Necrose

Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando a noite sepulta o horizonte sem luz,

E o zênite em luto ao abismo conduz,

Ante o pálido horror deste céu cinzento,

Eu me rendo ao rigor do pior isolamento.

Não o vago silêncio de antigos altares,

Onde o tempo desfaz os mortais relicários,

Mas a mudez que habitava a primeira amplidão,

Antes que o Caos gerasse a primeira ilusão.

Eis-me aqui, átomo só, poeira esquecida,

Náufrago cego nas margens da vida.

Penso até que a razão se transforme em veneno,

A sondar o mistério deste arco terreno.

Que arcano se esconde na cúpula escura?

Que traço desenha tamanha negrura?

As perguntas despertam qual hera sombria,

Sufocando o saber em total agonia.

O teto do mundo é um vasto jazigo,

Onde cada planeta pulsa em castigo;

Não há brilho sutil nas estrelas distantes,

São piras de mortos, faróis vacilantes.

E na névoa sutil da matéria oculta,

Uma força sem nome o cosmos sepulta;

Monarca espectral que governa o enigma,

Deixando no espaço o seu negro estigma.

A angústia regressa com passos de chumbo,

Cobrindo de trevas o meu próprio rumo.

Existir é fitar o declínio da mente,

Sem asas que salvem o corpo decadente.

Sou mente, fagulha, frágil claridade,

Fissura efêmera na imensidade;

Condenado ao tormento do eterno inquirir,

Enquanto as estrelas se deixam ruir.

O éter se cala, nenhuma voz desce,

Nenhum deus escuta tamanha prece.

No centro de tudo, domina o vazio,

Monótono, imenso, soberbo e sombrio.

Não há julgamento, clemência ou rancor,

Apenas o vácuo em seu gélido horror;

Se a morte desenha os seus tristes contornos,

O nada desfaz nossos corpos já mornos.

Retorno ao degredo, ao cerne do tédio,

Onde a alma padece sem cura ou remédio;

Ali permaneço, fantasma de outrora,

À espera do fim que a matéria devora.

Escuto o rumor desse abismo trancado,

Qual réprobo mudo ante o templo sagrado:

Sabendo que o véu nunca há de ceder,

Mas preso ao limiar do que não posso ver.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora, | Onde a carne estrangula as estátuas da memória; | Onde o mármore ferve em rubro e profundo,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora,

Onde a carne estrangula as estátuas da memória;

Onde o mármore ferve em rubro e profundo,

E os relógios apodrecem no ventre do mundo.

Teu hálito desliza nas naves vazias,

Como incenso sombrio de antigas liturgias;

Teu riso ressoa nas torres do abismo,

Misto de espasmo, de parto e cataclismo.

Ó Soberana dos véus e das peles feridas,

Que destilas o gozo dos restos de vidas;

Não para a glória dos tronos terrenos,

Mas para a ceia dos vermes eternos.

A noite te veste com mantos de névoa,

Enquanto o gemido no escuro se eleva;

Violinos de ossos em surda canção,

Dilaceram o peito em sacra aflição.

Nos vales da mente, gélidos e ermos,

Florescem os membros dos sonhos enfermos;

Formas que buscam o gume derradeiro,

Antes que a alma se entregue ao cinzeiro.

Ali rastejam os seres rendidos,

Em leitos de terra, por dentes colhidos;

Carregam nas pupilas a mesma fixação:

O sulco que traz a ressurreição.

O amor transfigura-se em bicho alado,

Não como amante, mas lobo faminto;

Vertigem de membros em nós amarrados,

Onde o deleite é a lâmina do instinto.

Nupcial abraço de mármore e desejo,

Onde a agonia é o mais puro beijo;

O espinho que rasga, a unha que crava,

Na boca que fenece e na carne que lava.

Cada suspiro é um grito distante,

Cada delícia, um estilhaço cortante;

Cada carícia, um flagelo a arder,

Contra as amarras do amanhecer.

A Regente observa dos altos balcões

Os rios escuros das raras paixões;

Não as condena, tampouco as absolve,

No enlace do luto seu corpo se envolve.

Pois toda doçura possui sua ruína,

Todo orgasmo guarda sua guilhotina;

Todo esplendor carrega em segredo

O dente paciente do próprio degredo.

Assim ela canta, serena e cruel,

Enquanto o veneno escorre do mel;

Com a violência de um mito esquecido,

Na força de um vício nunca antes vivido.

Que há beleza naquilo que pende e perece,

No sangue que tépido o chão humedece;

No espasmo final da garganta sem luz,

No abraço de terra que ao nada conduz.

E enquanto o cosmos prossegue a girar,

E os corpos já frios se deixam amar,

Permanece seu cântico, austero e profundo,

Ecoando entre as ruínas do mundo.

Um cântico antigo, de luxo e luar,

Feito para quem ousa escutar

A voz que habita entre o corte e o desvelo,

Entre o abismo, a cinza e o castelo.

E quando o último sopro cessar,

E o céu sobre as lápides se inclinar,

Se ouvirá ainda, além do véu funéreo,

O eco da Noiva sussurrando em Érebo.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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Cianose

