Necrose

Quando a noite sepulta o horizonte sem luz, | E o zênite em luto ao abismo conduz, | Ante o pálido horror deste céu cinzento, | Eu me rendo ao…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando a noite sepulta o horizonte sem luz,

E o zênite em luto ao abismo conduz,

Ante o pálido horror deste céu cinzento,

Eu me rendo ao rigor do pior isolamento.

Não o vago silêncio de antigos altares,

Onde o tempo desfaz os mortais relicários,

Mas a mudez que habitava a primeira amplidão,

Antes que o Caos gerasse a primeira ilusão.

Eis-me aqui, átomo só, poeira esquecida,

Náufrago cego nas margens da vida.

Penso até que a razão se transforme em veneno,

A sondar o mistério deste arco terreno.

Que arcano se esconde na cúpula escura?

Que traço desenha tamanha negrura?

As perguntas despertam qual hera sombria,

Sufocando o saber em total agonia.

O teto do mundo é um vasto jazigo,

Onde cada planeta pulsa em castigo;

Não há brilho sutil nas estrelas distantes,

São piras de mortos, faróis vacilantes.

E na névoa sutil da matéria oculta,

Uma força sem nome o cosmos sepulta;

Monarca espectral que governa o enigma,

Deixando no espaço o seu negro estigma.

A angústia regressa com passos de chumbo,

Cobrindo de trevas o meu próprio rumo.

Existir é fitar o declínio da mente,

Sem asas que salvem o corpo decadente.

Sou mente, fagulha, frágil claridade,

Fissura efêmera na imensidade;

Condenado ao tormento do eterno inquirir,

Enquanto as estrelas se deixam ruir.

O éter se cala, nenhuma voz desce,

Nenhum deus escuta tamanha prece.

No centro de tudo, domina o vazio,

Monótono, imenso, soberbo e sombrio.

Não há julgamento, clemência ou rancor,

Apenas o vácuo em seu gélido horror;

Se a morte desenha os seus tristes contornos,

O nada desfaz nossos corpos já mornos.

Retorno ao degredo, ao cerne do tédio,

Onde a alma padece sem cura ou remédio;

Ali permaneço, fantasma de outrora,

À espera do fim que a matéria devora.

Escuto o rumor desse abismo trancado,

Qual réprobo mudo ante o templo sagrado:

Sabendo que o véu nunca há de ceder,

Mas preso ao limiar do que não posso ver.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Os Simulacros da Noite e a Sentença do Sono

I | É um erro crer | que o sono abriga algum refúgio. | Deitar-se na escuridão | é depor as insígnias da vontade, | é entregar a alma, | desarmada, trêmula…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

I

É um erro crer
que o sono abriga algum refúgio.
Deitar-se na escuridão
é depor as insígnias da vontade,
é entregar a alma,
desarmada, trêmula e pálida,
ao império absoluto
dos espectros e da febre. 

Havia uma razão severa
nas antigas advertências
que proibiam o espelho
defronte ao leito de agonia;
os velhos sábios sabiam
que o repouso é nossa maior indigência,
o instante em que o corpo
ensanguentado se faz vulnerável. 

Expor-se ao cristal
é convidar o infinito e o túmulo
a devorarem, gole a gole,
a nossa substância. 

É então que sobe muda a paralisia,
aquele gélido torpor
de tísica e de luto,
onde o sangue congela nas veias
feito o vinho nos cálices esquecidos
e o tempo se transforma
em um peso sufocante sobre o peito.

Vêm as emoções noturnas
sobre a imensidão que esmaga,
o pessimismo existencial
que desperta nas horas mortas,
enquanto a mente se perde
em aflições sobre o nada absoluto,
indagando, em vão,
sobre o abismo insondável do ser. 

Nestas paragens sombrias
e malditas de Agonihria,
os tormentos da mente
não se desfazem com o amanhecer;
antes, fragmentam-se
como agulhas invisíveis de um delírio,
perfurando a barreira
que separa o tédio da vigília. 

Tudo se tinge em tons de púrpura,
estímulos sensoriais ligados ao escuro,
onde coisas e seres
de beleza extraordinária
revelam sua essência agônica. 

É a contemplação dolorosa
da matéria escura que tudo envolve,
a agonia muda e visceral
por não poder desvendar o universo
em seu mistério mais sombrio.

II 

O infeliz que desperta deste transe
não retorna à segurança;
Traz nos lábios
o gosto amargo de terra,
a alma exausta de sonhos
e pesadelos angustiantes,
descobrindo que o chão
da realidade desperta
foi contaminado pelo veneno
de um estado psicológico martirizante. 

Olhai, pois,
para o interior daquele abismo.
Ali reside o morador do reflexo,
o fantasma da alcova,
ostentando um riso medonho,
satânico e cadavérico,
com olhos vazios que fitam
a própria eternidade do horror.

Ele não ri por alegria
sua face tem a rigidez da morte,
mas pelo excesso de um suplício
que desafia a linguagem. 

Quão fatal é o impulso
daquele que, tomado de pavor,
golpeia o vidro
na vã tentativa de sepultar a aparição;
quebrar o espelho
é o caminho mais rápido para a perdição. 

A imagem não morre:
se multiplica em mil sarcófagos.
Cada diminuto estilhaço
espalhado pelo chão do quarto
converte-se em um novo olho
vítreo que vigia;
cada fração de vidro reproduz
o mesmo riso imóvel e infame. 

Não são necessários séculos
de martírio para que a alma capitule;
basta uma breve semana
de uma vigília corrompida,
entre o ópio, a loucura
e o espectro de uma virgem morta,
para que o suntuoso edifício da razão
desabe em ruínas. 

