O Sapateiro e o Gigante
Na beira do oceano ficava uma aldeia de pescadores. Era um vilarejo pequeno, lugar muito pacato onde a maioria dos homens trabalhava no mar…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula
Na beira do oceano ficava uma aldeia de pescadores. Era um vilarejo pequeno, lugar muito pacato onde a maioria dos homens trabalhava no mar, seus barcos de pesca espalhados pela baía de águas calmas, que se formava logo em frente à praia branca do píer. Ali também morava um sapateiro, moço novo que tinha aprendido a profissão com seu velho pai. Desde pequeno ele ajudava a engraxar os sapatos, reformar couro gasto e colar meias-solas. O rapaz tornou-se muito bom naquele ofício e aprendeu a construir botas muito resistentes. Seus sapatos tinham ótima qualidade, encaixavam perfeitamente nos pés dos clientes, amorteciam a pisada com a base cheia de cortiça e a costura apertada não deixava que qualquer umidade adentrasse. Além de tudo, eram bonitos, com forma perfeita e verniz de brilho impecável.
As botas que ele fazia eram muito apreciadas pelos navegantes e aventureiros que vez ou outra passavam pela aldeia. Também tinha exímia habilidade com sapatos finos, com seu acabamento primoroso para vestir autoridades e também belas moças. Ele, como ninguém, sabia fazer saltos firmes que ainda assim eram confortáveis.
O sapateiro ficou conhecido pela qualidade do seu trabalho, viajantes de todo o mundo aproveitavam para fazer suas encomendas quando seus navios mercantes estavam aportados, principalmente os marinheiros que precisavam de botas resistentes para a lida no mar, que não fossem se corroer facilmente com a umidade e o sal.
A vida naquela aldeia era muito calma e lenta, os anos se passaram vagarosamente durante toda a juventude do sapateiro. Todo dia, com o nascer do sol no leste, os barcos eram desamarrados do píer e enchiam a paisagem até onde o horizonte se confunde com o céu. Quando caía a noite, as luzinhas no mar, guiadas pelo pequeno farol que ficava no desfiladeiro da ponta da praia, regressavam para o atracadouro e esperavam até o dia seguinte para partir novamente em busca de mais cardumes.
O sapateiro tinha sua oficina bem perto da praia e trabalhava o dia todo observando os barcos dos pescadores, ele conhecia muito bem qual era cada um, tinha uma visão privilegiada e desde longe identificava as cores e listras dos barcos de madeira dos seus amigos e familiares. Ele mesmo não gostava do balanço do mar, nas poucas vezes que esteve sobre as águas, logo quis estar de volta em terra firme. Seu negócio era a firmeza de uma banquetinha de madeira e as fôrmas de sapatos onde esticava o couro. A luz do sol ajudava a enxergar seus afazeres e por isso nunca forçava a vista em trabalhar depois do anoitecer. Iniciava cedo a sua rotina, mas também nunca apressou nenhuma encomenda.
Apesar de tudo, ele tinha sua proximidade com o mar, o azul era uma imensidão companheira quando desviava os olhos por alguns instantes naquela visada do grande manto com suas espumas e seus brilhos prateados na ondulação das águas. Depois voltava ao seu trabalho, com sapatos no colo, sobre o avental de lona sujo de graxa e verniz. Quando parava à tarde para beber um café, que se misturava ao cheiro dos vernizes presos na sua mão, também olhava contemplativo para o mar enquanto as cores mudavam. O horizonte se escurecia mais que o entorno, e o ocre do céu se dissolvia nas águas que tinham um cintilar reflexivo muito brilhante. Corria o olhar por toda a extensão reconhecendo os pontinhos mais distantes, desde o mar aberto até o desfiladeiro na ponta da praia. Assim ficava tanto tempo que às vezes a bebida se esfriava na sua caneca de esmalte. Quando o farol se acendia ao longe, ele finalizava o seu dia de trabalho, recolhendo as ferramentas e lavando os pincéis. Não forçava mais a vista com a luz fraca do cair do dia. Seus amigos marinheiros diziam que esta visão era uma dádiva invejável, habilidade muito boa para quem vive do mar, e que era um desperdício para quem fica na terra trabalhando com objetos que sempre estão ao alcance das mãos.
O sapateiro, muitas vezes recusou timidamente convites para se juntar às pequenas expedições de pesca. Ele não se interessava em ver o que o mar trazia até ali, mas se perguntava o que existia muito adiante, depois daquela imensidão de águas. Como eram os lugares das histórias que os viajantes contavam? Os tais desertos e geleiras? Tinha imagens imprecisas na imaginação, mas também pouca disposição para procurar torná-las mais nítidas.
Eis que um dia tudo mudou, um dia comum em que nada precisava mudar. Neste certo raiar de brisa manhosa, o sapateiro foi o primeiro a ver, quando abria sua oficina. Quando fitou o horizonte, ainda antes do sol despontar na aurora, muito ao longe algo estranho vinha pelo mar. Era a figura de um homem gigantesco, em que primeiro surgiu sua cabeça, com seus olhos fixos e um bigode aterrador, depois, conforme se aproximava da costa, seus ombros também emergiram das águas desafiando o senso de proporção de quem olhava desde a praia. Era tão grande, que, sendo grande, parecia estar perto, mas não poderia ser, pois ainda estava longe.
As pessoas da aldeia se juntaram para ver, primeiro forçando os olhos, com a mão reforçando as sobrancelhas, mas depois tudo ficava mais evidente. Com medo, os homens não queriam embarcar para a pesca, os que já tinham saído, rapidamente regressaram e amarraram os barcos novamente. Toda a gente, aos poucos foi se retirando. Apavorados, alguns se trancaram em suas casas, outros tentaram fugir para a serra. Logo se podia sentir um tremor em cada passada lenta que o gigante dava na direção daquela aldeia. O mar ficou revolto e virou os barcos do cais, as ondas eram imensas e invadiram as casas da beira da praia. Aquele homem foi emergindo da baía, pouco a pouco revelando a sua altura, até que cobriu o sol do quase meio dia. Então parou onde já era raso o suficiente e apenas os seus pés estavam submersos.
Tudo ficou quieto um instante enquanto o mar se acalmava. Logo mais o gigante, com sua voz grave, que parecia um trovão, chamou “Sapateiro!”. Não houve nenhuma reação, o rapaz estava tremendo de medo em sua própria casa. Depois de alguns minutos o gigante tornou a chamar “Sapateiro!”, e chamava insistentemente a partir de então “Sapateiro! Sapateiro! Sapateiro!”.
O sapateiro sentiu o peso da responsabilidade recair sobre si, só ele poderia salvar sua aldeia querida e as pessoas que nela moravam. Tomou fôlego e coragem para sair de casa. Calçou suas botas e foi para as areias molhadas, onde as águas caóticas ainda se alevantavam mais que o normal.
A figura era aterradora, um titã, como um filho de Gaia com o Tártaro. A feição do seu rosto estava ofuscada pelo brilho do sol que parecia coroar a cabeça. O sapateiro subiu até o farol do desfiladeiro, tomado da fúria de um herói. Quando chegou ao topo, inflou ares no seu pulmão para gritar de maneira épica. “O que quer?! Por que vem atormentar este lugar tão pacífico?!”. O gigante estranhou aqueles dizeres, o corrigiu dizendo que ali era o Atlântico. Depois voltou ao seu propósito. “Quero que faça um par de sapatos para mim”.
E então tirou um pé das águas enquanto apontava para ele mostrando. Era um pé terrível, de dedos espalhados, com unhas grandes, quebradas nas pontas e, além de tudo, era maior que o maior navio que o sapateiro já tinha visto em sua vida.
