Velian em Agonihria: Os Dentes do Abandono
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Velian retornara do Rio de Janeiro há algumas semanas.
O apartamento em Fortaleza permanecia exatamente como o deixara. O caixão oculto no cômodo escuro. As estantes repletas de livros antigos e modernos. As cortinas pesadas impedindo a entrada do sol nordestino. Nada havia mudado.
E, ainda assim, algo nele estava diferente.
Nas noites que se seguiram ao retorno, vagou pelas ruas da cidade sem propósito definido. Caminhava pela Beira-Mar observando as barracas que encerravam suas atividades, os pescadores preparando embarcações para a madrugada, os vendedores desmontando estruturas sob o vento constante que vinha do Atlântico. Fortaleza nunca dormia completamente; apenas diminuía o ritmo. Havia sempre alguém acordado, alguém amando, alguém brigando, alguém chorando.
Os humanos insistiam em existir com uma intensidade que o fascinava.
Séculos atrás, aquilo lhe parecera ridículo.
Décadas atrás, invejável.
Agora lhe parecia belo.
Talvez porque finalmente compreendesse que a fragilidade era parte daquilo que tornava cada momento significativo.
Ou talvez estivesse apenas envelhecendo.
Sorriu diante da própria conclusão.
— Um vampiro envelhecendo. Que piada de mau gosto.
Continuou caminhando.
O vento espalhava o cheiro da maresia pelas avenidas. Ao longe, um pequeno bar ainda mantinha música acesa na madrugada. Vozes embriagadas misturavam-se ao som distante do mar. Velian observava tudo como quem contempla uma peça teatral conhecida.
Desde o encontro com Cassandra, algo permanecia inquieto em sua mente.
Não era saudade.
Jamais utilizaria uma palavra tão humana.
Mas a lembrança dela surgia ocasionalmente.
O sorriso irônico.
Os olhos vermelhos.
A maneira como debochava de suas perguntas.
A forma como parecia compreender a escuridão sem precisar interrogá-la constantemente.
Talvez fosse isso que mais o irritava.
Ou admirava.
Ainda não decidira.
Também pensava em Nix.
A Senhora da Noite não lhe concedera respostas. Pelo contrário. Desde aquele encontro, as perguntas haviam se multiplicado. Contudo, agora possuíam outra textura. Já não eram apenas feridas abertas buscando explicações. Tornaram-se caminhos.
Velian continuava sem compreender a existência.
Continuava sem compreender a eternidade.
Continuava sem compreender a si mesmo.
Mas passara a gostar da busca.
Aquilo era novo.
Durante muito tempo procurara respostas para preencher um vazio.
Agora buscava porque desejava conhecer.
Talvez houvesse diferença.
Talvez não.
As dúvidas permaneciam.
Como sempre.
A madrugada avançava lentamente quando o frio chegou.
Um frio impossível.
Não era o vento do oceano.
Nem uma mudança climática comum.
Era um frio antigo.
Sobrenatural.
O tipo de frio que atravessava carne, osso e memória.
Velian parou imediatamente.
Uma cinza negra caiu sobre seu ombro.
Depois outra.
E outra.
Levantou a mão.
Os fragmentos escuros pareciam pequenos pedaços de carvão reduzidos a pó. Possuíam um odor estranho. Não o cheiro comum da fumaça, mas algo semelhante a flores apodrecidas, madeira úmida e tecido guardado durante séculos.
Conhecia aquele sinal.
O Castelo Drácula estava chamando.
Porém havia algo diferente.
Normalmente o chamado possuía um aspecto quase curioso, como uma porta se abrindo para mais um mistério.
Desta vez parecia um pedido de socorro.
Ou um aviso.
As sombras começaram a reunir-se diante dele.
As luzes da avenida tornaram-se distantes.
Os sons da cidade enfraqueceram.
Até mesmo o mar pareceu recuar.
Velian suspirou.
— Espero sinceramente que desta vez ninguém tente me ensinar outra metáfora sobre a existência.
As sombras abriram-se.
E ele atravessou.
O impacto foi imediato.
Agonihria.
O nome surgiu em sua mente como uma lembrança esquecida.
Cinzas negras caíam continuamente do céu.
Uma névoa púrpura espalhava-se entre as torres do Castelo Drácula como um organismo vivo.
O ar possuía cheiro de decomposição.
Não a decomposição comum da carne.
Mas algo mais antigo.
O odor de memórias esquecidas.
De sonhos abandonados.
De promessas que jamais foram cumpridas.
O Castelo parecia diferente.
Mais alto.
Mais vasto.
Como se tivesse envelhecido milhares de anos desde a última visita.
As muralhas estavam parcialmente cobertas por musgos escuros. Rochas pontiagudas emergiam dos jardins. Pinheiros negros curvavam-se sob o peso das cinzas.
E havia silêncio.
Um silêncio tão profundo que parecia observar.
Velian avançou pelos corredores.
As sombras pareciam mais densas.
As paredes suadas pela umidade refletiam discretamente a luz violeta que filtrava-se pelas janelas.
A cada passo sentia uma estranha sensação de abandono.
Como se estivesse caminhando através das ruínas emocionais de alguém.
Ou de alguma coisa.
Os corredores pareciam maiores do que deveriam.
