14 - Meio Assim

Senti uma dor no peito. Infelizmente, não é infarto. Não é dor de amor, nem tristeza. É peso, uma sina. Sabe, os dias em que não se sente raiva, compaixão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Senti uma dor no peito. Infelizmente, não é infarto. Não é dor de amor, nem tristeza. É peso, uma sina.

Sabe, os dias em que não se sente raiva, compaixão ou esperança são os piores. Destituídos de qualquer sentimento, vagamos sob as profundezas de nosso próprio vazio.

Na vastidão do universo, onde as estrelas jazem sem vida, não me encontro após procurar por versões de mim que nunca mais existirão, ou que se perderam ante as lutas cotidianas, ou que foram domadas por falhas que não cometi. Não as cometi?

O vazio é mais pesado e denso que um coletivo em horário de pico. Mais cruel que qualquer sofrimento. E você sente raiva — sim, agora ela aparece —, porque você, racionalmente, sabe não ser justo se sentir assim, a sua vida nem é tão ruim assim.

Eu não estou aqui para auferir as dores do mundo, mas ao ferir as minhas, desabo.

Qual é o teu sofrimento? Se pudesse apagá-lo da memória, mas sob condição de apagar o que o acarretou (alguém, algo, um objetivo frustrado, o vazio...) você se apagaria?

Não somos compostos das experiências que vivemos? Não somos essa massa pensante, que pensa, repensa tanto que até dói?

Esses dias fez sol. Mas ainda sinto que isto não importa.

O desprezo que julgo sentir pela vida é consequência do autodesprezo? Por que não consigo sentir prazer nas coisas que outrora sentia? Chega! Já cansei de lamber minhas feridas.

Meu peito ainda dói, mas nada de infarto... Ainda!

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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13 - Azulácia de uma vida azul

“E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?” Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Relato de Alana Mortensen

 “E se pudesses pintar suas memórias, de que cor seriam?”

Lisa sempre surgia com perguntas que estimulavam minha imaginação, às vezes demandava tempo para elaborar respostas que estivessem à altura. Contudo, desta vez, minha voz saiu rápida e assertiva: “Azul”.

Não sei precisar se tenho uma cor favorita, para ser sincera nunca vi sentido em pensar nessas coisas, mas agora sei o quanto gostava de azulescer meus sentimentos; o quanto gostava do límpido azulíneo da lua; o quanto azulescia-me cada vez que pensava no meu passado.

A vida é assim: quando menos se espera entramos nessas elucubrações sem propósito, e qual é o sentido de viver se não for para viajar por caminhos tortuosos?

Meu cabelo preto, de tão escuro e denso, tornou-se azulado. Nosso sangue não parece ser azul olhando de fora? Não entendo o porquê ele insiste em tornar-se apaixonante, cor vibrante quando arrancado das veias, pois enquanto aqui dentro — dentro de cada um de nós — ele mal tem forças para gritar, quem dirá ser paixão. Para mim, ser azul, aceitar o “Azul”, faria muito mais sentido.

Sentido.

E lá vou eu novamente falando de sentido.

Fugindo dele, na maioria das vezes.

Quiçá procurando um destino.

Das cores da sobrevida.

Destinos desconexos.

Sem sentido.

Sentindo.

Indo.

Lisa olhou-me como se eu fosse um espectro, mas sei que ela me entende. Óbvio que ela entende o que falo, porquanto fala também, mas me refiro a entender o que sinto. Nessa relação fico em desvantagem, porque não sei dos sentimentos dela, já que não gosta de se sentir vulnerável — nem sei se algum dia ficou indefesa —, mas é como se ela soubesse exatamente tudo o que trago dentro de mim. E tudo o que deixei transbordar.

E, atendendo aos pedidos expressos por seus lindos olhos amarelos, começo a transportar para a tela as nuances “azuis” das cores da minha alma.

Com os pincéis crio vórtices de vários tons e tamanhos, eles preenchem os espaços diferentemente do que ocorre em mim.

“Quais vórtices esses redemoinhos enigmáticos irão despertar?”, pergunta.

“Órbita que precede o óbito”.

Lisa desaprova. “Nada de óbitos!”.

Conto a ela que só estou devolvendo o tempo emprestado. Ela não acredita, e insiste para continuar.

“E se a morte aqui no Castelo não for real, Lisa?”

Ela grita “Eu morri, você não lembra?”.

Era verdade e eu tinha esquecido. Se eu tentasse, desta vez, poderia não ter Drácula para me salvar.

Afasto tais pensamentos. Para onde vou?

Não quero voltar para casa, mas também não quero ficar.

Lisa propõe uma jornada, um passeio pela região e então os vórtices na tela começam a girar.

Assim como minha chegada ao Castelo foi por meio da minha arte, minha nova escapada aconteceu por causa daqueles vórtices; minha arte, pois, abrira um portal para as terras que ainda não havia explorado.

Mais tarde, descobri que fora transportada para as Dunas Múrmuras, um local repleto de areias, não as do tempo, mas as areias que cobrem terras secas e praias. Mas não havia mar, somente um Rio que chamou minha atenção.

 Já olhastes luzes salvadoras após se ver perdida em meio à escuridão?

Quando criança, fingia não ter medo do escuro, porque não podia ter medo daquilo que não via. Quando cresci percebi que é exatamente aquilo que não vemos, ou sabemos, que nos causa mais medo. Como combater um monstro invisível?

 O Rio era habitado por criaturas. Não só eram bem nítidas, como nos atraíam. A fotoluminescência agia como um canto sagrado — ou maldito —, que transpassava a armadura que havia colocado em volta de mim. Não pude ficar longe de suas formas e brilho intenso... convidavam-me para adentrar às águas. A voz de Lisa foi quase sufocada, sufoquei o instinto que clamava. Sabia que não poderia ceder tão facilmente, mas a quantos chamados estranhos já não havia respondido após chegar ao Castelo?

A ida para aquele mausoléu, por si só, já era uma atitude deveras ousada para mim, não era?

As formas aquáticas avolumavam-se à medida que me aproximava da margem do Rio Magöhorror. Sim, este era seu nome. Estava tão focada nos horrores submersos que demorei para notar que tudo ao meu redor tornava-se vívido. Não eram animais e flores comuns, pareciam mais provindos de uma floresta maldita. As flores com as bordas metálicas foram as que mais me chamaram atenção; lindas, assemelhavam-se aos espectros do passado, de outras eus e outras pessoas que desejava esquecer. Os esqueletos não estavam no armário, mas plantados na terra (não sei em qual momento a areia tornou-se terra, e quando o deserto virou miragem. Era uma miragem?).

Quando estava próxima demais da margem, Lisa me arranhou, já que eu insistia em não a ouvir. A floresta não me traria problemas, as flores tinham poderes de cura e apresentavam aquele aspecto por estarem carregadas demais. Porém, as águas azuis-índigo eram prisões de criaturas maléficas. Eram elas que me chamavam e não as águas.

Eu tinha esse dom de atrair monstros terríveis e de acreditar que sempre estaria segura. Lisa me olhava com indignação, e eu também me olharia assim se tivesse espelho naquele momento.

Não era uma tarefa fácil proteger alguém atraída pelo obscuro.

Lisa sorriu e disse que tinha todo o tempo do mundo.

E eu soube — mesmo sem provas — que enquanto houvesse azul em mim, ela estaria sempre atenta.

As Incursões de Alana Mortensen
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Michelle S. Nascimento

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21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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12 - Novo Chamado de Listheron

Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons…

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(Antes de iniciar essa leitura, recomendo ler o capítulo 6)

Relato de Lisa 

Desde aquele episódio, não havia pensado sobre minha origem. Contudo, por mais que eu tentasse suprimir qualquer ruído chamado, ouvia os sons das engrenagens em funcionamento, sem parar.

Não sabia distinguir se as ouvia de algum lugar distante ou se estavam dentro de mim... Mas algo aqui dentro movia-se impassível, sem requerer minha permissão.

Compreendia que evocar Listheron poderia causar a destruição deste mundo e, como não poderia arriscar colocar Alana em risco, suprimi toda e qualquer comunicação, telepática ou não, que pudesse ter com meus antepassados.

Mas eles não pensavam assim. Para Listheron, as batidas do relógio cósmico não cessavam; as engrenagens continuavam se movendo no compasso correto, aguardando mais uma chance para me convocar.

Meu tempo estava acabando...

***

Naquele dia, Alana estava interagindo com Drácula, e eu fui andar no bosque, localizado ao redor dos muros do Castelo. Não me afeiçoei a Drácula; apesar de ele ser gentil e ter salvo a minha vida neste plano, não tenho intenções de formar laços profundos com ele. Não tenho medo de que ele nos faça mal, não é isso. Mas a sensação é de que agiu movido apenas por interesse. Só ainda não descobri qual. Ou talvez meus instintos estejam prejudicados por causa dos sons, e isso afete minha capacidade de análise.

Saí quando a noite dominava, e os bosques jaziam iluminados com as costumeiras luzes indiretas vindas do Castelo, que conferiam ao lugar um clima lúgubre. A brisa mansa trazia odores de terra recém-molhada, mas não por chuva ou orvalho, e sim por algum líquido indecifrável.

