúria desgovernada. Aquela era a chance. Nossos olhos se cruzaram, e sem necessidade de palavras, compartilhamos um plano silencioso: era preciso agir com rapidez. Com um leve movimento de cabeça, Monm sinalizou que, a qualquer momento, eu deveria correr.
Václav então se voltou para a criatura, em tom zombeteiro:
— Quem és tu, besta? Um espírito faminto preso em carne e osso? Um cão molhado rosnando contra os vivos? Esperava mais de um espectro milenar!
A criatura respondeu com um grunhido gutural, o som de séculos de ódio condensado em um só instante. Monm, sem perder o ritmo, rebateu com sarcasmo:
— Cuidado, Vlk... alguns cães mordem mais forte que o inferno.
Enquanto a tensão crescia entre as feras, deslizei pelas sombras, cada passo sussurrando segredos ao chão. Mas o monstro percebeu. Seus olhos faiscaram com fúria repentina. Num rompante animalesco, lançou-se contra mim.
O impacto foi devastador. Rolei para o lado, escapando por pouco das garras que despedaçaram o solo. A criatura girou com velocidade absurda, mas eu já me esgueirava entre colunas e destroços. Era a dança do desespero.
Monm aproveitou o momento. Saltou sobre um caixote, alavancando o próprio corpo com as duas lâminas empunhadas. Ignorando a fera, lançou-se diretamente contra Václav Vlk, mirando-lhe a garganta com precisão mortal. Um golpe que teria sido fatal — se Vlk fosse um homem comum. Ao aterrissar, Monm ficou perto demais do monstro, que girou com brutalidade e o lançou contra uma pilastra com um baque seco. Mas ele se levantou, os olhos ainda fixos em Vlk. Era ali que residia o verdadeiro perigo.
Enquanto isso, avancei com ele, olhos cravados na figura do vampiro.
Friedrich, o jovem alemão, permanecia em silêncio, oculto nas sombras, até que recebeu um sinal sutil de minha parte: quando chegasse o momento certo, deveria correr.
Vlk, com seu sorriso cruel e presunçoso, continuava a provocar a fera, divertindo-se com o caos.
— Essa tua arrogância vai te enterrar mais fundo do que essa criatura, Václav — retrucou Monm, sem vacilar.
A fera, enlouquecida, desviou seu olhar em minha direção, captando o rastro dos meus movimentos furtivos. O instinto selvagem tomou o leme; o pouco de controle que ainda restava se desfez.
Num novo surto de fúria, a criatura investiu contra mim. Esquivei-me com precisão treinada — cada gesto ensaiado como um ritual de sobrevivência. E o combate explodiu como um trovão em plena catedral: brutal, frenético, cruel.
Lutávamos: carne contra garras, aço contra ossos. Minha lâmina rapieira feria, desviava, provocava — açoite de precisão em meio à selvageria. Os dentes da besta rasgavam o ar, tentando encontrar minha carne, mas seus ataques falhavam por um fio de segundo, desviados pelo instinto que a dor e o medo haviam aguçado em mim. Ao fundo, Monm, já de pé, avançava novamente contra Václav Vlk, forçando o vampiro a recuar entre imprecações sibilantes e risos ácidos como fel.
A batalha era uma tempestade viva: o cheiro metálico do sangue e da carne queimada flutuava no ar, entrelaçado ao som de passos frenéticos e urros que pareciam brotar das entranhas do próprio inferno.
Friedrich, os olhos arregalados como espelhos de pavor, aguardava — só aguardava — o instante certo para fugir, enquanto ao seu redor o destino se desenrolava em aço e sombras. Sinalizei com um gesto firme, apontando a porta estilhaçada pela colisão com o cadáver do ghoul. Sem hesitar, ele correu. Não olhou para os lados, não gritou, apenas correu, com a alma cravada no instinto de sobrevivência. Ele realmente queria viver.
Não que Monm e eu não desejássemos o mesmo — mas sabíamos demais. Estávamos presos àquele lugar por laços que transcendiam o medo: honra, missão... ou maldição.
Movi-me entre pilhas de caixas, escombros e colunas rachadas, buscando uma posição vantajosa. Quando encontrei um ponto seguro de onde pudesse agir, sinalizei ao meu aliado. Monm captou o gesto, e então — como um maestro no ápice de sua sinfonia — investiu contra o vampiro com uma série de ataques fulminantes. Seus golpes eram rápidos e certeiros, movendo-se com a precisão de um guerreiro treinado além do tempo. Vlk, por sua vez, desviava-se com a graça de um predador antigo, empunhando uma alabarda com uma fluidez quase coreográfica.
Foi nesse instante que percebi algo além. O vampiro começara a recitar palavras em um idioma antigo, estranho e profundamente blasfemo. As vibrações desse discurso pareciam rachar o próprio ar. E então, surgiu uma nova presença.
Sentado sobre um monte de caixas quebradas, havia um ser cadavérico. Usava o que parecia uma coroa retorcida, um cajado disforme nas mãos esqueléticas, e vestes que lembravam restos de veludo cerimonial misturado a mortalhas profanadas. Sua pele era fina como pergaminho seco, e seus olhos... vazios, gélidos, observavam a cena com a paciência de um juiz das eras.
Não havia tempo para contemplações. Voltei-me para o vampiro justo no momento em que Monm me fez novo sinal. Sem palavras, compreendi: o ataque final viria agora.
Monm investiu com fúria controlada. Suas duas adagas riscaram o ar em movimentos oblíquos e alternados, forçando Vlk a recuar até a grande mesa redonda que jazia no centro do salão em ruínas. A madeira rangeu sob seus pés. O vampiro tentou usar a alabarda, mas Monm a prendeu com um giro acrobático de uma das lâminas, enquanto a outra ameaçava sua garganta — travando-o por um instante precioso.
Aproveitei. Lancei-me com toda a força contra o flanco do inimigo. O impacto o desequilibrou — e foi o bastante. Monm saltou, girando no ar como uma sombra viva, e desferiu o golpe final: um corte horizontal que atravessou o pescoço de Vlk. O som foi abafado, como se o tempo se comprimisse ao redor do aço. A cabeça tombou com um baque surdo, rolando pela mesa antes de cair ao chão, estalando contra as pedras como um cálice profano.
O corpo do vampiro ainda estremeceu, como se tentasse agarrar os últimos instantes de uma eternidade roubada. Depois, tombou — e a escuridão ao seu redor pareceu estremecer com seu fim.
Ofegantes, Monm e eu trocamos um olhar — sabíamos que aquilo era apenas o prelúdio. Pois o ser que nos observava, imóvel, ainda não havia feito seu movimento. Mas a criatura — o monstro ancestral — também o percebeu.
Ergueu-se com violência, liberando ao redor uma nuvem de névoa pútrida e tóxica que nos obrigou a recuar alguns passos. O ar se tornava mais denso, os olhos ardiam, e o coração parecia pulsar em outro ritmo diante daquela emanação sobrenatural. Então, como se tomada por uma cólera divina, a criatura bradou seu próprio nome com voz que reverberava nas entranhas do templo:
— Aloxōtl!
E, com a mesma fúria, bradou o nome do reino que a pariu nas trevas:
— Mitclan!
Num ímpeto de fúria atávica, Aloxōtl lançou-se sobre o visitante cadavérico, suas garras envoltas pela neblina venenosa que exalava como um manto de morte. O ar vibrou com a colisão iminente. Mas o estranho se ergueu com uma calma profana, como se cada movimento seu estivesse sintonizado com os relógios do juízo. Quando a criatura alcançou seu alcance, ele ergueu o cajado, que brilhou com uma luz âmbar soturna, desviando o golpe com um arco de energia espectral. Antes que a criatura pudesse contra-atacar com as presas escancaradas, ele girou o cajado como um bastão de sentença, bloqueando a mandíbula infernal com precisão inumana. O som do impacto ecoou como um trovão abafado num túmulo selado — e a batalha transcendia agora os limites da carne, entrando no domínio das forças esquecidas.
A cena que víamos, tanto eu quanto Monm, beirava o patético — mais para nós do que para o recém-chegado. Pelo simples fato de que ele parecia não empregar esforço algum em conter o Aloxōtl.
— Ele... está brincando com ele? — sussurrei, mantendo os olhos fixos na criatura cadavérica.
Monm, limpando o suor da testa com as costas da mão, assentiu com um leve movimento de queixo.
— Parece mais uma dança que um duelo — murmurou. — Mas quem, em nome do Altíssimo, é esse sujeito?
Como se ouvisse a pergunta lançada ao éter, o ser virou-se lentamente para nós. Seus olhos, vazios como a eternidade, cravaram-se nos nossos.
— Chamo-me Tezcal — disse, a voz de barítono soando como um canto sepulcral. — Fui criado das cinzas e do lodo pantanoso do Mitclan, uma fusão sombria de elementos terrenos e divinos, infundida com o sangue de Xolotl. Sou o reflexo entre os mundos. Moldado como um intermediário entre os vivos e os mortos, minha existência tem como objetivo manter o equilíbrio no ciclo da vida e da morte.
— És um necromante? — perguntou Monm, dando um passo adiante.
— Não — respondeu Tezcal, com calma imperturbável. — Sou o eco dos que caminham sem corpo, a vigília dos que repousam em ossos. Não comando os mortos. Eu os ouço.
O silêncio que se seguiu era denso, quase sólido. Aloxōtl, apesar da fúria anterior, recuava em círculos lentos, como um animal que pressente uma força que transcende sua fúria.
— E por que agora? — perguntei. — Por que intervir presentemente?
Tezcal apoiou o cajado no chão. O som ressoou como se ecoasse nas catacumbas do mundo.
— Porque o véu entre os mundos foi rasgado. Vocês o rasgaram. E ele... — olhou para Aloxōtl, cuja névoa começava a perder intensidade — não deveria ter atravessado.
Monm cerrou os punhos.
— Vai destruí-la?
— Não — respondeu Tezcal. — Vou devolvê-lo ao sono que jamais deveria ter sido interrompido.
Tezcal começou a murmurar. Um canto em dialeto azteca, antigo como os ossos da terra, deslizou de seus lábios como uma oração invertida. Gradualmente, o sussurro tornou-se canto pleno, ressoando nas paredes com ecos que pareciam vir de debaixo da pele do mundo. O ar gelou — não com frio comum, mas com o gélido das tumbas abertas. As sombras, até então imóveis, começaram a deslizar pelo chão como serpentes, convergindo para o recitador.
Aloxōtl, num último ato de cólera, tentou investir contra Tezcal — suas garras enegrecidas pelo veneno, sua boca aberta num rugido ancestral. Mas o ambiente pesava como chumbo, e a própria matéria parecia se curvar ao rito.
— Anton... — sussurrou Monm. — Isso... isso é um ritual de banimento?
— Parece mais um julgamento — respondi, com a mão instintivamente sobre a cruz que repousava sob meu manto. E ela queimava. Queimava com um brilho índigo, como se o céu clamasse por ordem.
Tezcal então silenciou. No mesmo instante, a criatura foi tragada do chão por uma areia negra e espessa, que brotou sob seus pés como uma fauce aberta. O som era de carne sendo puxada por ganchos, de ossos esmagando vidro. O odor de carne podre, sangue envelhecido e enxofre empestou o ar. E antes que pudéssemos reagir...
— Não... isso não é apenas magia — tentei dizer, mas a frase morreu em minha boca.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
Supplicatio Damnata - (Súplica dos Condenados)
Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anton S. Miahi XXV
(Escrito em meu Diário)
Sem data — Meu despertar foi pesado. Lento. Tardei a abrir os olhos, como se houvesse em mim um receio instintivo de confrontar o que quer que o mundo, em sua crueza, tivesse a me oferecer. Havia uma sensação estranha, como se algo em minha mente tivesse sido libertado — uma prisão sutil se desfazendo em fragmentos de lembranças. E então, o recordar do encontro com Var’Ghul, a criatura que invadira meu íntimo, expondo segredos que eu mesmo havia enterrado, julgando-os mortos para sempre.
Lá estavam: memórias, sentimentos, angústias... todos exumados com a delicadeza brutal de um coveiro sem alma.
Mas algo me chamou a atenção. O frio — companheiro constante — havia desaparecido. Nem vento, nem chão gelado. Em seu lugar, um calor tênue, uma quietude... uma maciez que envolvia meu corpo fatigado. Abri lentamente os olhos. A luz era suave, amarelada, e sombras dançavam pelas paredes como espectros tímidos.
E então, uma imagem tomou forma: um rosto gentil, sereno, com olhos doces e convidativos. Seus cabelos eram longos e escuros como a noite sem luar. Sua beleza era ímpar, angelical — exótica demais para que eu pudesse descrevê-la com justiça.
De súbito, ergui-me num pulo, quase instintivo — alerta, ainda tomado pela sensação de ameaça. Meus olhos percorreram o ambiente, buscando pistas, tentando entender onde me encontrava.
Ela sorriu com delicadeza. Sua presença, no entanto, não transmitia hostilidade.
— Siehiffar, é como me chamo — disse ela, num tom baixo e educado. Sua voz, de contralto, era como música em câmara fechada — ressoava macia, íntima. — Você é um dos moradores do castelo... daqueles que foram convidados! — Havia uma curiosidade tênue em seu falar, uma leveza que ocultava um mundo de experiências.
— Chamo-me Anton Stefan Miahi. Sou historiador... e oficial do exército francês — respondi, sem saber por que minha língua se soltara com tanta facilidade. — Ainda estamos no Castelo de Drácula?
Deixei os ombros relaxarem, adotando uma postura menos defensiva.
Ela trajava um esplêndido vestido azul, ricamente adornado com rendas em prata e bordados dourados que pareciam brilhar à luz da lareira. Uma tiara dourada repousava em seus cabelos, cravejada de pequenas pérolas e pedras translúcidas. Seus colares pendiam delicados sobre o colo, compondo uma figura que evocava tanto realeza quanto mistério.
— Sim, estamos. Onde mais deveríamos estar? — disse, agora com um sorriso zombeteiro, embora isento de malícia. Seu olhar era jovial, sagaz — um jogo sutil entre o encanto e a astúcia.
— Entendo... — murmurei, hesitando. — Como vim parar neste cômodo? Quem me trouxe?
A pergunta brotou da angústia. Havia algo naquele lugar — em mim — que não se encaixava.
Ela demorou a responder. Voltou-se para a lareira, estendeu os braços até uma pequena mesa de centro. Nela, duas xícaras de porcelana branca, ornadas por folhas azuis, repousavam ao lado de uma chaleira do mesmo padrão, da qual ainda subia um fio de vapor.
Com delicadeza, ela serviu o chá. Estendeu uma das xícaras a mim, reservando a outra para si. Tomei a que me fora oferecida. Ela sorveu um gole com tranquilidade antes de falar.
— Uma pessoa o trouxe até aqui. O senhor estava desacordado. Havia sangue em muitas partes de seu corpo. Suas roupas, rasgadas — disse, pausando para olhar o fundo de sua xícara. — Var’Ghul é uma criatura estranha. Suas ações são, para mim, um mistério constante. Nunca o vi com meus próprios olhos... mas já encontrei os que ele chama de “réus”.
Ela me fitou com uma expressão de pena e estranha curiosidade. Algo em seu olhar fazia minha pele se arrepiar.
— Mortos... ou vivos. Os vivos raramente saem incólumes desses encontros — murmurou, quase triste. Havia em sua voz um eco de vivências amargas. — Senhor Miahi, o castelo chamou por você. Estar aqui é privilégio para alguns, uma saída para outros... mas há quem veja tudo isso como uma prisão. Qual é a sua visão?
A pergunta me atravessou como uma lâmina fria. Ela dissera com tanta leveza... e, no entanto, a questão me lançou ao abismo do pensamento.
Não vim apenas para aprender. Vim para questionar o impossível. E em troca recebi a quebra de paradigmas, a dilaceração da fé, a desconstrução de minha identidade. O castelo tornou-se espelho de tormentos. Um mosaico maldito de enigmas e horrores.
— Este lugar era para ser um templo do saber, senhorita — disse, tentando conter o tremor na voz. — Mas revelou-se um mar tempestuoso. Um quebra-cabeça sujo de sangue e sombras.
— Nem tudo é o que parece — disse ela, indulgente. — Talvez exista algo além. Algo mais...
Antes que ela pudesse concluir, deixei escapar uma risada amarga, quase histérica.
— Neste lugar, senhorita Siehiffar, quase fui morto. Fui levado a outros mundos. Transformaram-me em algo que mal reconheço — meio homem, meio máquina, um híbrido nascido da dor. — Caminhei até a parede e, com meu braço mecânico, esmaguei os punhos contra a pedra com força. — Já vivi horrores antes. Mas nada... nada como isto.
As semanas — os meses — foram apenas sucessivas descidas numa espiral de insanidade. E, mesmo assim, minha maldita curiosidade, minha obsessão em resolver os enigmas... mantinham-me aqui.
— Pois deveria parar de chorar! — rugiu uma voz atrás de Siehiffar. Reconheci de imediato o timbre grave e metálico de Monm.
Ao me virar, lá estava ele, encostado como uma sombra sólida.
— Para um homem que sobreviveu à guerra, parece frágil como vidro — zombou.
Uma mescla de raiva e incredulidade apoderou-se de mim.
— Você sabe que nada do que vivi aqui poderia ser suportado por uma mente comum! — apontei o dedo para ele com fúria contida. — Revivi a morte de meu irmão. Vi o espírito dele... ou aquilo que tomou sua forma. Não sou homem de fé, Monm, mas o sobrenatural me golpeou até que eu sangrasse por dentro.
Ergui meu braço mecânico, adornado com os circuitos do éter. Um símbolo da monstruosidade que haviam me imposto.
— Vamos, Anton... — disse Monm, num tom paternal. — Estás apenas despertando. O mundo tem segredos, e nós conhecemos só uma fração do todo. Tu agias com complacência... e agora, te vês à beira do abismo.
Ele se aproximou mais.
— Cuidado, homem... quem olha demais para o abismo, acaba por ser olhado por ele. E há os que não voltam mais.
Silêncio. A pergunta pairou no ar como um punhal.
— Qual é o caminho que seguirás?
E eu... não soube responder.
Anton S. Miahi XXVI
(Escrito em meu Diário)
10 de novembro de 1871 — Vi-me surpreso quando questionei Monm sobre a data. Em minha mente, acreditava terem se passado somente algumas poucas semanas. O último registro datado remontava a agosto. Esquecera-me de como o tempo, neste lugar é instável, maleável — como se fosse manipulado por mãos invisíveis.
Segundo Monm, estive desacordado por três dias. Quanto aos períodos anteriores… um completo mistério. Mesmo minha estadia na prisão-laboratório de Arturo é um borrão. O confronto com a fera na Igreja parece ter ocorrido há séculos e, ao mesmo tempo, ontem.
Ainda recordo aquele senhor barbudo. Julgo que fosse um líder entre os seus. Solicitou que eu aceitasse algo — o quê, exatamente? Ah, sim... "a verdade da Igreja." Isso mesmo. Soou estranho à época, mas agora me é quase familiar.
Apesar de o reencontro com Monm ter começado de forma um tanto acalorada, logo tive oportunidade de ponderar e buscar respostas. Indaguei-lhe sobre o povoado ao norte, e a Igreja ali presente.
— Monm, quem são aqueles monges que vivem no povoado ao norte do castelo? — Observei o viajante, concentrando nele todo o peso do meu olhar e da minha expectativa.
Ele fitou a lareira, inspirando fundo, como se buscasse forças num passado distante.
— Não achei que se lembraria... mas esqueci que os chamados para este castelo têm algo em comum: seus registros. Certo... — sua pausa foi pesada, quase teatral. Uma sombra de frustração lhe desfigurou o semblante. — Eles são um grupo que, nesta linha do tempo, não teme os eventos do castelo. Parece tratar-se de uma ordem religiosa oriunda da Prússia. Alguns de seus monges... foram corrompidos por Nestor. Aquele vampiro possui o dom de seduzir mentes frágeis.
Essas informações me deixaram inquieto. Uma Igreja prussiana? A Prússia tem garras longas, penetrando em todos os confins. Se vinham de lá, podiam ser católicos, luteranos… ou dissidentes, tachados de hereges, como os de certos grupos na Holanda.
— Presumo que o convite que recebi tenha sido armado por um desses monges. Recordo-me de que era bastante jovem. Pena não ter memorizado sua fisionomia... — Senti minha frustração aflorar. Talvez, se o tivesse observado melhor, poderia agora persegui-lo. — No grupo, há um homem de longa barba branca? Robusto, talvez?
Monm refletiu. Fitou o chão como quem escava a memória. Seus olhos brilharam ao encontrar algo.
— Ah, sim. Esse homem vem da Holanda. Chegou a estas terras há alguns anos, com quase nada. Um andarilho comum. Seu sobrenome é Hans... o nome, Sander. Sander Hans, é assim que se chama. Por quê? — indagou, num tom apático.
— Após meu confronto com a besta vinda do espelho — trazida por um dos monges — ,fiquei caído, ferido. Ele, o tal Sander, falou algo sobre aceitar a verdade da Igreja... que somente isso poderia me salvar. — Minha voz vacilou, mergulhada em uma memória incômoda. Nunca fui de crer em entidades superiores… — Mas, naquele momento, eu queria viver.
Todos os olhares voltaram-se para mim. Um desconforto silencioso se instalou. Um prenúncio.
Siehiffar ajeitou-se no sofá. Seus olhos cintilavam com genuína curiosidade, enquanto Monm apenas mantinha sua atenção fixa em mim.
— Senhor Miahi, que relato peculiar. — Um brilho quase infantil tomou o rosto de Siehiffar, como se houvesse desenterrado uma relíquia. — Então... algo já havia começado antes. Achei que o encontro com a criatura de Olga fosse o início. Mas não. Já havia ecos meses antes.
— Você disse: "criatura da Olga"? — Não pude conter minha surpresa. — Var’ghul foi criação da Olga?
O olhar de Monm para Siehiffar era carregado de reprovação. A jovem mordeu os lábios — como quem se arrepende da travessura dita.
— Siehiffar, às vezes o silêncio é a melhor escolha. — disse Monm, soando como um mestre que repreende a pupila. — Sim, Var’ghul é uma criatura forjada aqui, no castelo. Uma consequência maldita dos experimentos de Drácula com o éter... com objetos, com almas condenadas.
Eu queria não acreditar… mas depois de tudo — depois de ver meu próprio corpo se tornar híbrido de homem e máquina, tal revelação já não me feria com tanta força.
— Certo, certo. — disse Siehiffar, desviando o peso da conversa. — Abdalla, perdão... esses fatos são novos para mim. Mas parece que a fé tornou-se uma chave essencial ao senhor Miahi, ainda que ele próprio não o perceba.
Monm meditou sobre aquela fala, então caminhou em direção ao cesto de lenha, agachando-se em silêncio. Seus gestos denunciavam que arquitetava algo em sua mente.
— Abdalla? — questionei, em voz alta.
— Sim, é esse o nome dele. Não sabia? — Siehiffar soltou uma risadinha e levou a mão à boca. — E eu me chamo Siehiffar Monm.
Essas revelações fizeram-me recostar na poltrona ao lado do sofá onde ela estava.
— Não sabia. Monm nunca me contou. A bem da verdade, nunca tivemos tempo para conversas. Sempre havia algo... interrompendo tudo — falei, quase com incredulidade.
— Anton, isso não é o foco. — A voz de Monm cortou minha dispersão, trazendo-me de volta ao núcleo do mistério. — Há muitas coisas que não pude, não posso e jamais poderei revelar. Siehiffar cresceu neste lugar. Seus olhos veem o mundo de forma distinta. Até para mim, às vezes, ela é um enigma. Uma aprendiz que instiga seu próprio mestre.
Notei, enfim, o ar místico que pairava ao redor dela. Uma presença diferente de tudo o que eu já havia experimentado. Algo nela era... profundamente incomum.
— Var’ghul encontrou um modo de me chamar. — disse Monm. — Aquela criatura é tudo, menos injusta. Quando o encontrei caído em sua torre de julgamento, havia algo em sua mão. A criatura afirmou não tê-lo deixado lá.
De seu bolso, Monm retirou uma corrente e, logo em seguida, um pingente... uma cruz.
Aproximei-me. À luz da lareira, percebi seu contorno singular: pesada, de metal negro, com uma pedra central roxa. Nos extremos, pequenas pedras azuladas, reluzentes.
— É uma ametista. E essas pequenas são labradoritas. — explicou com voz serena, sempre professoral. — Tome. Pelo que sei, é sua.
Ergui meu braço alterado. Ainda era estranho vê-lo assim: mecânico, frio, tão alheio à carne que um dia o cobriu. Aproximei a cruz dos olhos, examinando seus entalhes. Era bela... e estranhamente familiar. Como se murmurasse meu nome do âmago da alma.
Assim que aquele objeto tocou o metal de meu braço, senti algo — primeiro, uma ansiedade crescente; depois um formigamento sutil. A sensação não me era estranha. Já a havia experimentado antes. Sim… com Monm, nos primeiros contatos com as distorções temporais e, mais tarde, na adega do castelo, ao lado de Áurea. Aquilo fora assombroso — um entrelaçar de lembranças minhas e dela, como se o tempo ali não mais obedecesse a Deus.