Noite após noite, enclausuro-me | como quem naufraga num pélago inefável. | Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento, | estranho ao próprio oceano…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Noite após noite, enclausuro-me
como quem naufraga num pélago inefável.
Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento,
estranho ao próprio oceano —
é a tintura lúgubre da ausência,
um sopro gélido que, em letargia, respira.
Peregrino pelos labirintos da própria mente
como por Dunas Múrmuras a sussurrar epítetos obliterados;
e cada passo soçobra
no lodo de memórias que jamais sorvi.
Há o acre salitre a corroer as ideias,
como se o pranto antecedesse a gênese da carne,
qual se a nostalgia fosse o molde dos meus ossos.
Minha epiderme, por instantes, fulgura
numa bioluminescência pálida e azúlea,
não como farol aos errantes —
mas como delação do vácuo que palpita nas veias.
E, ao tatear a própria forma,
constato o horror:
jaz um abismo intransponível entre a matéria do gesto
e a tradução do sentir.
E, não obstante, persevero.
Roço as falanges na tessitura do silêncio,
desvelando contornos de um invólucro alheio,
qual explorador de um feudo maldito
encravado na própria carne.
Emerge um calor efêmero, de rubro indecente,
que ousa macular a frigidez —
porém, logo se dissolve
num cobalto mais espesso, mais tumular,
como nanquim derramado sobre a eternidade do nada.
Cobiço a mim mesmo
não por enlevo narcísico,
mas pela crônica esterilidade do outro.
Neste conclave solitário,
fundem-se o sagrado e a mais abjeta ruína —
é o beijo mórbido na face de um espelho
cônscio de que o vidro jamais retribuirá.
O cosmo exterior, alheio e ruidoso, teima em existir,
enquanto em meu claustro vigora a maré cativa,
um oceano amordaçado que refuta romper as margens.
Aberrações inomináveis flutuam sob o limo dos meus pensamentos,
letárgicas, silentes,
irradiadas por uma melancolia fosforescente
que esparge sua mágoa sem rogar indulgência.
Sou forjado num anil atávico,
matriz não catalogada nas cartografias d’outrora,
pigmento exilado nas escarpas do tempo.
Carrego no peito a saudade umbrífera
daquilo que jamais chegou a ser,
e que, a despeito de sua irrealidade, me convoca
com a doçura letal de um lar.
Vez ou outra, alucino a fricção de outro corpo —
não como redenção,
mas como puro e brutal contraste tátil.
Epiderme contra epiderme,
a chama mortal contra esta infinitude glacial.
Todavia, até tal delírio
dilui-se em espectros de safira e turquesa mortuária,
e retorno à minha clausura,
eu sempre retorno.
Pois repousa uma lúgubre e mansa paz
na rendição ao próprio abismo.
Já não me debato contra a fúria deste pélago azul.
Consinto que o flúmen me engula,
que me converta em vitral translúcido,
numa quase-não-existência.
Reside o belo naquilo que é perpetuamente manco,
no anseio que ecoa sem jamais tocar o outro,
no corpo que aprende a ser, num só fôlego,
mausoléu e ermo escaldante.
E destarte, cristalizo-me:
nem desperto, nem aniquilado —
apenas suspenso
num azulíneo devorador
que é meu verdugo e minha gênese.
Se lá fora fulgura alguma luz,
seus raios não perfuram minha noite.
E já não os cobiço.
Aprendi a contemplar o breu
de pálpebras seladas,
a palpar a vacuidade
como se fosse carne vívida,
e a idolatrar
— com devoção póstuma —
o silêncio espectral que em mim fez morada.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
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A Partitura de Cânfora e Pó: Um Réquiem em Séttimor

A umidade em São Cipriano das Almas não era meramente climática; era uma saliva antiga, uma exsudação da própria história que lambia as paredes…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A umidade em São Cipriano das Almas não era meramente climática; era uma saliva antiga, uma exsudação da própria história que lambia as paredes do sobrado, fazendo brotar mofo sobre o papel de parede inglês adamascado. O luxo europeu descolava-se como pele necrosada após uma febre tropical.

Eulália Valeriana de Alcântara repousava diante da escrivaninha de jacarandá — madeira de lei, escura e densa como a noite brasileira, cujos pés eram garras de leões entalhadas, cravadas no assoalho que gemia sob o peso do silêncio. Lá fora, a tempestade não caía; ela desabava. A chuva açoitava as telhas coloniais com a violência de um castigo bíblico, uma percussão líquida que tentava, em vão, abafar os sinos da matriz. Eles dobravam, roucos e insistentes, anunciando um óbito que Eulália, em sua névoa mental, não conseguia recordar de quem era.

Ela ajustou a gola de renda negra vitoriana que lhe estrangulava o pescoço, engomada até a rigidez de um osso. O luto era sua segunda derme, uma armadura de tafetá e crinolina, embora a razão das lágrimas lhe escapasse. Sentia o vazio fantasmagórico a corroê-la do âmago à pele, uma sensação vertiginosa de que suas vísceras haviam sido substituídas por neblina fria e pó de marfim.

— Escreve o que a morte sussurra — soprou a intuição perturbadora, uma voz que não vibrava no ar, mas arranhava o interior de sua medula.

Sua mão direita, pálida como a cera de um círio pascal, segurava a pena de ganso. O tinteiro de cristal repousava ali, cheio de um líquido espesso, negro como sangue venoso coagulado ou o café forte esquecido na xícara fria. Eulália, a dama respeitável, a psicógrafa que consolava as matronas do Império, a ponte entre os vivos e os tísicos, estava sozinha. Naquela noite, a casa não abrigava clientes, apenas a respiração asmática da madeira dilatando e a presença daquilo que não tem nome, mas tem cheiro: uma mistura adocicada de gardênias passadas e formol.

A mão ganhou vida própria. Não era a caligrafia desenhada, aristocrática, que as freiras lhe impuseram. Eram espasmos, cortes violentos, fissuras de morte e vida rasgando a fibra do papel.

“Aqui o tempo não passa, Eulália... ele apodrece,” a mão grafou, a tinta espirrando como uma artéria rompida.

Ela tentou parar, mas seus dedos eram marionetes de fios invisíveis. O espiritismo, discutido nos salões afrancesados da Corte, era consolo e ciência. Mas ali, isolada na serrania, cercada pela mata atlântica que engolia civilizações, o espiritismo parecia uma autópsia da alma a céu aberto.

“Olhe para o espelho, Valeriana. O véu de Maya rasgou-se.”

No canto do quarto, o grande espelho oval de moldura dourada repousava, coberto por um lençol de linho branco — a mortalha exigida pela superstição, para evitar que a alma do recém-falecido ficasse presa no azougue do reflexo. O medo silencioso subiu por sua garganta, trazendo um sabor metálico de pregos velhos e terra molhada.

Ela ergueu-se. O som de suas anáguas de seda roçando no chão soou como o suspiro coletivo de mil viúvas em procissão.

— Quem profana este luto? — indagou ela à penumbra.

Os candelabros de prata tremeluziram, projetando sombras que se esticavam nas paredes como espectros famintos, dançando uma valsa muda. Ninguém respondeu. Apenas a chuva e o tique-taque de um relógio que parecia contar segundos de uma eternidade errada. Eulália aproximou-se do espelho. Seus dedos, trêmulos, tocaram a trama fria do linho.

Com um puxão brusco, a mortalha caiu, levantando uma poeira que cheirava a séculos trancados.

Eulália preparou-se para o horror. Esperava ver um demônio de chifres, ou talvez a aparição de seu pai com a mandíbula atada.

Mas o horror foi a ausência. O absoluto e terrível nada.

O espelho refletia o quarto com precisão cirúrgica: a cama de dossel com suas cortinas pesadas, a escrivaninha de jacarandá, a chuva chorando na vidraça. Mas não refletia Eulália.

