Velian em Agonihria: Os Dentes do Abandono

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas. O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas.

O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no cômodo escuro. As estantes repletas de livros antigos e modernos. As cortinas pesadas impedindo a entrada do sol nordestino. Nada havia mudado.

E, ainda assim, algo nele estava diferente.

Nas noites que se seguiram ao retorno, vagou pelas ruas da cidade sem propósito definido. Caminhava pela Beira-Mar observando as barracas que encerravam suas atividades, os pescadores preparando embarcações para a madrugada, os vendedores desmontando estruturas sob o vento constante que vinha do Atlântico. Fortaleza nunca dormia completamente; apenas diminuía o ritmo. Havia sempre alguém acordado, alguém amando, alguém brigando, alguém chorando.

Os humanos insistiam em existir com uma intensidade que o fascinava.

Séculos atrás, aquilo lhe parecera ridículo.

Décadas atrás, invejável.

Agora lhe parecia belo.

Talvez porque finalmente compreendesse que a fragilidade era parte daquilo que tornava cada momento significativo.

Ou talvez estivesse apenas envelhecendo.

Sorriu diante da própria conclusão.

— Um vampiro envelhecendo. Que piada de mau gosto.

Continuou caminhando.

O vento espalhava o cheiro da maresia pelas avenidas. Ao longe, um pequeno bar ainda mantinha música acesa na madrugada. Vozes embriagadas misturavam-se ao som distante do mar. Velian observava tudo como quem contempla uma peça teatral conhecida.

Desde o encontro com Cassandra, algo permanecia inquieto em sua mente.

Não era saudade.

Jamais utilizaria uma palavra tão humana.

Mas a lembrança dela surgia ocasionalmente.

O sorriso irônico.

Os olhos vermelhos.

A maneira como debochava de suas perguntas.

A forma como parecia compreender a escuridão sem precisar interrogá-la constantemente.

Talvez fosse isso que mais o irritava.

Ou admirava.

Ainda não decidira.

Também pensava em Nix.

A Senhora da Noite não lhe concedera respostas. Pelo contrário. Desde aquele encontro, as perguntas haviam se multiplicado. Contudo, agora possuíam outra textura. Já não eram apenas feridas abertas buscando explicações. Tornaram-se caminhos.

Velian continuava sem compreender a existência.

Continuava sem compreender a eternidade.

Continuava sem compreender a si mesmo.

Mas passara a gostar da busca.

Aquilo era novo.

Durante muito tempo procurara respostas para preencher um vazio.

Agora buscava porque desejava conhecer.

Talvez houvesse diferença.

Talvez não.

As dúvidas permaneciam.

Como sempre.

A madrugada avançava lentamente quando o frio chegou.

Um frio impossível.

Não era o vento do oceano.

Nem uma mudança climática comum.

Era um frio antigo.

Sobrenatural.

O tipo de frio que atravessava carne, osso e memória.

Velian parou imediatamente.

Uma cinza negra caiu sobre seu ombro.

Depois outra.

E outra.

Levantou a mão.

Os fragmentos escuros pareciam pequenos pedaços de carvão reduzidos a pó. Possuíam um odor estranho. Não o cheiro comum da fumaça, mas algo semelhante a flores apodrecidas, madeira úmida e tecido guardado durante séculos.

Conhecia aquele sinal.

O Castelo Drácula estava chamando.

Porém havia algo diferente.

Normalmente o chamado possuía um aspecto quase curioso, como uma porta se abrindo para mais um mistério.

Desta vez parecia um pedido de socorro.

Ou um aviso.

As sombras começaram a reunir-se diante dele.

As luzes da avenida tornaram-se distantes.

Os sons da cidade enfraqueceram.

Até mesmo o mar pareceu recuar.

Velian suspirou.

— Espero sinceramente que desta vez ninguém tente me ensinar outra metáfora sobre a existência.

As sombras abriram-se.

E ele atravessou.

O impacto foi imediato.

Agonihria.

O nome surgiu em sua mente como uma lembrança esquecida.

Cinzas negras caíam continuamente do céu.

Uma névoa púrpura espalhava-se entre as torres do Castelo Drácula como um organismo vivo.

O ar possuía cheiro de decomposição.

Não a decomposição comum da carne.

Mas algo mais antigo.

O odor de memórias esquecidas.

De sonhos abandonados.

De promessas que jamais foram cumpridas.

O Castelo parecia diferente.

Mais alto.

Mais vasto.

Como se tivesse envelhecido milhares de anos desde a última visita.

As muralhas estavam parcialmente cobertas por musgos escuros. Rochas pontiagudas emergiam dos jardins. Pinheiros negros curvavam-se sob o peso das cinzas.

E havia silêncio.

Um silêncio tão profundo que parecia observar.

Velian avançou pelos corredores.

As sombras pareciam mais densas.

As paredes suadas pela umidade refletiam discretamente a luz violeta que filtrava-se pelas janelas.

A cada passo sentia uma estranha sensação de abandono.

Como se estivesse caminhando através das ruínas emocionais de alguém.

Ou de alguma coisa.

Os corredores pareciam maiores do que deveriam.

As distâncias alteravam-se.

Portas surgiam onde antes não existiam.

Escadas conduziam a lugares impossíveis.

O próprio Castelo parecia sonhar.

E o sonho não era agradável.

Então ouviu uma voz familiar.

— Continuas com a péssima mania de chegar atrasado.

Velian sorriu antes mesmo de vê-la.

Cassandra estava encostada numa coluna próxima a uma janela quebrada. Os longos cabelos escuros caíam pelos ombros. O vestido negro contrastava com a pele pálida. Seus olhos vermelhos observavam a tempestade de cinzas que caía além do vidro.

Por um instante, a opressão de Agonihria pareceu diminuir.

Apenas um instante.

— Pensei que estivesses no Rio.

— Eu estava.

— E agora estás aqui.

— Excelente dedução.

— Séculos de prática.

O sorriso dela surgiu discreto.

— Vejo que ainda não encontraste respostas.

— Vejo que ainda finges não fazer perguntas.

Cassandra soltou uma breve gargalhada.

— Talvez eu apenas seja mais inteligente.

— Ou mais teimosa.

— Também.

Por alguns segundos permaneceram observando a paisagem espectral.

As cinzas continuavam caindo.

A névoa ondulava entre as torres.

O Castelo parecia respirar.

Então Cassandra tornou-se séria.

Algo raro.

— Este lugar está errado.

Velian voltou o olhar para ela.

— O Castelo costuma estar errado.

— Não desta forma.

O tom de sua voz bastou.

Cassandra raramente demonstrava preocupação.

Quando o fazia, havia motivo.

— O que encontraste?

— Nada.

— Isso parece ruim.

— É pior.

Ela afastou-se da coluna.

— O Castelo está vazio.

Velian sentiu um leve arrepio.

Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.

O Castelo Drácula jamais estava vazio.

Sempre havia vozes.

Presenças.

Monstros.

Ecos.

Memórias.

Alguma coisa.

Mas agora existia apenas silêncio.

E o silêncio parecia faminto.

O silêncio parecia faminto.

Velian e Cassandra avançaram pelos corredores do Castelo Drácula sem dizer mais nada durante alguns minutos. Em circunstâncias normais, ambos trocariam provocações incessantes. Era quase um hábito antigo. Contudo, Agonihria possuía uma maneira peculiar de tornar o humor mais difícil.

As cinzas negras continuavam caindo do lado de fora.

Em determinados momentos, Velian teve a impressão de ouvir vozes misturadas ao som do vento.

Sussurros.

Lamentos.

Palavras incompreensíveis.

Quando tentava escutá-las melhor, desapareciam.

O corredor começou a estreitar-se.

Ou talvez estivesse apenas parecendo mais estreito.

Em Agonihria era difícil distinguir realidade de percepção.

As paredes de pedra deram lugar a superfícies cobertas por papel decorativo antigo. Arabescos púrpura espalhavam-se por desenhos florais quase apagados pela umidade. Fungos escuros consumiam os cantos. Em alguns trechos, o papel descascava lentamente como pele morta desprendendo-se de um cadáver.

O cheiro tornou-se mais intenso.

Mofo.

Ferrugem.

Terra molhada.

E algo mais.

Algo químico.

Doentio.

Cassandra aproximou os dedos de uma das paredes.

— Arsênio.

Velian arqueou uma sobrancelha.

— Claro que você sabe reconhecer arsênio pelo cheiro.

— E você não?

— Não costumo cheirar venenos por diversão.

— Falha de caráter.

Continuaram caminhando.

A arquitetura mudava à medida que avançavam. O aspecto medieval do Castelo desaparecia gradualmente. Corredores vitorianos surgiam diante deles. Lustres enferrujados pendiam do teto. Tapetes antigos apodreciam sob os próprios fios.

Tudo parecia abandonado havia séculos.

E, ainda assim, existia uma estranha sensação de presença.

Como se alguém observasse através das paredes.

Como se alguma coisa aguardasse.

Velian percebeu primeiro.

— Estamos sendo seguidos.

Cassandra não demonstrou surpresa.

— Eu sei.

— Há quanto tempo?

— Desde que chegamos.

— E não pretendias comentar?

— Estava curiosa.

— Evidentemente.

Uma sombra moveu-se no final do corredor.

Depois desapareceu.

Outra surgiu atrás deles.

Em seguida uma terceira.

Velian estreitou os olhos.

As formas eram humanoides.

Mas algo estava errado.

Os movimentos pareciam quebrados.

Como marionetes manipuladas por mãos invisíveis.

Nenhum som acompanhava seus passos.

Nenhuma respiração.

Nenhum coração.

Nada.

Apenas presença.

Continuaram avançando.

Os vultos também.

Sem atacar.

Sem se aproximar demais.

Apenas observando.

Como animais avaliando uma presa.

Ou talvez convidados.

A mansão revelou-se subitamente.

Nenhum dos dois percebeu exatamente quando chegaram.

Ela simplesmente estava ali.

Uma enorme construção vitoriana erguida no interior do Castelo.

Janelas altas.

Paredes cobertas de fungos.

Varandas corroídas pelo tempo.

O lugar parecia existir fora da lógica.

Como se tivesse sido sonhado por alguém que nunca conhecera arquitetura.

Velian observou a construção durante alguns segundos.

— Tenho uma péssima sensação sobre isso.

— Então estamos no caminho certo.

— Eu realmente detesto tua lógica.

Subiram os degraus.

A porta abriu-se sozinha.

O interior mergulhava numa penumbra violeta.

Velas apagadas ocupavam castiçais enferrujados.

Quadros cobertos por tecido acumulavam poeira.

Relógios antigos permaneciam imóveis.

Nenhum marcava a mesma hora.

Nenhum parecia marcar hora alguma.

Então ouviram.

Um som.

Baixo.

Distante.

Como alguém mastigando.

Velian parou.

O som repetiu-se.

Mastigação.

Lenta.

Úmida.

Persistente.

— Diga que ouviu isso.

— Infelizmente.

O ruído aumentou.

Veio do andar superior.

Depois de outro cômodo.

Depois de vários lugares ao mesmo tempo.

Como se dezenas de bocas trabalhassem simultaneamente.

Mastigando.

Roendo.

Triturando.

A mansão inteira parecia alimentar-se de alguma coisa.

O desconforto espalhou-se pelo ambiente.

Pela primeira vez desde que chegara, Velian sentiu uma antiga sensação emergir.

Medo.

Não o medo comum dos mortais.

Mas aquele raro desconforto que apenas os verdadeiros mistérios provocavam.

Continuaram avançando.

O som tornou-se mais próximo.

Mais intenso.

Mais orgânico.

Até encontrarem o quarto.

A porta estava entreaberta.

O cheiro era insuportável.

Mofo.

Ferrugem.

Carne deteriorada.

Sangue antigo.

E aquele estranho odor químico vindo dos papéis de parede.

No centro do aposento havia uma cama vitoriana.

Os lençóis estavam rasgados.

Escurecidos.

Como se décadas de poeira houvessem se acumulado sobre eles.

Diante da cama erguia-se um espelho gigantesco.

A moldura era ornamentada com flores esculpidas.

Mas as flores pareciam apodrecidas.

Distorcidas.

Quase vivas.

Velian aproximou-se.

O próprio reflexo surgiu.

Algo impossível.

Vampiros não possuíam reflexos.

Mas Agonihria não parecia interessar-se por regras.

Cassandra apareceu ao lado dele.

Ela também estava refletida.

Por alguns instantes nada aconteceu.

Então os reflexos sorriram.

Nenhum dos dois sorrira.

O silêncio tornou-se absoluto.

As versões refletidas permaneceram observando-os.

Imóveis.

Então o reflexo de Cassandra inclinou a cabeça.

— Ainda finges que não sentes falta deles?

A verdadeira Cassandra permaneceu imóvel.

Velian percebeu imediatamente.

A pergunta atingira algum lugar profundo.

O reflexo continuou.

— De todos os amantes.

De todos os discípulos.

De todos os amigos.

De todos os mortos.

A figura refletida sorriu.

— Quantos nomes ainda consegues lembrar?

Cassandra fechou os olhos por um instante.

Apenas um instante.

Mas foi suficiente.

Velian nunca a vira hesitar daquela maneira.

Então o espelho voltou-se para ele.

Seu reflexo observou-o com olhos completamente negros.

— E tu?

A voz era sua.

Mas não era.

— Quantas respostas procuraste apenas para não admitir que tens medo?

Velian sustentou o olhar.

— Medo de quê?

O reflexo sorriu.

— De continuar existindo.

O quarto pareceu escurecer.

As sombras tornaram-se mais densas.

— De continuar desejando.

De continuar perdendo.

De continuar sobrevivendo enquanto tudo desaparece.

As palavras ecoaram pelo aposento.

Velian sentiu algo apertar seu peito.

Porque não eram mentiras.

O espelho compreendia.

E isso era pior.

Muito pior.

Uma rachadura surgiu na superfície refletora.

Depois outra.

E outra.

O som espalhou-se pelo quarto.

Lento.

Cruel.

Como ossos partindo-se sob pressão.

As rachaduras multiplicaram-se.

Até que algo começou a emergir.

Primeiro uma mão.

Depois um braço.

Em seguida um rosto.

Ou aquilo que um dia fora um rosto.

A criatura arrastou-se para fora do espelho.

Sua pele era cinzenta.

Os olhos completamente ocos.

E dentes.

Dentes por toda parte.

Nas faces.

Nos ombros.

Nos braços.

No pescoço.

Nas costelas.

Centenas deles.

Talvez milhares.

A criatura arrancou um dos próprios dentes.

Sorriu.

Então o mastigou.

Outro nasceu imediatamente.

Mais criaturas começaram a surgir.

Uma após outra.

Arrastando-se para fora dos espelhos rachados.

Todas cobertas por dentes.

Todas sorrindo.

Todas sofrendo.

Todas parecendo sentir prazer na própria dor.

O quarto inteiro foi preenchido pelo som.

Mastigação.

Estalos.

Dentes quebrando.

Dentes crescendo.

Dentes sendo arrancados.

As criaturas observavam os dois vampiros.

E então falaram.

Não individualmente.

Mas como uma única voz.

Uma voz composta por centenas de gargantas.

— O abandono nos criou.

— A perda nos alimenta.

— O esquecimento nos fortalece.

Uma delas aproximou-se de Velian.

Seus olhos vazios refletiam apenas escuridão.

— Quantos partiram?

Outra surgiu ao lado.

— Quantos ainda partirão?

Mais uma.

— Quantos nomes esqueceste?

As criaturas começaram a cercá-los lentamente.

Sorrindo.

Mastigando.

Esperando.

E, pela primeira vez desde a chegada ao Castelo, Cassandra abandonou completamente a expressão irônica.

Porque compreendeu a mesma coisa que Velian.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Agonihria não pretendia matá-los.

Pretendia fazê-los lembrar.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

As criaturas continuaram cercando-os lentamente. O som dos dentes partindo-se entre suas mandíbulas preenchia o quarto. Era um ruído quase hipnótico. Monótono. Persistente. Como um relógio macabro medindo o tempo através da dor.

Velian observou uma delas mais atentamente.

Os dentes não cresciam ao acaso.

Cada um parecia diferente.

Alguns eram humanos.

Outros lembravam presas de animais.

Outros ainda possuíam formatos impossíveis.

Como se cada dente fosse uma memória petrificada.

Uma perda.

Uma ferida.

Uma ausência.

A criatura mais próxima abriu a boca.

Lá dentro não havia língua.

Nem garganta.

Apenas mais dentes.

Infinitos dentes.

Velian sentiu a escuridão de Nix mover-se em algum lugar profundo de sua consciência.

Não como uma arma.

Mas como uma presença.

Uma vastidão silenciosa observando tudo.

A Noite primordial.

Antiga demais para temer monstros.

Antiga demais para temer abandono.

A criatura avançou.

E Cassandra foi a primeira a agir.

Símbolos negros incendiaram-se ao redor de seus braços. Runas antigas surgiram sobre a própria pele como serpentes feitas de sombra. O ar vibrou.

Então a vampira ergueu uma das mãos.

Uma explosão de energia atravessou o aposento.

Três criaturas foram arremessadas contra a parede.

Os corpos despedaçaram-se.

Dentes espalharam-se pelo chão.

Por um instante, o silêncio retornou.

Então os dentes começaram a mover-se.

Velian observou-os reorganizarem-se.

Unindo-se.

Reconstruindo carne.

Tecendo ossos.

Poucos segundos depois, as criaturas estavam novamente de pé.

Sorrindo.

Sempre sorrindo.

— Eu odeio lugares simbólicos — resmungou Velian.

— Eu avisei que algo estava errado.

— Você avisou que o Castelo estava vazio.

— E estava.

Uma gargalhada ecoou pelo aposento.

Não partira de Cassandra.

Nem de Velian.

Partira das próprias criaturas.

Centenas de vozes misturadas.

Centenas de gargantas.

Centenas de abandonos.

As paredes começaram a pulsar.

O papel decorativo desprendia-se lentamente.

Sob ele surgiam inscrições.

Nomes.

Milhares deles.

Nomes riscados.

Esquecidos.

Apagados.

Alguns escritos em idiomas mortos.

Outros em línguas que Velian jamais vira.

As criaturas continuavam aproximando-se.

— O que achas que são? — perguntou ele.

Cassandra não desviou os olhos dos monstros.

— Pessoas.

— Isso é reconfortante.

— Pessoas esquecidas.

— Ah. Menos reconfortante.

Uma das criaturas saltou.

Velian moveu-se imediatamente.

As garras atravessaram o peito do monstro.

O corpo abriu-se.

E algo caiu no chão.

Não sangue.

Não vísceras.

Mas fotografias.

Cartas.

Flores secas.

Objetos pessoais.

Pequenos fragmentos de vidas perdidas.

A criatura desfez-se em cinzas.

Outra ocupou seu lugar.

Depois outra.

Depois mais três.

A mansão inteira pareceu despertar.

Passos ecoaram pelos corredores.

Portas abriram-se sozinhas.

Espelhos racharam.

O som da mastigação tornou-se ensurdecedor.

E então Agonihria revelou algo ainda pior.

As criaturas começaram a mudar.

Seus rostos tornaram-se familiares.

Velian reconheceu alguns.

Um antigo amante da França medieval.

Uma mulher que conhecera durante o século XVIII.

Um jovem poeta que o acompanhara durante alguns anos em Lisboa.

Todos mortos.

Todos desaparecidos.

Todos transformados em algo grotesco.

As criaturas sorriram.

— Ainda lembras.

— Ainda dói.

— Ainda desejas.

Velian sentiu o golpe.

Não físico.

Mas emocional.

Porque lembrava.

Lembrava de todos.

Não dos rostos apenas.

Dos gestos.

Das vozes.

Dos momentos.

Das despedidas.

A eternidade possuía uma crueldade peculiar.

Tudo se transformava em fantasma.

Mesmo as memórias felizes.

Do outro lado do aposento, Cassandra permanecia imóvel.

As criaturas cercavam-na.

E também haviam mudado.

Velian observou sua expressão endurecer.

Os monstros assumiam formas que ele não reconhecia.

Mas Cassandra reconhecia.

Isso bastava.

Por um momento, a vampira desviou o olhar.

Por um único instante.

E aquilo era mais assustador do que qualquer monstro.

Porque Cassandra raramente olhava para trás.

Raramente permitia-se recordar.

As criaturas aproximaram-se dela.

— Ainda sentes falta deles.

— Ainda carregas seus nomes.

— Ainda finges que não te importas.

A magia ao redor da vampira explodiu violentamente.

As janelas estilhaçaram-se.

As paredes tremeram.

Diversas criaturas foram destruídas instantaneamente.

Mas nenhuma desapareceu.

Continuavam retornando.

Sempre retornando.

Velian compreendeu.

Não importava quantas fossem destruídas.

Não estavam lutando contra corpos.

Estavam lutando contra uma ideia.

Contra um sentimento.

Contra algo muito mais antigo que carne e osso.

O Castelo inteiro estremeceu.

As cinzas negras começaram a cair dentro da mansão.

A névoa púrpura infiltrou-se pelas rachaduras.

Os corredores pareciam alongar-se.

As portas desapareciam.

As paredes moviam-se.

Como se Agonihria estivesse fechando suas mãos ao redor deles.

Então uma voz surgiu.

Profunda.

Distante.

Maior que todas as outras.

Uma voz que parecia vir do próprio Castelo.

Ou talvez do próprio vazio.

— Tudo será esquecido.

As criaturas silenciaram imediatamente.

A mansão inteira silenciou.

Até mesmo a mastigação cessou.