— Essas sensações do éter e das torções do tempo são incômodas — murmurei.
— Incompreensíveis, até para mim — respondeu Monm, cruzando os braços, o cenho marcado por sombras de inquietação.
— E, no entanto, tão recorrentes — disse Siehiffar, com a voz suave e firme. Havia nela um tom investigativo que me atravessava como uma lâmina polida.
De súbito, um estrondo — um impacto seco e violento nos interrompeu, vindo de algum ponto próximo. Todos voltamos os olhos à porta, a tensão nos envolvendo como neblina espessa. O receio de que algo — ou alguém — invadisse nossa reunião informal apertou nossos peitos.
— Em que parte do castelo estamos, Monm? — perguntei, tentando manter o controle. — Há alguma arma aqui? Algo com que possamos nos defender?
— No flanco noroeste — respondeu com firmeza. — Próximo à torre, mas fora do alcance da busca de Arturo. Mesmo assim, este castelo é... imenso. Vivo. Parece ter vontades próprias.
Fez uma pausa, os olhos vasculhando o aposento.
— Atrás daquela porta, há um corredor que leva a um salão usado como armazém. Há um portão para o exterior e uma rampa em L que desce pela encosta da montanha até o vale. Creio que você conhece essa região, Anton — explicou, enquanto revirava um armário à minha esquerda. Sua voz tornara-se grave, baixa, tentando não denunciar nossa posição.
Então, um grito — quase bestial. Um som gutural que fez meus pelos se eriçarem. Meu coração acelerou. A respiração se tornou densa. Aquilo me transportou de volta à guerra. Era como se a morte soprasse novamente em minha nuca.
Começamos a vasculhar o ambiente, buscando algo que servisse à batalha. Logo, Monm encontrou algo.
— Anton, isto pode ser útil — disse, afastando-se para que víssemos.
Dentro do armário repousavam três armas: duas adagas longas, uma adaga curta e uma rapieira.
— Estou mais habituado a armas longas. Dê-me a rapieira — pedi.
Empunhei-a. Seu peso, seu comprimento, seu equilíbrio — tudo nela me falava. Sentir aquele metal em minhas mãos trouxe-me uma paz estranha, como reencontrar uma antiga companheira.
Monm ficou com as adagas. Para nossa surpresa, Siehiffar, sem hesitar, tomou para si a adaga curta. Um brilho de determinação cintilava em seus olhos. Estávamos armados e, mais do que isso, preparados. O espírito, silente, mas desperto.
— Vamos pensar. Monm, você abre a porta. Eu fico à esquerda. Siehiffar, de frente. Não atacamos primeiro; observamos. — propus, ajustando minha postura de combate.
As pancadas intensificaram-se. Metal contra metal. Sons ocos e ressonantes. Atrás daquela porta, um combate feroz desabava como tempestade sobre penhasco.
Antes que pudéssemos agir, um estrondo seguido por uma explosão. Fomos à porta. Monm posicionou-se atrás dela, eu ao seu lado oposto, e Siehiffar de frente. A urgência pesava no ar.
— Um... — sussurrou Monm, começando a contagem.
Abrimos a porta com cautela. O corredor estava iluminado pelas tochas de Arturo. Nenhum sinal de batalha — mas os sons ainda ecoavam, cada vez mais perto.
Monm se voltou para a jovem.
— Siehiffar, daqui você não passa. Não sabemos o que há adiante. Daqui, você pode fugir pela passagem do tempo.
Sua voz era suave, mas firme. Um mestre zelando por sua pupila. Contudo, ela não se calou.
— Um dia terei de ver o mundo, Monm. E o mundo terá de me ver. — Sua voz era uma chama contida. Pela primeira vez, vi desaprovação em seu semblante.
Monm e eu seguimos. Antes de partir, olhei para trás.
— Quanto antes resolvermos isso, mais rápido voltaremos. — Minhas palavras eram de aço, moldadas pela disciplina militar que me guiava.
O corredor era breve. Ao alcançarmos a porta do armazém, ouvimos gritos — e então a porta explodiu. Um corpo juvenil foi arremessado contra a parede de pedra, tombando ao chão como boneco sem vida.
Aproximei-me das sombras do umbral. No interior, o confronto prosseguia. Monm examinava o corpo: um jovem desfigurado, com vestes negras e uma cruz branca no peito. Um clérigo? Um guerreiro da fé? Mas o que fazia aqui?
Dei um passo à frente. A batalha me chamava.
E meu sangue… já começava a fervilhar.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Tribunal das Sombras
30 de Julho de 1871— Resolvi escrever como meu irmão fazia — hábito que nunca tive, mas que, por alguma razão, agora me parece necessário…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Valéria S. Miahi
(Diário pessoal)
30 de Julho de 1871— Resolvi escrever como meu irmão fazia — hábito que nunca tive, mas que, por alguma razão, agora me parece necessário. Estes últimos tempos têm sido estranhos, como se algo no ar tivesse mudado... As pessoas nas ruas cochicham sobre eventos anormais, presságios, vultos à meia-noite. Mas preciso começar de algum ponto.
Ontem, o céu amanheceu como se carregasse um presságio sombrio — um véu cinzento sobre o mundo, pesado, úmido, como os olhos de alguém prestes a chorar. Eu não deveria ter saído. Mas como resistir? Havia algo na neblina da manhã que me chamava, como um sussurro sem língua, como se a própria terra curvasse-se à minha curiosidade.
Vesti meu traje de passeio mais querido — um vestido cor de vinho envelhecido, de tecido modesto, mas digno, com rendas finas nas mangas e na barra, feitas por minhas próprias mãos. O corpete me apertava o peito, não cruelmente, mas lembrando-me que sou feita de carne e limites. Prendi os cabelos loiros e ondulados num coque frouxo, deixando que algumas mechas rebeldes escapassem — um gesto quase instintivo, como se meu corpo dissesse que não sou de me conter.
Segui por uma velha estrada atrás da estufa da senhora Camille, aquela mesma que o jardineiro Rasson jura estar amaldiçoada desde o último verão, quando encontraram o cão da família Moore dilacerado, com os olhos arrancados. Uma cena que ainda ecoa nos corredores do cortiço.
Decidi me aventurar para conhecer melhor a região. No início, o caminho era povoado de casas e passos alheios. Mas, em algum momento — não sei bem quando — percebi que estava só. O silêncio cresceu devagar, feito erva daninha, até que me vi andando entre sombras e pedras molhadas.
Foi então que notei, próximo a uma poça d’água da chuva da noite anterior, algo como um papel encharcado. Curiosa, agachei-me.
— Um jornal?! — murmurei em voz alta, como se precisasse ouvir minha própria presença.
Os últimos dias haviam sido tão intensos que sequer me atentei às notícias. Se Anton soubesse disso, já estaria me repreendendo como o velho Padre Bento — com aquela cara de sermão e voz solene, capaz de transformar até uma receita de pão em pregação.
O que me chamou atenção foi a data... e o trecho ainda legível:
“Na madrugada de ontem, a tranquila neblina que pairava sobre o rio Sena (...) três corpos, dois de mulheres jovens e um de um homem, flutuaram às margens do rio, na degradada área de La Cité.”
La Cité... sempre soube que aquela região era perigosa, ainda que esteja mais ao norte. As indústrias tomam conta dali, com os ratos e os segredos.
Mas aquelas mortes... ficaram gravadas em mim, como se o papel tivesse sussurrado seu horror aos meus ouvidos. Olhei ao redor, sentindo a terrível sensação de estar só — não só fisicamente, mas em essência. Como se o mundo inteiro houvesse sumido, e eu estivesse esquecida ali, por algo que me observava sem rosto.
A aventura não foi longa. E terminou, confesso, de forma um tanto frustrante — com meus passos retornando apressados para casa, vencida por um medo que julguei infantil... mas será que era? Admito que ler aquela notícia me perturbou mais do que gostaria.
02 de Agosto de 1871 — Despertei esta manhã com minha mãe gritando do andar inferior. Chamava meu nome com urgência — eram seis da manhã, e havíamos trabalhado até quase três costurando roupas para clientes do bairro. Sonhava em continuar dormindo, mas a realidade, como sempre, puxou-me de volta.
Vesti-me rapidamente com uma blusa de algodão creme, bordada nos punhos com pequenas flores azuis, e uma saia de linho escuro, já um pouco desbotada. Amarrei um xale nos ombros e prendi os cabelos com fita — não por vaidade, mas porque o vento de agosto é traiçoeiro.
Do cortiço até o mercado não se leva mais que dez minutos. Paris é viva, pulsante, e mesmo em sua miséria se encontra tudo — de frutas maduras a sorrisos feridos.
Na esquina sul do mercado, um menino, talvez de doze anos, gritava como um arauto do caos, com uma pilha de jornais sob o braço:
— As notícias de Paris em primeira mão! Notícias fresquinhas, vindas do Sena e dos infernos!
— Garoto, me entregue um.
— Me chamo Giules, senhora. Aqui está — disse com orgulho, entregando-me um jornal com as mãos sujas, mas o coração limpo. Seus olhos castanhos eram grandes, atentos, cheios de uma esperança que Paris ainda não lhe roubara.
A manchete fez meu peito apertar:
“O Caso dos Corpos no Sena
Segundo a Gendarmerie nationale, as investigações têm sofrido entraves, o que gera insatisfação entre o maire e o conselho público. Durante a madrugada do dia 29 de agosto, um acontecimento inédito ocorreu: os corpos, que haviam sido levados à Universidade de Paris, desapareceram misteriosamente. Além disso, oficiais da Gendarmerie foram mortos num possível confronto. Houve um incêndio numa das alas da instituição. Moradores relataram sons estranhos, semelhantes a grunhidos, e uma testemunha afirma ter visto uma “entidade com asas de morcego” voando rumo ao céu.”
Naquele instante, o som das ruas sumiu. O burburinho, o ranger das rodas das carroças, o tilintar das moedas — tudo foi engolido por um silêncio cruel. Meus olhos ardiam. Minhas mãos tremiam.
Senti algo puxar minha manga.
— Se... senhorita, está bem? — A voz infantil de Giules me trouxe de volta. Devia estar com uma expressão horrível, pois ele me olhava com preocupação genuína.
— S... sim. Estou bem. Só me surpreendi com a notícia...
— Mas o que diz aí de tão assustador? — perguntou com uma inocência quase cruel.
— Coisas de adulto. Você... não sabe ler?
— Não, não sei — respondeu com os olhos agora escurecidos, como se a vergonha tivesse feito sombra sobre eles.
Antes que eu pudesse dizer algo, alguém gritou seu nome ao longe. Ele correu com os jornais ainda nos braços, mas a meio caminho parou, virou-se e sorriu. Um sorriso sincero. Aquele tipo que ilumina mais do que o sol da manhã.
E foi assim que o dia começou. Com um rastro de fogo dentro de mim, e a estranha certeza de que algo invisível está se movendo pelas ruas de Paris — e talvez, também, dentro de mim.
Anton S. Miahi XXII
(Diario pessoal - Póstumo)
Sem data – Escritura feita em meu caderno, entre as trevas e o fôlego último da razão.
A realidade dentro daquela cela, mais do que contrastante, era um espelho estilhaçado da sanidade. Havia em mim a dúvida como uma ferrugem, roendo os pilares da mente. Olhei meu braço — aquilo que outrora fora meu — agora uma mescla profana de carne, metal e Éter.
E então, a aparição: Alonso.
O espectro de meu irmão. Sua forma trêmula, seu olhar suplicante, e seu desaparecimento... como se houvesse sido tragado pelo próprio abismo.
Minha mente, ainda enegrecida pelas dores da transformação, foi domada pela frieza com que a guerra me educou. Era preciso calar o pavor e erguer a razão.
Levantei-me do chão pútrido com o vigor desesperado dos que nada mais têm a perder. Voltei, arfante, à sala onde Arturo cultivava suas abominações. O ar me feria o peito como vidro moído. O coração pulsava alto demais — não sabia se era um tambor de vida ou o prelúdio da morte.
Vasculhei a sala com olhos de predador.
Meu olhar caiu sobre um baú, ao lado de uma mesa profanada por tubos de vidro que cintilavam com líquidos de cor e textura inexplicáveis.
Aproximei-me. Ajoelhei. A tranca — aberta.
— "Ele realmente não teme que alguém fuce seus segredos..." — murmurei, mais para as sombras do que para mim.
Abri a tampa com mãos trêmulas. As dobradiças rangiam baixinho, como se também temessem o que revelariam. Lá dentro, relíquias de um delírio científico. Artefatos que não pertenciam ao nosso tempo. Objetos frios, inumanos. Mas um deles...
Uma arma.
Estranha, quase bela.
Não como as que portei na guerra, mas era certamente feita para matar. Examinei-a. O cano, os mecanismos, o gatilho... uma peça híbrida, como eu.
Pensei:
— "Se há uma arma, a munição há de estar próxima..."
Havia. Um estojo de projéteis cintilantes, como se fossem alimentados por luz. Carreguei a arma, improvisando um treinamento silencioso.
Precisaria confiar nos instintos.
Mais adiante, encontrei uma barra de ferro.
Não era meu sabre, mas seria minha extensão se a arma falhasse. Prendi-a ao cinturão, e com a arma em punho, respirei fundo.
E marchei.
Corredores estéreis e úmidos, paredes que choravam sangue seco e fungos. O ar pestilento oscilava entre mofo e morte.
Passei diante da cela da jovem... um nó me subiu à garganta. A lembrança do sofrimento dela, de sua expressão vazia, perfurou meu peito.
Segui.
Não sabia onde estava. Subterrâneos? Ala superior do castelo? As paredes não respondiam, apenas gemiam. Os corredores, talhados em pedra e pecado, faziam curvas labirínticas. Então, sob a luz doentia de uma lamparina, lembrei-me do diário de Arturo que ainda trazia comigo. Abri-o.
Uma página aleatória:
"Hoje conheci duas figuras intrigantes — uma dama de fala arguta, olhar felino; e um cavalheiro de aparência saudável, embora sua pele beirasse o albino. Curioso. Há algo de... antigo neles.”
Um ruído.
Atrás de mim.
Abracei o silêncio e aguardei. Respirei. E ouvi.
Vozes.
Gemidos. Lamentos. Tormento encarnado em som. Segui, tenso como fio estirado. Meus passos ecoavam no ventre da arquitetura maldita. E então os vi: cativos.
Seis celas. Homens, mulheres... retalhos humanos, olhares apagados. Experimentos. Fracassos. Almas em ruínas.
A dúvida me invadiu:
— Libertá-los? E se forem perigosos?
Mas posso deixá-los aqui?
O dilema me dilacerava. Mas havia algo mais forte: compaixão. Ou talvez, o desejo de fazer algo certo em meio ao caos.
— Vocês... vocês vão sair daqui. — sussurrei, quase sem acreditar.
Quebrei os cadeados, um a um. Os prisioneiros gritavam, choravam, corriam ou rastejavam. Uns me abraçavam, outros somente fugiam. Quando rompi a última tranca, um grito — não humano — explodiu pelos corredores.
Um corpo atravessou a penumbra e se chocou contra a parede atrás de mim, estalando ossos.
Silêncio.
Depois, outro grito — Grave, bruto como de uma fera selvagem.
O corpo estava dilacerado. Mordido. Cortado.
Os ecos do inferno haviam se soltado.
—Não estamos sozinhos... — Murmurei, erguendo a arma.
Anton S. Miahi XXIII
(Escrito em meu Caderno — póstumo)
Sem data — Ouvi. Um urro… ou seria um grunhido de alma profanada?
Veio como trovão sob terra húmida — grave, bestial — entrelaçado aos gritos lancinantes dos prisioneiros e ao estalar sinistro de ossos se partindo como galhos secos. Os passos, pesados, se aproximavam, um a um, como um relógio em contagem para a execução. E então... uma lufada de ar.
Não era brisa.
Era hálito.
Algo respirava sobre mim. Algo existia atrás daquele som.
Os cativos da última cela, em pânico cego, correram — tropeçando uns nos outros, ainda ensanguentados — e bateram a porta. Deixaram-me só, diante do inexprimível.
Não havia para onde fugir.
Um beco sem saída.
Eu, o tolo redentor, havia conduzido cordeiros ao altar de um lobo espectral.
— Oh, que infelicidade a minha... — murmurei, quase como prece amarga.
Sim, os mortos não mais se angustiarão com o presente... nem com o futuro.
Eles agora seriam as únicas testemunhas do meu fim — e, quem sabe, do nascimento de outra coisa, algo além do homem.
Assumi posição de combate. A mão esquerda empunhava a arma etérea de Arturo, ainda fria e desconhecida. A direita, o bastão de ferro — rudimentar, mas real.
Meus olhos varriam a penumbra, buscando um indício, uma forma, uma promessa de movimento.
Nada.
— Se vou falecer aqui, não será de joelhos... Ele sofrerá tanto quanto eu! — exclamei, mais para as pedras do que para o destino, fingindo haver dentro de mim algo além do medo.
A parede fria atrás de mim marcava o limite da existência.
O fim de qualquer tentativa de recuo.
E então…
Uma voz.
Sutil, suave, nas minhas costas.
— Senhor Anton… nunca houve chance de resistência.
Aquelas palavras soaram como gelo escorrendo pela espinha.
Mas o que as seguiu... foi pior.
Risos.
Não gargalhadas humanas.
Era um som que se dobrava em si — sarcástico, lascivo, prenhe de uma crueldade antiga demais para nome.
Ao tentar me virar, algo me deteve.
Mãos — ou garras? — se fecharam sobre minha cabeça como grilhões invisíveis.
E então...
Dor.
Uma dor vívida, quase luminosa, que me cegou os olhos com sua intensidade.
Não somente física. Era como se memórias estivessem sendo arrancadas…
Como se minha identidade estivesse sendo extraída pelas unhas de um monstro que ria porque sabia:
O que ele queria não era meu corpo.
Era minha alma.
Anton S. Miahi XXIV
(Escrito em meu Caderno — póstumo)
Sem data, noite — O frio me cortava como navalhas silenciosas. Senti o açoite do vento contra o rosto, enquanto, debaixo das palmas, a textura gélida e arenosa denunciava que eu jazia sobre a neve. Abri os olhos com esforço e logo fui acometido por uma pontada lancinante na fronte. Levei a mão à testa — úmida, latejante. O sangue, espesso e quente, escorria pela pele pálida.
Ao redor, uma arquitetura de formas circulares e entradas múltiplas — como o interior de uma cripta aberta ao firmamento. Gárgulas esculpidas em pedra grotesca me espreitavam de todos os ângulos; estáticas, mas com um olhar de morte que parecia transcender o inanimado. Seus olhos ocos sondavam os cantos daquele espaço como centuriões de um inferno esculpido em mármore antigo.
Ao alçar os olhos, não encontrei teto. Apenas um céu de veludo negro crivado de estrelas — como se aquele tribunal estivesse suspenso entre o tempo e o abismo. Sob minhas mãos, reconheci enfim a neve. E então, como sussurro que rompe a espessura do próprio passado, a voz:
— “Senhor Anton… nunca houve chance de resistência.”
Era uma lembrança. Mas não qualquer lembrança. Aquela voz... sim, era ele.
Nestor.
Ou... seria outra entidade ainda mais antiga?
Tateei a memória como quem rasteja entre ruínas. Lembrava do golpe traiçoeiro pelas costas.
A consciência esvaindo. O cheiro metálico. O chão fugindo sob meus pés. E agora ali estava eu, redivivo num palco ancestral.
E então, vieram os passos.
Lentos.
Pesados
Cerimoniais.
Não havia disfarce. O ser que se aproximava desejava ser ouvido, sentido, temido. Um rosnado grave ressoou, reverberando nas colunas e atravessando meu peito como trovão que desaba sob terra profanada.
Minha mente, ainda embaciada, sussurrava temores: “—É alucinação... é delírio...”
Tomei fôlego. E coragem — um farrapo dela.
— Que é que me observa da escuridão? — gritei, mas minha voz saiu rouca, trêmula, quase humana demais para aquele lugar.
Olhei para o alto da torre. Surgiram então duas asas descomunais, sombreadas contra o céu estrelado. A figura era uma silhueta até então dois pontos fulguravam — olhos de um azul etéreo, famintos, como dois fogos-fátuos no meio do nada.
Um anjo caído? Um espírito ancestral? Ou um juiz das almas tortas?
A criatura desceu com precisão bestial, traçando um mergulho mortal. Ao tocar o solo, as tochas espalhadas pelas colunas acenderam-se espontaneamente, iluminando-o em chamas de espectral laranja e púrpura.
Ele era... horrendo e sublime.
Corpo humanoide, esculpido como pedra viva — mármore que transpirava condenação. Asas negras como breu, mãos com garras longas que ansiavam por carne, e um rosto... um rosto que parecia feito da morte. Não do cadáver. Da morte.
— Pequena criatura... existência frágil... sabes tu onde te encontras? — sua voz soou como sinos tocados em um funeral ancestral. Grave, ecoante, cortante.
Tentei falar. A garganta ainda se fechava.
— N… não sei onde estou... e menos sei quem... ou o que... é você. — murmurei, ainda apoiado à uma coluna de pedra fria.
Ele caminhou em minha direção, com a solenidade de um algoz.
— Este é meu domínio, criaturinha. Aqui pesam teus erros. Aqui o destino se curva. Aqui os loucos e os orgulhosos são finalmente despidos de suas ilusões. Sou Var’Ghul, o Guardião das Almas, o Juiz dos Malditos. E é sob minha presença que as sentenças são proferidas.
Um riso irônico escapou-me, ainda que trêmulo.
— Depois de tudo… agora um juiz? Um tribunal? — ri, mas o som morreu na garganta.
Apoiei-me com esforço. Levantei-me. A tontura me assaltava como maré. Mas recusei-me a encarar o julgamento ajoelhado.
— Seja o que fores... não temo mais espectros. Já caminhei entre cadáveres... já ouvi preces no meio do fogo. Já morri mais de uma vez em alma. — minha voz se elevava, ainda que fragilmente.
Var’Ghul parou, avaliando-me com olhos de abismo.
— Nestor te trouxe aos meus domínios. O infame mordomo conhece bem os limites da ousadia... até mesmo ele se curva diante de mim. — sua voz, por um instante, transbordava escárnio e desprezo.
Senti uma estranha fagulha de esperança se acender — tênue, mas viva.
Talvez Var’Ghul não fosse somente juiz. Talvez, fosse também uma saída. Uma chave. Um limiar entre a danação e a redenção.
— “Então julgue-me. Se este é o fim... quero ouvir a sentença com olhos abertos.” — disse, agora em pé, mesmo trêmulo, como soldado diante da baioneta.
Ele sorriu. Pela primeira vez, sorriu.
E o frio na espinha tornou-se glacial.
— Ah... mas para julgar, Anton S. Miahi... preciso ver tudo. Cada lembrança. Cada pecado escondido nos porões de tua alma. E isso, meu filho, vai doer mais que mil mortes.
Var’Ghul ergueu a mão direita — os dedos ossudos se abriram como garras de um deus antigo — e então pronunciou com uma voz que ressoava em cada molécula do meu ser:
— “Que se rompam os selos do tempo… e que as memórias do condenado fluam diante do Julgador.”
Naquele instante, algo invisível me perfurou a fronte. Um estilhaço de dor, tão agudo, tão terrível, que me dobrou os joelhos. Não era uma dor física. Não. Era uma lâmina que atravessava minha alma, como se arrancassem, de um só golpe, os véus que eu mesmo havia colocado sobre meus próprios pecados.
Minhas pálpebras se fecharam — ou foram fechadas por alguma força que não reconhecia. E então vi.
A neve tingida de vermelho.
As trincheiras devoradas pelo frio.
Os olhos dos soldados — meninos, irmãos, monstros — fitando-me em seus últimos segundos.
Var’Ghul narrou como se lesse um códice sagrado, impiedoso, mas não cruel:
— “Tu estavas entre os sobreviventes do cerco de Mitrova. Foste o único a ordenar a retirada. Ordenaste, sim… mas deixaste para trás três homens. Um ferido. Dois perecendo. Salvaste doze. Traíste três. Calculaste o sangue.
Eu gritava por dentro, mas minha boca estava muda. Meus olhos jorravam lágrimas sem que eu os controlasse.
— E naquele dia… após incendiar os corpos dos que jaziam sob o gelo… teus próprios soldados te chamaram de herói.
Var’Ghul deu um passo adiante. A cada palavra sua, meu peito ardia como se brasas fossem enterradas sob minhas costelas.
— Na floresta de Drovnik… ataste explosivos ao ventre de um prisioneiro. Usaste-o como armadilha. Foi eficaz. Salvou a tua vida. Mas deixaste o terror escorrer pelas folhas como uma maldição.
— Chega... — murmurei, a garganta cravada de espinhos.