A demência ou a própria morte
seriam cortesias divinas,
pois o flagelo definitivo
deste labirinto
não é o repouso na sepultura:
— onde as flores murcham em paz,
mas a condenação
de permanecer perfeitamente lúcido,
exilado para sempre
no avesso daquele cristal partido.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Liturgia da Noite

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante, | e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante, | eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Quando a tarde morre sangrando no horizonte distante,
e o crepúsculo veste o céu de luto agonizante,
eu caminho entre os túmulos da memória esquecida,
carregando em meu peito a sombra da tua partida. 

A noite abre seus braços como uma mãe silenciosa,
coroada por estrelas numa tristeza formosa,
e eu, pobre peregrino de um destino sem calor,
faço da escuridão o altar do meu amor. 

Há um canto entre as sombras que somente eu conheço,
onde os ventos da saudade rezam sem endereço,
ali deposito os sonhos que jamais pude viver,
flores negras de esperança que se recusam a morrer. 

Eu te amei como a lua ama o mar adormecido,
como um castelo em ruínas ama o tempo consumido,
eu te amei como a chuva ama o bosque outonal,
num desejo sem retorno, num suplício espectral. 

Teu nome era um incenso pelas trevas espalhado,
um fantasma luminoso sobre o mundo abandonado,
e cada noite sem tua presença junto à minha
era uma cruz carregada por uma alma que definha. 

Quantas vezes contemplei a madrugada vazia,
vendo a dor fazer morada onde antes havia alegria,
quantas vezes a lembrança, como um corvo sepulcral,
veio pousar sobre os restos do meu sonho ancestral. 

As estrelas pareciam olhos frios a vigiar
o lento naufrágio da esperança perdida no luar,
e a lua, velha sacerdotisa das tristezas sem fim,
derramava sua prata sobre os desertos em mim. 

Então compreendi o segredo que a noite escondia:
toda lágrima guardava uma secreta alquimia,
pois a dor, quando profunda, como um rio subterrâneo,
escava dentro da alma um reino vasto e arcano. 

Foi quando o amor surgiu entre os escombros do sofrer,
como uma rosa impossível voltando a florescer,
não um amor de incêndios nem de febre passageira,
mas um farol aceso contra a tormenta derradeira. 

Veio suave como um hino que atravessa a eternidade,
como um anjo fatigado retornando à claridade,
e tocou minhas feridas com um gesto tão sereno
que transformou o meu inverno num pesadelo ameno. 

Desde então a escuridão continua a me chamar,
e ainda ouço as velhas mágoas sussurrando ao luar,
mas já não sou o espectro que vagava sem destino,
pois carrego dentro do peito um fogo clandestino. 

A noite segue sendo minha amante e confidente,
o espelho onde contemplo minha alma decadente,
mas onde antes reinava o abandono sepulcral,
ergue-se agora um sonho sereno e imortal. 

E se um dia o tempo vier fechar meus olhos cansados,
e eu repousar entre os mortos, pelos séculos velados,
que escrevam sobre minha lápide, em letras de esplendor: 

"Aqui dorme um homem triste,
salvo pela noite e redimido pelo amor."


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Agonihria-Égloga

No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece, | Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora; | A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No pélago purpúreo, o riso dos insensatos fenece,

Bête e ignorant, sob o teto de um gesso que chora;

A névoa de violeta opaco, que o tempo devora,

 É o manto de l'appel du vide que a carne adoece.

Ao avesso do reflexo elétrico,

As pupilas duplicadas no vinco da crassa cortina,

Vigilantes, perscrutam o avesso do próprio espelho;

O rádio antigo de ébano sussurra um conselho,

enquanto o vantanegrume dos céus nos assassina.

O Criador... ah, mon Dieu, é vurmo que a terra consome,

Um pesadelo estático, moldado em gélido gesso,

onde o sonho é o carrasco e a vida é o avesso.

Regardez: a vigésima segunda badalada consome

O silêncio paralisante que a mente tateia...

Olhai bem o escuro, antes que ele vos teça na teia.

 

Na paralisia do reverso espelhado o tácito lamento estilhaça a noite

escutai o nó da corda que range no teto vitoriano,

Onde o peito esperançoso sufoca em seu próprio frenesi;

A boca aberta em puro horror, gélida, no leito profano,

Enquanto a noite de Agonihria sussurra: "Eu sempre estive aqui".

Regardez a tela purpúrea: o corvo assiste ao duplo que se dedobra,

 Um sorriso vazio, le grand néant, que emerge do vidro do espelho;

Não há reflexo da carne, apenas a sombra de uma antiga cobra,

Que dita à alma deserdada um derradeiro e maldito conselho.

A paralisia é o palco onde a ilusão e o real se entrelaçam em fita,

Sete dias de azar? Não, sete eras de uma mente que grita,

Condenada ao limbo, à luxúria da dor, ao sadismo do gesso.

 

O parasita do trauma agora dança no quarto,

 veste o teu nome, Mon Dieu,

furei minhas retinas e o absoluto nada me consome...

O espelho ri, a cortina fecha, e o despertar é o próprio avesso.

 

O rádio do subconsciente 

antigo no canto do quarto continua a chiares,

tocando uma melodia de trás para frente

com um ruído triste e sangrento

 A mulher na cama não sabe se acordou

ou se o homem do espelho finalmente atravessou a moldura que o devora...

 

Ne regardez pas en arrière.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Solilóquio da Matéria Escura

Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina | É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca. | Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Apaga-te, archote! Pois a tua luz pequenina
É mera ofensa à vastidão augusta que nos cerca.
Esta carne, este lodo moldado em orgulho e sopro,
Rasteja sob o teto de um templo calado e cego.
Olho para o firmamento, essa tapeçaria de breu purpura,
E que vejo? O Nada. O vácuo que engole os impérios,
Que desdenha dos reis e ri-se do saber dos homens. 