Caminhava por entre as densas folhagens; subia nas copas para sentir melhor a invasão do ar puro em meu peito e sentia-me observada pelos olhos flamejantes.

Impressões ou fatos?

Em dado momento, notei que a lua tornava-se amarelada. No começo, achei que fosse apenas uma ilusão de ótica ou uma névoa fina que surgia, mas logo percebi que aquela mudança tinha substância: era real e a tingia de ouro em brasa, como um metal aquecido em fornalha, pronto para ser moldado. Adensava perante mim, deslizando para o lado direito, como que duplicando-se. Logo, a esfera dividiu-se em duas, e constatei que eram Olhos de julgamento.

Raios de luz saíam para fora das esferas, como se fossem pálpebras com cílios mal definidos. O olhar fixou-se em mim.

Senti um arrepio. Era Listheron. Vinha reclamar minha submissão.

Havia tensão no ar. Não conseguia desviar o olhar e então o ouvi:

 — Venha para mim.

Senti as engrenagens movendo-se novamente dentro de mim, pressionando meus pulmões e roubando o ar que havia conquistado:

— BASTA. Irei quando quiser! — Bradei a plenos pulmões, minha voz retumbou forte e o atingiu em cheio.

Silêncio. Senti alívio

A pressão no tórax recuou e, por um instante, pensei que estava livre, até que a nossa discussão telepática começou arder dentro da minha cabeça.

Eu protestava, ele exigia.

Lutamos sem mover um músculo.

O óleo fervia e os tubos que conduziam o éter da vida estavam prestes a explodir.

Mas eu não iria voltar atrás.

Até que ele cedeu.

Firmamos um pacto, assinado com a precisão de um contrato estranho: continuaria sendo Lisa, mas precisaria ser Lisath por sete horas, a cada sete amanheceres.

Não havia outra alternativa. Era isso ou me tornar Lisath para sempre. Ah, a beleza do livre-arbítrio.

Concordei. Por livre e espontânea manipulação.

Lisath é algo que Alana jamais suportaria conhecer.

Por isso, a cada sete dias, eu desapareço. E torço para que ela não descubra aonde vou e o que preciso fazer...

Revisado por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
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20ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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Encontros tórridos com Eco reinventada

Contornei as curvas do belo corpo. Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o…

Atenção! Esta obra pode conter cenas sexuais explícitas e linguagem sexual.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por Alana Mortensen

Contornei as curvas do belo corpo.

Sem a urgência de término, acompanhava como observadora silente, o surgir dos poros, as moitas que adornavam o sexo e rosto pueril, os dentes alinhados, sem a brancura excessiva resultado de tratamentos estéticos. A textura e odor das flores era o que mais me aprazia — podia sentir o frescor agradável tocar minhas narinas. Os efeitos que a iluminação e perspectiva suscitavam em sua tez reforçavam o cenário onírico.

O balanço gentil do rio acalmava quaisquer perturbações. Técnica ou efeitos do Castelo na tela?

O líquido carmim, que aspergi em seu colo, realçava a beleza delicada, primal e arredia. O processo contínuo e minucioso acalmou as elucubrações daquele dia, mas garras de perturbação insistiam em se engalfinhar na obra. O êxtase era obtido sem pressa.

Éramos peças postas de forma estratégica no tabuleiro-tela.

Aquela figura suave parecia desfilar na tela, meus pincéis já sabiam acompanhar seus intentos. Desnudava-me de meus preconceitos, deslizando por entre caprichos de Eco. A forma corpórea perdia-se entre as névoas magentas; a superfície assemelhava-se a espelho d'água. Contemplava a mim?

“Venha, não tenha medo... medo... edoo... edoo”, a voz vacilante, afogada pelas águas que abarcavam suas pernas; o olhar fixado, como quem não esmorece diante de nada; a mão estendida, convidativa, exercendo influência sobre mim. Tal qual fora a minha chegada a este Castelo, fui persuadida a adentrar aquele mundo rubro-desbotado. As águas do meu interior fervilharam ao tocar a mão fria, mas macia.

Meu quarto transformou-se no cenário irretocável, irreal e plástico. Eco escancarou a porta, cujo olho-mágico era a tela. Hipnotizada, deixei-me conduzir por seus encantos, sem conseguir emitir som, pois voz não fazia parte daquele momento pictórico. Deslizamos sobre a relva úmida, recordando sensações há tempos adormecidas.

Já tiveste contato verdadeiramente íntimo com alguém, a ponto de não precisar estimular as terminações nervosas da flor que desabrocha na adolescência, mas mesmo assim, sentir-se em estado de êxtase? Conseguiria afirmar que isso é possível?

Decorreram-se horas ou dias, isso não tem importância, o tempo já me é alheio. Após esses primeiros contatos, físicos ou metafísicos, chegamos ao seu lugar de refúgio, um reservatório com águas calmas e rubras, vigiado por oito colunas, com seus capitéis dóricos suntuosos, dispostos como voyeurs das nossas tórridas aventuras. Minhas mãos percorriam ágeis, agora sem pincéis, as curvas de Eco. Sentia-me fadigada, mas não conseguia interromper o ciclo retroalimentado pelo deleite extraído e provocado.

Continuei nessa posição até sentir uma pressão no tornozelo, que logo transformou-se em agonia. Recobrei meus sentidos e percebi que Lisa cravara suas presas com afinco. Por que não gritara?

— Não era Eco, mas uma criatura maléfica. Chamei reiteradas vezes... Esta foi a forma de trazê-la de volta. Ela minaria suas forças até você ... — respondeu, hesitante, e adivinhando meus pensamentos.

Meu braço ainda exibia a marca do beijo-toque, feito ferro em brasa, que a tinta fresca imprimiu em mim. Eu não saíra daquele quarto e, agora sabia, algo maléfico viera ao meu encontro.

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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10: Sobre as versões de nós

Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou.

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Por Alana Mortensen

Amo os clássicos, porque vemos que as mesmas inquietações reverberam na atualidade. Ao mesmo tempo que tudo mudou, nada mudou. A forma de comunicação transformou-se, mais ágil e nem sempre assertiva, mas os anseios são os mesmos. A nossa insistência em tentar definir e nomear aquilo, o desconhecido que fascina e aterroriza em iguais proporções.

Lembro-me da primeira vez que li “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, a Alana de quatorze anos ainda tinha sonhos e alegrias por vir. O impacto foi repentino e indecifrável: recebi os golpes, sem saber precisar de qual direção e remetente provinham. A fascinação foi ainda maior após reconhecer que o protagonista somente conseguia ser sincero, porque o além-vida lhe proporcionava esse despreendimento. Entende o que eu quero dizer? O medo de ser rejeitado nos prende à vida cotidiana, aquela na qual todos vagam sem experienciar a Vida.

Para que continuar seguindo as convenções se tudo o que outrora era vida já não mais existe?

Para que continuar dançando a valsa da vida se não há mais parceiros e a música cessou?

Sinto que, ao adentrar o Castelo, sofri a mesma transição que Brás Cubas: já não preciso me preocupar com a minha utilidade na sociedade; já não preciso continuar lidando com as situações sufocantes; já não preciso simular.

Tornei-me transparente. Não vês os meus circuitos internos? Olha como meu coração ainda bate, em um ritmo só dele, ainda bombeando o sangue que faz irrigar cada parte seca do meu corpo.

Quando era criança adorava fingir ser quem não era: professora, médica, forte, executando a “função” com tanta seriedade que ninguém ousava dizer que eu não era uma professora ou médica, ou forte. Aos poucos fui perdendo essa autoconfiança, a adolescência sufoca qualquer voz interior que tenta afirmar que “você é capaz”, ou assim nos fazem acreditar… Falam tanto na nossa cabeça que acreditamos exatamente naquilo que elas querem.

A jovem adulta não ficou menos hesitante, só aprendeu a suprimir esses dissabores, ninguém gosta de pessoa que seja e pareça fraca. Nem eu gostava. Mas aprendi que se deixar sangrar, deixar que vejam meu escoamento também é uma forma de força.

Essa bateria de palavras é somente as divagações de hoje. Aqui eu aprendi que eu posso e serei quem eu quiser. E não me importo se tentarem cerrar as cortinas, pois eu irei transpassá-las e continuarei com a minha apresentação, custe o que custar!

Revisão por Sahra Melihssa
As Incursões de Alana Mortensen
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Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
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9 - Uma nova esperança em meio aos destroços

No céu, a Lua pairava sobre as torres alongadas do castelo tenebroso como um farol prateado. Sua esfera irradiava um cintilar frio e cristalino…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Relato de Lisa

Alana já sabe sobre as mudanças que se fizeram em mim. De certo modo, me senti aliviada. Você não imagina como é difícil manter-se calada quando o coração está repleto de preocupações e reverberações das ações — incautas — alheias. Esperem. Vou contar-lhes tudo sobre esses últimos dias.