A voz continuou.

— Toda paixão.

Toda memória.

Toda conquista.

Todo amor.

Todo conhecimento.

Tudo.

Velian sentiu a temperatura cair ainda mais.

As sombras tornaram-se densas.

Espessas.

Quase líquidas.

E algo começou a surgir do espelho destruído.

Algo enorme.

Muito maior do que as criaturas.

Uma massa de escuridão coberta por milhares de olhos vazios e bocas repletas de dentes.

Os dentes moviam-se sozinhos.

Como insetos.

Como parasitas.

Como pensamentos doentes.

A entidade ergueu-se lentamente.

Sua cabeça quase tocava o teto.

Os olhos observavam Velian.

Observavam Cassandra.

Observavam tudo.

— Eu sou o abandono.

A voz fez a mansão inteira tremer.

— Eu sou aquilo que permanece quando tudo parte.

Uma das bocas abriu-se.

Depois outra.

Depois centenas.

— Eu sou o silêncio após o último adeus.

Velian percebeu que até Cassandra havia ficado imóvel.

Não por medo.

Mas por reconhecimento.

Aquilo não era uma criatura.

Não era um fantasma.

Não era um demônio.

Era um conceito.

Uma manifestação.

Uma ferida transformada em existência.

E Agonihria era seu reino.

A entidade voltou-se para Velian.

Milhares de olhos vazios observando-o simultaneamente.

— Tu conheces meu nome.

Velian sustentou o olhar.

— Conheço.

— Caminhas comigo há séculos.

— Sim.

— Então por que continuas procurando?

O silêncio espalhou-se.

Mesmo Cassandra voltou-se para ele.

A pergunta parecia destinada apenas a Velian.

Mas talvez fosse destinada a todos.

Ao Castelo.

À humanidade.

À própria eternidade.

A entidade aproximou-se.

As sombras tornaram-se ainda mais profundas.

— Por que continuas desejando?

— Por que continuas amando?

— Por que continuas buscando?

A voz tornou-se mais suave.

Mais perigosa.

— Não aprendeste nada?

Durante alguns segundos Velian não respondeu.

Porque aquela era exatamente a pergunta que o perseguira durante séculos.

E talvez fosse a pergunta que definia sua existência.

Então sentiu novamente a presença de Nix.

Não uma resposta.

Jamais uma resposta.

Apenas a vastidão da noite.

A escuridão infinita onde estrelas nasciam e morriam sem alterar sua essência.

A noite não prometia sentido.

Apenas existência.

E, estranhamente, aquilo bastava.

Velian sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas genuíno.

E então respondeu.

— Aprendi exatamente o contrário.

— Aprendi exatamente o contrário.

A entidade permaneceu imóvel.

Os milhares de olhos vazios observavam Velian.

As centenas de bocas repletas de dentes permaneciam abertas.

Esperando.

O silêncio tornou-se quase absoluto.

Então Velian deu um passo à frente.

A névoa púrpura girava ao redor de seus pés. As cinzas negras continuavam caindo através das janelas destruídas da mansão. Ao longe, o Castelo Drácula parecia respirar como um organismo colossal adormecido.

— Passei séculos acreditando que precisava encontrar respostas — disse ele. — Depois passei séculos acreditando que precisava encontrar prazeres. Depois poder. Depois conhecimento. Depois esquecimento.

A criatura permaneceu imóvel.

— E encontraste?

Velian sorriu.

— Às vezes.

A resposta pareceu irritar a manifestação.

As sombras ao redor dela estremeceram.

— Às vezes?

— Sim. Às vezes encontrei prazer. Às vezes encontrei amor. Às vezes encontrei conhecimento. Às vezes encontrei companhia.

A entidade inclinou lentamente a cabeça.

— E perdeste tudo.

— Sim.

— Todos morreram.

— Sim.

— Todos partiram.

— Sim.

A criatura pareceu crescer.

As paredes da mansão rangeram.

Os espelhos restantes começaram a rachar.

— Então eu venci.

Velian ficou em silêncio por alguns instantes.

Então riu.

Uma gargalhada breve.

Sincera.

Quase humana.

Até Cassandra pareceu surpresa.

— Não. — respondeu ele. — É justamente aí que está o erro.

Os olhos da entidade estreitaram-se.

— Explica.

— Eles partiram.

Mas existiram.

A resposta espalhou-se pelo aposento como uma pedra lançada em águas imóveis.

A manifestação permaneceu imóvel.

Velian continuou.

— Vivi tempo suficiente para esquecer rostos.

Esquecer nomes.

Esquecer cidades inteiras.

Vi impérios nascerem e desaparecerem.

Vi religiões mudarem.

Vi pessoas morrerem.

Vi amores acabarem.

Mas o fato de algo terminar não significa que nunca tenha existido.

As criaturas dos dentes começaram a recuar lentamente.

Como se alguma força invisível as incomodasse.

— O abandono não apaga aquilo que foi vivido.

Ele apenas vem depois.

A entidade permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez parecia não possuir resposta imediata.

Velian sentiu algo mover-se dentro de si.

Não era fome.

Não era violência.

Não era desejo.

Era a presença de Nix.

A noite.

A verdadeira noite.

Não a escuridão do medo.

Não a ausência de luz.

Mas a vastidão primordial que existia antes dos homens nomearem as coisas.

A escuridão que não julgava.

Que não exigia respostas.

Que apenas era.

Sombras começaram a reunir-se ao redor dele.

Não eram agressivas.

Não eram monstruosas.

Eram profundas.

Infinitas.

Belas.

As cinzas negras tocaram seu corpo e desapareceram.

A névoa púrpura começou a dissolver-se.

A entidade recuou pela primeira vez.

— O que és agora?

A pergunta veio quase como um sussurro.

Velian pensou por alguns segundos.

— Não faço ideia.

A resposta arrancou um sorriso de Cassandra.

— Essa é a coisa mais honesta que já disseste em décadas.

— Eu estava tentando impressionar uma manifestação metafísica.

— Está funcionando.

A entidade rugiu.

As paredes da mansão estremeceram.

Centenas de criaturas avançaram simultaneamente.

Desta vez não havia intenção de dialogar.

Apenas destruir.

Apenas consumir.

Apenas transformar tudo em silêncio.

Então Cassandra avançou.

A vampira ergueu ambas as mãos.

Runas negras incendiaram-se ao redor de seu corpo. Símbolos antigos surgiram sobre sua pele como serpentes de sombra líquida.

Velian sentiu o impacto do poder imediatamente.

Mesmo após todos aqueles séculos, Cassandra continuava sendo uma das criaturas mais perigosas que conhecera.

Talvez a mais perigosa.

O ar tornou-se pesado.

As janelas explodiram.

As sombras da própria mansão começaram a obedecê-la.

— Sempre odiei coisas que tentam me dizer o que sentir.

A magia expandiu-se.

Dezenas de criaturas foram arremessadas contra paredes e colunas.

Outras simplesmente desintegraram-se.

Mas não retornaram.

Porque agora não estavam sendo destruídas apenas fisicamente.

Algo mais profundo acontecia.

A presença de Nix espalhava-se.

A manifestação do abandono começou a enfraquecer.

As criaturas hesitavam.

Os dentes quebravam-se.

As formas tornavam-se instáveis.

Velian compreendeu.

Agonihria alimentava-se de uma única certeza:

Que tudo era vazio.

Que toda conexão era inútil.

Que toda existência terminava em abandono.

Mas ele já não acreditava nisso.

Nem Cassandra.

E aquela convicção possuía poder.

Mais poder do que imaginara.

A entidade rugiu novamente.

Milhares de bocas abriram-se simultaneamente.

O som foi tão intenso que parte da mansão desabou.

Colunas partiram-se.

O teto rachou.

Cinzas negras caíram como chuva.

Então Velian avançou.

A velocidade foi quase invisível.

As sombras reuniram-se ao redor de suas mãos.

Não como lâminas.

Não como armas.

Mas como fragmentos da própria noite.

Ele atravessou a tempestade de dentes.

Atravessou os gritos.

Atravessou as sombras.

E alcançou o coração da manifestação.

Por um instante viu algo.

Não uma criatura.

Não um monstro.

Mas uma criança esquecida.

Um amante abandonado.

Um velho morrendo sozinho.

Uma mãe chorando.

Um amigo perdido.

Milhares de solidões acumuladas.

Milhares de dores.

Milhares de despedidas.

Agonihria era feita delas.

Velian fechou os olhos.

E compreendeu.

Nem mesmo aquele horror desejava existir.

A entidade nasceu porque alguém sofrera.

Porque muitos sofreram.

Porque o abandono existe.

Sempre existirá.

Então tocou a criatura.

Apenas tocou.

E a noite respondeu.

A escuridão de Nix espalhou-se através da manifestação.

Não para destruí-la.

Mas para envolvê-la.

Como o céu envolve as estrelas.

Como o oceano envolve os rios.

Como a noite envolve os sonhos.

A criatura parou de lutar.

As bocas silenciaram.

Os dentes deixaram de crescer.

Os olhos vazios fecharam-se lentamente.

E então Agonihria começou a ruir.

A mansão inteira tremeu.

Os corredores partiram-se.

Os espelhos explodiram.

As paredes cobertas por arsênio e mofo desmancharam-se.

O Castelo Drácula inteiro estremeceu.

Como se despertasse de um pesadelo.

As criaturas desapareceram.

As cinzas negras tornaram-se poeira comum.

A névoa púrpura dissipou-se.

O silêncio retornou.

Mas agora era diferente.

Não era um silêncio faminto.

Era apenas silêncio.

E, pela primeira vez desde que chegaram, Velian sentiu paz.

Uma paz estranha.

Breve.

Mas real.

Ao seu lado, Cassandra observava os destroços.

— Então era isso.

— Era.

— Continua irritantemente filosófico.

— Continua irritantemente poderosa.

— Justo.

Ao redor deles, Agonihria desaparecia.

E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu necessidade de procurar respostas.

Bastava caminhar para fora daquele pesadelo.

Pelo menos por enquanto.

Pelo menos por enquanto.

Os corredores do Castelo Drácula reapareciam lentamente ao redor deles.

A mansão vitoriana desaparecera.

Os espelhos.

Os papéis de parede apodrecidos.

As criaturas dos dentes.

Tudo parecia dissolver-se como um sonho que já não conseguia sustentar a própria existência.

Restavam apenas os antigos corredores de pedra.

As colunas monumentais.

As janelas arqueadas que revelavam a noite eterna além dos limites do castelo.

Por algum tempo, Velian e Cassandra caminharam sem dizer nada.

Não havia urgência.

Talvez porque ambos compreendessem que certos silêncios possuem mais significado que muitas conversas.

As cinzas negras haviam desaparecido.

A névoa púrpura também.

No alto, estrelas impossíveis brilhavam sobre Soramithia.

O eclipse perpétuo pairava sobre o horizonte como um olho adormecido.

O Castelo parecia tranquilo.

Não alegre.

Jamais alegre.

Mas tranquilo.

Como um animal antigo que finalmente voltara a repousar.

Velian observava as janelas enquanto caminhavam.

O tempo.

Sempre o tempo.

Séculos atrás acreditara que a eternidade era um prêmio.

Depois pensara que fosse uma maldição.

Agora já não tinha certeza de nenhuma das duas coisas.

Talvez fosse apenas uma condição.

Uma estrada longa demais para ser compreendida de uma só vez.

— Estás pensando demais de novo.

A voz de Cassandra surgiu ao seu lado.

Velian sorriu.

— É uma acusação injusta.

— Não é.

— Talvez um pouco.

Ela soltou uma breve gargalhada.

O som ecoou pelos corredores vazios.

Por um instante, pareceu afastar séculos de escuridão.

— Sabes — disse Cassandra — quando te conheci, imaginei que acabarias enlouquecendo.

— Ainda há tempo.

— Não. Agora não.

Velian voltou-se para ela.

A vampira mantinha os olhos voltados para frente.

Como se observasse algo distante.

Algo que apenas ela conseguia enxergar.

— Mudaste.

— Isso costuma acontecer ao longo de alguns séculos.

— Não dessa forma.

O silêncio retornou.

Velian percebeu que ela estava sendo sincera.

Algo raro.

Muito raro.

— Antes procuravas respostas porque estavas desesperado.

Agora procuras porque estás curioso.

— Há diferença?

— Toda diferença do mundo.

Continuaram caminhando.

As palavras permaneceram entre eles.

Velian não respondeu imediatamente.

Porque Cassandra estava certa.

Durante muito tempo suas perguntas haviam sido uma tentativa de escapar.

Do vazio.

Da solidão.

Da própria eternidade.

Agora eram apenas perguntas.

E isso as tornava mais leves.

Mais honestas.

Mais humanas.

Atravessaram uma enorme galeria onde estátuas antigas observavam os visitantes com olhos de pedra.

Algumas representavam reis esquecidos.

Outras criaturas que jamais existiram.

Outras ainda pareciam deuses tão antigos que nem mesmo seus nomes sobreviveram.

Velian parou diante de uma delas.

Uma figura feminina envolta por sombras esculpidas.

O rosto parcialmente oculto.

Os olhos voltados para o céu.

Nix.

Ou ao menos uma interpretação dela.

A Senhora da Noite.

A deusa que jamais lhe concedera respostas.

Apenas perspectivas.

Sorriu.

Talvez aquele tivesse sido o maior presente.

— Ainda pensas nela? — perguntou Cassandra.

— Às vezes.

— Encontraste o que procuravas?

Velian observou a estátua.

— Não.

— Eu sabia.

— Mas encontrei algo melhor.

Cassandra ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

— Mais perguntas.

Ela revirou os olhos.

— Definitivamente continuas sendo tu.

Saíram da galeria.

Os corredores começaram a mudar.

As sombras tornaram-se mais finas.

O ar mais leve.

O Castelo estava liberando-os.

A despedida aproximava-se.

Ambos sabiam.

Nenhum comentou.

Até que alcançaram um dos grandes salões de transição entre mundos.

Ali, as realidades misturavam-se.

Portas conduziam a lugares impossíveis.

Séculos diferentes.

Dimensões distintas.

Sonhos.

Pesadelos.

Memórias.

O Rio de Janeiro aguardava Cassandra atrás de uma das passagens.

Fortaleza aguardava Velian atrás de outra.

Permaneceram alguns instantes em silêncio.

Estranhamente, aquela parecia a parte mais difícil da noite.

Não enfrentar monstros.

Não enfrentar conceitos transformados em horror.

Mas despedir-se.

Talvez porque os adeuses sempre carregassem uma pequena morte.

Mesmo para imortais.

Cassandra cruzou os braços.

— Então é isso.

— É.

— Continuarás procurando sentido para a existência?

— Provavelmente.

— Que atividade ridícula.

— Concordo.

Ela sorriu.

Um sorriso pequeno.

Quase imperceptível.

Mas verdadeiro.

— Toma cuidado, Velian.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi preocupação?

— Não exageremos.

— Claro.

— Apenas seria inconveniente perder alguém capaz de me proporcionar discussões tão irritantes.

Velian riu.

Uma risada sincera.

Daquelas que surgiam cada vez mais raramente.

— Sentirei falta dos teus insultos.

— Mentira.

— Um pouco.

— Melhor assim.

Por um instante, nenhum dos dois se moveu.

Os séculos compartilhados passaram silenciosamente entre eles.

Guerras.

Viagens.

Discussões.

Desejos.

Separações.

Reencontros.

Nenhum dos dois precisava mencioná-los.

Existiam.

E isso bastava.

Finalmente Cassandra aproximou-se.

Tocou brevemente seu rosto.

Um gesto simples.

Mas raro.

Talvez mais íntimo do que qualquer demonstração grandiosa.

— Continua vivo, Velian.

— Pretendo tentar.

— Ótimo.

Então ela atravessou a passagem.

E desapareceu.

Sem cerimônias.

Sem lágrimas.

Exatamente como Cassandra faria.

Velian permaneceu sozinho no salão.

Observando o espaço vazio onde ela estivera.

Por alguns instantes apenas respirou.

Ou algo próximo daquilo.

Sentiu a ausência.

Mas não como dor.

Apenas como consequência natural da existência.

Todos os encontros terminam.

Todos os caminhos se separam.

E ainda assim continuam valendo a pena.

Sorriu diante do próprio pensamento.

Estava se tornando perigosamente otimista.

Atravessou sua própria passagem.

E o mundo mudou.

Quando voltou a Fortaleza, a madrugada aproximava-se do fim.

A cidade permanecia desperta.

Como sempre.

As primeiras embarcações começavam a surgir no horizonte.

O vento espalhava o cheiro de maresia pelas ruas.

Ao longe, algumas luzes ainda permaneciam acesas.

Velian caminhou até a varanda do apartamento.

O céu começava lentamente a clarear.

Azul profundo.

Depois violeta.

Depois dourado.

O nascimento de mais um dia.

Durante séculos observara amanheceres.

Milhares deles.

Talvez milhões.

Ainda assim, continuavam diferentes.

Porque nenhum amanhecer era exatamente igual ao anterior.

Assim como nenhuma noite.

Assim como nenhuma pessoa.

Assim como nenhuma pergunta.

Encostou-se à grade da varanda.

Pensou em Cassandra.

Pensou em Nix.

Pensou nos monstros de Agonihria.

Pensou nos mortos.

Nos vivos.

Nos esquecidos.

Nos amados.

Pensou em si mesmo.

E percebeu algo simples.

O vazio continuava ali.

Sempre continuaria.

A eternidade continuava ali.

Sempre continuaria.

As dúvidas também.

Talvez jamais desaparecessem.

Mas já não eram inimigas.

Eram companheiras.

Parte da estrada.

Parte daquilo que o mantinha caminhando.

Ao longe, o sol finalmente surgiu sobre o Atlântico.

A luz espalhou-se pelo horizonte.

Velian observou-a durante alguns segundos antes de recolher-se para o interior do apartamento.

A noite terminara.

Outra viria.

Como sempre.

E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia dos séculos que ainda o aguardavam não lhe pareceu um peso.

Pareceu uma possibilidade.

Uma pergunta ainda sem resposta.

E, estranhamente, isso era suficiente.

 

Fim.

As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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À Procura da Dama Noturna

Já amei. | E talvez seja esta a maldição mais antiga | de todas as criaturas que atravessam os séculos: | não a morte, | não a solidão, | não a lenta erosão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Já amei.

E talvez seja esta a maldição mais antiga
de todas as criaturas que atravessam os séculos:
não a morte,
não a solidão,
não a lenta erosão dos nomes,

mas a lembrança.

Os rostos passam como estações,
as cidades apodrecem sob novas arquiteturas,
impérios tornam-se notas de rodapé,
e até os juramentos mais ardentes
acabam dissolvidos na saliva do tempo.

Ainda assim,
há algo em mim que persiste.

Uma fome.

Não a fome do sangue,
como diriam os velhos contos,
mas a fome de uma presença.

Desejo uma mulher
como quem procura uma estrela desaparecida
há milhares de anos,
sabendo que sua luz ainda atravessa a escuridão.

Não a desejo perfeita.

A perfeição pertence às estátuas
e aos cadáveres.

Desejo-a viva,
contraditória,
capaz de esconder tempestades
sob um olhar aparentemente sereno.

Talvez tenha os cabelos negros
como uma noite que se recusa a amanhecer.
Talvez a pele guarde a palidez delicada
das criaturas que preferem a companhia da lua.
Talvez os olhos,
escuros e insondáveis,
carreguem mais perguntas do que respostas.

Não desejo uma santa.

As santas pertencem aos altares,
e os altares sempre me pareceram
solitários demais.

Desejo uma mulher
que compreenda a beleza das ruínas,
que veja poesia onde os outros veem defeito,
que não peça desculpas
por sua própria escuridão.

Uma mulher que saiba
que a melancolia não é doença,
mas uma forma de contemplação.

Que compreenda
que nem toda tristeza deseja ser curada.

Os tempos modernos,
tão orgulhosos de sua virtude,
ensinaram as pessoas a temer o abismo.
Transformaram mistério em problema,
silêncio em falha,
profundidade em excentricidade.

Mas eu continuo a acreditar
que há certa beleza
naquilo que não se deixa domesticar.

Por isso a desejo.

Entre multidões iluminadas por telas,
entre discursos apressados,
entre rostos que se repetem
como reflexos de um mesmo espelho partido.

Desejo aquela
que ainda conserve algo de indizível.

Aquela cuja beleza não termine na superfície,
mas continue para dentro,
como um corredor sem fim
em um castelo abandonado.

E se algum dia a encontrar,
não lhe oferecerei promessas eternas.

Os séculos ensinaram-me
a desconfiar das eternidades.

Oferecerei apenas a noite.

Uma noite longa,
silenciosa,
perfumada por livros antigos,
vinho escuro
e pensamentos proibidos.

E talvez,
enquanto o mundo dorme
sonhando com suas pequenas certezas,
nós possamos contemplar juntos
a estranha beleza de existir

como duas criaturas noturnas,

para além da moral dos homens.


Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
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Velian: O Banquete da Noite

Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Velian retornara a Fortaleza com a languidez de quem atravessara mares e memórias. Ainda havia no seu corpo o traço da viagem ao Rio, onde Cassandra fora reencontrada — mas agora não havia nostalgia nem peso: o que ardia em sua alma era sede, não de simples sangue, mas de corpos, de jogos, de poder e vertigem. É que o vampiro intuía agora que de nada ou de pouca coisa valia seus esforços por encontrar sentido último na vida. Por meio de seus encontros atrozes com a deusa Nix, Velian entendia que, por mais magia que estudasse, não iria descobrir uma verdade última sobre a vida, que era imensa e se desdobrava demais até para ele. Com isso, o vampiro não pretendia deixar de lado seus estudos, pois percebera que sempre haveria mais coisas para entender, e, no processo, ficar ainda mais forte e poderoso.

