Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja Escrito por Wallace Azambuja, -Poesias, -Sonetos Wallace Azambuja

A Sala

Por dentro do Castelo no qual vivo | Perdi-me em seus recintos escultóricos: | Envolto em branco mármore, cativo | Por linhas de um amor sem fim, pletórico…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por dentro do Castelo no qual vivo
Perdi-me em seus recintos escultóricos:
Envolto em branco mármore, cativo
Por linhas de um amor sem fim, pletórico…

Projeto de algum criador lascivo,
No espaço vi também seu traço eufórico:
De pé, com grossos veios sugestivos,
Não menos do que seis pilares dóricos…

À vista de silente estatuária,
Supus minha presença solitária
Naquele imenso átrio em que adentrei…

Sentindo-me contente e assombrado,
Jurei ter visto eu mesmo mergulhado
Num banho de prazer que ali sonhei…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Túnica

Me pego a imaginar, já faz uns dias, | Você trajada em vestes antiquadas: | Num branco esvoaçante entrelaçada; | Cabelo solto ao vento… Qual rainha…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Me pego a imaginar, já faz uns dias,
Você trajada em vestes antiquadas:
Num branco esvoaçante entrelaçada;
Cabelo solto ao vento… Qual rainha

Pisando em corredores, à tardinha,
Sem muito o que fazer, atarefada
Somente com ideias… Uma vida
De sonhos, num palácio baseada…

Às noites, quando quentes, imagino
Também você num quarto, se despindo
De todos adereços… e, na cama,

Seu corpo me dizendo ser bem-vindo
Meu tempo de prazer com essa dama
Que vejo semideusa em mundo antigo…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
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Soneto 98, de William Shakespeare

De ti eu me afastei na primavera, | Bem quando o elã de Abril, com seu preparo, | Depôs um ar travesso em toda esfera, | Na qual até Saturno achou amparo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

De ti eu me afastei na primavera,
Bem quando o elã de Abril, com seu preparo,
Depôs um ar travesso em toda esfera,
Na qual até Saturno achou amparo.
Porém, nem pio das aves, nem os cheiros
Das abundantes flores, coloridas,
Fizeram-me escrever algo faceiro,
Querê-las do jardim por mim colhidas.
Prazer nenhum senti no branco lírio,
Tampouco em uma rosa o escarlate:
Amáveis tão somente no idílio
Envolto em ti, se tu fizesses parte.
Distante, pareceu-me inverno, ainda
Que as flores emulassem tua vinda.

From you have I been absent in the spring,
When proud-pied April, dress’d in all his trim,
Hath put a spirit of youth in every thing,
That heavy Saturn laugh’d and leap’d with him.
Yet nor the lays of birds, nor the sweet smell
Of different flowers in odour and in hue,
Could make me any summer’s story tell,
Or from their proud lap pluck them where they grew:
Nor did I wonder at the lily’s white,
Nor praise the deep vermilion in the rose:
They were but sweet, but figures of delight,
Drawn after you, you pattern of all those.
Yet seem’d it winter still, and, you away,
As with your shadow I with these did play.

Revisão de Sahra Melihssa

Traduzido por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Soneto 66, de William Shakespeare

De tudo farto, à morte, à paz suplico, | Por ver alguém tão bom nascer sem nada, | E quem tem tudo de alegrias rico, | E a fé mais pura e crente tapeada,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

De tudo farto, à morte, à paz suplico,
Por ver alguém tão bom nascer sem nada,
E quem tem tudo de alegrias rico,
E a fé mais pura e crente tapeada,
E as nobres honras mal distribuídas,
E a virginal virtude em maus lençóis,
E a perfeição honesta diluída,
E a força acuada por broncos heróis,
E a arte atada pela autoridade,
E a douta estupidez na direção,
E ouvir fazerem troça da verdade,
E o bom sendo cativo do vilão.
De tudo farto, a tudo adeus daria,
Mas meu amor, a sós, eu deixaria.

Tired with all these, for restful death I cry,
As to behold desert a beggar born,
And needy nothing trimm’d in jollity,
And purest faith unhappily forsworn,
And gilded honour shamefully misplaced,
And maiden virtue rudely strumpeted,
And right perfection wrongfully disgraced,
And strength by limping sway disabled
And art made tongue-tied by authority,
And folly, doctor-like, controlling skill,
And simple truth miscalled simplicity,
And captive good attending captain ill:
Tired with all these, from these would I be gone,
Save that, to die, I leave my love alone.