Gatos não têm religião, mas somos espiritualizados de uma forma que o conhecimento limitado humano é incapaz de compreender. Não se sintam ofendidos, mas imaginem uma situação em que vocês precisam explicar sobre a relatividade para um bebê de dois anos. Ninguém diria que o bebê é incapaz ou desprovido de inteligência, mas diriam que ele ainda não é capaz, pois precisa entender primeiro outros conceitos mais básicos. É exatamente assim que os vejo. Meus ancestrais, como já contei anteriormente, são seres além do tempo, míticos e que regem as leis do cosmos. Eu consegui me adaptar a essa existência limitante, mas não suprimi totalmente minhas capacidades cognitivas, e por isso, sei o quanto deve ser difícil para vocês entenderem certas coisas.

Sem mais delongas, porque isso está soando muito estranho, vou contar-lhes o que aconteceu com a minha Alana.

Há cinco dias ela acordou em meio a mais confusões noturnas — não consigo afirmar que aquilo era sonho. Eu não queria ter que usar os artifícios, pois quando adentrei nessa existência havia prometido para mim mesma que não iria interferir nas escolhas dos humanos, entretanto, tudo isso que aflige Alana não foi sua escolha, mas são consequências dos maus atos dos outros. Posso dizer que esse é um grande dilema, contudo, será assunto para outro relato.

Em meio ao conturbado despertar, entre lágrimas e terrores, esbocei a primeira frase audível para ela, que a princípio imaginou estar confusa pelo sono, pelo despertar recente ou pelo desassossego. Demorou para aceitar a realidade. Contei-lhe sobre os olhos flamejantes, minha ancestralidade e falei-lhe sobre Siehiffar Monm: ela te ajudará.

Aquela noite o vento assobiava entre as árvores retorcidas como se carregasse memórias que não deveriam ser lembradas. Alana hesitou de início, mas depois compreendeu que mal também não podia fazer. Partiu, guiada por uma promessa sussurrada por mim ela te ajudará.

Nos recônditos do Castelo havia o pequeno santuário iluminado por uma única vela bruxuleante, a luz parecia resistir por teimosia. Quando a porta rangeu sob o toque da minha tutora, o cheiro de cera derretida e madeira antiga a envolveu. E lá estava ela: Siehiffar.

Sentada em um banco gasto, o véu de linho repousando nos cabelos negros, as mãos postas sobre o colo — havia nela uma quietude que desafiava o mundo. Ela ergueu os olhos ao ouvir a porta, e o olhar que pousou sobre a recém-chegada não foi de julgamento, mas de acolhimento.

— Você veio. — disse Siehiffar com uma voz que parecia ser feita de manhãs brandas e orvalho. — Há dias sinto sua tristeza ecoando pelas paredes do Castelo.

Alana hesitou. (ela sempre hesita, mas faz).

— A minha gat... Lisa me contou sobre você. Eu... não sei por que vim. Só sei que não consigo mais carregar isso. A fé... desapareceu. Ou talvez nunca tenha existido.

Siehiffar se ergueu, seus passos silenciosos como preces. Aproximou-se sem pressa, até chegar de frente à alma atormentada. Tocou-lhe as mãos — mãos frias, que haviam cavado covas para os próprios sentimentos.

— Às vezes — disse ela — a fé se esconde. Não porque tenha deixado de existir, mas porque espera que a procuremos em lugares novos. No silêncio. No desespero. Naqueles instantes em que tudo parece perdido. Na banheira você teve fé, só não te ensinaram o nome daquilo.

— Você fala como se ainda houvesse esperança — e sorriu com amargura.

Siehiffar levou a mão ao coração.

— Porque há. Não a esperança tola de que tudo será fácil ou que as dores desaparecerão. Mas a esperança de que, mesmo com tudo isso, você ainda pode encontrar sentido. Que há beleza até mesmo na dor que transforma e machuca.

Um raio de luar atravessou a vidraça quebrada, banhando o rosto da minha Alana em prata. Pela primeira vez em anos, ela não sentiu apenas frio. Sentiu algo mais. Um calor tênue, sutil, quase imperceptível — a lembrança de um abraço.

— Fique, — disse Siehiffar, apontando o banco. — Não precisa falar. Apenas fique. Às vezes, a fé começa quando simplesmente decidimos não ir embora. Lisa, pode entrar também... É claro que ela sabia que eu estava à espreita. Entrei.

E Alana parecia mais leve do que esteve em anos. Eu sabia que Siehiffar podia ajudá-la, mas sinto que subestimei sua capacidade de amenizar as dores com uma precisão quase cirúrgica.

Se Alana precisará de mais sessões com ela, eu não sei... Só sei que estou disposta a fazer novas concessões se for preciso.

As Incursões de Alana Mortensen
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17ª Edição: Dívanno - Revista Castelo Drácula
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8 – Limiar azulado: paisagens de melancolia e (des)conforto

Encarei o vazio nos olhos do abismo, | onde a flama ardia como lava do vulcão à beira da eclosão…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Encarei o vazio nos olhos do abismo,
onde a flama ardia como lava do vulcão à beira da eclosão.
Das profundezas aspergia luzes vívidas, azul-amarelada.
Da sua fluorescência emanava uma força primal, feroz.
Era aterrador, ao passo que hipnotizante.
Contra todas as probabilidades, sobrevivi.

A tela clamava por mais pinceladas, entretanto, receberia meus dedos: os enfiei nos tubos de tintas e desafiei o acaso — o que surgiria daquela confusão pictórica dependia exclusivamente dele! — Se ele sabia jogar, eu também sabia.
Aos poucos as cores daquele psicodélico amálgama disforme convergiram para uma única: “azul”, esta, acompanhada de todas as nuances possíveis associadas a ela: bebê, gelo, celeste, água, cobalto, marinho, petróleo, turquesa, índigo, acinzentado... O véu estrelado cobria meus pensamentos na noite vazia, e sozinha, continuei naquele transe criativo.

Como as memórias puderam se transformar de maneira tão brusca?
Prazer. Sofrimento. Contentamento. Desilusão.
Concluí que minhas emoções eram tão instáveis, melhor não tentar explicá-las.

Estava em estado criativo, mas essa singular interação e sucessão de coisas desconexas não seria uma espécie de loucura? As coisas ocultas em meu inconsciente não estavam rebelando-se, e com isso, ganhando vida na tela? No inglês o azul é associado à melancolia, na colorimetria ao conforto.
Fui invadida por esses pensamentos, mas o que diabos isso quer dizer?

É um teste? eu não sei. Mas posso afirmar que o inferno não é metafísico e nem “os outros”. Poderia ser nós — em mim habitam demônios demais, tantos que já não tenho tempo para me preocupar com os de fora —, mas o inferno é essa vida cotidiana, que escoa por nossos dedos, enfiando-se em lugares ocultos, sem pedir permissão, como um verme que a tudo corrói. Sem piedade. Sem distinção. Sem pudor.

Sob efeitos desses pensamentos e possuída por uma ânsia de fazer emergir “aquilo” que ainda não sei nomear, continuei...

Durante a fase mais conturbada da minha vida — acredite, houve uma época em que tudo era pior e eu quase sucumbi —, procurava com afinco tentar entender os mistérios da mente.
Devorei livros de filosofia e psicologia, contudo, aquelas palavras pareciam confirmar as minhas suspeitas de que nada fazia sentido.

Para quê continuar?

Em nenhum momento aqueles escritos declararam isso, mas em meio à desesperança os olhos são conduzidos por um caminho tortuoso, e como eu era vulnerável, acreditei nessa mentira autoimposta! Durante um bom tempo... Longo tempo...

Mais tons de azul surgiram na tela... Tantos que nem sei mais como nomear...
Melancolia e conforto. Conforto de menos, melancolia demais.
Eram nuvens? Besteira, nuvens não são azuis! Eram similares a bolinhas de algodão-doce azuladas, mas quando abocanhei uma porção o gosto era amargo.

Então, naquela época — a tal época mais difícil da minha vida —, embrenhei-me na arte: das palavras e das tintas. Como sabes, minhas obras sempre foram repletas de formas sombrias e que evidenciam os tormentos de uma alma que não descansa, mas essa é a minha verdade, e como não consigo ser diferente, sigo evocando esses seres que aprisionam eu dentro de mim.

E encerro essa divagação — não ouso dizer que é um relato —, confessando que foi naquele tempo, entre sombras espectrais e silêncio perfurante, que percebi: há um consolo estranho na melancolia, desde que eu tenha forças para moldá-la em criação.
Uma obra é uma catarse.

É por isso que escrevo.
É por isso que pinto.

O inferno, às vezes, pode vir em tons de azul — melancólico, sereno, quase acolhedor.
Mas se será amargo ou doce...
Só você poderá dizer. 

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 7: Coelhinho... O que fazes de mim?

A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A escuridão daquela noite me envolvia tal qual um abraço mortal, expulsando qualquer vestígio de sono. Desci em busca de um alívio, algo que me concedesse descanso. Na penumbra da cozinha, encontrei Ameritt — com seu olhar indecifrável e mãos delicadas preparando um chá. Ofereceu-me uma dose. Aceitei a oferenda sem hesitar. 