As distâncias alteravam-se.
Portas surgiam onde antes não existiam.
Escadas conduziam a lugares impossíveis.
O próprio Castelo parecia sonhar.
E o sonho não era agradável.
Então ouviu uma voz familiar.
— Continuas com a péssima mania de chegar atrasado.
Velian sorriu antes mesmo de vê-la.
Cassandra estava encostada numa coluna próxima a uma janela quebrada. Os longos cabelos escuros caíam pelos ombros. O vestido negro contrastava com a pele pálida. Seus olhos vermelhos observavam a tempestade de cinzas que caía além do vidro.
Por um instante, a opressão de Agonihria pareceu diminuir.
Apenas um instante.
— Pensei que estivesses no Rio.
— Eu estava.
— E agora estás aqui.
— Excelente dedução.
— Séculos de prática.
O sorriso dela surgiu discreto.
— Vejo que ainda não encontraste respostas.
— Vejo que ainda finges não fazer perguntas.
Cassandra soltou uma breve gargalhada.
— Talvez eu apenas seja mais inteligente.
— Ou mais teimosa.
— Também.
Por alguns segundos permaneceram observando a paisagem espectral.
As cinzas continuavam caindo.
A névoa ondulava entre as torres.
O Castelo parecia respirar.
Então Cassandra tornou-se séria.
Algo raro.
— Este lugar está errado.
Velian voltou o olhar para ela.
— O Castelo costuma estar errado.
— Não desta forma.
O tom de sua voz bastou.
Cassandra raramente demonstrava preocupação.
Quando o fazia, havia motivo.
— O que encontraste?
— Nada.
— Isso parece ruim.
— É pior.
Ela afastou-se da coluna.
— O Castelo está vazio.
Velian sentiu um leve arrepio.
Porque compreendia exatamente o que ela queria dizer.
O Castelo Drácula jamais estava vazio.
Sempre havia vozes.
Presenças.
Monstros.
Ecos.
Memórias.
Alguma coisa.
Mas agora existia apenas silêncio.
E o silêncio parecia faminto.
O silêncio parecia faminto.
Velian e Cassandra avançaram pelos corredores do Castelo Drácula sem dizer mais nada durante alguns minutos. Em circunstâncias normais, ambos trocariam provocações incessantes. Era quase um hábito antigo. Contudo, Agonihria possuía uma maneira peculiar de tornar o humor mais difícil.
As cinzas negras continuavam caindo do lado de fora.
Em determinados momentos, Velian teve a impressão de ouvir vozes misturadas ao som do vento.
Sussurros.
Lamentos.
Palavras incompreensíveis.
Quando tentava escutá-las melhor, desapareciam.
O corredor começou a estreitar-se.
Ou talvez estivesse apenas parecendo mais estreito.
Em Agonihria era difícil distinguir realidade de percepção.
As paredes de pedra deram lugar a superfícies cobertas por papel decorativo antigo. Arabescos púrpura espalhavam-se por desenhos florais quase apagados pela umidade. Fungos escuros consumiam os cantos. Em alguns trechos, o papel descascava lentamente como pele morta desprendendo-se de um cadáver.
O cheiro tornou-se mais intenso.
Mofo.
Ferrugem.
Terra molhada.
E algo mais.
Algo químico.
Doentio.
Cassandra aproximou os dedos de uma das paredes.
— Arsênio.
Velian arqueou uma sobrancelha.
— Claro que você sabe reconhecer arsênio pelo cheiro.
— E você não?
— Não costumo cheirar venenos por diversão.
— Falha de caráter.
Continuaram caminhando.
A arquitetura mudava à medida que avançavam. O aspecto medieval do Castelo desaparecia gradualmente. Corredores vitorianos surgiam diante deles. Lustres enferrujados pendiam do teto. Tapetes antigos apodreciam sob os próprios fios.
Tudo parecia abandonado havia séculos.
E, ainda assim, existia uma estranha sensação de presença.
Como se alguém observasse através das paredes.
Como se alguma coisa aguardasse.
Velian percebeu primeiro.
— Estamos sendo seguidos.
Cassandra não demonstrou surpresa.
— Eu sei.
— Há quanto tempo?
— Desde que chegamos.
— E não pretendias comentar?
— Estava curiosa.
— Evidentemente.
Uma sombra moveu-se no final do corredor.
Depois desapareceu.
Outra surgiu atrás deles.
Em seguida uma terceira.
Velian estreitou os olhos.
As formas eram humanoides.
Mas algo estava errado.
Os movimentos pareciam quebrados.
Como marionetes manipuladas por mãos invisíveis.
Nenhum som acompanhava seus passos.
Nenhuma respiração.
Nenhum coração.
Nada.
Apenas presença.
Continuaram avançando.
Os vultos também.
Sem atacar.
Sem se aproximar demais.
Apenas observando.
Como animais avaliando uma presa.
Ou talvez convidados.
A mansão revelou-se subitamente.
Nenhum dos dois percebeu exatamente quando chegaram.
Ela simplesmente estava ali.
Uma enorme construção vitoriana erguida no interior do Castelo.
Janelas altas.
Paredes cobertas de fungos.
Varandas corroídas pelo tempo.
O lugar parecia existir fora da lógica.