Revisão de Sahra Melihssa

Traduzido por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
18ª Edição: Theattro - Revista Castelo Drácula
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Soneto 28, de William Shakespeare

Como posso voltar a ser feliz, | Estando carecido de descanso? | O mal do dia as noites faz febris, | E assim com dia e noite iguais avanço,…

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Como posso voltar a ser feliz,
Estando carecido de descanso?
O mal do dia as noites faz febris,
E assim com dia e noite iguais avanço,
Com ambos, mesmo opostos em seus turnos,
Num pacto, consentindo em torturar-me,
Um com fadiga, o outro taciturno
Por tanto me afastar de ti deixar-me.
Em prol do dia, eu falo do teu brilho,
Que a graça trazes, quando o céu nublado;
Co’a noite os elogios também partilho,
Faltando estrelas, tu que a tens dourado.
Mas diariamente o dia atrai tristezas,
E à noite a dor noturna é mais intensa.

How can I then return in happy plight,
That am debarred the benefit of rest?
When day’s oppression is not eas'd by night,
But day by night and night by day oppressed,
And each, though enemies to either’s reign,
Do in consent shake hands to torture me,
The one by toil, the other to complain
How far I toil, still farther off from thee.
I tell the day, to please him thou art bright,
And dost him grace when clouds do blot the heaven:
So flatter I the swart-complexion’d night,
When sparkling stars twire not thou gild’st the even.
But day doth daily draw my sorrows longer,
And night doth nightly make grief's length seem stronger.

Revisão de Sahra Melihssa

Traduzido por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
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Ozymandias, de Percy Bysshe Shelley

De um viajante com estrangeira tez | Ouvi: “Sem tronco, dois pernões rochosos | Há no deserto. Sobre essa aridez, | Lascado e em parte, um rosto jaz, cenhoso,…

Imagem da Web editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

De um viajante com estrangeira tez
Ouvi: “Sem tronco, dois pernões rochosos
Há no deserto. Sobre essa aridez,
Lascado e em parte, um rosto jaz, cenhoso,
Franzido lábio e olhar de frio montês
Que um escultor tais emoções bem viu,
Inda visíveis no que rude achei,
Feito com mãos de um coração servil; 
No pedestal estas palavras teimam:
‘Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Vejam meus feitos, poderosos, temam!’
Nada resta ao redor: circunda o escombro
  Da ruína colossal, vazia e extrema,
  Somente a areia, plana e sem assombros.” 

.

I met a traveller from an antique land
Who said: “Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read,
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed;
And on the pedestal these words appear:
‘My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!’
Nothing beside remains: round the decay
  Of that colossal wreck, boundless and bare,
  The lone and level sands stretch far away.”


Escrito por:
Percy Bysshe Shelley

Percy Bysshe Shelley (Field Place, Horsham, 4 de agosto de 1792 — Mar Lígure, Golfo de Spezia, 8 de julho de 1822) foi um dos mais importantes poetas românticos ingleses. Shelley é famoso por obras tais como Ozymandias, Ode to the West Wind, To a Skylark, e The Masque of Anarchy, que estão entre os poemas ingleses mais populares e aclamados pela crítica. Seu maior trabalho, no entanto, foram os longos poemas, entre... » leia mais

Traduzido por:
Wallace Azambuja

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Solidão

Nas horas nebulosas, de enfadonhos | Momentos, a tristura estando alta, | Tristonhos ficam mais os pensamentos | Que tenho, ao lembrar que dei as costas…

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Nas horas nebulosas, de enfadonhos
Momentos, a tristura estando alta,
Tristonhos ficam mais os pensamentos
Que tenho, ao lembrar que dei as costas

 A quem mostrou dispor do próprio tempo,
Chamando pra jogar conversa fora —
A chance que passou e não disponho;
Um dia que hoje sinto fazer falta…

Um erro que lateja na lembrança,
Ao lado de uma vil desesperança:
As duas apostando a minha sorte…

Disputa em que só perco o desatino…
Um jogo sob as cartas do destino,
Que temo persistir até à morte…


Escrito por:
Wallace Azambuja

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16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Imagemxuberante

Mais uma foto que meu peito agita… | E tudo o que fazia, agora, estanco. | Imagemxuberante, tão bonita… | De cores vivas (mesmo em preto e branco)…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Mais uma foto que meu peito agita…
E tudo o que fazia, agora, estanco.
Imagemxuberante, tão bonita…
De cores vivas (mesmo em preto e branco).