Onde deveria estar seu corpo, seu vestido negro, seu camafeu de ônix, havia apenas uma mancha turva, uma vibração no ar, como o calor tremulando sobre o asfalto ao meio-dia ou a poeira dançando num raio de lua. Um borrão na realidade.

Ela olhou para suas próprias mãos. Elas estavam lá, segurando o tecido. Ela sentia o tato áspero. Mas o espelho, aquele juiz implacável da existência, decretava sua anulação.

— Eu respiro! Eu sinto! — ela gritou, mas o som saiu abafado, rouco, como se ela gritasse de dentro de um caixão de chumbo, sob sete palmos de terra vermelha e barrenta.

Correu de volta para a carta psicografada, tropeçando na própria inexistência. As letras agora brilhavam com uma umidade fresca, pulsante. Ela leu o veredito final que sua própria mão escrevera, ditada por uma memória que retornava para assombrar, cruel e verdadeira.

“Bem-vinda a Séttimor, minha querida. Onde os mortos vivem sem se lembrar de que o coração parou na última terça-feira de cinzas. Os sinos dobram por ti, Eulália. Tu esperas pelo médico que nunca virá, pois ele já assinou teu óbito. Tu és a assombração que temes. Tu és a memória que se recusa a ir embora, a mancha de umidade que a casa não consegue secar.”

Uma tristeza multiforme, pesada como a lápide de mármore carrara, esmagou seu peito. A lembrança rompeu a represa do esquecimento: o gosto de ferro na boca, a febre tifoide, o padre murmurando a extrema-unção em latim, o cheiro enjoativo de cânfora e cera derretida.

Ela não era a médium. Ela era a mensagem.

Olhou para suas mãos novamente. As pontas dos dedos começavam a ficar translúcidas, a cor da pele dissolvendo-se em cinza, fundindo-se com a névoa que invadia pelas frestas da janela podre. Ela estava se apagando, tornando-se natureza fantasmagórica, diluindo-se na atmosfera de Séttimor.

Sentou-se ao piano Pleyel que dormia no canto, um monstro de madeira e cordas que ela não tocava há meses. Seus dedos, agora quase feitos de fumaça, pousaram sobre as teclas de marfim amarelado.

Ela não tocou para os vivos de São Cipriano das Almas. Tocou para si mesma, um Noturno dissonante, tentando segurar a própria existência em cada acorde menor, ancorando sua alma na música antes que o esquecimento final a transformasse apenas em uma corrente de ar frio no corredor daquele velho casarão brasileiro.

E lá fora, a chuva continuava a lavar o mundo, indiferente à mulher que, nota por nota, desaparecia na partitura eterna do silêncio.

Revisado por Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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O Conto do Corretor de Imóveis: o Diário de Bordo do Demônio

O pergaminho estava manchado de ferrugem e mofo, as bordas esfarelando como casca de árvore antiga, uma relíquia resgatada do fundo de um túmulo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O pergaminho estava manchado de ferrugem e mofo, as bordas esfarelando como casca de árvore antiga, uma relíquia resgatada do fundo de um túmulo úmido ou da sarjeta de algum arquivo esquecido. Atribuído à letra de Jonathan Harker, este texto, no entanto, não constava em nenhuma das edições conhecidas de suas memórias; um fragmento arrancado, talvez, ou censurado pela prudência dos seus editores, que julgaram seu conteúdo demasiado profano ou perturbador para a sensibilidade vitoriana.

O texto inicia-se assim, com a letra trêmula, por vezes quase ilegível, denunciando o tremor febril da mão que o escreveu:

Castelo do Conde Drácula, Noite Sem Lua

Tenho vivido dias que não ouso mais contar em números, pois a contagem se tornou um luxo que a minha mente não pode mais pagar. Não sei se é segunda-feira ou se já se arrasta o oco e frio domingo. Aqui, o tempo não flui; ele é devorado pelas paredes de pedra, digerido no silêncio espectral. A única marca do calendário é a ascensão da lua, que o Conde observa com uma paciência glacial, e as minhas tarefas, que se tornam mais bizarras e exigentes a cada noite que se afunda nas brumas da Transilvânia.

O Conde exige mais de mim. Não mais apenas as escrituras ou os negócios de Hillingham – um pretexto lamentável para me atrair para este calabouço de séculos. Agora, ele me interroga sobre tudo o que Londres esconde em suas entranhas modernas. Ele me esvazia, não de sangue, mas de informação.

Esta noite, fui novamente conduzido à sua biblioteca. Não é apenas vasta; é viva. Seus pilares de madeira escura elevam-se até um teto arqueado, onde sombras dançam, e as estantes se perdem na escuridão, repletas de tomos amarelados e cheiro de adormecimento. Os livros respiram poeira antiga e exalam um ar pesado, de mofo e conhecimento proibido, um aroma que parece alimentar o próprio Conde. A luz de poucas velas, presas em castiçais de prata maciça e retorcida, mal ilumina o centro da mesa, lançando um brilho covarde sobre mapas desdobrados e cadernos de anotações.

— Senhor Harker — disse ele, e a sua voz, grave e ligeiramente anasalada, carregava o som de pedras sendo arrastadas, ou talvez, do gelo quebrado de uma montanha. Ele se aproximou de mim com aquele hálito gélido que parece sorver o calor do ambiente, quase como se fosse uma nevasca localizada, e que parecia apagar a pequena chama das velas.

— Fale-me do vosso mundo. Do vosso... progresso.

Ele não se sentou. Permaneceu de pé, alto e ameaçador, a silhueta projetada pelas velas criando uma figura grotesca e distorcida contra a parede de pedra. Seus olhos brilhavam não como os de um estudante ávido, mas de um predador que fareja a artéria pulsante da modernidade. Havia uma impaciência cruel em sua postura, como um animal enjaulado observando o campo aberto.

Respondi-lhe, tentando manter a compostura, vestindo a máscara da cortesia profissional, embora soubesse que era um corretor de almas, e não de imóveis.

— Vossa Senhoria já possui uma coleção vasta. De que tipo de progresso deseja saber? De arte? De engenharia naval? De... mineração?

Ele sorriu. Um sorriso que não era humano. A linha fina de seus lábios se esticou, revelando uma frieza atemporal.

— Não da arte que é estática, nem dos navios que são lentos. Quero saber das vossas máquinas que falam sem voz. Daquelas que permitem que dois homens separados por milhas se escutem como se estivessem lado a lado, ou que lançam a notícia de um terremoto na Índia sobre uma mesa de café em Fleet Street antes que a terra se acalme.