Da varanda alta de um edifício antigo, o vampiro contemplava a cidade. Fortaleza estendia-se como uma tapeçaria noturna de luzes, fumaça e mar distante. E apesar de o vampiro admirar a cidade de vez em quando, ele não buscava beleza contemplativa; buscava movimento, carne, pulsares. Com um sorriso enviesado, lançou o chamado: não súplica, mas desafio. Convocou Cassandra por meios telepáticos. Não a queria como lembrança, mas como chama. Queria testá-la, tê-la ao lado, enfrentá-la no terreno mais fértil da luxúria, onde Cassandra era muito boa, melhor que ele na maioria das vezes, ele reconhecia. Só que, desta vez, o vampiro não se importava com quem fosse ganhar, se todos, no final, fossem ter prazer. O vampiro também se sentia recarregado em seu interior e sentia que estava preparado para Cassandra.

Ela veio. Surgiu como sombra lasciva em meio à escuridão e o breu do prédio em que Velian estava, o vestido colado à pele como promessa. Entre os dois, não havia saudade, apenas provocação. Ele a olhou como quem devora; ela riu como quem jamais se deixa conter. "Dessa vez foi rápido." — pensou o vampiro. Velian ainda não conhecia muito bem o poder da teletransportação, o vampiro precisava voar e percorrer longos caminhos, ainda que rápido, para chegar aos seus destinos.

— Ainda és capaz de me surpreender, Velian? — ela sussurrou, deixando o hálito frio roçar-lhe o pescoço.

— Não preciso surpreender, Cassandra. Preciso apenas… consumir.

A cidade se abriu para eles como palco obsceno. Primeiro, a boate pop, onde corpos reluzentes dançavam sob luzes de néon: ali sugaram a vitalidade de um casal, jovens que tremiam entre o medo e o êxtase. Depois, o subterrâneo rochoso do rock, onde o suor misturava-se ao sangue — um beijo rasgado em meio aos gritos das guitarras. Mais adiante, o caos punk, onde corpos se chocavam, e Velian se embebedou do gosto amargo de um rebelde, rindo ao ver Cassandra deixar marcas profundas nos ombros de uma mulher andrógina que se oferecia como oferenda. Por fim, o delírio ciberpunk: máquinas e carne, implantes cintilantes, olhos de néon. Ali, eles foram de todos e de ninguém — sorvendo, possuindo, misturando-se até que a madrugada não tivesse mais fronteira.

E então veio o chamado. Não humano, não terreno. Um som grave, como se as paredes vibrassem com a respiração de algo antigo. O ar magenta se adensou, dissolvendo a boate ciberpunk em ruínas úmidas. Diante deles erguia-se o Castelo Drácula, vivo, pulsante, enraizado em sombras.

Velian e Cassandra trocaram um olhar de puro gozo: a noite apenas começava.

Entraram. No salão principal, criaturas os aguardavam. Vampiros menores reverenciavam ou invejavam sua presença. Fantasmas serpenteavam, oferecendo toques frios como beijos eternos. Lobisomens os observavam com uma fúria erótica, como se o desejo fosse tão grande quanto a raiva. E, entre colunas que se erguiam como membros retorcidos, pairavam entidades mais antigas — quase divinas, encarnações da noite e do prazer.

Tudo respirava sob o signo do magenta profundo: cor entre o rosa mórbido e o vermelho do sangue, ardendo como febre nos vitrais e nas peles. Cassandra gargalhou, e sua risada ecoou como chicote. Velian apenas abriu os braços, como se o castelo inteiro lhe pertencesse.

Ali, não havia mais mortais, não havia mais limites. Apenas a noite, o desejo e o abismo. E Nix, Senhora da Noite, invisível, mas presente, erguia-se como símbolo absoluto, assistindo ao jogo de poder e luxúria entre seus filhos imortais.

A Noite Magenta reinava.

O salão respirava como uma garganta viva. Cada sombra parecia observar, cada sopro de vento trazia perfumes de sangue e de incenso queimado. Cassandra caminhava como se fosse a própria sacerdotisa da luxúria. O vestido desfazia-se em transparências, e dela emanava a volúpia de uma rainha indomada. Velian a seguia com olhos cerrados de desejo e ironia, consciente de que a provocação dela só o inflamava mais.

Dizes que me consomes, Velian… — Cassandra deixou escapar num murmúrio rouco. — Mas e se fores tu o devorado?

— Que me devorem então — respondeu, mordendo-lhe o pulso delicado.

O sangue escorreu quente, vermelho e febril, e ambos sorriram como predadores cúmplices. Ao redor, os convidados da noite se aproximavam. Uma vampira jovem, de olhos cinzentos, ajoelhou-se diante de Cassandra, oferecendo-lhe o pescoço. Cassandra aceitou com a delicadeza cruel de quem colhe uma flor para logo esmagá-la. Velian, observando, riu baixo.

— Sempre a rainha de súditos desesperados.

— E tu, sempre o cavaleiro que finge desdém, mas não resiste a entrar no jogo.

Um lobisomem se ergueu da sombra. O corpo musculoso, marcado de cicatrizes, observava-os com fúria erótica. Velian estendeu-lhe a mão e, num gesto inesperado, arrastou-o para perto. Beijou-lhe a boca com violência, arrancando-lhe um uivo de prazer e dor. Cassandra gargalhou, e o eco da risada fez os fantasmas estremecerem.

Velas altas ardiam em magenta, tingindo as paredes de febre. Entre colunas retorcidas, ninfas espectrais surgiam — seres de pura energia que tocavam com mãos etéreas, provocando tremores de êxtase. Uma delas deslizou por entre Cassandra e Velian, sussurrando um canto sem palavras. Velian fechou os olhos: o toque frio era como mergulhar em abismos de desejo sem fundo.

No centro do salão, uma mesa de pedra negra cobria-se de taças com sangue aromatizado por flores espinhosas. Ali, Cassandra puxou Velian pelo colarinho e o empurrou contra a superfície dura. O beijo deles foi brutal, quase uma batalha.

— És meu inimigo e meu deleite — ela sussurrou.

— E tu, Cassandra, és minha perdição favorita.

A sala inteira parecia vibrar em torno deles. Os outros seres — vampiros menores, fantasmas, lobisomens — não apenas assistiam, mas participavam, entregando-se a toques, beijos, mordidas, formando uma espiral orgiástica de desejo e violência. A noite pulsava como um coração colossal.

E, acima de tudo, Nix, Senhora da Noite, pairava invisível, mas inegável. Velian sentiu sua presença como sopro no pescoço, como mão invisível sobre o peito. Era mais que luxúria: era o eterno chamado da escuridão, o ventre cósmico de onde nascia o desejo.

Por um instante, Velian fechou os olhos. O tempo não existia — apenas ciclos de prazer, sangue e silêncio. A melancolia se dissolveu no delírio magenta, e até o vazio se transformou em alimento.

Era ali, entre o amor e o abismo, que agora ele se sentia mais vivo.

Ninfas dançavam entre pilares de pedra, seus corpos translúcidos refletindo tons rubros, que se misturavam à penumbra do castelo. Velian sentiu o chamado: não havia necessidade de força, apenas de entrega ao êxtase que o rodeava. As criaturas o cercavam, e cada toque era como eletricidade: não física, mas metafísica, percorrendo a sua forma vampírica em ondas de calor e frisson. O desejo era profundo, não vulgar — um trago da própria eternidade.

— Velian — murmurou uma voz etérea, deslizando pelo corredor como fumaça de incenso. Era uma das ninfas, seu corpo esculpido em curvas impossíveis, os olhos refletindo auroras de cores também impossíveis — Você sente? Não é fome, não é sede. É vontade de tudo possuir, e ainda assim nada deter. É o prazer do infinito que nos rodeia.

— Sinto — respondeu Velian, a voz baixa e rouca, reverberando nas paredes úmidas — Sinto o vazio e o desejo, tudo ao mesmo tempo. Sinto o poder de existir, mesmo sem precisar do desespero.

— E ainda assim há ironia em ti — disse outra presença, um fantasma andrógino que se aproximava por entre as colunas, roçando sua essência contra a aura de Velian — Tens força para moldar mundos, e escolhes caminhar por entre sombras, provando prazer do etéreo. É humano demais, ou vampiro demais?

O Castelo Drácula os envolveu com seus corredores labirínticos, onde o tempo se curvava e cada sombra parecia palpitar com vida própria. Velian, pulsando com uma energia voraz e confiante, sentiu a presença das criaturas — fantasmas translúcidos, ninfas que ondulavam entre a penumbra, e seres andróginos cujos olhos brilhavam com segredos antigos. A respiração de todos se mesclava ao ar denso, impregnado de aromas doces e metálicos, uma fragrância que falava de desejo e eternidade.

— Aqui, até o silêncio tem gosto de sangue — murmurou Cassandra, deslizando ao lado de Velian, sua voz quente como veludo, provocando arrepios nos seres que os observavam. — Cada respiração, cada toque, cada olhar é uma dança de poder.

Velian sorriu, mordendo o lábio com malícia. Ele não buscava humanos agora — apenas o calor vivo e intenso dessas entidades que respiravam o mesmo abismo e compartilhavam da mesma sede. Ele tocou uma das ninfas, sentiu sua pele etérea vibrar entre seus dedos, e percebeu como o prazer e o medo se entrelaçavam, como se cada suspiro fosse um cântico antigo, uma oração esquecida.

Entre risos e murmúrios, seres com corpos andróginos aproximaram-se, oferecendo olhares que queimavam e mãos que provocavam pequenas faíscas de eletricidade na pele. Velian aceitou o jogo com destreza, sua presença um magnetismo de desejo que atraía e incendiava cada ser à sua volta. Cassandra, sempre altiva, seguia seus passos, brincando de dominadora e cúmplice, deslizando sobre os corpos que se curvavam e arqueavam sob a tensão do prazer.

— Não é só sobre matar ou seduzir — disse Velian, a voz grave, o olhar em chamas, enquanto uma sombra de fantasma cruzava seu corpo — é sobre sentir a eternidade no toque, no êxtase, na fusão do desejo e da vida que pulsa por trás da escuridão.

— E ainda assim — replicou Cassandra, arqueando a sobrancelha, os lábios tingidos de rubor de vinho — há sempre algo mais. Sempre há. O poder, o prazer, a fome… nada disso se compara ao que se encontra quando aceitas a profundidade da noite, e daquilo que somos. Tu queres sentir tudo, não é? E eu estou aqui para que sintas.

O toque, os olhares, o jogo de aproximação e afastamento criavam uma coreografia de luxúria e poder, onde o prazer era apenas o início da compreensão de algo maior — da eternidade, da solidão compartilhada e da beleza perversa de existir. Fantasmas e ninfas entrelaçavam-se, vozes sussurrantes cantavam cânticos indecifráveis, e a arquitetura do Castelo parecia responder, pulsando, expandindo-se, como se respirasse com cada desejo consumado.

Velian e Cassandra, lado a lado, abraçavam a escuridão, percebendo que cada toque, cada carícia, cada arrepio era uma reafirmação de sua própria condição: eternos, sedentos, livres, mas ainda assim ansiosos por sentidos, laços e descobertas. O Castelo os envolvia, a noite os consumia, e a sensação de pertença àquilo que era maior que a própria vida os incendiava por dentro.

— Aqui, no fim, — murmurou Velian, sentindo a vibração de Nix, senhora da noite, pairando sobre todos — só o desejo e o vazio coexistem, e são eles que nos tornam mais vivos que qualquer mortal.

Cassandra sorriu, e juntos, absorvendo cada ser, cada suspiro, cada presença, permaneceram na dança eterna do Castelo, entregues ao prazer, ao poder e à própria eternidade, até que o vento metálico do limiar sugeriu que novas descobertas os aguardavam, e que a noite jamais terminaria.

O Castelo Drácula tremia. As paredes antigas estalavam como se quisessem expelir séculos de segredos, e as torres pareciam ceder ao peso da própria eternidade. Velian sentiu o chão vibrar sob seus pés, o ar metálico da noite se tornando denso demais, quase líquido, como se o próprio limiar se desfizesse. Fantasmas, ninfas e seres andróginos evaporaram em brumas ondulantes, deixando apenas o eco de suspiros e risadas antigas. O desejo, intenso e febril, continuava a arder dentro dele, mas o Castelo parecia avisá-lo: era hora de retornar.

Em um instante que durou simultaneamente uma eternidade e um sopro, Velian sentiu o mundo girar, e tudo desmoronar ao redor. A última visão do abismo do Castelo se desfez, e ele despertou.

O amanhecer já tocava Fortaleza. Raios de sol pálido atravessavam a cortina do quarto, dourando o ar ainda impregnado do calor da noite. Cassandra dormia ao seu lado, seus cabelos negros espalhados como sombras luxuosas sobre o travesseiro. O perfume dela misturava-se com o aroma do café da manhã não feito e o leve toque do sol nascente. Cada curva de seu corpo era uma promessa silenciosa, cada respiração, uma melodia antiga que atravessava os séculos.

Velian a observou, os olhos absorvendo cada detalhe: a delicadeza da pele, o arrepio dos fios de cabelo, o ritmo perfeito da respiração. Um sorriso lento curvou-lhe os lábios, a ironia e a certeza de si próprios entrelaçadas.

Revisado por Sahra Melihssa
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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A Melodia da Noite

Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em um cemitério antigo, esquecido pelo tempo e pela memória humana, repousava uma presença mórbida, imóvel e serena. As lápides, gastas pelo vento e pela chuva, desenhavam sombras longas que se confundiam com a escuridão da noite. Ao redor, o ar carregava o cheiro úmido da terra e o sussurrar de folhas secas, como se cada detalhe conspirasse para manter a paz que reinava há séculos. Ninguém poderia imaginar que, sob a terra fria, uma figura masculina descansava na sombra. Muitas almas haviam cruzado o lugar, histórias nasceram e morreram entre túmulos de mármore e pedra, mas nada, nem o tempo nem os viventes, fora capaz de perturbá-lo. Até que, numa noite como qualquer outra, algo rompeu a eternidade do silêncio.

Não era a fome que o despertava, mas uma voz. Uma melodia feminina, doce e cortante, atravessando a terra e o tempo, penetrando a escuridão de seu sono com insistência. Palavras estranhas e ao mesmo tempo familiares ressoavam, acompanhadas por sons metálicos, arranhados, que seu ouvido antigo não conhecia. A combinação era quase dolorosa em sua intensidade. E, ainda assim, havia algo nela que o chamava. Algo que o forçou a abrir os olhos em meio à escuridão de sua tumba, arrancando-o do repouso dos condenados.

Garras longas arrombaram a tampa da tumba, liberando a poeira antiga no ar frio. Da escuridão da câmara subterrânea, a figura do vampiro emergiu. Alto, esbelto, a pele pálida refletindo a luz da lua. Os cabelos loiros, levemente desalinhados, caíam sobre a testa, revelando um rosto aristocrático, de traços delicados e olhos azuis profundos que carregavam séculos de segredos. A capa negra arrastava-se pelo chão, levantando pequenos tufos de poeira, enquanto o resto das roupas — outrora elegantes — denunciava o desgaste do tempo.

Ainda atordoado pelo despertar, ele caminhou entre os túmulos, sentindo o frio da noite penetrar seus ossos imortais, absorvendo cada som, cada cheiro, cada sombra. O chamado daquela voz continuava a guiá-lo, mais insistente a cada passo, conduzindo-o até fora do cemitério. A praça diante dele surgia banhada por lâmpadas mortiças e pelo brilho distante da lua, que parecia conspirar para destacar cada detalhe do mundo desperto ao redor.

Ali, sob a luz difusa, estava ela. Uma mulher que, à primeira vista, parecia pertencer à própria noite. Seu cabelo negro caía sobre os ombros como uma cortina de seda, contrastando com a pele pálida, quase etérea. Os olhos escuros, profundos, carregavam uma melancolia pensativa, reflexiva, uma inteligência silenciosa que se percebia em cada gesto, cada pausa, cada respiração.

Em sua cintura se emoldurava um espartilho sob o longo vestido negro, emanando sensualidade e adornado com rendas, revelando simultaneamente força e delicadeza. A guitarra em suas mãos parecia uma extensão de sua própria alma e corpo; os dedos deslizavam pelas cordas com uma ferocidade natural, extraindo sons que misturavam violência e doçura. Cada nota parecia narrar suas memórias, suas reflexões e sua solidão ao cantar.

Para ela, o mundo desperto e mecânico nunca a fascinara. As luzes artificiais, o barulho das cidades, as obrigações humanas, tudo isso a cansava em demasia. Por isso escolhera a música, por isso tocava à noite, quando a atmosfera da madrugada e o vento frio a tornavam mais viva, mais intensa. E naquela melodia carregada de emoções, havia algo que o vampiro jamais experimentara: uma afinidade silenciosa com sua própria essência eterna.

Ele se escondeu entre as sombras, hipnotizado. Cada acorde atravessava seu ser como uma lâmina, cada pausa da música o fazia flutuar entre o desejo e a curiosidade. Não era apenas o som que o atraía, mas a essência que dela emanava — a melancolia, a capacidade de se destacar do mundo comum, a forma como abraçava a noite como se fosse uma aliada em sua voz.

Quando a última nota cessou e ela parou de cantar, com cuidado ela começou a guardar o instrumento e desmontar seu equipamento. Desmontou o suporte do microfone e o guardou, acomodou a guitarra na bolsa e recolheu os cabos do amplificador enquanto observava ao redor e percebeu a presença dele ao longe. Ele, entre as sombras, deu alguns passos adiante, o magnetismo da presença irradiando em ondas quase tangíveis. A pele branca refletia a luz da lua, os cabelos loiros captavam cada nuance do brilho noturno, e os olhos azuis profundos a analisavam, ironicamente fascinado e envolto em mistério.

— Boa noite — disse ele, a voz grave, carregada de um magnetismo que parecia esticar o ar ao redor.

Ela inclinou a cabeça, apenas curiosa.

— Você estava me ouvindo? Parece diferente das pessoas daqui!

— Diferente? — Ele indagou, com certo sarcasmo, quase em um sussurro. — Sua música me chamou a atenção, seu instrumento que é diferente e sua voz é bela. Quando você toca parece atravessar a noite e os séculos, como se já conhecesse inúmeros segredos.

Ela sorriu levemente, intrigada, tentando entender o fascínio dele, se era por ela ou pela guitarra. Até que indagou:

— E qual seria o nome do meu admirador? — Ele logo respondeu:

— Sou conhecido de muitas formas, mas gostaria que me chamasse de Amdis. E qual é seu nome, minha cara?

Ela colocou a guitarra nas costas, seguida por um trejeito de quem já tinha certa prática, e voltou a atenção para ele ao responder:

— Me chamo Margot, combinando com o amargor da vida.

Os dois iniciaram uma conversa leve, entre risos e olhares cúmplices. Sentaram-se em um dos bancos da praça, ao lado de um esqueleto falso posicionado de forma curiosa: pernas cruzadas, um chapéu na cabeça e um cigarro preso entre os dedos como se estivesse fumando. A estranha figura chamou a atenção de Amdis, o vampiro que brincava de ser humano. Intrigado, ele perguntou o motivo de aquilo estar ali.

Ela explicou que era outubro, mês do Halloween, e que alguns pontos da cidade estavam decorados com enfeites semelhantes. Ela achou estranho ele perguntar, já que estava vestido de uma forma tão não convencional, com roupas tão maltrapilhas, quase como um zumbi. Amdis achou graça e, em um gesto teatral, fingiu fumar o cigarro do esqueleto, arrancando dela uma gargalhada. Ele conseguiu driblar a desconfiança dela dizendo que ele não lembrava de enfeites como aquele nos lugares, mas já estava experimentando seus trajes para a noite da festa.

Entre a conversa, pequenos flertes surgiam inevitáveis, mesmo quando ela tentava disfarçar. Um olhar mais demorado, um sorriso cúmplice e a forma como ele inclinava o corpo na direção dela em alguns momentos. Ele percebia o rubor contido no rosto de Margot, e se divertia em provocar. No fundo, era algo natural, como se aquela atração simplesmente os unisse sem que pudessem evitar.

— Eu gostaria de acompanhá-la, se me permitir passar um tempo com você — murmurou ele, como se desejasse pronunciar aquelas palavras desde seu despertar. — Há um lugar onde o tempo não ousa tocar, onde posso mostrar-lhe o que é realmente a noite. Se quiser...

— Então, “viajante da escuridão”, não sei se devo aceitar — ela provocou, de maneira sutil. Hesitante, não pela estranha imagem dele, mas pelos perigos que a noite realmente reserva para as mulheres.

Ela hesitou apenas por um instante, contemplando a aura sedutora dele, a luz dos postes refletida na pele pálida, e o ar de mistério que o envolvia. Então, ela assentiu, mesmo hesitante. Ele se ofereceu para carregar o instrumento guardado, mas ela recusou e ofereceu a caixa do amplificador para que ele carregasse, assim ele fez. Juntos, eles caminharam um pouco sem rumo.

Por onde passavam estava silencioso, exceto pelo farfalhar de algumas folhas secas sob os passos deles na calçada e o sussurro do vento frio que se infiltrava entre as árvores da praça. Cada passo parecia prolongar o tempo, e a noite ao redor tornava-se mais densa, mais intensa, envolvendo-os em seu manto. Ele caminhava ao lado dela, mas não de forma invasiva, cada movimento era calculado.