Ó, teia invisível! Tecido de matéria escura,
Que sustentas as estrelas como joias na agonia,
Tu és o grande segredo que nenhum fidalgo decifra.
Bato às portas do infinito com punhos de poeira;
Rogo por uma resposta, um som, um estalo de voz,
Mas o universo guarda seu mistério como um avaro
Que esconde o ouro nas galerias mais profundas do caos. 

Minha alma é um mar revolto em noite de tempestade.
A aflição me corrói as entranhas, pois sou o átomo
Que ousa julgar a imensidão que o esmaga.
Quem somos nós, senão pensamentos febris da terra?
Um breve espasmo de consciência entre duas eternidades
De silêncio absoluto e sombras irrevogáveis. 

O abismo do ser... eis a vertigem que me paralisa!
Caminho à beira desta razão que já desaba,
Tateando o contorno de Deus na arquitetura do vácuo.
Mas não há face. Não há traço. Há apenas o frio,
Um manto soberano de mistério denso e sombrio
Que zomba dos meus astrolábios e da minha heresia. 

Quisera eu ser a pedra, ou o ferro que não cogita,
Pois pensar é herdar o tormento de um exílio eterno.
A noite avança, a matéria escura me devora o peito,
E o universo, essa esfinge de ébano e silêncio,
Cerra suas pálpebras cósmicas sobre o meu desespero,
Deixando-me a sós com o horror... de não ser nada.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Tanatose

Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora, | Onde a carne estrangula as estátuas da memória; | Onde o mármore ferve em rubro e profundo,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Canta, ó Primeira Sombra, nos jardins sem aurora,

Onde a carne estrangula as estátuas da memória;

Onde o mármore ferve em rubro e profundo,

E os relógios apodrecem no ventre do mundo.

Teu hálito desliza nas naves vazias,

Como incenso sombrio de antigas liturgias;

Teu riso ressoa nas torres do abismo,

Misto de espasmo, de parto e cataclismo.

Ó Soberana dos véus e das peles feridas,

Que destilas o gozo dos restos de vidas;

Não para a glória dos tronos terrenos,

Mas para a ceia dos vermes eternos.

A noite te veste com mantos de névoa,

Enquanto o gemido no escuro se eleva;

Violinos de ossos em surda canção,

Dilaceram o peito em sacra aflição.

Nos vales da mente, gélidos e ermos,

Florescem os membros dos sonhos enfermos;

Formas que buscam o gume derradeiro,

Antes que a alma se entregue ao cinzeiro.

Ali rastejam os seres rendidos,

Em leitos de terra, por dentes colhidos;

Carregam nas pupilas a mesma fixação:

O sulco que traz a ressurreição.

O amor transfigura-se em bicho alado,

Não como amante, mas lobo faminto;

Vertigem de membros em nós amarrados,

Onde o deleite é a lâmina do instinto.

Nupcial abraço de mármore e desejo,

Onde a agonia é o mais puro beijo;

O espinho que rasga, a unha que crava,

Na boca que fenece e na carne que lava.

Cada suspiro é um grito distante,

Cada delícia, um estilhaço cortante;

Cada carícia, um flagelo a arder,

Contra as amarras do amanhecer.

A Regente observa dos altos balcões

Os rios escuros das raras paixões;

Não as condena, tampouco as absolve,

No enlace do luto seu corpo se envolve.

Pois toda doçura possui sua ruína,

Todo orgasmo guarda sua guilhotina;

Todo esplendor carrega em segredo

O dente paciente do próprio degredo.

Assim ela canta, serena e cruel,

Enquanto o veneno escorre do mel;

Com a violência de um mito esquecido,

Na força de um vício nunca antes vivido.

Que há beleza naquilo que pende e perece,

No sangue que tépido o chão humedece;

No espasmo final da garganta sem luz,

No abraço de terra que ao nada conduz.

E enquanto o cosmos prossegue a girar,

E os corpos já frios se deixam amar,

Permanece seu cântico, austero e profundo,

Ecoando entre as ruínas do mundo.

Um cântico antigo, de luxo e luar,

Feito para quem ousa escutar

A voz que habita entre o corte e o desvelo,

Entre o abismo, a cinza e o castelo.

E quando o último sopro cessar,

E o céu sobre as lápides se inclinar,

Se ouvirá ainda, além do véu funéreo,

O eco da Noiva sussurrando em Érebo.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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À Procura da Dama Noturna

Já amei. | E talvez seja esta a maldição mais antiga | de todas as criaturas que atravessam os séculos: | não a morte, | não a solidão, | não a lenta erosão…

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Já amei.

E talvez seja esta a maldição mais antiga
de todas as criaturas que atravessam os séculos:
não a morte,
não a solidão,
não a lenta erosão dos nomes,

mas a lembrança.

Os rostos passam como estações,
as cidades apodrecem sob novas arquiteturas,
impérios tornam-se notas de rodapé,
e até os juramentos mais ardentes
acabam dissolvidos na saliva do tempo.

Ainda assim,
há algo em mim que persiste.

Uma fome.

Não a fome do sangue,
como diriam os velhos contos,
mas a fome de uma presença.

Desejo uma mulher
como quem procura uma estrela desaparecida
há milhares de anos,
sabendo que sua luz ainda atravessa a escuridão.

Não a desejo perfeita.

A perfeição pertence às estátuas
e aos cadáveres.

Desejo-a viva,
contraditória,
capaz de esconder tempestades
sob um olhar aparentemente sereno.