Então o gigante se apresentou de maneira cortês, ele falava muito vagarosamente e tinha modos nobres, apesar dos seus olhos estalados, seu bigode amedrontador e seu tamanho colossal. Então ele contou suas histórias, disse que já tinha lutado contra serpentes e monstros marinhos, mas ele não vivia na imensidão do mar e sim nas praias. Acontece que para ele, nadar de um continente ao outro não era uma tarefa tão difícil, no entanto, tinha vindo da costa da África e estava muito cansado. Pediu para sentar-se, e o enorme desfiladeiro era apenas como um banquinho para ele. Depois explicou que sempre acreditara que ele mesmo era a coisa maior e mais alta do mundo. Em todo lugar onde esteve nunca tinha visto rocha, nem mesmo serra que superasse sua estatura, e se gabava disso, bradava com soberba até o dia em que um navegante mencionou que existiam coisas muito maiores, chamadas de “Montanhas”. Naquele dia o gigante ficou tomado de ira e exigiu que o navegante dissesse o que eram essas tais montanhas e onde ficavam. “Elas ficam muito além das praias, grande caminho, continente adentro”. Mas toda vez que o gigante tentava deixar a areia suave do mar e das praias, as árvores machucavam os seus pés, por isso precisava de um par de sapatos que lhe protegessem as solas.
O sapateiro topou o desafio, mesmo sem ainda ter ideia de como poderia realizar tal tarefa. Ficou muito tempo aflito com seus pensamentos até encontrar uma maneira de começar, por muitos dias rodeava o gigante. As pessoas da aldeia foram se acostumando com aquela figura estática, sentada no desfiladeiro da ponta da praia e, com o tempo, voltaram a pescar. Muitos ainda tinham medo do gigante, mas ele ficava apenas ali quieto, dizia não querer atrapalhar.
O sapateiro levou meses, apenas para fazer o planejamento. Com persistência convenceu amigos a colaborar com os esforços. Encomendaram material de toda parte, a notícia correu e comerciantes vinham de muito longe para trazer couro, madeira e algodão, além de cola e outros insumos que chegavam nos navios.
O gigante era muito paciente, permanecia sentado, com o queixo apoiado num braço, enquanto o outro braço cruzava sobre a barriga. Demorava semanas para mudar de posição e permanecia calado e sereno observando os trabalhos. Foram seis meses somente para fazerem a medição, tudo demorava enormemente, de modo que o sapateiro aprendeu a fazer as coisas no tempo dos gigantes. Ao longo de dois anos construiu as solas, durante mais três ergueu a cobertura e deu acabamento caprichoso, teceu os cadarços trançando cordas navais, reforçou a costura e poliu o couro. O sapateiro ficou amigo do gigante, conversavam enquanto ele trabalhava ou depois que terminava o dia. O gigante contou dos inúmeros lugares onde esteve e das proezas que já tinha feito. Como tinha muita paciência, descrevia com calma e riqueza de detalhes tudo que já tinha visto no mundo, mas somente quando as estrelas saíam e só restava o sapateiro e o gigante no alto do desfiladeiro é que o homem titânico abria seu coração e sonhava com suas preciosas montanhas.
Eis que chegou o dia em que os sapatos ficaram prontos. Orgulhoso de seu trabalho, o sapateiro convidou o gigante a prová-los, mas teve uma súbita surpresa. Sem falar nada, o homem mergulhou no mar, sumiu por três dias e deixou todos sem compreender o que tinha se passado. Depois ele retornou trazendo em suas mãos pedaços do que eram as ruínas do naufrágio de um antigo galeão espanhol. Despejou tudo em um canto da praia e, quando foram revirar, encontraram um grande baú, repleto de joias e moedas de ouro. Era o agradecimento e devido pagamento pelos trabalhos. A aldeia ficou rica, dividiram aqueles espólios, sendo que a maior parte ficou para o sapateiro.
O gigante, no mesmo dia, calçou sua encomenda e rumou em direção às serras. A cada passo um tremor de terra era sentido, os primeiros eram muito fortes, mas depois foram se esmaecendo. Foi deixando pegadas enormes, como clareiras na mata densa tropical. Ele andava muito devagar e demorou mais de um mês até que os tremores fossem imperceptíveis e sua figura ficasse pequenina novamente no horizonte. O sapateiro, aproveitando seu descanso depois do longo trabalho, assistia toda tarde o seu amigo sumir devagar na paisagem. Com os olhos altivos, do alto do farol, conseguia ver uma infinidade de coisas, terra adentro ou mar afora, e ficava pensativo. Todos notaram que seu coração estava mudado.
O tempo foi passando e a vida como era, naquela aldeia, mudou muito com a fama e a riqueza. O sapateiro, percebia que nada mais era agora como antes. Ele foi se tornando uma pessoa ainda mais reclusa e melancólica.
Um certo dia, com a parte que lhe pertencia do tesouro, o sapateiro encomendou uma quantidade inimaginável de novo material. Voltou aos andaimes e estruturas, já abandonadas, que tinha usado para construir o maior par de sapatos do mundo. Começou a trabalhar sozinho em um novo pé de sapato, um pouco menor, mais módico. Não dizia a ninguém o motivo do que estava fazendo, tampouco aceitava ajuda. Todos diziam que o sapateiro tinha enlouquecido, ainda mais quando, com o passar dos anos, se formava um único pé de sapato, que ninguém sabia dizer se era um pé direito ou esquerdo.
Desta vez, sozinho, foram sete anos até que aquele sapato solitário tomasse forma e ficasse pronto. Como todos os outros que tinha construído, era primoroso, muito bonito. Assim que terminou, toda gente ficou curiosa para uma revelação. Para quê serviria aquilo?
Quando estava finalizado e com toda a cola bem seca, com a impermeabilidade testada e um brilho lustroso, o sapateiro empurrou aquele pé ao mar, desde o alto do precipício. As pessoas ficaram estarrecidas. O enorme sapato caiu nas águas e espirrou um jato fenomenal, mas foi quando aquilo voltou à superfície que o sapateiro comemorou e pulou de alegria.
Por muito tempo ainda trabalhou no seu projeto, instalou mastros e leme, encomendou uma bujarrona, adaptou um convés e tablado. Era uma beleza, ele tinha feito sua obra prima.
Em uma manhã, antes que todos acordassem, quando o vento manhoso esvoaçava os panos enquanto o oeste absorvia a madrugada, o sapateiro partiu em seu navio-sapato. Rumou para o grande mar, no sentido contrário do sol que se levanta, venceu, no mesmo dia, a maior distância que já estivera de casa. Logo já não podia mais ver a costa. Estava sozinho, em pleno esplendor do oceano sem fim. Precisou consultar os livros de navegação que guardava na cabine, com o passar dos anos aprimorou o que era verdade e descobriu o que era mentira daquelas instruções escritas nos papéis.
O sapateiro viveu uma vida no mar, navegou por toda parte, viu os desertos infindáveis, a neve que cai vagarosa, florestas úmidas e rochas estéreis, conheceu o doce e o salgado. Passou por tormentas e calmarias, aprendeu a enfrentar tempestades e aproveitar o mar calmo, aprendeu a navegar no vento generoso e esperar com paciência as correntes vindouras, racionar na escassez e fartar-se na abundância, vibrar nas aventuras e recolher-se no tédio, apreciar o quente e o frio, simplesmente pelo quente não ser frio e o frio não ser quente. Viu as ilhas da Grécia, a areia das Arábias, os mares de toda parte, do gelo do norte ao gelo do sul.
Viu tudo que existe no mundo, fez proezas em muitos lugares por onde passou. Seu nome se tornou uma lenda. Certa vez ouviu sua própria história da boca de um poeta, em uma bela canção que recitava os feitos do capitão do navio-sapato.
Com os anos que acumulava também colecionava feitos impressionantes. Mas o tempo passou e ruiu casacos e chapéus, desgastou também o corpo e a disposição do sapateiro, fraquejou as mãos e os braços, arqueou a coluna e cansou suas pernas.