Mas, ao invés de conforto, cada gole parecia arrastar minha alma ainda mais fundo na tormenta. Sequer sei se era ela ou se pretendia causar mais sofrimento… só sei que aquele chá não trouxe paz alguma. 

*** 

Me vi observando alguns moradores de uma terra longínqua, seres interessantes e carismáticos. Muitos possuíam uma sensibilidade e melancolia sutil, que lhes conferia um aspecto pueril e misterioso. 

O fato é que não sei precisar se sonhei ou vivenciei aquelas cenas... Mas a essa altura da história, achas mesmo que isso seja relevante? 

Eram criaturas vivazes, pareciam estar se preparando para alguma festividade. Depois confirmei minhas suspeitas: realmente estavam às vésperas de um festival importante para a Cultura deles chamado Aesttera. 

Acompanhei em simultâneo o preparo do banquete e das vestimentas, como se estivesse fragmentada e pudesse estar onipresente em diversas cenas. O salão do banquete estava repleto de bandejas e copos com formatos peculiares, frutas secas dispostas em uma mesa vasta e havia jarras e jarras preenchidas com um líquido espesso da cor de um vinho bordô. As vestimentas eram semelhantes às roupas de época, como se eu tivesse sido transportado para algum momento importante do século XVII. 

As crianças, risonhas e ávidas por aventuras, divertiam-se com um objeto oval. Depois, compreendi ser uma flor, cujas pétalas eram retiradas uma a uma por diferentes crianças, sempre passando para a próxima a cada retirada. Parecia uma roleta-russa com objetivo menos mórbido, mas igualmente estranho. Creio que o intuito era descobrir algo no interior dela, mas não pude compreender o quê. O que havia dentro daquela flor peculiar? 

Foi quando o senti

Deslizando sob aquela população excêntrica, percebi a presença de um coelho humanoide, de pelos negros e olhos de um vermelho neon intenso. Foi o único que me viu — não apenas olhou, mas viu. Seu olhar inquisidor parecia desnudar os recônditos da minha alma e, por um instante, me senti indefesa de novo, como se estivesse em um lugar inóspito, além daquele festival. Não ousei dirigir-lhe a palavra. Algo dentro de mim sussurrava que ele já sabia tudo sobre mim. 

A névoa densa na mente obscureceu minha visão por um tempo, e quando recuperei o foco, ele estava mais perto. Muito mais perto. Seu sorriso, largo e imóvel, era mais do que uma expressão impassível — era uma fenda pictórica escancarada na própria realidade. Ele ria de mim? Seus dedos longos e rígidos tilintavam ao menor movimento, e só então percebi a horrível verdade: Seus membros eram feitos de ossos humanos, meticulosamente montados, encaixados e articulados como se tivessem sido esculpidos para ele. Seu tórax era uma jaula de costelas humanas, entrelaçadas como grades, e dentro dela algo pulsava, algo que não era dele. Algo vivo. Algo humano. Algo que me olhava de volta. Era eu.  

Quis correr. Juro que tentei. 

Mas, quando dei o primeiro passo para trás, ele sorriu ainda mais. E dessa vez, o sorriso não estava apenas no rosto. 

Estava em todos os lugares. 

Me invadindo. 

Me modelando. 

Descontruindo em 

Fragmentos que não se pode reaver. 

Acordei(?). Me vi no meu quarto no Castelo Drácula, só podia ser um sonho. Não é?! Olhos amarelos vieram cautelosos em minha direção e, quando pensei em gritar, reconheci Lisa, que me olhava assustada, como se soubesse dos flagelos que passei. 

*** 

Os olhos vermelhos luminosos daquela criatura infernal ainda me observam, persistentes, assombrando não só minhas noites, mas também meus dias. Nunca se aproxima, apenas espreita, sempre à espreita. 

Ouço o bater do coração dele — que é o meu rosto — os ossos fazem sons como se rangidos de dentes ferozes estraçalhassem uma presa. 

Eu não devia ter tomado aquele chá de maçã. Havia algo nele… algo além do doce aconchegante, algo oculto sob o sabor acolhedor. Algo que agora me consome! 

E desde então não encontrei mais a Ameritt. Era mesmo ela?!!! 

As Incursões de Alana Mortensen
Ao adentrar o Castelo Drácula, a protagonista é envolta por uma realidade onde arte e loucura se entrelaçam. Cada pincelada em sua tela não apenas expressa emoções, mas também convoca entidades que desafiam sua sanidade. Neste ambiente gótico e onírico, ela confronta traumas passados e descobre que a linha entre o real e o imaginário é tênue. Uma jornada introspectiva que revela os abismos da mente humana e os segredos ocultos nas sombras do castelo. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Michelle S. Nascimento

Michelle Santos Nascimento é paulistana, mãe, esposa e amante das artes, em todas as suas formas de expressão, desde que aprendeu que há todo um universo fora dela. Ama as ciências humanas, mas também tem predileção pelas exatas, porquanto é graduada em “Segurança da informação”, pós-graduada em “Gestão de TI” e “Engenharia de software” e trabalha como Analista de qualidade de software... » leia mais
15ª Edição: Aesttera - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 15ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de abril de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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Capítulo 6: Engrenagens do destino

Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa, para o Castelo Drácula

Estou diferente. Não sei dizer exatamente o que, mas estou. As interações com o ambiente parecem ter adquirido novas roupagens — “‘roupagens’, de onde tirei essa expressão?!”. — Como vês, o meu linguajar foi uma das mudanças, não me lembro nem de pensar... Agora falo. 

Tenho lembranças envoltas em uma névoa penumbral, como se as memórias não me pertencessem e eu as tivesse tomado de seres cósmicos. Meu contato com todos à minha volta ficou intenso e sinto apetites insaciáveis, mas ao menos ela está mais feliz do que nunca. 

Assim que proferi a primeira palavra causei um espanto imenso, principalmente nela, mas aos poucos foi se acostumando com as minhas novas habilidades. 

Dizem que somos sarcásticos, egoístas e que não zelamos por nossos pais humanos ou que não gostamos de suas companhias, mas isso é mentira. Eu daria a minha vida por ela novamente, ela é o ser que ilumina meus caminhos, todos dias e noites. Ela também está diferente, menos ferida e preocupada e isso me deixa muito feliz. 

*** 

Ela dormia. Eu ouvia barulhos irreconhecíveis, imaginava ser efeitos colaterais da viagem que percorri por instinto de volta à vida. “Será que tenho alma?”. Os barulhos me irritaram tanto que tive que ir procurar o que diabos causava aquilo. Neste ponto, estão certos sobre nós: gostamos de sossego e ambientes aconchegantes. 

Não me lembro qual caminho segui, mas cheguei ao lugar que havia selado — ao menos temporariamente — meu destino. Engraçado a forma alucinada com que desenvolvo minha habilidade de comunicação, deve ser influência de todas as lorotas que ouvi durante minha vida. “Será que agora sou imortal?”. Não sei se quero descobrir, talvez eu tenha de fato sete vidas e já gastei uma... Mas não pretendo decifrar tais segredos tão cedo. 

O barulho aumentou. Um som de ferragens, acompanhado de uma claridade anormal para o período noturno. Quando olhei para o alto fitei duas bolas de fogo e, de alguma forma, já naquele momento tive a certeza de que me olhavam de volta... Ouvi sussurros lamuriosos, ou assim eu pensei. Essa parte ainda é turva para mim. 

Descobri que tenho conexão com seres de outras dimensões. Conheci meu antepassado. Ele é o passado, o presente, o futuro e tudo o que há entre eles. Seu corpo colossal é um monumento de eras fundidas: engrenagens ancestrais e circuitos modernos pulsando em um coração preenchido do éter puro.   

Seus olhos — ou o que se pode chamar de olhos — são como dois sóis ardentes, esferas de plasma incandescente, irradiando calor e segredos que poderiam queimar a própria realidade. Fulguram como brasas eternas, com filamentos de fogo líquido que giram como tempestades solares.   

A armadura que cobre seu corpo é um mosaico de eras e estilos: peças de ferro entrelaçadas com filetes de ouro, que brilham como astros em um céu simétrico, mecânico. Tubos de vidro transpassam seus membros, conduzindo um éter luminescente que serpenteia como relâmpagos aprisionados. Do interior de suas articulações saem estalos de vapor e silvos de válvulas, como se o próprio tempo fosse seu combustível. Os barulhos que eu ouvi provinham dessas válvulas e das enormes engrenagens que simulavam uma rótula de joelhos humanos. 

Das costas de Listheron — Sim, este é seu nome —, também saem engrenagens, como asas mecânicas que giram lentamente, produzindo um som profundo, semelhante ao eco de um relógio marcando o fim e o recomeço de todas as coisas.  

Em sua presença, o espaço vibrava e o ar se preenchia com o aroma metálico do ferro queimado e da eletricidade que percorria seus dutos-veias.   