Talvez tenha os cabelos negros
como uma noite que se recusa a amanhecer.
Talvez a pele guarde a palidez delicada
das criaturas que preferem a companhia da lua.
Talvez os olhos,
escuros e insondáveis,
carreguem mais perguntas do que respostas.

Não desejo uma santa.

As santas pertencem aos altares,
e os altares sempre me pareceram
solitários demais.

Desejo uma mulher
que compreenda a beleza das ruínas,
que veja poesia onde os outros veem defeito,
que não peça desculpas
por sua própria escuridão.

Uma mulher que saiba
que a melancolia não é doença,
mas uma forma de contemplação.

Que compreenda
que nem toda tristeza deseja ser curada.

Os tempos modernos,
tão orgulhosos de sua virtude,
ensinaram as pessoas a temer o abismo.
Transformaram mistério em problema,
silêncio em falha,
profundidade em excentricidade.

Mas eu continuo a acreditar
que há certa beleza
naquilo que não se deixa domesticar.

Por isso a desejo.

Entre multidões iluminadas por telas,
entre discursos apressados,
entre rostos que se repetem
como reflexos de um mesmo espelho partido.

Desejo aquela
que ainda conserve algo de indizível.

Aquela cuja beleza não termine na superfície,
mas continue para dentro,
como um corredor sem fim
em um castelo abandonado.

E se algum dia a encontrar,
não lhe oferecerei promessas eternas.

Os séculos ensinaram-me
a desconfiar das eternidades.

Oferecerei apenas a noite.

Uma noite longa,
silenciosa,
perfumada por livros antigos,
vinho escuro
e pensamentos proibidos.

E talvez,
enquanto o mundo dorme
sonhando com suas pequenas certezas,
nós possamos contemplar juntos
a estranha beleza de existir

como duas criaturas noturnas,

para além da moral dos homens.


Escrito por:
Weslley Cunha

Weslley Cunha é um escritor cuja obra mergulha nas profundezas da existência humana e nos labirintos da mente, explorando temas que dialogam com a filosofia existencial e fenomenológica e psicanálise. Graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Ciências da Linguagem, ele combina seu conhecimento acadêmico com uma sensibilidade única para a narrativa. Suas paixões literárias incluem a investigação das fronteiras entre o real e o imaginário... » leia mais
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Hexagrama

Ouço a voz do teu próprio hexagrama | Sussurrar a mensagem profanada; | Gemidos soltos de quem muito ama | Nos meus olhos fizeram sua morada…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Ouço a voz do teu próprio hexagrama
Sussurrar a mensagem profanada;
Gemidos soltos de quem muito ama
Nos meus olhos fizeram sua morada. 

Se deslizo em ti a minha chama,
Queimando a libido angustiada,
Tecerei a alegria da tua xana
Neste céu que escolheste por morada. 

Contorces de prazer e tu derramas
Teu mel nessa boca alucinada...
Serpenteio o teu átrio de cigana.

Eis o arcano das vagas madrugadas,
Que desvela a essência castellana:
Infiro em teu corpo essas jornadas.


Escrito por:
Carlos Conrado

Carlos Conrado nasceu na Bahia e hoje vive em São Paulo. Suas formações estão em Designer, Publicidade e Psicanálise. Escritor, ilustrador e poeta, um amante do soturno inspirado em grandes nomes, os quais: Álvares de Azevedo, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Baudelaire, entre outros. Identifica-se, portanto, “como um ‘neo simbolista’, colocando o cosmos como meu principal tema de expressão”. Seu livro “Os Segredos da Maçã” está disponível... » leia mais
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Lugar

Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo. | Sou todas as mulheres e o amor que geraram | Bêbado da cachaça…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Neste lugar que é a escritura, perco a identidade do meu próprio corpo.

Sou todas as mulheres e o amor que geraram

Bêbado da cachaça e a ressaca do verão

Vertido em leituras que fiz a vida inteira e ainda as que me restam. Esses mortos me atordoam e os passo ao papel no momento em que sofro de paixão e angústia.

O escritor apenas repete sem originalidade todas as maldições que aprendeu.

Sinto que você tem medo de desejar profundamente e te escrevo no papel vazio

Sou tragado, rasurado e posto a nu, suscetível a uma avalanche de outras ideias

Sinto o amor e escrevo a dor

Sou ultrarromântico e quero morrer, sou um revolucionário e quero volver o futuro em fúria

É nesse campo aberto da folha que a vida rasura o poeta

Rascunha caminhos

E quando me lerem desejo que cada palavra toque em absurdo, porque serão as palavras de um morto.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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Reles

Eu sou um reles | não mereço nem desprezo | O desespero foi minh'única companhia | Me deixando ímpar no enfado deste inóspito…

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Eu sou um reles
não mereço nem desprezo
O desespero foi minh'única companhia
Me deixando ímpar no enfado deste inóspito
Eu sou um reles, como muitos que rastejam
Somente a poeira faz do meu caminho desvio
A lama do caos como um encosto se lambuzou de mim
Pesou sobre a carcaça
Me transformou em destroço 

Até mesmo a vontade de se suicidar largou este enfermo
Sem nem sucesso para o fracasso

Eu sou reles,
Nem para a morte eu sirvo
O amor fez esquina longe de mim
E nem calçada passa em frente daquilo que o céu afastou de abrigo
Até o túmulo é esquivo
A cova é rasa porque só se deve perder tempo com profundezas da alma
Nem os urubus se alteram

A paixão quando jovem chegou em mim a partir dos olhos d'água noturna de uma gata
Mas só a mentira do desejo fez par comigo 

Hoje, nem a mentira perde seu tempo com a desilusão da minh'alma 

E sem vida continuo.... reles


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
Agonihria - 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 22ª Antologia Digital do Castelo Drácula®, datada de junho de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a publicação completa

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Cantos de Magöhorror

As almas e as sombras, na noite aprisionadas, | Pela frígida névoa de Magöhorror, | Em marfins retorcidos, já desgastados, | Seguem o fluxo lento de antigo horror;…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Canto I

As almas e as sombras, na noite aprisionadas,
Pela frígida névoa de Magöhorror,
Em marfins retorcidos, já desgastados,
Seguem o fluxo lento de antigo horror;
Onde o anil turvo, por laços consagrados,
Une vida e morte em torvo esplendor;
Canto a saga em versos sombrios e graves,
De almas zumbis em seus cânticos suaves.