Aquele navio-sapato, que já teve tripulações grandes e pequenas, que já havia transportado maravilhosos tesouros, cruzado mares e oceanos, passado por lugares nunca antes navegados, também estava decaído. Já não tinha o brilho do lustre desde a primeira viagem, sofrera inúmeras avarias e precisou de muitos reparos, até reformas inteiras. Agora também se encontrava sem sua tripulação. Somente o sapateiro andava calmo e sozinho pelo convés.
Foi no entardecer de um dia qualquer, quando as nuvens se acobreavam num espetáculo fascinante. O navio-sapato vagava à deriva pelo mar, e o sapateiro só tinha a fazer contemplar a vista e beber um café.
Em um instante, as águas revolviam a frente da proa e, de repente, surgiu do mar um velho rosto conhecido. Ele não tinha mudado nada, a não ser por uns poucos fios grisalhos no seu bigode. O sapateiro pulou de alegria, ficou imensamente feliz ao ver seu amigo de tantos anos.
O gigante quis saber o que tinha feito e como havia chegado naquelas águas. O sapateiro contou toda a sua história, desde que partiu no navio-sapato. Durante vários dias eles conversaram. Teve tempo suficiente para se contar todas as proezas e aventuras, e o gigante ouviu atento, rindo e se emocionando em cada passagem.
“E você, nobre amigo, viu as suas montanhas?”
Então respondeu o gigante: “Eu andei pela terra, até que os sapatos que fizeste pra mim furaram as solas. Depois de tanto caminhar encontrei a montanha, olhei para cima impressionado, até então só tinha erguido meus olhos assim para ver as estrelas. Contemplei e louvei a montanha. Então eu subi na montanha, escalei a rocha e alcancei o topo, e de lá enxerguei uma nova montanha, ainda maior e mais alta. E na nova montanha vi outras tantas muito maiores. Vaguei por muitos anos procurando a montanha mais alta do mundo até que a encontrei. Com muito esforço alcancei o topo frio da maior montanha do mundo. Era gelado e solitário lá em cima, mas dava para ver muito ao longe, então me senti pequeno pela primeira vez, não pela montanha, mas sim pelo mundo. Fiquei muito tempo olhando o mundo de lá de cima até perceber que acima de nós todos, também estavam as estrelas, e percebi também que elas sempre estiveram em toda parte. Levantei-me, pensando estar tão alto, tentei alcançar as estrelas, não conseguia. Então chorei, me esforcei novamente, esticando os braços e ficando na ponta dos pés, a luz ainda parecia tão distante. Esperava sentir a luz na ponta dos meus dedos, mas não sentia. Por um descuido escorreguei e rolei montanha abaixo, caí como as pedras ao meu redor. Em pouco tempo estava de volta ao mar, todo machucado, e a montanha parecia ainda maior que antes. Mas fiquei feliz de estar de volta, depois de tantos anos andando pela terra, finalmente pude pisar descalço nas areias da praia.”
O sapateiro lamentou “Me vejo tão distante de casa, meu caro amigo. Queria eu poder voltar, assim num instante. Grande sofrimento tem sido vagar sem rumo nestes últimos anos.”
“Pois faça um último esforço neste navio, ponha no teu corpo velho a força vivaz de um jovem marinheiro e estenda as velas novamente, com isso não posso te ajudar, mas vou soprar na direção de onde fica a tua aldeia.”
E o sapateiro assim o fez, hasteou as velas, traçou o curso e ajustou o leme. Quando estava tudo pronto, ele, em prantos, agradeceu ao gigante. O homem colossal se preparava para assoprar, mas antes de tomar fôlego, antes de absorver tornados de ventos marinhos em seus pulmões, ele disse as últimas palavras ao sapateiro.
“Já te aprume preparado a soltar a âncora. Descobri, meu amigo, que o caminho pra longe de casa é sempre muito mais longo que o caminho de volta pra casa.”
FSSSSSSSSSSSS!
Henrique Siviero
Residente de São José do Rio Pardo, Henrique Siviero formou-se em Física e escreve sobre o que lhe desperta na vida, de experiências particulares às fantasias e tradições. Trabalha atualmente na revisão de seu Romance, possui contos e poemas publicados pela Amazon, dentre eles, estão os títulos "Cruiz Credo" e "Meia Dúzia de Poemas". » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa
Xadrez Alterado
Acordei um dia crendo não ser amado | Com um soluço guardado que não saiu de mim | Era um palpite dos amores mal empenhados | Que tão logo se foram…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Acordei um dia crendo não ser amado
Com um soluço guardado que não saiu de mim
Era um palpite dos amores mal empenhados
Que tão logo se foram sem ter outro jeito
E uma palpitação no peito que fica, enfim
Comecei a raspar com a lima meia-cana
No golpe do aço, torcendo a pua até que atravessa
O atrito que deforma e lasca a beirada
Esculpindo o xadrez peça a peça
Mas cada uma das peças foi alterada
Eu que inventei esse jogo deixei de criar
as regras, abdiquei de fazer as jogadas
Acordei aquele dia crendo não ser amado
Ah dia, tornaste em mim noite mais cedo
O sol, grande amor, não quer e não se mantém
No desamparo da noite, eu com a lua nos braços
Com a janela do quarto aberta e o medo
Que na manhã seguinte ela me deixe também.
Texto publicado na Edição 11 - Somníria, do Castelo Drácula. Datado de dezembro de 2024. → Ler edição completa
Leia mais em “Poesias”:
Artemísia
A pressão rompe o silêncio na madrugada | Vibra o éter como música e ressoa | Reverbera no acetato, ainda...
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
A pressão rompe o silêncio na madrugada
Vibra o éter como música e ressoa
Reverbera no acetato, ainda longe da alvorada
Cadente, nos ouvidos desta pessoa
Aos poucos me vem memoráveis momentos
Que longe vai o meu pensar
Reavive voraz a figura e me revira o intento
Faltava a substância de alucinar
Aquela do verde frasco deixado na prateleira
Insiste, ainda que eu queira,
No convite para expirar os vapores novamente
Doces ilusões inspiradas na mente…
Tão logo nas minhas mãos impregnaram seu cheiro,
Contra a janela fumaça e nevoeiro,
E o perfume se expande neste cômodo lugar
Como se arrebentasse um vidro de perfume inteiro
E subitamente se espalhasse pelo ar
Descomedido, fui além do que posso aguentar
Oito taças me arrisquei ingerir
Insistindo por várias horas sobre a mesa do jantar
Para no último gole então descobrir
Materializava um corpo bem onde eu estava
A forma feminina a dançar em minha fronte
Mais derretido e sombrio eu ficava
Como se um riacho desaguasse no aqueronte
Sufocado eu pedia uma fonte de água
Depois, eletrificado, perdi de vez o sentido
Nesta hora era o tempo de ter me arrependido
Restou apenas um misto de todos os sentimentos
De todos os vapores, emplastros e unguentos
A rolar na minha pele como um óleo qualquer.
Algo então se rompeu em mim, algo que eu não saberia bem como explicar. Era uma lembrança talvez, ou talvez fosse um tipo de vontade (mais certo que era). Culpei o álcool e o exagero, mas a vida contigo foi um exagero em dobro, uma embriaguez de tantos anos que me assombravam naquele momento e se fixavam naquela forma perdida e naquele movimento.
Era um ideal, enfim entendi
Algo que estava em mim, mas não em você
E deixei-me jogado naquela cadeira
Sem me preocupar se havia um porquê
Fiquei contemplando o corpo despido
Por baixo da transparência daquele vestido
Eu dançava com os olhos, da minha maneira
Será que é sólida para que eu a abrace firmemente?