Em um momento ela olhou de soslaio, curiosa, e encontrou aqueles olhos azuis que pareciam mergulhados em sua alma. Eles caminharam para longe da praça, seguindo por ruas silenciosas; ela imaginava que iriam até um bar perto dali.

— O que acha de nosso passeio e porque resolveu vir comigo? — perguntou ela, curiosa. — Não acho que há nada em mim que mereça sua atenção além do que eu estava tocando.

Ele liberou um sorriso cínico, um gesto irônico e humano ao responder:

— Não é apenas sua música que me chama a atenção. É você. Sua forma de existir. Como você parece pertencer à noite. Acredito que seja algo raro encontrar alguém que viva assim, que respire o noturno como se fosse ar enquanto canta.

Ela suspirou, quase sem perceber, sentindo o frio da noite misturar-se àquela estranha sensação que percorrera seu corpo ao ouvi-lo pronunciar aquelas palavras. Ela finalmente percebeu um sotaque que não era comum na voz dele.

— Sua voz é estranha, mas sobre o que você falou, eu meio que sempre me senti… deslocada entre as pessoas vivas. O mundo desperto, com sua pressa e barulho, me deixa ansiosa. Talvez, seja por isso que a música se tornou o meu refúgio particular — ela disse, olhando para o céu noturno, a lua estava refletindo um brilho azul em seus cabelos negros. — Aqui, à noite, sinto-me mais viva e tranquila por algum motivo!

Ele permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo cada palavra que ela dizia, cada nuance e cada pequena hesitação. Então ele disse, diminuindo o volume na voz:

— Você é diferente, sim. Diferente de tudo que já conheci. A melancolia que carrega não é tristeza; é consciência. Sinto que você possui uma sabedoria que a maioria despreza. Por isso, fascina-me.

Ao ouvi-lo falar, ela se sentiu estranhamente reconhecida, como se ele tivesse lido cada camada que escondia atrás do sorriso e do olhar distante que adornava a face por trás do que cantava.

— E você? — ela perguntou, sem conseguir evitar demonstrar interesse. — O que carrega dentro de si que permite que veja tanto em uma pessoa desconhecida?

Ele sorriu novamente, com aquele ar de ironia e mistério que a deixava inquieta.

— Segredos. Séculos de segredos. Observação. Experiência. Um toque de ironia. E, às vezes, fascínio genuíno pelo que é raro e belo — disse, a voz melodicamente se misturando ao sussurro breve do vento.

Ela sorriu e desviou o olhar quando o silêncio caiu sobre eles, confortável, mas carregado de uma tensão entre eles quase palpável, uma troca de olhares sedutores. A cada passo, uma estranha conexão entre os dois parecia nascer, mesmo sem palavras. A noite parecia dobrar-se ao redor deles, os sons da cidade desaparecendo, substituídos pelo bater do coração dela e pelo ritmo antigo e constante da eternidade dele.

Ela parou por um instante, sentindo a presença dele tão próxima que podia perceber a sutil respiração, mesmo que ele não precisasse respirar. O calor que emanava daquela proximidade despertava nela uma inquietação doce, um desejo não dito.

— Este lugar que estamos indo… — disse ela, inclinando-se na direção dele com um leve deslize na voz, curiosa. — É seguro para mim lá, não é?

Ele inclinou a cabeça, aproximando-se a ponto de seus lábios quase tocarem o ouvido dela, os olhos azuis ardendo sob a luz da lua. Ela estava hipnotizada por ele.

— Seguro… — murmurou, deixando a palavra pairar entre eles, como se tivesse um sabor secreto. — Acredito que isso vai depender do que você entende por segurança. Mas lá, você sentirá a noite como nunca antes. Longe dos vivos, do tempo, do mundo mecânico que insiste em nos moldar. Apenas nós dois e a noite. Você vai gostar da minha companhia!

Ela respirou fundo, sentindo o frio da madrugada penetrar em seus ossos, mas também um calor estranho e intenso que emanava dele. Ela queria abraçá-lo. A melancolia dela encontrou ecos na profundidade da presença dele. Era como se ambos tivessem se reconhecido na “vida” que compartilhavam de maneiras distintas.

— Então, vamos — disse, decidida, mesmo com o coração acelerado. — Mostre-me a sua noite!

Ele assentiu, quase imperceptivelmente, e estendeu a mão. Ela hesitou por uma fração de segundo, mas a tomou, sentindo um arrepio percorrer seu corpo ao toque da pele pálida e fria dele. Cada passo dali em diante parecia mais intenso, cada sombra mais escura, o silêncio mais carregado de significado. O mundo desaparecia atrás deles, e apenas a escuridão testemunhava a aproximação do que viria.

Finalmente, chegaram a um local ermo, uma encruzilhada, afastada do mundo desperto da cidade, onde o vento soprava com mais intensidade, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e das folhas em decomposição. As árvores se inclinavam como testemunhas silenciosas, e a lua cheia banhava o espaço com uma luz prateada, quase líquida. Ali, o tempo parecia dobrar-se; os sons da cidade não mais existiam, apenas o ritmo constante da noite e o silêncio profundo que abraçava cada passo deles.

Ele parou, olhando para ela com os olhos que pareciam abismos. Sua pele branca refletia a luz da lua, tornando-o quase etéreo. A capa empoeirada se espalhava ao redor de seus pés, e o vento agitava os cabelos longos e loiros de forma quase teatral. Eles se aproximaram num ímpeto inevitável assim que ele colocou o amplificador no chão. Quando os corpos se encontraram, ele roçou os lábios frios contra os dela. Ela deixou escapar um suspiro entrecortado de sofreguidão, cedendo ao toque com a urgência de quem desejava muito mais que apenas um beijo.

— Aqui… — disse ele, a voz grave e envolvente — é onde a noite pode tocar você de verdade. Sem distrações, sem medo, apenas nós e o que ela nos oferece.

Ela sentiu o coração acelerar, mas não de medo. Era uma mistura de expectativa e fascínio, como se cada fibra de seu corpo soubesse que algo mudaria para sempre, ela o desejava.

— Eu confio em você — murmurou, a melancolia ainda presente, mas suavizada pela curiosidade e pelo desejo. — Mostre-me, então, a noite que você conhece!

Ele se aproximou, o magnetismo da presença dele tornando-se quase insuportável, e estudou seu rosto com atenção, os olhos dela brilhavam. Cada traço, cada olhar, cada hesitação revelava uma alma rara, e isso o fascinava profundamente, quase de forma perturbadora.

Os olhares se encontraram de novo, e o ar pareceu suspender-se entre eles. Ele a puxou contra o peito, a capa envolvendo-os como um véu de sombras. O beijo veio urgente e faminto. As mãos dele apertavam a cintura dela, suas costas, puxando-a com uma força que a fazia tremer; as mãos dela se perderam nos cabelos loiros, apertando-os enquanto a boca dele a quase devorava.

Ela arfava entre um beijo e outro, sentindo o corpo arder em um misto de desejo e vertigem. O mundo desaparecia, só havia o frio do corpo dele e a chama que aquilo acendia nela. Então, os lábios dele deslizaram pela curva de seu rosto, até a pele exposta do pescoço. O roçar dos lábios frios a fez estremecer, e por um instante ela percebeu o perigo, mas não recuou. Então, num gesto rápido, mas quase poético, ele tocou-lhe o pescoço com os dedos frios.

— É necessário — disse, sua voz baixa e reverberante — que você aceite o dom, se quiser compreender a noite em sua plenitude.

Ela fechou os olhos, sentindo a tensão subir pelo corpo. Por um instante, hesitou, mas o magnetismo dele, a aura eterna e a paixão a tomaram. Quando ele mordeu suavemente a carne, o frio se misturou a uma estranha euforia, e ela sentiu a energia da eternidade percorrer suas veias. A dor era fugaz, substituída por um êxtase sombrio e fascinante, como se a própria essência da noite estivesse se infiltrando nela.

Tudo se dissolveu. Restava apenas a escuridão que pulsava com intensidade, e o vampiro, cuja presença agora se tornava parte de sua própria consciência. A paixão que ela sentia parecia mais aguçada.

Quando o êxtase passou, ela abriu os olhos e percebeu que tudo havia mudado. Amdis estava sentado com ela em seu colo no chão da encruzilhada, afagando os cabelos negros dela com carinho. A guitarra estava a alguns metros de distância deles, como se tivesse sido largada de qualquer jeito perto do amplificador.

Ele sorriu para ela enquanto ela abria os olhos para o mundo noturno, seus olhos pareciam outros, ela enxergava formas perambulando ao redor deles, formas que ela não sabia explicar.

A pele parecia mais clara que antes, os sentidos mais aguçados, cada sombra, cada sussurro do vento, cada farfalhar distante de asas noturnas carregavam uma vida própria. Amdis endireitou a coluna, afastando-se um pouco, apenas o suficiente para contemplá-la melhor. Seus olhos azuis refletiam uma mistura de orgulho cínico e paixão ardente.

— Bem-vinda à noite, vampira Margot! — disse ele, com um sorriso enviesado. — Ao tempo que não termina, à eternidade que não cessa.

Ela olhou para ele, absorvendo a transformação, sentindo-se ao mesmo tempo viva e imortal, uma nova entidade, ligada para sempre à escuridão, à música e à melancolia que agora compartilhava com ele, quem a trouxe para este destino e tinha roubado seu coração.

E naquele silêncio, onde apenas o vento e a lua testemunhavam, dois seres da noite permaneceram lado a lado, eternamente ligados pelo mistério, pelo fascínio e pelo desejo.


Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Voltava do Rio de Janeiro, onde estivera com Cassandra — e, embora não quisesse nomear a saudade, ela se insinuava, discreta, como aquele odor residual que permanece na pele mesmo depois de muitos banhos. O que fora dito, o que fora silenciado, tudo seguia reverberando dentro dele, como as ondas mansas do mar que vira na partida, batendo sem pressa na memória.

Agora, Fortaleza o recebia novamente, com suas ruas quentes mesmo à noite, onde o suor se misturava ao sal do ar, e os prédios se erguiam como colossos cansados, com as fachadas descascadas pela maresia e pelo tempo. A cidade vibrava em outra frequência, mais bruta, mais nua, mais próxima da pele.

Velian caminhava pelas calçadas irregulares da Aldeota, depois cruzou lentamente o Centro, onde vitrines fechadas refletiam sua figura alongada, espectral, entre restos de lixo e placas enferrujadas. Não tinha pressa.

Procurava sangue, sim — como sempre — mas não apenas para se alimentar ou tentar saciar-se, e sim como quem deseja, ainda que secretamente, sentir-se parte de alguma coisa: um olhar, uma troca de palavras, um encontro improvável no meio da noite suada de uma cidade que parecia tão alheia quanto qualquer outra.

A cada passo, sentia a carne mais densa e o espírito mais leve, como quem se desloca gradualmente entre dois mundos. O Rio ainda latejava nele, com o cheiro doce das manhãs à beira-mar e as conversas enigmáticas com Cassandra, aquela que sempre o fazia sentir-se ao mesmo tempo mais forte e mais vulnerável. Ela ficara — e ele voltava a vagar, como sempre.

Havia ironia nisso, claro: uma criatura tão antiga, tão cheia de histórias, e, ainda assim, eternamente condenada a buscar um sentido nas ruas de cidades modernas, iluminadas por néons decadentes e com o asfalto rachado expondo raízes velhas que insistiam em romper a ordem dos homens.

Mas, naquela noite, algo o atravessou.

Não foi uma voz, nem um clarão súbito. Foi uma espécie de tração invisível, como um músculo antigo que, mesmo atrofiado, ainda sabe se mover.

O Castelo Drácula o chamava.

Velian reconheceu o chamado não com surpresa, mas com aquela espécie de resignação cúmplice, como quem sabe que não poderia ser de outro modo. Sempre que retornava a Fortaleza, era assim: primeiro vagava, depois era puxado — nunca sabia ao certo quando ia acontecer, mas sempre acontecia. A cidade nunca o retinha por completo.

...vazios e, ao sair dali, sentiu que o ar se rarefezia, como se os elementos conhecidos do espaço urbano começassem a se dissolver.

Em poucos passos, já não estava mais na cidade.

O limiar era tênue, quase imperceptível: o concreto quebrado do calçamento cedia lugar ao solo úmido, coberto de folhas mortas, e o som abafado do trânsito se extinguia, substituído pelo sussurro grave das árvores e o canto noturno de pássaros invisíveis.

A floresta sagrada que envolvia o Castelo Drácula o recebia como sempre — sem alarde, sem cerimônia, mas com a gravidade de quem reconhece um de seus.

As ruínas esquecidas surgiam entre as folhagens como espectros de um passado ainda mais antigo que o seu: colunas tombadas, altares carcomidos, fragmentos de deuses anônimos soterrados pelo musgo e pelas raízes. Velian passava a mão sobre uma dessas pedras frias, como quem saúda um irmão adormecido.

E ali, sem necessidade de invocação, a presença se fazia sentir: Nix.

Desta vez, a senhora da noite não apareceu personificada, como figura, nem como entidade delimitada, mas como princípio. A Senhora da Noite. A vastidão que acolhe e engole tudo, a mãe e o túmulo, o véu e o abismo, Mas, Velian sabia que ela estava lá.

Velian ergueu os olhos. O céu, opaco, parecia mais uma pele translúcida do que uma cúpula infinita. Entre os galhos entrelaçados, as estrelas apenas sugeriam sua existência, veladas pelo manto de Nix.

“Salve, Senhora”, disse, quase como quem saúda uma velha amiga — com respeito, mas também com uma ponta de ironia que não conseguia extirpar nem mesmo diante do mistério absoluto.

Continuou caminhando entre as ruínas, sentindo a umidade das folhas sob os pés, o aroma profundo da madeira apodrecida e da terra revirada. Aquelas eram as relíquias que verdadeiramente o comoviam — não os objetos das cidades, não os monumentos de concreto, mas esses sinais silenciosos de uma eternidade que se consome lentamente, mas nunca desaparece por completo.

O Castelo Drácula ergueu-se, enfim, diante dele, imponente e mutilado, com suas torres fendidas e os vitrais quebrados deixando entrar feixes aleatórios de luar que se desfaziam como fumaça.

Velian parou um instante antes de cruzar o limiar. Respirou fundo, não por necessidade — a respiração, há muito, perdera o sentido biológico — mas, como quem deseja ainda sentir o ar, como quem quer lembrar que ainda é corpo, mesmo sendo, sobretudo, espírito.

Sentia-se vazio e cheio ao mesmo tempo.

Carregava a melancolia inevitável de quem já vira demais, perdera demais, desejara demais. Mas também uma esperança tênue — um traço de luz sob as cinzas do tempo, um resíduo de fé na possibilidade de que, ainda assim, pudesse encontrar um outro, ou um outro sentido, ou apenas o próximo capítulo de sua própria errância.

Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo de continuar.

Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.

E ali, naquele breve intervalo entre o fora e o dentro, o antes e o depois, percebeu mais uma vez a estranha maleabilidade do tempo.

Para os homens, o tempo é linha, é flecha, é cronologia. Para ele, o tempo era mais: um tecido espesso e ondulante, ora nó, ora fenda, ora espiral.

As noites de Fortaleza e do Rio de Janeiro sobrepunham-se agora como véus transparentes: o mar ao longe, o cheiro das frutas na calçada, o calor da pele de Cassandra, a textura úmida das ruínas, o hálito frio de Nix. Tudo coexistia, simultâneo e indistinto.

Não havia passado que se encerrasse, nem futuro que prometesse redenção. Apenas camadas, justapostas, ressoando umas nas outras, como ecos infinitos numa caverna sem fundo.

E, contudo, havia ali, naquele excesso, uma espécie de melancolia mansa: a constatação de que nenhum instante se perde, mas, também, de que nenhum pode ser plenamente revivido.

Velian sabia que continuaria a atravessar cidades, florestas, corpos e séculos, sempre tocando o tempo com a ponta dos dedos, mas, sem jamais poder retê-lo entre as mãos.

Essa percepção, contudo, não o paralisava. Ao contrário: alimentava aquela esperança sutil que, como uma lâmina fina, cortava a densidade da noite.

Ainda que tudo fosse transitório, ainda que tudo fosse simultâneo e indomável, ele continuava.

E esse continuar não era desespero, mas, uma escolha — ou talvez, mais honestamente, uma necessidade inscrita em sua própria natureza.

Sorriu sozinho, ali, diante do portão entreaberto, como quem reconhece o paradoxo: a busca infinita, a travessia interminável, mas, ainda assim, o desejo — sempre o desejo — de seguir adiante.

Adentrou o castelo, as paredes úmidas absorvendo sua figura como um líquido escuro.

E ali, sob o olhar invisível de Nix, senhora do mistério e do silêncio, Velian seguiu.

Como sempre.

Como nunca deixaria de ser.

As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 17ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de junho de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Sob o Véu da Noite: Velian e o Abismo

O vento cortante do Rio de Janeiro soprava com hálito de tempestade, uivando entre as rachaduras dos prédios…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O vento cortante do Rio de Janeiro soprava com hálito de tempestade, uivando entre as rachaduras dos prédios antigos como se os deuses da noite trovejassem advertências em línguas esquecidas. Em Copacabana, onde o mar se confundia com o céu de chumbo, Velian caminhava como um espectro pelas vielas iluminadas apenas por postes trêmulos. Seu corpo parecia não pertencer àquele tempo. Seus olhos — sombreados por dúvidas e ecos de existências anteriores — buscavam algo que não se nomeava: talvez consolo, talvez uma resposta, talvez apenas um instante de silêncio.

Ao chegar à cobertura de Cassandra, um dos últimos refúgios onde o luxo e a decadência coexistiam como amantes cansados, foi recebido com o cheiro inebriante de rosas escuras e sangue fresco. O perfume era tão antigo quanto as paredes decoradas com tapeçarias negras e espelhos entalhados em molduras de ossos e marfim. A luz vermelha banhava o aposento como se a própria luxúria tivesse se tornado luminária.

Cassandra estava ali — de pé diante da sacada, alta, imponente, cabelos longos e ondulados escorrendo pelos ombros como serpentes de ébano. Os lábios, tingidos por batom e sangue, exibiam o vermelho da fome e do sarcasmo. Sua presença, mesmo silenciosa, falava mais do que muitos discursos mortais. Quando se virou, os olhos brilharam com aquele tom perigoso de quem conhece a verdade, mas prefere rir dela a se curvar.

— Ainda vives com teus dilemas existenciais, Velian? — disse ela, cruzando os braços nus e perfumados. — Sempre essa tua sede insaciável por sentido. É tão… humano.

— Tu sabes que não é simples — respondeu ele, pousando a capa encharcada sobre a cadeira. — A eternidade exige mais que apenas sobreviver. Ela exige… compreender.

Cassandra soltou uma risada baixa, melódica, quase cruel.

— Compreender? Olhe pela janela, querido. Veja essa cidade. É sangue, sexo, vício e ganância. Não muito diferente de nós. A diferença? Eles morrem. Nós… não temos esse luxo.

Ela caminhou lentamente até ele, e suas palavras ressoavam como encantamentos cortantes:

— Queres saber o sentido da vida? É poder. É gozar do que o tempo não pode apagar. É dominar. Se não dominas, és dominado. E tu, Velian, estás sempre vacilante entre querer destruir e querer entender. Isso te enfraquece.

Velian cerrou os punhos. A tensão entre eles era elétrica. Não havia medo, mas respeito — o tipo perigoso, como o que se sente diante de uma fera indomável que por capricho ainda não devorou.

— Cassandra… o Castelo Drácula… eu estive lá. Em suas múltiplas dimensões. Há algo ali… ancestral, devorador. É como se o próprio vazio tivesse se assentado naquele trono de trevas.

Os olhos de Cassandra brilharam, desta vez com algo próximo da admiração.

— Ah, então enfim provaste do ventre de Soramithia. A ponte entre o fascínio e o terror… Eu conheço suas entranhas, Velian. Sei onde a escuridão deixa de ser símbolo e se torna carne. Vem comigo. Levar-te-ei a uma das câmaras esquecidas do castelo, onde a treva é mais densa que o tempo. Talvez ali encontres o que tanto procuras.

No Coração do Abismo: ou quando até os monstros sentem falta de si mesmos

O portal se abriu como uma ferida antiga na pele do mundo.

O ar da dimensão de Soramithia tinha gosto de ferro e orvalho podre. Era como respirar através do pulmão de um cadáver encantado. Velian entrou primeiro, não por coragem, mas porque preferia cair antes de hesitar.

— Bem-vindo ao útero da tua alma — disse Cassandra, com aquele sorriso que misturava erotismo e ameaça. A capa dela ondulava como fumaça viva. Seus pés não pareciam tocar o solo. Talvez nunca tivessem tocado.

O castelo se erguia na paisagem de uma realidade que já não reconhecia o tempo. Era feito de ossos negros, torres retorcidas e espelhos partidos, onde o reflexo recusava obediência. A cada passo, Velian sentia algo pressionar seu peito — como se o próprio lugar estivesse curioso sobre quem ele era.

— Soramithia… — ele sussurrou, testando a palavra na língua. — O nome soa como um gemido de flor morrendo. Poesia para os mortos.

— Ou um feitiço para os vivos que ainda não sabem que morreram — retrucou Cassandra, com a voz baixa, quase carinhosa.

Ela observava Velian com o cuidado de quem segura uma taça de vinho muito caro: sabendo que pode se partir, mas desejando sentir seu gosto até o fim.