Como se tivesse sido sonhado por alguém que nunca conhecera arquitetura.
Velian observou a construção durante alguns segundos.
— Tenho uma péssima sensação sobre isso.
— Então estamos no caminho certo.
— Eu realmente detesto tua lógica.
Subiram os degraus.
A porta abriu-se sozinha.
O interior mergulhava numa penumbra violeta.
Velas apagadas ocupavam castiçais enferrujados.
Quadros cobertos por tecido acumulavam poeira.
Relógios antigos permaneciam imóveis.
Nenhum marcava a mesma hora.
Nenhum parecia marcar hora alguma.
Então ouviram.
Um som.
Baixo.
Distante.
Como alguém mastigando.
Velian parou.
O som repetiu-se.
Mastigação.
Lenta.
Úmida.
Persistente.
— Diga que ouviu isso.
— Infelizmente.
O ruído aumentou.
Veio do andar superior.
Depois de outro cômodo.
Depois de vários lugares ao mesmo tempo.
Como se dezenas de bocas trabalhassem simultaneamente.
Mastigando.
Roendo.
Triturando.
A mansão inteira parecia alimentar-se de alguma coisa.
O desconforto espalhou-se pelo ambiente.
Pela primeira vez desde que chegara, Velian sentiu uma antiga sensação emergir.
Medo.
Não o medo comum dos mortais.
Mas aquele raro desconforto que apenas os verdadeiros mistérios provocavam.
Continuaram avançando.
O som tornou-se mais próximo.
Mais intenso.
Mais orgânico.
Até encontrarem o quarto.
A porta estava entreaberta.
O cheiro era insuportável.
Mofo.
Ferrugem.
Carne deteriorada.
Sangue antigo.
E aquele estranho odor químico vindo dos papéis de parede.
No centro do aposento havia uma cama vitoriana.
Os lençóis estavam rasgados.
Escurecidos.
Como se décadas de poeira houvessem se acumulado sobre eles.
Diante da cama erguia-se um espelho gigantesco.
A moldura era ornamentada com flores esculpidas.
Mas as flores pareciam apodrecidas.
Distorcidas.
Quase vivas.
Velian aproximou-se.
O próprio reflexo surgiu.
Algo impossível.
Vampiros não possuíam reflexos.
Mas Agonihria não parecia interessar-se por regras.
Cassandra apareceu ao lado dele.
Ela também estava refletida.
Por alguns instantes nada aconteceu.
Então os reflexos sorriram.
Nenhum dos dois sorrira.
O silêncio tornou-se absoluto.
As versões refletidas permaneceram observando-os.
Imóveis.
Então o reflexo de Cassandra inclinou a cabeça.
— Ainda finges que não sentes falta deles?
A verdadeira Cassandra permaneceu imóvel.
Velian percebeu imediatamente.
A pergunta atingira algum lugar profundo.
O reflexo continuou.
— De todos os amantes.
De todos os discípulos.
De todos os amigos.
De todos os mortos.
A figura refletida sorriu.
— Quantos nomes ainda consegues lembrar?
Cassandra fechou os olhos por um instante.
Apenas um instante.
Mas foi suficiente.
Velian nunca a vira hesitar daquela maneira.
Então o espelho voltou-se para ele.
Seu reflexo observou-o com olhos completamente negros.
— E tu?
A voz era sua.
Mas não era.
— Quantas respostas procuraste apenas para não admitir que tens medo?
Velian sustentou o olhar.
— Medo de quê?
O reflexo sorriu.
— De continuar existindo.
O quarto pareceu escurecer.
As sombras tornaram-se mais densas.
— De continuar desejando.
De continuar perdendo.
De continuar sobrevivendo enquanto tudo desaparece.
As palavras ecoaram pelo aposento.
Velian sentiu algo apertar seu peito.
Porque não eram mentiras.
O espelho compreendia.
E isso era pior.
Muito pior.
Uma rachadura surgiu na superfície refletora.
Depois outra.
E outra.
O som espalhou-se pelo quarto.
Lento.
Cruel.
Como ossos partindo-se sob pressão.
As rachaduras multiplicaram-se.
Até que algo começou a emergir.
Primeiro uma mão.
Depois um braço.
Em seguida um rosto.
Ou aquilo que um dia fora um rosto.
A criatura arrastou-se para fora do espelho.
Sua pele era cinzenta.
Os olhos completamente ocos.
E dentes.
Dentes por toda parte.
Nas faces.
Nos ombros.
Nos braços.
No pescoço.
Nas costelas.
Centenas deles.
Talvez milhares.
A criatura arrancou um dos próprios dentes.
Sorriu.
Então o mastigou.
Outro nasceu imediatamente.
Mais criaturas começaram a surgir.
Uma após outra.
Arrastando-se para fora dos espelhos rachados.
Todas cobertas por dentes.
Todas sorrindo.
Todas sofrendo.
Todas parecendo sentir prazer na própria dor.
O quarto inteiro foi preenchido pelo som.
Mastigação.
Estalos.
Dentes quebrando.
Dentes crescendo.
Dentes sendo arrancados.
As criaturas observavam os dois vampiros.
E então falaram.
Não individualmente.
Mas como uma única voz.
Uma voz composta por centenas de gargantas.
— O abandono nos criou.