Não lembro ocasião de ter visto um ser todo verde
Mas sim com o rosto corado num tom de rosé
Tem forma, tem corpo e tem face
E todos eles pertencem a você.
Leia mais em Poesias:
Dissoluções
Desfalecem os sonhos | Que sucumbem à incompleteza | Em grandes ondas, | No profundo mar da inconstância | Naufraga impotente a nau da incerteza…
Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula
Desfalecem os sonhos
Que sucumbem à incompleteza
Em grandes ondas,
No profundo mar da inconstância
Naufraga impotente a nau da incerteza
Agoniza o sonho de vil substância
Dissolve nas águas como um papel delicado
O frágil objeto de laços estreitos
Carregando fragmentos de sonhos desfeitos
Nas fluidas correntes do mar agitado
Leva o coração de um sonhador acordado
Até, por fim, encontrar no éter defeitos
Há um doido a nadar nestas águas
No licor de negrume do fosco luar
Se debatendo entre velhas resíduas
Golpeia a superfície escura do mar.
Luta valente com golpes fantásticos
E a lua aberta, mãe dos lunáticos,
Severa assiste seu filho afogar
Que salvem ele, ó navegantes!
Tirem ele deste mar de espinhos!
Mas se for para que volte a ser como antes
Deixemos então que se mate sozinho!
Leia mais em “Poesias”:
A Casa das Sete Irmãs
Num lugar etéreo existe um sobrado, que eu, ao andar pelos sonhos, encontrei ao acaso, nas horas tardias de uma noite qualquer…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Num lugar etéreo existe um sobrado, que eu, ao andar pelos sonhos, encontrei ao acaso, nas horas tardias de uma noite qualquer.
Eram paredes cinzas e descascadas, com um lodo escorrido em estrias escuras sobre a tinta branca envelhecida, recoberta de trepadeiras, tinha o contorno de uma burlesca figura.
Um jeito bucólico nas janelas altas, jardim de roseiras, árvores de galhos retorcidos, a grama por cortar de onde trevos brotavam, escondia os sapatos ao pisar no caminho.
Havia pedras encaixadas no chão antes de chegar na varandinha inclinada. A entrada breve tinha algo quase lúdico, recaía o telhado sobre a fachada. No fim da tarde havia um brilho nas janelas de vidro fúlgido.
Não se encaixava em qualquer época que fosse, perdida num mundo isolada e tão só. Uns ares nostálgicos de infância, mas era um pouco estranha demais para ser casa de vó.
Bati à porta e depois de alguns toques percebi que se abriu de repente. Ninguém me recebeu, na verdade, mas fui entrando pela porta da frente.
Era o fim do dia e meus olhos já sentiam a fosca escuridão do entardecer. Eu buscava ali uma estalagem onde eu poderia me hospedar, um lugar seguro para, então, adormecer.
Conforme entrei fui notando de quem era a residência, primeiro pelas fotos nas paredes, depois pelas próprias moradoras, que eu logo encontrei na sequência.
Eram mulheres muito bonitas, todas irmãs de soberba elegância, todas elas com capricho na aparência e um modo muito cortês, de pronto tive a impressão. Eram sete moças, nenhum irmão.
Tão logo estive com elas, percebi por que fiquei tão atraído, a natureza lasciva daquelas mulheres encantadoras. Eram elegantes, como uma dama deve ser, e eu estava acanhado, com desenvoltura amadora.
Passei com elas aquele fim de tarde e à noite subsequente. Foi uma noite tão fria e escura que o vento soprava fazendo parecer permanente. Mas tive uma ótima experiência no interior do sobrado, que agora eu conto neste breve relato.
Não eram tímidas nem tampouco audazes. Mas não estavam acostumadas a receber muitos rapazes.
Acho que é por isso que tive a honra de ser cortejado. Depois de um jantar no conforto do sobrado, na calmaria de um ambiente tão hospitaleiro. Ali eu era o único hóspede, não sei se fui o primeiro.
Não é que tivesse um jeito de cabaré decadente, por Deus, não, nem sequer as aparências de um lupanar. Tudo aquilo era até mesmo um pouco inocente, bastante respeitável pelo que consigo lembrar.
Assim, terminada a refeição, nas segundas horas daquela noite, começa o jogo de sedução. Se empenharam no cortejo, uma a uma. E eu tão sensível a elas, reagia emotivo como o arrepiar de uma pluma.
Satisfeito e acomodado ainda na mesa, vi uma imagem deslumbrante, me salta aos olhos a primeira beleza. Aquela que se revela de vez num instante, mas que devolve os olhares para então compreendê-la.
Eu passaria tantas horas contemplativo, sem nem mesmo o ângulo alterar. Poria meus olhos a desvendar essa mistura, imerso nas cores que a visão captura, perdido nas linhas daquele profundo olhar.
Ela foi uma paixão duradoura, um primeiro amor de juventude que ali reencontrei. Ela foi o primeiro sentimento da paixão quando estoura, o primeiro retrato depois que coroam o rei.
Aquele mundo dos seus olhares me envolveu como se fosse um novo sonho e me acolheu na paisagem etérea que fez dos contornos. Era algo nostálgico que estava em mim, eu suponho, naquela imagem construída de riscos, texturas e adornos
A próxima irmã era a boneca da pele clara mais lisa. De onde vinha um toque com a aspereza do olhar, nas formas de uma geometria muito precisa.
Ali havia o desenrolar inerte de um movimento na estática. Não sei onde ela nasceu, talvez fosse de todo mundo, mas tenho certeza de que ela cresceu na Ática. E ainda conserva um modo grego de mostrar o corpo em detalhes. Uma maneira caprichosa na destreza dos seus entalhes.
Embora ficasse imóvel, com suas misteriosas expressões na inação, desvendada no corpo em cada pormenor, debaixo da pele o músculo ainda sentia a pressão, carne viva num sentido maior.
Só seu toque era frio, me causava uma sensação inesperada por não ter tato na palidez, algo como um arrepio. Quase poderia esperar um calor, quase sentia o veludo da pele. Mas no teste me deparava com uma rigidez.
Intrêmula sem mudar o semblante. No entanto, havia um movimento insistente. É como se o tempo parasse num instante, mas que o vento ainda soprasse sutilmente.
A terceira irmã era proeminente. De rosto simétrico e a que vestia maior grau de elegância. Ela é a que esteve sempre presente, em toda a cidade que visitei, em qualquer circunstância. Por isso a considero inevitável. Era a mais prática de todas elas, de ações certeiras e personalidade razoável.
Ela sabe ser modesta quando quer, e assim mesmo transbordar sua beleza. Era a mais magnânima mulher, nos braços dela fui tratado como um membro da realeza. No descanso do seu toque eu senti um grande alívio. Companhia da solidão ou cenário do convívio.
Me convidou para a sala que era um lugar tão agradável. Foi aquela que me fez acomodar, me pôs no maior dos confortos daquela casa que era seu próprio lar.
Daí então me estendi na poltrona e ali estava um calor convidativo. Depois me mostrou a sua grandiloquência, a sua vocação eminente e soberana. Ela era o modo mais eficiente de representar a grandeza humana.
Então todo meu entorno era a coisa mais nobre, foi ela quem o criou assim. Fosse com o recurso mais rico ou então o mais pobre, a casa e seus cantos, que encontrei pelo caminho, eram a pura expressão dos encantos desta nobre irmã e seus carinhos.
A moça seguinte era então deslumbrante, a que encontrei, talvez, tardiamente. Tão alheia a mim, mas tão excitante, eu mal notei, mas tanto esteve em mim presente.
Estava nos gestos que me recordam a memória, estava na ação do que quer que eu fizesse. Ela, a maneira mais sofisticada de se contar uma história, logo apareceu mostrando a sua finesse.