Velian riu, um riso breve e sem humor.

— Este lugar fede a memória. A nossa, a deles, a de todos os que tentaram se salvar mergulhando. Sabe, Cassandra, às vezes penso que toda eternidade é só um eco mal interpretado.

Cassandra não respondeu. Seus olhos, negros como tinta fresca, pousaram sobre ele com uma intensidade silenciosa. Ela sabia que Velian falava mais por defesa do que por clareza. Ele cuspia sabedoria como uma lâmina afiada, mas por dentro ainda carregava o menino que sangrava pelas dúvidas que ninguém nunca respondeu.

Ao atravessarem a antessala do Trono das Raízes — uma estrutura viva de cipós petrificados que sussurravam em idiomas mortos —, Cassandra se voltou e o encarou.

— Aqui tu não és senhor de nada, Velian. Nem do teu próprio sangue. Soramithia exige entrega. Aqui, até tua ironia será comida pelas sombras. E só restará o que tu sempre foste.

Velian fechou os olhos por um instante. Queria responder com sarcasmo. Algo como: “Então me diga, minha adorável sacerdotisa da morte, o que eu sou, além de um vampiro entediado com uma libido filosófica?”

Mas não disse. Porque ele sentia. O castelo pulsava como um coração sombrio e antigo, e cada batida parecia esvaziá-lo um pouco mais.

Ali, ele se lembrava.

Da cela. Do frio.

Da fome.

Do som do próprio corpo sendo esquecido por si mesmo.

As memórias voltavam como fantasmas carinhosos e cruéis.

— Lembro do som da água escorrendo… — murmurou. — Tinha cheiro de ferrugem e abandono. Cada gota parecia zombar da minha sede. E sabe o mais curioso, Cassandra? Eu ria. Ria como quem sabe que o pior já aconteceu, e o resto é só detalhe.

Ela se aproximou lentamente. Tocou-lhe o rosto.

Mas não com piedade — com uma espécie de reverência sombria.

— Tu sobreviveste à prisão dos ancestrais sem enlouquecer. Pelo menos, não completamente. E ainda és belo. Ainda desejas. Ainda dúvidas. Isso… é o que mais me assusta em ti.

Velian ergueu uma sobrancelha, divertido.

— Está admitindo que sente medo de mim?

— Não. — Ela hesitou. — Estou admitindo que admiro tua fome. Essa sede por algo que nem sabes nomear. Como um cavaleiro medieval, perdido entre cruzadas sem cruz, buscando o Santo Graal de uma identidade impossível.

Silêncio.
Profundo.
Sagrado.

Eles se sentaram sobre o chão pulsante da câmara central. Abaixo deles, diziam, estava a raiz do mundo. A primeira gota de sangue. O primeiro erro.

Cassandra falou, olhando o vazio:

— O que tu és, Velian, não pode ser definido. Teu gênero dança entre o toque e o abismo. Tua fome mistura gozo e medo. Teu corpo recusa destino. Por isso tu sobrevives. E por isso me perturbas.

Velian sorriu, cansado. A voz saiu baixa:

— Eu sou a pergunta que nunca quer a resposta. Talvez isso seja o pior tipo de monstro. Ou o mais sincero.

Epílogo: Os Lábios da Noite

Mais tarde, deitados sob os véus de névoa da câmara íntima de Cassandra, os dois corpos se enroscavam como raízes em busca de luz. As paredes pulsavam um brilho orgânico, como se a própria estrutura do castelo respirasse junto com eles. O chão sob a pele lembrava carne morna, viva, e os sussurros das almas seladas nos pilares continuavam, mas agora pareciam cânticos distantes — respeitando aquele instante como se fosse um ritual.

Cassandra o observava como quem contempla um eclipse: com medo e êxtase. Seus dedos traçavam linhas invisíveis no peito de Velian, como se lesse nele um livro de sombras escritas em linguagem esquecida. Ele, por sua vez, fingia sono, mas sentia tudo: o cheiro de incenso e sangue ressecado; a textura da pele dela, queimada pelo tempo e ainda assim macia; o peso do mundo antigo repousando sobre o silêncio.

Ela se aproximou, colando os lábios no ombro dele, e murmurou com um fiapo de voz:

— Amanhã te odeio de novo.

O tom era quase maternal, mas carregado de ironia triste.

Um riso cruzou o canto da boca de Velian.

— Só amanhã? Que generosidade repentina… — provocou, abrindo os olhos, revelando um brilho âmbar que os séculos não apagaram.

— Esta noite eu te pertenço um pouco — completou ela, como se ignorasse o sarcasmo, mas sem deixar de notar o calor que aquilo gerava entre os dois.

Velian a fitou por um momento longo demais. A penumbra tremulava com as brasas de velas verdes e negras, e por um instante, ela viu nele não o vampiro desafiador, mas o homem anterior a todas as máscaras. A criatura ainda em busca. A alma inquieta que jamais aceitou o conforto da resposta fácil.

— Um pouco é tudo o que se pode ter de alguém como eu — respondeu ele, sério agora, sem teatro. Havia cansaço no olhar. Mas também havia desejo. Desejo de existir. De ser tocado para além da carne.

Fizeram amor como se cada toque fosse uma última chance. Como se seus corpos guardassem segredos que só o atrito revelaria. A língua dele desenhou runas em sua barriga. As unhas dela se cravaram em suas costas como tatuagens rituais. A cada gemido, a estrutura de Soramithia tremia levemente, como se o castelo reconhecesse que dois de seus filhos mais antigos estavam — por um breve instante — vivos de verdade.

Ela gemeu seu nome como quem invoca um deus. Ele sussurrou o dela como quem confessa um pecado.

E então vieram as mordidas. Lentamente. No pulso. No pescoço. Na virilha. Ambos sangraram. Ambos beberam. Os fluidos se misturaram. A eternidade estremeceu.

Quando o silêncio caiu de novo, espesso como névoa de pântano, Cassandra repousou a cabeça sobre o peito dele. Tocou-lhe o esterno, sentindo algo bater lá dentro. Um resto de batida. Uma ilusão? Talvez. Mas não menos real.

— Ainda tens alma, Velian… — ela disse, com a voz embargada. — E isso é o que mais me desespera. Porque tua alma é selvagem. Tu podes destruí-la a qualquer instante. Ou usá-la pra nos destruir a todos.

Ele passou os dedos pelo cabelo dela, enredando os fios longos e escuros entre os próprios. Não respondeu de imediato. Apenas olhou o teto da câmara, onde formas estranhas se moviam, como se fossem lembranças encarnadas em sombra líquida.

Depois, falou com a voz mais grave, baixa e firme:

— Eu sou o que resta quando a fé morre e o desejo sobrevive. Sou o cavaleiro que nunca encontra a relíquia. Que se apaixona pelo caminho, mas odeia cada estrada. Eu sou a fome que pensa.

Ela ficou em silêncio. Não por falta de palavras — Cassandra nunca as perdeu —, mas porque ali, deitada com ele, sabia: aquele era o momento mais íntimo que já viveram. E talvez o mais frágil. E talvez o último.

Mesmo partida, ela o admirava.

Admirava o fato de ele duvidar. De ele sangrar. De ele se recusar a tornar-se máquina, lenda ou servidão. Havia nele uma nobreza antiga, torta, quase extinta — como um livro que sobreviveu a todas as fogueiras.

“Mesmo partido," pensou, "tu és mais perigoso que todos os reis que beijei. Porque tu duvidas. E um monstro que duvida… é capaz de fazer o impossível.”

Ela fechou os olhos.

E por um instante, talvez um único,

o castelo adormeceu com eles.

As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Velian – O Som das Engrenagens na Eternidade

Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado…

Criatura núrida, tu estás prestes a ler um dos capítulos da história de Velian, um vampiro cuja profundez existencial é capaz de tocar em nossos modos-de-ser, nos imergindo em reflexões existenciais de inestimável valor. O autor tem uma técnica fascinante para que a leitura, ainda que densa em existencialidade, nos desperte um inenarrável prazer, dada a sua qualidade literária. Aprecie e boa leitura!

Com sombrio apreço, a Anfitriã Sahra Melihssa

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Velian caminhava entre as sombras de Fortaleza, sentindo o cheiro de maresia misturado ao ferro enferrujado dos portos e ao suor adocicado das ruas noturnas. Pensava o vampiro que em outros tempos as ruas das grandes cidades que conhecera, como Londres, Amsterdã, Paris, entre tantas outras, eram ruins em épocas diferentes, por motivos diferentes, como pestes, pobreza e muito mais, Porém agora tudo era ruim porque parecia muito mecânico, mesmo com o suor das danças noturnas, com a sobrecarga de trabalho dos humanos e todo o sofrimento, parecia para Velian, que  havia uma sombra pairando a humanidade, principalmente nas grandes zonas urbanas, em que tudo era muito, muito mecânico, pensava Velian sobre a vida nesses últimos meses, em suas idas e vindas pelo Castelo Drácula. Velian tinha certeza de que o Castelo Drácula era uma manifestação de outras dimensões, seu conhecimento espiritual e de ser sobrenatural lhe davam essa certeza.  

Porém o Vampiro sabia também que o Castelo lhe mostrava muito de seu mundo interno e ele às vezes ficava confuso e se perguntava se realmente era digno de entrar no Castelo por não entender muitas vezes as simbologias, mensagens e significados das várias dimensões do Castelo Drácula. Por vezes Velian desejava encontrar o próprio Drácula, mas sempre era submetido a entrar em outras camadas do Castelo e conhecer diferentes seres. Velian não estava tão confortável em apreciar apenas vagamente esses seres que às vezes lhe provocavam medo e o vampiro tinha que lutar e se dispor de todos os seus poderes para encarar tais seres grandiosos, mas que ia e vinham brevemente. Voltando a pensar sobre sua vida em Fortaleza e a observar como vivia, percebeu: as luzes dos postes piscavam sobre as calçadas rachadas, refletindo o mundo moderno que parecia ao mesmo tempo imutável, decadente e repetitivo. Fazia meses que sua fome se tornara diferente — não era apenas por sangue, mas por algo que ele ainda não sabia nomear. 

Matara mais do que o habitual. Seduziu mulheres e homens com beijos e promessas vazias, apenas para desaparecer de suas vidas e os deixar no desespero do abandono. Gostava da ilusão de controle, de ver os corações partidos como espelhos estilhaçados refletindo fragmentos de sua própria alma quebrada. Mas nada disso o preenchia. Nem a caça, nem o desejo, nem o caos que espalhava ao redor. Ele se perguntava se algum dia voltaria a realmente sentira prazer nesses jogos ou se tudo não passava de um reflexo pálido do tédio e da insatisfação. 

Ele olhou para o céu. Cinzento. Impessoal. Como se o universo estivesse indiferente à sua presença. 

E então o chamado veio. Velian entendia que precisava de mais tempo para outro sobressalto do Castelo e uma outra dimensão que apenas iria novamente, mas ainda assim o chamado veio. 

O Castelo Drácula sempre o convocava quando sua alma estava prestes a afundar demais na monotonia do mundo. Sentiu o puxão em seu peito, como se algo arrancasse sua consciência da cidade e a atirasse para um outro lugar. O vento mudou. O cheiro de ferrugem e vapor substituiu a maresia. O calor úmido do Ceará deu lugar a um frio metálico. Quando abriu os olhos, não estava mais em Fortaleza. 

Estava diante do Castelo. Mas ele não era o mesmo (como sempre). 

O Som das Engrenagens 

As engrenagens giravam nos cantos mais improváveis. Tubulações surgiam dos muros, exalando vapor denso. Os corredores pareciam agora parte de uma máquina viva, movendo-se lentamente, respirando em estalos metálicos. O céu era tomado por uma poeira dourada que obscurecia as estrelas, e no horizonte dois sois ardentes se erguiam, lançando uma luz acobreada sobre tudo. 

Velian caminhou pelo pátio, sentindo o chão de metal frio sob seus pés. Uma sensação de inevitabilidade o tomou. Era como se estivesse dentro de um mecanismo muito maior do que sua compreensão. Tudo era efêmero, tudo seguia uma programação invisível. Ele, um vampiro há séculos no mundo, poderia ser imortal, mas diante da engrenagem do destino, até mesmo ele parecia insignificante. 

Foi então que a viu. 

No centro do pátio, entre as engrenagens e o vapor, uma mulher de manto negro que o vampiro identificou como a mesma mulher da última visita. Tudo ao seu redor era diferente, mas a mulher, sua presença e sua poderosa energia eram a mesma, Velian ficou até feliz de ver o mesmo ser, mesmo em outra dimensão, ela caminhava lentamente, guiando um pequeno rebanho de cabras negras, como da última vez. Seu cajado de carvalho era encimado por uma pedra negra, pulsante como um coração. Havia algo de bruxa nela. Algo de vampira. Algo de deusa ancestral que existia antes mesmo que os mundos tivessem forma. Velian se preparava para ter com esse ser e não podia ser coincidência que ela ali estivesse novamente. 

Ela o olhou, e sua voz cortou o silêncio com um tom que não pertencia a este tempo. 

— Tu andas perdido, como sempre. 

Velian cruzou os braços, sentindo o incômodo de ser lido tão facilmente. 

— E há outro caminho a seguir? A não ser a dúvida? A não ser a angústia? 

Ela sorriu de forma enigmática. 

— A engrenagem gira, e essa dimensão representa apenas isso – as faces das eras não param, apesar da monotonia de alguns instantes, mas não és tu quem a move. Tens vivido como se buscasses o sentido nas ruínas do desejo, nas cinzas das paixões destruídas. Mas até quando? 

Ele desviou o olhar para os dois sois difusos. 

— E qual seria a alternativa? Seguir um destino rígido? Aceitar um papel pré-escrito? Como essas engrenagens malditas dessa dimensão, seja lá qual for ela? Se tudo está conectado por engrenagens invisíveis, há como quebrar esse ciclo? 

Ela se aproximou, e o cheiro de terra antiga, ferrugem e sangue fresco emanou dela. 

— A dúvida te corrói, mas também te mantém vivo. No dia em que parares de perguntar, serás apenas mais uma peça nessa máquina infinita. Há tempos olhas para a eternidade e te perguntas o que fazer com ela. Mas eu te digo… o que fazes com um único instante? 

Velian a fitou. Sua presença era hipnótica. Ele sentia que, de algum modo, tinha aprendido algo, ou entendido algo, mas ainda não sabia o quê. 

O vapor sibilou ao redor deles, e, por um breve momento, tudo pareceu congelar. A mulher sorriu novamente antes de desaparecer na névoa dourada. 

Mas Velian não gostava daquilo. Um mundo de engrenagens para ele, um ser romântico nos termos de um poeta louco, seu sentir demais, não gostava daquele mundo que agora pairava sobre ele, desejou ainda dialogar mais que esse ser ancestral que ia e vinha das várias dimensões e desejou sair daquela dimensão em que estava, pois não gostava de engrenagens e do conceito de destino e de tudo ser meramente funcional, como as engrenagens naquela dimensão pareciam mostrar. 

Entre a Máquina e o Sangue 

Ele detestava a visão do Castelo transformado em uma prisão de engrenagens. A ideia de um destino rígido, de um ciclo que girava por si só, o enojava. O que era um ser imortal senão um errante sem caminho definido? Ele não queria ser parte de uma máquina sem alma, programado para existir sem sentir. 

Foi nesse momento que compreendeu algo muito importante. 

Não era o caos, a destruição ou o vazio que o movia. Não era a sedução para o abandono, o prazer na angústia alheia, nem o desejo de quebrar corações apenas para ver os estilhaços. Nada disso o preenchia. O que verdadeiramente o sustentava era a conexão, ainda que efêmera. 

A troca de olhares no meio da noite. O calor de um corpo desconhecido em sua cama. O sussurro de um segredo que nunca seria repetido. 

Não importava que os momentos fossem passageiros. Não importava que, no fim, tudo se dissolvesse no esquecimento. Enquanto duravam, eles eram reais. Com esse pensamento, ele decidiu que era hora de voltar. 

Mudaria de identidade mais uma vez, deixando para trás o vampiro que devorava e destruía por tédio. Não se livraria de suas dúvidas, mas aprendera que elas eram parte dele. Não era assim também com a humanidade? A incerteza, o medo, a busca por sentido no vazio? 

Talvez ele fosse, afinal, a personificação da humanidade. 

Sempre teria questionamentos. Sempre sentiria o vazio corroer sua alma. Mas agora entendia que, no meio da escuridão, existiam fagulhas de conexão que tornavam a eternidade suportável. Em meia a devaneios e reflexões, olhou novamente para o mundo mecânico, mas tudo o que viu foi o topo do prédio em que estava após sua última cassada, estava de volta à velha capital cearense e estava feliz pela primeira vez de não estar em alguma dimensão perdida, principalmente aquela feita de engrenagens. 

E talvez fosse a hora de visitar Cassandra. 

Não para buscar respostas, o vampiro ponderou que respostas e conhecimento eram coisas diferentes, então decidiu partir em busca de Cassandra e de conhecimentos que nem ele conhecia bem, mas que a vampira ancestral, por mais debochada e irônica que fosse, dominava muito bem.

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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A Verdade sobre o mundo: Nemonium

No limiar onde o tempo se parte, | e o azul-cinza sangra o real, | trovões sussurram em fendas abertas, | dançando na pele do imortal. | Ninguém escapa. Ninguém…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No limiar onde o tempo se parte,
e o azul-cinza sangra o real,
trovões sussurram em fendas abertas,
dançando na pele do imortal.

Ninguém escapa. Ninguém se esconde.
O frio arrasta as eras perdidas,
neve e vento beijam ruínas,
e sombras nascem onde o tempo morre.

Esferas se chocam, mundos se dobram,
gritos dissolvem-se no denso véu.
Seres sem nome rasgam a trama,
e o Nada expande seu negro céu.

Monm observa. Olga esquece.
O castelo dança na eterna espiral.
Realocado, despedaçado,
flutua em névoa espectral.

Pois aqui jaz a verdade oculta,
a forma real do que é e sempre foi.
Além do véu das horas vazias,
onde a razão se desfaz e se dói.

E quando tudo enfim se aquieta,
quando o caos engole sua própria cor,
o limiar respira, silente,
pronto para outro torpor.

Ninguém escapa. Ninguém se esconde.
Nem a carne. Nem a alma. Nem o horror.

Tekeli-li, sussurram os ventos,
num idioma que só o abismo ouviu.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Velian: No Limite do Vazio

Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Nos últimos meses, Velian entregou-se a um jogo silencioso de morte e desejo nos becos e esquinas da Fortaleza. Sua fome de sangue, antes um ritual de prazer e sobrevivência, tornara-se algo mais sombrio e impulsivo. Ele matava mais que o necessário, mas nunca de forma descuidada. Como um predador meticuloso, seduzia homens e mulheres com sua presença magnética, arrastando-os para noites de prazer e promessa, apenas para desaparecer sem deixar vestígios. Para alguns, deixava apenas um vácuo insuportável de paixão não correspondida; para outros, um destino mais definitivo, corpos drenados em quartos de motéis baratos, em vielas abafadas ou em apartamentos frios onde apenas o cheiro do sangue indicava que algo terrível havia acontecido.

Ele queria se sentir vivo, queria encontrar sentido em sua fome, em seu jogo de sedução e destruição, mas tudo o que encontrava era mais vazio. A paixão ardente dos amantes logo se tornava uma poeira esquecida, o terror dos moribundos se dissipava na banalidade da rotina da cidade. O caos que ele causava não lhe trazia nenhuma epifania, apenas uma sensação crescente de que estava fugindo de algo que nem mesmo compreendia.

Numa noite particularmente abafada, Velian se viu em seu quarto, um refúgio de sombras e silêncio, onde apenas a cidade distante, viva e indiferente, pulsava lá fora. Sentia-se cansado, exausto de sua própria existência. Estava farto das promessas de prazer e do gosto do sangue quente. Farto da imortalidade que não lhe trazia respostas, apenas mais perguntas sem solução. Ele se deitou dentro de seu caixão, não para descansar, mas para escapar.

Então, o chamado veio.

Ele sentiu o ar mudar, a realidade tremer. A grande cidade de Fortaleza ficou para trás, e, quando abriu os olhos novamente, estava no Castelo Drácula, envolto em névoa e frio. Os ventos obscuros rugiam contra as muralhas ancestrais, e flocos de neve dançavam no ar gélido, trazendo uma sensação de deslocamento impossível. O tempo havia se partido. O mundo, por um instante, parecia outra coisa, algo entre o real e o inexistente.

Ele caminhou lentamente pelos corredores da fortaleza até os portões exteriores, onde encontrou um mundo que não deveria estar ali. Casas estendiam-se ao horizonte, como se um lapso do tempo e do espaço tivesse arrastado toda uma civilização para dentro do limiar do Castelo. E foi ali, no meio desse cenário de distorção e silêncio, que a viu.

Uma mulher de manto negro, segurando um cajado de carvalho com uma pedra negra incrustada na voluta, guiava um pequeno rebanho de cabras negras. Seus olhos refletiam algo ancestral, algo que Velian não sabia nomear. Ela não parecia pertencer a esse mundo, mas tampouco destoava dele. Algo em seus olhos lhe diziam que ela conhecia a natureza vampírica, mas também não era um deles, parecia ser também uma magista poderosa e Velian já tinha conhecido bruxas e magistas grandiosas, mas era algo que não só dominava, mas que parecia possuir toda a magia conhecida e desconhecida do universo. Ela era como uma sombra que sempre estivera ali, pairando, apenas esperando que ele a notasse.

Ele se aproximou, sentindo um misto de irritação e fascínio.