Percebi, com um horror que gelou a medula dos meus ossos, que ele falava do telefone e do telégrafo. Não era a magia que o assustava, mas a velocidade.

— Sim, Conde. O Telefone. Uma invenção relativamente recente, mas já se espalha pelas cidades, criando uma teia de comunicação que... que encurta distâncias.

— Fascinante — interrompeu ele, a palavra dita com a mesma reverência que se daria a um ritual macabro. Ele passou os dedos longos, cujas unhas pareciam lâminas afiadas e polidas, sobre um atlas aberto, cujas páginas datavam de séculos, como se estivesse tocando um corpo vivo, ou talvez, um mapa de veias.

— Vozes que viajam por fios. Fios que penetram paredes, atravessam ruas, ignoram a escuridão e as fronteiras. Um sistema de veias invisíveis que corre sob a cidade, pulsando com a vida de outros. A própria alma do progresso — e então, ele inclinou-se, o olhar fixo e penetrante. — Um sistema de veias que ninguém vê.

Suas palavras soaram não como uma curiosidade acadêmica, mas como um diagnóstico preciso: não era interesse, era fome. A fome de um ser que depende do isolamento para caçar, e que via o seu campo de caça encolher a cada novo cabo estendido.

Fui obrigado, nas noites seguintes, a desenhar mapas. O Conde me forçava a traçar o labirinto. Usei tinta e carvão para delinear o traçado dos cabos telegráficos que percorriam toda a Europa, atravessando montanhas e mares, para finalmente desembocar no coração de Londres, na central de Holborn. Cada linha era uma artéria que ele desejava cortar, cada estação de retransmissão, um ponto vulnerável.

Mas não era apenas a comunicação.

Mostrei-lhe o labirinto dos esgotos que sustentava a cidade, a infraestrutura complexa que eliminava a sujeira e permitia que a elite esquecesse o subsolo. Mostrei-lhe o metrô, o Underground Railway, aquela serpente de ferro que corria sob os alicerces, vibrando e escavando o ventre de Londres, carregando milhares de almas a velocidades inconcebíveis para a sua época. E o sistema de jornais que, em poucas horas, lançava uma notícia fresa, uma advertência, uma descrição em cada mesa de café e em cada lar, unindo a cidade numa consciência coletiva e instantânea.

Ele absorvia cada detalhe com uma avidez silenciosa e voraz. Era a sua lição de casa. Ele tomava as minhas anotações, copiava-as com sua caligrafia elegante e arcaica, memorizava os nomes das centrais, das estações, dos engenheiros. Ele estava estudando o organismo.

— O vosso Van Helsing — disse ele certa noite, pronunciando o nome como quem mastiga veneno ou uma relíquia sacra. Estávamos na sala principal, onde a luz da lareira criava mais sombras do que calor, e onde ele costumava me reter até as primeiras horas do amanhecer, quando o medo se tornava quase insuportável. — Ele não me teme apenas com cruzes ou estacas. Ele teme a vossa rapidez. A velocidade da palavra.

Ele se levantou, caminhando até a janela, onde a neblina rastejava no pátio exterior.

— Os telegramas que unem caçadores separados. O correio que voa mais rápido que cavalos. Aquele seu telefone que o avisa de uma vítima antes que o sol se ponha. É essa a vossa verdadeira armadura, Harker. A vossa rede.

Seus olhos arderam em um vermelho profundo, a cor de uma brasa na escuridão, e a frieza de sua voz se intensificou, assumindo a solenidade de uma promessa de destruição.

— Para derrotar-vos, devo tornar-me mais veloz que a própria mensagem. Devo me infiltrar no vosso sistema de veias, e drená-lo de vida, de comunicação, de certeza.

Nesse instante, a revelação atingiu-me com a força de um soco no estômago, tirando o pouco ar que ainda me restava. Ele não queria Londres apenas por suas casas senhoriais, nem por suas vítimas, cujos pescoços representavam apenas o combustível necessário para sua travessia. Ele queria Londres por sua rede. Sua trama subterrânea de fios, túneis e informações. Ele planejava um ataque não apenas físico, mas logístico.

Ele era o Demônio, o Corretor de Imóveis, e o maior negócio que ele planejava fechar era a aquisição da infraestrutura do mundo moderno. Ele estava vindo para a civilização, mas não para se esconder nas sombras; estava vindo para aprender a desligá-la.

Mais tarde, encontrei-me sozinho em meu quarto, um pequeno cubículo frio onde a única companhia era o ranger das traves velhas no telhado e o silêncio opressor. Escrevi com o coração em chamas, a pena riscando o pergaminho com uma urgência desesperada. A cada palavra, sentia-me mais próximo da loucura, mas a necessidade de registrar a verdade era mais forte que o instinto de autoconservação.

— Ele não estava aprendendo a viver entre nós. Estava aprendendo a nos desligar. A nos desconectar. A nos isolar, célula por célula.

E assim, termino este registro, sem saber se verei a luz do dia, ou se Londres, minha pátria, minha cidade-máquina pulsante, verá a luz alguma vez mais. Pois temo que, quando Drácula caminhar em nossas ruas — e a ideia me faz sentir náuseas de terror —, não será o sangue que ele drenará primeiro. Será o mundo invisível das conexões que nos mantém unidos, que nos permite gritar por socorro através de milhas, que nos torna um organismo. Ele fará de Londres uma ilha, e então, um deserto de ecos. Ele cortará os fios, e a escuridão será absoluta.

Este fragmento encerra abruptamente, a última palavra distorcida, como se a pena tivesse sido arrancada bruscamente da mão de Harker. Não há continuação. O que resta é apenas o silêncio de uma página em branco, como se as palavras seguintes, o ápice do terror, jamais tivessem conseguido escapar da escuridão para a luz do registro.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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A antiga Mansão Hollengrave não se erguia: ela se impunha, uma massa compacta e sombria de pedras escuras cravada no topo de uma colina…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

A antiga Mansão Hollengrave não se erguia: ela se impunha, uma massa compacta e sombria de pedras escuras cravada no topo de uma colina, como um mausoléu esquecido pelo tempo. A névoa, densa e fria, não subia; ela se arrastava pelo chão como dedos espectrais à procura de algo perdido, envolvendo a estrutura em um sudário úmido. Os vitrais partidos, restos de desenhos góticos de anjos caídos e figuras distorcidas, refletiam a lua em fragmentos de luz doentia. Lá dentro, as abóbadas internas perdiam-se na escuridão, iluminadas apenas por candelabros de prata antiga cujas chamas trêmulas se contorciam, finas e pálidas, como se resistissem à própria existência em um ar tão pesado. O cheiro era de mofo, cera queimada e, subjacente a tudo, um perfume metálico de decadência.