— Na cidade devastada de Petrowska... alimentaste uma criança com tua própria ração. Depois, a deixaste dormir ao teu lado no frio... e ela sobreviveu. Mas jamais soube teu nome.
A lembrança daquela menina — olhos grandes, cabelos como carvão molhado — me desarmou. Caí ao chão. Var’Ghul se ajoelhou diante de mim, os olhos faiscando com um azul ainda mais profundo.
Sua mão tocou meu peito.
E então, ele mergulhou mais fundo.
Vi o castelo.
As celas.
O sangue nas paredes.
Meus gritos contidos.
Minha fúria.
Meu desejo de libertar, mesmo quando tudo indicava ruína.
Ele viu.
Ele sentiu.
— A ti, Anton, coube a escolha de destruir a chave para fugir... e usá-la para libertar outros. Mesmo sabendo que te deixaria à mercê da besta.
Vi os rostos dos prisioneiros. Os mesmos que me deixaram para trás. E senti... que mesmo o bem que eu praticava era consumido por sombras.
Var’Ghul se ergueu. Um silêncio sepulcral tomou o recinto. Até as tochas pareceram se calar.
— Anton S. Miahi… teus pecados são muitos. Tuas mãos manchadas de sangue e cálculo. Mas... tua alma não é covarde. Fizeste escolhas entre abismos. E ainda assim, salvaste outros. Mesmo quando ninguém mais te via.
Ele estendeu a mão. Uma luz tênue, azulada, cintilou entre seus dedos — como se acendesse uma chama que nunca morrera de fato.
— Teu julgamento... é favorável. Ainda que não sejas puro, és digno. Seguirás adiante. Pois tua história... ainda não terminou.”
Meu corpo tombou, exausto.
Mas algo dentro de mim — algo ancestral, algo esquecido — se reacendeu.
Var’Ghul desapareceu na penumbra como fumaça que retorna à lareira dos mortos. As tochas se apagaram, uma a uma. E a última imagem que vi foi o céu estrelado, testemunha muda do veredito.
Então, silêncio.
E depois… uma nova respiração.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Espectro de Alonso
Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Anton S. Miahi XXI
(Escrito em meu Caderno — póstumo)
Sem Data — Já não sabia se era noite ou dia. As trevas da cela ocultavam até o tempo de minha mente. O ar da cela era denso, imóvel, como se aguardasse o próximo sopro de minha respiração. Um peso alojava-se em meu peito, esmagando-me como se mãos invisíveis ali repousassem, exigindo confissão. Fora o sonho, suponho. Mas qual sonho? Fragmentos de imagens difusas escapavam-me, deixando somente uma sensação de desassossego abissal.
E então, uma voz.
Familiar. Fria. Dolorosa.
— Anton…
Meus olhos varreram o breu da cela, encontrando apenas a familiaridade das paredes úmidas e da estreita fresta por onde a lua se recusava a penetrar. A cela, anexada ao laboratório de Arturo, não permitia acesso à parte externa. Mas a voz continuava, entrecortada pelo vento ausente, sussurrando aquilo que eu temia ouvir. O tempo se dobrou sobre si, e voltei àquela noite — a noite de sua morte. O sangue sobre as pedras, o olhar esmaecido, o último suspiro arrancado pelo inevitável. Ele havia perecido nos meus braços, Alonso. Eu não o havia abandonado.
— Você me deixou…
Meu peito apertou-se. Não! Ambos havíamos sido convocados para a Guerra Franco-prussiana. Havíamos marchado juntos. Eu o segurei quando caiu. Vi o brilho esvaecer de seus olhos enquanto o sangue encharcava o chão. Mas ali estava ele, sua forma translúcida oscilando diante de mim, angustiado, desesperado, tão surpreso quanto eu de vê-lo ali.
— Alonso... isto não é possível.
Ele cambaleou para trás, os olhos arregalados, tremendo. Sua voz era um sussurro trêmulo, quebrado pela incredulidade.
— Mas então... eu estou morto?
Meu braço esquerdo doía. A reconstrução metálica rangeu quando movi os dedos, os tubos transportando fluidos de éter sobrenatural pulsando sob a estrutura engenhosa de engrenagens. Arturo, o engenheiro de outro mundo e tempo, dera-me essa dádiva amaldiçoada.
— Sim. Você morreu nos meus braços.
Alonso fechou os olhos, os lábios trêmulos. Então, sua expressão se alterou, determinada, feroz.
— Você tem que sair daqui, Anton.
— A cela está trancada. Arturo selou a fechadura com Éter.
Alonso hesitou, olhando ao redor. Pela primeira vez, parecia perceber o ambiente à sua volta. Do lado de fora da cela, o laboratório se estendia — frascos com líquidos brilhantes repousavam sobre prateleiras, grandes toneis de cobre estavam alinhados junto às paredes, enquanto canos de bronze percorriam o teto e o chão. Mesas de metal sustentavam equipamentos enigmáticos, papéis espalhados, registros incompreensíveis. Próxima dali, a mesa onde eu havia sido modificado cintilava sob a luz pálida de lâmpadas elétricas de um tempo que sequer deveria existir.
Alonso atravessou a porta, saindo da cela. Estava do lado de fora, me olhando com hesitação. Virou-se para a fechadura. Quando sua mão tocou o metal selado com Éter, uma descarga de energia o atravessou, fazendo-o gritar em agonia. Ele recuou, respirando ofegante, seus dedos trêmulos e espectrais se contorcendo.
— Alonso! — Meu instinto dominou minha razão. Avancei, esquecendo-me do óbvio. Minha mão estendeu-se em direção a ele, buscando segurá-lo, mas assim que o toquei, um choque me atravessou, violento, dilacerante. Cambaleei para trás, uma dor cortante percorrendo meu corpo. — Maldição! — soltei um gemido de dor.
Alonso me fitou, os olhos arregalados, sua expressão um misto de horror e culpa.
— Não! Você não pode me tocar! Eu... eu sou... — Sua voz fraquejou, e ele desviou o olhar. — Sou algo que não deveria estar aqui.
— Eu não me importo! — Bradei, ainda sentindo o formigamento do choque percorrendo minha pele. — Você está sofrendo, Alonso! Eu não posso somente assistir!
— Alonso... como você chegou aqui?
Ele parou, as costas rígidas, como se a pergunta o atingisse como um golpe. Lentamente, virou-se para mim. Seu olhar estava perdido, como se buscasse memórias em um véu nebuloso.
— Eu... eu não sei — sussurrou. — Eu me lembro do campo de batalha, do frio, da dor. Lembro do meu sangue escoando pelos meus dedos, do seu rosto, Anton... da sua voz me chamando. E depois... escuridão. Um vazio que me engoliu por inteiro. Eu não sonhei, não senti o tempo passar. Apenas... estava.
Um calafrio percorreu minha espinha.
— E então, de repente, você apareceu aqui?
Ele hesitou, a expressão se contraindo em angústia.
— Não... antes disso, eu ouvi algo. Uma voz. Não era sua. Era algo mais... algo que sussurrava dentro da minha mente, palavras que não compreendia. Foi como se eu fosse puxado para um turbilhão, forçado a atravessar um limiar invisível... e então eu estava aqui. E vi você. — Ele engoliu em seco. — Anton, eu não deveria estar aqui. Algo me trouxe.
Minha respiração pesou. O que quer que tivesse violado as leis da natureza para arrastar Alonso de volta, não o fizera sem propósito.
— Eu já morri uma vez, irmão. Isto não pode ser pior do que aquilo. — Ele respirou fundo, trêmulo, e forçou um sorriso frágil.
Antes que pudesse responder, Alonso se virou novamente para a fechadura, determinado.
Na segunda tentativa, uma nova onda de dor o atravessou, mas algo mais aconteceu. As luzes do laboratório piscaram e oscilaram, faíscas tremulando em suas lâmpadas alimentadas pelo Éter. O fluido nos tubos borbulhava, vibrando, como se o próprio laboratório reagisse à profanação de sua segurança. Alonso cerrou os dentes, seus olhos agora brilhando em desespero e determinação. Com um último esforço, sua mão se fundiu à fechadura, e esta começou a brilhar intensamente até derreter, pingando como cera fervente sobre o chão de pedra.
A porta estava aberta.
Alonso caiu de joelhos, arquejando, as mãos sobre o peito. Quando ergueu o olhar para mim, sua expressão era de súplica.
— Anton... algo... algo está errado. Ajude-me—
O ar do laboratório vibrou. Uma presença emergiu das sombras. A princípio, tinha quatro patas, movia-se como um lobo sem peso, mas logo ergueu-se sobre duas, seu corpo intangível oscilando como vapor. Sua face era um vazio sorridente. Moveu-se em direção a Alonso e, com um gesto lânguido, agarrou-o pelo colarinho. Alonso gritou, os olhos dilatados em pavor.
A criatura virou-se para mim e sorriu.
Então, sem som, sem violência, Alonso e a entidade se desfizeram em uma névoa suave, dissipando-se na escuridão.
Eu estava livre. Mas a liberdade não era o fim, e sim o início. Caminhos se estendiam diante de mim, sombras ocultavam verdades ainda não reveladas. O laboratório, o Castelo e seus moradores guardavam segredos que precisavam ser desenterrados. Eu precisava ir ao fundo de tudo aquilo.
Anton S. Miahi XXII
(Escrito em meu Caderno — póstumo)
Sem Data — Saí da minha cela após testemunhar o horror indescritível da captura de meu irmão—ou daquilo que um dia foi ele—por uma entidade saída das entranhas do inferno. Um espetáculo dantesco. O frio percorreu minha espinha como dedos cadavéricos. Mas não havia tempo para hesitar.
Caminhei rápido, ignorando o tremor involuntário em minhas mãos, e fui direto à mesa com a maior pilha de livros e papéis, na parede oposta à minha prisão. Algo ali continha as respostas que eu precisava. A adrenalina pulsava, e meus olhos famintos devoravam cada página, cada anotação. A escrita meticulosa daquele maldito diário me causava um nó na garganta. Sentia um peso lodoso no estômago, uma angústia viscosa que me abraçava. Mas continuei.
"21 de Janeiro de 1945 — Faz um pouco mais de um ano que já estou aqui neste castelo. O ambiente que o Conde me concedeu foi amplo e vazio à época. Agora que acomodei ferramentas, livros, tanques e outras coisas fundamentais, posso finalmente prosseguir. Isso me tomou uns quantos meses, mas agora tenho o que realmente preciso para perseguir minha ambição."
Meus dedos crispados viraram a página com violência.
"Os primeiros experimentos foram promissores. O Éter flui melhor do que o previsto, e a simbiose mecânica provou-se viável. O hospedeiro, no entanto, sempre perece antes de atingirmos um estado estável. Preciso de espécimes mais resistentes... e talvez menos... racionais."
Minha respiração falhou. Uma gota de suor frio escorreu por minha têmpora. Continuei, ainda que cada palavra me perfurasse como um punhal.
"Um deles, no entanto, surpreendeu-me. A morte não o reteve como os outros. Ele resistiu ao limiar. Movimentou-se. Falou. Confusão e medo tomaram seus olhos, mas algo permaneceu. Sua consciência? Sua alma? Não posso afirmar ainda, mas é um avanço. O Conde ficará satisfeito. Preciso testar mais."
Meu sangue congelou. O ar ao meu redor pareceu rarefeito. Meus olhos corriam loucamente pelas próximas linhas quando outro papel caiu ao chão, escapando de meus dedos trêmulos. Agachei-me para pegá-lo e, ao fazê-lo, senti meu peito se comprimir.
O texto rabiscado na folha era diferente. Escrito com pressa. Desespero. Um grito mudo preso em letras tortas:
"O número 12 me assombra. Ele aparece diante de mim como se ainda possuísse vontade própria. Ele sabe. Ele me encara da escuridão e sussurra meu nome. Eu o criei... mas falhei. Ele não partiu... ele não pode partir."
Mais abaixo, os traços estavam trêmulos, manchados de algo que parecia sangue seco:
"Ele me disse que seu nome era Alonso."
Meu corpo travou. O silêncio tornou-se um peso tangível, esmagador.
Um segundo papel deslizou da mesa. Uma fotografia.
Minhas mãos hesitaram antes de segurá-la. O choque me atingiu como uma lâmina em brasa.
— Não... não pode ser... — Sussurrei, sentindo minha garganta se fechar.
A imagem mostrava uma jovem. Seu rosto era pálido, os olhos fundos, exaustos. Mas eu a reconhecia. Céus... eu a conhecia. As palavras na página seguinte confirmaram o pior.
"18 de março de 1945 — Nestor me trouxe uma jovem. Seu estado era deplorável. Parece que a encontrou na floresta, na noite dos portais abissais. Uma ex-moradora do castelo. Ela balbuciava algo enquanto o mordomo vampírico do Conde a colocava na mesa. Dizia algo começando com 'nauä...' Não se podia entender bem. Então, perdeu a consciência. E eu comecei o experimento. Este foi o número trinta, depois daquele sucesso e fracasso do menino 'Alonso'."
A sala girou. As bordas da realidade se curvaram, como se algo estivesse prestes a me arrancar dali. Eu quis vomitar.
O horror explodiu dentro de mim. Ela esteve nessa mesa. Passou pelo mesmo que eu. Mas meu irmão... Ele sofreu algo ainda pior. As imagens do laboratório tomaram minha mente, as lâminas, os frascos, o cheiro metálico do sangue. O eco dos gritos dele ressoou em minha memória, e uma nova onda de pavor me tomou. O que diabos fizeram com ele?
Minhas mãos apertaram o diário, minha visão ficou turva.
"(...) Horas após terminar os experimentos com o número trinta, coloquei-a na cela do corredor. Não tenho esperanças de que resista por muito tempo, como os outros."
Minha consciência se agarrou a uma última fagulha de esperança.
A cela número cinco.
Corri pelo corredor, apertando o diário contra o peito como se ele fosse a última âncora de minha sanidade. O espaço ao meu redor parecia pulsar, os canos vibravam. O próprio castelo exalava um hálito podre.
Passei por celas escuras, vazias, até encontrar a que buscava. Meus olhos vasculharam o interior.
Um corpo coberto por um lençol branco.
O baque da realidade me atingiu como um golpe de rifle.
A raiva me tomou. A dor se alojou em meu peito, feroz, cruel. Ela era jovem. Tinha um futuro. E agora... era apenas mais um número em um experimento profano.
Minhas mãos tremiam ao abrir novamente o livro. A leitura foi uma punhalada final:
"Por infelicidade, o experimento trinta demonstrou descontrole e falta de lucidez. Seus ferimentos não estavam se recuperando como esperado."
Virei a página. Os últimos registros pareciam escritos por uma mão indiferente, sem resquício de humanidade.
"05 de abril de 1945 — O experimento trinta foi encontrado sem vida nesta manhã. Já havia alguns dias que não se levantava mais da cama. Parece que desistiu de lutar por sua própria vida."
As palavras se tornaram borrões. Um soluço me rasgou a garganta. Lágrimas quentes escorreram por meu rosto. Eu não conseguia impedir.
Estava neste castelo há meses, sofrendo infindáveis provações. Mas nada me preparou para isso.
O silêncio do corredor era opressor.
Crônicas de Sangue e Sombras
Anton Stefan Miahi nasceu para os livros e a reflexão, educado num tempo de paz. Aos trinta anos, porém, foi arremessado às batalhas sangrentas contra os prussianos, liderando soldados numa guerra que desafiava toda lógica que lhe era preciosa. No lúgubre Castelo Drácula, Anton enfrenta novamente o caos, onde eventos bizarros testam os limites da razão. Assombrado por traumas e perdas, ele percebe que a racionalidade é apenas uma frágil chama em meio à tempestade sombria da loucura. » Leia todos os capítulos.
Aslam E. Ramallo
Aslam E. Ramallo, renomado autor de "Réquiem para a Poesia" e "Amores Segredos & Poesia", mergulha na essência do Ultrarromantismo e do existencialismo moderno em suas obras literárias. Este prolífico escritor, também destacado professor de história, tece narrativas que transcendem o tempo, imersas na melancolia gótica e na reflexão existencial. Com maestria, Ramallo entrelaça os fios da emoção humana com a complexidade histórica... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.
O Éter e a Forja dos Imortais
Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula
(Escrito em meu Caderno — póstuma)
Sem Data — O peso da vigília sufocava-me. O braço esquerdo, pesado como chumbo fundido, resistia a qualquer comando, uma prisão de carne e osso que pulsava com o ardor lancinante de um ferimento que já deveria ter cessado de gritar. Oh, o ar ao meu redor era um vapor espesso, cheirando a óleo e metal oxidado, e a luz que ousava existir bruxuleava trêmula sobre as paredes de ferro e cobre, como se receosa de revelar o que jazia além do visível.
Estava deitado sobre uma mesa de metal, a superfície fria sob meu corpo contrastando com o calor febril que percorria minhas veias. Um lençol de algodão grosso cobria-me parcialmente, áspero contra minha pele. As imagens em minha mente dançavam entre a vigília e o torpor, angustiantes e, de algum modo perverso, reconfortantes. Entre os devaneios, percebia uma presença. Alguém estava ali.
A dor despertava-me de vislumbres indistintos — o rosto de um velho sacerdote, olhos carregados pelo tempo e barba desgrenhada como os ramos retorcidos de uma oliveira ancestral. Ele sussurrava algo enquanto minha consciência oscilava entre os fragmentos da batalha. Houve luta. Houve sangue. Teria que existir algo... algo que não conseguia nomear. Lembranças retornavam como lâminas cegas, desfiando-me lentamente.
Meu irmão, Alonso. Meu pequeno Alonso. Vi seus olhos se esvaírem em um campo onde a morte ceifava sem distinção. O frio da Prússia nunca me parecera tão cruel quanto o toque gélido de seus dedos sobre minha pele quando a vida o abandonou. Então, ali, em meio às entranhas de uma arquitetura de vapor e engrenagens, outra cena arrastava-me ao abismo. Sevilha. A praça banhada pelo sol dourado, risos infantis quebrando a manhã com uma pureza inalcançável. Valéria corria ao redor de nossa mãe, seus cabelos escuros como a noite embaraçando-se ao vento quente. Nora, sempre tão bela, com as mãos brancas e finas trançando flores nos cabelos de minha irmã.
Mas o que era essa sensação? Como podia ver o ontem e sentir o agora em um mesmo golpe? O calor de Sevilha desaparecia, e era tragado de volta à sala abafada, onde os tubos de cobre se entrelaçavam como serpentes, onde líquidos impossíveis brilhavam em frascos que guardavam segredos que jamais deveriam ter sido destilados.
O peso da memória era tão insuportável quanto o peso do braço que não respondia. Havia algo errado em mim. Algo que não deveria estar ali. Algo que pulsava...
Entre esses estados confusos de consciência e torpor, havia uma voz. Um nome. Ele emergia do nevoeiro da inconsciência, pronunciado de forma metódica, quase cirúrgica. "Arturo Vasquez". Sempre o mesmo nome, repetido nas bordas dos meus sonhos. Às vezes, era um sussurro. Outras, um tom firme, como se alguém estivesse se apresentando. A imagem de um homem de olhos frios e presença severa gravou-se em minha mente, como um espectro vagando entre a razão e a ilusão.
Agora, estou sentado em um quarto. As paredes de metal frio refletem a luz pálida da lamparina, sombras oscilam e se retorcem no espaço apertado. A porta de grade diante de mim separa-me da vasta sala, onde a penumbra se dissolve em uma névoa turva. E ali, no centro do aposento, a silhueta de um homem. Sua presença é um fragmento que eu não compreendia até agora.
Baixo os olhos para meu braço esquerdo e estremeço. A carne que antes ardia em dor fora substituída por algo... diferente. Tubos de cobre e prata correm entre as engrenagens, zumbindo em um ritmo que imita a respiração. Entre as articulações metálicas, fios de um brilho azul etéreo pulsavam, correndo como se fossem veias vivas, um fluxo constante de energia enigmática. Placas de latão e bronze, meticulosamente encaixadas, formam uma carapaça intricada, selada por runas gravadas à fogo — símbolos que não compreendo, mas que parecem murmurar uma verdade esquecida. Cada falange, um primor mecânico, responde com precisão, dobrando-se com um sussurro suave de engrenagens ocultas.
Minha voz quebra o silêncio, rouca, carregada pelo peso do passado e da incerteza do presente.
— Arturo Vasquez.
A silhueta move-se levemente, as sombras dançando ao redor de sua figura esguia. O brilho pálido da luz ilumina seu rosto por um breve instante — um olhar frio, calculista, pousa sobre mim.
— Você acordou. — Sua voz é baixa, controlada, desprovida de qualquer traço de surpresa.
— O que fizeram comigo? — murmuro, os dedos metálicos fechando-se involuntariamente sobre minha perna.
— Eu te reconstruí — ele responde, cruzando os braços. — Salvei o que restava de você. Transformei o que era falho em algo funcional.
Meu olhar retorna ao braço autômato. A precisão dos encaixes, a pulsação do éter azul correndo por entre as junções. Há algo além de mecânica nisso.
— Isso… não é somente metal — constato, mais para mim do que para ele.
Arturo mantém-se imóvel, mas há um brilho sutil em seus olhos.
— Não. O corpo humano é um motor imperfeito. A ciência sozinha não basta. Há forças que fluem além do que compreendemos. — Ele inclina levemente a cabeça, como se observasse um experimento. — E eu as domestiquei para te trazer de volta.
Antes que eu possa responder, passos ecoam do lado de fora. Uma sombra longa estende-se pela fresta da grade. A porta se abre, e Narcís Nestor entra. Seu olhar desliza por mim, primeiro surpreso, depois carregado de desprezo.
— Então foi assim que decidiu sobreviver, Anton — sua voz é um veneno gélido.
Levanto-me instintivamente, cerrando o punho. Ao socar a grade, uma energia invisível manifesta-se, repelindo-me com um choque alastrado pelo braço autômato.
— Tsc. — Nestor sorri, satisfeito.
Então, uma segunda presença invade a sala. O ar pesa. As sombras parecem alongar-se em saudação macabra. E a voz — aquela voz inconfundível — desliza pela penumbra como veludo e lâmina ao mesmo tempo.
— Anton S. Miahi. Como é bom revê-lo.
Meu peito aperta. O Conde Drácula adentra o aposento, sua presença dominando cada fresta de escuridão.
A conversa que se segue é enigmática, insinuando sobre Séttimor e os estudos de Olga. Mas não consigo entrever onde Arturo se encaixa nisso.
Então, Narcís e Drácula partem, deixando-me novamente com Vasquez. O engenheiro encara-me por um momento antes de finalmente falar, sua voz sem emoção aparente.
— A destruição pode ser controlada. Domada. Aprendi isso da pior forma possível…
Horas mais tarde — O silêncio que ficou era denso, quase palpável. O ar, que antes carregava a presença esmagadora de Drácula, parecia rarefeito, como se Narcís e ele tivessem sugado para si tudo o que tornava aquele espaço minimamente suportável.
Deixei-me cair sobre o assento metálico, sentindo o peso não somente do meu próprio corpo, mas do braço autômato que agora me pertencia — ou talvez, que agora me possuía. O som sutil das engrenagens rodopiando na estrutura de bronze e prata era um lembrete constante da minha nova condição.
Do outro lado da sala, Arturo Vasquez permanecia imóvel, observando-me com a mesma expressão fria e analítica que sempre parecia carregar. Seu rosto era esculpido na reserva de alguém que já testemunhara o suficiente para não se abalar facilmente. Mas havia algo ali, escondido nas sombras de seus olhos, algo que eu precisava arrancar à força.
— Então — que diabos você fez comigo? — Minha voz rompeu o silêncio, carregada de um peso que nem mesmo eu compreendia por completo.
O engenheiro cruzou os braços, recostando-se contra a parede de metal escurecido. A luz bruxuleante projetava sombras sobre seus traços rígidos, tornando-o ainda mais impenetrável.
— Eu te tornei funcional, Anton. Você estava perecendo. Seu corpo não suportaria. Dei-lhe uma alternativa. — A voz era firme, sem vestígios de emoção.
— Alternativa? — Soltei um riso baixo, ácido. — Meu braço já não é meu. Está vivo de uma maneira que não compreendo. Há algo além de engrenagens e cabos nisso... E eu sinto, Vasquez, eu sinto que há um preço por trás dessa dádiva que você não menciona.
Arturo não respondeu de imediato. Seus olhos caíram por um instante no meu braço autômato, observando o fluxo do éter azul pulsando entre as articulações. Ele inspirou fundo, um som discreto, mas carregado de peso, antes de falar.
— Cresci ouvindo histórias sobre bruxaria e curandeirismo. Minha avó falava sobre forças que a ciência não poderia tocar. Forças que poderiam curar… ou consumir. — Ele fez uma pausa, estudando-me. — Quando minha irmã adoeceu, acreditei que a medicina bastaria. Mas ela faleceu em meus braços. Como o seu irmão pereceu nos seus. — Seu olhar não demonstrava pena, somente uma constatação dura como aço. — Você murmurava o nome dele nos delírios. Durante as febres, antes e depois do procedimento. Chamava por Alonso como se ele ainda estivesse ali, sangrando, agonizando. — Arturo inclinou a cabeça levemente. — Eu ouvi cada palavra.