— A perda nos alimenta.
— O esquecimento nos fortalece.
Uma delas aproximou-se de Velian.
Seus olhos vazios refletiam apenas escuridão.
— Quantos partiram?
Outra surgiu ao lado.
— Quantos ainda partirão?
Mais uma.
— Quantos nomes esqueceste?
As criaturas começaram a cercá-los lentamente.
Sorrindo.
Mastigando.
Esperando.
E, pela primeira vez desde a chegada ao Castelo, Cassandra abandonou completamente a expressão irônica.
Porque compreendeu a mesma coisa que Velian.
Agonihria não pretendia matá-los.
Pretendia fazê-los lembrar.
Agonihria não pretendia matá-los.
Pretendia fazê-los lembrar.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
As criaturas continuaram cercando-os lentamente. O som dos dentes partindo-se entre suas mandíbulas preenchia o quarto. Era um ruído quase hipnótico. Monótono. Persistente. Como um relógio macabro medindo o tempo através da dor.
Velian observou uma delas mais atentamente.
Os dentes não cresciam ao acaso.
Cada um parecia diferente.
Alguns eram humanos.
Outros lembravam presas de animais.
Outros ainda possuíam formatos impossíveis.
Como se cada dente fosse uma memória petrificada.
Uma perda.
Uma ferida.
Uma ausência.
A criatura mais próxima abriu a boca.
Lá dentro não havia língua.
Nem garganta.
Apenas mais dentes.
Infinitos dentes.
Velian sentiu a escuridão de Nix mover-se em algum lugar profundo de sua consciência.
Não como uma arma.
Mas como uma presença.
Uma vastidão silenciosa observando tudo.
A Noite primordial.
Antiga demais para temer monstros.
Antiga demais para temer abandono.
A criatura avançou.
E Cassandra foi a primeira a agir.
Símbolos negros incendiaram-se ao redor de seus braços. Runas antigas surgiram sobre a própria pele como serpentes feitas de sombra. O ar vibrou.
Então a vampira ergueu uma das mãos.
Uma explosão de energia atravessou o aposento.
Três criaturas foram arremessadas contra a parede.
Os corpos despedaçaram-se.
Dentes espalharam-se pelo chão.
Por um instante, o silêncio retornou.
Então os dentes começaram a mover-se.
Velian observou-os reorganizarem-se.
Unindo-se.
Reconstruindo carne.
Tecendo ossos.
Poucos segundos depois, as criaturas estavam novamente de pé.
Sorrindo.
Sempre sorrindo.
— Eu odeio lugares simbólicos — resmungou Velian.
— Eu avisei que algo estava errado.
— Você avisou que o Castelo estava vazio.
— E estava.
Uma gargalhada ecoou pelo aposento.
Não partira de Cassandra.
Nem de Velian.
Partira das próprias criaturas.
Centenas de vozes misturadas.
Centenas de gargantas.
Centenas de abandonos.
As paredes começaram a pulsar.
O papel decorativo desprendia-se lentamente.
Sob ele surgiam inscrições.
Nomes.
Milhares deles.
Nomes riscados.
Esquecidos.
Apagados.
Alguns escritos em idiomas mortos.
Outros em línguas que Velian jamais vira.
As criaturas continuavam aproximando-se.
— O que achas que são? — perguntou ele.
Cassandra não desviou os olhos dos monstros.
— Pessoas.
— Isso é reconfortante.
— Pessoas esquecidas.
— Ah. Menos reconfortante.
Uma das criaturas saltou.
Velian moveu-se imediatamente.
As garras atravessaram o peito do monstro.
O corpo abriu-se.
E algo caiu no chão.
Não sangue.
Não vísceras.
Mas fotografias.
Cartas.
Flores secas.
Objetos pessoais.
Pequenos fragmentos de vidas perdidas.
A criatura desfez-se em cinzas.
Outra ocupou seu lugar.
Depois outra.
Depois mais três.
A mansão inteira pareceu despertar.
Passos ecoaram pelos corredores.
Portas abriram-se sozinhas.
Espelhos racharam.
O som da mastigação tornou-se ensurdecedor.
E então Agonihria revelou algo ainda pior.
As criaturas começaram a mudar.
Seus rostos tornaram-se familiares.
Velian reconheceu alguns.
Um antigo amante da França medieval.
Uma mulher que conhecera durante o século XVIII.
Um jovem poeta que o acompanhara durante alguns anos em Lisboa.
Todos mortos.
Todos desaparecidos.
Todos transformados em algo grotesco.
As criaturas sorriram.
— Ainda lembras.
— Ainda dói.
— Ainda desejas.
Velian sentiu o golpe.
Não físico.
Mas emocional.
Porque lembrava.
Lembrava de todos.
Não dos rostos apenas.
Dos gestos.
Das vozes.
Dos momentos.
Das despedidas.
A eternidade possuía uma crueldade peculiar.
Tudo se transformava em fantasma.
Mesmo as memórias felizes.
Do outro lado do aposento, Cassandra permanecia imóvel.
As criaturas cercavam-na.
E também haviam mudado.
Velian observou sua expressão endurecer.
Os monstros assumiam formas que ele não reconhecia.
Mas Cassandra reconhecia.
Isso bastava.