O convite para o Baile de Halloween dos Silenciados chegara com a precisão de um epitáfio. Vinha em um envelope negro de papel áspero, com bordas que pareciam luto, lacrado por uma espessa gota de cera vermelha escura, quase preta. Na parte interna, a caligrafia elegante e sinuosa trazia a única regra e a única senha:

“Somente aqueles que conhecem a noite em silêncio compreenderão o chamado.”

Aaron Melchior — alto, de compleição esguia e ombros tensos sob a casaca de veludo. Seus olhos profundos, de um castanho intenso, estavam sempre em alerta, absorvendo o mundo com uma vigilância que a maioria das pessoas, dependentes do som, jamais conheceria. A perda do sentido era a sua bússola. Ele sentia a vibração no chão, lia a tensão nos músculos e a mudança de ritmo nos corações.

Ao seu lado, Lídia Vessoni era um contraste vibrante. Seu vestido carmesim de seda, que se movia em camadas de véus, parecia ter sido feito de névoa sangrenta, contrastando com sua pele de porcelana. Lídia não apenas vestia a cor; ela a encarnava. Ela se comunicava não apenas com as mãos, mas com todo o corpo: a inclinação da cabeça, a forma como a mão repousava no antebraço de Aaron. Ambos partilhavam a ausência do som desde o nascimento. Não havia palavras articuladas, apenas o silêncio mútuo. Sua comunicação fluía em olhares longos e complexos, em gestos precisos da Linguagem de Sinais (LS) e em uma cumplicidade que tornava cada movimento, cada toque, imediatamente compreensível um para o outro. Eram duas metades de um mesmo silêncio.

Ao atravessarem as portas de carvalho maciço e entrarem no imenso Salão Hollengrave, Aaron sentiu o primeiro arrepio que não vinha do frio da noite. Era a vibração, o detalhe que o fez apertar a mão de Lídia com mais força: todos ali eram como eles. Surdos.

O salão estava repleto. Damas em vestidos sombrios de seda e tule, cujas máscaras cobriam metade do rosto, revelando apenas sorrisos contidos. Cavalheiros de casacas pretas rigidamente abotoadas e máscaras douradas simples, quase sem feições. Eles dançavam.

Dançavam uma valsa invisível. Não havia som, mas o ritmo era palpável. O olhar dos convidados seguia o Maestro, uma figura alta e esguia, envolta em um fraque antiquado, que agitava a batuta com precisão maníaca no palco de ébano. Diante dele, os músicos eram mudos. Seus violinos, violoncelos e harpas estavam posicionados, mas os arcos apenas roçavam o ar, as cordas eram tocadas com a leveza de fantasmas. Não havia música, mas o corpo de cada dançarino seguia o compasso imaginado, uma sinfonia coreografada pelo silêncio.

As paredes, de um verde musgo desbotado, estavam adornadas por espelhos antigos com molduras de bronze corroído. Eram espelhos imperfeitos, que distorciam a luz. Mas havia algo mais perturbador. Aaron percebeu que, em cada reflexo, a imagem parecia sempre atrasada. Um segundo, talvez menos, mas o suficiente para que os convidados reais e suas imagens fossem duplos, presos em outra dimensão de tempo.

Aaron apertou a mão de Lídia. O aperto era um código entre eles. Seus olhos, que se encontraram por um instante sob as luzes trêmulas, sinalizaram o terror: algo não está certo. A mansão não era um simples local de encontro; era uma armadilha de cumplicidade.

De repente, a harmonia perturbadora da valsa silenciosa foi interrompida. Uma convidada – Srta. Majory Darven, com uma máscara de penas pretas que cobria todo o rosto – caiu no meio do salão. O som não existia, mas o impacto visual foi violento. As luzes das velas vacilaram ao mesmo tempo, como se um sopro tivesse percorrido o salão. O corpo de Majory tremeu no chão, uma convulsão silenciosa, como se uma onda de energia percorresse seus ossos. E então… o silêncio continuou, mas seus olhos se arregalaram em desespero puro.

Quando ela se levantou, cambaleando, algo estava dramaticamente diferente: seus gestos, antes elegantes na dança muda, eram agora bruscos, descontrolados, como os de um fantoche cujos fios foram cortados. Ela levou as mãos à cabeça, apertando as têmporas. Ao abrir a boca, um grito sem som deformava-lhe o rosto, um contorcimento de horror mudo que ela não conseguia parar.

— Ela está ouvindo algo… — sinalizou Lídia, suas mãos voando em movimentos rápidos e horrorizados. Sua expressão era de náusea.

Aaron percebeu a progressão do terror. Um a um, os convidados começavam a reagir como Majory. O Sr. Cadwell Ormond, um homem de bigodes finos, pálido como marfim, levou as mãos às orelhas, numa tentativa frenética e instintiva de tapá-las. A Lady Miriam Eckhart, conhecida por sua calma gélida, cambaleou, e lágrimas de sangue começaram a correr-lhe dos olhos, escorrendo sobre o vestido de veludo negro.

Havia uma nova presença no salão. Era invisível, inaudível para Aaron e Lídia, mas era perceptível na forma como o ar parecia vibrar, na tensão dos rostos, e, mais aterrorizante, nos reflexos dos espelhos.

Aaron arrastou Lídia para trás, até um canto escuro, diante de uma tapeçaria puída que representava uma cena de caça macabra. Ele usou a comunicação tátil — uma forma de LS de toque rápido e pressão — escrevendo rapidamente em sua mão, com a ponta do dedo, sentenças curtas e urgentes: Eles. Estão. Ouvindo. O. Que. Nós. Não. Podemos.

E então veio a revelação, tão clara e brutal quanto um golpe físico. Nos espelhos, as versões atrasadas dos convidados não apenas se moviam: eles gritavam. Suas bocas estavam abertas em berros histéricos; eles cobriam os ouvidos com as mãos esqueléticas e imploravam por socorro. Não era mero reflexo. Eram eles, os seres reais, aprisionados em uma dimensão paralela onde o som existia — e onde algo sussurrava, gritava, ou gemia.