 Canto II

Vede o rio, que d’além do tempo emana,
Bioluminescente em brilho azulescido,
Sua essência que a razão humana engana,
Como um saber arcano já esquecido;
Onde a fauna e a flora em forma insana
No terror mórbido surgem despidos;
Entre brilhos metálicos e aridez fosca,
Enquanto a própria vida se torna grotesca. 

Canto III

Nas flores surgem rostos pareidólicos,
Dos olhos verte sangue em vão lamento,
Em versos que ecoam, quase bucólicos,
No vento frio que sopra sofrimento;
Criaturas outrora belas e melancólicas,
Perdem ao rio espectral seu alento;
Mortas ou vivas vagam no fundo,
Bioluminescência a guiar novo mundo. 

Canto IV

Dunas Múrmuras, de areia e de pavor,
Sopram ventos que contam contos de dor,
Fábulas mortas, sem traço de amor,
Sob noite azúlea em frígido calor;
No Oásis Vil surge encanto traiçoeiro,
Atraindo as almas por falso roteiro;
Onde sede e fome se encontram famintas,
Entre criaturas das sombras distintas. 

Canto V

Jardins de Olga, de viridário mágico,
Sensíflora estranha que o horror replica,
Cercam o alcácer em destino trágico,
Onde o Castelo Drácula se fortifica;
Pinheiros tremem em rastro nostálgico,
Gritos de arbustos que o sono prejudica;
Enquanto o azul da morte paira no ar,
E a decadência começa a reinar. 

Canto VI

Vede os zumbis, de pele já rachada,
Sangue negrume estagnado nas veias,
Sua existência é triste jornada,
Entre solidões nadificantes teias;
Saem dos túmulos em marcha penada,
Por instinto vagam nas noites alheias;
Tentam amar com coração inerte,
Enquanto o diabo em riso se diverte. 

Canto VII

Bebem seus próprios prantos em lamento,
Sonham sem dormir em eterno tormento,
Atraídos por sombras no barlavento,
Memórias do que não foi em esquecimento;
A vida em Magöhorror segue escura,
Na bioluminescência da noite impura;
Grãos de existência no vento lançada,
Como poeira na noite estrelada.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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O Vazio em estática

Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue | A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim, | e o som não é música…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Um oráculo perfura a bolha de um arco-íris de sangue
A tinta de cádmio que tintila espuma derretendo sobre o tapete de veludo carmesim,
e o som não é música, mas o rastro de um inseto gigante rastejando por dentro do piano de cauda na sinfonia de uma porta com uma língua com cabelo,
Ébrio, múmia alquimia de carne, és que é tal eclipse doente,
O Réquiem não começa na aurora sangrenta, ele se desdobra como uma pele velha.

O relógio na parede tem mãos de dedos humanos e eles apontam para o ontem.
Tic. Tac. O sangue é mercúrio gelado e lágrima de uísque passado,
Eu vejo o meu próprio rosto no fundo de uma xícara de café preto,
mas meus olhos são botões de osso costurados por uma aranha que canta ópera.
"Onde está o corpo?", a cortina pergunta na geometria do luto,
A cortina não tem boca, mas ela range como dentes de porcelana.

O silêncio é um cubo de vidro quebrado no estômago.
Uma palavra que pesa como o chumbo de mil sinos enterrados.
As paredes da sala começam a respirar, rítmicas, sangrando, melado,
expandindo o papel de parede até que as flores impressas
virem bocas abertas gritando o nome de um santo que nunca nasceu.
"A eletricidade é o fantasma da matéria," diz o anão que dança ao contrário.
E ri histérico, se arranhando inteiro até apagar, apagar o É da atmosfera,
Ele segura uma lâmpada que emite escuridão. Átimo-fera.
O carvão de Xangõ, a vela-fruto de mamãe Oxum.
Epicentro da escuridão, cicatriz-moradia,
o Réquiem é um rádio sintonizado entre as estações da pós-vida. 

O teto desaba em pétalas de carne crua.
Eu sou uma antena de nervos expostos captando o sinal do abismo.
A memória é um filme em 16mm queimando no projetor da retina.
O cheiro de ozônio e jasmim.
A missa dos mortos é celebrada por manequins de cera que derretem sob o sol da meia-noite. 