O rosto mudava num vórtice de emoções ostensivas, causando-me um êxtase tão expressiva figura. Surgiu num instante, como a visão de uma diva, usando a meia luz daquela sala escura.
Ela era todo um mundo que surgia na minha frente, toda possibilidade das coisas como poderiam ser se elas emergissem como são na nossa mente, a ficção mais real que alguém poderia conceber, a verdade filtrada do mundo aparente.
Todo o drama que ela tinha vivido ainda estava ali completando a tragédia. A mais sofrida das irmãs, também ria e encenava suas dores e lágrimas como se fosse uma comédia.
Fiquei absorto ao assistir sua performance, me ganhava a atenção cada hora mais e mais. Devia ser a mais sensível, era o que eu pensava enquanto ela estava ali na minha frente. Era a mais destacada, era, até então, o olhar mais potente.
Logo em seguida, com um andar ritmado, vem a jovial e mais enérgica das mulheres daquela casa. Veio suave quase levitando, como se movesse com auxílio de asas.
Era mesmo como um anjo ao fazer seus balanços suaves. Ela tinha um incrível controle, tal como a delicadeza que têm as aves. Pois voava como se morasse num céu esplêndido de outono, nas nuvens evanescentes, no vai e vem. Essas nuvens se moldam no vento com a mesma fluidez que ela tem.
Esta era o corpo por excelência e colocava seu corpo no limite da possibilidade. Me deixava atônito em ver suas proezas, que fantástica desenvoltura ao saltar com destreza, que sentimento apaixonante em mim ela invade.
Tinha um jeito de menina travessa e um andar ostentoso de mulher fatal. Era como o leito de um rio em correnteza ou como a luz coruscante no brilho de um cristal.
Suas pernas e braços deslocavam o ar, deve ser por isso que ele me faltava naquele momento. Esvoaçava os panos das vestes de um jeito que poderia ser as vezes rápido ou mesmo lento. Foi desta forma que ela me fez entender o significado mais precioso do que é movimento
Grande amor foi a seguinte. O maior de todos, da paixão mais aguda. De linhas finas e modo suave. Era tão passional a penúltima irmã e seu amor também era o mais grave
Era a mais velha daquela família, personalidade forte de um jeito volúvel, eu poderia dizer até mesmo lunática. Governava as outras como uma grande soberana e seu corpo tinha uma perfeição matemática.
Ela tinha um toque tão cativante, uma carícia e um apelo tão fortes às minhas emoções, se divertia em acelerar o ritmo do ar que eu aspirava nos meus pulmões.
Surgiu de canto sem que eu notasse, sua presença não vi, mas eu pude sentir. Pelos panos pousados no chão ao meu lado, percebi que ela deixou seu vestido cair.
Busquei ansioso ver onde ela estava, quis afoito olhar sua nudez, virava a cabeça seguindo o ruído. Eu procurava de um lado e depois do outro, mas só sentia os sussurros bem perto do ouvido.
Ela era também a mais íntima da Inspiração, a causa de um êxtase quase hipnotizante. Naqueles braços eu sentia as batidas do meu coração, que se repetia pulsando de instante em instante.
E a última… Eu me lembro bem.
Por fim esta última me causava um mistério. Permanecia alheia a mim, de canto, num semblante mais sério. Acho que esperava que eu a entendesse, lançava seus olhares, mas não se empenhava.
Eu sabia dela pelas histórias contadas, irmã inquieta, do tipo aventureira, com um viver inteiramente conturbado. Saiu pelo mundo registrando o que via e trouxe pra cada uma das outras um presente guardado. Um breve relato de alguém ou uma descrição que revivesse a essência de um belo lugar. Algo que servisse de inspiração, que fosse proveitoso pra alguma outra usar.
Foi assim que me despertou a curiosidade, com um vislumbre pequeno do que ela trazia. Quanto andou? Por onde tinha passado? Eram perguntas que eu me fazia sem saber ao certo se eu queria a resposta. A verdade é que eu queria tudo e queria saber o quanto ela estava disposta.
Eu esperava que algo acontecesse, que alguma coisa mudasse aquele silêncio. Será que era isso que ela pretendia sem que eu percebesse? Eu estava intrigado com aquela situação, fiquei tenso e inseguro até que notei o mais evidente, ela inverteu esta lógica da sedução.
Seu olhar analítico era estonteante, isso sem sequer tentar algum raio fatal. Me olhava serena, de um jeito distante, com ares altivos de quem pouco se importa. Ao mesmo tempo flui a minha imaginação em composições de lembranças que a consciência recorta transformando cada uma em irmã.
Esses fragmentos que a última me trouxe, me remeteram às outras mulheres daquela morada. Então entraram, naquele olhar, todas elas. O cortejo daí teve fim, no último toque de cada uma, pois se foram então de repente. Era apenas o éter de uma visão, formas sem solidez, presença evanescente.
Sobrou por fim só a última irmã sentada na sala, no mesmo lugar, inerte e ainda com a mesma expressão, fazendo parecer que mesmo calada ainda tinha muito a dizer.
Ela era a amada irmã, que trazia um pouco das outras em si. Mesmo não sendo a mais velha carregou-as todas quando criança, tinha um pouco delas sem que precisasse usar de alguma forma, cor ou estímulo sonoro. Ela era mesmo um grande mistério, esfinge de inúmeros enigmas. “Decifra-me e desta forma eu te devoro”.
Leia mais contos:
O Poeta das Mil Noites
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Me chamo Mateo Castilho e acho estranho que eu conheça meu próprio sobrenome. Nasci num ducado do reino de Castela, minha mãe era filha de um cavaleiro nobre que morreu na cruzada de reconquista. Estas poucas noções é tudo que sei da minha origem. Meu pai não sei quem foi, mas tenho feições mouriscas, por isso já levantei muitas suspeitas sobre quem sou, algumas um pouco assombrosas, talvez.
Quase não tenho lembranças de minha mãe e de onde eu nasci, também não sei descrever o lugar, fui levado de lá muito cedo, ainda criança e por isso tenho dificuldades com a língua castelhana. Fui tirado dos braços de minha mãe pelos invasores em uma noite sangrenta, raptado e levado para Córdoba, vendido como escravo para uma família de mercadores aristocratas do califado. Aprendi outros costumes e outras línguas, maneiras as quais eu não era familiarizado, mas hoje é como se tivesse sempre vivido entre os maometanos.
Quando cresci e comecei aprender as línguas estrangeiras, tive facilidade com o modo de falar dos mercadores que chegavam de toda parte do mundo. Talvez por isso me deram uma ótima educação, apesar da minha condição de prisioneiro, era de grande valor o servo que pudesse facilitar as comunicações com os negociantes, até boas vestes me foram concedidas.
Tive aulas com os melhores mestres andaluzes, com o tempo notaram minha vocação para o letramento, me ensinaram gramática, religião, história e também as artes do canto. Nesta arte encontrei minha primeira e mais duradoura paixão, junto dela também aprendi a correr os dedos pelo alaúde, aprendi a tocar muito bem este instrumento, dominei as cordas e os dedilhados melhor do que qualquer um dos menestréis de Córdoba. Permitiam-me algum tempo para praticar estes dons que eu descobri ainda jovem e sempre pediam que eu alegrasse o salão durante o jantar ou as visitas durante as conversas de negócios do meu senhor.
Mas um outro amor que eu encontrei junto com meu dom teve uma passagem mais breve e mais trágica na minha vida. A bela filha de meu senhor, Ester gostava de me ouvir cantar. Fiz bonitas canções para ela e foi exatamente esse o início da ruína deste grande amor. Nos descobriram enquanto eu cantava à noite nos terraços para que ela ouvisse, nunca estive junto dela, mas isso já era algo suspeito demais para manter minhas poucas liberdades. Fui aprisionado, privado de água e comida, e depois de alguns meses vendido para um traficante que me levou para Argel numa tortuosa viagem no porão de um zambuco. Quando cheguei naquele lugar fiquei aliviado de pôr os pés na areia, depois vi tanta areia naquela noite e mal sabia quanta areia ainda veria em toda minha vida.
