⚜ Pálida Seda: Parte 1 | História Morlírica em Capítulos

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Capítulo I:
Retorne à tua matriz, besta pervurme¹!
Jamais vi coisa atroz como este horror!
E como a Trama ousara te compor?
Afronta à Vida! Monstro de chorume!

Um mórbido crocitar grotesco rompera minha plácida solidão. Meu torso fora tomado por súbita gelidez e espargia-se, no mesmo instante, certo tipo de som em baixa frequência como zumbido contínuo. Segurei minha adaga — foi meu único movimento possível. Um violino ríspido ressoou sobre o zunido; minha tez arrepiara-se e meu sangue, pálido e álgido, tornara esquálido, quase translúcido, meu semblante atormentado.

De repente, eu já estava na Trama. Olhei para os lados, em desespero. Buscava, respirando ofegante, a seda de sangue dentre o emaranhado — ela sempre estava lá, gotejando, agonizando aquele que, perdido, clamava por libertação. Entretanto, ser algum se desvelava e carmim algum salientava-se na imensidão de palor. Tão só lamentava em meu cerne a única, e medonha, sensação: eu estava sendo observada.

Célere, entornou sobre mim um odor pútrido de morte. Senti-me sufocada. Elevei meu olhar: sedas de betume vibravam. Incontáveis. Gotejando gosma preta pegajosa e fétida. Quando vi, todo o zumbido fez silêncio. Oco e mefítico silêncio. Sussurros emergiram no ouvido esquerdo, murmúrios esfuziaram no ouvido direito. Respiração. Medo. Dali, daquelas artérias negras oscilantes, uma criatura terrífica se fez vista, avançando rapidamente sobre mim. Ela tinha corpo humanoide; todavia, seu rosto era feito de carne viva e exibia só única e imensa cavidade bucal com incontáveis presas retorcidas. Pústulas marcavam-lhe todo o corpo esguio, e suas centenas de membros pareciam-me um amálgama deplorável de tendões com decomposto tecido adiposo.

Almejei a fuga imediata, mas não há como correr quando se é sorvida pela Trama. Alcei minha adaga e amputei a primeira seda de piche. A criatura grunhiu como um porco do mais profundo inferno. Meus tímpanos sentiram dor agônica. Rescindi outra seda feita de pez repugnante — evidentemente eram sedas contaminadas, decerto pertenciam a outros seres; porém, nada havia a ser feito senão rompê-las, e era preciso extrema velocidade, pois se alastravam em minha direção.

Voltei-me à criatura, resistindo ao betume obstinado a extrair-me de minha seda vital; contudo, antes que eu fosse amargamente tragada por aquela morbígera besta, visualizei a distensa seda vital que a pertencia. E esse era o momento mais importante; eu acabaria com aquilo.

Avancei sob o açoite de um pavor ancestral, desviando-me da criatura, e toquei a sua seda vital como se dedilhasse harpa sublime, fazendo-a vibrar em oitavas profundas, fortificando-a. A seda, longíssima linha perfeitamente tecida, reluzira de imediato em lume argênteo que fustigava a nívea neblina da Trama, engrossando-se em vestal luminura. Era magnífico e ressonante. Rasguei, abrupta, mais três sedas corrompidas pelo invólucro de enegrecido muco, elas vieram, sorrateiras, me coagir enquanto eu tocava a seda vital da besta. A coisa esbravejava a cada corte e todos eles liberavam irroração negra que fedia a vísceras expostas.

Isso foi o bastante, dando-lhe a libertação final. A abominação nefanda, entretanto, ainda logrou um último fôlego de malícia: rasgou-me o vestido com suas presas aduncas, sulcando a derme em rasgo obsceno que expunha a alvura das costelas; o fluido vital borbulhou com escuma negrume, violentando a palidez do meu sangue com estigma de dor lancinante; mas, no instante seguinte, a besta foi chicoteada para longe, tragada pela força da sua própria seda vital, retesada e fortificada pelo meu toque. Ao destruir os fios de betume que mantinham a criatura na Trama, a seda vital pôde puxá-la de volta ao lugar que a pertencia, semelhante ao mecanismo de estilingue.

A Trama desvaneceu-se em estalido seco, como vidro quebrado. Vi dissipar-se a sua pálida névoa. A quietude natural de sua constituição, por fim, pousou-me de volta à minha morada. Encontrei-me turva no silêncio, sentada à mesma mesa de outrora; o vapor do quente chá de pétalas de Vaeöllen ainda se rarefazia preguiçoso à minha frente, ignorante ao horror que me precedera. Contudo, o tremor em minhas mãos não era ilusório: o vestido rasgado, a dor pungente do corte na costela; e a substância estígia, apodrecida, que ainda sibilava estridulante sobre a lâmina da minha adaga — eram estas as inequívocas e atrozes provas de que a Trama demandava minha proteção, e de que este meu fado, irrevogável, exigir-me-ia dedicação perpétua, ainda que ao custo de minha própria vida.

Glossário da autora:
¹Pervurme: de caráter asqueroso, perverso, repugnante. Palavras inspiradas: perversão, verme, vurmo.

Pálida Seda
A Trama é a verdade por detrás da interface: um emaranhado de seda pálida que vincula tudo o que existe à algo de insondável nomear. Nuhria Scehlartt nasceu destinada a proteger este âmago da realidade e esteve sempre consciente de sua missão, ainda que não tivesse total compreensão de seu significado. Após ser tragada por um imenso coração de intrusiva seda negrume e escarlate — as mesmas que continuamente Nuhria destrói para proteger a Trama, indagações e medos passam a afetá-la, impedindo-a de seguir o seu destino e forçando-a a ultrapassar seus limites. Um enredo de terror, horror, drama, melancolia e poder, do mesmo universo de "Histórias de Sihren" e "As Crônicas do Castelo Drácula". » Leia todos os capítulos (em breve).

Escrito por:
Sahra Melihssa

Escritora e Poetisa, formada em Psicologia Fenomenológica Existencial e autora dos livros “Sonetos Múrmuros” e “Sete Abismos”. Sou Anfitriã do projeto Castelo Drácula e minha literatura é rara, excêntrica e inigualável. Meu vocábulo é lapidado, minha literatura é lânguida e mágica, dedico-me à escrita há mais de 20 anos e denomino-a “Morlírica”. Na alcova de meu erotismo, exploro o frenesi da dor e do prazer, do amor e da melancolia; envolvendo meus leitores em um imersivo deleite — apaixonada pelo tema, criei Lasciven para publicar autores que compartilham dessa paixão. No túmulo de meus escritos, desvelo um terror, horror e mistério ímpares, cheios de profundidade psicológica e de poética absurda — é como uma valsa com a morte. Ler-me é uma experiência, uma vivência para além da leitura em si mesma; e eu te convido a se permitir fascinar. » saiba mais...
21ª Edição: Revista Castelo Drácula®
Esta obra foi publicada e registrada na 21ª Edição da Revista Castelo Drácula®, datada de abril de 2026. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula®. Todos os direitos reservados ©. » Visite a Edição completa

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