Enquanto a inspiração me solicita,
Somente um movimento estou pensando:
Tentar aqui deixá-la por escrita,
Gravar o que a beleza está causando…

Um jeito de externar o que me gera…
Pior seriam minhas provações,
Não fosse o exercício de escrever…

Pois o que mais me custa é toda a espera…
Que sejam muitos anos, estações,
Outonos necessários pra te ver…


Escrito por:
Wallace Azambuja

Wallace Azambuja vive em Porto Alegre e estuda Letras na UFRGS. Sua paixão por sonetos é intensa e sua maior produção literária atual está voltada à escrita deste clássico formato poético. Atraído pelo mistério e profundidade da Literatura Gótica, o autor participou do Desafio Sombrio 2023, onde mostrou seu talento para o estilo obscuro e, também... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Sinais

Qual luz de fim de tarde em triste inverno | (Deixando escuro e frio o alvor de outrora), | Assim vi teus vestígios indo embora | Pra longe e aquecendo um corpo inverso…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Qual luz de fim de tarde em triste inverno
(Deixando escuro e frio o alvor de outrora),
Assim vi teus vestígios indo embora
Pra longe e aquecendo um corpo inverso…

Abrir num quarto alheio o riso interno
De quem os teus calores sente e toca…
Assim vi teus vestígios… Nessas horas
Tão claro vi, distante e manifesto

Quão forte a região com tuas marcas,
Depois de ser por ti ela tocada,
Envolve-se de ardor, lembrança e afeto…

Um rastro de presença inextinguível,
Constante como o tempo e jamais findo
Na pele de quem teve-o por perto…

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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A Ponte Sem Fim

Há uma ponte eterna que atravesso, | Da qual não vejo o fim, se a distância | Aumenta quando penso haver progresso — | Se feita é como as minhas esperanças… 

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Há uma ponte eterna que atravesso,
Da qual não vejo o fim, se a distância
Aumenta quando penso haver progresso —
Se feita é como as minhas esperanças… 

Pois inda que pareça controverso,
Não posso mais parar: por ela avança
Meu sonho de chegar ao lado inverso,
Propósito de toda a minha andança… 

Se vejo uma barreira no caminho,
Transtorno, tempestade — e estou sozinho —,
De um fato só, talvez, eu me arrependa: 

É de não ter previsto o meu destino…
Não ter adivinhado o repentino
Porvir, que hoje imenso é de contendas…

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Violenta II

O tempo de colheita já passara; | Passara o triste inverno e suas chuvas… | Somente o que não finda, o que não sara | Jamais: uma lembrança que machuca…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O tempo de colheita já passara;
Passara o triste inverno e suas chuvas…
Somente o que não finda, o que não sara
Jamais: uma lembrança que machuca.

Num sempiterno voo, fazendo sala;
Insone predador, de garra adunca —
A cada vez que penso rechaçá-la,
Voltando ao fim mais forte do que nunca…

Presente em meio às provações do dia,
Também nas madrugadas, quando, em claro,
Batalho sempre em vão por meu descanso,

Pensando longamente na desdita
De ser por esta sombra o responsável:
Revés que originei e nem mesmo alcanço… 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Anotação

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Preciso ser rápido! Acabo de ter um sonho, daqueles… E bem sei que, por ser um sonho, a tendência é não me lembrar de mais nada daqui pra frente, daqui a algumas horas. Por isso, acho inadiável anotar aqui mais uma das experiências inquietantes que venho tendo no castelo… 

Na noite anterior, antes de me deitar, nada de mais me sobressaltou. Desde aquela “festividade laranja” — quando observei, incrédulo, junto a Ameritt, o esvoaçar de abóboras pelo espaço do castelo — estou ainda mais “seguro”... acostumado às diferentes surpresas que o ambiente aqui venha me apresentar. Quanto muito, se bem me lembro, somente fui agitado pela recorrente tensão vinda dos corredores, dessa aparente, sensível suspeita de que algo sempre ronda e parece colocar-se por detrás da porta, como se para ouvir ou ter certeza de minha presença… 

Para não perder o fio da reflexão, escreverei agora sobre este sonho, essa coisa inédita e aterradora que me aconteceu… 

***

Estava eu numa paisagem bucólica, algo campestre — verdadeiro contraponto às paredes e ângulos retos de uma cidade ou mesmo da frieza obscura existente aqui no Castelo. 