— Você vê? — sinalizou Lídia, os olhos fixos em um ponto atrás da confusão. Ela apontou para o Maestro.

O Maestro não estava mais de pé. Estava curvado sobre o pódio. Sua batuta não era mais madeira. Era um osso humano polido, ensanguentado, que ele agitava com uma pulsação sinistra. Sua boca estava aberta, escancarada em uma forma que não era humana, deixando escapar uma sombra líquida, negra e oleosa, que escorria pelo palco.

A sombra subia. Subia pelos corpos dos músicos mudos, deformando-lhes os rostos. Os violinos não tinham cordas. As cordas de seus instrumentos eram seus próprios nervos tensionados, brilhantes e úmidos, vibrando com a presença da Sombra. O Maestro estava conduzindo a dor, orquestrando o tormento auditivo.

Um arrepio gélido percorreu a espinha de Aaron, um medo visceral que ele nunca sentira. Aquilo não era um baile. Era um ritual. O evento não celebrava a ausência de som, mas preparava os surdos para o tormento final: fazê-los ouvir o que jamais deveriam. A Sombra era a encarnação do Som Primordial do Horror.

Um por um, os convidados eram consumidos. A cena era uma tela viva de horror silencioso. Não se ouvia nada, mas via-se tudo: gargantas dilaceradas sem ruído, olhos suplicantes cheios de lágrimas de sangue, bocas abertas em gritos mudos que só os espelhos registravam.

Aaron e Lídia tentaram fugir. Correram para as portas principais, mas elas estavam seladas por correntes grossas que se moviam sozinhas, enrolando-se nas maçanetas com a lentidão de serpentes. As janelas, quando Aaron conseguiu quebrá-las com a base de um candelabro, revelaram apenas mais paredes da própria sala, como se a mansão fosse um labirinto de Mobius, uma gaiola sem saída.

No centro do salão, o coração do ritual, os espelhos começaram a rachar. As fissuras surgiam como teias de aranha negras, e das fendas brotaram mãos negras, esqueléticas, que não eram reflexos, mas tentáculos de uma realidade faminta. Majory foi a primeira a desaparecer. Seu corpo, ainda convulsionando em audição forçada, foi sugado para dentro do vidro pela sua própria versão distorcida, deixando apenas um vestígio do vestido carmesim.

Aaron puxou Lídia com desespero febril para o último ponto de sombra. Mas, ao olhar para o espelho diante de si, ele congelou. Não pela mão, mas pela expressão. Sua versão refletida estava sorrindo. Sorrindo de um modo que ele nunca sorrira: um sorriso de cumplicidade macabra, os olhos vibrando com uma alegria doentia, já contaminado pela Sombra.

— Não olhe! Se concentre em mim! — sinalizou Lídia, seus movimentos eram de puro pânico, tentando chamar a atenção dele, mas já era tarde demais.

A mão espectral do reflexo atravessou o vidro com a facilidade de um fantasma e agarrou Aaron pelo rosto. Ele sentiu a pressão esmagadora e a textura fria da morte.

E então… som.

O mundo explodiu. Não foi um barulho. Foi uma invasão. Um sussurro insuportável, como mil vozes gritando ao mesmo tempo a sua ignorância, a sua insignificância. O som era físico: queimando sua mente, rasgando-lhe o crânio por dentro, o berro da entropia. Era a primeira vez que Aaron ouvia algo — e ele soube, com a certeza fria do destino, que seria a última.

Lídia caiu de joelhos, o chão vibrando com a agonia que ela não podia ouvir, mas podia sentir. Ela viu Aaron ser tragado pelo espelho, seu corpo desaparecendo no vidro líquido. Sua imagem refletida, a versão que havia sorrido, não estava em pânico: ela dançava, leve, ao som de uma melodia inaudível de puro horror.

Quando a última vela no candelabro de prata se apagou, o salão foi engolido pela escuridão total. Restou apenas o silêncio absoluto da Mansão Hollengrave.

O salão estava vazio, exceto pelos espelhos — onde todos ainda dançavam, aprisionados, ouvindo eternamente o que jamais deveriam.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
19ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 19ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de outubro de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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O Fascínio das Sombras: Por Que o Gótico Ainda Nos Seduz em Pleno Século XXI

Em um mundo onde a velocidade e a luz parecem ser a…

Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Em um mundo onde a velocidade e a luz parecem ser a moeda mais valiosa, existe um refúgio para as almas que buscam o contraste, a profundidade e a beleza que floresce no escuro. Falo do universo gótico, um gênero que, mesmo em pleno século XXI, continua a exercer um fascínio inegável sobre leitores e criadores. Para selos editoriais como o Nunca Mais da Editora Castelo Drácula, essa persistência não é apenas uma tendência, mas a prova de uma verdade atemporal: há algo intrinsecamente humano na atração pelo mistério, pela melancolia e pelo sublime horror.

Mas afinal, por que o gótico ainda nos seduz tanto? A resposta reside em sua capacidade de tocar em cordões sensíveis da nossa psique, oferecendo um espelho para medos e anseios que a modernidade tenta, em vão, silenciar.

A Beleza da Imperfeição e da Decadência

O gótico celebra o que está em ruínas, o que se desfaz. Mansões assombradas, igrejas ancestrais e paisagens lúgubres não são apenas cenários; são personagens que respiram histórias de glória perdida e dor acumulada. Em um mundo que busca a perfeição e o novo a todo custo, o gótico nos lembra que há uma beleza singular na imperfeição, na passagem do tempo e na inevitabilidade da decadência. Como afirma o teórico cultural Simon Reynolds, "o gótico nos convida a contemplar a fragilidade da existência e a beleza melancólica da destruição." Essa estética ressoa com a nossa própria finitude, tornando-a menos assustadora e, paradoxalmente, mais bela.

O Mergulho na Psicologia Humana

Muito além dos castelos e fantasmas, o gótico é um profundo estudo da mente humana. Seus personagens frequentemente lidam com a loucura, a obsessão, a culpa e o desejo proibido. A escuridão exterior muitas vezes espelha a turbulência interior, levando o leitor a explorar os recantos mais sombrios da alma. Um estudo publicado no Journal of Popular Culture sobre a popularidade duradoura do gótico sugere que o gênero oferece um espaço seguro para a exploração de emoções complexas e tabus sociais, funcionando como uma válvula de escape para tensões psicológicas. É nesse mergulho psicológico que reside a verdadeira força do gênero, permitindo-nos confrontar nossos próprios demônios de uma forma segura e catártica. O selo Nunca Mais, ao buscar "almas condenadas" e "lirismo lúgubre", entende que a profundidade emocional é a essência do gênero.