Sua voz é tal qual um trovão filtrado por alto-falantes, misturando chiados, estalos e profecias. Suas palavras são códigos, fórmulas e segredos do universo, compreendidas apenas pelos que atravessam as brumas entre ciência e magia.   

Listheron é o guardião dos ciclos cósmicos — o eterno tic-tac entre criação e colapso. Buscá-lo é arriscar-se a ser desintegrado por seus sóis flamejantes... ou ser reconstruído, peça por peça, com engrenagens feitas de estrelas e alma. 

É... parece que as minhas habilidades estão evoluindo, não imaginava ser capaz de descrever a beleza daquele ser ancestral. 

Ainda não sei se tenho alma, mas Listheron me disse que isso era irrelevante e que eu poderia experimentar coisas inimagináveis se eu aceitasse a minha forma verdadeira, assim como ele o fez. O tempo atual seria dobrado como um lençol recém passado e todos iriam sumir feito poeira da estrada.  

O convite era tentador, mas eu tinha alguém para proteger... Não podia fazer isso com ela, que deu seu sangue por mim... Sei que ela não sobreviveria com essa perda. 

No instante em que recusei, meu ancestral se dissolveu no ar, tão enigmático quanto havia surgido. Mas não houve hesitação em meu coração — eu sabia que minha escolha era a correta. 

Então, ouvi uma voz trêmula, desesperada, rasgando o silêncio: 

“Lisa! Lisa!” 

Sem pensar, sem olhar para trás, corri. Corri para os braços da Alana, para o lar que escolhi. 

PS: Imagino que estejam curiosos sobre quem escreveu esse relato. Se eu aprendi a falar, por que não poderia datilografar? Ah, ainda ouço o chamado, mas ainda não é o momento de partir... 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Capítulo 5: Renascimento

O desassossego noturno retornou para açoitar-me. Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

5º relato

O desassossego noturno retornou para açoitar-me.

Inicio meu relato desculpando-me pelos prováveis lapsos de memórias e confusões textuais, pois esse texto reflete meu estado de espírito perturbado — o registro começou minutos após os eventos.

Eu, notívaga inata e teimosa em semelhante proporção, insistia em lutar contra a minha natureza. Contudo, compreendi que a noite não me trará descanso, mas poderá ser aliada nas minhas aventuras por lugares desconhecidos, internos ou externos a mim.

Contarei sobre um evento terrível e curioso, onde tive que enfrentar os limites da realidade. Novidade! Escavei coragem de um solo árido, até então, nunca regado por mim.

***

Algumas horas antes

Os sonhos arrastavam e sugavam-me para um oceano revolto por correntezas perfurantes. O despertar foi acompanhado de um grito. Gélido ar aspergia lâminas que perfuravam minha pele desnuda, mas as janelas estavam, hermeticamente, fechadas. De onde provinham?

Gritei por Lisa. Nada. Onde ela estava? Já prevendo outra incursão pelos recônditos do Castelo à procura da gata que tinha paixão por entrar em enrascadas, apoiei meu pé direito para levantar-me e o chão quase me paralisou, tamanha frieza com que me recebera.

Estranho. Não lembro de ter presenciado frio tão intenso desde que chegara aqui, mas imaginei ser normal. O chão estava coberto com uma textura peculiar. Ao passar suavemente o pé naquela superfície, ouvi um farfalhar, algo macio, gelado... Neve! O assoalho era um campo nevado!

Não confiei estritamente no tato, meus sentidos estavam diferentes. Não era? NÃO ERA?! Poderia confiar nos meus olhos? Acendi o abajur e a luz iluminava o tapete de gelo, entretanto, permanecia não acreditando no que estava vendo, sentindo.

Estabilizei meus pensamentos. Óbvio que eventos bizarros acontecem no Castelo, por que eu estou surpresa? Vesti um casaco longo de lã em tom de caramelo e uma calça preta justa em um tecido quente e escuro; para aquecer o pescoço, enrolei um lindo cachecol xadrez macio e completei o look calçando as botas de couro preto de cano alto. A quem pertencia aquelas roupas? Saí do quarto e embrenhei-me pelo corredor, cujo chão também estava revestido de neve límpida.

Enquanto percorria os imensos corredores do Castelo, recordava o último encontro com o Drácula: o momento que estava diante das três portas, que ele havia me ofertado, mas nas quais não adentrei. Será que ele havia ficado chateado com a minha rejeição? O que ele poderia fazer com Lisa? Vampiros podem alimentar-se do sangue de animais? Afastei o último pensamento, bobagem pensar que a criatura elegante poderia agir de forma tão vil.

Afligida pela dúvida, segui em direção àquele salão. Tudo estava diferente. Não era mais um salão de festas suntuoso, adornado de luxos e enfeites dourados. Diante da frustração de não encontrar a minha Lisa, nem as portas ou o Drácula, fechei os olhos e, ao abri-los, percebi estar na área externa do Castelo, no jardim!

Guiada pela maldita curiosidade, vasculhei ao redor. O luar iluminava a vegetação esverdeada, sem vestígios de que ali houvera caído neve. Passei pela estradinha com pedras âmbar, a mesma que havia utilizado quando cheguei aqui, mas agora descendo em direção ao portão principal. A temperatura estava amena e senti tanto calor que retirei o casaco e o cachecol.

A caminhada seguia perturbada por pensamentos terríveis, cuja racionalidade insistia em questionar o porquê daquelas alterações bruscas de temperatura e condições climáticas. Calei essa voz que gritava por explicações, pois este local não segue leis e princípios conhecidos.

Cheguei ao portal. Suas folhas eram como espelhos retangulares preenchidos por uma substância semelhante à névoa negra, pulsava e parecia ferver. Aproximei-me, sussurros incompreensíveis me instigaram a tocar na cascata nebulosa. Deveria? Óbvio que não! Mas eu me permiti ir além.

A névoa envolveu-me por completo, preencheu cada centímetro do meu rosto, cabelo, membros e tronco, e sentia-me levitar. Meu corpo, tomado por aquela força ficou em posição horizontal, flutuando. Primeiro foi a minha cabeça que passou por um dos retângulos-folha. Ao longe avistei uma criatura horrível, sem olhos, pele translúcida e com tantos dentes pequenos e afiados que mal podia contá-los.

Sustentada pelo medo-força atravessei, sem de fato mover nenhum músculo, o limiar que separava o Castelo do “Nenomium”, um lugar onde coisas ainda mais impossíveis poderiam acontecer. Amaldiçoei, novamente, a minha curiosidade!

Terminada a transição, percebi que a única coisa que me pertencia era o amálgama de sentimentos, mas agradeci por não ter largado o casaco e o cachecol, pois do outro lado estava deveras frio.

A criatura horrível permanecia inerte, mas sorria de forma a gerar um insensato desconforto, e em fração de segundos, devido sua agilidade excessiva, locomoveu-se e parou frente a mim. O fato de não conseguir sondar seus olhos inexistentes aumentou meu receio.

Agarrou-me pelo pescoço com tanta brutalidade que pensei ser o meu fim. Foi quando ela apareceu, alta, esguia e coberta com longo manto negro, que conferia-lhe um aspecto misterioso, imponente. Uma mulher, acompanhada de dezenas de cabras negras, surgida do além para livrar-me das garras da criatura sem olhos. Com voz firme ordenou para que ele me soltasse. E tal como um servo fiel e obediente abriu de imediato as mãos constituídas de dedos compridos e pele descamadas. Fui ao chão.

Havia sido por pouco. Ao contrário do que costumam dizer, talvez como forma de romantizar a partida, o desespero causado pela aproximação da morte não te faz recordar nada, eu lutava tanto pela minha vida que não tinha tempo hábil para pensar nas coisas passadas. Arrependimentos não foram companheiros.

Recobrei o ar e o pouco de dignidade que ainda me restava. Em todo momento a mulher permaneceu quieta, observando-me. Quando consegui reconstruir a minha eu interior, perguntei seu nome e recebi um silêncio constrangedor como resposta. Teci mais algumas perguntas, as quais nenhuma resposta recebia. Perguntei por Lisa, e ela apontou para o portal, entendi que ela estava no Castelo. Quase morri por uma missão inútil!

Agora, pensando com calma, pergunto-me se eu realmente iria morrer. Tudo aqui é fantástico, não seria a morte uma possibilidade de viver outras vidas, um renascimento carnal e espiritual? Por que eu ainda tenho medo?

Voltemos ao relato. Explicou-me o que era o “Nenomium”. Por fim, disse-me que eu tinha duas opções: ficar naquele local e descobrir verdades almejadas ou voltar para o Castelo e para Lisa. Eu estava realmente preparada para enfrentar situações adversas e desconhecidas? Não! Eu não estava pronta, e não ignorei os meus instintos de sobrevivência, aquela noite já havia me proporcionado emoções intensas e meu pescoço ainda doía. Levantei-me e segui com passos firmes em direção ao portal para retornar ao Castelo. No entanto, ao recordar-me de me despedir, virei-me, mas a mulher misteriosa já não estava lá. Um calafrio percorreu minha espinha e então corri. Não podia depender da sorte novamente: encontrar outra vez aquela criatura voraz não era algo que eu pretendia arriscar.