Tantos anos se passaram em Argel, os anos mais difíceis. Deixei de ser jovem naquele lugar. Não sei quantos anos eu tenho agora, mas talvez tivesse chegado lá com quinze ou por volta disso. Servi o palácio como criado particular de uma das concubinas do Sultão. Uma mulher esguia que tramava inúmeras conspirações e intrigas no palácio. Notei como ela influenciava com língua de cobra as políticas do sultão e daquela corte. Também descobri um de seus muitos segredos, ela escondia nos seus aposentos livros de magia proibidos, dos antigos Dins, também conversava com estes espíritos no deserto. Na madrugada fria da imensidão de areia, saía de noite por uma passagem secreta e voltava manchada de sangue. Certa vez ela me trouxe um alaúde, disse que os Dins mandaram que ela comprasse um bom instrumento no bazar e desse para um de seus escravos. Por coincidência ela me escolheu, mesmo não sabendo que eu dominava aquele instrumento. Talvez este meu segredo tenha sido contado pelos espíritos do deserto que tinham algum tipo de propósito no meu destino. Peguei a concha de madeira bem trabalhada em minhas mãos, era o mais belo alaúde que eu pudera colocar os olhos, uma peça de carpintaria finíssima, não sei de quem ela obteve, não era do tipo que vendem os mercadores.
Temi não me lembrar de nenhuma canção, mas assim que o tomei nos braços e empunhei a escala e as cordas, foi como rever um velho amigo que não mudou nada com o passar dos anos, toquei com destreza e exímia habilidade. A feiticeira ficou muito impressionada e me exigiu que eu tocasse para todo seu séquito. Assim fiz durante algumas noites sem saber que, na verdade, aquela mulher tinha me amaldiçoado. Enquanto eu dormia, entrou pela janela um espírito muito antigo e me revelou nos meus sonhos que, quando eu aceitei o presente da minha senhora, firmou-se um contrato com os Dins. Eu empunharia o instrumento como ninguém jamais fez, cantaria tão lindamente como ninguém jamais pôde e criaria as mais belas canções que já foram criadas, no entanto a fama não alcançaria o meu nome, eu teria que provar a cada trova que eu era o grande bardo das noites argelinas, esta porém não era a condição mais cruel, eu só poderia exercer minha arte por mil noites e quando se esgotasse esta conta, nunca mais poderia cantar, pois ficaria mudo e cego até o fim da vida, condenado a vagar sozinho pelo deserto.
Incrível como foram as noites depois deste sonho assombroso, embora tivesse acordado assustado na manhã seguinte, eu não acreditei que aquilo era verdade, mas meu talento ficou muito mais aguçado e foi se desenvolvendo cada vez mais, de um modo que quase atingia a perfeição. Tocava pelas noites de Argel, no palácio e nas casas mais nobres, sempre cercado de boa comida, bajulações e mulheres jovens e bonitas. Tornei-me o maior amante dos prazeres, vivi empenhado em esbaldar das benesses que este dom me proporcionou, me embriaguei nas maiores abundâncias da riquíssima cidade de Argel, quase me esqueci que eu era um escravo.
Então que um novo sonho aconteceu, depois de uma noite das mais festivas e agitadas, um novo espírito entrou pela janela dos meus aposentos e me mostrou uma ampulheta que era o contador das noites que eu usufruí e das que ainda me faltavam. Não sei dizer ao certo o número que ainda restava, mas a areia já tinha escorrido a maior parte para o bulbo do vidro de baixo. Acordei desesperado ainda na madrugada, entrava um vento frio pela janela por onde eu via as estrelas e as dunas do deserto. Tive uma nova epifania acordado, pensei em toda a minha vida, na minha mãe e em Ester. Onde poderiam estar? Chorei pela primeira vez desde que eu era criança, pedi que algum espírito ou qualquer força maior me escutasse, pedi que quando minha maldição se concretizasse, eu vagando cego e mudo pelo deserto ainda pudesse ver com clareza as figuras de minha mãe e de Ester.
Decidi fugir daquela cidade, decidi ir embora de Argel. Arrumei algumas poucas coisas, água e tâmaras, embrulhei meu alaúde e segui pela passagem secreta que levava fora dos muros da cidade entre o mar e o deserto. Cheguei na praia e continuei para o leste sem saber o que esperar ou o que eu poderia encontrar, andando entre as quatro maiores imensidões que existem, a imensidão arenosa do deserto à minha direita, a imensidão salgada do mar à minha esquerda, a imensidão brilhante das estrelas no céu e, por último, a imensidão da alma dentro de mim.
Andei por tanto tempo, não sei estimar, mas algo estranho acontecia, aquela noite parecia eterna, como se passasse muito mais de doze horas e o dia não dava sequer sinais de alvorecer. Andei pela areia até Argel sumir à distância atrás de mim. Eu estava só caminhando sem ter um rumo ao certo, consumi todas as tâmaras e toda a água, tive certeza de que caminhei por muitos dias embora a noite jamais deixasse o céu.
Quando já estava exausto, sentindo a falta de água e de comida, minha mente turva sem saber se minha atitude foi sensata, avistei uma luz ao longe. Caminhei até me aproximar, quando chegava perto reconheci a forma de uma ampulheta espectral, uma névoa brilhante pendente no ar, parecia ser feita de estrelas. Tive vontade de tocá-la, estendi a mão e quando o fiz, um raio de luz me ofuscou num instante e percebi que estava em um lugar diferente. Eu pisava sobre um gramado, rodeado de jardins verdejantes e diante de mim havia um suntuoso castelo europeu. No ambiente pairava um murmúrio alegre e notei que chegavam convidados para uma festa, todos trajados com muita elegância e usavam máscaras cravejadas de brilhante, entendi que haveria um baile e me animei em participar.
Um cavalheiro vinha em minha direção, não o percebi chegar, tinha cabelos na altura do pescoço, bigode fino e cavanhaque pontudo, conversou comigo durante alguns minutos, tinha gestos delicados e uma postura muito gentil. Acho que ele é o dono deste lugar, um conde talvez. Por certo é muito rico e me passa ares de ser muito culto. Ele notou meu estado decadente e mandou que trouxessem um copo de água para matar minha sede. Aquela água estava deliciosa, parecia um elixir revigorante. No instante seguinte já pensava eu: “Que mal tem um pequeno grãozinho de areia a menos na parte de cima da minha ampulheta?”.
Leia mais desta autoria:
Okina Egao
Aconteceu em trinta e um, se não me engano, sei que foi antes da guerra isso que vou contar. Lembro-me bem, porque já naquele tempo chegava muita…
Imagem criada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula, com Midjourney
Aconteceu em trinta e um, se não me engano, sei que foi antes da guerra isso que vou contar. Lembro-me bem, porque já naquele tempo chegava muita gente vinda do Japão para São Paulo, algumas famílias de feições asiáticas traziam seus costumes e a tradição muito antiga dos japoneses. Existem até hoje bairros inteiros que conservam essa tradição. Naquela época muitos imigrantes se misturavam nas ruas e nas fábricas de São Paulo. Eu trabalhei na indústria quando jovem e vi muito bem isso tudo.