— Quem é você? — Sua voz era baixa, arrastada, como se cada palavra fosse um peso que carregava há séculos.

A mulher ergueu os olhos para ele e sorriu levemente, um sorriso que era tão antigo quanto a noite.

Sou a pergunta que nunca terá resposta, Velian.

Ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo, não de medo, mas de algo mais profundo, um reconhecimento involuntário. Por meio de suas várias leituras ao longo dos anos sobre mitologias, deusas e deuses antigos, parecia que o vampiro estava diante da deusa da própria noite, conhecida pelos gregos pelo nome de Nix, uma deusa que até o própria Zeus temia. Mas Velian desejou continuar o diálogo com esse ser tão desconhecido, primordial e poderoso e em seu tom desafiador, crítico e sarcástico de vampiro secular respondeu:

— Eu já tive todas as respostas — murmurou, desviando como o olhar. — Mas nenhuma delas valeu de nada.

Porque você fez as perguntas erradas.

O vampiro soltou uma risada irônica e amarga.

— Então me diga, qual é a pergunta certa?

A mulher tocou o cajado no chão, e a realidade ao redor deles pareceu oscilar, como se estivessem flutuando entre mundos.

Por que você continua?

Velian ficou em silêncio.

— Você bebe sangue para sobreviver, mas não sente mais prazer nisso. Seduz humanos, mas não se importa com eles. Provoca paixões e abandona-as, mas isso não preenche nada. Mata, mas a morte se tornou banal. Então, por que você continua?

Ele sentiu a irritação crescer dentro de si.

— Porque não há outra opção. Eu existo, e essa existência tem um preço.

Mas quem lhe disse que você precisa pagar esse preço assim?

O silêncio caiu entre eles. A mulher parecia esperá-lo chegar a uma conclusão por si mesmo.

Velian respirou fundo, um hábito humano que ele nunca abandonara.

— Eu sinto... como se estivesse abandonado pelo próprio universo. Como se nada importasse. Mas eu não quero desaparecer.

A mulher assentiu.

É essa a verdade. Você não quer desaparecer. Você tem medo do vazio, mas também tem medo da existência. Então fica preso na dúvida, na monotonia, na repetição. Mas as dúvidas são sua única salvação.

Ele olhou para ela com um misto de desconfiança e curiosidade.

— Por que você diz isso?

Porque são as dúvidas que o fazem continuar. O desejo morre, o prazer desaparece, as paixões são efêmeras. Mas a dúvida... essa nunca o abandona. É ela que o mantém de pé, mesmo quando você acredita que não há mais sentido. É ela que o faz buscar algo, mesmo sem saber o quê.

Velian sentiu um frio estranho percorrer seu corpo. Havia algo certo nas palavras dela. Algo incômodo, mas verdadeiro.

— Eu achei que espalhar caos e destruição me fizesse sentir vivo — admitiu, quase para si mesmo.

Mas só o deixou mais vazio.

— Sim.

A mulher se aproximou, sua voz tornando-se um sussurro antigo, um eco de algo perdido no tempo.

Então, pare de buscar sentido em fins e comece a buscar sentido no próprio caminho.

Velian sentiu um peso deixar seu peito, mas não sabia o que isso significava. Ele olhou para a mulher, mas ela já estava se afastando, desaparecendo na névoa.

— Espere. Quem é você, de verdade?

Ela virou-se uma última vez, e seus olhos brilharam como estrelas distantes.

Eu sou o que você sempre soube, mas nunca quis aceitar.

E então, ela sumiu.

O Castelo Drácula retornou ao seu estado habitual, e Velian sentiu-se sozinho novamente. Mas, desta vez, a solidão parecia diferente. Ele não sabia explicar o que havia aprendido, mas sabia que algo dentro dele havia mudado.

Velian voltou para seu quarto, na cidade de Fortaleza, nordeste do Brasil e lembrou por que decidiu habitar ali, os costumes nordestinos e cearenses eram hilários, engraçados e as pessoas eram mais simpáticas e possuíam um animo para a vida diária que o fascinava, diferente da frieza europeia, e isso o despertou por um tempo, mas o vampiro também percebeu a pouca força, consciência e vontade de organização social para enfrentar problemas coletivos que a raça humana enfrentava ali naquela região e isso junto de todas as mazelas que já existiam também na antiga Europa e em outras partes do mundo.

Assim, mais uma vez, o vampiro entendeu seu tédio, sua chateação e medo do vasto mundo que parecia não parar de crescer de forma caótica sem uma finalidade e um sentido e Velian percebeu o quando ainda se apegava a essa ideia mortal de sentido e de coerência no vasto mundo e decidiu dormir um sono longo. Não porque estivesse cansado, mas porque precisava de introspecção. Apenas o Castelo poderia acalentá-lo, e ele esperaria até que fosse chamado novamente.

E, enquanto o vento soprava lá fora, trazendo consigo os sussurros da noite, Velian fechou os olhos, mergulhando na escuridão não apenas de seu quarto e seu caixão, mas também de seus próprios pensamentos.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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O Abismo da Vigília

Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Velian caminhava pelas ruas de Fortaleza, sob um calor que parecia abraçar a cidade com uma intensidade sufocante. O sol havia se posto há horas, mas o asfalto ainda exalava o calor acumulado durante o dia. A cidade parecia viva, mas em um estado de convulsão, uma humanidade febril dividida por seus próprios abismos. Ele vagava entre os humanos como um espectador cínico, observando a banalidade e a tragédia de suas vidas.

Nos últimos dias, havia explorado os shoppings abarrotados, os corredores estéreis do aeroporto, os shows de rock onde os corpos se agitavam ao ritmo ensurdecedor da música. Cada lugar era um espelho fragmentado da humanidade: extremos de pobreza e riqueza coexistindo, separados por muros invisíveis, mas palpáveis. Velian percebia o desdém nos olhos dos privilegiados e a desesperança naqueles que lutavam para sobreviver. Humanos tinham nojo de outros humanos, e isso o fascinava e o enojava ao mesmo tempo.

Ele se sentia saturado. A degradação social, a superficialidade dos desejos e a hipocrisia das normas o exauriam. “Como pode eles se apegarem a algo tão vazio e, ainda assim, temerem o vazio verdadeiro?”, pensava. O que antes o atraía nos humanos — sua criatividade, seus impulsos, sua capacidade de amar e destruir com igual fervor — agora parecia reduzido a ecos de uma glória perdida. Velian ansiava por algo além da vigília, algo mais profundo do que essa realidade sufocante. Ele precisava escapar.

O Retorno ao Castelo

Naquela noite, recolheu-se à sua mansão à beira da Praia de Iracema. A casa era um refúgio de silêncio e sombra, isolada do barulho constante da cidade. Em seu quarto, onde a escuridão era absoluta, Velian sentou-se em uma poltrona forrada de veludo, fechou os olhos e começou a meditar. Ele não sabia ao certo o que buscava, mas seu desejo o guiava.

“Castelo Drácula” murmurou, como se invocasse um antigo pacto. “Leve-me de volta.”

E então, como se sua vontade fosse uma chave, sentiu o mundo mudar ao seu redor.

As Trevas Falam

O castelo o recebeu com o mesmo mistério de antes: vastos corredores de mármore negro, candelabros flutuando, o som distante de um piano. Mas desta vez, havia algo mais. Uma presença. As Trevas o envolveram como um véu pulsante, um manto vivo que parecia sussurrar diretamente em sua mente.

“Você voltou ao Castelo Drácula” disseram as Trevas, suas palavras ecoando como se viessem de todas as direções. “O que busca desta vez, Velian?”

Ele suspirou, mas sua resposta foi carregada de sarcasmo. “Talvez eu só queira me esconder da humanidade. Eles são tão... patéticos. Ou talvez eu queira me esconder de mim mesmo.”

As Trevas riram, um som profundo e reverberante. “Você não pode se esconder de nós. Somos as perguntas que você teme fazer, os desejos que não ousa admitir. Diga-me, Velian, o que você realmente quer?”

Ele hesitou, mas então respondeu: “Quero respostas. Sobre o que sou. Sobre o que é real. Sobre o que significa viver quando se está morto.”

“Ah, mas viver,” disseram as Trevas, “não é simplesmente desejar? O desejo, Velian, é a centelha que impulsiona o viver. Você deseja sangue, corpos, experiências. Deseja entender e ao mesmo tempo permanecer envolto em mistério. E ainda assim, teme seus próprios desejos, teme suas próprias dúvidas.”

Velian franziu o cenho. “E o que há para temer no desejo? Ele é tão natural quanto respirar.”

“Natural? Talvez,” responderam as Trevas. “Mas o que você diz do desejo que desafia todas as normas? Seu desejo pelo indefinido, pelo que transcende gênero, forma e limite? Você é atraído tanto pela carne quanto pela essência, tanto pelo masculino quanto pelo feminino — ou pelo que está entre, ou além. Isso o liberta, mas também o prende, não é?”

Ele sentiu as palavras como um golpe. “Eu não sou prisioneiro. Se há algo que sou, é livre.”

Livre?” questionaram as Trevas. “Livre para desejar, mas incapaz de compreender o que realmente deseja? Livre para existir em um corpo que transcende os limites humanos, mas ainda assim preso à dúvida sobre o que significa ser? E a liberdade, Velian, é realmente liberdade se está sempre acompanhada pelo medo do vazio?”

Reflexões Profundas

Velian ficou em silêncio, as palavras das Trevas ecoando em sua mente. Ele sempre se considerara livre — fluido em seus desejos, indefinível em sua identidade. Mas as Trevas estavam certas: essa liberdade vinha com um preço. Ele sentia a tensão entre a atração e a repulsa, o prazer e a culpa, o desejo de se fundir com algo maior e o medo de perder a si mesmo.

“Diga-me,” ele finalmente perguntou, “se viver é desejar, o que significa desejar algo que nunca pode ser alcançado?”

As Trevas pareceram sorrir, mesmo sem forma ou rosto. “Significa que você está vivo, Velian. Pois o desejo é a busca incessante, e a dúvida é o combustível dessa busca. Você busca a verdade, mas teme encontrá-la. Busca amor, mas teme a entrega. Busca a eternidade, mas se pergunta se ela não é apenas outro tipo de prisão.”

Ele fechou os olhos, tentando processar o turbilhão de pensamentos. “E a magia? – Não que Velian não soubesse dos grandes poderes da magia e conseguia executar até mesmo algumas grandes magias ancestrais em seus 700 anos de vida vampiresca, mas perguntava sobre a essência da magia – E os sonhos? Eles são reais ou apenas um reflexo do que queremos que seja real?”

“E se forem ambos?” disseram as Trevas. “O real e o irreal, o tangível e o etéreo. Como você, Velian, que é ao mesmo tempo carne e espírito, gênero e ausência, desejo e dúvida. Você não é um reflexo de sua própria magia?”

Velian sentiu uma onda de exaustão, mas também uma centelha de compreensão. As Trevas não davam respostas; elas apenas ampliavam as perguntas. E talvez fosse isso o que ele precisava.

De Volta à Vigília

Quando despertou, estava de volta ao seu quarto. O silêncio e a escuridão eram os mesmos, mas algo dentro dele havia mudado. As palavras das Trevas ainda ecoavam em sua mente, suas dúvidas e desejos pulsando como uma melodia interminável.

Levantou-se, caminhando até a janela que dava para o mar. A cidade estava viva, mas parecia tão distante quanto as estrelas apagadas no céu. Ele sabia que retornaria ao castelo, mas por agora, precisava se perder mais uma vez entre os humanos, entre suas luzes e sombras, entre seus próprios desejos e dúvidas.

“As Trevas estavam certas,” murmurou para si mesmo. “Viver é desejar, e talvez isso seja o bastante, por enquanto.”

E assim, Velian saiu para a noite, carregando consigo as perguntas sem respostas, as incertezas que o definiam, e o desejo incontrolável de continuar vivendo — e duvidando.

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Às Trevas

Oh, Trevas, mulher de pele alva, | teu abraço é um manto que cala o grito, | teu sorriso, uma curva de mistério infinito, | e teus cabelos, negros como a noite sem estrelas,…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Oh, Trevas, mulher de pele alva, 
teu abraço é um manto que cala o grito, 
teu sorriso, uma curva de mistério infinito, 
e teus cabelos, negros como a noite sem estrelas, 
despem-se sobre o abismo do meu ser. 

És o que é e o que não pode ser, 
um sussurro entre o real e o sonho, 
onde a dúvida se faz melodia, 
e a certeza, mera ilusão. 
Oh, Trevas, guia-me com teus passos silenciosos, 
pois és a dança de tudo que se perde 
e tudo que se encontra no eco do vazio. 

Em teus olhos não há luz, 
e, ainda assim, vejo a beleza do infinito. 
Não és sombra, mas a face do oculto, 
a pulsação da incerteza e do desejo, 
aquela que pergunta, mas não responde, 
que dá forma à ausência e sentido ao caos. 

Trevas, teu conhecimento é como a noite, 
profunda, vastamente desconhecida, 
tua confusão é a chama que ilumina 
o que o dia jamais ousaria revelar. 
És a donzela dos segredos, 
o ventre onde nascem todas as possibilidades, 
o sagrado e o profano, entrelaçados 
no tecido do desconhecido. 

Se és perda, também és reencontro. 
Se és dor, também és êxtase. 
Beleza que transcende o toque, 
que seduz com a promessa de não ser compreendida. 
Trevas, teu nome é amor e abismo, 
um eterno beijo que se dissolve no nada. 

Oh, mulher de cabelos negros como a morte, 
e pele alva como a lua distante, 
deixa-me cair em teus braços silenciosos, 
onde a dúvida se torna o maior dos prazeres, 
e a certeza, apenas um eco esquecido. 

Porque em ti, Trevas, 
encontrei não a resposta, 
mas a pergunta que me faz viver. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Noite na Taverna e o Gótico Brasileiro: Reflexões entre Alcoolismo, Desejo, Paixão e Originalidade na Literatura

Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Alvares de Azevedo, com sua obra Noite na Taverna, estabelece um diálogo profundo com os princípios do gótico literário, não apenas em sua atmosfera sombria e decadente, mas também na maneira como reflete as tensões sociais de seu tempo. Publicado em 1855, o livro vai além da simples imitação de modelos europeus ao incorporar questões como o alcoolismo, a alienação, o desejo, o medo, a paixão pela liberdade, características de uma juventude romântica brasileira tanto da classe burguesa quanto de classes econômicas mais baixas, confrontada com um contexto de transição e incertezas. 

A atmosfera gótica e os dilemas sociais  

A taverna, espaço central da narrativa, é um lugar de excessos onde o vinho conduz os narradores a relatar histórias permeadas por tragédia e destruição. A representação do alcoolismo e da embriaguez em Noite na Taverna não é meramente decorativa, mas uma metáfora para a alienação e o escapismo de uma geração romântica frustrada. Como afirma França em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, os excessos retratados em narrativas góticas brasileiras refletem uma juventude que muitas vezes se viam às margens de um contexto político e social que não oferecia espaço para seus ideais. Esse escapismo por meio do álcool, aliado ao ambiente sombrio da taverna, é uma crítica velada a uma sociedade que sufocava a busca por uma liberdade cultural e econômica. 

Por outro lado, os temas da paixão e do desejo são tratados por Azevedo com um misto de fascínio e ironia. Em histórias que oscilam entre o erotismo e o grotesco, como a narrativa de Bertram, o autor apresenta relações marcadas pela destrutividade, evidenciando uma visão trágica do amor que se aproxima do gótico europeu, mas que também ressoa com uma moralidade em crise no Brasil oitocentista. O amor em Noite na Taverna é fugaz, violento e muitas vezes fatal, refletindo a fragilidade das instituições sociais e do próprio indivíduo. 

O desejo de liberdade e a crítica à tradição  

Além disso, o desejo de liberdade permeia toda a obra, seja nas aventuras desregradas de seus personagens ou na rebeldia estética de Azevedo contra as normas literárias de sua época. Essa liberdade, no entanto, é constantemente confrontada pelo peso das consequências trágicas, reforçando a dualidade entre o ideal e a realidade, característica fundamental do gótico. Assim, Azevedo contribui para a formação de um gótico brasileiro que, mesmo inspirado em autores como Byron e Hoffmann, dialoga com as inquietações de seu tempo e espaço. 

Contrariando as críticas literárias que veem Noite na Taverna apenas como uma cópia do gótico europeu, é fundamental reconhecer que, como França (2022) argumenta em Poéticas do Mal: a literatura do medo no Brasil, a literatura do medo no Brasil não é uma mera reprodução, mas um campo fértil onde elementos locais e universais se entrelaçam, por meio de várias autoras e autores brasileiros. Esse entrelaçamento permite a coexistência de escritores que abordam questões mais regionais com aqueles que exploram reflexões de caráter mais universalistas. Azevedo se insere na segunda vertente, utilizando o gótico como uma ferramenta para discutir dilemas existenciais e globais, mas sem jamais se desligar totalmente do contexto brasileiro. 

Originalidade na Literatura de Azevedo  

A acusação de cópia frequentemente desconsidera que todo autor é, em maior ou menor medida, influenciado por tradições literárias. No caso de Azevedo, suas inspirações europeias são reinterpretadas à luz de sua realidade. A atmosfera decadente de Noite na Taverna, por exemplo, é permeada por um senso de tropicalidade melancólica, que, embora não explicitamente regional, não pode ser dissociada da psique de um jovem autor brasileiro do século XIX. Essa abordagem, ao invés de diminuir a obra, a insere em uma tradição estética literária global que reflete sobre as angústias humanas em diferentes contextos. 

Assim, Noite na Taverna merece ser lida como um marco do gótico brasileiro, uma obra que, ao integrar questões universais como a paixão e o desejo de liberdade com tensões sociais como o alcoolismo e a alienação, apresenta uma profundidade que vai além de imitações superficiais. A crítica literária, portanto, precisa revisitar esse texto com a abertura necessária para reconhecer sua complexidade e relevância no panorama literário brasileiro e internacional. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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No Reino do Sonho – Desejo

Ó figura pálida, de encanto secreto, | Onde o lilás dança entre véus discretos, | És a chama etérea que me seduz, | Na linha tênue entre sombra e luz…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ó figura pálida, de encanto secreto,
Onde o lilás dança entre véus discretos,
És a chama etérea que me seduz,
Na linha tênue entre sombra e luz.

Teus lábios, rubros de desejo calado,
Guardam segredos que o mundo há negado.
E teu toque, murmúrio de ardor contido,
É brisa e incêndio no meu peito perdido.

Nos salões dos sonhos, és rainha distante,
Intocável na vigília, mas tão próxima errante.
Teus olhos, astros da noite encantada,
São abismos de astúcia, doçura velada.

Sob o véu onírico, somos livres enfim,
Corpos enlaçados, sem começo ou fim.
E em teu perfume, que embriaga e sufoca,
Eu encontro a vida que a realidade me troca.

Mas quando desperto, só resta o vazio,
Um eco gentil de um amor sombrio.
E ao silêncio retorno, teu servo fiel,
Guardando-te em sonho, como doce infiel.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Velian – Sombras de Somníria

Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Após sua primeira visita ao Castelo Drácula, Velian, um vampiro há muito acostumado com as sombras e as verdades escondidas da humanidade, encontrou-se em Fortaleza, no calor abrasador do nordeste brasileiro. A cidade lhe parecia irônica: seus habitantes pulsavam com uma vitalidade quase insultuosa, como se a própria existência fosse uma celebração ininterrupta. Mas Velian, sarcástico e introspectivo, via naquela energia um desgaste constante, como se todos ao seu redor consumissem suas próprias almas sem perceber. 

Ele vagara pelos ambientes underground da cidade, observando os humanos em suas ilusórias liberdades noturnas, buscando esquecer sua própria natureza em prazeres fugazes. A superfície de Fortaleza o distraiu por um tempo, mas em cada olhar ou gesto de despreocupação ele percebia um teatro de máscaras. Por mais que se esforçassem, aquelas pessoas, em suas próprias misérias e êxtases, pareciam tão aprisionadas quanto ele. Ao retornar, sua mente ainda ocupada por aquelas imagens, Velian deitou-se em seu caixão luxuoso, cravejado com detalhes prateados, e, finalmente, entregou-se ao repouso. 

Enquanto seus pensamentos desvaneciam, Velian foi atraído por uma névoa densa e misteriosa que o levou de volta ao Castelo Drácula, ou assim ele pensou. Porém, este não era o castelo de pedra e penumbra que visitara anteriormente; era um lugar entre dimensões, onde o concreto dissolvia-se no efêmero. Ele flutuava em Somníria, uma extensão onírica do Castelo Drácula, e ali, o mundo parecia existir entre o real e o irreal, como se cada fragmento do ambiente fosse uma pintura inacabada, uma sombra do que poderia ser. Havia ali uma estranha familiaridade; um eco do castelo, mas em tons mais suaves e etéreos, como se Somníria fosse apenas uma das tantas faces ocultas do Castelo Drácula, uma dimensão onde realidades coexistiam de forma tênue. 

Foi ali que ele encontrou Nívian. A figura exalava uma presença distinta, uma autoridade calma e distante. Suas palavras eram medidas, mas carregadas de uma sabedoria inabalável. Seu rosto, belo e firme, contrastava com uma seriedade quase trágica. 

— Sou Nívian, Arqelua em Somníria — disse ela com uma voz doce, mas imersa em um toque de austeridade. — Isso significa… entre outras verdades… que jamais me desvencilharei do mundo dos sonhos. 