Do outro lado, de fato, encontrei Lisa. Jazia em frente à porta principal. Seu corpinho estava retorcido, aproximei-me e vi o fio vermelho da vida escorrendo de sua boca. Quem a machucou? Aquela maldita criatura?

Gritei por ajuda. Após muitos gritos e lamentos, Drácula veio ao meu encontro. O rosto impassível emoldurava um sorriso aterrador, imaginei que por culpa e o impedi de se aproximar. Ele ficou me olhando, sem mover um músculo, como que a contemplar meu sofrimento. Esperou eu ficar mais calma e então disse que meu sangue poderia curá-la. À princípio, hesitei, isso era absurdo! Depois refleti:

Que mal poderia fazer? O sangue poderia sim ser a corda com a qual eu a salvaria do abismo que sugara sua frágil vida...

 Procurei por um material pontiagudo nos meus bolsos, e é claro que não encontrei nada. Aquelas roupas nem eram minhas! Drácula fitava-me com um olhar que agora entendi ser de compaixão. Na incerteza da sua culpa, cedi. Aceitei os dentes dele cravados em meu pulso, uma leve fisgada seguida de um frenesi instantâneo e indescritível. Não era prazer, orgasmo ou euforia, mas ao mesmo tempo era tudo isso.

Eu o deixaria sugar toda a minha energia, a sensação de não sentir dor, agonia ou tristeza mantinha-me em posição servil, silente. Mas ele cumpriu o combinado, parou o ritual a tempo. O braço perfurado liberou o líquido, o elixir salvador foi vertido na boca da indefesa Lisa. Ela, como quem desperta de um sonho profundo, abriu os olhinhos brilhantes como um céu estrelado. Aproximou-se de mim, delicada, esfregando-se em meu peito, como se pudesse sussurrar um agradecimento mudo pelo sacrifício. Eu chorava e sorria, um turbilhão de emoções dançava em meu ser, enquanto meus olhos buscavam os dele — Drácula!

O que ele fez comigo? Seus olhos, um enigma sombrio, carregavam segredos que eu não podia decifrar, mas havia algo diferente, algo que atravessava o silêncio entre nós. Um laço invisível, inquebrável, parecia nascer ali, conectando-nos de forma mais profunda do que jamais imaginei. Éramos agora partes de um mesmo destino, entrelaçados pela eternidade.

E Lisa, como um raio de sol após a tempestade, está linda e melhor do que nunca.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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Capítulo 4: Da selva de pedras e espectros do passado

Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

4º relato 

“Nascida na selva de pedra, 
poluição e concreto, vis companhias, 
na prisão onde a alma se quebra, 
vivo e morro em rígidas galerias.” 

Tinha o costume de escrever essas palavras em alguma superfície e, provavelmente, as eternizei na parede do banheiro daquele Pub que já mencionei, o local que era a extensão do que eu sentia, vivia. Era uma criatura da cidade, nasci em meio à cacofonia de ruas lotadas de pessoas que se embarravam, e não se conheciam. Era mais uma na multidão, minhas questões só importavam para mim. Grandes poetas exaltavam a natureza, por suas belezas e capacidade de recomeçar, respeitando os ciclos e estações — em contraste com a nossa existência caótica e perturbada. Não ouso dizer que eles não tiveram suas dificuldades, mas para mim é extremamente difícil falar sobre essas belezas e sobre os sentimentos bonitinhos. Eu somente salvo a mim quando mergulho nas águas turvas e inóspitas das palavras brutas e sentimentos controversos. 

A atmosfera lúgubre do Castelo aflora esses sentimentos, mas não estou infeliz. Sinto-me cada vez mais impulsionada a criar. As palavras escorrem das minhas mãos e encontram abrigo no papel límpido, agora desvirtuado pela tinta magenta ou negra. Na tela, fenômenos semelhantes ocorrem, e as pinceladas dançam na superfície como se fossemos a completude um do outro. 

Após horas de criações, muitas das quais foram descartadas, pois estou cada vez mais exigente — o tempo me é amigo, e eu posso me dar ao luxo de recriar sem me preocupar com prazos ou com pagamentos batendo à porta. 

*** 

Não sei precisar se estava acordada ou dormindo, mas sentia-me num estado de semiconsciência, como se houvesse ingerido alguma substância alucinógena (O que será que Ameritt colocou naquele chá que trouxera para mim?), mas percebi estar a contemplar a minha última obra: era o infinito, o fundo negro com degradê de tons diferentes do negro mais brilhante que já pude ver em uma tinta. As estrelas brilhavam, causando impressão de estarem se mexendo e pulsando no ritmo das batidas do meu coração. As luzes-estrelas se aproximavam e cresciam de tamanho, estavam em velocidades distintas, cada uma seguindo o ritmo autoimposto. 

Não conseguia parar de fitar aqueles belos pontos brancos brilhantes. Minha visão não ficou totalmente enuviada, mas ao passar os olhos por cada uma delas sentia um leve desconforto, semelhante ao que se sente em uma montanha russa: um incômodo que você não recusa, pois diverte, e aceita todas as vezes que lhe oferecem. 

Fiquei naquela posição por um tempo que não soube determinar. As luzes perfuraram o limiar infinito-tela e romperam a barreira da realidade: as luzes projetaram-se para fora, como hologramas e tornaram-se espectros das pessoas do meu passado, justamente aquelas que não queria encontrar novamente. Gritei. Virei-me para sair do quarto, não podia permanecer naquele local com aqueles execráveis. 

— Siga-me — disse Meia-noite. 

— Você novamente... então estou sonhando? 

— Vamos! 

Eu o acompanhei, não me importava para onde ele iria me levar dessa vez, mas qualquer lugar seria menos aterrorizante do que permanecer ali, com eles. 

Corríamos por caminhos e corredores, novamente, nunca percorridos anteriormente por mim. Os corredores eram iluminados por luzes violetas, cujo reflexos nas paredes pareciam recriar seres etéreos, ora divinos, ora fantasmagóricos. Será que novamente eu seria obrigada a entrar naquela banheira? 

Parei. Exigi que Meia-noite me dissesse para onde iríamos. 

— Não, eu não a levarei novamente para a banheira. Mas você precisa enfrentar seus demônios, senão ficará sendo constantemente assombrada por eles. 

— Não há alguma forma de esquecer tudo isso? Eu não aguento mais! 

— Há uma forma, mas você estará disposta a entregar-se? 

— Eu não sei, depende do que me será exigido... 

— Você irá descobrir... 

Um frio gélido lambeu minha espinha. Meia-noite esboçou um sorriso enigmático, mas que me assombrou. Continuamos seguindo um destino incerto para mim, mas agora andávamos calmamente. Aos poucos as luzes do ambiente foram transmutando-se de violeta para leves tons de escarlate. Ouvia sussurros entrecortados e sôfregos concediam ao local aspecto dantesco. 

Chegamos a um salão amplo. Os lustres transbordavam luzes vermelhas. Havia estantes recheadas de livros clássicos, com capas vermelhas, verdes e azuis belíssimas e estilizadas com letras douradas, que reluziam como se feitas de ouro (e provavelmente eram, pois o luxo não era problema naquele Castelo). Os vastos móveis, mesas, armários e cristaleiras eram adornados de objetos metálicos de prata e ouro envelhecido, cujos reflexos enuviavam minha visão. As poltronas e cortinas eram de veludo vermelho, similar as que tinham no meu quarto. Enquanto observava maravilhada cada detalhe, nos móveis, teto e paredes, percebi que ao fundo havia quatro portas, e Meia-noite, antevendo a minha pergunta, começou a proferir: 

— Atrás de cada porta haverá um acontecimento de sua vida, uma violência que foi causada por um daqueles que estiveram em seu quarto. Você poderá interferir, poderá eliminá-lo da forma que quiser. Mas saiba que qualquer alteração do seu passado irá reverberar no presente: Novas versões suas serão criadas. A sua versão atual será a principal e continuará aqui no Castelo, em segurança, mas não terá consciência das outras, elas também não saberão sobre você. Elas terão novos destinos, outras pessoas irão cruzar os caminhos delas. Elas poderão passar por situações muito piores que as suas, mas você irá se livrar das suas dores, pois todas as memórias tristes que envolviam o eliminado serão apagadas, como se nunca tivessem ocorrido. 

— Todas? 

— Sim, todas. Mas as suas outras versões poderão continuar o tormento... 

Eu nunca me considerei uma pessoa altruísta. Não fazia trabalho voluntário ou doações, não porque não considerava importante, mas porque gastava meu tempo tentando sobreviver na selva de pedras e, sendo sincera, não queria me esforçar para deixar os outros bem. Mas eu nunca fiz o mal para os outros de forma deliberada. A ideia de condenar outra pessoa — ainda que versões de mim — à uma vida miserável me incomodou extremamente. 

Quando virei para falar para Meia-noite que iria recusar a tal proposta, deparei-me com uma figura enigmática. Esse Castelo ainda me deixará entregue à loucura!  