O Romance Sombrio e o Sobrenatural

O gótico nos oferece um tipo de romance diferente: intenso, muitas vezes trágico, permeado por segredos e paixões proibidas. Não é o amor idealizado, mas a atração pelas sombras, a conexão com o que é tabu. Unido a isso, a presença do sobrenatural – fantasmas, vampiros, criaturas da noite – não é apenas para causar susto, mas para questionar os limites da realidade e da existência. Como pontua a pesquisadora de literatura gótica Catherine Spooner em sua obra "Contemporary Gothic", o sobrenatural no gótico serve frequentemente como uma metáfora para forças sociais e psicológicas que estão além do controle humano, aumentando a sensação de desamparo e fascínio. Esses elementos fantásticos servem como metáforas para os medos e as tentações humanas, adicionando uma camada extra de mistério e fascínio.

Uma Contracultura que Resiste ao Tempo

O gótico, em suas diversas manifestações culturais (literatura, música, moda), sempre funcionou como uma contracultura, um espaço para o diferente, o marginalizado, o incompreendido. Em uma sociedade que valoriza a conformidade, o gótico é um convite à individualidade, à expressão da melancolia e à aceitação do lado sombrio da vida. Pesquisas sobre comunidades góticas, como as de Paul Hodkinson ("Goth: Identity, Style and Subculture"), demonstram que a subcultura gótica oferece um senso de pertencimento e uma identidade alternativa para aqueles que se sentem deslocados da norma social. Para a Editora Castelo Drácula e seu selo Nunca Mais, isso significa um público fiel e apaixonado, que encontra nas obras um eco de suas próprias sensibilidades e um lugar para pertencer.

O selo Nunca Mais não apenas publica obras góticas; ele celebra uma filosofia de vida. É um tributo aos "poetas mortos e seus legados", um reconhecimento de que as verdades mais profundas muitas vezes são encontradas nas sombras. Continuar investindo nesse universo é garantir que a chama do gótico permaneça acesa, iluminando os caminhos para aqueles que encontram beleza na melancolia e poesia na penumbra.

Referências

  • Hodkinson, Paul. (2002). Goth: Identity, Style and Subculture. Berg Publishers.

  • Reynolds, Simon. (Diversas obras). As reflexões de Simon Reynolds sobre contracultura e subculturas frequentemente abordam aspectos da estética gótica e seu impacto na cultura popular.

  • Spooner, Catherine. (2017). Contemporary Gothic. Reaktion Books.

  • Journal of Popular Culture. (2018). Diversos artigos sobre a cultura gótica e sua resiliência podem ser encontrados em volumes recentes do Journal of Popular Culture, que frequentemente explora a permanência de gêneros e subculturas ao longo do tempo.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem. » instagram do autor
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O Último Blackwood e a Sombra de Lilith

Sete. O número ecoava no sótão empoeirado, onde a luz morria antes de alcançar os recantos mais profundos. Sete batidas secas do relógio de…

Imagem criada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Sete. O número ecoava no sótão empoeirado, onde a luz morria antes de alcançar os recantos mais profundos. Sete batidas secas do relógio de pêndulo, cada uma um prego enferrujado fincado no caixão da esperança. Não que houvesse muita esperança por ali. A velha mansão dos Blackwood era um monumento à decadência, suas janelas como olhos vazios fitando a noite eterna que parecia ter se enraizado em seus alicerces.

E eu, Alaric, o último dos Blackwood, era um mero apêndice, um espectro que perambulava por corredores infestados de ecos. Meus dias eram preenchidos com o sussurro de vozes que nunca existiram, o farfalhar de sedas fantasmas e o som distante de um piano que ninguém tocava. Meu único consolo, se é que se pode chamar assim, era a coleção de livros proibidos, volumes encadernados em pele humana e tinta de sangue, que meu pai, em sua loucura final, reuniu no pequeno escritório trancado.

Foi numa noite como tantas outras, quando a lua se escondia atrás de um véu de nuvens pesadas e o vento uivava como um cão faminto, que o selo se quebrou. Não um selo físico, mas a barreira tênue entre o que era e o que deveria ter permanecido esquecido. Eu lia um tomo empoeirado, suas páginas amareladas cheirando a mofo e morte, quando um nome saltou aos meus olhos, gravado em uma caligrafia serpentina: Lilith.

O nome vibrou no ar, uma nota dissonante na sinfonia silenciosa da casa. Uma imagem se formou em minha mente: uma mulher etérea, com cabelos cor de ébano e olhos tão profundos quanto os abismos do inferno, envolta em um véu de mistério e perdição. Lilith. A rainha da noite, a primeira tentação, a sombra que persegue os sonhos dos homens.

Minha respiração engasgou na garganta. Eu conhecia o mito, as lendas sussurradas em cantos escuros. Mas aquilo... aquilo não era uma lenda. Era uma evocação. Meu pai, em sua busca insana por conhecimento, havia ido longe demais. Ele não apenas lera sobre as entidades que habitavam o limiar da realidade; ele as convocara.

Com um arrepio que me percorreu a espinha, percebi que o silêncio da casa não era mais o silêncio da ausência, mas o silêncio da observação. A escuridão não era mais apenas a ausência de luz, mas uma presença palpável, respirando em meu pescoço.

As sombras dançaram nas paredes, projetando formas grotescas que se retorciam e se contorciam, como almas condenadas. O cheiro de rosas murchas e terra revolvida invadiu o ar, misturando-se ao odor metálico de sangue antigo. E então, ouvi-a. Não uma voz audível, mas um sussurro que se infiltrava em minha mente, ecoando meus pensamentos mais sombrios, os segredos que eu guardava de mim mesmo.

— Alaric... — ela sibilou, e o som era como o farfalhar de asas de morcego em um sepulcro. — Você me chamou. Eu vim.

Meus olhos se fixaram na porta do escritório, que agora estava entreaberta, revelando uma escuridão ainda mais densa em seu interior. De lá, emergiu uma figura. Não a etérea Lilith de minha imaginação, mas algo muito mais antigo e terrível. Uma silhueta esguia, envolta em um manto que parecia feito da própria noite, seus olhos brilhando como brasas no inferno.

Ela não caminhava; ela deslizava, como uma nuvem de fumaça, em direção a mim. O ar ao seu redor parecia vibrar com uma energia profana, e o frio que emanava dela era tão intenso que parecia queimar minha pele.