Sozinho, sem sinal algum de outra presença que não a minha, via-me naquela sensação única de estar e não estar em posse dos meus voluntários movimentos. Olhando para os lados, desejava mesmo intentar saber até onde iam os limites da planície observável; quando dava por mim, lá estava, saltando como jamais poderia na realidade, quase como se me teletransportasse… 

O sonho parecia comum, daqueles que, quando menos esperasse, me despertaria e fugiria, para sempre, da lembrança. Porém, o que se seguiu foi o completo oposto. 

Diante de mim, logo após ter terminado aquele percurso mágico, instantâneo, deparei-me com uma natureza diferente: flores e ramos de uma vegetação densa, de cor arroxeada, tomavam conta do horizonte à frente e da minha vista. Aquilo não tinha fim; era de uma amplidão desconcertante e visualmente desproporcional ao vazio que eu havia percorrido até então. 

Sem poder ignorar a estranha atração da paisagem, pus-me logo a caminho. Lembro de ter chegado com a mesma rapidez aos limites daquele roxo jardim. 

As plantas, ali (quando pude confirmar que eram mesmo de natureza vegetal), tinham altura considerável, e, quanto mais mergulhava em direção ao centro da peculiar paisagem, mais eu desaparecia, percebendo claramente que a saída de tal labirinto se tornava cada vez mais difícil. 

Nesse momento do sonho, eu já imaginava ter o poder de me retirar dele, assim como sempre procedo em minhas horas de sono. No entanto, deu-se o contrário: completamente consciente, podendo até me dizer num estado súbito de vigília, vi-me como nunca antes em pleno poder de meus sentidos naquela vegetação — estando, também, plenamente ciente de que estava sonhando. 

Não posso dizer com absoluta certeza que meus gritos tenham ecoado pelas paredes do Castelo, no momento em que gritei desesperadamente naquele sonho… Caso alguém tenha passado pelo lado de fora do meu cômodo ou mesmo tenha parado por um tempo lá embaixo, pelo jardim, talvez sim… isso é algo que não tenho mesmo como saber. 

Motivo houve de tamanho susto.  

Convictamente consciente de mim, do meu corpo e do risco que sentia estar correndo, ver aquele chão tremendo, como se fosse abrir sob meus pés, e aquelas mãos enormes, titânicas, se erguerem no horizonte que meus olhos ainda podiam enxergar, fez com que eu me colocasse, como nunca antes, no lugar de um inexpressivo inseto... de um piolho, cujo medo e desespero mostram-se semelhantes ao humano quando em presença de um desconhecido ser maior do que nós. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Um convite especial

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Voltei a me encontrar com Ameritt, a convite dela e por motivos que ela mesma garantiu me mostrar. Estava em meu quarto, ocupado com a leitura e busca por inspirações (as exigências de escrita não param!), quando percebi o sinal que ela enviou. Na beirada de minha janela — onde o que se vê não passa de um horizonte quieto e quase vazio, bordejado de mata —, seu curioso besouro batia as asas, fazendo um barulho que prontamente me tirou a concentração… 

De modo apressado e curioso, larguei o livro que folheava e me pus na direção da janela; chegando lá, o prometido: Ameritt, com toda sua peculiar maneira, me exibia uma abóbora, uma imensa abóbora sobre sua cabeça. Chegando a segurar um riso, olhei para ela e acenei, garantindo com isso que iria acompanhá-la, como havia prometido em nosso último encontro. 

Qual não foi a estranheza de me ver seguindo um pequeno inseto, aparentemente ciente de sua missão, me guiando pelas descidas do castelo e quase me obrigando a pedir que esperasse… Sujeitei-me àquilo com a aceitação já típica das experiências tidas aqui. 