Um calafrio percorreu minha espinha. Uma fúria surda e incômoda começou a se erguer dentro de mim. A lembrança de Alonso — sua voz, sua risada infantil em Sevilha, o peso de seu corpo sem vida nos meus braços no campo de batalha — se mesclava ao absurdo daquela situação.
— Você... ousa falar dele? — Minha voz tremeu entre a indignação e a incredulidade. — Ousa trazer meu irmão à tona como se fosse apenas mais um experimento seu?
— Não se engane, Anton. Eu não o trouxe à tona. Você o trouxe. Ele está em você. — Arturo deu um passo à frente, a sombra de sua figura se alongando sobre o chão de ferro. — Os mortos nunca nos deixam. Mas o que fazemos com sua memória... isso, sim, define quem nos tornamos.
Respirei fundo, tentando conter a tempestade dentro de mim. Senti o peso do braço metálico — frio, estranho, quase um membro que não me pertencia. Não era natural. A ideia de estar fundido a algo tão distante da carne humana era repulsiva. A tecnologia de Arturo ia além do que eu compreendia, além de tudo que era concebível no século em que nasci.
— Você realmente acredita nisso? — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro. — Que o destino pode ser moldado somente com metal e precisão? E esse tal de “Éter do Imaterial”… Isso também faz parte do seu controle?
Arturo hesitou por um instante. Uma hesitação mínima, mas eu a percebi.
— O Éter não é apenas uma teoria — respondeu, sem desviar o olhar. — É uma força que permeia todas as coisas. A ciência sozinha não é suficiente para domá-lo. Mas aprendi a moldá-lo… a utilizá-lo. — Ele indicou meu braço autômato com um leve movimento de cabeça. — Você é a prova disso.
Apertei os dentes, a frieza de Arturo me irritava profundamente. Não era arrogância, não era fanatismo. Era uma convicção silenciosa, aterradora.
Eu precisava de mais respostas. Mas acima de tudo, precisava descobrir até onde Arturo estava disposto a ir em nome dessa crença.
Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Diário de Anton Stefan Miahi — VIII
17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Ivan Molchanov
(Cartas guardadas)
17 de agosto de 1871 — Minha chegada a solo romeno fora tardia. O inverno implacável no norte da Alemanha atrasara minha jornada em vários dias, forçando-me a uma travessia lenta e extenuante. Quando enfim pisei novamente nesta terra esquecida, vi-me obrigado a dedicar um tempo à readequação. Os arredores do castelo haviam mudado, não tanto em sua natureza lúgubre, mas em detalhes sutis—trilhas deslocadas, edificações em ruínas, presenças que antes não existiam. Investiguei. Observei. E, numa das noites em que perambulava entre as sombras da fortaleza, meus olhos captaram dois vultos. Um deles, masculino, exibia o andar hesitante de um intruso. Suponho que seja este o homem ao qual Nestor deseja que eu elimine.
O tempo não dissipou as trevas desta região. As montanhas escarpadas continuam assombrosamente solitárias, e a silhueta do castelo, cravada na penumbra das alturas, permanece um lembrete incontestável da ausência de divindades que ousem reivindicar este domínio profano. Recordo-me das paredes sóbrias e cinzentas, impregnadas com um odor peculiar—morte, químicos e algo de essência inominável.
Ao chegar, busquei Nestor. O acesso ao castelo foi feito pela entrada oculta na base da montanha, um caminho de outrora, com o qual me habituei nos anos de serviço obscuro sob o estandarte de Drácula.
Nestor aguardava-me nas profundezas do castelo. Seu vulto emergiu da penumbra, envolto na penumbra lamacenta das tochas trêmulas. Seus olhos brilharam, avaliando-me.
— Molchanov… — Sua voz cortou o silêncio, grave e deliberada. — O tempo não tocou tua essência. Sempre um soldado.
Fixei-o com um olhar firme.
— O dever não permite espaço para mutabilidade vã. Vim a teu chamado.
Nestor assentiu lentamente, um espectro de satisfação perpassando-lhe o rosto.
— Tens um alvo, — Declarou, aproximando-se. O cheiro de cera derretida e pedra úmida misturava-se ao aroma ferroso no ar. — Anton. Tem andado por lugares onde não deveria. Há segredos que devoram os curiosos.
Eu já sabia o que seguiria.
— Se ele não aceitar o Abraço da Noite, — prosseguiu, a voz sem qualquer traço de hesitação, — então deve desaparecer.
Meus dedos roçaram instintivamente a empunhadura da adaga sob o sobretudo. Um gesto automático, um reflexo do instinto de execução.
— Compreendo. E qual será o veredicto? Sangue ou trevas?
— Se resistir, finda-o. Tua lâmina será seu último horizonte.
Assenti. Sem hesitação. Sem perguntas.
— Assim será.
A conversa findara, mas o peso da tarefa já se assentava sobre meus ombros como uma mortalha invisível.
Deixei a sala, caminhando pelos corredores úmidos do castelo. O chão de pedra reverberava sob minhas botas, um eco solitário que se desfazia nas arcadas sombrias. O ar era frio, carregado com o cheiro rançoso de cera e poeira antiga. Ao cruzar um arco em ruínas, a vastidão do salão principal abriu-se diante de mim, seu teto sustentado por colunas grotescas, esculpidas em formas disformes—rostos angustiados, corpos entrelaçados, como se artistas dementes tivessem imortalizado almas atormentadas na própria estrutura do castelo.
No alto, além dos vitrais estilhaçados, a lua espreitava com seu olhar cínico, testemunha silenciosa de pactos e traições.
Continuei meu caminho, descendo pelo labirinto de corredores até emergir na passagem oculta ao sopé da montanha. A trilha era traiçoeira, serpenteando por entre pedras escorregadias e raízes retorcidas. O vento sussurrava nas árvores, trazendo consigo o cheiro de lenha queimada, um resquício da civilização à distância.
Ao longe, as luzes mortiças da cidade tremeluziam como vaga-lumes prestes a se extinguir. Um mundo diferente do castelo, mas não menos condenado.
A vila me esperava.
E Anton não veria o amanhecer.
Horas mais tarde — A cidade abaixo do castelo me é estranha, um detalhe novo que não reconheço de outrora. No entanto, a atmosfera permanece imutável. Há algo nesta terra que persiste, um odor espectral que não se dissipa. O castelo sempre foi um palco de anomalias: sombras que se movem sem fonte, espectros inquietos, aposentos que se deslocam como se fossem dotados de consciência.
Nestor advertira-me sobre tais ocorrências, mas o que testemunhei nas últimas noites desafia qualquer aviso.
O céu e a névoa ostentam tons ciano-azinhavres, como um prenúncio de morte. Raios rasgam a escuridão com luzes espectrais, trovões retumbam como tambores de guerra, e o vento... o vento ruge como uma matilha em frenesi. A neve, tingida em um gradiente sombrio, cai lenta, mas sem suavidade.
Então veio a noite passada.
A lua ergueu-se, titânica e dominadora, uma deusa silenciosa entre nuvens disformes. Caminhava pela floresta, atento aos sussurros do vento entre os galhos nus, quando vi—a primeira fissura.
Uma linha no ar, trêmula, pulsante. Então outra. E outra.
Até que se abriu um rasgo maior diante de mim.
O ar que emanava daquela fenda não pertencia a este mundo. Um odor de carne pútrida rastejou até minhas narinas. Algo se movia no outro lado, uma silhueta deformada oscilava entre a névoa espessa. Primeiro vieram os sons: grunhidos abafados, o estalar de ossos partidos. Então a luz pálida cresceu.
E eu vi.
A criatura rastejou da abertura. Sua pele era um tecido flácido e esbranquiçado, esticado sobre ossos retorcidos, veias arroxeadas pulsando sob a derme translúcida. Olhos sem íris, sem pupilas, apenas globos vazios, brilhando como pálidas esferas de morte. Sua boca se abriu num sorriso de presas finas como agulhas, e entre elas... restos humanos ainda gotejavam.
— Deixe de observar...— Uma risada gutural, profunda, ressoou em meus ouvidos. — Não gosto… que testemunhem meu deleite carnal e mundano. Sou… Ttyphrssett.
Meus músculos enrijeceram. Garras se projetaram. O instinto de sobrevivência rugiu dentro de mim.
A criatura avançou. Rápida, como um borrão espectral.
Saltei para o lado, girando o corpo. Minhas garras rasparam o vazio onde sua carne estivera há meros instantes. O vento sibilou quando ela girou, desferindo um golpe.
Levantei o antebraço a tempo—o impacto reverberou pelos ossos.
Ela riu, uma cacofonia de vozes sobrepostas.
— Fome é a minha eternidade… Estranho ser… deste mundo. — Sibilou sua voz estranha.
A voz era um sussurro, um grito, um eco de algo ancestral.
— E se te oferecesse uma presa melhor… Ttyp…Ttyphrssett? — Cuspi as palavras, desviando-me de mais uma investida.
A criatura parou. O vazio em seus olhos se contraiu levemente.
— Carne fresca. Alma quente.—
Ela inspirou o ar.
— Fala...— Seus dentes brilharam sob a luz difusa. — Mas que não seja engodo, ou devorar-te-ei antes do amanhecer.
Mantive a postura firme, a voz tão cortante quanto minha lâmina.
— Anton. Um mortal intruso nos domínios de Drácula. Um erro que precisa ser corrigido.
O ser inclinou a cabeça, avaliando-me.
— E como o entregarias a mim? — Gotas vermelhas gotejaram de sua boca cheia de dentes filosos e finos.
Um plano já se desenhava em minha mente.
— Um espelho. Na igreja central. — Minha voz era uma promessa de aço. — A armadilha será sutil. Ele não suspeitará até ser tarde demais.
A criatura lambeu os lábios maculados de sangue.
— Se tua promessa falhar, tua carne substituirá a dele.
Inclinei a cabeça levemente, um gesto de assentimento.
— Se falhar, nem mesmo merecerei sobreviver.
Tenho pouco tempo. Anton deve perecer. Sua vida será o tributo exigido por esta entidade insaciável. Não há hesitação.
Ao final, seu corpo sem vida será entregue a Nestor.
A escuridão desta terra exige tributos constantes, e hoje… Anton será o sacrificado.
A floresta estava silenciosa quando deixei aquele lugar profano. A criatura desaparecera, dissolvendo-se na noite como um espectro faminto. Minhas mãos ainda tremulavam com a adrenalina do confronto, mas meu pensamento já estava focado no próximo passo.
Caminhei em direção à cidade, ocultando-me entre as sombras das vielas. As ruas estavam desertas, a névoa rastejava como uma criatura viva, esgueirando-se entre as construções de madeira decrépitas. A poucos passos, uma das casas abandonadas se tornou meu refúgio temporário.
Empurrei a porta com cuidado. O interior estava empoeirado, com móveis gastos e uma lareira apagada há muito tempo. Um antigo lampião sobre a mesa me forneceu a luz necessária para registrar o que se sucedeu.
Sentei-me, puxando um pedaço de papel envelhecido. Minha caligrafia firme começou a preencher a página.
Larguei a pena sobre a mesa, observando a tinta escorrer lentamente.
Antes do dia fatídico, no entanto, precisaria encontrar Nestor novamente. Informá-lo do plano recém-forjado. Anton não poderia escapar... e eu deveria me certificar de que cada peça estava devidamente posicionada no tabuleiro antes que a noite de caça se iniciasse.
De Narcís Nestor
(Anotações em seu Caderno)
25 de agosto de 1871 —Ivan, sempre fiel à sua frieza militar, deixou-me uma carta em sua entrada habitual, como um cão de caça que deposita sua presa aos pés do mestre. A despeito de sua natureza imperturbável, até mesmo ele parece ter se assombrado com os eventos recentes. A ironia disso quase me diverte. Nos últimos tempos, o castelo tem sido palco de fenômenos tão frequentes e diversos que sua mera enumeração tornar-se-ia cansativa. Mas sigamos ao que realmente importa, ao haver um jogo a ser concluído, e o tempo é um luxo que não podemos nos dar. E o que ele relatou foi isto:
“Tenho pouco tempo para executar meu plano. Anton deve perecer, sua vida será o tributo exigido por esta entidade insaciável, Ttyphrssett. Não haverá trégua nem hesitação. Ao final, seu corpo sem vida será entregue a Nestor, e que ele decida o destino final dos restos mortais. A escuridão desta terra exige tributos constantes, e em três noites, Anton será o sacrificado.”
Tão direto e eficiente quanto um relatório de campanha. Há algo de quase tocante nessa disciplina militar com que Ivan trata até mesmo as monstruosidades mais abjetas. No entanto, como eu suspeitava, sua descrição não omite a repugnante participação de Ttyphrssett — aquela aberração execrável, escarrada das mãos da estimada senhora Olga. Como é peculiar que sua fome cega e primitiva venha, enfim, a ter um propósito. Ironia refinada.
Entretanto, antes que a peça final seja disposta no tabuleiro, há ainda um último e irritante dever a cumprir. Devo tratar com os Santos Dominadores. Ah, que nome pomposo para um bando de degenerados cuja “santidade” não passa de um véu esgarçado cobrindo vícios e ambições. Eles me causam repulsa, confesso. No entanto, são um mal necessário, mais profanos em sua falsa fé do que Ttyphrssett jamais será em sua fome animalesca.
O jogo se aproxima do xeque-mate. Restam três noites.
De Narcís Nestor
(Anotações em seu Caderno)
27 de agosto de 1871 — Nesta noite, pela discreta entrada ao pé da montanha, encontrei-me com um dos clérigos que infiltramos entre os patéticos Dominadores. Pobres almas iludidas por sua própria grandiloquência, sempre tão ávidas por acreditar que detêm o domínio sobre aquilo que mal compreendem. Mas que sigam em sua ilusão, pois essa nos serve.
O emissário desta vez foi um jovem chamado Luca — dezesseis anos apenas, mas já contaminado por uma ambição que me diverte. Há nele um brilho voraz nos olhos, não de fé, mas de algo muito mais interessante: um desejo de ascensão, de poder. Veremos até onde suas próprias ambições o conduzirão antes que o devorem.
Entreguei-lhe a mensagem destinada a Ivan, informando-lhe que o espelho necessário para a armadilha estará oculto dentro da nave da igreja, velado sob um grande pano negro. Detalhes importam. A simbologia importa. Um véu negro sobre o instrumento de condenação — quase poético.
Acrescentei ainda que Anton será devidamente instigado a dirigir-se à cidade a nordeste do castelo. O resto acontecerá como deve. Uma carta será deixada para Anton. Ele estará na igreja, às dezenove horas em ponto.
Resta ver se Ivan desempenhará bem seu papel.
Anton S. Miahi XIX
(Escrito em meu Caderno)
28 de agosto de 1871 — Os eventos que pude relatar foram demasiadamente assombrosos e perturbadores em níveis que jamais concebi ou sequer encontrei descritos nas páginas dos volumes mais soturnos que estudei. Suponho não viver um sonho, mas um tormento desperto, um pesadelo onde o próprio tempo parece corrompido. Meu peito se aperta, e por vezes me falta o ar. Tento desesperadamente organizar meus pensamentos, amarrar a razão ao que meus olhos testemunham, buscar um ponto de ancoragem para não ser tragado pelo abismo da loucura que habita estas paredes.
Nesta manhã, por primeira vez, despertei sem sobressaltos, sem os suspiros entrecortados de quem tem os nervos castigados pelo desconhecido. Houve uma calmaria incomum que me tranquilizou. Arrumei minhas coisas, limpei minhas botas com a atenção meticulosa de um soldado e observei a janela. Por algumas horas, a ilusão de normalidade me envolveu como um véu frágil. Mas, como tudo entre os vivos, a paz é efêmera.
O céu, antes cinzento e imóvel, começou a se transmutar. Primeiro, as nuvens espessas formaram um manto opressor sobre o vale. A chuva caiu pesada e súbita, e então, como uma guinada grotesca da natureza, deu lugar à neve. O frio invadiu o aposento, e a neblina rastejou pelas encostas como uma criatura faminta. Dirigi-me à janela, e, ao fitar a clareira de Séttimor, vi as luzes outra vez. Clarões de tons roxos e azul-acinzentados pulsavam na floresta como lanternas espectrais. Já as notara antes, mas hoje me pareceram mais próximas, mais intensas.
E então, um som.
Passos abafados no corredor. Um deslizar breve, contido, como se quem estivesse do outro lado hesitasse antes de agir. Girei nos calcanhares, fitando o vão da porta. Uma sombra estacionou diante dela, e sem que a madeira rangesse sob seu peso, um envelope foi deslizado por baixo. Permaneci imóvel por um instante, prestando atenção. Nenhum som de passos se afastando. Apenas o eco da minha própria respiração.
Aproximei-me. A carta jazia ali, pálida sobre o assoalho. Peguei-a com hesitação. O papel era espesso, amarelado, com um selo partido, como se tivesse sido aberta e lacrada novamente. Deslizei os dedos sobre sua superfície, sentindo um perfume antigo, amadeirado, quase espectral.
Ao desdobrá-la, li:
"A morte não é silêncio, Anton S. Miahi. Nem o tempo é um cárcere impenetrável.
O sangue derramado sempre busca seu reflexo, e ecos do que foi se enlaçam ao que ainda será.
A sombra do passado repousa sobre teu nome, e os fios que te ligam àqueles que se foram não foram cortados—apenas esquecidos. Olga tece as teias e cria caminhos, como sempre fez, e em meio ao lamento das pedras, há um nome que insiste em se erguer entre os mortos. O nome de teu irmão.
Se anseias pela verdade, procura-me onde os sinos dormem e as velas tremem ao menor sopro de vento. Onde o solo foi profanado e os juramentos, quebrados.
A noite de hoje te aguarda na cidade ao nordeste do castelo."
O ar no aposento pareceu tornar-se mais pesado. Olga. O nome que eu desejava sepultar no esquecimento ressurgia como um cadáver reanimado. E meu jovem irmão... há muito tempo morto, longe dos meus braços, mas jamais do meu espírito.
Quem escrevera tais palavras? Como sabia de coisas que poucos poderiam conhecer?
A cidade ao nordeste do castelo... um convite ou uma armadilha?
Independentemente da resposta, eu sabia que não poderia ignorá-lo.
Naquela noite — o que me ocorre ao recordar os eventos que nela se sucederam não é simplesmente uma lembrança indesejável, mas um terror que se assemelha, em sua intensidade e gravidade, aos próprios horrores vividos nos campos de batalha. O que testemunhei, no entanto, não se limita a um mero vislumbre de pesadelo: é uma marca indelével, profundamente gravada nas paredes de minha mente, que jamais se apagará.
Permitam-me, no entanto, oferecer-lhes o relato o mais fiel e acurado possível, como é meu dever como homem de ciência.
Em minha preparação para o que seria uma jornada incerta, vesti-me com o habitual cuidado de um oficial acostumado a respeitar os caprichos da natureza e os rigores do clima. Coloquei sobre meus ombros uma capa espessa de lã, resistente aos ventos cortantes daquela região desolada. A bota de couro, que se estendia até os joelhos, selava minha caminhada com firmeza e austeridade. O chapéu negro, de aba larga, e o sabre, meu fiel companheiro, completaram a indumentária, que, mais do que proteger-me da intempérie, era uma armadura psicológica contra as incertezas do desconhecido. O peso da experiência de combate, forjado nos campos de guerra, incitava-me à cautela, e, por isso, embora o temor de um desafio oculto pairasse sobre mim, minha razão ainda prevalecia, guiando-me através da escuridão.
O dilema que me atormentava não era pequeno. Deveria eu seguir os conselhos da lógica, da razão pura e das lições adquiridas em meu labor como historiador, ou ceder à tentação da descoberta, ao risco de me lançar em uma jornada cujos contornos eram, por ora, indiscerníveis? A dúvida pairava como uma sombra inquietante, mas a experiência adquirida nos campos de batalha me fazia permanecer firme, pois, como sempre, a razão deveria prevalecer sobre o instinto.
Felizmente, o tempo que dediquei ao estudo das cartas e dos mapas do Conde, documentos que o próprio me confiara, revelou-se, de maneira inusitada, como uma arma poderosa. Através deles, pude traçar o percurso, conhecendo os meandros daquele terreno que, embora familiar, ainda me era enigmático. O estudo intenso, por tanto, mostrou-se não apenas uma fonte de prazer intelectual, mas uma ferramenta de sobrevivência.
Ao sair de meu aposento, fechei a porta atrás de mim com um leve e contido estalo, como se o som não fosse mais do que o eco de minha decisão. O corredor do castelo se estendia à minha frente, envolto pela penumbra das tochas tremeluzentes, cujas chamas dançavam sobre as pedras e as paredes de pedra fria. O ar estava carregado, pesado, como se o próprio castelo estivesse respirando, aguardando a minha partida. Segui até a porta leste, a única que dava para o exterior, e ali, ao abrir a pesada folha de madeira, senti o impacto do ar gelado. A noite estava envolta em uma espessa camada de névoa, e o silêncio, profundo e solitário, me acolheu como uma capa de luto.
Antes de avançar, um impulso me fez olhar para trás, e foi quando, ao longe, através de uma janela turva e empoeirada, avistei uma silhueta. A luz tênue que emanava de dentro do castelo projetava sombras longas e desconcertantes, e, naquele instante, compreendi: era Nestor, observando-me daquelas alturas. O pressentimento que ele me causou não se limitava à mera curiosidade; algo em seus olhos me alertava para que a jornada que eu estava prestes a empreender era mais perigosa do que imaginava.
Decidi, no entanto, não hesitar. Tinha um destino, e era para ele que eu me dirigia. A carta que recebera indicava-me o caminho, e como um cavaleiro indo à sua cruzada, eu avançava, agora movido não apenas pela razão, mas por uma força que parecia transcender minha compreensão.
O percurso até a cidade mencionada na missiva foi árduo, e a densa vegetação, com árvores de pinheiro que se erguiam como sentinelas sombrias, parecia absorver a luz da lua, tornando cada passo mais difícil e incerto. O chão estava coberto de lama, que, a cada passo, grudava às solas de minhas botas, tornando a caminhada ainda mais extenuante. A neve voltou a cair, fina como pó de prata, e o vento, agora mais forte, parecia sussurrar palavras que não consegui compreender. As árvores, cujos troncos retorcidos pareciam lamentar sua própria existência, eram um cenário perfeito para o pesadelo que se desenrolava em minha mente.
Após uma caminhada de quase quarenta minutos, finalmente avistei o que procurava. Uma pequena cidade, erguida sobre uma elevação, com mais de vinte casas, se estendia à minha frente. No ponto mais alto, erguia-se uma igreja de duas torres pontiagudas, cujos contornos negros pareciam rasgar o céu nublado, como se estivessem conectados a algum poder obscuro. Uma sensação de estranheza me envolveu ao perceber a proximidade daquela cidade, uma cidade que não deveria existir, não tão perto do castelo, não tão afastada de Séttimor.
— "Então, este lugar realmente existe?" — A pergunta surgia involuntária, como uma súplica ao destino. Não podia acreditar que uma cidade assim pudesse estar oculta, a apenas quatro ou cinco horas de caminhada forçada, mas ali estava ela, desafiando toda a lógica.
O muro de meia altura que cercava a cidade não era mais do que um amparo inútil contra o mundo exterior, e o portão de madeira rústica parecia, mais do que uma entrada, uma brecha para outro mundo. Não havia uma alma viva na rua, mas as luzes tremeluzentes das casas indicavam que, pelo menos, havia algum tipo de vida. O silêncio, no entanto, era ensurdecedor, e o som distante de animais de fazenda acrescentava uma camada de inquietação à quietude sobrenatural que pairava sobre o local.
Ao cruzar o portão, algo alterou a realidade ao meu redor. Foi como se o próprio tecido do espaço se distorcesse, como se uma película invisível tivesse se rasgado, e eu fosse lançado em outra dimensão. O ar parecia se fragmentar, e eu, em um estado de confusão, apoiei-me no portão, sentindo minha cabeça girar. Quando finalmente consegui abrir os olhos, tudo havia mudado. O mundo ao meu redor se tornava maleável, ondulante, como se estivesse imerso em um rio sereno. Bolhas surgiam, flutuando diante de mim, e dentro delas, imagens que se desfocavam antes de revelar cenas de lugares nunca antes vistos — mas que, inexplicavelmente, se assemelhavam a minhas próprias memórias.
Dentre essas bolhas, uma se formou diante de meus olhos, e ao tocá-la, a cena que se revelou fez meu coração parar. Meu irmão, em meus braços, sangrando. O sangue se espalhava sobre suas roupas, escorrendo pelas minhas mãos e caindo sobre minhas pernas. Um grito, abafado pela memória, ecoou em minha mente, e uma sensação de angústia imensurável tomou conta de meu ser. A bolha explodiu, e outras começaram a se formar, distorcidas e caóticas.
Foi neste momento que tomei minha decisão: eu precisava entender o que estava acontecendo. Eu precisava desvendar os mistérios que aquele lugar ocultava.