— O que você deseja, Alaric Blackwood? — sua voz, agora mais clara, era um cântico fúnebre, sedutor e letal. — A vida que você conhece está morrendo. Eu posso oferecer outra. Um reino onde as sombras reinam supremas, onde a dor é êxtase e a eternidade é um fardo a ser carregado.

Eu recuei, meus pés enraizados no chão empoeirado, um terror gélido me paralisando. Eu havia brincado com o desconhecido, e agora o desconhecido estava ali, em minha sala, me oferecendo uma escolha que eu não queria fazer.

O silêncio voltou, denso e pesado, enquanto ela aguardava minha resposta. O relógio de pêndulo, lá no sótão, batia a oitava hora. Cada batida, um passo dela em minha direção. Cada batida, uma porta se fechando para o mundo que eu conhecia.

A mansão Blackwood nunca mais seria a mesma. E eu, Alaric, sabia que meu destino estava selado. Nas profundezas daquela noite sem fim, eu estava prestes a descobrir o verdadeiro significado de "nunca mais".

O que você acha que Alaric fará? Ele aceitará a oferta de Lilith ou tentará resistir à escuridão que o cerca?

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem.
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A Melodia dos Sepulcros Esquecidos

A bruma gélida da manhã engolia a vila de Oakhaven, transformando as poucas casas em fantasmas cinzentos e o velho cemitério em um mar…

Imagem criada por Aslam E. Ramallo para o Castelo Drácula

A bruma gélida da manhã engolia a vila de Oakhaven, transformando as poucas casas em fantasmas cinzentos e o velho cemitério em um mar de lápides disformes. Eu, Ângela Thorne, não pertencia a Oakhaven, nem a lugar algum, na verdade. Minha existência era um eco da própria melancolia que parecia impregnar o ar daquele lugar. Cheguei como um corvo desgarrado, atraída pelo anúncio de uma velha organista que procurava alguém para restaurar o ancestral órgão da igreja local – uma relíquia de carvalho negro e metal enferrujado que, diziam, possuía uma alma própria.

A Reverenda Agnes era uma criatura miúda e envelhecida, seus olhos, contudo, brilhavam com uma luz estranha e persistente, como velas acesas em um túmulo. Sua paróquia, a Igreja de Santa Cecília, era um esqueleto gótico, suas gárgulas observando o tempo com expressões pétreas, suas janelas ogivais escurecidas pelo abandono. O órgão, situado no coro, era o coração pulsante daquele lugar moribundo, um monstro silencioso coberto por um manto de pó e teias de aranha.

Os dias se arrastavam em um ritmo cadenciado pelo tic-tac do relógio da torre, que parecia anunciar a cada batida o fim iminente. Meu trabalho era árduo. Cada peça de madeira, cada tubo de metal, parecia sussurrar segredos antigos, melodias há muito esquecidas. À noite, quando a Reverenda Agnes se recolhia e a vila mergulhava em um silêncio sepulcral, eu sentia a presença. Não era um fantasma, nem um espírito no sentido convencional, mas algo mais sutil, mais antigo. Era a memória da música.

Comecei a ouvir as notas. No princípio, eram apenas fragmentos, murmúrios distantes, como lamentos vindos do solo frio do cemitério adjacente. Mas à medida que o órgão ganhava vida sob meus dedos, as notas se tornavam mais claras, mais definidas. Eram composições que jamais ouvi, harmonias que me envolviam em um véu de tristeza e êxtase.

Uma noite, enquanto limpava as teclas de ébano, encontrei um diário escondido em um compartimento secreto do instrumento. As páginas amareladas, escritas com uma caligrafia elegante e tremida, contavam a história de Elara, a antiga organista da igreja, que vivera no século XVIII. Elara era uma prodígia, mas sua música carregava um tom sombrio, uma obsessão pela morte e pelo luto. O diário revelava que ela acreditava que a música podia transcender o véu da vida e da morte, comunicando-se com os que jaziam sob a terra.

Lá pelas últimas páginas, um desenho me causou um arrepio. Não era uma partitura, mas um diagrama complexo de conexões, quase um mapa estelar, com anotações sobre "ressonâncias etéreas" e "pontos de contato com o véu". E em uma das páginas finais, uma frase repetida várias vezes, com urgência crescente: "A melodia deve ser completa. A melodia deve ser cantada pelos mortos."

Naquela noite, a bruma era mais espessa, o vento mais cortante. As vozes do órgão não eram mais sussurros; eram um coro. Vozes femininas e masculinas, jovens e antigas, lamentando, cantando, e implorando. Senti uma força inexplicável me puxar para o teclado. Meus dedos, como se não fossem meus, começaram a tocar a melodia do diagrama de Elara. As notas fluíram, preenchendo a igreja com um som que era ao mesmo tempo belo e terrivelmente profano.

O chão tremeu. As luzes da igreja cintilaram e se apagaram, mergulhando-me na escuridão mais densa. Mas a música continuou, as vozes dos sepulcros se elevando em um crescendo aterrorizante. Senti as presenças se materializarem ao meu redor, frias e efêmeras. Eram os mortos de Oakhaven, despertados pela melodia que Elara sonhara em completar.

Um deles, uma figura esguia e pálida, se aproximou. Pude ver seus olhos vazios, mas senti sua intenção, uma gratidão sombria. Era Elara. Ela estendeu a mão translúcida em minha direção, um convite silencioso para me juntar à sua orquestra eterna.

O frio me invadiu, e eu soube que não havia retorno. Eu era a condutora da melodia dos sepulcros, a guardiã de um coro que jamais deveria ter sido despertado. O último som que ouvi antes que a escuridão me engolisse completamente foi o do órgão, agora tocando sozinho, uma melodia lúgubre que se espalhava pela noite, prometendo um "nunca mais" para todos que ousassem ouvir.

Revisão de Sahra Melihssa

Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Reallyme nasceu em 1995, em Governador Valadares, e escreve como quem atravessa véus entre mundos. Autor de poesias, romances, suspenses, terrores, ficções científicas e HQs, espalhou suas criações por antologias nacionais e internacionais, além de comandar o podcast Pingo de Prosa e ser finalista do Prêmio Literário Caneta Vip. Colunista da Genius Vip Revista e curador de Horrores de um Brasil Esquecido, inspira-se em nomes como Pessoa, Poe, Lovecraft, Cecília Meireles e García Márquez, criando narrativas densas e sensoriais que revelam, nos detalhes, o que olhos comuns não percebem.
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