Chegando ao pórtico de entrada do casarão, diante do jardim amplo e tomado de plantas, outra surpresa. De tamanhos variados e até maiores do que a abóbora exibida sobre a cabeça de Ameritt, o espaço estava tomado por elas, com uma iluminação que só poderia ser feita por algum artefato no interior de suas rotundas massas. Aquela visão era um espetáculo, como minha imobilidade e estupefação puderam confirmar… 

Ultrapassei aquele labirinto de abóboras enquanto tentava não perder a visão do besouro de Ameritt. Por um minuto, lembro que sumira de vez da minha perspectiva aquele apressado inseto. Estando já anoitecendo, tudo o que pude fazer foi tentar localizar em meio ao brilho laranja dos legumes (ou frutas?) o ponto preto e vacilante do alado bichinho. Pensando mesmo em desistir da perseguição, estava a ponto de gritar para minha anfitriã, avisando de minha situação, quando me dei conta do ridículo: eu bem sabia onde ela morava, vivia… 

*

Ameritt me recebeu com a simpatia de sempre. Servindo-me pratos, doces, receitas que eu não fazia ideia se deveria ou não simplesmente aceitar, fui me dar conta de seus sabores quando já tinha repetido a porção de três ou quatro refeições... 

A percepção de estar daquela maneira, sentado junto a ela numa sala relativamente escura e cercado de objetos que meus olhos não conseguiam captar, me deixou levemente preocupado. Não que eu suspeitasse das intenções de Ameritt, até então uma queridíssima descoberta, gentilmente aberta para minhas perguntas e respostas; acontece que, da forma com que eu “automaticamente” cheguei ao seu recinto, sentindo-me no mínimo tomado por alguma estranheza, naquele momento minhas primeiras impressões de dúvida e até receio voltaram à tona. 

Eu ainda não sabia nada do que se escondia por trás daquela fortaleza de pedras, a verdadeira face do que governava os acontecimentos ali... Pronto para me levantar e pedir para ir embora (confesso que certo pavor ia me preenchendo, ao passo que a satisfação pela comida desaparecia aos poucos), Ameritt deu a volta na mesa e pareceu adivinhar minha apreensão. 

Pedindo-me “calma”, fui sorvido por sua voz lenta e acolhedora — de certa maneira, doce como os quitutes que eu provara. Sem enxergar seus olhos, que eu já havia notado serem de um brilho enigmático e atraente, tudo o que pude prever era minha total integridade sob os braços daquela que me recebera em sua sala, estando ali à mercê do que suas mãos pretendiam ou não me fazer... 

*

— Conte-me, Wallacebesin... O que faz aqui no Castelo?... 

Tudo o que lembro, tudo o que me vem à mente ao recordar essa pergunta de Ameritt, gira em volta de minha pertença ao Castelo, desde minha chegada até a súbita tensão ao me servir dos pratos misteriosos daquela anfitriã... 

Comecei falando de meus textos, meus poemas e sonetos, que volta e meia eram instigados a serem escritos por conta da atmosfera do lugar. Depois, falei dos outros habitantes do Castelo, pessoas que eu via, mas com quem raramente trocava alguma relação (exceto os comentários deixados como notas em seus originais escritos). Não pude contornar o assunto do Baile, aquela dança misteriosa com a também obscura dama que me acompanhara na noite... Até o episódio do ataque, aquela provável ocasião ainda em xeque na minha cabeça... 

— Tudo isso acontecendo em menos de um ano, Wallacebesin? 

Um ano?! Quase um ano que tudo aquilo havia ocupado de minha jornada! O choque com aquela pergunta foi como um puxão para a realidade. Jamais eu havia me dado conta de que, ao fazer parte daquele ambiente de experimentação artística e fenômenos extraordinários, também o calendário era sujeito a seus insondáveis efeitos... 

Talvez eu tenha desmaiado, ficado fora de mim por alguns segundos, enquanto tentava processar aquela insuspeitada informação trazida por Ameritt. Ela própria (se minha memória não me prega alguma peça neste momento em que escrevo) — estou certo de que tenha me envolvido com seus braços e me “trazido de volta”, usando de algum artifício, com toda a certeza, de sua lavra. 