Ondas de radiofrequências de soluços.
Texturas sanguíneo-veludo sobre lixa.
Moedas de cobre debaixo da língua.
A cortina fecha.
Mas eu ainda estou lá dentro.
Nós todos estamos.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Entrega

O fim sempre volta | retorna sem medo, sem aviso, sem prazo. | Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado | que pede pausa…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O fim sempre volta
retorna sem medo, sem aviso, sem prazo.
Tempo que come, rói e degenera cada mínima célula de meu corpo cansado
que pede pausa, pede ar.
Não sinto mais do pouco controle que pensava ter pelo fluxo sanguíneo irregular
que transpassa cada frágil parede dos capilares que me formam.
Já fui melhor, ao menos acredita, mais centrado, olhar que alcançava longe;
hoje, penso apenas no agora, na existência que se estende ao amanhã, não sei,
se chego. Se quero. Se tento. Se espero.
E quando o frio me consome, o tremor das pontas dos frágeis,
o peito que aperta com pulmões que não encontram o ar, coração compensa,
tenta compensar,
mas há batimento que alcance ou coloque fim em toda dor,
nos cheiros que me levam até aquele lugar,
a que brilhava e queria me cegar,
eu queria me cegar,
as pessoas, sons que penetravam tais como alfinetes agudos,
rompendo os tímpanos cansados,
esgotados,
era como eu sobrevivia,
não sei como.
Agora, penso no tempo, em como me limpar,
enxergar um longe tão longe,
que não tenho mais unhas para alcançar.
Quero o descanso,
o silêncio que vem com a entrega,
a interrupção da dor,
o cessar do medo;
quieto, calado, vida ao redor,
entrego.


Escrito por:
Luiz E. Tassini

Luiz Tassini é mineiro, de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo. É apaixonado por horror, suspense e sci fi. Já escreveu de poemas a crônicas, foi colunista em blogs e, atualmente, se aventura nos contos. Participou de diversas antologias, em diferentes editoras. Produz conteúdo sobre Horror no @eitaquehorror, no Instagram. Trabalha também com revisão, preparação e revisão de textos, tradução e leitura crítica. É pai de dois meninos, uma gata, uma cachorra, é marido e veterinário. » leia mais...
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Inverno Azul

o dia nasce em tons de um azul morto | um azul que não encanta
que não vibra | que não promete nada…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

o dia nasce em tons de um azul morto
um azul que não encanta
que não vibra
que não promete nada

é o azul das veias cansadas
das manhãs que não chegam a ser manhãs
um frio que não toca a nossa pele
mas mora em nossos ossos

existe um vento
não daqueles que derrubam árvores
mas um sopro mais suave
que atravessa nosso espírito
como uma lâmina afiada

ele carrega o vazio
esse antigo companheiro
que se senta ao nosso lado
e jamais pede licença

os relógios continuam
fiéis carcereiros do nada
marcando segundos que escorrem
como água turva por mãos trêmulas

e tudo é azul
o céu, os olhos
as paredes e a alma

um azul profundo demais
para ser esperança
claro demais para ser noite

um intervalo
um quase
um erro de existência 

caminhamos por corredores
onde as portas levam sempre
para o mesmo quarto vazio

e lá dentro
há apenas lembranças
do que já fomos
ou talvez nunca fomos

e o frio cresce
ele se aninha nas palavras que jamais foram ditas
nas despedidas que não aconteceram
nos abraços que imaginamos
que jamais ousaram existir

é um frio paciente
quase belo
como uma catedral abandonada
onde o azul dos vitrais
já não iluminam o interior 

e permanecemos
respirando esse ar frio
como se houvesse sentido
como se o vazio fosse suficiente

e talvez seja
talvez sejamos somente isso:
carne habitada por um inverno azulado
tentando fugir do calor
enquanto lentamente
nos tornamos parte dele.


Escrito por:
Cláudio Borba

Residente de Dom Pedrito/RS, Cláudio Borba formou-se em Contabilidade e escreve contos de terror e poemas geralmente melancólicos. Ele faz parte de diversas antologias de contos e poéticas de diversas editoras. E atualmente trabalha para lançar seus livros de contos e poemas. Cláudio se inspira em Stephen King e Clive Barker em seus contos, e é um grande fã de Bukowski. A escrita do autor é direta, rápida e de fácil leitura... » leia mais
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Cianose

Noite após noite, enclausuro-me | como quem naufraga num pélago inefável. | Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento, | estranho ao próprio oceano…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Noite após noite, enclausuro-me
como quem naufraga num pélago inefável.
Há em mim um cerúleo alheio ao firmamento,
estranho ao próprio oceano —
é a tintura lúgubre da ausência,
um sopro gélido que, em letargia, respira.
Peregrino pelos labirintos da própria mente
como por Dunas Múrmuras a sussurrar epítetos obliterados;
e cada passo soçobra
no lodo de memórias que jamais sorvi.
Há o acre salitre a corroer as ideias,
como se o pranto antecedesse a gênese da carne,
qual se a nostalgia fosse o molde dos meus ossos.
Minha epiderme, por instantes, fulgura
numa bioluminescência pálida e azúlea,
não como farol aos errantes —
mas como delação do vácuo que palpita nas veias.
E, ao tatear a própria forma,
constato o horror:
jaz um abismo intransponível entre a matéria do gesto
e a tradução do sentir.
E, não obstante, persevero.
Roço as falanges na tessitura do silêncio,
desvelando contornos de um invólucro alheio,
qual explorador de um feudo maldito
encravado na própria carne.
Emerge um calor efêmero, de rubro indecente,
que ousa macular a frigidez —
porém, logo se dissolve
num cobalto mais espesso, mais tumular,
como nanquim derramado sobre a eternidade do nada.
Cobiço a mim mesmo
não por enlevo narcísico,
mas pela crônica esterilidade do outro.
Neste conclave solitário,
fundem-se o sagrado e a mais abjeta ruína —
é o beijo mórbido na face de um espelho
cônscio de que o vidro jamais retribuirá.
O cosmo exterior, alheio e ruidoso, teima em existir,
enquanto em meu claustro vigora a maré cativa,
um oceano amordaçado que refuta romper as margens.
Aberrações inomináveis flutuam sob o limo dos meus pensamentos,
letárgicas, silentes,
irradiadas por uma melancolia fosforescente
que esparge sua mágoa sem rogar indulgência.
Sou forjado num anil atávico,
matriz não catalogada nas cartografias d’outrora,
pigmento exilado nas escarpas do tempo.
Carrego no peito a saudade umbrífera
daquilo que jamais chegou a ser,
e que, a despeito de sua irrealidade, me convoca
com a doçura letal de um lar.
Vez ou outra, alucino a fricção de outro corpo —
não como redenção,
mas como puro e brutal contraste tátil.
Epiderme contra epiderme,
a chama mortal contra esta infinitude glacial.
Todavia, até tal delírio
dilui-se em espectros de safira e turquesa mortuária,
e retorno à minha clausura,
eu sempre retorno.
Pois repousa uma lúgubre e mansa paz
na rendição ao próprio abismo.
Já não me debato contra a fúria deste pélago azul.
Consinto que o flúmen me engula,
que me converta em vitral translúcido,
numa quase-não-existência.
Reside o belo naquilo que é perpetuamente manco,
no anseio que ecoa sem jamais tocar o outro,
no corpo que aprende a ser, num só fôlego,
mausoléu e ermo escaldante.
E destarte, cristalizo-me:
nem desperto, nem aniquilado —
apenas suspenso
num azulíneo devorador
que é meu verdugo e minha gênese.
Se lá fora fulgura alguma luz,
seus raios não perfuram minha noite.
E já não os cobiço.
Aprendi a contemplar o breu
de pálpebras seladas,
a palpar a vacuidade
como se fosse carne vívida,
e a idolatrar
— com devoção póstuma —
o silêncio espectral que em mim fez morada.