Tive amigos de todo jeito quando morei na capital, havia gente de toda a parte entre os meus conhecidos. Trabalhávamos na fábrica de latinhas, naquele calor da máquina que aquecia o metal para prensar as formas. Um desses amigos era um japonês de meia idade — denunciada pelo surgimento de alguns cabelos brancos — e recém-chegado do Japão; seu nome era Ishiro, possivelmente era. Não sei ao certo qual era seu nome porque logo os operários o chamavam por uma corruptela do outro idioma que era Ichinho. Aquele era um homem pequeno, baixo de altura e franzino de músculos, mas incrivelmente forte e tinha um rendimento impressionante na linha de produção. Tive uma breve amizade com ele, mas era difícil a aproximação, talvez muito se deva à sua dificuldade com o nosso idioma. O seu Ichinho era um sujeito recluso e pouco comunicativo, falava por palavras soltas que, quando juntadas, era necessário deduzir a mensagem pelo contexto. Além disso, era também naturalmente solitário, não estava sempre de bom humor, mas era uma pessoa muito amável quando possível.
Me lembro dos japoneses como gente muito hospitaleira, me vem na lembrança uma família que era vizinha do seu Ichinho, se instalaram numa casa perto de onde eu morava e, muitas vezes que passei por lá, passava horas conversando com eles, fazendo amizade e trocando costumes, assim aprendi um pouco da bela cultura asiática. Descobri que eles também tinham uma imagem de estranhamento daquele homem, achavam ele misterioso e recluso demais. Às vezes o Ichinho estava na casa deles, mas nunca os convidou para a própria, diziam que ele nunca acendia as luzes e a casa vizinha estava sempre escura.
Meu pequeno grupo de amigos gostava muito de pescar e caçar nos dias de folga. O trem era muito barato naquela época, comprávamos uma passagem até a alta paulista onde costumávamos ficar até uma semana ou mais, quando possível. Certa vez perguntei ao Ichinho se ele gostava de pescar, tive que explicar com gestos até ele entender, depois com um sorriso me respondeu “Peixe, eu gosta, eu pegava peixe Japão”. Convidei ele para uma de nossas aventuras nos rios da alta paulista, me surpreendi que de pronto ele aceitou, talvez tivesse, com o convite, encontrado o passatempo favorito do homem.
Nos tornamos mais amigos desde então. Embora ele falasse daquele jeito de quem não domina a língua. Com o passar do tempo começamos a entender melhor as coisas que ele pretendia dizer. Descobrimos que Ichinho tinha deixado a família, todos eles saíram do Japão, mas foram para o norte, para o estado do Pará, só ele, aparentemente, tinha vindo para São Paulo, entre outras coisas ele também nos contou que foi militar e notamos que tinha uma habilidade de mira excepcional, muito útil nas nossas caçadas. Talvez pelo tempo que servira, ainda carregava consigo uma espada que agora servia como facão para abrir picadas no mato. Nós que só tínhamos facões baratos, de aço fraco, ficávamos admirados de ver o homem tirar aquela antiga espada japonesa da cinta e sair golpeando os galhos, cipós e arbustos da mata densa. Em questão de instantes a trilha se formava na nossa frente, tamanha capacidade de corte daquele artefato e habilidade de quem o empunhava. Já ouvi a palavra Katana para se referir às espadas japonesas, mas depois de muito tempo me esclareci que os vocábulos que ele emitia que pareciam algo como “oxaxi”, se referiam a wakizashi, que é um tipo menor de espada, um pouco mais curta que a Katana.
Seu Ichinho, nos momentos de lazer, era uma pessoa alegre, mas logo começava a transparecer para mim aquele tal lado misterioso que seus vizinhos se referiam. Esse comportamento estranho não aconteceu nas primeiras vezes que fomos até a alta paulista, mas com o passar do tempo percebi um padrão suspeito. Quando era noite, já quando a maioria estava dormindo, Ichinho desaparecia do acampamento, depois ouvia-se o estampido de um tiro no meio do mato, então ele reaparecia. Passaram-se algumas noites em que o mesmo se repetia. Certa vez o vi botar a cartucheira nas costas, junto com a espada, e se embrenhar fora da trilha. Outra vez, junto de uns amigos, o vimos voltar da escuridão carregando os mesmos apetrechos, alguém perguntou “E então, matou algum bicho?”. Ele respondeu “Não, escapou”. O que era muito estranho, nas caçadas nunca o vi errar um único disparo e, nas nossas competições de tiro por brincadeira, era capaz de acertar uma garrafa a quase cem metros, coisa que nenhum de nós conseguia.
Mas esta história estranha tem seu lado obscuro que só se justifica por causa de uma ocasião. Numa dessas caçadas, já era tarde da noite — uma noite escura onde até o mato estava silencioso. Estávamos perto do inverno, no mês de maio. Os bichos estavam quietos e as caçadas não renderam nem sequer uma pequena paca, mesmo os peixes no rio eram difíceis de fisgar. Acho que naquele mês só fomos à alta paulista pela diversão do acampamento, passar um breve final de semana. No sábado eu estava sozinho perto do fogo quando vi Ichinho sair da tenda armado com seus dois apetrechos. Acho que ele esperava que não haveria ninguém ainda acordado, mas sem querer eu o interceptei. Ele chegou junto do fogo e se sentou um momento. Naturalmente perguntei “Que vai fazer?”. Ele parecia bem mais sério que de costume, me respondeu “Matar bicho, não queria, mas precisa… Seguir eu, seguir eu… Eu não quero mais… Seguir eu, seguir eu… Precisar matar”. Ele estava trêmulo e parecia nervoso, o modo como falava era desolador e o mal português era ruim até para ele. Estranhei aquele comportamento, mas ele se levantou e se dirigiu para o mato, sumindo na escuridão.
Pensei por um momento, não entendi o que ele disse, mas imaginei que fosse um pedido para que eu o seguisse. Embrenhei-me na floresta atrás dele, não o encontrava, ele não carregou nenhuma lamparina consigo e sequer eu o fiz. Tudo estava escuro, andei alguns metros me afastando da fogueira. Ouvia ao redor de mim o mato retorcer, mas não sabia identificar de onde vinha, minha única referência era o fogo do acampamento que eu deixava cada vez mais longe, ia mudando a todo momento a direção do meu caminho perto da margem do rio, conforme achava que escutava algo andar naquela floresta. Em certa altura percebi que seguia dois ruídos diferentes, em lados opostos dos meus ouvidos, um se aproximava e outro se afastava.
Ouvi o estampido de um tiro e nessa hora percebi algo se deslocar com uma velocidade incrível, um espectro pálido, que pensei que fosse um grande animal, correu rápido e perdi sua trajetória, que é bem verdade, não soube ao certo estimar tamanho ou qualquer outra coisa. Olhava por todos os lados enxergando muito pouco. Aquelas passadas no escuro, senti se aproximarem de mim, mas eram indiscerníveis para os meus sentidos, desejei ser uma coruja ou um morcego nessa hora. Quando a coisa parecia estar muito perto, já podendo me alcançar, ouvi um grito nas minhas costas. Um grito gutural e aberto, de quem empenha um golpe brutal. Assustei-me e repentinamente me virei, vi o homem com a espada desembainhada, aquele arco da lâmina reluzindo como um espelho era a única coisa discernível no escuro, dei um salto para trás caindo nas folhas de um arbusto e o pequeno japonês veio em minha direção, pensei que fosse me golpear, mas ele chutou algo no chão e depois abaixou a espada, percebi então que alguma coisa fugia fazendo um barulho horrível, já estava distante de nós, cruzou o mato e caiu nas águas daquele rio.
Perto de mim o homem estava muito nervoso, chegou mais perto indagando.
“Que você fazendo?! Que você fazendo?!”
“Segui você!” Respondi
“Você não seguir eu, não seguir… Eu fui pegar bicho”
Fiquei confuso na hora e perguntei:
“Você não pediu pra eu seguir você?!”
“Não pediu!” disse, bravo.
Voltamos para o acampamento seguindo a trilha daquela luz da fogueira que deixamos, sentamo-nos novamente perto da brasa, curiosamente ninguém acordou, refleti que afora o tiro e o grito de Ichinho que aconteceu um tanto longe das tendas dos outros companheiros, aquele acontecimento todo foi bem silencioso, mas pareceu barulhento para mim, pois foi pavoroso. Meu coração ainda estava disparado e eu, sem entender nada, fiz um gesto pedindo alguma explicação.