Erguendo-me da cadeira, guardo uma imagem de vê-la me guiando em direção à janela de sua humilde e misteriosa sala. Ali, com o céu completamente aberto e limpo, ela me pediu que olhasse, aceitasse os fatos (que os acontecimentos anteriores, por mais absurdos que fossem, se explicariam) e que não duvidasse, a partir de agora, do que minha visão deparava... 

— Quase um ano de sua estadia aqui, Wallacebesin... e esta é a primeira vez que vê isso... 

Isso que ela indicava, com toda a calma do mundo: a abóbada celeste, naquela noite inquietante, sendo visitada por abóboras flutuantes, decorando o céu ao redor do Castelo de um laranja espectral... 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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O colecionador

Sou acumulador destas saudades | que fazem coleção dentro de mim… | Eu guardo todas co’a maior vontade, | e ao peso que elas dão não dou um fim…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Sou acumulador destas saudades
que fazem coleção dentro de mim…
Eu guardo todas co’a maior vontade,
e ao peso que elas dão não dou um fim.

Algumas sem razão, de antiga idade,
não têm mais serventia e, outrossim,
compõem com as outras um destaque
que faz eu me orgulhar do meu jardim.

Usando de outras mais, de outras menos,
dão todas, de algum modo, o seu exemplo
às vezes, se alguém pede que as exiba…

É quando eu alivio o enorme peso
de nunca dividir o meu apreço
por coisas que ninguém pensa que exista…

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

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Uma entrevista do “caso Mmoggun”

Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? | Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância… 

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Entrevistador: Qual era sua relação com a vítima? 

Amigo da vítima: Nos criamos juntos. Amigos de rua, de infância… 

Entrevistador: Estavam sempre juntos? 

Amigo da vítima: Lógico que não. Conversávamos, trocávamos mensagens, dia a dia… 

Entrevistador: No dia do crime, estiveram juntos? 

Amigo da vítima: Pela manhã eu o vi. Estava bastante abatido. 

Entrevistador: Abatido? Como assim? 

Amigo da vítima: Não parecia bem. Tinha olheiras, caminhava devagar, parecia perdido… 

Entrevistador: Interessante… Chegou a conversar com ele? 

Amigo da vítima: Interessante nada… Ele estava visivelmente triste, tenso, alguma coisa já anunciava algo errado… E não, não conversamos. Quando me aproximei e tentei falar mais alto, vi que ele não me escutava. Ele pareceu se assustar com a minha presença, começando até a caminhar mais rápido. 

Entrevistador: E para onde ele foi? 

Amigo da vítima: Não sei dizer, apenas vi quando partiu apressado, arrastando e tropeçando os pés na calçada. Ouvi ele dizer algo, mas não entendi. 

Entrevistador: Ele conversava contigo? 

Amigo da vítima: Não diretamente. Parecia, na verdade, que sussurrava para alguém ao lado… Diria até que conversava com algo invisível… É estranho dizer isso, mas foi o que vi. 

Entrevistador: Bastante estranho… Então quer dizer que não viu qual era o destino dele após isso? 

Amigo da vítima: Não… Só sei que ele seguiu pela calçada e dobrou a esquina. Parecia saber aonde ia, pois erguia de maneira determinada o olhar na direção que seguia. 

Entrevistador: Depois disso, você só o viu em casa, quando descobriram a tragédia? 

Amigo da vítima: Sim… Fui chamado pelos policiais que chegaram. Queriam saber se eu ouvira algo… 

Entrevistador: E você? 

Amigo da vítima: Disse que não, que somente mais cedo havia presenciado aquele estranho comportamento dele, saindo pela rua e não respondendo ao meu chamado. 

Entrevistador: Os policiais não perguntaram mais nada? 

Amigo da vítima: Eu disse a eles o que sabia; falei um pouco das últimas vezes que tivemos contato… 

Entrevistador: Se importa de me dizer qual foi seu relato? 

Amigo da vítima: Não… Acho que quanto mais pessoas souberem, melhor será para uma futura investigação… até para a prevenção de outros casos… 

Entrevistador: Prevenção do quê? 

Amigo da vítima: Do crime! Pois o que aconteceu com meu amigo foi um crime. 

Entrevistador: Quais os motivos para dizer isso, com tanta convicção? 