Por um momento, a vampira desviou o olhar.
Por um único instante.
E aquilo era mais assustador do que qualquer monstro.
Porque Cassandra raramente olhava para trás.
Raramente permitia-se recordar.
As criaturas aproximaram-se dela.
— Ainda sentes falta deles.
— Ainda carregas seus nomes.
— Ainda finges que não te importas.
A magia ao redor da vampira explodiu violentamente.
As janelas estilhaçaram-se.
As paredes tremeram.
Diversas criaturas foram destruídas instantaneamente.
Mas nenhuma desapareceu.
Continuavam retornando.
Sempre retornando.
Velian compreendeu.
Não importava quantas fossem destruídas.
Não estavam lutando contra corpos.
Estavam lutando contra uma ideia.
Contra um sentimento.
Contra algo muito mais antigo que carne e osso.
O Castelo inteiro estremeceu.
As cinzas negras começaram a cair dentro da mansão.
A névoa púrpura infiltrou-se pelas rachaduras.
Os corredores pareciam alongar-se.
As portas desapareciam.
As paredes moviam-se.
Como se Agonihria estivesse fechando suas mãos ao redor deles.
Então uma voz surgiu.
Profunda.
Distante.
Maior que todas as outras.
Uma voz que parecia vir do próprio Castelo.
Ou talvez do próprio vazio.
— Tudo será esquecido.
As criaturas silenciaram imediatamente.
A mansão inteira silenciou.
Até mesmo a mastigação cessou.
A voz continuou.
— Toda paixão.
Toda memória.
Toda conquista.
Todo amor.
Todo conhecimento.
Tudo.
Velian sentiu a temperatura cair ainda mais.
As sombras tornaram-se densas.
Espessas.
Quase líquidas.
E algo começou a surgir do espelho destruído.
Algo enorme.
Muito maior do que as criaturas.
Uma massa de escuridão coberta por milhares de olhos vazios e bocas repletas de dentes.
Os dentes moviam-se sozinhos.
Como insetos.
Como parasitas.
Como pensamentos doentes.
A entidade ergueu-se lentamente.
Sua cabeça quase tocava o teto.
Os olhos observavam Velian.
Observavam Cassandra.
Observavam tudo.
— Eu sou o abandono.
A voz fez a mansão inteira tremer.
— Eu sou aquilo que permanece quando tudo parte.
Uma das bocas abriu-se.
Depois outra.
Depois centenas.
— Eu sou o silêncio após o último adeus.
Velian percebeu que até Cassandra havia ficado imóvel.
Não por medo.
Mas por reconhecimento.
Aquilo não era uma criatura.
Não era um fantasma.
Não era um demônio.
Era um conceito.
Uma manifestação.
Uma ferida transformada em existência.
E Agonihria era seu reino.
A entidade voltou-se para Velian.
Milhares de olhos vazios observando-o simultaneamente.
— Tu conheces meu nome.
Velian sustentou o olhar.
— Conheço.
— Caminhas comigo há séculos.
— Sim.
— Então por que continuas procurando?
O silêncio espalhou-se.
Mesmo Cassandra voltou-se para ele.
A pergunta parecia destinada apenas a Velian.
Mas talvez fosse destinada a todos.
Ao Castelo.
À humanidade.
À própria eternidade.
A entidade aproximou-se.
As sombras tornaram-se ainda mais profundas.
— Por que continuas desejando?
— Por que continuas amando?
— Por que continuas buscando?
A voz tornou-se mais suave.
Mais perigosa.
— Não aprendeste nada?
Durante alguns segundos Velian não respondeu.
Porque aquela era exatamente a pergunta que o perseguira durante séculos.
E talvez fosse a pergunta que definia sua existência.
Então sentiu novamente a presença de Nix.
Não uma resposta.
Jamais uma resposta.
Apenas a vastidão da noite.
A escuridão infinita onde estrelas nasciam e morriam sem alterar sua essência.
A noite não prometia sentido.
Apenas existência.
E, estranhamente, aquilo bastava.
Velian sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas genuíno.
E então respondeu.
— Aprendi exatamente o contrário.
— Aprendi exatamente o contrário.
A entidade permaneceu imóvel.
Os milhares de olhos vazios observavam Velian.
As centenas de bocas repletas de dentes permaneciam abertas.
Esperando.
O silêncio tornou-se quase absoluto.
Então Velian deu um passo à frente.
A névoa púrpura girava ao redor de seus pés. As cinzas negras continuavam caindo através das janelas destruídas da mansão. Ao longe, o Castelo Drácula parecia respirar como um organismo colossal adormecido.
— Passei séculos acreditando que precisava encontrar respostas — disse ele. — Depois passei séculos acreditando que precisava encontrar prazeres. Depois poder. Depois conhecimento. Depois esquecimento.
A criatura permaneceu imóvel.
— E encontraste?
Velian sorriu.
— Às vezes.
A resposta pareceu irritar a manifestação.
As sombras ao redor dela estremeceram.
— Às vezes?
— Sim. Às vezes encontrei prazer. Às vezes encontrei amor. Às vezes encontrei conhecimento. Às vezes encontrei companhia.
A entidade inclinou lentamente a cabeça.
— E perdeste tudo.
— Sim.
— Todos morreram.