Seu Ichinho não entendeu aquele gesto, ainda estava sério e encarava o fogo pensativo. Depois insisti, não me lembro que palavras usei, mas me lembro como ele me respondeu. Arreganhou os dentes cerrados, fazendo uma careta que mostrava até as gengivas, apontava para a boca e dizia.
“Seguir eu, seguir eu… Como chama isso?”
Não compreendi de pronto o que ele quis dizer, mas como apontava para os dentes que mostrava, respondi “Sorriso”
“Sorriso grande… Seguir eu” ele disse.
Na manhã seguinte, pouco depois de recolher as coisas do acampamento e dobrar as tendas, fui andar na margem do rio, perto de onde me lembrava ter acontecido tudo aquilo na noite anterior. Poucos acreditam quando conto, mas ao ver marcado na terra da barranca o rastro do que eu imagino que foi a investida do golpe com a wakizashi, olhei ao redor pelo chão e encontrei algo absolutamente aterrador. Era uma mão humana, ou ao menos parecia um pouco humana, estava seca como a de um cadáver, pálida e tinha unhas negras compridas. Tomei aquele objeto com um lenço, só quando o ergui do chão é que percebi a natureza do que era. Há quem diga que foi o susto, isso bem justifica a minha atitude depois de segurar aquilo, mas juro que ainda acredito na minha versão primeira. Senti que os dedos se mexeram e então, rapidamente, arremessei aquilo no rio.
Não contei nada a ninguém, não quis criar nenhum problema ou causar desconfiança dos outros ao meu amigo japonês, acredito que naquela noite ele salvou a minha vida. Na semana seguinte soube que Ichinho pediu conta da fábrica, nunca mais o vi desde então. Seus vizinhos me entregaram uma carta que ele deixou com o meu nome. A carta era muito curta e muito simples, com aquele mal domínio da língua.
“Fui embora, vou Pará ver família, ficar com eles agora. Eu poder. Obrigado amigo. Sorriso grande não seguir mais”
Junto havia uma gravura, arrancada da página de um livro, quem sabe. No pedaço de papel, cercado de símbolos da escrita oriental que eu não entendo, tinha a imagem do que parecia ser uma máscara japonesa de samurai, mas tinha aspectos horrendos e assustadores, um rosto magro, com olhos penetrantes e o mais expressivo era aquela boca com os dentes à mostra e presas pontiagudas saltadas do canto. A mesma letra desajeitada do bilhete escreveu embaixo da gravura “Sorriso grande”.
Leia mais deste autor:
Balada Vampiresca
Uma sombra a cavalo se movia | Sob as chuvas torrenciais de agosto, | Uma capa escura o protegia | Enquanto um chapéu ocultava seu rosto…
MidjourneyAI
“Despair has its own calms.”
— Drácula, Bram Stoker
Uma sombra a cavalo se movia
Sob as chuvas torrenciais de agosto,
Uma capa escura o protegia
Enquanto um chapéu ocultava seu rosto.
Aquela silhueta de animal e cavaleiro
Negrume cobria a forma por inteiro;
A luz dos raios azuis o guiava,
Trovões ecoavam como chamados,
Na escuridão estes clangores ressoavam.
A parede branca de uma casa avistara
Com a pouca luz que ainda perdurava
Do cair da tarde com as nuvens escuras.
Pelo caminho enlameado, as pedras duras,
E a casa ainda ao longe se encontrava.
Se havia hora de chegar, já passara o tempo,
Pra quê se apressar? Anteciparia o lamento
Ou então era um equívoco, mas só tinha uma maneira
Para saber qual o destino: passar pela soleira.
Atingiu já bem tarde a construção abandonada
No horário que vira a data, hora malfalada,
Quando acontecem as coisas pavorosas,
Ainda mais nestas sinistras noites chuvosas.
E, no volume de uma nova enxurrada,
A água pingava daquela capa encharcada,
O mato tomava algumas paredes caídas,
Um muro se estendia adiante das vigas,
O casarão imponente da época colonial,
Uma casa grande há muito esquecida
Afogada nos novos tempos e no temporal.
Era certeza de ali haver nenhum vivente,
Nisso nenhuma alma esteve impelida,
A certeza não era uma sensação querida,
As ruínas ocultavam algum ar comovente
Cercadas de mato, espinhos e árvores mortas;
À frente um grande portão de ferragens tortas
Subia entre as pedras, um caminho desgastado,
Um túmulo, então, surdo de um esplendor sepultado
Trazia, na decadência, a escuridão conservada
Como as grutas sinistras na beira da estrada.
Assim, desceu da sela, frente à entrada,
Desembainhou uma lâmina, revelou seu fio,
Checou a extensão do corte e a escada subiu,
Não há o que duvidar, era prata, por certo,
Reluzia e fulgurava aquela língua triangular
Contrastando a extrema escuridão do lugar.
Foi entrando prudente no salão deserto,
A adaga à frente e a garrucha por perto,
Foi penetrando na ameaçadora escuridão
Procurando um aposento naqueles destroços,
O escuro e o medo causaram um tremor;
Ele não percebeu, mas pisava em ossos
Enquanto caminhava pelo corredor.
Viu uma claridade e uma porta aberta
E um mal pressentimento o desperta,
Adentrou o cômodo na procura ávida,
E uma mulher morta estava ali deitada,
O corpo estendido e a pele pálida.
Reconheceu a feição no rosto da amada...
O breve luto deu lugar ao desespero,
Pudesse ter passado por tal desterro
Em perder quem mais amou,
Mas o amor não vai tão cedo
Mesmo apesar do pavor e do medo.
A lágrima cadente, o sangue não compensou...
Se por sangue, derramado em vão,
Exigido frente à face da morte,
Mais exigente é, então, o perdão
E mais violento que o preciso corte.
Este outro sangue, a fúria incendeia,
Efervescido, corre o furor nas veias,
Chora como a chuva lá fora...
Torrencial desespero que vela a sepultura,
Seu olhar vermelho apavora;
Para esta perda não há nenhuma cura,
Mas, eis que o inesperado acontece!
Abre os olhos a mulher que está deitada,
Mas, tem algo de errado, olhando parece
Que ela jamais esteve acordada;
Não se move como a um corpo convém
E, mesmo serena, seu olho é vermelho também;
Se ergue do leito contrariando a Osíris
E o vermelho nos olhos está nas suas íris;
Estalam-se estes olhos como se ofuscados,
Mas, no escuro, sem luz para serem incomodados,
Vagarosamente ela começa a acordar
De um modo desconjuntado, sem calor interno,
Seus movimentos são como o espreguiçar
Só que de quem acorda no inferno,
Ele, que chora por ela derramando lágrimas,
Não sabe a que prece ou atitude recorrer,
Mas não são lágrimas que ela deseja ter...
Impediu seus avanços nas últimas lástimas,
A força de um animal toma o corpo feminino,
Retorce seus membros sem nenhuma dor causar
Como um tenebroso desenho do império bizantino.
O rosto inocente já não é mais familiar,
Transfigurava a face e a musculatura
E de uma bela mulher tornou-se horrenda criatura,
Não há espaço para dúvida, era a maldição otomana,
A vê-la assim, preferiria vê-la sob as chamas,
Era algo terrível que ele não poderia suportar,
Os horrores que aquele olhar voraz revela
Toma seu corpo nos braços, naquele relutar,
A ponta da adaga mirada no peito dela.
A primeira vez que a vi foi numa noite sem lua, tão escura quanto a alma dos homens corrompidos pela luxúria. Mal sabia eu que contemplava minha própria ruína…