Avancei, com a determinação que só a dor pode conceder, em direção à igreja. Porém, a uma curta distância das portas, uma barreira invisível parecia me deter, como se o próprio espaço estivesse rejeitando minha presença. Respirei profundamente, voltei a me concentrar, e apertei o punho ao redor do sabre. Estava resoluto, mais do que nunca.
A porta da igreja, que parecia aguardando minha chegada, estava escancarada, como se me convidasse a adentrar seu domínio. Não queria ser impetuoso, pois sabia que a cultura local talvez exigisse mais respeito. Então, entrei com o maior cuidado possível.
Foi quando fui tomado pela estranha melodia que preenchia o interior. Um canto singular, que me remeteu aos cânticos gregorianos da Notre-Dame. Sua beleza não ocultava a estranheza de sua origem. Não sabia se aqueles monges eram católicos, anglicanos ou luteranos, mas sabia que algo em sua música ressoava com a obscuridade daquele lugar.
A arquitetura da igreja era como uma sinfonia de sombras, com colunas robustas adornadas por desenhos que pareciam antigos demais para serem identificados. O altar, elevado e macabro, estava coberto por símbolos que não se assemelhavam a nada que eu já tivesse visto. No altar, o sacerdote se destacava, um homem de barba grisalha, vestindo um manto negro com uma faixa cinza no peito. O ambiente todo emanava uma aura de segredo, e, no lado esquerdo, uma cortina cobrindo algo… algo que eu sabia que não deveria ver, mas que, mesmo assim, me atraía como uma força magnética.
Aquela noite, tão aguardada e temida, chegou com a promessa de revelar mistérios que jamais poderia imaginar. Adentrei a igreja com a diligência habitual de um homem de armas, mas também com a mente de um historiador. Eu sabia que a verdade, em sua forma mais pura e aterradora, seria revelada ali, entre aqueles muros ancestrais.
O ambiente, imerso numa quietude sagrada, parecia reverberar com a história das eras passadas. As paredes de pedra estavam adornadas com inscrições em latim e símbolos antigos que pareciam pulsar com uma energia quase tangível. O canto dos monges, profundo e doloroso, era a alma daquele lugar — seus ecos tocavam minha alma, como se estivessem chamando não apenas à reflexão, mas ao despertar de algo profundo e sombrio.
Gradualmente, meus olhos se adaptaram à penumbra da nave. Eu estava ali, mas não como nenhum homem comum, não como um simples soldado ou professor. Eu era um espectador, aguardando o momento certo para agir, para confrontar o desconhecido que se ocultava por trás dos véus daquele culto sombrio. No entanto, o que me aguardava não era mera informação, mas uma experiência que desafiaria todos os meus princípios.
Foi quando me sentei, num banco distante, que senti a presença de um monge ao meu lado. Ele não disse nada de imediato, mas sua presença era inegável. Um pequeno monge de semblante pacífico, mas cuja aura emanava algo indescritível.
Ele se virou para mim com uma suavidade calculada e falou em tom baixo, quase sussurrante, mas ainda assim carregado de uma autoridade que não pude ignorar:
— Anton S. Miahi, o oficial da cavalaria? Eu sabia que você viria. Seu destino está entrelaçado com o que aqui acontece. Sou Luca.
Eu o olhei com desconfiança, não compreendendo o que queria dizer com aquilo. Mas havia algo em sua fala que me fez hesitar. Ele sabia meu nome. Mais ainda, sabia do meu propósito ali. Esse conhecimento não era comum, e era isso que me inquietava.
— Como sabe quem sou? O que sabe sobre meu irmão? — Minha voz saiu quase imperceptível, mas o monge ouviu.
Luca baixou a cabeça ligeiramente, como se ponderasse suas palavras, e então se inclinou mais perto, falando com uma confiança perturbadora:
— O que você busca aqui, Anton, não é apenas justiça. Você está buscando a verdade sobre seu irmão, o que aconteceu com ele. Sei onde ele está, mas o que posso lhe oferecer será além daquilo que você pode compreender no momento. Imploro: espere até o fim do canto. Quando os monges cessarem, sua resposta estará diante de você.
Suas palavras eram enigmáticas, mas algo em meu íntimo me dizia que ele falava a verdade. O medo, que em outros tempos teria me paralisado, agora se transformava em uma força incognoscível, uma determinação que me impulsionava a continuar, a esperar.
Mas a verdade, como sempre acontece com as trevas, chegou mais cedo do que imaginava.
Os cânticos interromperam-se abruptamente, e o silêncio se abateu sobre a igreja, como uma tempestade prestes a romper os céus. Olhei para o altar, e então percebi o que se desenrolava à minha frente. Um monge tirou o capuz e olhou-me com um sorriso cruel, um sorriso que denotava algo além da simples perversidade. Ele tinha uma cicatriz que cortava o lado direito de seu rosto, uma marca que falava de guerra, dor e sacrifício. Seus olhos, os olhos de um homem que já havia visto o inferno, fixaram-se em mim. Um arrepio percorreu minha espinha.
Ele foi até a cortina, com um gesto quase ritualístico. Movendo-a, ele recitou palavras em uma língua estranha, e, quando a cortina foi retirada, um espelho apareceu. Não era um espelho comum. Suas bordas estavam adornadas com símbolos que emitiam um brilho obscuro, uma luz azul-acinzentada, quase sobrenatural. E, então, a névoa começou a se formar. Um cheiro de carne apodrecida e sangue se espalhou pelo ambiente. Todos os presentes começaram a se agitar, mas ninguém ousou se mover.
Uma risada gutural e grotesca ecoou pela igreja, reverberando em meus ossos, como se o próprio ar estivesse rindo da nossa impotência.
E então, a criatura apareceu.
Ela não era humana. Suas formas, distorcidas e contra-natura, eram algo que eu nunca poderia ter descrito em palavras. Sua pele era pálida, esticada sobre ossos frágeis, como uma tela de carne que se retorcia com cada movimento. Seus olhos, ou melhor, os buracos onde os olhos deveriam estar, estavam vazios, sem íris, sem pupilas. Mas havia algo ali — uma presença, uma malícia que me cortava mais profundamente do que qualquer espada. O sorriso que ela mostrou era o de um predador — dentes finos e afiados como agulhas, dentes que brilhavam sob a luz fraca. Seus membros, longos e elásticos, pareciam ter vida própria, prontos para envolver e esmagar qualquer um que ousasse enfrentá-la.
A voz esganiçada dela cortou o silêncio, uma voz que parecia ecoar de todas as direções ao mesmo tempo:
— Criaturinha… Pequeno coelho… você é a próxima vítima. Venha, venha e seja consumido!
Os monges ao redor começaram a recitar preces freneticamente, mas não havia proteção ali. A criatura avançou, seus passos rápidos e pesados, esmagando a paz que até então reinava. Puxei minha espada, o metal reluzindo sob a luz sombria. Mas antes que pudesse reagir, a criatura avançou sobre mim com uma velocidade sobrenatural.
A luta foi um turbilhão de movimentos. Meus golpes, treinados por anos de batalha, eram rápidos e precisos, mas a criatura esquivava-se com uma agilidade impossível. Ela me atingiu com uma força esmagadora, um golpe brutal que fez com que minhas costelas se rompessem com um estalo doloroso, uma dor que fez tudo ao meu redor desaparecer em uma névoa de dor pura. Antes que pudesse me recuperar, ela saltou sobre mim, mordeu meu braço direito com uma força aterradora. A dor foi tão intensa que me fez quase perder os sentidos, mas, com um esforço desesperado, mantive minha espada firme.
A criatura recuou momentaneamente, e foi quando aproveitei a chance. Em um movimento rápido e preciso, cruzei minha espada e acertei o pescoço da criatura, rasgando sua carne podre. Ela gritou, uma gritaria grotesca e cheia de fúria, mas não recuou.
Com um último esforço, criei uma abertura e, com a força que me restava, cruzei o aço da lâmina contra a sua garganta. O sangue negro jorrou, e a criatura desabou no chão, sem vida. Eu estava exausto, sangrando, a dor consumindo cada fibra do meu ser.
Mas antes que pudesse dar um passo, a escuridão me tomou. Caí ao chão, meu corpo um emaranhado de dor. Senti meu sangue sair, quente e espesso, a dor alucinante do meu braço direito e das minhas costelas rompidas. Minha cabeça girava suavemente, mas pude reconhecer o velho monge barbudo, ainda com seu manto negro e cinza. Ele se aproximou, murmurando preces enquanto me tocava.
Eu mal conseguia entender suas palavras, mas o tom dele me trouxe uma sensação de alívio, mesmo em meio ao caos.
— Cavalheiro, você está no limiar entre a vida e a morte. Mas há algo que posso lhe oferecer… Se você aceitar a salvação, se desejar seguir a verdade da Igreja, sua vida será preservada.
Meu corpo, debilitado e atormentado pela dor, resistiu a essa oferta. Mas minha mente, naquele momento, sentiu o peso da escuridão que se aproximava. Eu, com um esforço sobre-humano, olhei para o monge e disse, com a voz embargada pela dor:
— Eu aceito…
A escuridão tomou conta de mim.
Quando acordei, estava em uma sala estranha, cheia de vapores e luzes opacas. O ar estava quente e úmido. Algo acontecera, algo além da compreensão humana. Mas o quê? O que havia mudado em mim? Eu não sabia, mas o temor tomou conta do meu ser. Algo estava diferente… algo em mim tinha sido alterado.
Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Diário de Anton S. Miahi VII
Meu inestimável, Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871
Meu inestimável,
Escrevo estas linhas para narrar o inexplicável. Apenas ao rabiscar estas palavras, sinto a sombra daquela noite envolver-me como um manto frio, um toque de horror que a ciência, por mais que avance, parece incapaz de elucidar.
Eu me encontrava na sala de medicina da Universidade de Paris, acompanhado pelo investigador Jules de Moreau e quatro guardas, enquanto outros seis permaneciam atentos nos corredores. A noite estava turbulenta; lá fora, uma tempestade varria Paris com raios e trovões, e mesmo sob a luz das lâmpadas a óleo, cada clarão projetava sombras que dançavam ao redor dos corpos dispostos sobre as macas. O cheiro de chuva e sangue enchia o ar, misturado ao óleo queimado, impregnando o local de um mal-estar indescritível.
— Diga-me, doutor, — começou Jules, com sua voz grave ressoando pela sala, — qual é a sua teoria? Esses corpos, encontrados nas margens do rio, exangues e com sinais de resistência apenas em um dos braços… é como se algo se alimentasse neles.
Parei ao lado de um corpo, o de uma jovem dama, notando algo que até então havia escapado à nossa análise. Havia uma mancha negra se espalhando ao redor das perfurações em seu pescoço, como um mapa macabro de venenos rastejantes.
— Jules, aproxime-se, veja isto! — murmurei, sentindo uma urgência terrível. — A mancha negra parecia pulsar como algo vivo.
Estávamos ambos petrificados diante daquele detalhe perturbador, até que um trovão estourou sobre nós, silenciando a sala. E então, quase como um sussurro ecoante, uma voz profunda reverberou ao redor.
— “Levantem-se, criaturas da noite…”
Os guardas se aglomeraram na porta, enquanto eu, hipnotizado pela voz, me mantive imóvel junto ao corpo. Foi quando ouvi um som molhado e denso: gotas caíam do corpo da jovem para o chão, formando poças negras e viscosas. De repente, os corpos ao redor começaram a se debater, com espasmos horripilantes, como se tivessem sido tomados por uma força oculta.
Os guardas, tomados pelo medo, sacaram as armas e avançaram, mas mal puderam dar mais que alguns passos antes que um novo trovão apagasse todas as luzes, mergulhando-nos na escuridão. Os relâmpagos entravam pela janela, iluminando uma visão aterradora: os corpos já não estavam sobre as macas.
— Atrás de vocês! — apontei, ao ver o brilho fantasmagórico do relâmpago. No mezanino acima de nossas cabeças, pendia o corpo de um dos guardas, os olhos abertos, agora vazios. O que o segurava era uma criatura de pele pálida, olhos vermelhos como brasas e dentes longos e afiados. O som de sua respiração era como o ranger de ossos.
Sem hesitar, as criaturas lançaram-se sobre nós, e a sala virou um campo de batalha. Os guardas disparavam suas armas, mas cada tiro parecia apenas irritar aquelas coisas. Ouvi os gritos, o som de carne sendo dilacerada, e o sangue começava a escorrer pelo chão em filetes escuros.
Caído ao chão, observava aquele pandemônio, até que senti uma mão forte me puxar. Era Jules, com o rosto contorcido em uma expressão de pura adrenalina.
— Rápido, Walker! Vamos! — Gritou o investigador para mim.
Corremos. Deixamos a sala para trás, os gritos de nossos companheiros ecoando enquanto os guardas do lado de fora, ao ouvir os disparos e os uivos das criaturas, corriam para a sala. Mas nós seguimos na direção oposta, tomando os corredores tortuosos da universidade. Meus passos ressoavam junto aos de Jules, cada batida de nossos pés acompanhada pelo eco do horror que deixávamos para trás.
Os corredores, que antes pareciam frios e vazios, haviam se transformado em um labirinto sinistro, cada sombra, uma ameaça, cada passo um desafio à sobrevivência
Enquanto escrevo, ainda sinto os ecos daquela madrugada sombria pulsarem em minha mente, como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Nossa fuga pelos corredores da universidade foi marcada por gritos, tiros e o som metálico de garras raspando as paredes. Os policiais que enfrentaram aquelas criaturas, mesmo armados, não tinham chance. O som dos disparos era abafado por gemidos, estalos e súplicas – uma cacofonia de morte e terror.
O coração martelava no peito; a respiração, pesada, tornava-se uma tortura. A cada passo, a exaustão aumentava, mas era impossível parar. Jules estava ao meu lado, o rosto pálido e os olhos arregalados, sua mente oscilando entre incredulidade e pavor.
— Doutor, o que eram aquelas… coisas? Por que os mortos voltaram para caçar os vivos? — ele sussurrava, a voz trêmula, quase suplicante.
Fizemos uma curva e avistamos uma porta entreaberta. Sem hesitar, atravessamos o limiar e a fechamos atrás de nós, encostando-se pesadamente contra ela. Jules continuava com suas perguntas, o Colt .36 tremendo em suas mãos. Eu, por minha vez, lutava para organizar meus pensamentos, mas só pude murmurar:
— Meu amigo, é como se todos os conhecimentos médicos e científicos que acumulamos se tornassem inúteis diante dessa aberração…
Naquele momento, Anton, devo confessar que me senti apanhado em uma teia de forças que escapavam ao domínio humano. Devo ter irritado algo ou alguém com minhas investigações, pois aquele mal parecia ter um propósito que me escapava, uma inteligência sinistra e calculista. Senti a urgência de procurar ajuda espiritual. Talvez eu devesse ter passado na Abadia de Saint-Germain-des-Prés, conversado com o padre Bastien antes de continuar esses estudos macabros. Mas não, minha curiosidade foi minha única guia.
Os ponteiros do relógio pendurado na parede indicavam que era quase cinco e meia da manhã. Notei então uma fina linha de fumaça entrando pela fresta sob a porta e avisei a Jules. Em seguida, ouvimos passos pesados se aproximando, e algo arranhando as paredes com um som que fazia o sangue gelar.
— Prepare-se…. — murmurei, agarrando um mancebo de madeira que achei ao lado. Jules verificou o tambor de seu revólver com mãos trêmulas e o ergueu, firmando-se no centro da sala.
As pancadas na porta ficaram cada vez mais violentas, cada golpe fazendo as dobradiças rangerem. Até que, com um guincho arrepiante, a porta foi escancarada, revelando aquela criatura bestial que nos perseguia. Era uma visão saindo dos pesadelos mais profundos: olhos brilhantes e inumanos, dentes longos e afiados como os de um predador, e uma postura arqueada, como se cada movimento fosse uma ameaça.
A coisa avançou, e em um ímpeto, Jules disparou. O tiro atingiu o peito da criatura, mas ela sequer hesitou. Atingiu-o com uma força descomunal, lançando-o ao chão. Girei o mancebo e golpeei a coisa nas costas, mas foi como acertar pedra – ela se voltou contra mim, o olhar faminto e cruel, e senti suas garras arranharem minha pele.
Jules, ferido e sangrando, conseguiu erguer o Colt novamente e disparou contra o rosto da criatura. Ela recuou, emitindo um urro bestial, mas ainda estava longe de ser vencida. Eu, com uma energia que não sabia possuir, desferi mais um golpe, e ela caiu por um instante. Mas o tempo não estava a nosso favor, pois, em breve, ela se ergueria novamente.
Uma última vez, olhei para o relógio – eram seis horas da manhã. Do alto das janelas quebradas, o primeiro raio dourado do sol irrompeu, cortando a escuridão e tocando o chão. Com um novo grito, a criatura recuou, e ao ser tocada pelo feixe de luz, seu corpo começou a se contorcer e emitir um uivo horrível. Ela fugiu para o corredor, mas já não restava dúvida: a luz do sol parecia ser a única coisa que a deteria.
Corremos atrás, mas ao virarmos o corredor, ela já havia desaparecido, como se a noite a tivesse engolido de volta.
Decidimos retornar à sala onde tudo começara. O caminho estava repleto de sangue, corpos e destroços; o cheiro metálico impregnava o ar. Ao chegar, avistei o cadáver da jovem dama ainda sobre a mesa de dissecação. Sobre seus pés, uma poça de líquido negro, denso e fétido, repousava. Olhei para Jules, ambos entendendo que aquela visão era o epítome de tudo que tínhamos presenciado.
Foi quando, mediante um vitral intocado, o sol invadiu o recinto. Um feixe de luz pousou sobre o cadáver da moça. Em instantes, como por um fogo divino, seu corpo começou a arder translúcido, reduzindo-se a cinzas em um espetáculo silencioso e terrível.
O que seria essa essência negra e pútrida, esse sopro de morte que não mais reconheço, Anton?
De Anton S. Miahi V
(Carta para Dr. Christopher)
De Anton S. Miahi V
Bram, 10 de agosto de 1871
Meu querido e estimado amigo,
Recebo a notícia do ataque que sofreu com um assombro que mal consigo expressar. É como se uma sombra imensa houvesse se arrastado das profundezas até nós. Que esses horrores tenham cruzado a fronteira da nossa França, e ainda mais que tenham se voltado contra você, Christopher — um homem de ciência, um pensador! Tais eventos são de uma natureza tão grotesca, tão inumana, que mais se assemelham à obra de criaturas infernais, daquela maldita estirpe que apenas o próprio Diabo poderia conceber. Sua descrição, vívida e apavorante, fez com que a imagem tomasse forma em minha mente: uma cena tão infernal que me pergunto se aqueles corpos não foram possuídos por demônios.
O jornal que me enviou já me havia deixado intrigado e preocupado. No entanto, esta última carta trouxe uma inquietação que atravessa o mero temor — diria até que roça o desespero. Meu amigo, começo a me perguntar se fiz bem em aceitar este convite para cá. Em minha ignorância, pensei que seria uma aventura entre velhos manuscritos e o pó da História, mas me vejo agora questionando a própria essência do que creio real. Imagino o que meu irmão, cuja ausência ainda sinto como uma sombra em meu peito, pensaria disso tudo. Ele sempre teve um senso prático que, talvez, tivesse me feito ver o que agora não posso ignorar. Ele, em sua racionalidade serena, certamente evitaria esse pântano de incertezas que sinto crescer ao meu redor.
Você sabe, Christopher, que prezo a razão acima de tudo. Marcel bem conhece minha mente cética, minha preferência pela lógica. No entanto, aqui estou, numa terra onde a realidade parece brincar com nossas percepções, onde sombras parecem ganhar vida e as portas dos corredores nunca permanecem exatamente onde as deixei. Sinto-me empurrado, atraído como uma marionete, para dentro de uma rede negra e pegajosa que me envolve cada vez mais.
Pior ainda, sou assombrado por visões e criaturas que desafiam o natural, entidades que parecem emergir de histórias que antes eu teria desdenhado, as lendas ciganas que outrora escutamos com ironia entre copos de vinho. Aqueles contos, amigo meu, me rondam agora como presságios, e uma parte de mim teme descobrir o quanto das palavras deles era verdade.
Cada dia que passa me sinto mais enredado neste lugar. É como um abraço apertado, uma serpente invisível que me envolve em laços escuros, me puxando lentamente para um abismo do qual, temo, já não poderei escapar. É com essa sombra que encerro esta carta, esperando que, ao lê-la, encontre alguma solução que me liberte deste feitiço infernal.
Com gratidão e afeto,
Anton S. Miahi
Anton S. Miahi XIV
(Escrito em meu Caderno)
26 de agosto de 1871 — Acordei num sobressalto. O peito arfava, e a mente, desordenada, lutava para discernir o que era realidade e o que era apenas um delírio fugaz da madrugada. Havia... algo. Como uma sombra de lembrança — ou seria uma ilusão? Um rosto... não, era mais uma presença. Monm. O nome veio como um sussurro em minha mente, trazendo um peso indefinível e uma estranha familiaridade. Sinto que falamos, mas os detalhes se dispersam como bolhas de sabão ao vento, frágeis e transparentes.
Levantei-me, ainda vestido com as roupas do dia anterior e com as botas pesadas nos pés. Não me recordo de como cheguei ao quarto, tampouco lembro de ter caído no sono. Caminhei até a janela, puxei as cortinas, e um relâmpago cortou o céu, revelando o cenário montanhoso, áspero e sombrio. O relógio no canto indicava que mal passavam das sete da manhã, mas meu corpo, exausto e enrijecido, teimava em permanecer no torpor da noite.
A cada lampejo de luz, o quarto oscilava entre sombras densas e tons estranhos de lilás. Tudo parecia imóvel, congelado. Os detalhes ao meu redor eram meros espectros de cor: preto, branco e lilás. Como se o próprio tempo hesitasse, mantendo-me aprisionado em uma madrugada eterna.
Então, o som de passos ecoou pelo corredor. Femininos, leves, mas decididos. Uma presença fria pareceu invadir o ar. Virei-me, fixando o olhar na porta entreaberta, e lá, no vão, uma luz amarelada oscilava. Fiquei paralisado. Um aroma de lavanda começou a invadir o quarto, um cheiro familiar, trazendo de volta uma lembrança distante: minha tenda no exército, o pequeno altar de um oficial ao meu lado... "Para concentração, meu amigo. Uma questão de fé", ele sussurrava, queimando aquelas flores secas. O aroma era intenso, mas a lembrança, frágil. Pisquei e tudo se desfez. O aroma se dissipou; a luz, sumira.
Movido por um ímpeto irracional, dei um passo adiante e abri a porta com violência, encarando o corredor vazio. Olhei em ambas as direções, tentando entender para onde poderia ter ido aquele vulto, aquela luz... aquela presença. E foi então que uma voz rasgou o silêncio.
— Senhor Anton! O que diabos você está fazendo saindo assim?
O susto me fez virar rapidamente, encontrando Nestor, meio escondido nas sombras do corredor. Ele me olhava com uma sobrancelha arqueada, e sua expressão oscilava entre o escárnio e a irritação.
— Procurando... alguma coisa, Nestor? — minha voz saiu estranhamente rouca, como se eu mesmo não acreditasse no que estava dizendo.
E então me indaguei em minha mente, — “Como ele chegou ali, sem fazer qualquer som?”.
Ele riu, aquele riso ácido que poderia conduzir qualquer um ao desconforto e tirar do sério.
— Procurando? Ou apenas vagando como um louco? A essa hora, senhor Anton? E pelo que exatamente?
Suspirei, tentando recompor o pouco de sanidade que me restava.
— Eu... ouvi passos. E havia uma luz, um perfume de lavanda...
— Lavanda? Ora, cavalheiro, agora estamos vendo e sentido fantasmas perfumados? — aquele mordomo esboçou um suave sorriso no canto dos lábios com clara intenção de deboche.
— Nestor… — repliquei, com um tom mais firme — Estou falando sério. Não era minha imaginação. Houve algo, ou alguém, aqui.
Ele se aproximou, e a luz mortiça do corredor destacou o brilho sarcástico em seus olhos.
— "Algo ou alguém", você diz... Como Monm, quem sabe? Que de tão... peculiar, deixou você assim, num estado deplorável.
Meu corpo se enrijeceu ao ouvir o nome. Ele havia dito aquilo de propósito. Monm... Sim, fora ele. Ou algo de sua presença em minha memória. É certo que estive com ele e mais alguém... Um misto de inquietação e confusão revolvia meu estômago.
— O que sabe sobre ele, Nestor? Você sempre fala como se soubesse mais do que diz.
O mordomo inclinou a cabeça, os olhos faiscando com um brilho que mesclava curiosidade e desprezo.
— Talvez eu saiba, caro senhor Anton. Mas cabe ao senhor descobrir até onde consegue ir com essas... suspeitas — Ele se virou lentamente, num sussurro gélido, carregado de um peso sombrio. — Ou essas alucinações, você decide!