Permaneci inerte enquanto fitava-o, e ele retribuía minha hesitação com um olhar cortante. Era alto, belo e trazia sobre os ombros uma capa negra com finos entalhes dourados, conferindo-lhe um ar altivo. Alguém que já havia encontrado anteriormente. 

— Drácula? — Perguntei com voz quase inaudível. 

— Sim... Fiquei intrigado com a vossa escolha. Faz eras que não cruzo o caminho de um mortal cujo coração, embora puro, pulsa dissabores e destila amargura. 

— Eu não tenho o coração puro... 

— Quero lhe mostrar algo... — disse ele, com o olhar sombrio e hipnotizante, enquanto apontava para uma estreita passagem entre as estantes, onde antes havia quatro portas, agora desaparecidas. 

— Eu não sei se quero entrar... 

— Compreendo... Passastes por experiências incompreensíveis neste Castelo, e é natural que as descobertas lhe causem inquietações. Deves adentrar a passagem por tua própria vontade. Aguardarei a tua vinda... Venha quando estiveres preparada. 

E, sem aguardar minha resposta, envolveu o rosto com a longa capa e desvaneceu no ar, como se atravessasse um portal oculto para as sombras. 

Quais descobertas me aguardam através da passagem? O que Drácula reserva para mim? Espero em breve descobrir. 

Texto publicado na Edição 12 da Revista Castelo Drácula. Datado de janeiro de 2025. Ler edição completa

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Capítulo 3: Tratamento onírico

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Meu quarto é imenso. Tudo no castelo é de bom gosto, com estilo refinado e ares vitorianos, como se estivéssemos dentro de um set de filmagem de algum filme passado no século XIX. Ainda tenho sentimentos conflitantes com relação a isso, pois sempre fui uma criatura que apreciava o novo e moderno (ah, como sinto falta da internet), mas sabia contemplar a beleza das construções e mobílias clássicas. 

Há quatro janelas esguias, adornadas com cortinas de veludo vermelho, com os famosos penduricalhos dourados nas extremidades. A poltrona fora confeccionada com o mesmo tecido e estilo, e por vezes, ria-me imaginando ver algum aristocrata impotente sentado ali. 

A cama é de madeira robusta, com entalhes perfeitos e possui quatro pilares, que sustentam o voil branco. Acho desnecessário todo esse luxo exacerbado, mas reconheço que é extremamente belo. Ao deitar-me na cama, o colchão parece dar um terno abraço materno, e sinto esvair toda a sensação de desconforto, se é que ainda restava alguma. 

*** 

Acordei com a Lisa miando com uma urgência que me preocupou. Levantei-me para pegá-la, e ela correu em direção à porta e parou, como se esperasse que eu a abrisse. Abri. Continuou miando, andando e parando, exigindo de mim uma agilidade impossível. 

Transparecia uma feição diferente, densa, como se não tivesse tempo para mais nada e somente precisasse me conduzir a algum lugar. 

A escuridão impregnava as superfícies e conferia ao Castelo um aspecto ainda mais sombrio e enigmático, e em dado momento, quando ela virou-se para mim, avistei duas luzes violetas no lugar onde seriam seus olhos. "Ah Lisa, vamos voltar para cama, estou tão exausta que já estou vendo coisas", mas ela continuava irredutível em sua missão autoimposta. 

Ainda não conhecia (e não conheço) os pormenores do Castelo. Existem várias portas, corredores e ambientes, e eu, que nunca tive boa percepção espacial, via-me cada vez mais perdida. Mas ela sabia exatamente onde estávamos e para onde íamos. Parou em frente a uma porta, e entendi que era o nosso destino. Bati, perguntando se havia alguém ali dentro e recebi o silêncio como resposta. 

Girei lentamente a maçaneta, ainda preocupada de estar invadindo a privacidade de alguém. Era um banheiro. Amplo e claro demais, não combinava com os demais locais que havíamos percorrido até chegarmos ali. Contudo, entrei. 

— Você quer fazer suas necessidades, não é?! — Falei em tom de brincadeira e para minha surpresa ela respondeu. 

Estremeci. Estava delirando ou minha gata falou comigo? 

Olhei espantada para ela, que sorriu estranhamente em retribuição. Soltei um grito, mas devido às proporções exageradas daquele lugar, creio que ninguém me ouviu. Seus olhos brilhavam em intenso neon arroxeado. Sim, os olhos dela estavam roxos! 

Tentei afastar-me, mas ela cresceu até que ficou do tamanho de uma pantera negra, com seus olhos lilás ofuscando minha visão e impedindo-me de sair daquela situação. 

— Lisa, o que está acontecendo? 

— Não sou Lisa, meu nome é Meia-noite. Venho oferecer-lhe uma chance para recobrar fatos passados, os quais reprimiu para sua segurança. Permita-me conduzi-la para os braços de Uor, será fisicamente indolor, mas precisas confiar em meus métodos, só assim ficarás plenamente curada. 

— Isso só pode ser brincadeira, esse lugar é estranho, deve estar mexendo com os meus sentidos... Obrigada, mas não! 

E Meia-noite não proferiu mais nenhuma palavra. A intensidade com que as luzes-olhos brilharam foi o suficiente para hipnotizar-me. Calei. A comunicação entre nós, a partir daquele momento, tornou-se telepática. Recebi a sugestão para que eu adentrasse nas águas cor de lavanda da banheira. Ao mergulhar, pude recuperar as memórias perdidas nos recônditos do meu interior. Chorei. Recuperei memórias dos traumas, perdas e dores responsáveis pela dilaceração da minha alma, a sublimação estava em curso. Mesmo inconsciente, resistia, e Meia-noite fazia um esforço hercúleo para manter-me dentro da banheira. 

Da cura vem a cicatriz. Com tanta força envolvida, outra criatura surgiu, farejando o meu medo e a minha autodepreciação. Meia-noite não conseguiu impedi-lo de me sufocar, estava sendo pressionada para dentro das águas por uma entidade feroz, envolta em névoa negra e perturbadora. Sua mandíbula, constituída de dentes protuberantes e afiados, era assustadora. Suas garras apertavam meu pescoço e eu quase sucumbi. As águas ficaram cada vez mais escuras, o que era inicialmente cor de lavanda tornava-se púrpura. Gritar não era possível, visto que estava dentro daquelas águas, sufocando. Sentia-me perdendo as forças... Finalmente algo me puxou para fora. Pensei que fosse o Meia-noite. 

Quando recobrei a consciência, percebi que ele, Lisa e uma outra gata, estilo persa, com olhos e pelos lilases, olhavam-me assustados: 

— Bem-vinda de volta, Alana. Meu nome é Sinen. Trazes muita tristeza dentro de ti. Ainda há recordações que te ferem, mas seria perigoso continuar. — A gata lilás falou e sua voz parecia uma canção antiga, um alívio após o caos que acabara de experienciar. 

Meia-noite meneava a cabeça, em sinal de concordância. Com o corpo dolorido e a mente a mil, por algum motivo, estava feliz, mesmo após àquela experiência de quase morte. Lisa aproximou-se gentilmente e disse: 

— Acorda! 

Acordei com os miados urgentes de Lisa ecoando pelo quarto. Meu corpo doía e latejava, a mente confusa no limiar do sonho e da realidade. No entanto, ainda carrego as marcas no meu pescoço — vestígios daquele tratamento onírico —, e sempre me pergunto quando Meia-noite irá retornar... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 2: Do outro lado da tela

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Não era adepta de diários. Em minha vida pregressa, o papel era o receptáculo subserviente que recebia todas as minhas frustrações. Talvez, esse seja um dos propósitos para escrever, obter alívio em meio a tanta pressão

Todavia, desde que cheguei ao Castelo Drácula sinto necessidade de escrever os pormenores dos acontecimentos ao meu redor; as pessoas e suas interações despertaram-me um interesse que outrora nunca conheci. Os acontecimentos cotidianos tornaram-se mais atrativos e minha curiosidade por entendimento, sobre o que seria esse lugar misterioso, aumentava ainda mais o hábito da escrita. 

Em meu último relato, contei como Espectumbral apresentou-se a mim e, provavelmente, estejam curiosos por saber o que aconteceu depois desse encontro pictórico e envolvente. Quais mistérios me aguardavam além-mundo? 

Do outro lado da tela não havia um caminho de ladrilhos dourados, nem fora culpa de um tornado eu estar ali. De certo modo, eu escolhi adentrar ao portal, e essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Entretanto, naquele momento inicial, eu nada sabia e o medo do desconhecido sufocava-me. 

A confusão sinestésica, causada por odores e ruídos nunca experimentados (uma viagem tridimensional?), atrapalhava meus pensamentos. Em meus ouvidos zumbidos extrassensoriais incomodavam, parecia que milhares de abelhas faziam meu frágil corpo de morada. “Tais confusões seriam ainda os efeitos do líquido etílico que havia ingerido no pub?”. Por fim, afastei tais elucubrações e aos poucos fui conseguindo ver com mais clareza o local. 