Escrito por:
Bruno Reallyme

Bruno Silva, conhecido como Bruno Reallyme, é um escritor com deficiência visual que encontrou na escrita a extensão de seu olhar sobre o mundo. Com formação em Ciências Econômicas, Contábeis e Gestão, ele navega por diversos gêneros, como poesia, romance, suspense e terror. Sua escrita busca a autenticidade e a identidade profunda do "reallyme" — "realmente eu" —, revelando em cada palavra um universo sensível, crítico e apaixonado por narrativas. » leia mais...
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Cianeto

No altar, em júbilo | Trajada em seda negra | Espero sob os olhos divinos | Brilhantes e perversos | A catedral silenciosa | Iluminada pela Lua…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

No altar, em júbilo
Trajada em seda negra
Espero sob os olhos divinos
Brilhantes e perversos

A catedral silenciosa
Iluminada pela Lua
Vitrais tremeluzem fantasmagóricos
Velas derramam descontentes

Os pés na pedra fria
A noite é minha cúmplice
Renuncio o ânimo
Clamando em devoção febril

Coberta pelo véu
Murmuro votos eternos
Entrego meu coração
Em matrimônio à morte

Bebo da taça profanada
O toque álgido em minha pele
Sinto seu beijo morrediço
Lábios azuis pálidos


Escrito por:
Lilium Batista

Lilium Batista é escritora, poetisa, ilustradora, capista premiada, mãe e nerd, é fascinada por ficção científica desde a infância. Apaixonada por Star Wars e pelo universo de J.R.R. Tolkien, suas obras também carregam as influências sombrias e visionárias de Ridley Scott, H.P. Lovecraft, Alan Moore e Stephen King. Escreve desde os 10 anos, mas começou a publicar em 2024 e, desde então, já conta com 17 obras publicadas. Sua escrita transita entre a ciência e a fantasia, sempre com um olhar curioso, sensível e provocador sobre o desconhecido... » leia mais
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Baskhiat

o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra | Nas brumas onde o tempo em dor se inclina, | Ergueu-se a lâmina e lamento; | Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

o Réquiem de Sual’Ra não começa — ele se desdobra
Nas brumas onde o tempo em dor se inclina,
Ergueu-se a lâmina e lamento;
Filha do raio, à sina peregrina de Kjaarnheim.
Bebeu do abismo o próprio sofrimento.

Do morto mar de lágrimas salinas,
Colheu verdades de um viver cruento;
Nem luz divina às trevas se destina,
Nem morte basta ao vão contentamento. 

Ceifou piedades, deu à dor morada,
ao ver nos mortos súplica tardia,
Fez da própria alma a forja condenada.
Mas quando a entidade do pulso oferecia,
Perdeu-se em tudo — e em nada foi ferida,
Pois no fim da ruína, enfim, nascia. 

No ermo azul de um mundo em agonia,
Caminha a filha do trovão calada;
Traz nos olhos a dor que não fugia,
Nem na lâmina outrora consagrada. 

Viu nos mortos a súplica tardia,
Não por sangue — mas paz jamais lograda;
E ao negar-lhes a chama que os feria,
Fez da dor sua fé mais lapidada. 

Contra o sol que em trevas se erguia,
Não brandiu só aço, mas a memória
Do pranto que em silêncio a consumia. 

Ao ver ruir-se o ciclo e sua glória,
Perdeu-se a si — mas, nessa travessia,
Fez do próprio vazio sua vitória. 

Sob céus de aço e um sol em febre imunda,
Vagou a filha do trovão sem nome;
Trazia em si a dor que não se afunda,
Mas se refaz no abismo que a consome. 

Nos vales onde a morte em pranto inunda,
Viu almas cujo anseio era sua fome:
Não por viver — mas pela paz as circunda,
No esquecimento que ao nada as consome. 

Ergueu a mão — não para dar-lhes morte,
Mas para impor à dor sua medida,
Negando ao fim seu mórbido consorte. 