A frieza em suas palavras ecoava na penumbra. Minha mão tremia, e meu coração pulsava forte, o odor da lavanda ainda parecia impregnar o ar. Mas antes que pudesse argumentar, Nestor já se afastava, o som de seus passos desaparecendo ao dobrar o corredor.
Permaneci ali, estático. Aquele jogo de provocações e segredos estava corroendo o que restava de minha sanidade. Envolto naquela atmosfera densa e carregada de mistérios, me perguntei, mais uma vez, se eu não era, de fato, o louco que Nestor insinuava.
Ouvi um último eco da voz dele, como se a própria sombra das palavras fosse real:
— Cuidado com o que procura, Anton. Às vezes, as respostas nos encontram primeiro.
Naquela tarde — O sussurro final de Nestor ainda flutua em minha mente, como uma sentença envolta em trevas: "No salão de jantar haverá alguém que o acompanhe desta vez. Ela é a que divide o senhorio deste castelo." Suas palavras cortaram o ar, carregadas de algo indizível. Antes que eu pudesse responder, ele desapareceu, engolido pela penumbra do corredor, como uma sombra esvaída no limiar da visão.
Fiquei ali, imóvel, o coração pulsando, a mente embotada. A imagem de Nestor sumindo na escuridão misturava-se às lembranças confusas da noite anterior... Meia-Noite, Uor, Olga Nivïttz. Nomes que ecoavam em minha cabeça, fragmentos de uma realidade que se desintegrava como papel queimado.
— Então... hoje a verei — murmurei, sem saber a quem dirigia minhas palavras, como se a própria escuridão ouvisse e absorvesse minha incerteza.
O silêncio me sufocava. Havia meses que eu residia neste castelo, vagando por seus corredores sombrios, sentindo a presença do próprio Conde Drácula como uma sombra que nunca se dissipa. Mas esta seria minha primeira vez diante dela. Ela, a senhora oculta das muralhas de pedra e das câmaras seladas por mistérios. O que poderiam Monm, Uor e Meia-Noite saber que eu não sabia? E até onde as palavras deles eram dignas de confiança?
Quando dei por mim, já estava em meu quarto, movido por uma vontade instintiva de me preparar. Vasculhei o guarda-roupa, tirando do cabide uma camisa de linho branco — tão claro que quase parecia uma afronta em meio àquela penumbra. Escolhi também um colete de couro negro, a cor das noites eternas que cercam o castelo. Vestindo-me com rapidez, ajustei a camisa, passei a mão pelas botas para livrá-las do pó acumulado, e me pus diante do espelho. Os espelhos, sempre tão traiçoeiros...
— Esta é a imagem que levarei para a presença dela... — sussurrei, observando-me atentamente. Meus próprios olhos pareciam me desafiar, como se escondessem um segredo que até eu desconhecia.
Arrumei o colarinho, alisei a frente do colete e dei um passo para trás, inspecionando o alinhamento de cada peça. Meus dedos estavam frios, mas o espírito... O espírito, eu tentava preparar o melhor que podia. Inspirando fundo, virei-me e saí, meus passos ecoando pelo chão de pedras. Marchava em direção ao inevitável, como um soldado destinado ao sacrifício.
O corredor principal me esperava, longo, sombrio, um túnel de madeira e pedra, iluminado apenas por candelabros de metal corroído que lançavam sombras deformadas nas paredes. Cada vela tremulava com uma leve brisa, como se uma presença invisível me seguisse, ansiosa por ver o que eu descobriria no final desse percurso.
Enquanto avançava, o ar parecia pesar mais, preenchendo meus pulmões com uma umidade densa, como se até o próprio oxigénio carregasse o cheiro de tempos passados. De repente, a decoração do castelo, antes apenas uma extensão da escuridão, pareceu ganhar vida. Paredes adornadas com tapeçarias desbotadas, desenhos de batalhas antigas e figuras de seres esquecidos pelo tempo. Quase podia ouvir os gritos abafados e os sussurros ancestrais que emanavam de cada trama.
Cheguei ao portal principal que me conduziria ao salão de jantar. As portas pesadas de carvalho negro, decoradas com entalhes de criaturas míticas e rostos que observavam com um olhar quase humano, destacavam-se como os guardiões de um segredo profundo. Toquei a madeira fria, hesitando.
"Anton..." minha própria voz soou estranha, como se fosse um eco que retornava de um lugar distante. — O que espera encontrar? E se... se aquilo que lhe disseram for verdade?
Sacudi a cabeça. Não havia mais volta. Empurrei as portas e, de súbito, o salão se revelou, banhado em uma luz mortiça e trêmula. O espaço era vasto, com teto arqueado, decorado com lustres de cristal que pendiam como lágrimas de uma noite eternamente suspensa. O chão era de mármore escuro, onde sombras dançavam, movendo-se como entidades de uma realidade à parte.
No centro do salão, uma mesa imensa, ladeada por candelabros de prata altos e pesados, cujas chamas tímidas lançavam uma luz que não chegava às extremidades da sala. Ali, em uma das cadeiras ao centro, uma figura feminina esperava, imóvel, o olhar fixo e atento.
— É ela. — sussurrei entre dentes.
Meu corpo hesitou, uma mistura de curiosidade e temor congelando cada músculo. Forcei um passo à frente, e foi nesse momento que sua voz rompeu o silêncio.
— Senhor Anton Stefan Miahi... quão fascinante é receber-te n’este momento singular... — proferiu ela, em um tom que parecia dançar entre a formalidade cortês e a introspecção calculada, cada palavra carregando um peso que transcendia o momento. — Revela-me, somos frutos do acaso ou a predestinação trouxera tua calorosa presença à minha neste alvor silente?
— Senhora Nivïttz, eu... não esperava tamanha... hospitalidade — respondi, sentindo o peso de cada palavra enquanto me aproximava.
Ela sorriu com uma seriedade única, e havia algo em sua postura que combinava elegância natural e uma presença quase etérea. Uma mulher de olhar profundo e enigmático, cuja força de personalidade transparecia em cada gesto. Seu modo de falar era impecavelmente rebuscado, como se cada palavra fosse uma peça trabalhada por um artesão.
– É-me um insólito prazer, Senhor Anton. Algumas recepções, devo, entretanto, advertir, são conjecturadas para além da congruente psyché. – disse ela, inclinando a cabeça ligeiramente, como quem pondera a profundidade do desconhecido. – Esta é a seiva rubra e viva d'este meu Castelo: uma reflexão, decerto, da mórbida inquietação dos que sob seu teto residem.
A mesa diante de mim estava repleta de alimentos, alguns familiares, mas muitos outros exóticos, de origem desconhecida. Fome e receio se misturavam em meu estômago.
— Senta-te, Anton, se assim me concedes a ousadia de ordenar — ela me convidou, indicando a cadeira ao seu lado, com um gesto que era, ao mesmo tempo, gracioso e autoritário, como uma monarca distribuindo favores. — Raríssimo sopro de serenidade é este, como uma lacuna dentre o caos; um momento sublime que nos permite apreciar sem pressa... — Um silêncio se alastrou sufocante. — Deleita-se, pois, a efemeridade é o orvalho sob o sol nascente.
Engoli em seco e tomei o assento. O ambiente carregava uma tensão que parecia se solidificar a cada momento. Ela me observava, trazia uma sutileza persuasiva que oscilava com uma seriedade perturbadora e enigmática, uma pista de seus pensamentos complexos.
— Diga-me, Anton… — ela retomou, sua voz envolta em uma cadência quase musical, como se cada palavra fosse selecionada com uma precisão cirúrgica. — O que encontraste, caríssimo, dentre os claustros ocultos e os aposentos sombrios de meu lar, despertara as estranhas de tua inibida curiosidade?
— Pode-se dizer que há muito que me intriga, senhora Nivïttz.. — Respondi, cauteloso. — Mas não sei até onde as descobertas são minhas... ou foram deixadas para que eu as encontrasse.
Ela inclinou-se ligeiramente, os olhos agora com um brilho intensamente curioso.
— O desvelar, em sua quintessência, não se realiza à ínsula de si mesmo. Ao contrário, o buscador e o buscado entrelaçam-se, como se regidos por uma indissociável força, sob silencioso acordo. A seiva que irriga as profundezas d’este alcácer, prezado Anton, tanto quanto o verbo que o fundamenta, possuem anseios e intenções verossímeis, seus arcanos não se manifestam à parte do consciente subjetivo.
Suas palavras caíram sobre mim como um manto pesado, e percebi que ela sabia mais do que demonstrava, que cada frase, cada olhar, escondia significados ocultos, camadas de intenções que não me eram reveladas.
— Como se o castelo tivesse vida própria? — murmurei, mais para mim mesmo.
O frio subiu pela minha espinha, e percebi o quão exposto eu me sentia. Mas Olga mantinha uma postura acolhedora, sincera em sua complexidade.
Ela sorriu, e sua expressão suavizou, mas sem perder o mistério.
— Para um ínfimo resumo, quiçá... Mais que um mero observador, Anton, o Castelo é um anfiteatro mórbido e egrégio, bem como é uma personagem, um narrador e uma testemunha. A sabedoria silente que o habita, acolhe a todos como parte de seu sui generis enredo.
Foi nesse momento que ela inclinou levemente a cabeça, como se observasse algo invisível ao meu lado, e seus olhos ganharam uma profundidade incomum. Ela abriu os lábios, e sua voz veio baixa, quase um sussurro:
— Lilaenatt somnien...— Quase não a compreendi e não sei se este seria a grafia correta do que foi dito por ela, apenas senti um estranho sentimento ao ouvir suas palavras. Parecia um latim arcaico. — Algo ao teu derredor, caro Anton, emana-se e esparge como nódoa instável. — Seus olhos pareciam observa algo além de mim, o que me forçou a revistar minha própria pessoa e os arredores com algum resquício de ceticismo e resistência. — Esta aura... —retomou ela. — Enraíza-se em teus passos pretéritos... um eco de laços ancestrais? Interessante expressão do Atemporal. Vejo alvililás... Pode ser tal vínculo uma sugestão d’um elo inexorável ao teu destino?
Ela estava absorta em sua própria análise daquilo que ela parecia ver e eu não, enquanto este professor apenas buscava entender o que ela dizia.
— O que quer dizer com isso? — perguntei, a tensão na minha voz evidente. — O que você viu?
De um momento a outro ela se levantou lentamente, o olhar ainda fixo em mim, mas agora impenetrável. Algo claramente parecia haver chamado sua atenção. Por um momento, pensei que fosse responder, mas Olga apenas ajeitou o vestido com um gesto meticuloso e recuou um passo.
— Perdoe-me, Anton… — disse ela, suavemente. — Parece que algo requer minha imediata atenção. Hórrido é não mais aprazer-me d’este momento tão interessante. — Sua expressão ficou marmórea.
E assim, em silêncio, ela se retirou. Seus passos eram firmes e ligeiros. Deixando-me sozinho com minhas dúvidas e o eco de suas palavras. Sentia que havia algo mais no que dissera, algo que escapava à minha compreensão, mas que me perseguiria enquanto eu vivesse. Ou, além disso.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
Diálogos de Olga Nivïttz por:
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Diário de Anton S. Miahi VI
Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Narcís Nestor
(Telegrama para “O Caçador”)
Atenção: Ivan Molchanov
Castelo de Lúgubre, Data: 11, de julho de 1871
Prezado Ivan,
Sua presença é inegociável no castelo dentro de um mês. Um convidado do conde poderá representar um problema significativo. É vital estar aqui para discutirmos assuntos de extrema urgência.
Aguardo sua confirmação imediata.
Atenciosamente,
Narcís Nestor
~
De Ivan Molchanov
(Telegrama para Narscis Nestor)
Oldemburgo, 03 de agosto de 1871
Atenção: Narcís Nestor
Recebi seu telegrama.
Comparecerei ao castelo, não se preocupe. Estou no meio de uma caçada no norte da Alemanha em nome dos Romanov, mas assim que acabar, partirei direto para aí.
Prepare-se. Estou chegando o mais breve que puder.
~
Ivan Molchanov
De Dr. Christopher V. Walker II
(Carta para Anton)
De: Dr. Christopher V. Walker
Paris, 17 de agosto de 1871
Meu querido e estimado amigo,
Ao receber a convocatória da polícia parisiense, um calafrio percorreu minha espinha, não era nada comum convocarem um psiquiatra. Meu retorno da Inglaterra havia sido marcado por uma aura de mistério e inquietação, mas nada poderia me preparar para o que encontraria no salão onde aconteciam a aula magna de medicina da Universidade de Paris. Ao cruzar a porta, uma sensação pesada se abateu sobre mim, como se o próprio ar estivesse saturado de desespero, em minha mente pairava apenas a dúvida quanto a toda aquela celeuma.
A atmosfera tornou-se ainda mais densa quando me deparei com o investigador Jules Moreau, que estava examinado o local com seu olhar curioso. Moreau era um homem, na casa dos 30 anos, de cabelos castanhos curtos repartidos no lado direito, um bigode farto que balançava com cada palavra, e um nariz redondo que parecia sempre à procura de algo. Ele era um pouco acima do peso, e suas vestes estavam desalinhadas, como se ele tivesse se apressado ao sair de casa. Sua voz de barítono, embora imponente, era interrompida por um leve tom fanho que tornava suas declarações quase cômicas, se não fossem tão graves. O investigador aparentava uma jovialidade fora do normal em sua expressão, esboçando um sorriso cordial baixo aquele bigode.
— Dr. Walker! — exclamou, gesticulando descontroladamente e quase derrubando um caderno que segurava sob o braço. — Precisamos discutir as condições em que encontramos os corpos. Eles foram… bem, transladados pelos carros da polícia, você sabe, direto para cá.
Enquanto ele falava, eu tentava focar na gravidade do momento, mas o jeito desajeitado de Moreau dificultava manter a compostura. Ele se ajeitou as roupas, como se tentasse, sem sucesso, desamassar as dobras que pareciam se reproduzir a cada movimento.
— A situação em La Cité… — ele continuou, limpando a garganta de maneira atrapalhada. — Está gerando incômodos. Os moradores estão em alvoroço! Mencionam coisas como vampiros e… bem, até fantasmas! — Ele fez uma pausa, olhando ao redor com um ar conspiratório, como se esperasse que algo sobrenatural aparecesse entre nós.
— O que importa — prosseguiu, tentando recuperar o foco — é que precisamos resolver isso com o máximo de sigilo possível. Ninguém pode saber que os corpos foram trazidos aqui. A reputação da universidade, você entende? — Ele gesticulou com a mão, quase acertando o próprio rosto.
A tensão do ambiente se misturava ao seu jeito desengonçado, e não pude evitar um sorriso diante da cena. Moreau parecia genuinamente preocupado, mas sua atrapalhada sinceridade trazia uma leveza inesperada ao momento sombrio.
— Precisamos evitar que o pânico se espalhe. Se a notícia vazar… bem, você sabe como Paris é — disse, abrindo os braços em um gesto exagerado que quase o fez perder o equilíbrio.
Os corpos jazeram ali, dispostos de maneira que sugeria uma cena de pesadelo. As luzes tremeluzentes das lamparinas projetavam sombras dançantes, criando uma atmosfera que tornava cada canto do salão um esconderijo de segredos. Eu sabia que precisava realizar uma análise cuidadosa, documentar as feridas nas jugulares, mas a realidade do momento era opressiva, como se uma força invisível me impedisse de pensar com clareza.
Enquanto observava os rostos das vítimas, uma análise superficial começou a tomar forma em minha mente. A expressão de terror estampada em suas faces era inegável, um reflexo de um horror tão profundo que poderia ser palpável. As marcas no pulso direito, evidentes sinais de resistência, contavam a história de um desespero que ecoava nas paredes do salão. Embora já tivesse participado de análises em outros casos e aprendido a entender a mente criminal, essa cena me deixou inquieto. Era uma brutalidade que transcendia o mero ato de assassinar; era uma tentativa de controlar, de dominar, uma pulsão obscura que instigava minha curiosidade e aversão.
Essas feridas tão estranhas que foram provocadas por Deus sabem o quê, ou quem, não eram apenas marcas físicas; eram indicadores de uma luta desesperada contra um predador invisível. A resistência manifesta nos pulsos poderia sugerir que as vítimas lutaram contra o que não podiam entender, e isso, por sua vez, reflete o que muitos temem: a incapacidade de escapar do destino. Minha reflexão aponta para uma inquietante verdade: a mente humana consegue tolerar horrores inimagináveis, mas essa resistência pode ser quebrada, transformando-se em um grito mudo que ecoa em nossos subconscientes.
Enquanto escrevia, a caneta tremia em minha mão, refletindo a agitação que sentia no fundo, de minha alma. Sabia que precisava alertá-lo sobre a escuridão que se aproximava, uma sombra que ameaçava engolir não apenas aqueles corpos, mas a própria cidade.
Nesse momento, a porta do salão se abriu e um jovem médico legista entrou. Thomas Simon, com seus cabelos negros e olhos de águia, tinha uma expressão carrancuda e um humor ácido que logo se tornou evidente. Ele se aproximou, sua presença quase imponente no espaço carregado de tensão.
— Dr. Walker, investigador Moreau — disse, com uma voz firme. — Precisamos discutir algo sério. O sangue das vítimas foi completamente extraído. —Enquanto ele se aproximava da mesa e descobri o homem que estava mais distante de nós, nos forçando a ter-mos que nos aproximar dele.
Essas palavras pairaram no ar, e uma onda de incredulidade me percorreu. Moreau arqueou uma sobrancelha, o semblante preocupado, enquanto a seriedade da situação se intensificava.
— Como isso poderia ter acontecido? — perguntei, minha mente correndo para cenários impossíveis.
Thomas cruzou os braços, o olhar penetrante como se pudesse desnudar a alma humana, examinando o ambiente antes de responder. — Pode ser algum culto estranho, uma prática ritual. O fato de estarmos lidando com corpos assim sugere que alguém se sentiu à vontade para realizar tal ato em pleno coração de Paris.
Moreau franziu a testa, coçando a cabeça.
— Cultos, você diz? Não estou surpreso. Ouvi rumores sobre atividades estranhas na região, mas pensei serem apenas lendas.
— Lendas que parecem ter ganhado vida, talvez — completou Thomas, seu tom ácido intensificando a gravidade das palavras. — É o tipo de história que faz os moradores falarem sobre vampiros ou criaturas da noite. O povo gosta de fantasias, mas a realidade pode ser ainda mais assustadora.
Moreau, que até então havia tentado manter a compostura, soltou uma risada nervosa.
— Paris, a cidade das luzes, agora se torna a da escuridão. Acredito que os mitos estão mais vivos do que nunca.
A atmosfera parecia pulsar, e a ideia de que a cidade poderia abrigar tal horror me deixou inquieto. Era como se uma sombra antiga estivesse despertando, e eu sentia que precisaria mergulhar nas profundezas desse mistério. Eu me via cercado por um labirinto de medos e pressentimentos, e a única coisa que podia fazer era preparar-me para o que seguiria.
Anton S. Miahi XIII
(Escrito em meu Caderno)
25 de agosto de 1871 —Esta noite, tive um sonho – ou talvez fosse um pesadelo, mas ele lateja em minha mente como algo mais denso, quase tangível.
Eu me lembro de ter deitado, os músculos ainda enrijecidos do dia, sem sequer trocar de roupa. O mundo cedeu aos poucos, e o véu da inconsciência foi me cobrindo. Então, uma queda... A sensação visceral de descer, de ser tragado por uma força invisível. E lá estava eu, imóvel, os olhos piscando contra uma luminosidade suave e envolvente que parecia emanar do próprio ar, como se a atmosfera estivesse impregnada de luz líquida.
Tateei ao redor, a superfície áspera de um chão desconhecido, e me vi rodeado por lavandas que se erguiam delicadas, seu perfume doce invadindo cada canto de meus sentidos. À minha volta, bolhas flutuavam, translúcidas e peculiares. Dentro de cada uma, vislumbres de lembranças – minha mãe, meu irmão, dias dourados na universidade. A nostalgia e o calor dessas imagens pareciam tão vivos, tão próximos... mas logo uma certeza fria atravessou-me: eu não estava em meu mundo.
Uma névoa lilás cobria o ambiente como um véu leve, enquanto uma luz branca preenchia cada canto, uma presença calma, quase etérea. Então, uma voz conhecida perfurou o silêncio.
— Bem-vindo, Anton.
Virei-me rapidamente, o coração disparado. Mas ao ver Monm, com aquele olhar sábio e expressão tranquila, uma calma familiar substituiu o susto.
— Isso é real? – perguntei, sentindo a incerteza tremer em minha voz.
Ele respondeu com um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que antecede uma revelação, ou um segredo.
— E o que é real, senão o que acreditamos ser? — ele indagou, os olhos brilhando com uma intensidade contida, como se sua mente percorresse mundos além deste. — Aqui, Anton, estamos num campo onde as realidades se entrelaçam. Poderíamos dizer que é um sonho... ou um fragmento dele, um lugar de memórias, desejos e arrependimentos de muitos.
Andamos lentamente pelo campo de lavanda, e um perfume suave se misturava à névoa, impregnando o ar. A cada passo, bolhas flutuavam ao nosso redor, translúcidas e frágeis, como se fossem tocadas por uma brisa inexistente. Dentro de cada bolha, imagens — momentos — de vidas diferentes, de pessoas desconhecidas.
Monm seguiu ao meu lado, o olhar fixo numa bolha que passava. Em seu interior, vi o rosto de uma jovem, com cabelos tão escuros quanto a noite, um sorriso leve, mas com um olhar profundo e conhecedor. Era um olhar que parecia fitar além do espaço e do tempo.
Ele suspirou, um som tão sutil que quase se dissolveu no ar.
— Quem é ela? – perguntei.
Por um instante, Monm hesitou, e sua expressão, sempre controlada, se partiu numa fração de segundo, revelando uma dor silenciosa.
— Ela... — ele começou, mas parou, desviando o olhar. — Chamava-se Lysianne. Foi... — ele inspirou fundo, as palavras quase lhe escapando. — Foi meu único amor verdadeiro. Mas, sabe, Anton, para se aventurar no tempo, é preciso um preço, um sacrifício. E eu, com minha ânsia em desvendar os segredos deste universo, escolhi um caminho que me afastou dela.
Houve uma pausa, e o campo de lavanda parecia mais silencioso, como se respeitasse sua lembrança.
— Ela também era fascinada pelo tempo? — arrisquei.
Monm sorriu, mas era um sorriso manchado de nostalgia e tristeza.
— Não como eu. — Ele fitou uma bolha próxima, onde ela estava rindo ao lado de uma árvore sob um céu ensolarado. — Ela gostava de viver o presente, de encontrar beleza no instante. Para ela, um momento... era eterno.
Ele passou a mão suavemente pela bolha, e a imagem tremeluziu antes de se dissipar na névoa lilás.
— Então por que essa busca insaciável, Monm? — perguntei. — Por que sacrificar algo tão precioso?
Ele se voltou para mim, o olhar ainda mais sério, um fogo intenso em seus olhos.
— Porque, Anton, o tempo é uma ilusão, uma corrente que tenta nos prender. E a verdade é que... — ele hesitou, a voz baixa. — Eu queria libertá-la, encontrar uma realidade onde pudéssemos viver sem limites, sem essa cruel imposição do tempo que devora tudo.
— Mas isso não é impossível? — insisti.
Ele balançou a cabeça, um ar sombrio em seu semblante.
— Ah, meu caro, o impossível é uma mera palavra. Mas há consequências, há fissuras. E quanto mais fundo cavamos, mais nos deparamos com realidades em que os sonhos e pesadelos se entrelaçam. É por isso que este lugar existe — apontou ao redor. — Aqui repousam fragmentos de vidas, de desejos que nunca se realizaram, de amores que nunca floresceram.
Paramos diante de uma bolha mais próxima, onde vi a imagem de uma mulher abraçando uma criança. A cena pulsava de ternura, mas também de tristeza, como se ambos soubessem que aquele momento era breve.
Monm fitou a cena, absorto, e por um momento, notei algo raro nele: arrependimento.
— Esses são ecos de outros sonhos? — perguntei, tentando entender.
— Sim, sonhos de outros, de vidas que jamais cruzaremos. Aqui, Anton, reside o que todos carregamos no inconsciente. Nossas sombras, nossas esperanças. Somos apenas viajantes. Quando olhamos para um sonho alheio, nos encontramos também, por um segundo, refletidos nas ambições e medos do outro.
Ficamos em silêncio, observando a cena. Monm suspirou novamente.
— Você já sonhou em encontrar algo, Anton, mas que sempre parece fugir? Como se existisse um vazio em cada linha do tempo, uma distância que nunca pode ser percorrida?
— Às vezes — respondi. — Como uma lembrança fugidia, uma sensação de algo perdido, mas que nunca conheci.
Monm assentiu, os olhos voltando à lavanda.
— É a essência do tempo. E somos prisioneiros de algo que pensamos dominar.
Antes que pudesse responder, ele tocou levemente meu ombro.
— Vamos, há ainda muito a caminhar.