Era uma floresta. A névoa bruxuleante transformava as árvores esguias em figuras espectrais, e as bétulas brancas pareciam dançar com movimento sutil, como se estivessem saudando a nova habitante. A atmosfera era densa, invadia os recônditos do meu ser, e eu, incauta, prosseguia a trilha adornada de pedras âmbar. Lisa, a minha gatinha preta, quase me derrubou novamente, abaixei-me e a peguei em meus braços, sua pelagem negra e macia reconfortava-me. 

Olhei para o alto e avistei o suntuoso Castelo Drácula, envolto em tão atraente magia. Os sussurros, que provinham das árvores, diziam-me que aquele era o meu lugar. Não mais hesitaria, continuaria a percorrer a trilha até me visse protegida pelos seus muros altos e fortificados. 

Caminhei até chegar ao portal imponente, o ferro envelhecido conferia-lhe um charme que somente artefatos históricos poderiam ter. Tentei empurrá-lo, mas a folha de metal pesada não se moveu nem um milímetro. “Como vou entrar?”. 

Procurei por algo que pudesse me ajudar. Notei que nos batentes tinham palavras insculpidas em letras cursivas, e enquanto as proferia, gradativamente, um ranger de dobradiças não lubrificadas foram surgindo. Os portais abriram-se totalmente quando terminei de ler a derradeira palavra. Meu mantra desde então: 

Chegastes aos portais selados,
Adentrai e deixai vosso júbilo luzir.
Há segredos aqui guardados,
E a cada passo irás descobrir
 

A atmosfera fez-se onírica, abraçava-me concedendo uma paz idílica. O ar não mais pesava sob meus ombros, e uma leve brisa parecia acariciar meu rosto. Percorri por uma trilha adornada de flores, das mais variadas espécies, as quais não ouso tentar mencionar os nomes, já que não era tão apegada às questões da natureza (certos hábitos precisam ser trabalhados e lapidados, apreciar as belezas requer tempo e disciplina)

Enquanto andava calma e silente, olhei para as portas principais do Castelo e avistei a criatura soturna, um feixe de luz iluminou a sua pele pálida e fria. 

O Conde Drácula é um homem de beleza singular e etérea, carregando um ar de melancolia que o torna ainda mais enigmático. Seus olhos, escuros e profundos, parecem revelar fragmentos de uma alma que já conheceu amor e alegria, mas que agora está perdida em uma eternidade solitária. A pele é quase translúcida, marcada pelo tempo e pela dor, como uma porcelana antiga, e ele se move com uma graça contida, como se o peso das eras tivesse suavizado sua força. 

Suas roupas são finas e elegantes, mas sutilmente gastas, como vestígios de uma grandeza passada. A voz é suave e baixa, carregada de um lamento sutil, e as palavras, embora persuasivas, revelam uma profunda saudade e uma dor antiga (será um amor platônico ou o peso da vida?). A presença de Drácula parece mais como uma sombra ou uma memória há tempos suprimida — uma figura que já foi poderosa e temida, mas que agora é, paradoxalmente, vulnerável e distante, como um eco de uma vida outrora intensa e cheia de luz. 

Ele não era nada do que eu imaginava. Quais mitos serão desfeitos a partir de então? Terás que ler os próximos relatos... 

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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Capítulo 1: Uma criatura disforme

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia….

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Violentei a tela alva com fortes estocadas do pincel. A intenção era descarregar todas as amarguras que insistiam em me assolar naquele dia. A memória, tal qual um inquisidor implacável, empurrava-me contra os pregos da dama de ferro que eram os meus traumas, num abraço frio e mortal, enclausurando-me dentro de mim. “Deveria eu continuar lidando com essa tortura?”

Parei. Nada de útil surgiria daquele amálgama disforme e colorido. Frustração. Também não conseguira escrever nada naquele último mês: “Ah, quão maldito é o trabalho que exige criatividade extrema, por que raios me enfio nessas empreitadas?”, flagelava-me quando não tentava, castigava-me quando pensava em desistir. Minha vida era essa constante luta interna do eu contra mim.

Enquanto saía do meu ateliê, Lisa, minha gatinha preta e carente, esfregava-se em meio às minhas pernas, ronronando e derretendo as geleiras que esmagavam meu coração. Lembro-me que perdi o equilíbrio e quase fui ao chão.

— Ah Lisa, para com isso. — disse-lhe, mas só para reforçar a minha necessidade por reclamar. Agradeço por ela ser teimosa e determinada, porquanto nunca irá parar. Sim, ela está aqui comigo. O Castelo Drácula abriga todo tipo de criatura, por que não uma gata?

Um banho. As águas calorosas tinham propriedades curativas, o vapor, poder de reorganizar e remontar minha psiquê, deixando-me próximo a um ser humano que não havia sido quebrado.

Com um mínimo de bom humor restabelecido, resolvi ir ao pub, uns goles do amargo gin afogariam os sentimentos claustrofóbicos. Ah, as propriedades lisérgicas das bebidas etílicas!

Eu adorava aquele local. Tinha uma fachada discreta e paredes de tijolos escuros, o típico lugar onde um desavisado não entraria, pois não parecia ser um bar. Essa sensação de entrar em algo secreto e exclusivo me apetecia. Viva a curiosidade. Lá dentro, as luzes baixas, emulavam a ideia de um sonho sombrio, atmosférico e intimista, onde cada canto parecia envolto em uma penumbra vermelha, verde e roxa, realçada por velas e luzes de néon.

Os bancos eram de couro preto, ligeiramente rasgados pelo tempo e uso, mas ao aconchegar-me ali sentia que o mundo parava ao meu redor. Nas paredes, pôsteres de bandas lendárias como Black Sabbath, Iron Maiden e Slayer se misturavam a quadros de arte sombria e psicodélica, muitos criados por artistas locais, inclusive por mim. Ah, como almejava resgatar os tempos áureos, onde minha inspiração quase não me cabia.

Uma jukebox tocava uma seleção pesada e interessante, variando entre black metal, doom metal, sludge metal e alguns clássicos do heavy metal, que faziam todos cantarem juntos. Às vezes, bandas ao vivo tocavam em um pequeno palco no fundo, iluminado por luzes vermelhas e verdes, com espaço suficiente para àqueles que queriam aproveitar o som e aquela atmosfera inebriante.

No balcão, as bebidas eram diversas: cervejas artesanais escuras, drinks com nomes inspirados em mitologia nórdica e shots que queimavam a garganta. As prateleiras atrás do bar exibiam garrafas de rum, whisky e absinto. Quantas vezes saí de lá arrastando-me, mas nunca carregada, encontrava forças que nem sabia existir para manter a minha suposta dignidade.

No banheiro, as paredes eram cobertas de grafites e adesivos de bandas, como se cada pessoa que tivesse passado por ali tivesse deixado sua marca. Era um espaço onde todos eram livres para ser quem eram, cercados pela energia sombria e autêntica do metal e do álcool. Sinto saudades desses momentos.

Bebi. Já que as águas anteriores não quiseram lavar minhas dores, eu as sufocaria com os líquidos, música e tola autocomiseração. Não me recordo do nome da banda que tocava naquela noite, mas ainda guardo a boa sensação despertada a cada acorde, os meus pesares sendo levados a cada gutural ostensivo do frontman.

Retornei para casa em estado de evidente embriaguez, mas sentia-me quase levitar sob o céu que eu mesma concebi. Meu lar recebeu-me com silente afago, e eu me rendi ao seu cálido abraço. Transcorrido um tempo que não mensurei, de repente, senti correr em minhas veias a vitalidade de uma artista em ascensão, poderosa – como se uma entidade houvesse adentrado e possuído meu corpo.

Corri para o ateliê, dentro das possibilidades de locomoção que aquele estado me permitia, mas corri, como se minha vida dependesse daquele ato sem propósito. O que avistei fez-me questionar minha frágil sanidade, entretanto, sua presença imagética imobilizou-me.

À meia-luz, um movimento sutil tomou forma na tela. O contorno difuso se agitou, e uma figura começou a emergir, como se o quadro estivesse se dissolvendo em sombras. Lentamente, revelou-se — uma entidade envolta em um manto de trevas, os contornos do rosto delineados apenas por um brilho espectral. Seus olhos eram como fendas de névoa prateada que parecem absorver um pouco da luz da sala, hipnotizando-me. Estendeu uma mão fina e esquelética, atravessando os limites entre o quadro e o mundo real. Era meu chamado.

Com uma voz baixa e aveludada, que parecia ecoar em minha mente, convidou-me para morar no Castelo Drácula. As palavras pareciam feitiço. Um calafrio percorreu minha pele, mas não era medo — mas uma curiosidade irresistível, uma necessidade profunda e incontrolável de segui-lo. Sem hesitar, deixei-me guiar para dentro da tela, desaparecendo na escuridão que a envolvia. Lisa não se atreveria a me deixar só e saltou comigo rumo a um destino incerto.

Quem era, afinal, a tal criatura disforme, oriunda das pinceladas na tela profana, criadas em meio ao meu desvario? Hoje, pronuncio seu lindo nome sem medo, encontrei beleza no estranho e serenidade no desconhecido: Espectumbral.

Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa

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