Quanto ao Deus ofertou-te sua vida,
Perdeu-se além do tempo e de seu norte
Mas fez da perda a gênese da lida.


Escrito por:
Marcos Mancini

Marcos Mancini é um escritor, artista e criador cujo trabalho transcende as fronteiras da literatura convencional, mergulhando nas profundezas da psique humana e explorando as complexidades da condição existencial. Sua obra reflete uma busca incessante por significado, através de uma escrita visceral que combina poesia, filosofia e uma rica variedade de estilos literários... » leia mais
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Seu Calor Cruel

O azulescer | transbordou em meu peito  | O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou | A voz invisível | Escapa pela cicatriz da minha pele | E meu coração grita…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

O azulescer
transbordou em meu peito 

O eco da minh’alma
Preenche o vazio que deixou 

A voz invisível
Escapa pela cicatriz da minha pele 

E meu coração grita
Ecoando no vazio da minh’alma 

Exigindo o calor
Que pode me matar 

O conforto do sol
Em seu abraço 

Os dois queimando minha pele
E me matando um pouco, toda vez


Escrito por:
Caellum Noctis

Caellum Noctis nasceu com uma missão: desbravar o mundo através da palavra. Ele não escreve amores trágicos e finais infelizes por opção, mas por obrigação, para tirar uma ferida da alma e transferi-lo para o papel. Sua jornada começou nos poemas, único refúgio para seus sentimentos. Porém, os versos logo se tornaram insuficientes. A dor exigia mais espaço. Foi assim que Caellum partiu para os contos e a criação de mundos inteiros, para os quais agora escapa quando a realidade aperta. Escrever, para ele, não é um passatempo: é uma fuga necessária, uma forma de respirar.... » leia mais
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O Clamor dos Filhos da Noite

Vede agora os que têm sede de sangue, | Não da água salina ou da doce corrente, | Mas do carmesim puro que a luxúria condena; | Estes possuem, em seus mortos peitos,…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Vede agora os que têm sede de sangue,
Não da água salina ou da doce corrente,
Mas do carmesim puro que a luxúria condena;
Estes possuem, em seus mortos peitos,
Algo além do saudosismo da vida humana:
Um clamor masoquista, um culto ao impossível,
Ídolos de sombra que a luz seduz e fere,
Vampiros que emergem sob o azulíneo

Impedidos de serem tocados pelo Sol,
Pelas próprias fantasias são julgados;
Desejos oprimidos que jamais revelam,
Seres das trevas que o dia bendizem;
Pois o que vale a imortalidade fria
Diante do aquecer do Astro inigualável?
O Sol, vilão senciente, o alvo do desejo,
Destrói a escuridão que lhes serve de berço. 

Nas margens do Magöhorror eles se prostram,
Banhados pelo brilho que a água esparge,
Buscando no reflexo a quentura do ouro
Que em suas peles seria o fim absoluto.
É a nostalgia do que jamais lhes pertencera,
O blues melancólico de uma noite frígida,
Onde o brilho de um outrora inalcançável
Torna a eternidade um fardo pesado. 

Se o azulíneo da morte é o palco eterno,
Onde zumbis bebem o próprio pranto,
O vampiro é o verso de um sonho invertido:
Ama o carrasco que o reduz a cinzas.
Assim se desvela o existir em Irihria,
Entre a bioluminescência da efemeridade
E a busca da luz que, ao mesmo tempo,
É a suprema cura e a morte derradeira.


Escrito por:
Marcolongo Ricardo

Ricardo Marcolongo Melo (MARCOLONGO Ricardo) nasceu em Suzano, São Paulo, e desde cedo aprendeu a olhar o mundo pelas frestas. Formado em Sociologia, Antropologia e Ciência Política, e atualmente bacharelando em Direito, encontrou na escrita a forma de transformar silêncio em linguagem e inquietude em criação… » leia mais...
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Efêmero Corpo em Transformação

Nódoa fria de rebento | Tenaz escuro | Olhando para o breu, vi-me entre o silêncio e o passado | E eis que em mim habitam vozes outras dos meus contatos…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Nódoa fria de rebento
Tenaz escuro
Olhando para o breu, vi-me entre o silêncio e o passado
E eis que em mim habitam vozes outras dos meus contatos
Serás aquilo que vos passa!
O que fica não quer ir embora nem amadurece frondoso como os sentimentos
O que nos passa é como gozo que jorra esperma
O que nos atrapalha fica e nos pesa
O passageiro nos atrai o olhar a seguir
E caminhamos sem saber para onde
Talvez nas histórias incertas, inventadas, passadiças
O que nos passa é desejo de ser
O que fica fez-se corpo
E, na sua forma, esbarra quando eu de mim quero atravessar no silêncio e me despir
O que transborda é como correnteza
Como os espasmos sexuais das mãos assanhadas na masturbação
A fluidez dos corpos sem’iguais
Como o rio de suor sem hora marcada
Passam a dor, o amor, o tesão
Passam-se, doendo, amando, crepitando
Como se fossem chamas
Peitos na cara, o membro atento
E gemidos que custam a dor e a fome de saciar-se ou morrer
O que fica são as marcas passadas
As nódoas das lembranças
Aquilo que fui quando podia, sonhava, fumava, fodia...
Mal lembro de tudo que fui nesses momentos
Mas isso passa.


Escrito por:
Tiago Serigy

Tiago Serigy é amante de filmes, pinturas e desenhos, músicas, além das letras, tem escrito sonetos (mais de 100), prosa poética e versos livres ao longo de mais de uma década, também tem um compilado de contos eróticos e crônicas. Uma fonte que jorra palavras para reinterpretar a brevidade da vida na tentativa de “não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure”. É uma pessoa... » leia mais
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