Fragmentos na escuridão
Recordo-me dos fragmentos, | estilhaços que caem como ecos no abismo do chão, | as sombras dançam, | de uma presença silente e tímida, | que se oculta nas…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Recordo-me dos fragmentos,
estilhaços que caem como ecos no abismo do chão,
as sombras dançam,
de uma presença silente e tímida,
que se oculta nas ossadas dos vitrais quebrados,
seus olhos negros, vazios, encontram os meus,
e, como cacos de vidro,
minha alma se despedaça,
perdendo-se nas profundezas insanas
de um precipício eterno e sem fim.
Deleito-me na fria sobriedade,
seduzida pelo sussurro envenenado da escuridão,
que, com garras de ferro forjadas,
arranca meu coração ainda vivo, mas morto.
Ainda hoje, lembro-me da dor,
e ainda hoje, me deito,
entre as ruínas de seus vitrais em cacos,
onde a escuridão é meu único refúgio.
Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. → Ler edição completa
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Até um breve encontro
durante minha jornada pela | doce tortuosa estrada da vida | conheci alguns amores que fizeram verão | outros que nem sei mais onde estão...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
durante minha jornada pela
doce tortuosa estrada da vida
conheci alguns amores que fizeram verão
outros que nem sei mais onde estão
mas existe uma em especial
que docemente marcou meu coração
conheci em um momento de solidão
sem pensar que o amor se tornaria ilusão
foram passeios e juras de amor
cartas apaixonadas e poemas escritos
o destino nem sempre é um bom amigo
às vezes ele nos prega peças sorrindo
em uma sinuosa curva na estrada
meu amor seguiu e não voltou
um anjo belo tocou sua harpa
e para longe de mim a levou
ó meu Deus porque deixastes
éramos apenas dois amantes
a desbravar por um oceano tranquilo
como dois ingênuos navegantes
sonharei com minha amada
sei que em breve a encontrarei
por ela tenho o tempo que for
um dia em meus braços novamente a terei.
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Cosmo Soturno
caminho pela escuridão da noite | tentando imaginar minha vida | sem a correnteza das águas que | caem abundantemente em sua face…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
caminho pela escuridão da noite
tentando imaginar minha vida
sem a correnteza das águas que
caem abundantemente em sua face
tê-la em meus braços fora o
único momento bom deste
viver melancólico e sombrio
que arrastei por todos os anos
neste corpo gélido, não sinto mais
a força pulsante dos mares de
sangue que fluem inundando
minha soturna existência
às sombras arrancaram de mim
toda a solidão cravada em meu peito
lançando em um abismo obscuro
o mal sedento e submerso por ti
onde estou ainda consigo ouvir
tuas súplicas arrependidas e
desesperadas por mim
clamando por meu retorno
lançado em um universo onde
as trevas devoram minha alma
suplico em meus devaneios para quê
a solitude em meu peito aproxime nossas almas.
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Névoa viva
Próximo ao castelo, a lua desponta no alto da colina iluminando a floresta com sua luz avermelhada e cintilante. O vento frio, percorre os espaços sombrios…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Próximo ao castelo, a lua desponta no alto da colina iluminando a floresta com sua luz avermelhada e cintilante. O vento frio, percorre os espaços sombrios entre as copas das árvores centenárias, estremecendo levemente sua solidez. Tomado por uma fúria imensurável, cavalgo ferozmente pela trilha tortuosa à procura de algo ou alguém que sacie meu desejo de vingança. O percurso é longo e meu cavalo demonstra nitidamente sinais de fadiga. Invisto mais um pouco e noto sua fraqueza em minhas mãos, minha imortalidade não acompanha a vida breve dos animais. Com rapidez, puxo as rédeas e esfrego o pescoço longo de Augustin que relincha alto indicando o alívio por minha decisão. Retorno vagarosamente para o castelo, mas minha inquietude continua alimentando meu ódio. Ao longo daquela noite letárgica, sombria e dolorosa, minha mente borbulha deixando-me nostálgico e amargurado. Caminho pelo corredor levemente iluminado por velas e observo as fotos que parecem sorrir para mim em meio ao caos de sentimentos. Tento repousar a mente próximo à imensa janela enquanto observo a formação de uma névoa tênue que espreita os arredores do castelo. Minhas mãos apertam com força a madeira envelhecida que reverte às paredes daquele velho castelo e minha fúria torna-se palpável ao enxergar o motivo da minha ira. Espalmo minhas mãos no vidro deixando marcas no vitral escurecido, desço às escadas apressadamente e no caminho vou até o quarto, retirando do antigo guarda-roupa minha capa preta. Selo novamente meu cavalo e adentro nas profundezas daquela floresta inóspita. A névoa contínua e fria espalha-se por todos os lados, perseguindo-me. Desvio de troncos caídos ao chão, a floresta sangra e meu coração compartilha de tal sofrimento arrancando gota a gota o resto de minha insanidade brutal. Ao longe, o velho chalé continua intacto e sem sinais do tempo, convidando-me para um abraço mortal. Deixo Augustin próximo a uma árvore centenária e sigo em direção ao chalé, paro junto aos primeiros degraus e pela janela consigo enxergar um sinuoso movimento. Seguro a maçaneta fria e com cautela empurro a porta devagar, meus passos me direcionam a uma sala gélida e úmida, os móveis antigos cobertos por um fino lençol branco continuam trazendo as lembranças escondidas por baixo de seus tecidos empoeirados. Um barulho no quarto retira-me do transe das memórias indesejadas e sigo apressadamente para o cômodo. Parado à porta, meu coração dispara rapidamente com a silhueta formada próximo à cama.
— O que faz aqui?! — Pergunto, incrédulo. — Não está satisfeita com o que faz comigo? — Questiono, aproximando-me lentamente.
Sem respostas, toco levemente sua cintura e sinto minhas mãos congelarem, algo em nós não é mais como antes. Minhas lembranças me atormentam e por impulso viro rapidamente seu corpo de encontro ao meu. Ela me olha com ternura e paixão, enquanto tento desvendar os meus sentimentos. Aproximo minhas mãos em seu rosto e acaricio sua face pálida enquanto a proximidade nos conecta. Nossos corpos necessitados se entrelaçam com fúria e desejo. Noto que seu coração bate descompassado e sua respiração torna-se cada vez mais acelerada. Minha fúria dá lugar à saudade e, calmamente, beijo seus lábios rosados que devolvem vida aos meus dias. Lá fora, a névoa começa a dissipar-se e já é possível ver os pinheiros e toda a extensão do lugar. Olho novamente em seus olhos e a beijo com força deixando nossos corpos sucumbirem ao amor. Ela me empurra devagar e com um sorriso tímido se afasta. Sigo-a por todo o chalé e me espanto ao ver os móveis descobertos, o lugar agora parece mais limpo e arejado, a luminosidade sombria deu espaço a um ambiente acolhedor.
— Estou aqui!
Ouço sua voz próxima à entrada e sigo em sua direção. Procuro ao redor, mas minha visão cansada não enxerga mais sua presença, a névoa aos poucos dissipa-se e a floresta já não é mais tão sombria. Caminho até Augustin que me aguarda com impaciência, esfrego sua crina delicadamente acalmando-o com meu toque. Subo em seu corpo longilíneo e olho uma última vez para o chalé, ele ainda mantém sua luminosidade e ela ainda está lá. Aceno levemente com a cabeça e retorno para a minha tumba, meu lugar sagrado, minha sentença. Enquanto aguardo ansiosamente a vinda da névoa para que novamente possa encontrar com ela.