Antes que eu pudesse responder, uma sombra se formou ao longe, desenhando-se lentamente em um contorno familiar. À medida que se aproximava, a figura de um homem magro e sereno emergiu da névoa lilás, vestindo-se de branco, com um cavanhaque bem aparado e olhos profundos como dois lagos plácidos. Em uma das mãos, ele segurava uma chave dourada e adornada, que brilhava mesmo na penumbra.
— Sou Lieran — disse ele, sua voz grave e suave, como um sopro de vento antigo. — O guardião deste entre-mundos, o reino de Somníria.
— O que você está fazendo aqui, Lieran? — Monm perguntou, o tom de sua voz mesclando uma ironia sutil com a seriedade do momento. — Veio discutir novamente a futilidade dos sonhos?
Lieran sorriu, mas não havia alegria em seu sorriso. Era uma expressão de compreensão triste.
— Os sonhos não são fúteis, Monm. Eles são portais. É por meio deles que as verdades ocultas se revelam, não apenas sobre nós, mas sobre a própria essência do tempo. Você insiste em vê-los como meras ilusões.
— E você — Monm retrucou — vê a realidade como uma prisão, acreditando que os sonhos podem libertar aqueles que se perdem em suas correntes. Mas não é assim que funciona. Os sonhos podem se tornar labirintos, Lieran. Labirintos que aprisionam mais do que libertam.
Anton, sentado entre eles, sentia-se como uma peça de um quebra-cabeça que não se encaixava. Seus pensamentos eram um turbilhão.
— Esperem — eu interrompi, tentando entender. — O que exatamente significa sonhar para vocês? Estou confuso. Não é tudo apenas... um escapismo? Ou há algo mais?
Lieran se voltou para mim, os olhos profundos como lagos refletindo uma sabedoria antiga.
— Os sonhos, Anton, são a linguagem do inconsciente. Eles são ecos de nossas emoções, medos e esperanças. Quando sonhamos, temos a oportunidade de revisitar nossos anseios mais profundos e confrontar verdades que muitas vezes ignoramos. O tempo em sonhos é elástico, permitindo que revisitemos momentos que acreditamos perdidos.
— Mas não são apenas ilusões? — retrucou Monm, gesticulando como se estivesse tentando desvendar uma teia invisível. — Lieran, você se esquece de que os sonhos podem distorcer nossa percepção. Eles nos enganam, nos iludem com promessas de um futuro que nunca pode ser, enquanto a realidade continua a ser intransigente e cruel.
— Que é a realidade, senão uma construção dos nossos sonhos? — Lieran desafiou, a chave dourada balançando suavemente em sua mão. — As escolhas que fazemos no mundo dos sonhos reverberam na realidade. Não subestime o poder que eles têm. O que sonhamos pode, de fato, moldar o que vivemos.
Eu olhei de um para o outro, a tensão crescendo. A cada palavra, o ar se tornava mais carregado, como se o próprio espaço entre eles estivesse se comprimindo.
— Mas então — perguntei, hesitante — se os sonhos moldam a realidade, como podemos confiar no que vivemos? E se o que acreditamos ser real for apenas mais um sonho? Como discernir entre o que é verdade e o que é ilusão?
Monm olhou para mim, um brilho de reconhecimento nos olhos. Era como se ele tivesse sido lembrado de um passado distante que ainda o assombrava.
— Essa é a questão que todos enfrentamos, Anton — disse ele, sua voz agora tingida de uma vulnerabilidade inesperada. — O que fazemos com as verdades que descobrimos? E o que acontece quando esses sonhos se tornam pesadelos?
— Você deveria se perguntar, Monm, o que realmente está buscando em suas viagens no tempo — Lieran retorquiu, sua voz firme como o aço. — O que você está disposto a sacrificar para alcançar seus objetivos? Cada escolha tem um custo. E esse custo pode muito bem ser mais do que você está preparado para enfrentar.
A tensão pairava, e o silêncio se estendeu por um momento, uma respiração compartilhada entre os três. Anton sentiu que, de algum modo, estava no centro de uma tempestade, onde cada palavra era um relâmpago iluminando verdades obscuras.
— E se o que eu procuro — eu murmurei, mais para mim mesmo — for o que estou destinado a perder?
Ambos se voltaram para mim, e, por um breve momento, o campo de lavanda pareceu ecoar a pergunta, as flores balançando suavemente como se estivessem escutando.
O impacto de suas palavras reverberou em mim, mas antes que pudesse refletir, o chão se abriu sob meus pés, e fui lançado novamente na escuridão. Despenquei, a queda me envolveu, e senti uma nova transformação no ar ao meu redor – mais densa, mais fria, como se sombras me acolhessem.
Despertei num ambiente muito diferente, a claridade suave substituída por uma escuridão quase sólida. Levantei-me cauteloso, e ao meu redor, o chão era coberto por rosas negras com delicados tons de roxo degradê, uma paisagem sombria que exalava um cheiro doce e nauseante. Um ruído distante, como o bater de asas, chamou minha atenção para cima.
Uma criatura desceu do céu negro, o ar em volta dele se dispersando em uma lufada fria. Ele tinha um corpo humanoide, mas as asas – negras e largas como as de um corvo – traziam uma imponência animalesca. Quando pousou, observei de longe, quase sem respirar, os olhos límpidos e profundamente lilás, as orelhas pontudas, a pele tão branca que lembrava marfim.
A figura reunia algumas daquelas bolhas, mas as imagens que continham eram diferentes – rostos distorcidos pelo terror, fragmentos de dor e desespero. Senti um calafrio. Ele murmurava algo que não pude distinguir e começou a se afastar, carregando as bolhas em direção a um umbral negro.
Um vulto pendia sobre seu ombro. Um gato negro, seus olhos de um branco frio que pareciam atravessar minha alma. Algo me puxava para aquele ser, uma curiosidade perigosa, irresistível.
O ser cruzou o umbral, e quando percebi, estava me erguendo, seguindo-o, como que guiado por uma força misteriosa.
— Anton... – uma voz macia e sombria ecoou.
Era o gato, agora sobre uma mesa em uma sala grandiosa e fria. Ele me fitou, um brilho irônico em seus olhos.
— Chamam-me de Meia-Noite, e meu companheiro, Uor. Vejo que chegou até aqui por acaso ou talvez… por curiosidade.
Fui tomado pelo instinto, endireitando-me, tentando parecer seguro.
— Anton Stephan Miahi, Sargento da Cavalaria – minha voz ecoou no salão vazio.
Uor sorriu com uma ironia afiada.
— Sei muito bem quem é você.
Aquelas palavras perfuraram-me como uma lâmina, e o salão pareceu fechar-se ao meu redor. No fundo, uma nova suspeita brotava – eu não estava mais no reino dos sonhos, nem tampouco no inferno. Estaria eu no próprio limiar do inconsciente, num lugar onde medos e mistérios coexistem?
No mesmo dia mais tarde — O encontro com Meia-Noite e Uor me deixou inquieto, como se uma névoa densa tivesse se instalado em meu ser. Fui recebido não como um convidado, mas como um prisioneiro que, mesmo sem saber, tinha uma dívida a pagar. Eles se apresentaram como mestres de um jogo cujas regras eu ainda não compreendia. A presença deles sugeria um peso no ar, e suas palavras flutuavam como sombras, dançando ao redor de nós, pulsando com a energia de verdades ocultas.
— A ambição de Olga — começou Meia-Noite, quebrando o silêncio pesado — transcende o que você pode imaginar, Anton. Ela não é apenas uma mulher sedenta por poder, mas uma criatura que busca controlar o sobrenatural em busca de algo maior.
Uor balançou a cabeça, seus olhos cintilando com uma luz gelada. — Você a vê como uma mera mortal, mas há mais em Olga do que o que se revela. Ela toca as cordas do invisível e manipula a escuridão ao seu redor. É por isso que Drácula a atrai.
Meu coração acelerou. Para mim, Drácula sempre fora apenas um conde do interior da Europa, uma figura envolta em mistério e lendas. No entanto, a ideia de que sua conexão com Olga era mais do que mera coincidência começou a se enraizar em minha mente.
— O que você quer dizer? — eu perguntei, a tensão entre nós era quase palpável. — Como você pode ter certeza disso?
— O Conde — continuou Meia-Noite, a voz profunda reverberando no ar — não é apenas um homem, Anton. Ele é um símbolo, um ícone do que se perdeu e do que se busca no abismo. Atraído pela ambição de Olga, ele representa a eternidade e o horror que ela deseja controlar.
Uor fez uma pausa, como se estivesse pesando suas palavras antes de continuar. — Mas a verdadeira natureza de Drácula é mais sombria do que você imagina. Eu conheço um jovem que presenciou o ataque em Paris, uma cena que se desenrolou sob a luz da lua, onde a morte dançou no sangue fresco.
As palavras de Uor me prenderam, como uma teia invisível envolvendo meu corpo. Eu me via forçado a imaginar a cena horrenda, uma jovem sendo devorada, sua vida esvaindo-se sob as garras do Conde.
— Ela morreu — Uor continuou, seu tom sombrio, quase reverente — até a última gota de sangue, Anton. A cidade de Settimor foi erguida para acolher as almas perdidas, aquelas que foram atraídas pela sedução de um castelo obscuro, onde as promessas se tornam pesadelos. A ambição de Olga não é apenas por poder; é por controle sobre essa escuridão que a cerca.
A ansiedade começou a consumir-me, como uma maré crescente. Era como se as revelações se tornassem gélidas, arrastando-me para um abismo de dúvidas e temores. Eu estava cercado por verdades que não conseguia ignorar, e a ideia de que tudo isso poderia ser real era sufocante.
— E se ela estiver certa? — perguntei, a voz tremendo. — E se Olga conseguir realmente o que deseja? O que isso significaria para nós?
Meia-Noite trocou olhares significativos com Uor.
— O desejo dela de transcender é uma busca sem fim — respondeu Uor. — Se ela dominar o sobrenatural, você e todos ao seu redor não passarão de peças em seu tabuleiro. A verdadeira questão é: até onde você está disposto a ir para impedir que isso aconteça?
Monm, que até então permanecera em silêncio, soltou uma risada baixa, quase amarga. — Uma escolha sempre tem um preço, Anton. E o que você está disposto a sacrificar?
As palavras deles ecoaram em minha mente, pesadas como pedras. O clima tornava-se cada vez mais tenso, e a incerteza me envolvia. Como poderia enfrentar um ser como Drácula, com Olga ao seu lado, manipulando os fios invisíveis que regem nossas vidas?
De repente, antes que pudesse processar tudo, uma luz intensa irrompeu à nossa frente. Um portal se abriu, revelando o contorno familiar da chave dourada de Lieran.
Monm e Lieran emergiram do brilho, seus rostos sérios, como se trouxessem consigo o peso de um novo destino.
— O que vocês fizeram? — Monm exclamou, seus olhos fixos em mim, preocupados. — O que foi revelado?
Lieran, com um gesto fluido, apontou para o espaço nebuloso que nos cercava. — A verdade não deve ser ignorada, mas nem todos estão prontos para enfrentá-la. Venham, devemos ir.
Eu olhei para Meia-Noite e Uor, suas figuras agora quase etéreas diante da luz pulsante. A sensação de que algo maior estava em jogo tornou-se uma realidade indiscutível. Eu havia sido lançado em um ciclo de eventos que apenas começava a se desenrolar, e a única certeza era que o caminho à frente estava repleto de sombras e revelações.
Atravessando o portal, percebi que não havia como voltar. O que me aguardava era um futuro indefinido, onde a linha entre sonhos e realidade continuava a se desvanecer, e eu me via cada vez mais entrelaçado no destino que me aguardava.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”:
Diário de Anton S. Miahi V
Suas palavras parecem distantes, mas a memória de nossas jornadas no campo de batalha ecoa mais forte do que qualquer outra lembrança…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
De Anton S. Miahi IV
(Carta para Dr. Chistopher)
De: Anton S. Miahi
Para: Maurice D. Laurent
09 de agosto de 1871
Caro Maurice,
Vejo a lua alaranjada pairar sobre o castelo enquanto escrevo, seu brilho envolto em uma névoa inquietante.
Suas palavras parecem distantes, mas a memória de nossas jornadas no campo de batalha ecoa mais forte do que qualquer outra lembrança. A luz da lareira dança nas paredes com tons quentes e inquietantes, como se houvesse um convite oculto para mergulhar nos mistérios que me cercam. Sinto aquele tom alaranjado me provocar, como fazia a fumaça das explosões que atravessavam os campos de batalha prussianos, onde lutamos lado a lado. O mesmo calor sufocante que nos envolvia nos momentos mais caóticos parece agora pulsar entre estas paredes, trazendo uma sensação de alerta, uma desconfiança que se arrasta nas sombras.
Nos campos, éramos mais do que soldados; éramos irmãos, ligados pela dor e pelo medo. Nossas vidas dependiam da lealdade e da coragem um do outro, e essa união forjada em sangue e sacrifício moldou uma irmandade que nenhum tempo ou distância pode quebrar. Eu nunca esquecerei o instante em que você me puxou para longe da linha de fogo, a luz do crepúsculo queimando em nossos olhos enquanto o caos desabava ao nosso redor. Essas memórias nos conectam ainda, Maurice, e é por isso que sinto a necessidade de compartilhar essas descobertas com você — pois quem mais entenderia o terror que vejo aqui além de alguém que já enfrentou o horror da guerra?
Preciso falar sobre o que encontrei na biblioteca do Conde, algo que me provoca o mesmo tipo de inquietação que sentíamos nas trincheiras. Durante minhas pesquisas, deparei-me com anotações nas margens dos livros — frases enigmáticas que pareciam mais sussurros do que palavras. Entre as muitas reflexões, uma de Leibniz chamou minha atenção: "A história é uma narrativa de mudanças, onde o presente é moldado pela memória e o futuro pela compreensão do passado". Senti um arrepio, como se o próprio castelo conspirasse para distorcer a linha entre o que é real e o que não é. Cada página que virei pareceu trazer o passado à vida, cercando-me com sua presença, do mesmo modo que os fantasmas do campo de batalha nos cercavam com seu silêncio sombrio.
As coisas ficaram ainda mais perturbadoras quando me deparei com uma citação de Hume: "O passado é um mistério cujas chaves estão enterradas nos momentos presentes, esperando para serem reveladas". Há algo profundamente inquietante na forma como essas palavras ressoam aqui, onde o presente parece se dobrar e se esticar, como o próprio tempo tentando se libertar das paredes do castelo. As lendas romenas que leio ganham vida de maneira que não consigo explicar. Não posso ignorar as conexões entre essas reflexões filosóficas e o que sinto a cada passo que dou por esses corredores. É como se o castelo estivesse impregnado de uma energia viva, moldada por forças invisíveis que desafiam o que conhecemos como realidade.
Maurice, as sombras aqui não são apenas sombras. Elas têm vida, ou ao menos parecem. Ontem à noite, enquanto caminhava pelos corredores, a percepção da realidade se desfez diante dos meus olhos. Por um breve instante, enxerguei outro castelo, outras figuras — como se o tempo se dobrasse sobre si e me transportasse para outro momento. Não era uma visão comum, mas algo que me deixou com a sensação de estar sendo observado por forças que não compreendo. Lembro-me de Locke e suas palavras: "A verdade é uma luz que ilumina a ignorância, mas, muitas vezes, o brilho é obscurecido pela falta de discernimento". Essas palavras ecoaram enquanto eu tentava entender o que vi, mas nada pareceu claro.
Estou à beira da sanidade, e confesso que me pergunto se estas palavras chegam a fazer sentido. As lendas de vampirismo aqui não são meras histórias contadas para assustar; elas são uma parte viva deste lugar, e sinto que estou no centro de um pesadelo que não consigo escapar. O castelo guarda segredos que não deveriam ser descobertos, e temo que nossas pesquisas estejam nos levando para um caminho sem volta.
Preciso de sua clareza, sua perspectiva, pois neste momento, tudo o que vejo é o laranja opressor do crepúsculo, sufocando minha razão.
Com apreço e inquietação,
Anton S. Miahi
──────⊱◈◈◈⊰──────
De Valéria S. Miahi
(Carta para Anton)
De: Valéria S. Miahi
Para: Anton S. Miahi
11 de agosto de 1871
Querido Anton,
Recebi com grande alegria a sua última carta e fiquei encantada ao saber sobre suas aventuras no misterioso Castelo Drácula. Imaginar você explorando esses corredores antigos e repletos de segredos me enche de curiosidade e admiração. A sua descrição me transportou diretamente para as sombras do castelo, e eu mal posso esperar para ouvir mais sobre suas descobertas e experiências.
Aqui em Paris, a vida tem sido uma verdadeira montanha-russa desde que deixamos Sevilha. A mudança foi um desafio, mas a cidade revela um encanto que eu nunca poderia ter previsto. Paris é vibrante e cheia de vida, e eu tenho me aventurado por suas ruas estreitas e suas praças movimentadas com uma empolgação contagiante. A cultura e a arquitetura são absolutamente fascinantes, e cada esquina parece contar uma história diferente.
O tempo em Paris não tem sido apenas uma série de novas descobertas, mas também de reflexões pessoais. Sinto falta de nossa casa em Sevilha e de nossa família reunida. No entanto, tenho encontrado conforto nas novas amizades que fiz aqui e nas pequenas maravilhas do cotidiano. Os cafés e as livrarias têm sido meus refúgios preferidos, e cada dia traz uma nova chance de explorar algo diferente.
Mamãe, Nora, está bem, apesar da saudade que sente de você e da nossa vida anterior. Ela tem se adaptado às novas circunstâncias com uma dignidade e força que sempre admirei. A mudança para Paris foi um esforço para ela, mas tem se mostrado uma aventura pessoal de renovação e esperança. Ela se dedica à casa e tem encontrado prazer nas pequenas coisas, como as visitas aos mercados locais e as longas caminhadas pelo Sena.
Saiba que, mesmo à distância, sinto-me próxima de você através das suas cartas e das histórias que você compartilha. A sua coragem e curiosidade são uma inspiração para mim, e estou ansiosa para saber mais sobre suas descobertas no castelo e suas novas experiências.
Espero que continue a se aventurar e a desbravar o desconhecido com a mesma paixão que sempre demonstrou. Envio-lhe um grande abraço e todas as minhas melhores energias.
Com muito carinho,
Valéria
──────⊱◈◈◈⊰──────
Diário de Anton S. Miahi X
(Escrito em meu Caderno)
14 de agosto de 1871 — Escrevo estas palavras com mãos trêmulas, meu coração pesando como se cada batida carregasse o peso de uma lembrança que me atormenta. O ambiente na adega, inicialmente marcado pelo suave aroma do vinho tinto amadurecido, envolvia-me em uma sensação de nostalgia quase palpável. A fragrância rica e complexa do vinho, com suas notas de frutas maduras e especiarias, era como uma lembrança distante. Esse aroma, profundo e envolvente, contrastava de maneira inquietante com a atmosfera que se desenrolava ao nosso redor.
As chamas da lareira, por um instante, brilhavam com um tom verde-esmeralda, projetando um brilho surreal sobre as paredes de pedra. A luz verde dançava como se fosse uma aura etérea, tingindo o ambiente com uma sensação de mistério e encantamento. Sentia como se aquela cor, tão incomum e sobrenatural, estivesse lentamente dissolvendo a realidade, transformando-a em algo que desafiava a lógica e a compreensão.
Mas, à medida que o espelho estilhaçado emergia das sombras e começava a se partir em uma infinidade de fragmentos, a cena ao meu redor mudou drasticamente. As chamas na lareira se transformaram, seus tons de verde se desfazendo em um alaranjado ardente. A luz agora lançava sombras intensas e fragmentadas nas paredes, cada uma mais ameaçadora do que a anterior. O calor do fogo parecia se intensificar, como se estivesse refletindo e amplificando o tumulto interno que eu sentia.
A cor alaranjada do fogo agora parecia refletir não apenas na lareira, mas também nos pedaços de espelho quebrado, criando um jogo de luz e sombra que fazia com que o ambiente se tornasse ainda mais ameaçador e surreal. O calor, agora mais intenso e penetrante, misturava-se ao aroma do vinho, que começava a se transformar em algo mais ácido e pungente, como se a própria essência da adega estivesse sendo corrompida. A cada fragmento de espelho que se despedaçava, o cheiro se tornava mais carregado, uma combinação inquietante de vinho envelhecido e o cheiro metálico da destruição iminente.
As cores e os odores se fundiam em um espetáculo de desolação e caos. Senti-me como se estivesse mergulhado em um pesadelo vívido, onde o ambiente ao meu redor estava sendo transformado em um cenário de terror e confusão, refletindo o tumulto dentro de mim e a inquietante visão que estava prestes a se desenrolar.
Um espelho estilhaçado surgiu do vazio diante de nós, como se brotasse das sombras, expandindo-se até se transformar em uma janela com rachaduras que dançavam, apareciam e então sumiam – rasgos no espaço. Oferecia-nos vislumbres de um futuro que eu jamais desejaria ver. As imagens que dançavam nas superfícies fragmentadas eram, ao mesmo tempo, fascinantes e aterradoras, como se uma força desconhecida estivesse revelando segredos que deveriam permanecer ocultos. A cada novo fragmento que minha mente captava, sentia um arrepio profundo, um frio que me invadia não apenas o corpo, mas a própria alma.
As cenas que aquele espelho nos mostrava eram desconexas, como pedaços de uma vida que ainda não vivi, mas que parecia destinada a ser minha. Vi sombras se movendo em um ritmo que não era o nosso, ouvi sussurros que falavam de desespero e vi um reflexo de mim mesmo, pálido e cansado, confrontado por horrores que me desafiavam a compreender. E ali, no meio daquela visão decrépita, Áurea ao meu lado, senti a angústia de um futuro que se aproximava, inescapável e implacável.
Enquanto escrevo estas linhas, minha mente é assaltada por perguntas que me recuso a responder, por medos que se agarram à minha razão, tentando rasgá-la em pedaços. O que vi naquela adega ao lado de Áurea? Era uma advertência? Uma premonição? Ou simplesmente uma manifestação da insanidade que parece envolver este lugar maldito? Sinto como se o ar ao meu redor estivesse se fechando, cada respiração mais difícil do que a anterior, enquanto tento processar o que aqueles fragmentos de futuro significam para mim — para nós.
Eu nunca havia sentido tal terror, tal sensação de que o tempo, o espaço e minha própria existência estavam sendo dilacerados diante de meus olhos. Escrever no meu diário hoje é uma tentativa desesperada de me ancorar na realidade, de afastar os horrores que testemunhei. Mas, mesmo agora, enquanto a tinta seca no papel, a visão daquela adega me persegue, um espectro persistente que não posso afastar. Será que estou perdendo o controle de minha sanidade? Ou estou apenas começando a entender a verdadeira natureza do destino que se desdobra à minha frente?
Gradualmente, os cacos do espelho começaram a brilhar com cores intensas e inquietantes. Nossos olhares se encontraram em meio aos estilhaços, e o espelho refletia uma aura de âmbar, vermelho, azul e prateado, cada uma das cores pulsando com uma intensidade própria e criando uma sensação de caos e desordem. Cada pedaço de vidro parecia ser uma janela para um fragmento diferente de uma realidade incerta e ameaçadora.
Nos confins sombrios de La Cité, nas margens do rio Sena, uma visão aterradora tomou forma em um dos cacos de vidro. Em meio ao nevoeiro espesso e à decadência das ruelas estreitas, um cenário de horror absoluto se desdobrava diante de meus olhos. A figura sombria de um ser ancestral, envolto em uma fúria selvagem, surgia das sombras como uma fera à espreita. Seus olhos brilhavam com uma sede insaciável enquanto ele atacava uma mulher indefesa. O rosto da criatura estava contorcido em uma expressão de monstruosidade inumana, cada traço seu impregnado de uma maldade que parecia desafiar a própria natureza.
A mulher, em contraste, exibia um terror absoluto. Seus olhos estavam arregalados, capturando a última luz de esperança antes de serem tragados pela escuridão. Mas havia algo mais ali, algo que fez meu sangue gelar. Em meio à dor e ao desespero, sua expressão se distorcia, como se fosse tomada por um êxtase sombrio, um prazer perverso que a conduzia lentamente ao abismo de sua própria extinção. A mistura de fragilidade e uma estranha aceitação da morte que se aproximava me deixou em um estado de profundo assombro, como se estivesse diante de algo que a razão não poderia explicar.
A cena, por mais vívida que fosse, parecia fragmentada, como se o tempo em si se recusasse a revelar toda a verdade. Os movimentos eram cortados, as imagens desconexas, formando um mosaico incompleto de horror que desafiava minha compreensão. Meu coração batia pesado, o senso de masculinidade sendo confrontado pela vulnerabilidade diante do desconhecido.
Ao fundo, preso em uma janela quebrada de um prédio abandonado nas margens do Sena, um jornal amassado balançava ao sabor do vento. As páginas rasgadas, ainda legíveis, revelavam a data: 20 de junho de 1871. Aquele pedaço de papel, marcado pelo tempo e pela desgraça, parecia uma testemunha silenciosa de um terror antigo, agora emergindo das profundezas da memória para assombrar uma vez mais.