Amigo da vítima: Meu amigo foi vítima de alguém que conheceu pela internet. Semanas antes do ocorrido, ele me falava que tinha finalmente tido sucesso no app de encontros. Não me dizia muito sobre quem era ou como se dava a interação; tudo o que me revelava era um enorme otimismo e algumas provas de que, dessa vez, daria certo… 

Entrevistador: Que provas eram essas? 

Amigo da vítima: Ele me dizia que estava recebendo presentes, alguns mimos da pessoa com quem interagia. Não me mostrou nenhum deles, pois, segundo ele, essa pessoa do outro lado solicitava total privacidade; era uma espécie de trato: ele não deveria falar para mais ninguém sobre o que recebia… 

Entrevistador: Um tanto ingênuo seu amigo… Então nenhum desses presentes ele exibiu para você? 

Amigo da vítima: Não. Tudo o que consegui dele foi saber como os recebia. 

Entrevistador: E como era? 

Amigo da vítima: Era uma espécie de código. Na calada da noite, quando a rua estivesse vazia, sem barulho algum, essa pessoa dizia para ele aguardar do lado de dentro da casa, apenas colocando o ouvido na porta para ouvir sua chegada. Os horários eram quase sempre perto da meia-noite... Por isso as olheiras, penso, e o cansaço com que o via nos últimos dias... 

Entrevistador: E a chegada dessa pessoa era acompanhada de algo? Não havia interação entre eles? 

Amigo da vítima: Não. Meu amigo disse que ouvia apenas os passos vindos de fora, depois uma espécie de palavreado que até agora não consigo rememorar: gugum, logum, nogum… sempre terminava com esse "um"... 

Entrevistador: Gugum, nogum... O que isso significa? 

Amigo da vítima: Não sei. Ele também não sabia dizer. Os presentes também, um completo mistério. 

Entrevistador: Quais eram? 

Amigo da vítima: Ele não me dizia. Era proibido, estava completamente de acordo com o sigilo solicitado por quem os trazia... 

Entrevistador: Entendo... Aí você só o viu na rua na véspera do crime? 

Amigo da vítima: Não, antes eu ainda tinha contato com ele, mas isso foi rareando cada vez mais. Acho — tenho convicção — que as sucessivas madrugadas à espera desses presentes, dessa visita misteriosa, deixaram meu amigo cansado e extremamente alucinado. 

Entrevistador: Ele pareceu piorar? Ficou doente? 

Amigo da vítima: No mínimo. Suas respostas não eram mais objetivas; ele me respondia com desdém. Se eu perguntava como estava, ou como ia sua relação com aquela pessoa do app, ele me grunhia algo, quase parecido com aqueles nomes que sussurravam do lado de fora da porta... 

Entrevistador: Aquele "nhugum, nogum"...? 

Amigo da vítima: Isso... Chego a imaginar que possa ter sido um feitiço. 

Entrevistador: Então você acha que seu amigo foi vítima dessa pessoa com quem interagia pelo app, que lhe trazia presentes altas horas da noite e que, de alguma forma, acabou entrando em sua casa e fazendo aquilo com ele? 

Amigo da vítima: É minha única suspeita. Ele não tinha inimigos, dívidas, nada que pudesse ter levado alguém a invadir sua casa e o deformar daquele modo bizarro. Você viu as imagens? 

Entrevistador: Sim. O crime foi tão divulgado que as imagens chegaram até mim. Ele parecia simplesmente sem olhos, nariz, boca. Sua expressão facial, por completo, havia sido removida, deixando o rosto liso, como se uma cicatrização assim fosse possível... 

Amigo da vítima: Meu amigo não merecia isso. 

Entrevistador: Meus pêsames. 

Amigo da vítima: Agora é torcer para que descubram algo, que cheguem à identidade dessa criminosa, que tirou a vida dele e... fez aquilo com ele. 

Entrevistador: Vamos torcer. Irei tentar contatar mais gente envolvida nas investigações. Me diga se lembrar de algo que possa ter passado em branco durante a entrevista. 

Amigo da vítima: Direi, sim. Espero que eu não seja a próxima vítima. Ando escutando vozes pela casa à noite... e juro que parecem as mesmas que saíam da boca do meu amigo, naquele estado abatido dele. 

Entrevistador: O nogum... logum? 

Amigo da vítima: Isso, nogum... mogun... acho que era isso… 

Entrevistador: Bizarro... Tome cuidado! 

