Memórias e Fantasmas
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Ela correu rapidamente pela escuridão, buscando fugir daquele encontro desesperador. Minerva-loba parecia possuir outra mente, uma que guardava lembranças de sua forma humana. Era consciente e carregava uma essência selvagem que protegia Minerva. No entanto, naquela circunstância, ela tentava apagar suas memórias, em busca de se entender independente dos acontecimentos e dos deuses. Ainda assim, sabia que dentro de si residia algo do castelo afogado, mesmo que adormecido.
Ela não lembrava dele há muito tempo, mas naquela noite o som da água abismal insistia em ressoar novamente em seus ouvidos. Minerva lutava contra aquilo. Um cansaço estranho, aos poucos, foi tomando seu corpo, desacelerando o tropegar de suas patas e obrigando-a a observar o caminho por onde passava, que se tornava cada vez mais conhecido para ela — embora já tivesse quase perdido a noção de quanto tempo passara no castelo.
A loba avistou algo ao longe e imaginou que fossem casas em seu campo de visão. Aquela era a estranha vila pela qual passara antes de adentrar o castelo. Sentiu algo puxando-a para perto daquele lugar, enquanto sua mente parecia duelar consigo mesma. Um nevoeiro denso se formava ao redor, criando braços cintilantes que dançavam junto a seu corpo em um ritmo lento, carregando-a para dentro daquele lugar.
Percebeu que estava por entre as casas errantes. Pessoas caminhavam ali, mas ela não conseguia discernir seus rostos. A mente turva a deixava cada vez mais imersa na paisagem acinzentada. Cansada, observou o formato de suas patas na neve, e uma expressão confusa se formou em seu rosto, como se não reconhecesse aquelas pegadas.
Ela se aproximou de uma casa, observando suas janelas, eram sete ao todo. Aquela era provavelmente a maior casa do vilarejo. Rostos estranhos a analisavam sem dizer nenhuma palavra. O cansaço parecia, finalmente, tê-la tomado. Os sete rostos a encaravam e assemelhavam-se a espirais que iam se contorcendo cada vez mais. Os olhos de Minerva-loba estavam hipnotizados e enevoados, totalmente inertes.
Alguém saiu pela porta da casa e fitou-a com intriga. Minerva não reconheceu o rosto, mas a voz lhe pareceu familiar. Era uma voz autoritária. Aquela voz elogiava algo que havia sido conquistado com soberba, embora ela não compreendesse o quê. Seu corpo, despojado sob as cicutas na neve, permanecia inerte ao mundo real, enquanto sua mente vagava por Settimor.
O rei Kheas estava ali, contando vantagem de sua experiência. Ele havia conseguido realizar a transmutação unindo magia e ciência. Sua filha era única, praticamente uma arma de guerra. A loba percebia aquela voz insistente. O medo não era o sentimento que habitava seu peito, mas a raiva. Minerva almejava ser livre novamente.
Ela estava presa em uma memória, os olhos acinzentados e os pelos negros, encobertos por inúmeras cicutas, a aprisionavam no feitiço do viajante. Minerva estava refém de uma lembrança.
Presa na masmorra, sua antiga moradia, ela uivava em lamento, ouvindo as aspirações insanas do pai. Desejava fugir, mas só conseguia se debater, puxando a corrente presa a seu pescoço.
O tempo era ilusório, ela não sabia se ele estava passando ou não. Seus sentimentos eram instáveis entre o tédio, o ódio e o desespero. Ela desprezava aquele homem que a torturava e não compreendia os limites que ele queria quebrar. As paredes arranhadas e a escuridão eram desoladoras, ela ardia em febre no frenesi das dores que lhe foram impostas.
Mas algo naquela lembrança começou a falhar. A voz do pai já não ocupava todo o espaço; tornava-se distante, fragmentada, como um som que se repete sem origem. A loba percebeu, então, que não estava sendo contida por ele, mas pela própria memória.
Naquele tempo, ainda humana, Minerva compreendeu em silêncio que a masmorra não era inviolável. A corrente em seu pescoço não existia para conter sua vontade, apenas seu corpo. E isso não bastava. O uivo que escapou de sua garganta não era súplica, mas sim uma decisão. O primeiro gesto de quem escolhia viver e não sobreviver.
Como loba, ela se lembrou: a fuga começou antes do movimento, antes da ruptura da carne ou do ferro. Começou quando deixou de pedir permissão para existir.
Ela lutava por si mesma.
Minerva-loba ainda transitava entre sonho e realidade; as cicutas a cobriam como um véu branco, misturando-se à neve. Seus olhos retornaram ao azul profundo. Aos poucos, sentiu o corpo voltar à vida. Em sua frente, um ser humanoide a observava. No lugar do rosto, havia uma espiral nebulosa, repleta de escuridão.
A criatura se dissipou à sua frente, levando consigo os sete rostos nas janelas. Dentro de si, Minerva se reconectou com seu poder, tornando-se mais uma vez tão destemida quanto na primeira vez em que desbravou os caminhos tortuosos que levam ao castelo Drácula. A loba sabia o que era e que ninguém tomaria sua liberdade. Clamou por Hekate, não como súplica, mas como sinal.
Ela não temia o deus do castelo afogado.
Revisado por Sahra Melihssa
Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.
Júlia Trevas
Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 20ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de fevereiro de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…