Solilóquio da Matéria Escura
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina
É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca.
Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,
Rasteja sob o teto de um templo calado e cego.
Olho para o firmamento, essa tapeçaria de breu purpura,
E que vejo? O Nada. O vácuo que engole os impérios,
Que desdenha dos reis e ri-se do saber dos homens.
Ó, teia invisível! Tecido de matéria escura,
Que sustentas as estrelas como joias na agonia,
Tu és o grande segredo que nenhum fidalgo decifra.
Bato às portas do infinito com punhos de poeira;
Rogo por uma resposta, um som, um estalo de voz,
Mas o universo guarda seu mistério como um avaro
Que esconde o ouro nas galerias mais profundas do caos.
Minha alma é um mar revolto em noite de tempestade.
A aflição me corrói as entranhas, pois sou o átomo
Que ousa julgar a imensidão que o esmaga.
Quem somos nós, senão pensamentos febris da terra?
Um breve espasmo de consciência entre duas eternidades
De silêncio absoluto e sombras irrevogáveis.
O abismo do ser... eis a vertigem que me paralisa!
Caminho à beira desta razão que já desaba,
Tateando o contorno de Deus na arquitetura do vácuo.
Mas não há face. Não há traço. Há apenas o frio,
Um manto soberano de mistério denso e sombrio
Que zomba dos meus astrolábios e da minha heresia.
Quisera eu ser a pedra, ou o ferro que não cogita,
Pois pensar é herdar o tormento de um exílio eterno.
A noite avança, a matéria escura me devora o peito,
E o universo, essa esfinge de ébano e silêncio,
Cerra suas pálpebras cósmicas sobre o meu desespero,
Deixando-me a sós com o horror... de não ser nada.
Marcolongo Ricardo
Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa
Durmo sob regélida umbra noite | Só, meus olhos girando em onirismo; | N’hórrida cova a mente tanto afoite | Acha haver segureza n’um abismo;