— Sim.
— Todos partiram.
— Sim.
A criatura pareceu crescer.
As paredes da mansão rangeram.
Os espelhos restantes começaram a rachar.
— Então eu venci.
Velian ficou em silêncio por alguns instantes.
Então riu.
Uma gargalhada breve.
Sincera.
Quase humana.
Até Cassandra pareceu surpresa.
— Não. — respondeu ele. — É justamente aí que está o erro.
Os olhos da entidade estreitaram-se.
— Explica.
— Eles partiram.
Mas existiram.
A resposta espalhou-se pelo aposento como uma pedra lançada em águas imóveis.
A manifestação permaneceu imóvel.
Velian continuou.
— Vivi tempo suficiente para esquecer rostos.
Esquecer nomes.
Esquecer cidades inteiras.
Vi impérios nascerem e desaparecerem.
Vi religiões mudarem.
Vi pessoas morrerem.
Vi amores acabarem.
Mas o fato de algo terminar não significa que nunca tenha existido.
As criaturas dos dentes começaram a recuar lentamente.
Como se alguma força invisível as incomodasse.
— O abandono não apaga aquilo que foi vivido.
Ele apenas vem depois.
A entidade permaneceu em silêncio.
Pela primeira vez parecia não possuir resposta imediata.
Velian sentiu algo mover-se dentro de si.
Não era fome.
Não era violência.
Não era desejo.
Era a presença de Nix.
A noite.
A verdadeira noite.
Não a escuridão do medo.
Não a ausência de luz.
Mas a vastidão primordial que existia antes dos homens nomearem as coisas.
A escuridão que não julgava.
Que não exigia respostas.
Que apenas era.
Sombras começaram a reunir-se ao redor dele.
Não eram agressivas.
Não eram monstruosas.
Eram profundas.
Infinitas.
Belas.
As cinzas negras tocaram seu corpo e desapareceram.
A névoa púrpura começou a dissolver-se.
A entidade recuou pela primeira vez.
— O que és agora?
A pergunta veio quase como um sussurro.
Velian pensou por alguns segundos.
— Não faço ideia.
A resposta arrancou um sorriso de Cassandra.
— Essa é a coisa mais honesta que já disseste em décadas.
— Eu estava tentando impressionar uma manifestação metafísica.
— Está funcionando.
A entidade rugiu.
As paredes da mansão estremeceram.
Centenas de criaturas avançaram simultaneamente.
Desta vez não havia intenção de dialogar.
Apenas destruir.
Apenas consumir.
Apenas transformar tudo em silêncio.
Então Cassandra avançou.
A vampira ergueu ambas as mãos.
Runas negras incendiaram-se ao redor de seu corpo. Símbolos antigos surgiram sobre sua pele como serpentes de sombra líquida.
Velian sentiu o impacto do poder imediatamente.
Mesmo após todos aqueles séculos, Cassandra continuava sendo uma das criaturas mais perigosas que conhecera.
Talvez a mais perigosa.
O ar tornou-se pesado.
As janelas explodiram.
As sombras da própria mansão começaram a obedecê-la.
— Sempre odiei coisas que tentam me dizer o que sentir.
A magia expandiu-se.
Dezenas de criaturas foram arremessadas contra paredes e colunas.
Outras simplesmente desintegraram-se.
Mas não retornaram.
Porque agora não estavam sendo destruídas apenas fisicamente.
Algo mais profundo acontecia.
A presença de Nix espalhava-se.
A manifestação do abandono começou a enfraquecer.
As criaturas hesitavam.
Os dentes quebravam-se.
As formas tornavam-se instáveis.
Velian compreendeu.
Agonihria alimentava-se de uma única certeza:
Que tudo era vazio.
Que toda conexão era inútil.
Que toda existência terminava em abandono.
Mas ele já não acreditava nisso.
Nem Cassandra.
E aquela convicção possuía poder.
Mais poder do que imaginara.
A entidade rugiu novamente.
Milhares de bocas abriram-se simultaneamente.
O som foi tão intenso que parte da mansão desabou.
Colunas partiram-se.
O teto rachou.
Cinzas negras caíram como chuva.
Então Velian avançou.
A velocidade foi quase invisível.
As sombras reuniram-se ao redor de suas mãos.
Não como lâminas.
Não como armas.
Mas como fragmentos da própria noite.
Ele atravessou a tempestade de dentes.
Atravessou os gritos.
Atravessou as sombras.
E alcançou o coração da manifestação.
Por um instante viu algo.
Não uma criatura.
Não um monstro.
Mas uma criança esquecida.
Um amante abandonado.
Um velho morrendo sozinho.
Uma mãe chorando.
Um amigo perdido.
Milhares de solidões acumuladas.
Milhares de dores.
Milhares de despedidas.
Agonihria era feita delas.
Velian fechou os olhos.
E compreendeu.
Nem mesmo aquele horror desejava existir.
A entidade nasceu porque alguém sofrera.
Porque muitos sofreram.
Porque o abandono existe.
Sempre existirá.
Então tocou a criatura.
Apenas tocou.
E a noite respondeu.
A escuridão de Nix espalhou-se através da manifestação.
Não para destruí-la.
Mas para envolvê-la.
Como o céu envolve as estrelas.