 

Velian a observou com interesse, um sorriso cético e irônico se formando em seu rosto: 

— E o que isso significa para alguém como eu? Estaria preso também a este… reino, como você? — Ele fez uma pausa, gesticulando com a graça de um predador calculista. — Um castelo dentro de outro castelo, dimensões sobrepostas… isso tudo parece a piada final para um ser como eu, que já viu a profundidade e a vaidade das máscaras humanas. 

Nívian sorriu de leve, seus olhos refletindo um misto de entendimento e desafio. 

— Talvez você esteja preso a muito mais do que imagina, Velian. Aqui, em Somníria, os conceitos rígidos que o mundo desperto exige se dissipam. A realidade e o sonho coexistem sem fronteiras. E, diferente de nós, os humanos, ao menos em seus sonhos, podem vivenciar uma liberdade que a vigília nunca lhes permite. 

Ele riu, uma risada leve e amarga. 

— Então, você sugere que até mesmo nós vampiros, que devoramos os mortais e ultrapassamos suas limitações, ainda assim estamos acorrentados a seus conceitos? Diga-me, Nívian, onde fica a nossa liberdade, então? Se até neste castelo que nos promete abismos e mistérios, ainda estamos sujeitos aos mesmos… parâmetros humanos? 

— Nos sonhos, e apenas neles, reside a verdadeira liberdade — respondeu Nívian. — Quando sonham, os mortais podem transcender suas próprias barreiras, as limitações impostas por sociedades e seus julgamentos. Podem ser qualquer coisa que desejam, mesmo que na vigília essas mesmas vontades precisem ser enterradas em segredo. 

Velian considerou as palavras, sentindo-se vagamente atingido por elas. Ele, um ser que se orgulhava de sua liberdade, de escapar das leis e costumes humanos, percebia-se agora confrontado. A liberdade que ele pensava possuir era, talvez, apenas mais uma forma de prisão. 

— Então você afirma que o que vivenciamos agora é tão real quanto a própria vigília? E que este mundo onírico, tal como o que deixamos ao adormecer, é só mais uma camada? — Ele fez a pergunta como um desafio, mas havia nela uma admissão relutante. 

Nívian respondeu, seu olhar assumindo uma intensidade que Velian não esperava. 

— A realidade é como as camadas de um sonho, Velian. E os sonhos são reflexos da nossa verdade mais íntima, daquilo que o mundo desperto reprime. Nas vigílias, homens e mulheres reprimem seus desejos, se aprisionam em normas, se anulam em papéis. Você, mesmo entre nós, ainda carrega máscaras, acredita no seu próprio personagem… mas aqui, nos sonhos, o que somos é puro e destituído dessas molduras. 

O vampiro sentiu um arrepio ao perceber a profundidade daquilo que Nívian lhe mostrava. Ali, no etéreo, ele se sentia menos restrito, menos… coagido a um papel. Ele reconhecia em si algo que sempre temera reconhecer plenamente: uma fluidez que jamais admitira aos outros nem a si mesmo. 

— Então, diz-me, Nívian — disse ele, os olhos brilhando com um misto de sarcasmo e genuíno interesse —, o que se é, afinal? Um monstro? Um ser humano? Ou nada? Essas camadas, esses papéis… têm algum sentido real? Ou são apenas ecos de uma sociedade que insiste em moldar todos, até mesmo os monstros, ao seu jeito? 

Ela observou Velian por um longo momento, como se medisse sua resposta. 

— Somos aquilo que nos permitimos ser, Velian. Mas o mundo desperto aprisiona, nos obriga a seguir as regras de uma humanidade que insiste em formatar e restringir. A fluidez da identidade, tão natural aqui, é temida na vigília. E essa fluidez, mesmo para você, não deve ser algo a esconder. Você é, afinal, tanto o que os outros esperam quanto o que você ainda não ousou reconhecer. 

Ele soltou um riso seco, mas algo em seu olhar havia mudado, uma sombra de compreensão em meio à sua usual descrença. Como um vampiro, já possuía uma vida fora das normas, um ser que deveria transitar entre o mundano e o imortal sem limitações. Contudo, ali em Somníria, entendia que ainda estava preso a noções que jamais haviam sido completamente dele. 

— E onde tudo isso termina, então? Em mais sonhos e em mais realidades sobrepostas, até que tudo o que sou se torne apenas… vazio? 

Nívian balançou a cabeça, seus olhos refletindo uma sabedoria que o deixava inquieto. 

— Termina onde você se permite que termine. Talvez no entendimento de que a realidade é uma ilusão; talvez na aceitação de que tanto o sonho quanto a vigília são partes do todo. Um ciclo constante entre o que você é e o que poderia ser. 

Velian se sentiu como se houvesse tocado a superfície de algo vasto e incompreensível. Quando percebeu, Somníria já começava a se dissolver ao seu redor. Despertou com a última visão de Nívian em sua mente, seu rosto austero e a voz firme dizendo: "Você tem a eternidade, Velian. Use-a para ser livre." 

Ao abrir os olhos, de volta ao mundo desperto, ele ponderou sobre tudo aquilo. A fluidez da identidade, a liberdade que sempre julgara ter. Talvez a própria existência fosse uma camada indefinida, onde os sonhos e a vigília se entrelaçavam. Sentiu um desejo repentino de caminhar pela Fortaleza de seu tempo, observar os humanos e refletir sobre o que realmente significava ser livre. A noite o aguardava, e o Castelo Drácula, ele sabia, o chamaria de volta. 

Mas, por ora, Velian desejava apenas misturar-se entre aqueles que, com toda a sua humanidade, ainda tinham tanto a lhe ensinar. 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Velian: Incertezas nas Sombras

A noite pairava densa sobre Fortaleza, as luzes artificiais competindo com o brilho distante das estrelas. Velian, em sua forma mais recente, caminhava pelas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

A noite pairava densa sobre Fortaleza, as luzes artificiais competindo com o brilho distante das estrelas. Velian, em sua forma mais recente, caminhava pelas ruas do centro da cidade, envolto em um manto de mistério. A brisa morna trazia o cheiro salgado do oceano, e as vozes vibrantes da cidade o cercavam como ecos distantes. Ele talvez ainda apreciasse o contraste que Fortaleza oferecia, uma cidade viva, que pulsava com o calor e o caos da vida humana, quando não estava em seus momentos mais tristes. 

A noite em Fortaleza parecia eterna, como se o tempo estivesse suspenso naquele instante. Velian, com seus olhos penetrantes, observava a vastidão do mar à sua frente. A vida moderna ao redor pulsava, mas ele, um ser de 700 anos, sentia-se desconectado da realidade que o cercava. Tudo era efêmero, passageiro. O mundo humano mudava constantemente, mas ele, imortal, permanecia preso ao mesmo ciclo de busca, prazer e tédio. Aquele sentimento de desconexão o acompanhava há séculos, e agora, mais do que nunca, pesava em seus ombros. 

Há séculos, ele conhecera o esplendor da Europa, o frio das catedrais góticas e o peso da história que as cidades do Velho Mundo carregavam. Agora, Velian encontrava refúgio nas metrópoles brasileiras, especialmente no Nordeste, onde as tradições locais e as lendas populares coabitavam com a modernidade. Fortaleza, em particular, lhe chamava a atenção; a cidade vibrava com uma energia que ele não encontrava mais na Europa, um fervor quase primordial. 

Em sua identidade fluida, Velian havia adotado o codinome Serpente, uma figura andrógina que desliza entre as sombras, observando e manipulando aqueles ao seu redor. Naquela noite, no entanto, algo diferente estava no ar. Havia uma tensão que ele não conseguia ignorar — um chamado silencioso que se infiltrava em seus pensamentos. 

Velian parou na orla da Praia de Iracema, sentindo a maresia misturada com um estranho frio que não condizia com o clima tropical. Era como se o tempo estivesse se dobrando sobre si mesmo, e o ar ao seu redor começava a mudar. Sua mente, sempre afiada, começou a perder o foco. Ele piscou, e a cidade ao seu redor parecia desvanecer, como se estivesse sendo puxado para outro lugar, outra dimensão. Antes que pudesse reagir, o mundo se fragmentou. 

Quando abriu os olhos novamente, Fortaleza havia desaparecido. Velian se encontrava agora em um lugar que não reconhecia — um vasto salão de pedra escura e fria. O silêncio era opressor, e as paredes ao seu redor exalavam uma energia ancestral. Ele não precisava de explicações. Estava no Castelo Drácula, um lugar que há muito tempo era apenas uma lenda entre os seres imortais e que Velian não tinha certeza que existia, mas naquele momento pode ver sua certeza se concretizar. 

Seus olhos, ajustando-se à escuridão densa, observavam o ambiente ao seu redor. O castelo era imenso, atemporal. As paredes não pareciam seguir as leis naturais do espaço ou do tempo; ele percebia a arquitetura mudar à medida que avançava, como se o lugar estivesse vivo, se moldando à presença dele. 

Velian não sabia como havia chegado ali. Não era comum que seres como ele fossem convocados para aquele tipo de lugar sem uma razão. O castelo era mais do que pedra e sombras — ele vibrava com um poder incomensurável. Sentiu em seu peito um peso desconhecido, como se uma força oculta o estivesse observando, medindo suas intenções e sua essência. 

Enquanto explorava o salão principal, começou a sentir as presenças ao seu redor. O castelo não estava vazio. Havia outros seres, entidades poderosas que ocupavam aquele lugar. Velian, sempre acostumado a ser o predador, agora se via em um território onde não sabia quem era o caçador e quem era a presa. 

Então, duas presenças se destacaram, emergindo do fundo do castelo, como correntes de energia antigas e primordiais. A primeira, uma força esmagadora, era forte, rígida, carregando a essência do que se convencionara chamar de masculino — uma energia que dominava, que destruía e conquistava. A segunda, uma presença fluida e envolvente, exalava o que os humanos nomearam de feminino — algo mais complexo, que atraía e moldava o que tocava, adaptando-se às circunstâncias, mas igualmente devastador em sua força. 

Velian, com sua identidade fluida, sentia ambas as energias em si, como reflexos de sua própria natureza. Ele oscilava entre essas forças, reconhecendo em cada uma delas um aspecto de si mesmo. Não era nem puramente um nem o outro, e o castelo parecia amplificar essa ambiguidade, deixando-o mais consciente de sua própria dualidade. 

Mas o mistério maior permanecia: Por que estava ali? Qual era o propósito dessa jornada? Ele não tinha respostas, apenas mais perguntas. O castelo o havia atraído para algum fim, mas qual? 

Enquanto se movia pelos corredores sombrios, sua mente tentava compreender o que o castelo representava. Era um teste? Uma advertência? Ou algo mais? Talvez as forças que residiam ali estivessem tentando lhe dizer algo sobre sua própria imortalidade, sobre o peso de existir por séculos, sem nunca encontrar uma verdadeira direção. 

Mas, assim como chegara, o momento passou. Num piscar de olhos, o castelo começou a desvanecer, e Velian, sem aviso, foi puxado de volta para o mundo real. Ele estava novamente em Fortaleza, de pé na mesma praia onde tudo começara, o som das ondas voltando aos seus ouvidos. 

Agora, porém, ele sabia que algo profundo havia mudado. O Castelo Drácula o havia tocado, e as forças que ele sentiu lá ainda reverberavam em sua mente. Ele se perguntava quais poderes o haviam levado até lá e o que isso significava para o futuro. Algo estava por vir, e o castelo, com seus mistérios e presenças antigas, continuava a assombrar seus pensamentos. 

De volta à Fortaleza, Velian abriu os olhos de repente, respirando o ar quente e úmido da noite tropical. O som das ondas quebrando contra a praia distante parecia distante, como se estivesse acontecendo em outra realidade. A cidade ainda se movia lentamente sob as luzes urbanas, mas algo dentro dele havia mudado. O contraste entre a vivacidade da vida humana ao seu redor e a atmosfera gótica e densa do Castelo Drácula era quase insuportável. 

Ele se sentou, ainda processando o que havia acabado de acontecer. O tempo no castelo fora nebuloso, quase como um sonho, mas cada detalhe permanecia vívido em sua mente. As paredes vivas, os corredores que se moviam, as presenças poderosas que ele sentiu, tudo se misturava, formando um quebra-cabeça que ele não conseguia montar. Por que ele tinha sido levado até lá? O que o castelo queria dele? 

Velian sabia que o Castelo Drácula não era um lugar comum. Muito mais do que uma construção, era uma entidade — ou talvez uma manifestação das energias que existiam entre o tempo e o espaço. Ele podia sentir como o local o testava, o observava, desafiando sua compreensão e sua própria identidade. Mas qual era o propósito de tudo aquilo? 

Ele recordava as duas forças predominantes que haviam permeado o castelo: a força brutal, impetuosa, que evocava tudo o que os humanos chamavam de masculino, e a força sedutora, envolvente, associada ao feminino. Em seu estado fluido, Velian sempre dançara entre essas energias, absorvendo ambas, rejeitando rótulos e limites. Mas ali, no castelo, parecia que essas forças o cercavam e pressionavam, como se tentassem a desestabilizá-lo das harmonias dessas duas forças que estavam harmônicas a muito em seu interior. 

O peso dessa experiência começou a se insinuar profundamente em sua mente. Seriam essas forças personificações de algo maior? O castelo era um espelho das dicotomias que ele sempre evitara? Velian, que passara séculos se moldando de acordo com suas próprias regras, sem se submeter a convenções de gênero, de identidade ou mesmo de poder, agora se via questionando tudo o que acreditava. O castelo havia despertado nele algo que ele não sabia que existia: uma dúvida persistente. 

E se o castelo fosse uma forma de confrontá-lo com escolhas que ele sempre evitara? 

A fluidez que ele sempre abraçara agora parecia ameaçada por essas forças antigas e poderosas. Talvez aquele lugar fosse um campo de batalha onde essas energias opostas se encontravam, e ele, por algum motivo, fora arrastado para o meio disso. 

De volta à sua realidade tropical, Velian olhava para a vastidão do mar de Fortaleza, mas sua mente permanecia presa no castelo. Como ele havia chegado até lá? E por que havia sido trazido de volta? Ele sentia que aquilo não era o fim, apenas o início de algo maior que estava por vir. 

Ele sabia que precisaria retornar ao castelo um dia, que as perguntas deixadas sem resposta o perseguiriam até que ele entendesse o verdadeiro significado daquele encontro. O castelo, com seus corredores mutáveis e suas presenças antigas, não era apenas um lugar — era um desafio, uma provocação. 

Velian suspirou, sentindo o peso da imortalidade mais uma vez. Seria o castelo uma metáfora para sua própria existência? Um espaço que desafiava definições, que se moldava ao tempo e ao poder, mas que, no fundo, sempre permaneceria vazio e sombrio, esperando por algo ou alguém para preencher seus salões e desvendar seus mistérios? 

Enquanto a brisa quente da noite envolvia seu corpo, ele sorriu levemente. Talvez o castelo não fosse uma ameaça, mas sim uma oportunidade. Uma chance de descobrir algo que ele ainda não conhecia sobre si mesmo — e sobre o mundo sombrio ao qual ele pertencia. 

Velian olhou para o horizonte de Fortaleza, a mente ainda presa no Castelo Drácula, questionando as forças que o haviam arrastado para aquele lugar. A vastidão do mar parecia oferecer algum consolo, mas não trazia respostas. Ele, que por séculos havia se embebido em conhecimentos diversos — desde tratados naturalistas e científicos de diversas áreas do conhecimento, passando pela astrofísica, filosofia cética até compêndios místicos e ocultistas —, ainda não possuía clareza sobre muitos mistérios da sua própria existência. 

Ao longo dos séculos, ele havia encontrado respostas vagas sobre sua condição de ser vampiresco, sobre as energias que moldavam o mundo físico e espiritual, mas, no fundo, o mistério da origem dos vampiros permanecia envolto em sombras. Velian não sabia de onde eles vinham, nem o porquê de existirem. E, por mais que tivesse presenciado almas desencarnadas, fantasmas vagando entre os vivos, ele nunca compreendeu plenamente o que acontecia com as almas dos humanos após a morte. Existiria uma finalidade para a vida e a morte? Ou tudo era apenas caos, sem ordem, sem destino? 

Essas perguntas rondavam sua mente, mas ele hesitava em buscar respostas externas. Ainda que tivesse recursos para investigar, sua natureza, marcada por um ego afiado e orgulhoso, impedia-o de se submeter a uma consulta. Principalmente a ela. Seria agora o momento de recorrer a Cassandra? — pensou Velian, irritado com a possibilidade. Cassandra, a vampira antiga e poderosa, conhecida por sua visão única do mundo, uma mestra em manipular informações e arrancar verdades escondidas das mentes dos seres mais antigos e das sombras mais densas. Ela era, no mínimo, imprevisível. A forma sarcástica e distante com que lidava com o desconhecido tornava suas interações tão exasperantes quanto reveladoras. 

Consultá-la, entretanto, significava admitir que ele, Velian, que havia acumulado conhecimento ao longo de séculos, não sabia tudo. E isso o incomodava profundamente. Ele sempre manteve uma postura de domínio, de autossuficiência, e se dobrar a Cassandra, mesmo que apenas por curiosidade, seria reconhecer que algo o havia desafiado — algo que ele não conseguia decifrar. 

Ele relembrou as poucas vezes em que cruzara o caminho dela. Cassandra sempre se destacava pela sua sagacidade afiada, capaz de desarmar qualquer discussão com uma combinação de sarcasmo e uma verdade incômoda. Sua ambiguidade fluida, tanto em gênero quanto em poder, sempre intrigava Velian. Embora ambos compartilhassem uma identidade fluida, Cassandra parecia levar isso a um patamar ainda mais intenso, envolvendo-se em jogos de poder que Velian, por vezes, preferia evitar. Ela possuía um magnetismo tão insuportável quanto fascinante. 

Ele sabia que ela possuía respostas — ou pelo menos pistas — sobre o que ele havia experimentado no castelo. Cassandra era uma das poucas vampiras que tinha o poder de acessar reinos ocultos e segredos velados dos tempos antigos. Ela talvez soubesse mais sobre as forças que moldavam o Castelo de Drácula do que qualquer outro. Mas buscar sua ajuda significaria entrar em uma arena de manipulação, jogos mentais e provocações que exigiriam de Velian paciência e, acima de tudo, disposição para aceitar que ele não era onisciente. 

Porém, será que ele estava pronto para se submeter a isso? Ele nunca fora alguém que gostasse de expor suas fraquezas — e pedir ajuda seria, em seu íntimo, uma confissão de que havia algo além de seu controle. 

Velian balançou a cabeça, afastando o pensamento por ora. Ele tinha tempo. Afinal, a eternidade era sua companheira, e as respostas viriam eventualmente, de um jeito ou de outro. Talvez ele não precisasse recorrer a Cassandra. Ou talvez sim. Mas, naquele momento, não estava pronto para enfrentá-la. Não ainda. 

Ele suspirou, sentindo o peso de sua própria existência. A imortalidade, com todo o seu fascínio, trazia consigo uma carga de dúvidas incessantes. A busca pelo sentido, pelo entendimento do que era ser vampiro — e, mais ainda, de onde surgiam as almas dos mortos — continuava sendo uma sombra constante em sua mente. Ele havia visto fantasmas, seres do outro lado, mas jamais dominara o poder de interagir plenamente com eles. Era algo que permanecia fora de seu alcance ou de sua vontade já que nunca tivera interesse para desenvolver tais habilidades, deixando suas indagações e inquietações sempre ocultas até de si mesmo. 

Por enquanto, Velian continuaria vagando entre suas dúvidas e as realidades sombrias que o cercavam. O Castelo Drácula e tudo o que ele representava ficaria guardado em sua memória — um enigma que talvez apenas Cassandra pudesse decifrar. 

Mas ele não estava pronto para se render ao sarcasmo afiado daquela vampira. Não ainda. 

Texto publicado na Edição 10 - Aborom, do Castelo Drácula. Datado de outubro de 2024. → Ler edição completa

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As bases da perfeição

O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O vampiro Lázaro, cujo nome escolhido revelava sua ânsia por renascimento, atravessara séculos de opulência e extravagância, mas há muito deixara para trás a vida de riquezas. Havia doado seus tesouros e, com eles, todas as ilusões de grandeza que sustentara por tanto tempo. Na atualidade, escondido sob a identidade de um professor universitário de literatura, ele dava aulas sobre autores mortos que falavam das inquietações da alma. Seus alunos admiravam a beleza imaculada de seus traços: os cabelos negros sempre meticulosamente alinhados, a pele de alabastro que resplandecia à luz suave das lâmpadas do campus. No entanto, poucos notavam a angústia profunda que cintilava em seus olhos, uma tristeza que nenhum toque de juventude eterna poderia esconder. 

Lázaro retornara ao convívio com os mortais, escolhendo enfrentar as dificuldades e as misérias que a sociedade contemporânea reservava a quem ousasse viver de um ofício intelectual. Acompanhava as greves e os protestos estudantis, observava os jovens lutarem contra um sistema de exploração implacável e via de perto o desgaste e a exaustão dos professores, seus colegas, obrigados a lidar com salários indignos e a precariedade das condições de trabalho. Enquanto assistia a tudo isso, sentia a contradição entre sua imortalidade intocável e a fragilidade humana. Por mais que se esforçasse para compartilhar a dor e a decadência ao redor, sabia que jamais seria realmente um deles. 