Amigo da vítima: Pode deixar. 

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Contato

Buscando os lisos universitários | um passatempo que não muito exija, | retiram lá de cima do armário | um roto e velho tabuleiro ouija…

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Buscando os lisos universitários
um passatempo que não muito exija,
retiram lá de cima do armário
um roto e velho tabuleiro ouija…

Colocam, sem conter a estranheza,
em meio à roda de sentados corpos,
o alfabeto todo sobre a mesa,
e os dedos apoiados num só copo...

Momentos de silêncio… Inicia
a troca de olhares: quem faria
a corajosa, inaugural questão…?

o M é indicado… O e R…
depois o T… o E… não mais alegres,
Aos gritos, todos fogem da sessão!

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Coração de poeta

Essa massa purulenta | cuja dor e sofrimento | o meu peito, enquanto aguenta, | faz por ela um juramento, | tem por força de promessa…

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Essa massa purulenta
cuja dor e sofrimento
o meu peito, enquanto aguenta,
faz por ela um juramento,
tem por força de promessa
um sinal de que tem cura:
algo indica, mesmo infesta,
pois mais quero — e mais perfura.

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Hermético

Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás…

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Tudo começou com uma reminiscência. Caminhando pela rua, por alguma calçada que serviu de gatilho, voltei vinte anos atrás. Tempo bom aquele em que brincava, em que o dia de amanhã não me preocupava. Pulando como simples criança, lembrei da brincadeira de saltar linhas, evitando pisar nas demarcações que formavam ângulos nas lajotas da cidade. Por algum motivo incontornável, levei a sério a missão que retornava: não podia mais calçar as retas. 

Assim voltei para casa, atento a cada passo, sem deixar nem mesmo um centímetro da ponta dos pés avançar sobre as cruzadas formas, podendo apenas me deslocar pousando por inteiro a planta dos pés nas plataformas lisas. 

Subir as escadas do condomínio me impôs igual atitude — desviar de toda borda; porém, algo me afligiu: pular de dois em dois degraus mostrou-se nova ordem. A praxe era me adaptar a essa súbita necessidade, sem duvidar nem pôr em descrédito a seriedade do que agora me controlava. Rapidamente, essa maneira de subir os degraus me levou à porta de casa, onde me pus a pensar: até onde irá isso? 

Lá dentro, agora automatizado meu comportamento de pisar no interior das formas geométricas do piso, forcejando até ficar na ponta dos pés em alguns momentos, comecei a organizar minhas coisas. Mochilas, pratos, livros, canetas... Tudo à minha frente foi realocado de maneira a parecer em ordem, numa sequência lógica para mim e para os meus olhos. Satisfeito com a sistematização dos itens — que avançara para um jeito de deixar as coisas verticais o mais verticalmente possível e as horizontais o mais horizontalmente possível —, sentei-me para refletir, no meio do sofá. 

Parado, mas consciente, observei a disposição de minha casa e até onde haviam chegado as últimas consequências de uma brincadeira levada a sério. Aquilo era, no fim das contas, nada mais do que o que meu dia a dia solicitava: a padronização do ser, a ordem social ampliada ao arranjo individual dos objetos. Faltava, para uma completa satisfação do mundo e de mim mesmo, alcançar agora a ordenação microscópica do organismo, daquele universo unicamente alcançável por minha ação... 

Sem pensar duas vezes — o que já era impossível — tratei de fechar meus olhos para o mundo, seguido de minha respiração, buscando uma completa unidade... 

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Manequim

De bruços | amortalhado | escondo o rosto e | não rezo | há dias que me rendi | às horas | à persecução | desse uniforme humano…

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De bruços
amortalhado
escondo o rosto e
não rezo

há dias que me rendi
às horas
à persecução
desse uniforme humano

em sua pose
santificado
ele é quem me acorda
ele é quem me atesta 

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Déjà-vu

De soslaio | en passant | caminho retrátil da vida | a vida | sensorialmente | num piscar de olhos |desembarque brusco | ato que rende e assalta…

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De soslaio  
           en passant
caminho retrátil da vida 

a vida
           sensorialmente
num piscar de olhos

desembarque brusco
ato que rende e assalta
o trem cronológico dos fatos 
espécie de horror
ao lado

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