Então, um novo fragmento do espelho quebrou a realidade ao meu redor. Entre as fendas do vidro, uma visão confusa se formou. Uma figura de lobo de pelagem acastanhado-alaranjada, majestosa e feroz, se transformou lentamente em um homem. Ele parecia ser um caçador vindo da região da Rússia, seus traços pouco definidos, mas a imagem era nebulosa, envolta em uma névoa espessa que dificultava distinguir cada detalhe. Parecia que sua expressão se apresentava severa do homem, pouco se poderia destacar. O que pude notar claramente foram seus olhos castanhos brilhavam com um poder ameaçador. Então pude ver uma cicatriz que marcava seu rosto, um corte profundo que se estendia da testa até a bochecha esquerda, e sua presença emanava uma sensação de perigo iminente.
Atrás dele, uma floresta escura e sombria se estendia, as árvores se entrelaçando como se fossem garras esperando para capturar o que se atrevesse a se aproximar.
E, ao mesmo tempo, um novo caco se rompeu e nele foi revelado um quarto próximo, uma jovem estava sentada, cabelos pretos levemente ondulados, olhos azuis grandes e amendoados, pele como mármore. Sua expressão era de inocência e curiosidade, e eu a vi sussurrar algo em direção a mim, as palavras se perdendo na bruma. Apenas entendi o final: um convite sutil para buscá-la no castelo. Então, como um fôlego cortado, tudo se apagou. A escuridão envolveu-me, e o silêncio profundo se instalou, como se o mundo ao meu redor houvesse se dissipado completamente.
Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa
──────⊱◈◈◈⊰──────
Leia mais em “As Crônicas do Castelo Drácula”
LXXXI
Na penumbra, em meio às veredas da existência, | Adentro por rasto de clivias alaranjadas | A primaveril alegria, tão efêmera, | Ecoa o plangor daqueles que partiram…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na penumbra, em meio às veredas da existência,
Adentro por rasto de clivias alaranjadas
A primaveril alegria, tão efêmera,
Ecoa o plangor daqueles que partiram.
Seu semblante desdenhoso, com sorriso de marfim
Emana o mistério que sussurra de além-vida,
Era o teu silencio um convite macabro?
A escuridão, a prata do céu excelso, o caminho laranja.
Tuas mãos a desenham o destino,
Ou estaria o destino em suas mãos?
Teu olhar angustiado ante a vida que se esvai.
Eram as flores em derredor,
Um abraço silencioso,
Deste que, com olhos moribundos, faz a vigília,
Da alma inocente, em pintura inconclusa.
Observa, ao contar dos grãos para além da mortalidade,
No abandono do último suspiro,
Eram as tuas mãos?
Azrael, elas as tuas?
Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo
Leia mais em “Desafio Sombrio 2024”
Capítulo 5 — Tangíveis Ilusões
Na densa floresta verdinegra, ouvi pequenos grilos ao longínquo; o horizonte era um mistério verdejante enquanto a única luz ambiente...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Na densa floresta verdinegra, ouvi pequenos grilos ao longínquo; o horizonte era um mistério verdejante enquanto a única luz ambiente advinha da vela em minhas mãos. Seu lume era dourado-pálido, no entanto, revelava uma névoa carmim ao derredor, como se na aragem pairasse uma úmida cerração hialina que se desvelava escarlate, tão somente, pela flama. Talvez sua transparência queimasse, pois, era viva e, desfazendo-se pelo fogo, avermelhava. A frigidez orvalhada pelo que me parecia ser um profundo entardecer, no entanto, arrefecia-me a tez de modo terrífico e... eu buscava por alguém ou algo que pudesse me trazer respostas. Por vezes as árvores ramosas, com suas espessas folhagens, na cinesia do vento, ecoavam como sussurros estranhos que diziam infindáveis verdades distorcidas. Eu era uma andante sem rumo, consumida por uma inquietude intensa, uma busca inconsciente e, porventura, uma saudade. Mesmo com a beleza lôbrega do lugar, onde a flora esmeraldina em sombras horríficas a cada segundo se emaranhava impedindo-me de sair de sua imensidão, eu pressentia ser preciso permanecer ali e, de fato, o era.
Quando parei minha peregrinação exaustiva e notei minha pele molhada sendo vítima dos ares irrigados, ciente de que minha vela apagaria a qualquer momento, ouvi um cântico agudo e lôbrego. Era como o canto de um Merulaxis stresemanni, porém, duradouro, pouco rompido, mais harmônico como uma música triste e serpenteante ao fundo, como se sua siringe expressasse o sibilar de uma cobra; a imponência do som era tanta que ecoava pelo frondoso arvoredo. A criatura era, decerto, grande; pude sentir apenas ouvindo-a; entretanto, quando o seu canto se extinguiu, senti uma presença aquecida atrás de mim e, quando me voltei para fitar a presença, era tarde demais. O calor de seu corpo cingira-me violento e senti suas mãos em minha cintura, sutis. Olhei-o de soslaio, seu rosto era como o daquela noite de lua azulescida e, dos seus olhos negros sem esclera, escorria uma lágrima negrume.
— Tu foges de mim, Áurea, mas, por quê? — Murmurara em seu tom naturalmente grave. Assombrei-me e senti toda a minha tez responder à sua voz.
— Como sabes... meu nome? — Indaguei trêmula. Ele lamuriou um singelo som intenso e lúbrico; seus braços envolveram-se em mim, mais apertados, colidindo, em profundez, os nossos corpos. Ouvi-lo me chamar de Áurea não me trouxera a repugnância símil a que senti quando Seth o pronunciara.
— Eu sei de tua essência, minha Ennehris... — Senti seus lábios em meu pescoço. — Sei também de nosso vínculo... — Lëvri acariciara meus cabelos. — Eu não matei Lorrt, Áurea... — Suas palavras esvaíram lôbregas, baixas e quentes; quis beijá-lo e amá-lo, todavia, o verdejante arvoredo sucumbia e tão logo a umidade da pele arrepiada fez-se apenas o reflexo de algures. Despertei, ainda na biblioteca, confusa e silente; sussurrando o nome de Lëvri... com uma saudade estonteante oprimindo meu coração e uma solidão sufocante afogando-me em seu oceano hediondo. Não entendi como pude adormecer, tampouco quando. Não me recordava de sentir a areia do sono infindo sob meus olhos. Quando fitei o ambiente, notei em meu colo um pequeno papel cuja escrita revelava-me: “Lembra-te de mim”, mas, era a minha letra, curvilínea como eu a conhecia. Não quis compreender, evitava a dor da lembrança.
Desejei que Lëvri não fosse o culpado pela morte de Lorrt, por isso sonhei. E vi-me ali, só. Comecei a caminhar para além daquele aposento de livros eternos e segredos sombrios. Permanecia-me como se flutuasse na imensidão escura e silente e, às vezes, o silêncio me refugiava de minha própria existência em suas obscuras complexidades; em contrapartida, indicava-me que não havia ninguém ao redor e, portanto, o espargir da solidão, de modo suave, aflorava minhas mais terríveis angústias. Eu sabia que não estava só naquele Castelo, todavia, observei-o atentamente, enquanto vagava a esmo por entre os seus cômodos e passadiços estreitos. Mesmo notando criaturas que me eram semelhantes, humanos ou, porventura, algo mais; tudo me parecia uma ilusão mórbida, dado que a sensação de ausência me consumia, ainda assim.
Em algum dos lugares por onde vaguei com furtividade, encontrei um diário perdido, o qual me trouxe sensações melancólicas — parecia ter sido escrito há anos, no entanto, não havia tempo em tal lôbrego lugar, e do tempo eu nada poderia esperar — apesar de senti-lo dentro de mim, vívido em seu tiquetaquear longínquo. Desejei lê-lo, não o tempo, mas o diário; decerto eu leria o tempo, se assim pudesse, compreendendo-o em sua totalidade soturna. Não podia, contudo, fazê-lo ali; era preciso um lugar que apaziguasse minha alma sôfrega, alhures que controlasse meus instintos, minha sede e, confesso, uma alcova para aprisionar os meus ímpetos lúbricos, os quais eu sabia serem parte de minha nova natureza.
Seth permanecia em silêncio. Na verdade, eu não o sentia residir em minhas entranhas. Isso avultava a solidão; ele decerto se irritara profundamente com a minha vontade de exorcizá-lo de mim. Quis, naquele átimo, que ele compreendesse que, embora a solidão me arrastasse como uma correnteza brusca e violenta — e dela eu fugisse como um veleiro em descontrolado alto-mar — eu não suportava uma presença perene como a de Seth, que me impedia de existir tal qual o meu desejo… de reencontrar Lëvri... E, principalmente, me impedia de reencontrar minhas memórias. Eram confusas as emoções e árduos os sentires que permeavam meu ser, porque, apesar de tudo, Seth estivera presente como o guardião que fora destinado a ser. E o que alçou em minha tez quando seu olhar amargurado fitou meus lábios e seu bruto toque cingiu meu pescoço foi inexplicável; aquilo embargou os meus sentidos e soterrou meus racionais argumentos em relação a Seth — e não sei se me excitei pelo que sou em minha natureza insondável ou pelo que ele é em sua natureza insondável. O mesmo, em outros aspectos e por motivos diferentes, ocorreu quando sorvi o sangue daquele rapaz que nunca mais encontrei. O prazer sexual lumiava como uma faísca imortal e imoral, e o sangue que aquecia minha garganta fazia surgir, em minha úmida intimidade, um contínuo frenesi. Se ao menos eu me lembrasse de tudo naquele momento… quiçá me viria a compreensão de ser essa intensidade realmente minha, embora parecesse pertencer só àquela que me tornei. A dúbia vontade: renegar a dor da memória ou lembrar-me de tudo; isso era o que levava à exaustão a minha mente.
A solidão, como o amor e o ódio, era buscada por mim quando eu não a tinha e repudiada quando suas trevas me conduziam em uma valsa horrífica. A culpa, quem carregava, era ela: a solitude, o isolamento em mim mesma que sempre me levava ao afogo dos pensamentos aflitivos. “Ennehris ou Áurea? E por que “Aesatt”? O torso da solidão é o apoio às minhas fúnebres queixas. Pode ser que seja melhor sem memória alguma” — eu pensava— “como uma folha em branco para se pintar de acordo com o novo eu. Um recomeço. Não seria, contudo, desprezível da minha parte exterminar toda uma vida que outrora vivi? Não sei… um recomeço… sem as cruzes do passado… isso não poderia ser uma blasfêmia? — soa-me como um alívio; todavia, sei que conviver com o absentismo nunca promoverá a serenidade que idealizo ao consumar o caminho do esquecimento. Dói-me lembrar que esqueci de tudo, e há tantas perguntas que habitam meu coração… Desde meu despertar, estive envolvida por um veludo verdinegro cujo peso sobre meu corpo impediu-me de sentir alívio e paz, sufocando-me, por vezes, em seu interior esmeraldino. Como esperança, apenas as suas margens, na possibilidade de deixá-lo; enquanto, em seu cerne, a sensação de morte pela degradação da minha essência olvidada e desta nova essência sem sentido. Uma cinesia entre o desvelar do presente e o sondar do passado — confuso porque, aqui, nada disso existe; e o que existe é uma infinitesimal parte irrelevante. Falta-me conhecimento… eu assumo a minha ignorância.”
A cada pensar, almejei compreender aquele lugar e entender a sua existência com uma avidez maior do que a que eu nutria por mim mesma; isto porque, se era preciso conhecimento, eu só poderia encontrá-lo em tal castelo-entidade, que era, decerto, um baú encorpado por segredos e verdades que valiam mais do que minha existência transiente. E despertei ali, afinal, por alguma razão. Segundo Olga, fui encontrada pelo “Espectumbral” — uma criatura fantasmagórica destinada a vagar pelos planos em busca dos “escolhidos”. Eu deveria tê-la questionado mais, Olga decerto sabia muitas coisas e me explicaria a respeito deste lugar, no entanto, eu estava imersa em minhas meras fragilidades quando a encontrei, ébria demais em minha íntima desolação. Eu estava certa de que o Castelo permitiu meu renascer; caso contrário, por que não despertei do coma antes de ser encontrada pelo espectro? Eu sentia, consequentemente, um elo abissal com aquele recôndito; parecia-me um lar para meu eu morto e para meu eu renascido. “Talvez seja o momento de encontrar um sepulcro para enterrar o que não hei de me lembrar; aquela que fui, que nunca mais serei” — pensei. “Algo simbólico, algo que possa representar, em força emblemática, uma Áurea danificada por fissuras de oblívio… e nem sei se sou Áurea... não sei quem é Áurea…”
Os sôfregos pensares se quebraram quando, descendo uma escada em espiral, avistei uma monumental porta de madeira maciça e pesada; tive dificuldades em abri-la, mas o fiz e a ouvi rangendo como se há anos estivesse selada. Havia um grandioso espaço naquele calabouço, com incontáveis barris e garrafas de vidro acomodadas na horizontal, em altas estantes. Adentrei o recinto penumbral e sentei-me em uma das poltronas dispostas em seu centro, enquanto o aroma de frutos fermentados me envolvia. Havia apenas aquelas duas poltronas e, entre elas, uma pequena mesa com duas taças de cristal e um castiçal com três velas acesas. Mais ao fundo daquela adega antediluviana, escuridão e profundezas sombrias. Indaguei-me sobre o quão extenso poderia ser aquele lugar e, sem fechar o soberbo umbral que abri com tamanha dificuldade — com medo de aprisionar-me para sempre —, segurei o castiçal e caminhei para as entranhas da adega. Foi como mergulhar em um oceano de vinho, embriagada por suas propriedades afrodisíacas. Somente quando não pude mais enxergar aquela porta, sentei-me ao chão, abri o diário; ousei retirar uma das garrafas e abri-la. O vinho era rubi, e mesmo sob tão tênue luminosidade, pude notá-lo em cores e aromas: rubro vívido, aroma intenso de cereja, notas ferrosas e o sabor… intenso e estonteante.
“15 de junho de 1871 — Volto uma vez mais a este caderno velho e surrado. Talvez já tenha se tornado um hábito colocar, nestes diários, minhas angústias e pensamentos, e eventuais alegrias nessas páginas. Já não sei quantos escrevi; em meu escritório devo ter uns quantos armazenados na velha estante ao lado esquerdo da mesa de trabalho, junto com meus livros queridos.” — iniciei a leitura. “Já faz algum tempo que me correspondo com uma personalidade do leste da Europa. Devo ter, em minha maleta neste momento, umas três cartas e pelo menos dez telegramas. Segundo as correspondências, temos afinidades intelectuais. Algo poderoso em cada uma delas me compelia a responder, uma sensação indescritível, mas aqui tentarei traduzi-las. Devo dizer que o que senti era provocante, uma emoção que ainda agora me deixa agitado, ansioso, como se houvesse um feitiço em cada palavra…” — li, notando tratar-se de um homem, um homem humano, pois nada é tão emocional como os humanos; eu sentia e percebia isso. Em mim, tudo o que havia era, sim, intenso, porém com um vazio sepulcral inigualável. Sentia falta de ser humana, ainda que não me lembrasse disso; a certeza da minha humanidade de outrora era real. E não parecia residir tal vil condição de vazio no coração deste que escrevera, ao menos, não pude perceber nas entrelinhas.
“Não! A cada onda das letras, elas estavam me atraindo, conduzindo minha existência, e por fim, guiando minhas mãos para responder tão rápido quanto me fosse possível. Senti-me como um apaixonado respondendo a uma amante, numa carta secreta, revelando segredos obscuros. Por vezes, como uma inocente criança confessando à mãe seus feitos do dia com total ingenuidade e despretensão.” — definitivamente, era um humano. Sorvi mais do líquido rubi, e meus olhos lacrimejaram.
— Criaturas como eu, olvidadas, jamais compreenderiam o que é o confessar de uma vestal infância e, ouso dizer, muito menos o verdadeiro amor em seus obscuros segredos — proferi em um murmúrio amargurado.
Com estranheza, o liquor em meus lábios conduzia meus olhos por aquelas linhas, era possível que estivessem vívidas a ponto de invadirem minha imaginação, reverberando uma voz fictícia que narrava as verdades daquele diário. Em certo momento, colidiam-se as letras, dúbias, entrelaçadas com a luz tenra que se difundia pelo ambiente silente. Era deleitável… o sabor que inebriava e as palavras que dançavam. “A vista era montanhosa, com pequenas cidades sombrias e tristes, nos tons de cinza, marrom e branco…” — lembro que ouvi, ouvi sim, e não li, pois era nítida aquela voz suavemente rouca, em um tom de baixo tenor, distinguindo-se em meus pensamentos como se vinda do mundo externo, era tão real que olhei ao redor por instantes, perscrutando a penumbra.
Decidi sentar-me à poltrona que encontrei outrora. E pus o vinho sob a pequena e rústica mesa de centro. À minha frente, o assento, semelhante ao que eu estava, era como um convite insólito; aquela intensa voz e aquela afrodisíaca bebida poderiam advir de uma alucinação causada pelo diário? — eu pensava. Ou seria, como único culpado, o licor rubinegro? Antes que uma resposta pudesse encontrar minha racionalidade que já se perdia na imensidão de mim, vi uma linha… a linha de uma nívea silhueta vaporizada, instigando minhas retinas, seduzindo-as em um tenro receio fantasmagórico, trazendo-me a dúvida de ser um escárnio de luz e sombras. Todavia, quanto mais o tempo passava — embora, em sensação, ele estivesse profundamente estagnado —, as linhas formavam uma silhueta perfeita… com um semblante fidedigno e, o que deveria ascender-me o terror mais hediondo, seduziu minha ébria curiosidade.
O que se desvelava, à minha feição enlevada, era uma sombra cujos detalhes erigiam-se à medida em que o derredor se contorcia de maneira turva e gradual; uma face viril, em perfeição visível, embora ainda translúcida, tinha em sua fronte um assombro que talvez derivasse da mesma razão que o meu encanto arrebatado, pois, seus olhos castanhos estavam direcionados ao meu rosto, fixos e incrédulos. Movimentei-me devagar, como se quaisquer sopros de cinesia pudessem levar à evasão daquilo que pensei ser um fenômeno espectral, quiçá uma memória d’um alguém ou, ainda, uma realidade multiforme, paralela à minha, uma voragem no tempo-espaço. Ainda segurando a taça, ergui minha mão direita na direção do homem cujo contorno do rosto já era tangível e os cabelos, castanhos como os seus olhos, já manifestavam uma textura mais próxima da realidade e mais distante do que era, tão somente, linhas esvanecidas.
Em minha túrbida consciência, incontáveis pensamentos se originavam; por ínfimos instantes acreditei que, porventura, fosse algo de meu passado materializando-se, ou de meu futuro. Porque não poderia ser, eu acreditava, um fenômeno ocasional. O silêncio densificava-se tanto quanto a escuridão que entornava sobre o ar uma esverdeada sombra crepuscular; a adega frígida transfigurava-se em uma metamorfose tardia e lôbrega, ao mesmo tempo em que chamas de uma lareira olvidada, douravam as nuances trêmulas do ambiente. O gosto ferroso e amadeirado ainda exortava meu paladar. As notas de cereja fermentada eram evocadas pelas papilas e tive a impressão de sentir minhas retinas dilatarem-se. Eu tocaria aquela face e, se fosse real, então, as pontas de meus dedos sentiriam o calor, ou a frialdade, de sua bronzeada tez.
Apoiada sobre a mesa de centro, destinada àquilo que pensei ser a melhor forma de compreender aquela estranha conjuntura, avancei um pouco mais e, quando, prestes a tocá-lo, pude ouvir sua respiração inquieta; surpreendi-me com seu brusco movimento. Levantou-se, fugaz, e a brisa de sua cinesia movimentou meus cabelos, no entanto, até aquele átimo, eu nutria uma infinitesimal certeza de que tudo era delírio e, portanto, tentar tocá-lo levar-me-ia à poltrona à frente, esvaindo-se como névoa a sua gravura. Era perceptível, pelo quanto a sua viril presença impulsionara o ar, que não se tratava de um espectro viandante. Então, cessei meus movimentos, embora tenha ficado naquela posição por um tempo até minha mente assimilar o ocorrido. Logo, eu o ouvi. Sua voz era aquela que pouco antes se espargia pelo ambiente, ou pela minha mente, eu não saberia dizer.
— Quem é você? — Dissera, irredutível e no mesmo tom rouco. Eu não pude respondê-lo, à princípio, eu estava um tanto paralisada pela surpresa de seu movimento e por toda a inebriante situação; ainda mais por ser a mesma voz que outrora imaginei… ou ouvi. Mesmo assim, meus olhos o seguiram e vi com perfeição absoluta todo o seu corpo. Quando movimentei meus lábios para respondê-lo, ouvi um estalo vindo do carvalho que eu me apoiava e não demorou para a mesa se quebrar logo após o ruído. N’um impulso, segurei, firme, o que estava à minha frente e vi meu corpo cair ao chão, embora não só, pois puxei o homem austero por seu casaco marrom e caímos, reais e tangíveis, sobre o assoalho. Não como previ, mas o senti no toque abrupto e, no instante seguinte, próxima de seu rosto, um pouco temerosa, o respondi.
— Sou Áurea… — Murmurei. Por tanto questionei o meu não pertencimento a nome nenhum e, naquele minuto, sentia-me conduzida a dizer “Áurea” para um completo estranho que me olhava, rigoroso e, decerto, hesitante. Um estranho cuja face, agora tão próxima, e o corpo, agora tão próximo, era antes um vapor dúbio e penumbral. Sobre ele, o calor em um câmbio equivalente e uma singular sensação, elevaram-me o embaraço, todavia, o turvamento pelo vinho ainda me adornava, delgado, persuadindo o insondável.
— Parece que a mesa decidiu se juntar ao caos e quebrou as pernas. — Murmurou com um sorriso tênue, tendo à fronte a feição desconcertada. — É um prazer te conhecer. — Ajustou-se e segurou-me a cintura e as mãos, para que eu me levantasse com segurança; sua força e estabilidade eram impressionantes. — Sou sargento Miahi, Anton Stefan Miahi. É um prazer. — Proferiu, denunciando a hierarquia que decerto o fazia acentuar o que me parecia ser sua austeridade natural. O silêncio nos envolvera por segundos, eu o observava atenta, tentando fazer com que os efeitos do liquor sombrio não me impedissem de firmar sua feição em minha memória.
— Você está bem? — Indagara-me enquanto recuperava-se da queda e fitava-me tal como eu fazia com ele; sei que sorvera do mesmo vinho que eu e, quiçá, por isso, estivesse mirando seus olhos em mim; no entanto, talvez buscasse incorporar os acontecimentos recentes e nada mais. Não me esqueci do mistério de sua materialização, apenas fui distraída com seu hálito que carregava o êxtase olfativo do brumal liquor e, portanto, avançava sobre mim com o mesmo poder sensual.
— Estou bem… — Murmurei um pouco mais baixo, talvez não tenha sido ouvida. — Achei que tu eras uma ilusão fantasmagórica. — Revelei, tentando deixar minha voz mais nítida e menos lânguida. Sorri em seguida, fitando sua expressão cordial.
Contudo, algo pairava no ar. O silêncio pós-desastre que soara envolvente tanto quanto denso estivera antes de tudo acontecer, ornara o ambiente em um medonho insulamento mudo. Em certo aspecto, tudo passou a soar aterrador; quis acreditar que nos olhos de Anton residia a mesma macabra percepção, pois, o clima de apreensão erguia-se a modificar tudo entre nós, sua força era invisível. Apesar do tragicômico momento ocorrido segundos antes, apesar de trocarmos palavras de conforto em uma apresentação benigna, todo o ambiente se modificara, tremeluzindo anômalo e, ainda, distorcido; uma disformidade infinitesimal e absurdamente apavorante, com as luzes mórbidas ecoadas e translúcidas. Avultavam-se em uma lentidão intimidadora. Eu sentia. Eu via. Símeis a sonidos trépidos e agudos. Respirei fundo, em busca de um alívio daquela complexa hiperestimulação dos sentidos. Anton me olhava e sua existência transpassava uma segurança que, na instabilidade em que eu me encontrava, seria minha égide caso tudo saísse do controle. O sabor adocicado em meus lábios delatava-me que aquele líquido rubinegro poderia ser a razão da estranha sensação persecutória que despontava opaca e tétrica em meu ser.
— Anton… — Proferi com temor e sei que meus olhos se umedeceram e, pela primeira vez desde meu despertar, eu senti um medo entranhado, com uma raiz insondável. Quis indagar Anton sobre a umbra que se instalava em meu âmago, sobre aquelas sombras bizarras que penetravam os cantos da visão; ia questioná-lo, porém não pude, algo estava me sufocando. “Seth… onde estás?” — pensei. Sob o medo mais legítimo, vi-me como aquele pássaro negro detrás da clausura enferrujada e consumida pelo musgo; com o peito arfante, prestes a ser consumido por algo bem pior que a morte.
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…