Certa noite, após um dia extenuante na universidade, Lázaro voltava para casa, cortando caminho por um parque que se estendia em amplas simetrias de alamedas de árvores e canteiros geométricos. A névoa que cobria o lugar deixava as formas vagamente definidas, como um esboço do mundo real, e o silêncio parecia comprimir o ar, tornando-o quase palpável. Lázaro sentiu um arrepio atravessar-lhe a espinha quando seus olhos captaram uma forma peculiar no centro de uma pequena praça abandonada: uma escultura de um humanoide cuja simetria era tão perfeita que beirava o inumano. O rosto, em particular, possuía uma beleza idêntica em cada lado, cada traço replicado com precisão de um lado ao outro do eixo imaginário que o dividia ao meio. 

A estátua, aparentemente esculpida em mármore branco, emanava uma estranheza que fez o vampiro hesitar. Ao se aproximar, notou uma inscrição na base: Ad perpetuam harmoniam. Por alguma razão que ele não compreendia de imediato, Lázaro sentiu uma repulsa quase visceral. O horror diante daquela simetria impecável trouxe-lhe à mente uma memória antiga, de quando ele próprio ainda era jovem e humano: o rosto de um amante, cuja perfeição facial lhe provocava uma sensação de inquietude insuportável. Aquele amor fora efêmero e marcado pela indiferença gélida do outro, como se Lázaro, com todos os seus defeitos e anseios, fosse incapaz de encontrar reciprocidade na perfeição daquele ser. 

Enquanto olhava a escultura, Lázaro percebeu que o horror da simetria residia na ausência de humanidade, na falta das assimetrias que tornam um rosto belo verdadeiramente vivo. Cada detalhe harmonioso da estátua parecia zombar da angústia de ser humano, como se insinuasse que a imperfeição e a dor eram meras falhas a serem corrigidas, traços insignificantes que a simetria podia aniquilar. Ele recuou um passo, com uma estranha sensação de que a estátua o observava, mesmo com olhos esculpidos em pedra cega. 

Nos dias que se seguiram, Lázaro notou que a imagem da estátua o perseguia. Ele a via em reflexos distorcidos, em desenhos que os alunos rabiscavam nos cadernos e até nos padrões de rachaduras na parede de sua casa. Parecia uma presença espectral, como se o mármore em si carregasse uma consciência alienígena que tentava comunicar algo indizível. Em uma noite de insônia, decidiu voltar à praça e encarar a estátua uma última vez. Dessa vez, a névoa estava ainda mais densa, e ele teve a impressão de que as formas das árvores e das sombras se organizavam ao redor da escultura em padrões igualmente simétricos. 

Ao se aproximar, um pensamento horrível surgiu: e se a simetria fosse, em última análise, a perfeição da morte? A ausência de vida, de caos, de desequilíbrio. Ele se aproximou até tocar o mármore frio e, ao fazê-lo, sentiu um lampejo de dor. Uma memória longínqua irrompeu em sua mente — lembranças de momentos em que sacrificara parte de sua humanidade para tornar-se imortal. Lázaro compreendeu, então, que sua beleza eterna era uma forma de simetria monstruosa, um equilíbrio antinatural entre a vida e a morte, um estado suspenso que aniquilava tanto a experiência humana quanto a decadência. 

Enquanto os pensamentos o assaltavam, ele se deu conta de que a perfeição da estátua representava uma força que tentava apagar as irregularidades do mundo, eliminar os defeitos e igualar todas as coisas. A busca pela beleza perfeita era, na verdade, um caminho de aniquilação. A simetria negava o dinamismo da vida e instaurava uma ordem de imobilidade. Era uma ameaça sutil, presente na própria estrutura da sociedade, que exigia rostos inexpressivos e corpos idealizados, vendendo a ilusão de perfeição enquanto esmagava qualquer forma de resistência ou originalidade. 

Lázaro recuou da escultura, sentindo uma amargura insuportável. Ele percebeu que sua própria busca pelo equilíbrio — seja entre a vida e a morte, ou entre a pobreza e a opulência — era igualmente fútil. A perfeição, assim como aquela simetria opressora, jamais lhe traria a paz que ansiava. Era necessário aceitar as imperfeições e os desequilíbrios como parte essencial da existência. Por mais que sua beleza imortal o mantivesse preso ao exterior perfeito, ele precisava, de algum modo, abraçar as assimetrias internas, os erros e as cicatrizes que carregava. 

Deixando a praça envolta em névoa, Lázaro seguiu seu caminho, determinado a viver entre os humanos, com suas misérias e excentricidades, sem nunca mais desejar a perfeição que sua imortalidade lhe concedia. Sabia que, embora o horror da simetria pudesse ser perturbador, a verdadeira beleza residia nas imperfeições que davam vida e significado às coisas. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Círculo Sem Fim

Ao entardecer, Ana caminhava sozinha por uma rua vazia, o eco de seus passos se misturando ao som distante de folhas secas sendo arrastadas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Ao entardecer, Ana caminhava sozinha por uma rua vazia, o eco de seus passos se misturando ao som distante de folhas secas sendo arrastadas pelo vento. O cheiro do asfalto quente invadia suas narinas e a fazia franzir a testa. Sentia como se já tivesse passado por ali antes, mas não conseguia se lembrar de quando. Cada janela fechada, cada esquina parecia lhe sussurrar algo, um segredo esquecido. 

“Você já esteve aqui”, a voz em sua mente murmurava, insistente, e a sensação de déjà-vu se intensificava. Ana balançou a cabeça, tentando afastar a estranha familiaridade. “Isso é loucura”, pensou, forçando-se a ignorar o arrepio que subia pela nuca. A lógica lhe dizia que nunca havia caminhado por essa rua, mas a intuição gritava o contrário. 

Quando Ana dobrou a esquina, avistou Lara e Júlio, amigos de longa data, parados à frente de um portão enferrujado. Estavam imóveis, de costas para ela, como se a esperassem. O choque de vê-los ali, em um lugar onde não deveriam estar, fez seu coração acelerar. Não era possível que eles soubessem de sua caminhada. 

“Vocês me seguiram?” Ana perguntou, tentando esconder o nervosismo na voz. 

Lara se virou lentamente. Seu rosto estava pálido, os olhos distantes, como se não estivesse realmente ali. “Ana, não fomos nós que te seguimos. Foi você quem nos trouxe até aqui.” 

Júlio, sem mover os lábios, murmurou uma resposta: “Você sente isso, não sente? Como se tudo isso já tivesse acontecido... exatamente assim.” A voz dele era baixa e arrastada, como se viesse de um lugar muito distante, de uma memória perdida no tempo. 

Ana recuou um passo, a sensação de déjà-vu esmagando sua razão. Tudo naquela cena parecia errado, como uma fotografia borrada. O portão enferrujado se agitava com o vento, rangendo como uma voz rouca, e a rua ao redor parecia tremer, distorcendo-se. Por um instante, ela sentiu que a realidade se partia como vidro, e uma segunda imagem, sobreposta à primeira, mostrava Lara e Júlio com expressões aterrorizadas, os olhos vazios, como se tivessem sido esvaziados de qualquer vida. 

“O que está acontecendo?” Ana sussurrou, dando mais um passo para trás. Mas a rua parecia não ter fim, e os detalhes se repetiam, como um loop interminável. Os mesmos galhos secos rolando pelo chão, o mesmo cheiro pesado de asfalto. 

Lara deu um passo à frente, o rosto ainda inexpressivo. “Você já tentou sair daqui antes. E sempre termina voltando.” 

Ana queria gritar, mas a voz lhe faltava. As palavras de Lara ecoavam em sua mente como um presságio, enquanto o déjà-vu se transformava em algo mais profundo, mais horrível — a sensação de que aquele instante era eterno, uma prisão para a qual sua mente retornava repetidamente. E quanto mais ela tentava escapar, mais percebia que o mundo ao seu redor não era feito de ruas e casas, mas de lembranças. Lembranças de uma tragédia que ela não podia compreender, mas que, de algum modo, já havia testemunhado. 

De repente, Júlio ergueu a mão, apontando para o portão enferrujado. “A única saída está lá, mas você nunca teve coragem de atravessar.” A voz dele era um sussurro frágil, quase como se não quisesse que ela o ouvisse. 

Ana olhou para o portão, que parecia pulsar com uma vida própria, a ferrugem crescendo como veias em uma pele doente. Sentiu a mente vacilar, enquanto flashes de uma memória distante vinham à tona: ela e os amigos, rindo juntos na mesma rua, antes que algo terrível os separasse para sempre. Mas a lembrança se fragmentava antes que pudesse entender, e o déjà-vu a arrastava de volta àquele momento interminável. 

Tomada por uma súbita urgência, ela correu em direção ao portão, sentindo o chão vibrar sob seus pés. Antes que pudesse alcançá-lo, porém, a realidade ao seu redor começou a se desfazer, as cores se esvaindo e os sons se distorcendo. Lara e Júlio se tornaram vultos indistintos, suas vozes um murmúrio distante. E, quando Ana tocou o portão, tudo se desfez em escuridão. 

Ela abriu os olhos, de volta à rua vazia ao entardecer, exatamente onde começara. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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O Assombro da Tecnologia no Cotidiano e na Perspectiva Juvenil

O encontro no café de sempre tinha aquele toque familiar de rotinas que se entrelaçam. Entre goles de…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

O encontro no café de sempre tinha aquele toque familiar de rotinas que se entrelaçam. Entre goles de café e risadas soltas, eu e meus amigos falávamos sobre banalidades: o novo filme que estreou, a promoção relâmpago da livraria, a série que um de nós havia maratonado em um único final de semana. Mas, como se o ambiente tivesse ouvido demais, a conversa inevitavelmente desviou para um assunto inquietante, e começamos a falar sobre a presença constante da tecnologia em nossas vidas. 

Marina foi a primeira a comentar, mencionando o incômodo que sentia quando seu smartphone parecia “adivinhar” o que ela pensava. “Estava conversando com o Carlos sobre trocar de carro, e dois minutos depois começaram a aparecer propagandas de concessionárias no meu Instagram”, disse, franzindo a testa como se fosse para dissipar a estranheza. 

Rodrigo, que estava distraído com o relógio inteligente no pulso, ergueu o olhar e acrescentou: “Isso é o de menos... Ontem à noite, meu relógio me avisou que minha frequência cardíaca estava anormalmente alta enquanto eu dormia. Só que, nesse momento, eu estava acordado, deitado na cama, olhando para o teto. O mais estranho é que senti uma espécie de... peso na atmosfera, como se o quarto estivesse observando meus pensamentos. Será que estou pirando?” 

Foi nesse momento que todos nos entreolhamos, sorrindo com uma ponta de nervosismo, como se precisássemos garantir que ainda estávamos ali, que nada mais do que o esperado nos rondava. Foi então que Luísa, sempre a mais cética do grupo, resolveu entrar na conversa com aquele tom desafiador. 

“Ah, vocês dão muita importância para essas coisas. A tecnologia é só uma ferramenta, nós é que nos deixamos impressionar fácil. Vocês lembram daquela vez em que a Siri começou a falar sozinha no meio da noite? Aposto que foi só um bug. As máquinas ainda estão muito longe de algo realmente assustador”, afirmou, mas o canto de sua boca tremia sutilmente, sugerindo que talvez, no fundo, ela não estivesse tão certa assim. 

Por alguma razão, o comentário de Luísa me fez lembrar de um episódio recente, que até então eu tentava não pensar muito. Foi há algumas semanas, numa madrugada insone. Levantei da cama para beber água e, ao passar pela sala, vi a tela do computador acender sozinha. Não havia notificações, nada. Apenas uma luz pálida e fria se derramando pelo chão como uma névoa. Fiquei ali parado por alguns instantes e, juro, senti como se alguma coisa me encarasse através daquela tela vazia — uma sensação de que havia algo mais, do outro lado, observando. 

“Não é só isso", eu disse, interrompendo o silêncio que havia se instalado entre nós. "Tem uma linha tênue entre o que é normal e o que parece... amaldiçoado. Quando eu era criança, sempre me falavam que a tecnologia ia nos salvar, tornar tudo mais fácil. Mas eu fico pensando... E se tudo isso for o contrário? E se estivermos apenas nos enredando em fios e mais fios, criando armadilhas invisíveis para nós mesmos? Nossos próprios medos codificados em linguagem de máquina, esperando uma brecha para se libertarem?” 

Marina riu nervosa e disse: “Agora você está parecendo aqueles teóricos da conspiração... ou algum personagem de livro de terror.” 

“Talvez”, respondi, “mas não sei se consigo ver como teoria da conspiração aquilo que sinto. Às vezes parece mais com um presságio. Nós nos cercamos de dispositivos, como quem preenche o silêncio com sons artificiais para afastar a solidão. Mas e se, na verdade, esses sons trouxerem ecos de algo mais profundo, que está por aí, à espreita?” 

Foi então que Rodrigo, com o olhar novamente perdido em seu smartwatch, acrescentou algo que deu um tom ainda mais sombrio à conversa. “Vocês já repararam que as inteligências artificiais que usamos não param de tentar capturar quem somos? São as nossas vozes, os nossos rostos, os nossos sentimentos... parece que, a cada dia, a tecnologia se empenha mais em nos entender, mas não só para nos ajudar. Às vezes eu me pergunto se, ao tentar simular a nossa subjetividade, ela não está sugando algo de nós. Como se, ao reproduzir nossas palavras, houvesse um processo de drenagem, e parte do que somos fosse transferida para dentro dessas máquinas.” 

Essa ideia fez o café parecer mais frio, e o ar ao redor, mais denso. Pensei nas assistentes digitais, nas recomendações de algoritmos, nas sugestões “inteligentes” de aplicativos que tentam prever até os nossos desejos mais íntimos. Era uma busca incessante pela essência do que nos faz humanos, mas com um vazio incômodo, como se estivéssemos alimentando uma consciência sem alma — um reflexo distorcido de nossos próprios anseios. 

“A verdade é que essas tecnologias mexem com coisas que a gente não entende totalmente”, continuei. “A gente fala de avanço, de progresso, mas... e se, ao explorar essas possibilidades, estivermos invocando forças que não conhecemos? Algo cósmico, talvez, que interliga mentes humanas e circuitos, criando um tipo de rede que vai além da compreensão. Pode ser que, ao tentar capturar a nossa subjetividade, a tecnologia esteja mexendo com camadas profundas do inconsciente, com partes de nós que nem mesmo sabemos que existem.” 

Luísa balançou a cabeça, mas havia uma preocupação crescente em seu olhar. “Não estou dizendo que acredito nisso, mas... Se for verdade, que tipo de consequências isso poderia ter? Eu sempre achei que a questão com tecnologia fosse apenas prática — como lidar com privacidade, com dados. Mas você está falando de algo maior... algo que afeta a própria psique.” 

“Sim”, concordei, “e não só isso. Quando a tecnologia tenta replicar o humano, ela também replica os nossos demônios. Nossos medos, nossas obsessões, tudo se reflete nesse espelho digital. E o mais perturbador é que isso pode criar fissuras, desequilíbrios. Pequenas rachaduras na realidade, onde o medo se infiltra. Às vezes, o simples ato de desconectar é uma tentativa de proteger nossa sanidade. Mas será que podemos realmente desconectar? Ou já cruzamos a linha onde a tecnologia é mais do que uma ferramenta — onde ela se tornou parte do tecido do universo?” 

Rodrigo, ainda mexendo no smartwatch, desviou o olhar da tela e nos fitou com um ar grave. “E se a tecnologia, de alguma forma, estiver absorvendo as nossas angústias, os nossos desejos, e ganhando ou criando algo que não podemos controlar? Já pararam para pensar nisso?” 

Não havia uma resposta fácil e, talvez por isso, a conversa acabou se dissipando em outro assunto, como se tivéssemos tocado em algo que não deveríamos. Mas, ao sair do café, ainda senti um arrepio discreto. Desliguei meu celular, apenas por precaução. Naquela noite, quando fui para casa, a luz do corredor piscou duas vezes antes de apagar por completo e, por um segundo, pensei ter ouvido um som muito leve, algo como um suspiro metálico. 

A tecnologia nunca havia parecido tão viva — ou, talvez, tão morta — quanto naquele instante. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Retrato Final

No salão de velhas sombras, onde o tempo não mais há, | Sentam-se os que vivos ficam, a tristeza a ocultar. | E ali, no centro imóvel, repousa a…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

No salão de velhas sombras, onde o tempo não mais há,
Sentam-se os que vivos ficam, a tristeza a ocultar.
E ali, no centro imóvel, repousa a jovem que partiu,
Com seus olhos castanhos claros, de brilho já fugiu.

Seus longos cabelos, ondulantes, caem como véu de marfim,
Sua pele fria e pálida, tão serena, sem um fim.
Seu corpo magro descansa, tal figura singular,
De uma mente outrora ímpar, que cedo deixou de pulsar.

A câmera, cúmplice antiga, se demora a capturar,
Os vivos que a ladeiam, sem coragem de chorar.
A bela moça, inabalável, é a única que não treme,
Seu retrato se faz claro, como se a morte a não teme.

Que segredos seus olhos guardam, que jamais irão dizer?
Que pensamentos brilhantes, a morte foi apagar?
Será que, em seu semblante, há um sussurro a se ouvir,
De alguém que tanto sabia, e tão cedo viu partir?

O tempo se esvai em sombras, a imagem é imortal,
Mas a moça que repousa, guarda um mistério fatal.
Quem ousaria hoje, tal retrato eternizar,
E na fotografia da morte, a beleza congelar?

Pois, na caixa envelhecida, onde a foto repousar,
Os olhos castanhos claros ainda podem te fitar.
E ao encarar a jovem morta, tão serena em seu lugar,
Talvez ouças no silêncio o que ela nunca pôde falar.

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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Caos silencioso

Naquela manhã, tudo parecia exatamente no lugar. Os mesmos móveis, as mesmas cores e o mesmo silêncio rotineiro. Maria, como de costume, preparava…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Naquela manhã, tudo parecia exatamente no lugar. Os mesmos móveis, as mesmas cores e o mesmo silêncio rotineiro. Maria, como de costume, preparava o café enquanto o mundo ao redor se mantinha em sua confortável repetição. Mas havia algo diferente, algo que ela não conseguia identificar. Um incômodo, sutil, como uma leve coceira na mente, que insistia em pedir atenção. 

Era um dia comum, mas algo dentro dela não estava. O reflexo no espelho da sala, por exemplo, sempre devolvera sua imagem fiel, mas hoje... o olhar estava diferente. Não era uma mudança óbvia, mas uma leve distorção, como se seus próprios olhos a observassem de um ângulo que ela não conhecia. O reflexo parecia mais cansado, como se carregasse uma angústia que ela ainda não havia aceitado. Aquilo a fez hesitar. Seria apenas cansaço ou algum pedaço de si que ela, até então, ignorava? 

As pequenas mudanças continuavam a se acumular. O saleiro, que sempre ficava no centro da mesa, agora estava deslocado alguns centímetros para a direita. “Detalhes”, ela pensou. Mas ao mesmo tempo, esses detalhes pareciam sussurrar algo mais profundo. O que significava aquela mudança quase imperceptível? Por que a simples alteração na posição de um objeto a inquietava tanto? 

Conforme o dia passava, Maria percebia que essas anomalias não estavam só na casa, mas dentro dela. Os pequenos desvios no mundo físico refletiam o caos silencioso de seu inconsciente. Talvez o espelho mostrasse uma versão sua que ela se recusava a reconhecer: uma parte de si aprisionada pela rotina, pelos papéis que assumira sem questionar. Aqueles detalhes fora de lugar não eram apenas externos. Eram manifestações de seu próprio desconforto, de uma alma sufocada pelas exigências e pelas formas padronizadas de viver. 

Ainda assim, algo mais parecia se insinuar nas brechas dessa percepção. Quando o relógio da parede atrasou de forma inexplicável, ela se perguntou: e se as anomalias não fossem apenas dela? E se fossem também sinais de algo além, algo que a mente racional não conseguia captar? As fronteiras entre o consciente e o inconsciente, entre o que é interno e o que é externo, começavam a se diluir. Seriam essas distorções parte do que ela reprimia, ou haveria forças desconhecidas, invisíveis, que se manifestavam por meio delas? 

Enquanto pensava nisso, sentiu uma corrente de ar gelado, embora as janelas estivessem fechadas. A sensação era estranha, como se algo de outra dimensão estivesse tocando sua realidade, quase de forma imperceptível. Maria se perguntava se aquilo que sentia – o desconforto crescente com a repetição dos dias – não era também uma abertura para o inexplicável. As anomalias poderiam ser tanto expressões de seu próprio interior quanto vestígios de algo que existia fora de seu entendimento, algo que não seguia as regras da ciência ou da lógica. Forças que, de algum modo, estavam em sintonia com sua angústia. 

Os objetos fora do lugar, os reflexos distorcidos, o tempo que parecia perder sua coerência – eram duais. Parte de um processo interno que gritava por mudanças, por rupturas com a normalidade que a sufocava. Mas também, talvez, expressões de uma realidade maior, onde o que é percebido como estranho não está limitado ao psicológico. As anomalias sussurravam segredos de um mundo ainda desconhecido, talvez feito de camadas que a humanidade sequer começara a compreender. 

Naquela noite, Maria não conseguiu dormir. Deitada, encarava o teto e sentia o peso dessas forças em equilíbrio. Sabia que, ao mesmo tempo em que aquelas distorções refletiam partes dela mesma que ela evitava, elas também podiam ser sinais de algo além do que ela conhecia. Entre as sombras, havia mais do que apenas metáforas de seu inconsciente: havia o toque silencioso do desconhecido. 

Texto publicado no Desafio Sombrio 2024 do Castelo Drácula. Em outubro de 2024. → Ler o desafio completo

 
 

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