Como o oceano envolve os rios.
Como a noite envolve os sonhos.
A criatura parou de lutar.
As bocas silenciaram.
Os dentes deixaram de crescer.
Os olhos vazios fecharam-se lentamente.
E então Agonihria começou a ruir.
A mansão inteira tremeu.
Os corredores partiram-se.
Os espelhos explodiram.
As paredes cobertas por arsênio e mofo desmancharam-se.
O Castelo Drácula inteiro estremeceu.
Como se despertasse de um pesadelo.
As criaturas desapareceram.
As cinzas negras tornaram-se poeira comum.
A névoa púrpura dissipou-se.
O silêncio retornou.
Mas agora era diferente.
Não era um silêncio faminto.
Era apenas silêncio.
E, pela primeira vez desde que chegaram, Velian sentiu paz.
Uma paz estranha.
Breve.
Mas real.
Ao seu lado, Cassandra observava os destroços.
— Então era isso.
— Era.
— Continua irritantemente filosófico.
— Continua irritantemente poderosa.
— Justo.
Ao redor deles, Agonihria desaparecia.
E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois sentiu necessidade de procurar respostas.
Bastava caminhar para fora daquele pesadelo.
Pelo menos por enquanto.
Pelo menos por enquanto.
Os corredores do Castelo Drácula reapareciam lentamente ao redor deles.
A mansão vitoriana desaparecera.
Os espelhos.
Os papéis de parede apodrecidos.
As criaturas dos dentes.
Tudo parecia dissolver-se como um sonho que já não conseguia sustentar a própria existência.
Restavam apenas os antigos corredores de pedra.
As colunas monumentais.
As janelas arqueadas que revelavam a noite eterna além dos limites do castelo.
Por algum tempo, Velian e Cassandra caminharam sem dizer nada.
Não havia urgência.
Talvez porque ambos compreendessem que certos silêncios possuem mais significado que muitas conversas.
As cinzas negras haviam desaparecido.
A névoa púrpura também.
No alto, estrelas impossíveis brilhavam sobre Soramithia.
O eclipse perpétuo pairava sobre o horizonte como um olho adormecido.
O Castelo parecia tranquilo.
Não alegre.
Jamais alegre.
Mas tranquilo.
Como um animal antigo que finalmente voltara a repousar.
Velian observava as janelas enquanto caminhavam.
O tempo.
Sempre o tempo.
Séculos atrás acreditara que a eternidade era um prêmio.
Depois pensara que fosse uma maldição.
Agora já não tinha certeza de nenhuma das duas coisas.
Talvez fosse apenas uma condição.
Uma estrada longa demais para ser compreendida de uma só vez.
— Estás pensando demais de novo.
A voz de Cassandra surgiu ao seu lado.
Velian sorriu.
— É uma acusação injusta.
— Não é.
— Talvez um pouco.
Ela soltou uma breve gargalhada.
O som ecoou pelos corredores vazios.
Por um instante, pareceu afastar séculos de escuridão.
— Sabes — disse Cassandra — quando te conheci, imaginei que acabarias enlouquecendo.
— Ainda há tempo.
— Não. Agora não.
Velian voltou-se para ela.
A vampira mantinha os olhos voltados para frente.
Como se observasse algo distante.
Algo que apenas ela conseguia enxergar.
— Mudaste.
— Isso costuma acontecer ao longo de alguns séculos.
— Não dessa forma.
O silêncio retornou.
Velian percebeu que ela estava sendo sincera.
Algo raro.
Muito raro.
— Antes procuravas respostas porque estavas desesperado.
Agora procuras porque estás curioso.
— Há diferença?
— Toda diferença do mundo.
Continuaram caminhando.
As palavras permaneceram entre eles.
Velian não respondeu imediatamente.
Porque Cassandra estava certa.
Durante muito tempo suas perguntas haviam sido uma tentativa de escapar.
Do vazio.
Da solidão.
Da própria eternidade.
Agora eram apenas perguntas.
E isso as tornava mais leves.
Mais honestas.
Mais humanas.
Atravessaram uma enorme galeria onde estátuas antigas observavam os visitantes com olhos de pedra.
Algumas representavam reis esquecidos.
Outras criaturas que jamais existiram.
Outras ainda pareciam deuses tão antigos que nem mesmo seus nomes sobreviveram.
Velian parou diante de uma delas.
Uma figura feminina envolta por sombras esculpidas.
O rosto parcialmente oculto.
Os olhos voltados para o céu.
Nix.
Ou ao menos uma interpretação dela.
A Senhora da Noite.
A deusa que jamais lhe concedera respostas.
Apenas perspectivas.
Sorriu.
Talvez aquele tivesse sido o maior presente.
— Ainda pensas nela? — perguntou Cassandra.
— Às vezes.
— Encontraste o que procuravas?
Velian observou a estátua.
— Não.
— Eu sabia.
— Mas encontrei algo melhor.
Cassandra ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Mais perguntas.
Ela revirou os olhos.
— Definitivamente continuas sendo tu.
Saíram da galeria.
Os corredores começaram a mudar.
As sombras tornaram-se mais finas.
O ar mais leve.
O Castelo estava liberando-os.
A despedida aproximava-se.
Ambos sabiam.
Nenhum comentou.
Até que alcançaram um dos grandes salões de transição entre mundos.
Ali, as realidades misturavam-se.
Portas conduziam a lugares impossíveis.
Séculos diferentes.
Dimensões distintas.
Sonhos.
Pesadelos.
Memórias.
O Rio de Janeiro aguardava Cassandra atrás de uma das passagens.
Fortaleza aguardava Velian atrás de outra.
Permaneceram alguns instantes em silêncio.
Estranhamente, aquela parecia a parte mais difícil da noite.
Não enfrentar monstros.
Não enfrentar conceitos transformados em horror.
Mas despedir-se.
Talvez porque os adeuses sempre carregassem uma pequena morte.
Mesmo para imortais.
Cassandra cruzou os braços.
— Então é isso.
— É.
— Continuarás procurando sentido para a existência?
— Provavelmente.
— Que atividade ridícula.
— Concordo.
Ela sorriu.
Um sorriso pequeno.
Quase imperceptível.
Mas verdadeiro.
— Toma cuidado, Velian.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Isso foi preocupação?
— Não exageremos.
— Claro.
— Apenas seria inconveniente perder alguém capaz de me proporcionar discussões tão irritantes.
Velian riu.
Uma risada sincera.
Daquelas que surgiam cada vez mais raramente.
— Sentirei falta dos teus insultos.
— Mentira.
— Um pouco.
— Melhor assim.
Por um instante, nenhum dos dois se moveu.
Os séculos compartilhados passaram silenciosamente entre eles.
Guerras.
Viagens.
Discussões.
Desejos.
Separações.
Reencontros.
Nenhum dos dois precisava mencioná-los.
Existiam.
E isso bastava.
Finalmente Cassandra aproximou-se.
Tocou brevemente seu rosto.
Um gesto simples.
Mas raro.
Talvez mais íntimo do que qualquer demonstração grandiosa.
— Continua vivo, Velian.
— Pretendo tentar.
— Ótimo.
Então ela atravessou a passagem.
E desapareceu.
Sem cerimônias.
Sem lágrimas.
Exatamente como Cassandra faria.
Velian permaneceu sozinho no salão.
Observando o espaço vazio onde ela estivera.
Por alguns instantes apenas respirou.
Ou algo próximo daquilo.
Sentiu a ausência.
Mas não como dor.
Apenas como consequência natural da existência.
Todos os encontros terminam.
Todos os caminhos se separam.
E ainda assim continuam valendo a pena.
Sorriu diante do próprio pensamento.
Estava se tornando perigosamente otimista.
Atravessou sua própria passagem.
E o mundo mudou.
Quando voltou a Fortaleza, a madrugada aproximava-se do fim.
A cidade permanecia desperta.
Como sempre.
As primeiras embarcações começavam a surgir no horizonte.
O vento espalhava o cheiro de maresia pelas ruas.
Ao longe, algumas luzes ainda permaneciam acesas.
Velian caminhou até a varanda do apartamento.
O céu começava lentamente a clarear.
Azul profundo.
Depois violeta.
Depois dourado.
O nascimento de mais um dia.
Durante séculos observara amanheceres.
Milhares deles.
Talvez milhões.
Ainda assim, continuavam diferentes.
Porque nenhum amanhecer era exatamente igual ao anterior.
Assim como nenhuma noite.
Assim como nenhuma pessoa.
Assim como nenhuma pergunta.
Encostou-se à grade da varanda.
Pensou em Cassandra.
Pensou em Nix.
Pensou nos monstros de Agonihria.
Pensou nos mortos.
Nos vivos.
Nos esquecidos.
Nos amados.
Pensou em si mesmo.
E percebeu algo simples.
O vazio continuava ali.
Sempre continuaria.
A eternidade continuava ali.
Sempre continuaria.
As dúvidas também.
Talvez jamais desaparecessem.
Mas já não eram inimigas.
Eram companheiras.
Parte da estrada.
Parte daquilo que o mantinha caminhando.
Ao longe, o sol finalmente surgiu sobre o Atlântico.
A luz espalhou-se pelo horizonte.
Velian observou-a durante alguns segundos antes de recolher-se para o interior do apartamento.
A noite terminara.
Outra viria.
Como sempre.
E, pela primeira vez em muito tempo, a ideia dos séculos que ainda o aguardavam não lhe pareceu um peso.
Pareceu uma possibilidade.
Uma pergunta ainda sem resposta.
E, estranhamente, isso era suficiente.
Fim.
As Crônicas de Velian: Divagações da Imortalidade
Velian, sob a maldição ou bênção da imortalidade vampírica, percorre as ruas de Fortaleza, mergulhado em reflexões sobre sua existência eterna. Em meio a angústias e silêncios, ele confronta os dilemas do tempo, da vida e da morte, questionando o sentido e os limites da razão. Ouvindo um chamado visceral do Castelo Drácula, Velian mergulha em divagações introspectivas, onde a busca por respostas é ainda mais complexa e a solidão, ao lado da melancolia, levam-no a vivências atormentadoras. » Leia todos os capítulos.
Weslley Cunha
Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Data Incerta - Andamos talvez por dias e não sentimos fome, sede ou cansaço, talvez porque não era permitido que sentíssemos, mas eu teorizava…